sábado, 2 de maio de 2026

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 4º PARTE

Toda criança é um artista entusiasmado, tomado por um inesgotável senso de curiosidade, uma criança não se cansa de invadir o inexplorado, experimentar situações novas, correr riscos, não teme a exposição e pouco se importa com a opinião dos outros..., crianças adoram criar coisas. É quase possível afirmar que a infância é a fase na qual o ser humano vivencia seu mais elevado grau de desenvolvimento cognitivo.

E num fatídico dia, essa criança se torna um adulto. Metamorfose regressiva, esse adulto agora é entediado, detesta sair de sua zona de conforto, vive cansado, recusa qualquer chance de fazer algo de um jeito diferente, é demasiadamente precavido, morre de medo da opinião alheia e sua única válvula de escape é passar os fins de semana deitado no sofá, maratonando séries em canais de estreaming.

– Quando foi que você se tornou esse adulto chato? – perguntei ao paciente, após minha pessimista explanação sobre perda da infância.

Como era de se esperar, ele não respondeu rapidamente. É normal as pessoas não saberem o que dizer quando são confrontadas com questões completamente distintas daquilo que foram treinadas a responder.

– Não sou um adulto chato – disse ele, emburrado, feito uma criança.

– Fique sossegado, todos os adultos são..., mas se o termo “chato” lhe soou desconfortável, vamos mudar para “diferente”. Quando você se tornou esse adulto tão diferente da criança que foi um dia?

– O que o faz pensar que sou tão diferente assim? – ele estava muito na defensiva.

– É uma hipótese.

– Não acho que eu me tornei tão diferente..., pelo menos não na essência. Claro que biologicamente falando eu mudei, também passei a ter mais responsabilidades. Mas quem eu realmente sou não mudou…, eu acho.

– E quem é você?

– Eu sou..., bom, você sabe quem sou. Meu nome está bem aí na sua agenda clínica.

– O nome que lhe deram quando nasceu não é você. De modo que vou insistir na pergunta: quem é você?

Ele me encarou por alguns segundos, tentando desvendar o que eu queria dele.

– Sou um empresário, marido e pai de uma filha adolescente.

– Isso também não é você. Apenas tem a ver com sua profissão e funções sociais. E apesar de importantes, essas coisas não o definem..., portanto, quem é você?

Dessa vez consegui fazer com que o paciente olhasse para dentro de si mesmo. Ele respirou longamente, observou o tapete sob seus pés, cruzou os braços e aguardou por algum tempo, no mais absoluto silêncio. E apesar de ter discordado sobre ter se tornado um adulto diferente do menino que um dia foi, agora não apresentava grande desassossego..., de fato, ele parecia quase contemplativo.

– Nunca me perguntaram isso. Pelo menos não dessa forma.

– De que forma?

– Não sei..., dessa forma genuinamente interessada em saber quem sou. Geralmente quando me fazem essa pergunta, as respostas que ofereço costumam dar conta. Mas acho que é a primeira vez que percebo que nada do que respondi ao longo da vida sou eu.

– Como se sente em relação a isso?

– Bem..., parece que eu não sei quem sou.

– Talvez você tenha se distanciado demais daquela criança que foi um dia.

– Você acha?

– O que eu acho não tem importância. Afinal, eu não conheci a criança que você foi..., mas o que realmente importa é o que você acha.

Ele retornou ao estado contemplativo. Seu olhar não mais testemunhava o cenário externo. Na verdade, ele parecia mergulhar para dentro da alma.

– Quando eu era menino, gostava de brincar com recortes de revistas – ele começou a falar, o olhar ainda compenetrado – Pegava as revistas de moda da minha mãe e passava horas caçando figuras das mais variadas. Usava os recortes para construir murais de diferentes temas: casas, animais, cidades, pessoas..., esse último era o meu favorito. Retirava imagens de pessoas que eu não soubesse o nome, entende? Não dos artistas famosos, porque os famosos eu sabia o nome deles. No meu mural só havia pessoas das quais não conhecia seus nomes..., e depois que os colava no papelão, eu pendurava na parede do quarto e ficava observando seus rostos, queria saber quem eram aquelas pessoas, ondem moravam, quais eram seus nomes – ele despertou das lembranças e me olhou, um pouco encabulado – Sei que era uma atividade idiota.

– Não era não. Idiota é essa sua afirmação, porque sei que não acredita nisso. Agora compreende porque eu disse que todo adulto é um chato?

– Sim, acho que você tem razão..., mas não sei dizer quando foi que me tornei esse adulto chato.

– Não tem problema.

– Acho que a sociedade vai nos moldando de modo a nos deixar em plena conformidade com o que o sistema social vigente precisa que sejamos. Desenvolver nossa essência é considerado improdutivo, por isso nos doutrinam – de repente, ele pareceu espantado – Talvez mais simples do que dizer quem sou, seja dizer o que eu me tornei, doutor.

– Então diga: o que você se tornou?

– Eu me tornei um acumulador de patrimônio, mesquinho. Quanto mais eu ganho, mais parece que preciso ganhar para suprir alguma vazio. É como se eu estivesse numa competição sem fim, onde cada pessoa ao redor eu o interprete como sendo um adversário, então preciso ultrapassá-lo, ter mais poder, mais status, mais notoriedade..., doutor, eu me tornei um...

Ele hesitou. Como é difícil encontrar a palavra certa que unifique tantos adjetivos que pairam em nossa mente sobre aquilo que nos tornamos.

– Um competidor..., tornei-me um guerreiro contemporâneo.

– Fale um pouco sobre esse seu eu guerreiro.

– Esse guerreiro é um sujeito mesquinho, amedrontado, que aprendeu a desconfiar de todos ao redor. Para além de sua epiderme tudo é ameaçador, por isso ele aprendeu a não ter compaixão e suas relações sociais estão estabelecidas sob a lógica da escada: todos estão sobre algum degrau, uns acima outros abaixo..., e esta é a batalha do guerreiro: alcançar o próximo degrau, enquanto impede que roubem o seu lugar atual.

– É uma ótima metáfora – falei, tentando o manter motivado, mas sem me abster da sinceridade – a resposta parece ter saído de dentro de você sem grande dificuldade.

– Acho que sim – ele inspirou demoradamente, como se houvesse acabado de encontrar uma enorme bagunça dentro de si – Eu nunca pensei que fosse dizer isso de mim mesmo, mas acho que sou uma pessoa horrível, doutor.

– Você não é uma pessoa horrível.

– Não estou sendo autoindulgente.

– E nem eu estou sendo razoável – levantei-me e fui até o bebedouro, no canto da sala – veja bem: geralmente quando paramos para observar nossa própria existência, com humildade e retidão, costumamos nos assustar com alguns aspectos negativos em nossa atual constituição humana, os quais passamos a vida inteira ignorando. O fato é que todos nós estamos moldados por um misto de traços positivos e outros negativos. Pode ser que você esteja assustado, porque por alguma razão se recusou a observar aquilo que pode melhorar em sua personalidade. Sempre há lugares em nós que são ignorados com o tempo. E quando disse que não estou sendo razoável, é porque acredito que o primeiro passo para se mudar algo dentro de nós, é reconhecer aquilo que precisa ser mudado..., e você está fazendo essa autoanálise agora – retornei com um copo com água e o entreguei – algumas vezes vai doer essa etapa de identificar suas falhas, mas o processo de cura começa com essa dor.

