sábado, 14 de fevereiro de 2026

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 3º PARTE

Certa vez, um paciente disse que a esposa surgiu na sala pedindo ajuda para cortar uma unha encravada que estava doendo muito. Ele não gostou do pedido por duas razões: sentia aflição ao ter que lidar com feridas, e no instante do pedido ele estava assistindo futebol. Porém, mesmo contrariado, atendeu o pedido da esposa. Afinal, quando uma esposa pede algo só há uma coisa a se fazer...

– Atender o pedido dela – antecipou o paciente – mesmo se for a final do seu time.

– Exatamente! O homem que é casado por mais de 24 horas sabe desse fato…, pelo menos foi o que garantiu esse paciente.

– Esposa atendida significa casamento feliz, doutor – ele achou o próprio comentário engraçado, mas foi um misto de graça por conta do absurdo e choque pela constatação da realidade.

– Enfim…, – fiz menção por dar segmento ao relato, para não haver risco de desviarmos o assunto – enquanto mexia com o alicate no dedo da mulher, repousado em sua perna, esse paciente disse ter fixado a atenção em algo que, até aquele dia, considerava banal: o pezinho delicado dela. E após algum tempo admirando, concluiu que estava diante do pé mais lindo que já havia visto na vida.

Fiz uma pausa proposital. Queria ver o que as feições do paciente revelavam. Notei certo desassossego, mas não saberia identificar o motivo. Contudo, ele não disse nada.

– Esse homem disse que naquela noite, os dois transaram incrivelmente, como não acontecia há anos. Contou-me que havia se apaixonado de novo pela esposa, graças à contemplação de um pé que ele havia ignorado a vida toda.

Outra pausa para ruminar ideias.

– Minha esposa tem pés horrorosos, doutor – disse ele, olhando-me meio decepcionado – são compridos e esqueléticos. Já ouvi falar de caras que têm fetiche por pés, mas acho que não funcionaria comigo.

– Não é sobre isso.

– Então por que me contou essa história?

– Esqueça os pés, esse não é o elemento principal do relato – e eu achando que ele havia captado a mensagem – O que há de interessante nesse caso é que aquele paciente, de modo involuntário, notou algo que esteve o tempo inteiro ali, diante de seus olhos, sem que jamais houvesse dado atenção.

– Quer que eu dê mais atenção à minha mulher?

– Não exatamente a ela, mas aos pequenos detalhes. Observe com mais atenção, olhe ao redor para coisas que ela faz, como ela manuseia objetos, suas manias, trejeitos..., toda a admiração que sentimos se perde quando paramos de notar o que está em nosso entorno. Isso é deletério em todos os sentidos. Estou falando do “lugar comum”, esse estado em no qual apenas existimos, sem que se perceba os detalhes do que acontece…, quando se está inserido no paraíso, o hábito nos força a deixar de notá-lo.

– Não conhece minha esposa, doutor. Ela é meio neurótica, acho que não vai reagir muito bem se eu ficar lhe bisbilhotando pela casa.

– Não é esse tipo de observação vigilante. Precisa ser sutil com o olhar. Quando ela falar com você, preste atenção nos olhos, veja como mexe a boca, repare o pescoço dela..., detalhes. E se acaso algo lhe chamar a atenção, não hesite em elogiar.

– É que as vezes a gente não se lembra de praticar essas coisas, doutor – ele esfregou as duas mãos no comprimento das pernas, como se o simples pensamento sobre aquelas dicas já o esgotasse – Quando chego em casa, geralmente estou cansado do trabalho.

– Ocorre que tudo na vida é uma questão de prioridade – falei, enquanto lutava interiormente para evitar a manifestação de um suspiro de pesar – Se o seu casamento não é prioridade hoje, continuará chegando exausto do trabalho e talvez sua vida conjugal continue como está…, pelo menos por mais algum tempo.

– Está insinuando que devo trabalhar menos?

– Não estou insinuando nada. O que disse foi que tudo na vida é uma questão de prioridade. Se o trabalho hoje é sua prioridade, possivelmente está dando menos atenção a outras áreas da sua vida. Disse noutra sessão, que é um homem estabilizado financeiramente e que já tem patrimônio garantido pelo resto de seus dias.

– Ocorre que outras pessoas também dependem do que faço.

– Isso é nobre de sua parte..., mas por que você continua trabalhando tanto?

– Sou dono de uma empresa com capital de doze milhões de reais, doutor – homens como esse paciente costumam depositar muito ego em suas posições no trabalho. O discurso era de vitimismo, mas na verdade, não era difícil notar certo orgulho – Muitos compromissos requerem minha atenção, todos os dias.

– Você não precisa dar nenhuma explicação a mim. Mas vou reiterar o que acabei de dizer: tudo na vida é questão de prioridade. Portanto, suas prioridades serão os lugares onde você dispenderá maior tempo e dedicação..., ou você já viu alguém que sobreviveu à um infarto, dizer que não tem tempo pra fazer atividade física?

