Toda criança é um artista entusiasmado, tomado por um inesgotável senso de curiosidade, uma criança não se cansa de invadir o inexplorado, experimentar situações novas, correr riscos, não teme a exposição e pouco se importa com a opinião dos outros..., crianças adoram criar coisas. É quase possível afirmar que a infância é a fase na qual o ser humano vivencia seu mais elevado grau de desenvolvimento cognitivo.
E num fatídico dia, essa
criança se torna um adulto. Metamorfose regressiva, esse adulto agora é
entediado, detesta sair de sua zona de conforto, vive cansado, recusa qualquer
chance de fazer algo de um jeito diferente, é demasiadamente precavido, morre de
medo da opinião alheia e sua única válvula de escape é passar os fins de semana
deitado no sofá, maratonando séries em canais de estreaming.
– Quando foi que você se
tornou esse adulto chato? – perguntei ao paciente, após minha pessimista explanação
sobre perda da infância.
Como era de se esperar,
ele não respondeu rapidamente. É normal as pessoas não saberem o que dizer
quando são confrontadas com questões completamente distintas daquilo que foram
treinadas a responder.
– Não sou um adulto chato
– disse ele, emburrado, feito uma criança.
– Fique sossegado, todos
os adultos são..., mas se o termo “chato” lhe soou desconfortável, vamos mudar
para “diferente”. Quando você se tornou esse adulto tão diferente da criança
que foi um dia?
– O que o faz pensar que
sou tão diferente assim? – ele estava muito na defensiva.
– É uma hipótese.
– Não acho que eu me
tornei tão diferente..., pelo menos não na essência. Claro que biologicamente
falando eu mudei, também passei a ter mais responsabilidades. Mas quem eu
realmente sou não mudou…, eu acho.
– E quem é você?
– Eu sou..., bom, você
sabe quem sou. Meu nome está bem aí na sua agenda clínica.
– O nome que lhe deram
quando nasceu não é você. De modo que vou insistir na pergunta: quem é você?
Ele me encarou por alguns
segundos, tentando desvendar o que eu queria dele.
– Sou um empresário,
marido e pai de uma filha adolescente.
– Isso também não é você.
Apenas tem a ver com sua profissão e funções sociais. E apesar de importantes,
essas coisas não o definem..., portanto, quem é você?
Dessa vez consegui fazer
com que o paciente olhasse para dentro de si mesmo. Ele respirou longamente,
observou o tapete sob seus pés, cruzou os braços e aguardou por algum tempo, no
mais absoluto silêncio. E apesar de ter discordado sobre ter se tornado um
adulto diferente do menino que um dia foi, agora não apresentava grande
desassossego..., de fato, ele parecia quase contemplativo.
– Nunca me perguntaram
isso. Pelo menos não dessa forma.
– De que forma?
– Não sei..., dessa forma
genuinamente interessada em saber quem sou. Geralmente quando me fazem essa
pergunta, as respostas que ofereço costumam dar conta. Mas acho que é a
primeira vez que percebo que nada do que respondi ao longo da vida sou eu.
– Como se sente em
relação a isso?
– Bem..., parece que eu
não sei quem sou.
– Talvez você tenha se
distanciado demais daquela criança que foi um dia.
– Você acha?
– O que eu acho não tem
importância. Afinal, eu não conheci a criança que você foi..., mas o que
realmente importa é o que você acha.
Ele retornou ao estado
contemplativo. Seu olhar não mais testemunhava o cenário externo. Na verdade,
ele parecia mergulhar para dentro da alma.
– Quando eu era menino,
gostava de brincar com recortes de revistas – ele começou a falar, o olhar
ainda compenetrado – Pegava as revistas de moda da minha mãe e passava horas
caçando figuras das mais variadas. Usava os recortes para construir murais de diferentes
temas: casas, animais, cidades, pessoas..., esse último era o meu favorito.
Retirava imagens de pessoas que eu não soubesse o nome, entende? Não dos
artistas famosos, porque os famosos eu sabia o nome deles. No meu mural só
havia pessoas das quais não conhecia seus nomes..., e depois que os colava no
papelão, eu pendurava na parede do quarto e ficava observando seus rostos,
queria saber quem eram aquelas pessoas, ondem moravam, quais eram seus nomes –
ele despertou das lembranças e me olhou, um pouco encabulado – Sei que era uma
atividade idiota.
– Não era não. Idiota é
essa sua afirmação, porque sei que não acredita nisso. Agora compreende porque
eu disse que todo adulto é um chato?
– Sim, acho que você tem
razão..., mas não sei dizer quando foi que me tornei esse adulto chato.
– Não tem problema.