– Sabe, ao mesmo tempo em que consigo enxergar algumas falhas de caráter em mim, também percebo que não quero mudar; como se meus comportamentos funcionassem como medidas protetivas que impedem que outras pessoas sejam invasivas..., é como se houvessem duas vozes dentro da minha cabeça, doutor. Cada uma diz uma coisa contrária da outra.

– Observe e tente compreender o que estas vozes estão dizendo, o que há de importante em cada orientação que as vozes ditam. Então seu trabalho é pegar tudo e discernir, com coerência e desprendimento, até que você encontre a solução mais equilibrada. As vozes dentro da nossa cabeça costumam intimidar, causar medo, nos deixar tristes e até fazer com que percamos a confiança..., mas elas são como espectros de experiências da vida que você viveu até hoje. Contudo, essas vozes não são você.

– Como assim? – ele quase engasgou com a água – então a quem pertencem essas malditas vozes?

Como explicar para aquele paciente, de um modo que parecesse o menos metafísico possível, sem confrontar seu enorme ceticismo?

– Acho que vai ficar mais simples entender isso, utilizando uma ideia de um poeta chamado Khalil Gibran – dessa vez foi minha vez de inspirar longamente – a ideia dele é a seguinte: “Deus disse: ‘ame o seu inimigo!’ Eu obedeci, e amei à mim mesmo”.

Parado com o copo descartável vazio na mão, o paciente ficou encarado no tapete do chão por algum tempo. Depois, se despediu e foi embora, prometendo pensar sobre a sessão de hoje, mas eu estava convicto de que ele havia entendido a mensagem.


**continua**

sábado, 18 de abril de 2026

RESENHA DE LIVRO – A OSTRA E O BODE

Carlos Herculano Lopes é um narrador sensível, meticuloso e um pouco conservador. Observa o mundo de longe, até mesmo quando algum de seus textos narra uma experiência pessoal, ele o faz com um olhar distante, quase em terceira pessoa, como uma ostra fechada que observa os bodes mundanos – embora esse trocadilho não tenha muito a ver com o título da obra, que também dá nome a uma das crônicas reunidas neste agradável volume.

A OSTRA E O BODE é um compilado de crônicas que denota claramente a maturidade literária de seu autor. Neste livro, Lopes explora o mundo não apenas como registro do cotidiano, mas como instrumento de investigação da condição humana em sua escala mais íntima.

Os textos aqui partem de eventos aparentemente banais – um encontro ocasional, uma lembrança, uma cena urbana – mas rapidamente se deslocam para uma dimensão mais profunda, onde o que está em jogo é a própria estranheza do existir.

Outro aspecto interessante é a relação com o tempo. Suas crônicas não são apenas narrativas de acontecimentos; são dispositivos de suspensão temporal. O instante cotidiano se torna um portal para o passado, para memórias, ou mesmo para uma reflexão ontológica mais ampla. Há aqui uma desaceleração deliberada da percepção. E o autor o faz com uma linguagem simples e acessível.

Há uma diversidade grande de situações, quase sempre com o foco em situações que normalmente passam despercebidas pela maioria de nós. Uma crônica que me prendeu bastante foi Hassina, em que conta a história de um brasileiro que se encontra algumas vezes num Café com uma mulher muçulmana prometida em casamento, e os dois se apaixonam. O vínculo entre o brasileiro e a moça, chamada Hassina, não se desenvolve na lógica da posse, mas na lógica da impossibilidade; a condução do autor não tenta superar a realidade, ele apenas a contempla.

Percebi ao longo da leitura certo excesso de sutileza, sinais de um conservadorismo do autor. Acho que isso empobreceu um pouco a narrativa, mas não a ponto de a deixá-la ruim; Carlos Herculano Lopes compensa isso com seu estilo delicado e denso. A beleza não deriva da intensidade do evento narrado, mas da qualidade do olhar que o apreende. O centro da crônica deixa de ser o acontecimento e passa a ser a consciência que o observa.

É uma diferença decisiva, que não deixa o texto ruim, apenas impõe seu estilo.

A OSTRA E O BODE é um livro discreto na superfície, mas muito consistente em sua arquitetura interior; quanto mais se observa, mais se percebe que a verdadeira matéria da obra é o modo como a consciência se relaciona com aquilo que se viveu e as minúcias imperceptíveis do cotidiano.

NOTA: 8,6

sábado, 11 de abril de 2026

RESENHA DE LIVRO – OS CATADORES DE CONCHAS


Encontrava-me garimpando num Sebo na capital do ES, Vitória, quando me deparei com um clássico da literatura britânica. Saliento que não foi muito difícil enxergar OS CATADORES DE CONCHAS na prateleira de literatura internacional, pois o tijolão de quase setecentas páginas, destacava-se por sua enormidade. E é precisamente essa robustez o que, num primeiro momento, despertou minha curiosidade. Afinal, eu já tinha ouvido referências positivas sobre a obra, portanto, seu tamanho pareceu um atrativo extra, pois a obra devia ter muito a dizer. Mas o que era para ser uma leitura prazerosa acabou se transformando em instantes de tédio, que só não foram maiores, porque sua autora, Rosamunde Pilcher, escreve de forma simples e fluida. Vamos falar um pouco sobre isso.

OS CATADORES DE CONCHAS se organiza em torno da memória, do tempo e da transmissão simbólica entre gerações de uma família inglesa. A protagonista, Penelope Keeling funciona como uma espécie de arquivo vivo de um século marcado por guerras, perdas e reconstruções. Enfrentando a velhice do presente momento e após quase sofrer um infarto, Penelope toma algumas decisões que vão despertar memórias de sua juventude, assim como entrará em conflito direto com seus três filhos.

Um dos eixos centrais do romance é a tensão geracional, ocasionada pela distinção entre valores econômicos, inseridos nas figuras dos filhos, e os valores sentimentais, encarnados na presença da matriarca. Existe aqui um interessante embate entre duas formas de habitar o mundo: uma orientada pela utilidade, outra nutrida pelo significado. Pilcher trabalha também a questão da solidão não patológica. Sua protagonista é uma mulher solitária, mas não vazia. Trata-se de uma solidão madura, deliberada, atravessada por afetos reais. Isso faz dela o arquétipo preciso dos valores sentimentais na trama.

O aspecto ético me pareceu sutilmente relevante: uma crítica à ingratidão geracional. Os filhos de Penelope não agem como vilões caricatos, mas como produtos de um tempo em que a escuta do passado se perdeu. A autora não os demoniza em momento algum, mas os expõe. OS CATADORES DE CONCHAS sugere que o verdadeiro empobrecimento não é financeiro, mas afetivo.