Dessa vez, ele se remexeu na poltrona, desconfortável.

– Antes do infarto, o médico dava orientações e ele retrucava: “não tenho tempo pra isso, doutor!”. Então depois de quase morrer, todos os dias as cinco da manhã e lá está o empresário ocupadíssimo fazendo sua caminhada religiosamente. Pergunto: o que foi que mudou na vida desse sujeito?

– Ele deixou de ser sedentário?

– Ele mudou de prioridade.

Muitas vezes a terapia consiste em dizer o óbvio para alguns pacientes. Infelizmente esse ato está sendo cada vez mais necessário. As pessoas não encontram sentido em suas vidas, então dedicam todo esforço em coisas que disseram que pra elas que era importante: carreira, filhos, obtenção material, posição social… Contudo, quase sempre se esquecem daquilo que é mais fundamental: elas próprias.

– Não posso deixar de trabalhar..., minha filha ainda não possui estabilidade garantida.

– Ninguém tem estabilidade garantida. Isso demandaria mais do que apenas dinheiro, requer elementos que não podemos controlar. De qualquer forma, você não precisa parar de trabalhar, talvez só tenha que alterar o modo como trabalha.

– Como assim?

– Disse que chega em casa exausto todos os dias. Isso pode ser indicativo de que precise mudar alguns aspectos da sua rotina..., talvez delegar mais de suas funções para outras pessoas fazerem.

– As pessoas são incompetentes! – ele alterou um pouco a voz, como se o que eu tivesse sugerido fosse uma aberração – Não confio nelas.

– Não confia na sua equipe de trabalho?

– Em parte, sim..., porém, são incapazes de desempenhar minhas funções da mesma maneira que eu faço.

– Mas talvez elas consigam fazer da maneira delas.

– E, portanto, com resultados piores.

– Você pode se surpreender com a capacidade das pessoas. Quantas vezes você tentou dar uma chance para seus colaboradores?

O silêncio dele foi resposta suficiente.

– Lembra-se da atenção aos detalhes que acabamos de conversar? – perguntei.

– Claro que me lembro.

– Pois bem..., esse hábito não serve apenas para o casamento. Serve para todos os aspectos da nossa vida. Pode ser que você sustente baixa percepção aos detalhes de cada membro de sua equipe. E esse descuido não permite que note atributos interessantes que poderiam conferir ganhos para a empresa, e talvez aliviar a pressão sobre você.

– Tudo bem, doutor..., darei mais atenção aos pequenos detalhes.


**continua**

domingo, 8 de fevereiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – FELIZ POR NADA


Fazia um tempinho que não lia crônicas, então foi muito agradável retornar às páginas desse universo, e na companhia de Martha Medeiros a jornada ganhou, digamos, um caráter nostálgico pelo tempo da publicação, assim como foi uma leitura leve e despretensiosa.

A compilação aqui é de textos publicados pela autora em sua coluna no jornal Zero Hora, entre os anos de 2008 até 2011. Por isso o aspecto nostálgico que mencionei, o que pode ser um ponto positivo aos leitores que gostam de revisitar tempos passados sob o olhar de escritores sensíveis. Em contrapartida, parece que alguns textos não envelheceram muito bem.

Matha Medeiros tem facilidade em conversar com o leitor. Abusando de uma pegada coloquial, quase como se estivéssemos ouvindo uma amiga desabafando sobre a vida, o livro aborda variados temas, como amor, liberdade, envelhecimento, escolhas, etc; mesmo quando trata de assuntos mais densos, a autora o faz sem pesar a escrita.

Dentro do gênero, o livro atende a expectativa, é um compilado de bate-papo do nosso cotidiano, deixa o leitor com a impressão de que a autora é gente como a gente. Porém, não espere profundidade em temas, os textos são curtos e descrevem o instante, como se fossem uma conversa de ponto de ônibus. É o tipo de conteúdo que agrada ao se ler, mas esquecemos dele, assim que viramos a página.

Cada crônica funciona como identificação imediata, mais do que profundidade filosófica. Não que haja obrigação de que o conteúdo seja imersivo ou transformador, textos como os reunidos aqui tem seu valor no espaço literário. De fato, cada crônica é como um respiro de ar fresco, uma válvula de escape da rotina estressante dos nossos dias.

Outro detalhe que vale ressalva é que o livro foi publicado em 2011, portanto, algumas crônicas ficaram ultrapassadas, outras fazem apontamentos para problemas que tomaram rumos diferentes de suas previsões, enfim...

FELIZ POR NADA é uma obra que agrada por sua simplicidade e singeleza. É um texto ágil, agradável de se ler e que explora o cotidiano sem complexidade. Se o que você precisa é de uma leitura para espairecer a mente, esse compilado é uma boa sugestão. Mas confesso que gosto mais da Martha Medeiros romancista.

NOTA: 7,1