Certa vez, um paciente disse que a esposa surgiu na sala pedindo ajuda para cortar uma unha encravada que estava doendo muito. Ele não gostou do pedido por duas razões: sentia aflição ao ter que lidar com feridas, e no instante do pedido ele estava assistindo futebol. Porém, mesmo contrariado, atendeu o pedido da esposa. Afinal, quando uma esposa pede algo só há uma coisa a se fazer...
– Atender o pedido dela –
antecipou o paciente – mesmo se for a final do seu time.
– Exatamente! O homem que
é casado por mais de 24 horas sabe desse fato…, pelo menos foi o que garantiu esse
paciente.
– Esposa atendida
significa casamento feliz, doutor – ele achou o próprio comentário engraçado,
mas foi um misto de graça por conta do absurdo e choque pela constatação da
realidade.
– Enfim…, – fiz menção
por dar segmento ao relato, para não haver risco de desviarmos o assunto –
enquanto mexia com o alicate no dedo da mulher, repousado em sua perna, esse
paciente disse ter fixado a atenção em algo que, até aquele dia, considerava
banal: o pezinho delicado dela. E após algum tempo admirando, concluiu que
estava diante do pé mais lindo que já havia visto na vida.
Fiz uma pausa proposital.
Queria ver o que as feições do paciente revelavam. Notei certo desassossego,
mas não saberia identificar o motivo. Contudo, ele não disse nada.
– Esse homem disse que
naquela noite, os dois transaram incrivelmente, como não acontecia há anos.
Contou-me que havia se apaixonado de novo pela esposa, graças à contemplação de
um pé que ele havia ignorado a vida toda.
Outra pausa para ruminar
ideias.
– Minha esposa tem pés
horrorosos, doutor – disse ele, olhando-me meio decepcionado – são compridos e
esqueléticos. Já ouvi falar de caras que têm fetiche por pés, mas acho que não
funcionaria comigo.
– Não é sobre isso.
– Então por que me contou
essa história?
– Esqueça os pés, esse
não é o elemento principal do relato – e eu achando que ele havia captado a
mensagem – O que há de interessante nesse caso é que aquele paciente, de modo
involuntário, notou algo que esteve o tempo inteiro ali, diante de seus olhos,
sem que jamais houvesse dado atenção.
– Quer que eu dê mais
atenção à minha mulher?
– Não exatamente a ela,
mas aos pequenos detalhes. Observe com mais atenção, olhe ao redor para coisas
que ela faz, como ela manuseia objetos, suas manias, trejeitos..., toda a
admiração que sentimos se perde quando paramos de notar o que está em nosso
entorno. Isso é deletério em todos os sentidos. Estou falando do “lugar comum”,
esse estado em no qual apenas existimos, sem que se perceba os detalhes do que acontece…,
quando se está inserido no paraíso, o hábito nos força a deixar de notá-lo.
– Não conhece minha
esposa, doutor. Ela é meio neurótica, acho que não vai reagir muito bem se eu
ficar lhe bisbilhotando pela casa.
– Não é esse tipo de
observação vigilante. Precisa ser sutil com o olhar. Quando ela falar com você,
preste atenção nos olhos, veja como mexe a boca, repare o pescoço dela...,
detalhes. E se acaso algo lhe chamar a atenção, não hesite em elogiar.
– É que as vezes a gente
não se lembra de praticar essas coisas, doutor – ele esfregou as duas mãos no comprimento
das pernas, como se o simples pensamento sobre aquelas dicas já o esgotasse –
Quando chego em casa, geralmente estou cansado do trabalho.
– Ocorre que tudo na vida
é uma questão de prioridade – falei, enquanto lutava interiormente para evitar
a manifestação de um suspiro de pesar – Se o seu casamento não é prioridade
hoje, continuará chegando exausto do trabalho e talvez sua vida conjugal continue
como está…, pelo menos por mais algum tempo.
– Está insinuando que
devo trabalhar menos?
– Não estou insinuando
nada. O que disse foi que tudo na vida é uma questão de prioridade. Se o
trabalho hoje é sua prioridade, possivelmente está dando menos atenção a outras
áreas da sua vida. Disse noutra sessão, que é um homem estabilizado financeiramente
e que já tem patrimônio garantido pelo resto de seus dias.
– Ocorre que outras
pessoas também dependem do que faço.
– Isso é nobre de sua
parte..., mas por que você continua trabalhando tanto?
– Sou dono de uma empresa
com capital de doze milhões de reais, doutor – homens como esse paciente
costumam depositar muito ego em suas posições no trabalho. O discurso era de
vitimismo, mas na verdade, não era difícil notar certo orgulho – Muitos
compromissos requerem minha atenção, todos os dias.
– Você não precisa dar
nenhuma explicação a mim. Mas vou reiterar o que acabei de dizer: tudo na vida
é questão de prioridade. Portanto, suas prioridades serão os lugares onde você
dispenderá maior tempo e dedicação..., ou você já viu alguém que sobreviveu à
um infarto, dizer que não tem tempo pra fazer atividade física?
Dessa vez, ele se remexeu
na poltrona, desconfortável.
– Antes do infarto, o
médico dava orientações e ele retrucava: “não tenho tempo pra isso, doutor!”.
Então depois de quase morrer, todos os dias as cinco da manhã e lá está o
empresário ocupadíssimo fazendo sua caminhada religiosamente. Pergunto: o que
foi que mudou na vida desse sujeito?
– Ele deixou de ser
sedentário?
– Ele mudou de
prioridade.
Muitas vezes a terapia
consiste em dizer o óbvio para alguns pacientes. Infelizmente esse ato está
sendo cada vez mais necessário. As pessoas não encontram sentido em suas vidas,
então dedicam todo esforço em coisas que disseram que pra elas que era
importante: carreira, filhos, obtenção material, posição social… Contudo, quase
sempre se esquecem daquilo que é mais fundamental: elas próprias.
– Não posso deixar de
trabalhar..., minha filha ainda não possui estabilidade garantida.
– Ninguém tem
estabilidade garantida. Isso demandaria mais do que apenas dinheiro, requer
elementos que não podemos controlar. De qualquer forma, você não precisa parar
de trabalhar, talvez só tenha que alterar o modo como trabalha.
– Como assim?
– Disse que chega em casa
exausto todos os dias. Isso pode ser indicativo de que precise mudar alguns
aspectos da sua rotina..., talvez delegar mais de suas funções para outras
pessoas fazerem.
– As pessoas são
incompetentes! – ele alterou um pouco a voz, como se o que eu tivesse sugerido
fosse uma aberração – Não confio nelas.
– Não confia na sua
equipe de trabalho?
– Em parte, sim...,
porém, são incapazes de desempenhar minhas funções da mesma maneira que eu
faço.
– Mas talvez elas
consigam fazer da maneira delas.
– E, portanto, com
resultados piores.
– Você pode se
surpreender com a capacidade das pessoas. Quantas vezes você tentou dar uma
chance para seus colaboradores?
O silêncio dele foi
resposta suficiente.
– Lembra-se da atenção
aos detalhes que acabamos de conversar? – perguntei.
– Claro que me lembro.
– Pois bem..., esse hábito não serve apenas para o casamento. Serve para todos os aspectos da nossa vida. Pode ser que você sustente baixa percepção aos detalhes de cada membro de sua equipe. E esse descuido não permite que note atributos interessantes que poderiam conferir ganhos para a empresa, e talvez aliviar a pressão sobre você.
– Tudo bem, doutor..., darei mais atenção aos pequenos detalhes.