A condução narrativa é silenciosa, sem retórica nem julgamento explícito, o que torna a trama um tanto eficaz. A obra de arte que leva o nome do livro, não é um simples objeto narrativo, mas um dispositivo simbólico que expõe duas racionalidades inconciliáveis e discrepantes em termos. Para os filhos, o quadro Os Catadores de Conchas é apenas uma ativo, algo que pode ser convertido em dinheiro. Já para a mãe, Penelope, o quadro tem um enorme valor afetivo, a lembrança da juventude, a memória de quem ela foi e de quem se tornou. Portanto, para Penelope, o quadro não possui valor transferível ou negociável; existe apenas na relação entre sujeito e objeto. Tal enfrentamento faz com que a protagonista perceba uma evidente ausência de empatia por parte dos filhos: eles não desconsideram apenas um quadro, mas desconsideram a história da mãe.

Outras personagens surgem ao longo da história, mas servem apenas para reforçar o enfrentamento geracional, despertando nos filhos, sentimentos que lhe são característicos, como ciúmes e inveja. E esse desgaste silencioso na relação entre mãe e filhos é a fratura moral que jamais explode, mas apenas se acumula…

Os acontecimentos comuns de uma família de classe média do século vinte são exatamente os pontos de interesse de Rosamunde Pilcher. Ela descreve uma classe que não enfrenta fome, nem guerras diretas, tampouco tragédias existenciais. Seu foco está em falhas éticas nas relações familiares, não estamos diante de uma história de sobrevivência, é sobre a incapacidade de reconhecer o outro…, só que esse hiperfoco causou um problema:

Em OS CATADORES DE CONCHAS o entrave não está em seu tema – conflitos familiares, herança simbólica, incompreensão geracional – mas na desproporção entre matéria narrativa e extensão. A prolixidade da autora não é estilística no sentido forte, onde o excesso é compensado por densidade reflexiva. Pilcher estende-se em descritivas que retornam continuamente aos mesmos conflitos sem acrescentar novas camadas significativas. Ao retratar um universo socialmente seguro (classe média inglesa, estabilidade material, dramas ausentes de rupturas), o alongamento do texto acaba por cobrar um preço alto do leitor. O que poderia ser um texto coeso e elegante, dentro de, no máximo, 400 páginas, acabou por se tornar um árduo teste de paciência. Até para os leitores mais atentos e dispostos, 700 páginas é muito texto para tão pouco a ser narrado. O livro parece confiar excessivamente na identificação emocional do leitor com o cotidiano burguês. Concluir a leitura foi quase um alívio…

OS CATADORES DE CONCHAS é um romance afetivamente competente, mas dramaturgicamente inchado. Sua trama diz algo válido, porém, o repete mais vezes do que o necessário. Rosamunde Pilcher não tensiona o destino humano em larga escala, porém, expõe algo mais modesto: que a vida pode perder significado também em pequenas tragédias.

NOTA: 6,9

sábado, 14 de março de 2026

RESENHA DE LIVRO –O SÉCULO DA SOLIDÃO – restabelecer conexões em um mundo fragmentado

 .

A ideia de que existam instâncias que trabalham arduamente na constituição de uma sociedade submissa e alienada, é algo que recebo com certo ceticismo, talvez porque estou vivendo o primeiro estágio do luto: negação. Contudo, ao mesmo tempo em que me é custoso crer em certos padrões deletérios, não sou otimista, e sei que a sociedade é complexa, se transforma em diversos sentidos e pende para diferentes esferas de pensamento. Mas se há algo em que acredito, é que muita gente se beneficia de certas condições da sociedade, e essas pessoas não estão nem um pouco interessadas em mudar a situação. A solidão certamente é uma dessas condições.

De maneira sintética, este excelente trabalho intitulado O SÉCULO DA SOLIDÃO – restabelecer conexões em um mundo fragmentado, da escritora inglesa Noreena Hertz, parte de uma tese forte e bem documentada: a solidão deixou de ser um fenômeno individual para se tornar um problema estrutural das sociedades contemporâneas. Aqui a autora traz uma abordagem que vai além do problema de pessoas que “se sentem sozinhas”, e volta seu olhar para um modelo de organização social, econômica e tecnológica que produz isolamento, mesmo em contextos de hiperconectividade.

O livro faz um diagnóstico fragmentado em alguns pontos centrais: a solidão como fenômeno político e econômico; as tecnologias e suas ilusões de conexão; as consequências psíquicas e sociais; a invisibilidade coletiva, ou seja, a falta de pertencimento social.

Hertz faz uma crítica contundente ao modelo econômico, sustentando que o neoliberalismo – entendido aqui não apenas como política econômica, mas como forma de organização social – produziu um novo cidadão radicalmente individualizado, competitivo e, por consequência, isolado. A autora nos mostra que o discurso econômico contemporâneo transformou as pessoas em empreendedores de si; cada um passou a ser responsável, sozinho, por seu sucesso, fracasso, saúde emocional e estabilidade financeira. Isso é algo que mina a noção de responsabilidade coletiva e enfraquece redes sociais de apoio, como sindicatos, associações, comunidades locais e até mesmo a família. Neste modelo estrutural, pedir ajuda é visto como fraqueza, depender do outro é uma falha moral, e o resultado é um sujeito formalmente autônomo, mas existencialmente desamparado.

O modo como nossa sociedade está organizada é extremamente voltado para a competição, em vez de cooperação. Em todos os espaços sociais a competição é a ordem: no trabalho, no consumo, nas relações humanas e até na construção de identidade.

Talvez o ponto mais inquietante da obra, seja justamente aquilo que me faz pensar na distopia: sociedades mais solitárias seriam mais fáceis de se governar e extorquir. Indivíduos isolados têm menos capacidade de organização coletiva, menos empatia e maior propensão a discursos simplistas e autoritários. No entanto, a autora não afirma a existência de um “comitê secreto” que estaria planejando a solidão, e é importante deixar isso bem claro: o que Noreena Hertz descreve é algo mais sutil, e justamente por isso, mais perturbador: processos estruturais que produzem efeitos previsíveis, sem a necessidade de intenção centralizada.

Ou seja, a obra não aponta para um problema de conspiração, mas de conveniência. Não é que alguém imaginou deliberadamente uma sociedade solitária, mas que certas formas de organização social produzem solidão, e isso é altamente conveniente para mercados que se beneficiam de indivíduos isolados que consomem mais, numa tentativa de suprir carências; plataformas digitais que lucram com atenção fragmentada e relações superficiais; sistemas políticos que funcionam melhor quando a ação coletiva está enfraquecida; ambientes de trabalho que rendem mais quando as pessoas competem umas com as outras.

Enfim, O SÉCULO DA SOLIDÃO é uma estupenda obra que nos faz refletir sobre o fato de que, apesar de não vivermos numa sociedade maligna, vivemos numa sociedade que aprendeu a conviver com seus danos colaterais e, em muitos casos, a lucrar com ele. Em suma, o livro aponta para uma condição dura, mas necessária: não estamos sozinhos porque falhamos como indivíduos, na verdade, estamos sozinhos porque fomos treinados a viver assim.

