De posse de um grande material, Javier Moro já nos mostrou que sabe contribuir histórias envolventes. Mas algumas vezes, o excesso de intenção do autor enfraquece justamente aquilo que a própria história já conseguiria fazer por si só…, deixe-me explanar isso mais a fundo:
O PÉ DE JAIPUR é uma
obra que, ao meu ver, permite reflexões interessantes sobre experiências
concretas: a ruptura e a reconstrução da vida de uma pessoa. Partindo desse
ponto, chegamos a questões maiores: deficiência, dignidade, autonomia,
desigualdade, tecnologia e, sobretudo, a capacidade humana de reconstruir a
própria existência depois de uma tragédia.
Na trama, Christophe sofre um
acidente grave que o deixa tetraplégico aos vinte anos de idade, algo que
transforma completamente sua vida. Na clínica de reabilitação em que se submete
a testes experimentais no intuito de recuperar alguns movimentos do corpo, ele
conhece Song, um cambojano com deficiências semelhantes que contraiu no tempo
em que sobreviveu ao regime imposto pelo Khmer Vermelho em seu país.
A narrativa, especialmente no
início, quando estamos acompanhando a vida de Christophe, explicita o quanto a
tetraplegia vai além da ausência física; ela altera a relação do sujeito com
próprio corpo, com o ambiente, com as pessoas e com sua identidade. Caminhar,
vestir-se, locomover-se, lidar com a sociedade, as atividades mais banais do
cotidiano passam a adquirir outras dimensões. O corpo, que antes era
praticamente imperceptível ao próprio indivíduo, torna-se seu desafio diário.
O título da obra refere-se a
uma prótese de baixo custo, criada por pesquisadores com o intuito de atender a
demanda muito grande de pessoas em situação de pobreza, principalmente nos
países que viveram guerras violentas, onde o número de cidadãos que perderam
partes do corpo é muito grande. E apesar de o livro tocar no assunto das
desigualdades sociais e as poucas pessoas que possuem acesso as inovações
tecnológicas, ele não aprofunda muito sobre esse tema espinhoso.
Até aqui tudo perfeito: temos
um ótimo conteúdo e Javier Moro é um exímio contador de histórias (O
Sári Vermelho e A Flor da Pele são duas obras que provam isso. Tem resenha dos
dois livros aqui no blog). No entanto, a construção narrativa se torna menos
eficiente quando Moro tenta transformar duas experiências de deficiência física
em uma amizade.
Christophe e Song funcionam
melhor separadamente. A trajetória inicial de um permite acompanhar a ruptura
provocada pelo acidente: há um antes e um depois do acidente. A reconstrução de
Christophe não é apenas física, mas também existencial e prática. Enquanto
Song, carrega uma dimensão histórica muito mais pesada: a sobrevivência ao
Khmer Vermelho acrescenta à deficiência uma experiência de violência política,
pobreza e contraste social.
São duas histórias fortes, que
perdem um pouco do potencial narrativo quando o autor cisma que precisa
estabelecer uma ligação afetiva entre elas. A condição física comum é uma
circunstância objetiva, mas não basta para produzir uma amizade entre duas
pessoas. Os instantes de interação entre Christophe e Song não parecem
orgânicos, a amizade funcionar meramente como um dispositivo narrativo: Javier
Moro precisa aproximar seus protagonistas para dar sustentação à história,
e não porque os dois personagens desenvolveram espontaneamente essa relação.
E para piorar, na reta final é
inserido na trama a paraolimpíadas de 92 em Barcelona, onde os dois
protagonistas participam como competidores. Pareceu-me um mecanismo de
fechamento, cujo intento é deixar de lado o tema da reconstrução, para focar na
superação. E existe uma diferença estrutural importante nesses dois conceitos:
Reconstruir a vida não
significa necessariamente vencer aquilo que aconteceu, mas encontrar uma
maneira de continuar existindo apesar da ruptura. Christophe e Song não voltam
a ser os homens que eram antes do acidente; o acontecimento permanece inscrito na
biografia de ambos. A reconstrução, portanto, pressupõe cicatriz.
Já o conceito de superação é
um pouco mais problemático, porque sugere a existência de um “ponto final”. Ou
seja, existe um sofrimento, seguido de uma luta que resulta em vitória. Ou
seja, a típica trajetória do herói. É uma estrutura narrativa sedutora,
sobretudo porque ela oferece ao leitor conclusões moralmente satisfatórias.
Contudo, a experiência humana raramente é tão organizada.
Dada as devidas diferenças,
podemos compreender que O PÉ DE JAIPUR é uma narrativa mais potente
quando mostra as dificuldades concretas da reconstrução: o corpo que já não
responde da mesma maneira, a dependência extrema, limitações, necessidade de se
reaprender gestos simples, diferenças de condições substanciais dos personagens.
Aqui não há necessidade de uma grande mensagem, a própria vida dos personagens
é o ponto forte da trama.
O autor optou pelo caminho da superação em sua narrativa: a edificação do sofrimento, coroada com os dois personagens disputando a paraolimpíadas como sendo a coroação de suas vidas. Ou seja, aconteceu uma tragédia, o indivíduo lutou heroicamente, encontrou recursos e tornou-se um exemplo. É um recurso contraditório porque ele transforma a vítima em herói, algo que passa uma mensagem de obrigação moral para o leitor. Isso pode ser deletério, pois se a reconstrução é apresenta nos termos da superação, aquele que não consegue reconstruir sua vida nos mesmos termos, pode parecer alguém que fracassou…, enfim.
O PÉ DE JAIPUR é um trabalho interessante, cuja premissa é apresentar a árdua batalha travada por aqueles que enfrentam a prisão do corpo. Mas infelizmente a trama opta por exibir essa luta através da lógica do herói, em detrimento da incorporação de um desastre à própria biografia do indivíduo…, uma pena.
NOTA: 6,6