– Acho que a sociedade
vai nos moldando de modo a nos deixar em plena conformidade com o que o sistema
social vigente precisa que sejamos. Desenvolver nossa essência é considerado
improdutivo, por isso nos doutrinam – de repente, ele pareceu espantado – Talvez
mais simples do que dizer quem sou, seja dizer o que eu me tornei, doutor.
– Então diga: o que você
se tornou?
– Eu me tornei um
acumulador de patrimônio, mesquinho. Quanto mais eu ganho, mais parece que
preciso ganhar para suprir alguma vazio. É como se eu estivesse numa competição
sem fim, onde cada pessoa ao redor eu o interprete como sendo um adversário,
então preciso ultrapassá-lo, ter mais poder, mais status, mais notoriedade...,
doutor, eu me tornei um...
Ele hesitou. Como é
difícil encontrar a palavra certa que unifique tantos adjetivos que pairam em
nossa mente sobre aquilo que nos tornamos.
– Um competidor...,
tornei-me um guerreiro contemporâneo.
– Fale um pouco sobre
esse seu eu guerreiro.
– Esse guerreiro é um
sujeito mesquinho, amedrontado, que aprendeu a desconfiar de todos ao redor.
Para além de sua epiderme tudo é ameaçador, por isso ele aprendeu a não ter
compaixão e suas relações sociais estão estabelecidas sob a lógica da escada: todos
estão sobre algum degrau, uns acima outros abaixo..., e esta é a batalha do
guerreiro: alcançar o próximo degrau, enquanto impede que roubem o seu lugar
atual.
– É uma ótima metáfora –
falei, tentando o manter motivado, mas sem me abster da sinceridade – a
resposta parece ter saído de dentro de você sem grande dificuldade.
– Acho que sim – ele
inspirou demoradamente, como se houvesse acabado de encontrar uma enorme
bagunça dentro de si – Eu nunca pensei que fosse dizer isso de mim mesmo, mas
acho que sou uma pessoa horrível, doutor.
– Você não é uma pessoa
horrível.
– Não estou sendo autoindulgente.
– E nem eu estou sendo razoável – levantei-me e fui até o bebedouro, no canto da sala – veja bem: geralmente quando paramos para observar nossa própria existência, com humildade e retidão, costumamos nos assustar com alguns aspectos negativos em nossa atual constituição humana, os quais passamos a vida inteira ignorando. O fato é que todos nós estamos moldados por um misto de traços positivos e outros negativos. Pode ser que você esteja assustado, porque por alguma razão se recusou a observar aquilo que pode melhorar em sua personalidade. Sempre há lugares em nós que são ignorados com o tempo. E quando disse que não estou sendo razoável, é porque acredito que o primeiro passo para se mudar algo dentro de nós, é reconhecer aquilo que precisa ser mudado..., e você está fazendo essa autoanálise agora – retornei com um copo com água e o entreguei – algumas vezes vai doer essa etapa de identificar suas falhas, mas o processo de cura começa com essa dor.
– Sabe, ao mesmo tempo em
que consigo enxergar algumas falhas de caráter em mim, também percebo que não
quero mudar; como se meus comportamentos funcionassem como medidas protetivas
que impedem que outras pessoas sejam invasivas..., é como se houvessem duas
vozes dentro da minha cabeça, doutor. Cada uma diz uma coisa contrária da
outra.
– Observe e tente
compreender o que estas vozes estão dizendo, o que há de importante em cada
orientação que as vozes ditam. Então seu trabalho é pegar tudo e discernir, com
coerência e desprendimento, até que você encontre a solução mais equilibrada.
As vozes dentro da nossa cabeça costumam intimidar, causar medo, nos deixar
tristes e até fazer com que percamos a confiança..., mas elas são como
espectros de experiências da vida que você viveu até hoje. Contudo, essas vozes
não são você.
– Como assim? – ele quase
engasgou com a água – então a quem pertencem essas malditas vozes?
Como explicar para aquele
paciente, de um modo que parecesse o menos metafísico possível, sem confrontar
seu enorme ceticismo?
– Acho que vai ficar mais simples entender isso, utilizando uma ideia de um poeta chamado Khalil Gibran – dessa vez foi minha vez de inspirar longamente – a ideia dele é a seguinte: “Deus disse: ‘ame o seu inimigo!’ Eu obedeci, e amei à mim mesmo”.
Parado com o copo descartável vazio na mão, o paciente ficou encarado no tapete do chão por algum tempo. Depois, se despediu e foi embora, prometendo pensar sobre a sessão de hoje, mas eu estava convicto de que ele havia entendido a mensagem.
**continua**