NOTA: 🔟😍

terça-feira, 3 de março de 2026

RESENHA DE LIVRO – A CASA DO POETA TRÁGICO

Eis um exemplo de literatura que, se fosse lançada em tempos atuais, seria perseguida pela cultura do politicamente correto por conta de seu tema central: relação amorosa entre uma jovem adolescente e homem na casa dos quarenta. No entanto, estamos aqui apenas para analisar a obra, e a questão moral é rapidamente absorvida pela sensível e melancólica escrita de Carlos Heitor Cony...

Publicitário de meia idade, vivendo o auge do tédio existencial, fica obcecado por uma jovem que passa a perseguir discretamente durante uma viagem de cruzeiro. Após o desembarque da moça, Augusto, nosso protagonista, insiste na busca pela moça misteriosa, até conseguir falar com ela. Começa aí um romance que escapa completamente daquele estereótipo do macho dominador; o personagem de Cony é um homem inseguro e rancoroso, que precisa lidar com a desilusão de descobrir que não é soberano daquilo que pensou ser o grande criador: aquela jovem moça que ele pensa ter descoberto.

A narrativa deste A CASA DO POETA TRÁGICO foge de ideais e padrões de fácil identificação social. De fato, Cony desenvolve uma trama incômoda pela lentidão e melancólica do ponto de vista de seu protagonista que narra a história. Talvez o grande acerto da obra seja precisamente essa fuga do lugar comum: aos poucos, descobrimos que a fragilidade não pertence à Mona, a jovem conquistada, mas está em Augusto, o instável conquistador.

Vale à pena mencionar alguns pontos que não chegam a ser spoiler, mas que são pertinentes para se compreender o arco amoroso dos protagonistas: a trama se passa três anos após a separação de Mona e Augusto, eles viveram juntos por 15 anos; o nome de Mona foi praticamente uma imposição feita por Augusto quando se conheceram; Augusto já fora casado antes com uma mulher de idade equivalente.

Ditas nesta resenha, essas informações parecem triviais e apresentam pouco sobre a complexidade da relação dos personagens. Mas são pertinentes para entendermos as motivações de cada um dos envolvidos, em especial, Augusto.

Nosso protagonista parece uma mera alegoria daquilo que gostaria de ser. E sua persona parece funcionar, pelo menos durante o tempo em que viveu com Mona e compartilhou algumas de suas experiências de vida. Porém, há sempre um viés de fachada; Augusto sofre por antecipação, é ranzinza e, ao mesmo tempo, incapaz de agir com firmeza, percebe-se algum ressentimento em relação a si mesmo.

Enquanto Mona é a mulher vivendo o processo de desabrochar, que anseia descobrir o mundo, mas não se torna piegas. Ela aceita sua condição de aprendiz sem resignação, olha para seu mentor de cabeça erguida e, em alguns momentos, sabe que exerce poder sobre ele. Apesar disso, ela o respeita, mas não o cultua.

Exatamente essa seria a tragédia de Augusto: ele parece não se conformar com essa similaridade cada vez mais crescente em mona; tende a transformar tudo em lembrança (característica que acontece com personagens de outras obras de Cony), em mito pessoal, em reconstrução subjetiva. Quando tudo parece irrecuperável, Augusto se vitimiza, submete-se à uma cadeira de rodas para suscitar comiseração... Desse modo, a casa do título é o lugar metafórico da tragédia, pois seu arquiteto fracassa na elaboração da própria história; um lugar onde tentou, sem sucesso, interpretar o papel do homem experiente, mas foi incapaz de encobrir sua insegurança.

O decorrer da leitura me deixou com a sensação de que Augusto não se apaixona por Mona; isso parece implícito em sua exigência por renomear a amada, dando ao ato um caráter deífico. Augusto não ama aquela jovem, mas a instrumentaliza como forma de sobreviver a si mesmo. E, claro, para além do já citado escopo moral da trama, trata-se de outro elemento que carrega uma enorme violência emocional, ainda que Cony desenvolva sua história de forma sutil e psicológica.

E a relação de Augusto com o filho parece corroborar com a desorganização do protagonista.

É uma trama cheia de camadas, porém, algumas um tanto sutis.

A CASA DO POETA TRÁGICO é o relato de um homem em busca de si mesmo, mas que encontra somente o reflexo daquilo que teme ser. Não há redenção, tampouco aprendizagem profunda…, há apenas uma constatação melancólica, quase silenciosa, de que sua vida continuará sendo aquilo que sempre foi: uma busca fracassada do crescimento existencial pautado na construção de algo externo, esquecendo-se de seus medos e traumas internos.

NOTA: 8,5

sábado, 14 de fevereiro de 2026

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 3º PARTE

Certa vez, um paciente disse que a esposa surgiu na sala pedindo ajuda para cortar uma unha encravada que estava doendo muito. Ele não gostou do pedido por duas razões: sentia aflição ao ter que lidar com feridas, e no instante do pedido ele estava assistindo futebol. Porém, mesmo contrariado, atendeu o pedido da esposa. Afinal, quando uma esposa pede algo só há uma coisa a se fazer...

– Atender o pedido dela – antecipou o paciente – mesmo se for a final do seu time.

– Exatamente! O homem que é casado por mais de 24 horas sabe desse fato…, pelo menos foi o que garantiu esse paciente.

– Esposa atendida significa casamento feliz, doutor – ele achou o próprio comentário engraçado, mas foi um misto de graça por conta do absurdo e choque pela constatação da realidade.

– Enfim…, – fiz menção por dar segmento ao relato, para não haver risco de desviarmos o assunto – enquanto mexia com o alicate no dedo da mulher, repousado em sua perna, esse paciente disse ter fixado a atenção em algo que, até aquele dia, considerava banal: o pezinho delicado dela. E após algum tempo admirando, concluiu que estava diante do pé mais lindo que já havia visto na vida.

Fiz uma pausa proposital. Queria ver o que as feições do paciente revelavam. Notei certo desassossego, mas não saberia identificar o motivo. Contudo, ele não disse nada.

– Esse homem disse que naquela noite, os dois transaram incrivelmente, como não acontecia há anos. Contou-me que havia se apaixonado de novo pela esposa, graças à contemplação de um pé que ele havia ignorado a vida toda.

Outra pausa para ruminar ideias.

– Minha esposa tem pés horrorosos, doutor – disse ele, olhando-me meio decepcionado – são compridos e esqueléticos. Já ouvi falar de caras que têm fetiche por pés, mas acho que não funcionaria comigo.

– Não é sobre isso.

– Então por que me contou essa história?

– Esqueça os pés, esse não é o elemento principal do relato – e eu achando que ele havia captado a mensagem – O que há de interessante nesse caso é que aquele paciente, de modo involuntário, notou algo que esteve o tempo inteiro ali, diante de seus olhos, sem que jamais houvesse dado atenção.

– Quer que eu dê mais atenção à minha mulher?

– Não exatamente a ela, mas aos pequenos detalhes. Observe com mais atenção, olhe ao redor para coisas que ela faz, como ela manuseia objetos, suas manias, trejeitos..., toda a admiração que sentimos se perde quando paramos de notar o que está em nosso entorno. Isso é deletério em todos os sentidos. Estou falando do “lugar comum”, esse estado no qual apenas existimos, sem que se perceba os detalhes do que acontece…, quando se está inserido no paraíso, o hábito nos força a deixar de notá-lo.

– Não conhece minha esposa, doutor. Ela é meio neurótica, acho que não vai reagir muito bem se eu ficar lhe bisbilhotando pela casa.

– Não é esse tipo de observação vigilante. Precisa ser sutil com o olhar. Quando ela falar com você, preste atenção nos olhos, veja como mexe a boca, repare o pescoço dela..., detalhes. E se acaso algo lhe chamar a atenção, não hesite em elogiar.

– É que as vezes a gente não se lembra de praticar essas coisas, doutor – ele esfregou as duas mãos no comprimento das pernas, como se o simples pensamento sobre aquelas dicas já o esgotasse – Quando chego em casa, geralmente estou cansado do trabalho.

– Ocorre que tudo na vida é uma questão de prioridade – falei, enquanto lutava interiormente para evitar a manifestação de um suspiro de pesar – Se o seu casamento não é prioridade hoje, continuará chegando exausto do trabalho e talvez sua vida conjugal continue como está…, pelo menos por mais algum tempo.

– Está insinuando que devo trabalhar menos?

– Não estou insinuando nada. O que disse foi que tudo na vida é uma questão de prioridade. Se o trabalho hoje é sua prioridade, possivelmente está dando menos atenção a outras áreas da sua vida. Disse noutra sessão, que é um homem estabilizado financeiramente e que já tem patrimônio garantido pelo resto de seus dias.

– Ocorre que outras pessoas também dependem do que faço.

– Isso é nobre de sua parte..., mas por que você continua trabalhando tanto?

– Sou dono de uma empresa com capital de doze milhões de reais, doutor – homens como esse paciente costumam depositar muito ego em suas posições no trabalho. O discurso era de vitimismo, mas na verdade, não era difícil notar certo orgulho – Muitos compromissos requerem minha atenção, todos os dias.

– Você não precisa dar nenhuma explicação a mim. Mas vou reiterar o que acabei de dizer: tudo na vida é questão de prioridade. Portanto, suas prioridades serão os lugares onde você dispenderá maior tempo e dedicação..., ou você já viu alguém que sobreviveu à um infarto, dizer que não tem tempo pra fazer atividade física?

Dessa vez, ele se remexeu na poltrona, desconfortável.

– Antes do infarto, o médico dava orientações e ele retrucava: “não tenho tempo pra isso, doutor!”. Então depois de quase morrer, todos os dias as cinco da manhã e lá está o empresário ocupadíssimo fazendo sua caminhada religiosamente. Pergunto: o que foi que mudou na vida desse sujeito?

– Ele deixou de ser sedentário?

– Ele mudou de prioridade.

Muitas vezes a terapia consiste em dizer o óbvio para alguns pacientes. Infelizmente esse ato está sendo cada vez mais necessário. As pessoas não encontram sentido em suas vidas, então dedicam todo esforço em coisas que disseram pra elas que era importante: carreira, filhos, obtenção material, posição social… Contudo, quase sempre se esquecem daquilo que é mais fundamental: elas próprias.

– Não posso deixar de trabalhar..., minha filha ainda não possui estabilidade garantida.

– Ninguém tem estabilidade garantida. Isso demandaria mais do que apenas dinheiro, requer elementos que não podemos controlar. De qualquer forma, você não precisa parar de trabalhar, talvez só tenha que alterar o modo como trabalha.

– Como assim?

– Disse que chega em casa exausto todos os dias. Isso pode ser indicativo de que precise mudar alguns aspectos da sua rotina..., talvez delegar mais de suas funções para outras pessoas fazerem.

– As pessoas são incompetentes! – ele alterou um pouco a voz, como se o que eu tivesse sugerido fosse uma aberração – Não confio nelas.

– Não confia na sua equipe de trabalho?

– Em parte, sim..., porém, são incapazes de desempenhar minhas funções da mesma maneira que eu faço.

– Mas talvez elas consigam fazer da maneira delas.

– E, portanto, com resultados piores.

– Você pode se surpreender com a capacidade das pessoas. Quantas vezes você tentou dar uma chance para seus colaboradores?

O silêncio dele foi resposta suficiente.

– Lembra-se da atenção aos detalhes que acabamos de conversar? – perguntei.

– Claro que me lembro.

– Pois bem..., esse hábito não serve apenas para o casamento. Serve para todos os aspectos da nossa vida. Pode ser que você sustente baixa percepção aos detalhes de cada membro de sua equipe. E esse descuido não permite que note atributos interessantes que poderiam conferir ganhos para a empresa, e talvez aliviar a pressão sobre você.

– Tudo bem, doutor..., darei mais atenção aos pequenos detalhes.


**continua**

domingo, 8 de fevereiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – FELIZ POR NADA


Fazia um tempinho que não lia crônicas, então foi muito agradável retornar às páginas desse universo, e na companhia de Martha Medeiros a jornada ganhou, digamos, um caráter nostálgico pelo tempo da publicação, assim como foi uma leitura leve e despretensiosa.

A compilação aqui é de textos publicados pela autora em sua coluna no jornal Zero Hora, entre os anos de 2008 até 2011. Por isso o aspecto nostálgico que mencionei, o que pode ser um ponto positivo aos leitores que gostam de revisitar tempos passados sob o olhar de escritores sensíveis. Em contrapartida, parece que alguns textos não envelheceram muito bem.

Matha Medeiros tem facilidade em conversar com o leitor. Abusando de uma pegada coloquial, quase como se estivéssemos ouvindo uma amiga desabafando sobre a vida, o livro aborda variados temas, como amor, liberdade, envelhecimento, escolhas, etc; mesmo quando trata de assuntos mais densos, a autora o faz sem pesar a escrita.

Dentro do gênero, o livro atende a expectativa, é um compilado de bate-papo do nosso cotidiano, deixa o leitor com a impressão de que a autora é gente como a gente. Porém, não espere profundidade em temas, os textos são curtos e descrevem o instante, como se fossem uma conversa de ponto de ônibus. É o tipo de conteúdo que agrada ao se ler, mas esquecemos dele, assim que viramos a página.

Cada crônica funciona como identificação imediata, mais do que profundidade filosófica. Não que haja obrigação de que o conteúdo seja imersivo ou transformador, textos como os reunidos aqui tem seu valor no espaço literário. De fato, cada crônica é como um respiro de ar fresco, uma válvula de escape da rotina estressante dos nossos dias.

Outro detalhe que vale ressalva é que o livro foi publicado em 2011, portanto, algumas crônicas ficaram ultrapassadas, outras fazem apontamentos para problemas que tomaram rumos diferentes de suas previsões, enfim...

FELIZ POR NADA é uma obra que agrada por sua simplicidade e singeleza. É um texto ágil, agradável de se ler e que explora o cotidiano sem complexidade. Se o que você precisa é de uma leitura para espairecer a mente, esse compilado é uma boa sugestão. Mas confesso que gosto mais da Martha Medeiros romancista.

NOTA: 7,1

sábado, 24 de janeiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – TODOS OS NOMES

As obras de José Saramago parecem um convite a olharmos para aquilo de mais pequeno existente ao nosso redor, pois é lá que o essencial se esconde. O autor tem essa capacidade de partir de um ponto banal e transformar o cotidiano mais simples de suas personagens.

Em TODOS OS NOMES essa característica é ainda mais evidente: seu protagonista é um homem comum, invisível, alguém ignorado. Trabalha em escritório, vive sozinho, coleciona recorte de jornais…, pois justamente a partir dessa existência ordinária que Saramago constrói suas observações a respeito do ser humano.

A trama gira em torno do Sr. José, funcionário de uma espécie de cartório de registro civil, instituição burocrática que guarda registro de todos os vivos e mortos. O sr. José segue seus dias de forma automatizada e corriqueira, até que de modo acidental, cria interesse pelo registro de uma mulher desconhecida e decide investigar sua vida, rompendo a ordem institucional e mergulhando em uma jornada que mistura obsessão, identidade e transcendência.

O conhecido estilo narrativo do autor se faz presente nessa obra; uso de frases extensas, diálogos entrelaçados, pontuação confusa, meio que imitando um fluxo de consciência. O estilo aqui ganha em potencial, pois parece refletir o modo confuso e incerto de seu personagem. A prosa é, ao mesmo tempo, uma crítica com pitadas de filosofia. Contudo, sempre reforço cautela aos leitores que desconhecem o estilo saramaguiano, pois pode incomodar um pouco.

TODOS OS NOMES é uma obra alegórica por definição. Uma crítica à necessidade de buscar identidade dentro de uma sociedade impessoal e robotizada. Saramago denuncia o mundo contemporâneo que transforma vidas em registros, desafiando o leitor a refletir sobre a própria existência. O título do livro faz referência, mas propositalmente a única personagem detentora de nome próprio é seu protagonista. Todos os demais são identificados por substantivos.

O cartório é um bom exemplo dessa alienação social. É um órgão público, porém, assemelha-se a um labirinto metafísico, como se fosse um espaço entre a vida e a morte. A ficha da mulher desconhecida nas mãos do Sr. José é o símbolo do que se perdeu na humanidade: nosso herói parte de dados numéricos para ir em busca do ser humano de verdade. O cartório existe como uma instância cujo objetivo é reduzir o ser humano a algo que possa ser meramente registrado, arquivado, controlado.

Há um problema que tornou a leitura um pouco arrastada: o ritmo é lento, algo quase hipnótico, marcado pela busca incessante do personagem principal através do alongado interior do cartório, como se fosse um labirinto mesmo. Essa sensação de arrasto incomoda, mesmo para leitores que já conhecem o estilo prolixo do autor. Por exemplo, há encontros com outras personagens interessantes, como um pastor de ovelhas dentro de um cemitério, cujos diálogos parecem encurtados para que o Sr. José continue sua jornada exaustiva. Saramago não nos permite repousar na reflexão dos encontros entre personagens, prefere insistir no movimento da busca do protagonista, o que é uma pena. Talvez o cartório como metáfora do labirinto, não é apenas um cenário, mas a própria narrativa. Mesmo assim, confesso que em alguns momentos a leitura me fez bocejar.

TODOS OS NOMES é uma obra de grande densidade simbólica e filosófica, que transforma o cotidiano burocrático de um homem em uma jornada de reflexão sobre identidade, solidão e o apagamento da individualidade dos seres humanos. A leitura pode ser exigente e um pouco cansativa, mas por sua premissa singular, vale a pena a travessia do labirinto simbólico articulado por outro José, o nosso eterno Saramago.

NOTA: 6,9

sábado, 10 de janeiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – TODOS CONTRA TODOS – o ódio nosso de cada dia

Em tempos onde o ego humano se tornou objeto explorado a todo custo em nome do lucro, da vaidade moral como força política e cultural, o historiador Leandro Karnal meio que parte da ideia hobbesiana de que o homem é o lobo do homem, atualizando nesta obra introdutória sobre o tema, o conceito para o universo contemporâneo.

Em TODOS CONTRA TODOS, o autor faz uma breve mescla filosófica, histórica e sociológica sobre o fenômeno da polarização nos dias atuais. O título, inclusive, antecipa esta que é a ideia central: estamos inseridos num tempo em que a convivência se tornou insustentável porque cada grupo enxerga o outro não como interlocutor, mas como um inimigo.

Para Karnal, a grande mudança do nosso tempo é que o conflito saiu da esfera do físico ou econômico, tornando-se moral e simbólico. A luta atual seria por validação individual, pela superioridade moral, cada um de nós se sustenta no espaço social como régua de medida do equilibrado e aceitável. O outro é sempre algo ruim, desfuncional e injusto. Criamos bolhas nas quais temos apenas convivência com aquele que pensa igual, demonizamos assim, todo pensamento diferente.

O autor faz uma provocação pertinente: nunca se falou tanto sobre moralidade, porém, nunca se viveu tão pouco a ética. Segundo ele, a moral teria se tornado instrumento de autopromoção, e não de conduta; cada um de nós tenta exibir “o lado certo da história”, mas pouco se reflete sobre o propósito de se defender certas pautas. É uma crise ética revelada quando confundimos virtude com visibilidade. Em tempos de excesso de informação e fragmentação cultural, cada indivíduo atua como juiz e profeta de si mesmo, gerando um relativismo nocivo.

O ser humano sobreviveu como espécie graças à cooperação, pois se trata de criatura desprovida de habilidades fundamentais de subsistência, como couraça, capacidade de voar, garras afiadas, porte físico elevado ou velocidade. Na natureza, o ser humano é praticamente o mamífero mais vulnerável da categoria. Portanto, foi a vida em comunidade e o cuidado mútuo, a transmissão de saberes despendido pela espécie humana, os elementos que possibilitaram nossa sobrevivência dentro de um mundo hostil.

E o grande paradoxo de nossa sociedade contemporânea, é que quanto mais conectados estamos (graças à internet), mais isolados nos tornamos. A lógica do “todos contra todos” inverte a nossa natureza cooperativa; o ser humano transformou os espaços de convivência em campos de batalha moral. Karnal chama isso de falência da alteridade, ou seja, a perda da capacidade de reconhecer o outro como alguém legítimo em sua diferença. Quando a empatia se rompe, surge o medo, o ressentimento e, finalmente, o ódio.

Um ponto que me incomodou é que a obra carrega uma sensação de condensação excessiva, como se fosse uma versão escrita de uma das muitas palestras do autor. O texto tem ritmo oral e fluente, o que ajuda a prender o leitor, mas parece sacrificar a densidade analítica. Leandro Karnal faz um alerta para os perigos da superficialidade e o consumo instantâneo, mas parece que é precisamente o que ele faz aqui. Há também instantes em que utiliza algum sarcasmo e um pouco de humor os quais são característicos em suas palestras, mas no contexto escrito pode dificultar a leitura de quem não está familiarizado com o conteúdo visual do autor.

Enfim, TODOS CONTRA TODOS funciona melhor se encarado como uma introdução acessível ao tema do ódio e da polarização, e não como um tratado filosófico ou sociológico. E apesar de eu terminar a leitura com a sensação de que se trata de uma obra menor do que a capacidade intelectual de seu autor, trata-se de um trabalho que não pretende ser o mapa definitivo de sua pauta, mas um convite ao leitor que deseja começar a explorar o tema do ódio.

NOTA: 7,8

sábado, 20 de dezembro de 2025

RESENHA DE LIVRO – CILADA

Cada leitura que faço das obras de Harlan Coben aumenta minha admiração por sua capacidade de inserir diversas situações e personagens na mesma trama, e amarrar tudo de forma minuciosa, sem esquecer de responder a cada uma das muitas questões que nós, os apreensivos leitoras, levantamos ao longo da leitura.

CILADA só comprova essa regra. É um thriller de suspense, cuja narrativa cheia de reviravoltas impede que o leitor feche as páginas, até seu derradeiro final. O enredo discorre sobre o desaparecimento de uma jovem estudante, um assistente social acusado de pedofilia por uma jornalista que arma uma cilada que o joga num desses programas de auditório sensacionalista. O cara é inocentado por falta de provas, mas acaba assassinado em seguida. No meio disso, temos a repórter que perpetrou tudo e se tornou única testemunha do assassinato desse rapaz. Começa então, uma investigação da moça, cujo intento é descobrir se, de fato, desmascarou um criminoso ou se causou a morte de um homem inocente.

O enredo aqui é estruturado meio que de forma arquitetônica: o autor monta uma teia de acontecimentos em que cada pista, cada detalhe, aparentemente trivial, se revelará crucial adiante. O suspense não nasce da busca pelo culpado, mas sobre como as verdades se sobrepõem para depois se desfazerem. A condução é uma mistura de suspense policial clássico com drama humano contemporâneo.

Talvez esta seja a obra de Coben que escancara o circo despudorado da sociedade contemporânea que transforma tudo em espetáculo. A personagem principal, a jornalista Wendy Tynes, simboliza o poder e a responsabilidade ambígua das mídias; através de seu programa, Wendy acredita estar fazendo justiça ao expor criminosos, mas a trama levanta uma questão importante: será que a mídia jamais se equivoca?

Há um aspecto na história que me pareceu central: uma ferida emocional que guia sua protagonista por toda a história. No passado, um acidente ocasionado por uma jovem embriagada, resultou na morte do marido de Wendy. E isso não é citado por acaso. Harlan Coben desenvolve sua personagem sob um desejo inconsciente de reparação. Incapaz de perdoar o que lhe fizeram, ela passa a confundir justiça com vingança moral. O autor não menciona isso diretamente, mas deixa explicitado nas ações impetuosas de sua protagonista, na pressa em julgar o assistente social e na dificuldade em admitir a própria falibilidade.

Algo que me incomodou um pouco foi a ausência de profundidade emocional nas personagens. Talvez a condução vertiginosa, que é o ponto alto da obra, acabou por deixar o romance menos denso. Por exemplo, a vítima do assassinato, que poderia ser explorado como alguém trágico e multifacetado, acaba servindo apenas como uma mera peça do quebra-cabeça. Alguns diálogos também me pareceram pouco orgânicos, mas isso não chega a incomodar muito.

CILADA é um suspense envolvente que levanta questões importantes para nossa sociedade atual, mas não chega a ser uma obra memorável. O livro é um retrato da era da desconfiança; explicita que ninguém é o que parece ser; que verdades podem ser construídas ou desconstruídas e o problema da justiça como espetáculo social. Porém, acho que este é o trabalho de Harlan Coben mais rendido aos vícios da literatura moderna de consumo rápido: ritmo acelerado, múltiplas subtramas e certa superficialidade emocional das personagens.

NOTA: 7,6

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

CRÔNICA - A FILOSOFIA CLARICIANA

Ontem ao acordar, me deparei com uma barata no chão do banheiro. Quando me aproximei, ela começou a espernear de modo histérico, o que me fez esquecer a hipótese de que estivesse morta. Fiquei parado, diante daquele ser que sempre tive asco, observando seu desespero em desvirar para então fugir..., é inevitável: quando olho demais para esse inseto, minha memória se enche da leitura de um dos melhores livros que já li na vida: A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.

Mas nunca pensei em esmagar a barata e provar de sua massa, como faz a protagonista na trama. Falta-me a coragem e destreza de G.H. Então, com a ponta do coturno, ajudei a intrusa a se desvirar e acompanhei sua fuga desesperada..., foi a primeira vez que deixei uma barata escapar com vida de minha casa.

Estava em silêncio, observava a barata, mas pensava na obra de Clarice e todo o seu conteúdo imersivo e filosófico por excelência.

Se estivesse viva, possivelmente a autora negaria qualquer similaridade com a filosofia, mas penso que a literatura de Clarice Lispector deve causar assombro em muito filósofo que se orgulha de seu ofício. Desse modo, talvez pudéssemos cometer uma branda transgressão aqui, classificando o conteúdo de sua obra como “pensamentos claricianos; a filosofia do indizível”.

Ler Clarice Lispector nos faz refletir sobre a existência de uma camada de realidade que escapa à linguagem, mas que ainda assim tenta ser dita. Quem já leu essa autora, sabe muito bem do que estou falando: Clarice nos toca sem pedir licença, ela é uma escritora que nos lê, não o contrário.

Porém, esse “indizível” não é uma mera abstração, mas uma força viva, que pulsa, incomoda e assusta. Ou seja, ela pensa a anterioridade do ser, como pensava Bergson “a intuição como acesso ao real”.

Talvez o ápice filosófico em toda sua bibliografia, esteja mesmo em A Paixão segundo G.H., na qual a protagonista passa por um processo violentíssimo de rompimento com a própria existência. Mas o que, propriamente, está sendo rompido?

Quem sabe a perda da humanidade entendida como distinta, a personagem referida apenas por suas iniciais G.H., percorre o caminho que remete à mística apofática, como menciona Eckhart e Sartre, com a ideia de que perder o eu é o primeiro passo para acessar a verdade do mundo. Quando sua protagonista, cuja jornada inteira ocorre dentro de um quarto de empregada, encara a barata esmagada, está diante do núcleo duro da existência. Aquele ser horroroso e banal, uma mera barata esmagada, vira o símbolo do real que não se deixa domesticar.

Este seria o escopo essencial da filosofia clariciana: G.H. percebe que a vida é indiferente, mas absoluta; que há uma unidade profunda em todas as formas de ser; que não existe hierarquia entre aquilo que é humano e o que não é; que o mundo é inteiramente feito de uma mesma matéria. Ou seja, estamos diante de um pensamento filosófico que não é, de maneira alguma, simples e fácil..., trata-se de uma filosofia de ruptura, de ferida, de excessos e de revelação quase divinatória. Em A Paixão segundo G.H., a epifania é uma experiência de sofrimento, de lucidez extrema. E após o asco, o medo e o desconforto, a revelação ocorre.

Poderíamos ainda dentro dessa mesma deliberação, mencionar outro aspecto que me parece interessante: Clarice trabalha toda sua construção narrativa se utilizando de um sagrado sem dogma, sem nenhuma teologia, apenas uma espiritualidade feita do choque com a matéria, como uma mística do banal: Deus como uma barata, no absoluto silêncio.

Por outro lado, a autora lida com sua ausência de intenção. Para Clarice, escrever é um ato perigoso, porque implica enfrentar a si mesmo. Ela escreve como quem caminha na beira de um abismo. Suas frases são instrumentos de escuta interior e tentativa de tocar o núcleo da realidade. Clarice filosofa com dedos ágeis em sua máquina de escrever, deixa de lado formalismos de tratados. Para Clarice, a realidade existe antes de qualquer nome, a palavra é sempre tardia. Esse real seria o núcleo duro, aquilo que G.H. identifica quando se depara com a barata: a vida em seu estado mais bruto. É um ato que nos oferece uma espécie de ontologia igualitária, pois o humano não é superior à barata ou a qualquer outro ser da natureza..., tudo é a mesma matéria viva.

Portanto, a identidade revela-se como ilusão. A sensação de “eu” é apenas um artefato, um arquétipo. O eu seria uma construção social, psicológica, uma máscara que esconde a verdade do ser. E a verdadeira experiência ontológica só ocorre quando houver uma ruptura, quando a máscara se quebrar..., nesse momento surge a desidentificação. A personagem G.H. diz: “Perdi a minha forma humana”.

Essa perda é necessária para que ela acesse o estado neutro. É o contrário do cogito cartesiano: o pensamento não fundaria o eu, mas o dissolveria. Contudo, é um encontro que exige aceitação da própria fragilidade, quando G.H. compreende que o outro absoluto é uma barata, fazendo o respeito ontológico se estender a todos os seres. Só então poderá haver uma transformação, pois toda transformação nasce da fratura.

Nessa hipotética filosofia clariciana, a verdade não estaria nas convenções sociais, mas naquilo que nos assusta. É uma teologia negativa, distante de qualquer transcendência ou moral. O sagrado estaria incutido naquilo que é repulsivo, bruto..., está em todos os animais.

E como se faz para conhecer esse sagrado? Pela intuição, pois para Clarice a racionalidade não capta aquilo que é essencial. É preciso ir ao extremo e causar a fratura do eu.

Seria preciso um desprendimento estoico para tal. Não é o meu caso, pelo menos ainda não. Deixei que a barata fugisse, assim como deixei escapar todas as chances de romper com meus egos, minhas fraquezas. A filosofia clariciana é um encontro com o que nos causa terror e estranheza…, e por hora sou a mera teoria escrita. Pois como nos ensinou a própria Clarice Lispector, a escrita é apenas um método epistemológico: um modo de tentar dizer o indizível.

 FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

RESENHA DE LIVRO – A GLÓRIA e seu cortejo de horrores

Quando li o primeiro romance publicado de Fernanda Torres, intitulado FIM, tive a impressão de que os cinco personagens principais na trama pareciam sustentar a mesma voz, com discretas ressalvas. Atualmente, e após ter torcido muito pelo Oscar de melhor atriz para nossa querida Fernanda (que infelizmente não veio), chegou a vez de ler este que é seu segundo romance, cujo título é A GLÓRIA E SEU CORTEJO DE HORRORES. De imediato já posso destacar um aspecto favorável na leitura: estamos diante de um único narrador, cuja autora fez com que sua voz enchesse as páginas da obra de modo tão crível a ponto de quase me fazer esquecer que se trata de uma mulher dando voz ao protagonista Mario Cardoso.

A trama permeia a trajetória de um ator consagrado que trabalhou em várias novelas de sucesso no país. Contudo, mais velho, Mario encasqueta com a ideia de interpretar Shakespeare no teatro, culminando num período de sua carreira que exibe glória e fracasso em tempos alternados. Não é preciso que mais do que isso seja exposto como sinopse; com essa premissa em curso, a história pega o leitor pela mão e o leva através de uma narrativa honesta, ácida e explícita, de um homem vaidoso e irônico.

Através de seu protagonista, Fernanda Torres constrói uma espécie de alegoria da vaidade humana confrontada com o tempo, sem deixar explicitado uma questão que me pareceu central: o fascínio que a fama é capaz de exercer nas pessoas. Mario Cardoso é o típico artista que foi lapidado pelo olhar de seu público, portanto, carrega uma forte noção de identidade própria pautada na aprovação de terceiros. Contudo, à medida que o tempo passa e os aspectos biológicos do humano decaem, toda a estrutura narcísica acaba por ruir. É como se o “cortejo de horrores” incutido no título da obra, fosse um agouro inescapável.

Apesar da premissa parecer densa, Fernanda Torres sabe dosar a narrativa de modo a evitar alongadas monotonias ou inflexões de sua personagem. A autora ironiza o universo das celebridades e o vazio das relações pautadas pela fama, mas tece uma mesclagem do drama humano com certo tom irreverente.

Seria esta obra uma autocrítica disfarçada de ficção? O fato de Fernanda Torres pertencer ao mesmo universo de seu protagonista, não parece tornar sua escrita enviesada ou menos autêntica. Pelo contrário, há momentos em que a autora parece rir da classe artística, o que ao meu ver deixou o texto com uma percepção de honestidade, de quem conhece o ambiente que cerceia seu texto. Imagino que seja preciso coragem em retratar o lugar em que ainda se atua e convive.

Mario Cardoso é o arquétipo preciso de uma masculinidade vaidosa, performática e, ao mesmo tempo, frágil. Um homem que vive de sua imagem, mas percebe a própria decadência quando esta imagem se desfaz. Sua voz hora agrada pela honestidade, e noutros momentos nos deixa com vontade de parar de ler, tamanhas inconstâncias. É claro que se trata apenas de um achismo, mas fiquei com a impressão de que Fernanda Torres, sendo ela uma atriz, tenha convivido e visto de perto muitos Mario Cardoso ao longo de sua carreira. Ou seja, o olhar feminino parece ter aumentado a proximidade entre ficção e realidade.

A GLÓRIA E SEU CORTEJO DE HORRORES é um romance sobre vaidade, decadência, vazio existencial e mediocridade humana. O riso e a ironia servem como leve sopro na ferida social, onde tudo soa tangível: os bastidores, a corrupção e o declínio moral. Não se sabe se a autora criou uma ficção que é espelho da realidade, ou se fez exatamente o oposto: deu-nos a realidade, mas chamou de ficção para torná-la, digamos, um pouco mais palatável.

NOTA: 8,2