sábado, 24 de janeiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – TODOS OS NOMES

As obras de José Saramago parecem um convite a olharmos para aquilo de mais pequeno existente ao nosso redor, pois é lá que o essencial se esconde. O autor tem essa capacidade de partir de um ponto banal e transformar o cotidiano mais simples de suas personagens.

Em TODOS OS NOMES essa característica é ainda mais evidente: seu protagonista é um homem comum, invisível, alguém ignorado. Trabalha em escritório, vive sozinho, coleciona recorte de jornais…, pois justamente a partir dessa existência ordinária que Saramago constrói suas observações a respeito do ser humano.

A trama gira em torno do Sr. José, funcionário de uma espécie de cartório de registro civil, instituição burocrática que guarda registro de todos os vivos e mortos. O sr. José segue seus dias de forma automatizada e corriqueira, até que de modo acidental, cria interesse pelo registro de uma mulher desconhecida e decide investigar sua vida, rompendo a ordem institucional e mergulhando em uma jornada que mistura obsessão, identidade e transcendência.

O conhecido estilo narrativo do autor se faz presente nessa obra; uso de frases extensas, diálogos entrelaçados, pontuação confusa, meio que imitando um fluxo de consciência. O estilo aqui ganha em potencial, pois parece refletir o modo confuso e incerto de seu personagem. A prosa é, ao mesmo tempo, uma crítica com pitadas de filosofia. Contudo, sempre reforço cautela aos leitores que desconhecem o estilo saramaguiano, pois pode incomodar um pouco.

TODOS OS NOMES é uma obra alegórica por definição. Uma crítica à necessidade de buscar identidade dentro de uma sociedade impessoal e robotizada. Saramago denuncia o mundo contemporâneo que transforma vidas em registros, desafiando o leitor a refletir sobre a própria existência. O título do livro faz referência, mas propositalmente a única personagem detentora de nome próprio é seu protagonista. Todos os demais são identificados por substantivos.

O cartório é um bom exemplo dessa alienação social. É um órgão público, porém, assemelha-se a um labirinto metafísico, como se fosse um espaço entre a vida e a morte. A ficha da mulher desconhecida nas mãos do Sr. José é o símbolo do que se perdeu na humanidade: nosso herói parte de dados numéricos para ir em busca do ser humano de verdade. O cartório existe como uma instância cujo objetivo é reduzir o ser humano a algo que possa ser meramente registrado, arquivado, controlado.

Há um problema que tornou a leitura um pouco arrastada: o ritmo é lento, algo quase hipnótico, marcado pela busca incessante do personagem principal através do alongado interior do cartório, como se fosse um labirinto mesmo. Essa sensação de arrasto incomoda, mesmo para leitores que já conhecem o estilo prolixo do autor. Por exemplo, há encontros com outras personagens interessantes, como um pastor de ovelhas dentro de um cemitério, cujos diálogos parecem encurtados para que o Sr. José continue sua jornada exaustiva. Saramago não nos permite repousar na reflexão dos encontros entre personagens, prefere insistir no movimento da busca do protagonista, o que é uma pena. Talvez o cartório como metáfora do labirinto, não é apenas um cenário, mas a própria narrativa. Mesmo assim, confesso que em alguns momentos a leitura me fez bocejar.

TODOS OS NOMES é uma obra de grande densidade simbólica e filosófica, que transforma o cotidiano burocrático de um homem em uma jornada de reflexão sobre identidade, solidão e o apagamento da individualidade dos seres humanos. A leitura pode ser exigente e um pouco cansativa, mas por sua premissa singular, vale a pena a travessia do labirinto simbólico articulado por outro José, o nosso eterno Saramago.

NOTA: 6,9

sábado, 10 de janeiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – TODOS CONTRA TODOS – o ódio nosso de cada dia

Em tempos onde o ego humano se tornou objeto explorado a todo custo em nome do lucro, da vaidade moral como força política e cultural, o historiador Leandro Karnal meio que parte da ideia hobbesiana de que o homem é o lobo do homem, atualizando nesta obra introdutória sobre o tema, o conceito para o universo contemporâneo.

Em TODOS CONTRA TODOS, o autor faz uma breve mescla filosófica, histórica e sociológica sobre o fenômeno da polarização nos dias atuais. O título, inclusive, antecipa esta que é a ideia central: estamos inseridos num tempo em que a convivência se tornou insustentável porque cada grupo enxerga o outro não como interlocutor, mas como um inimigo.

Para Karnal, a grande mudança do nosso tempo é que o conflito saiu da esfera do físico ou econômico, tornando-se moral e simbólico. A luta atual seria por validação individual, pela superioridade moral, cada um de nós se sustenta no espaço social como régua de medida do equilibrado e aceitável. O outro é sempre algo ruim, desfuncional e injusto. Criamos bolhas nas quais temos apenas convivência com aquele que pensa igual, demonizamos assim, todo pensamento diferente.

O autor faz uma provocação pertinente: nunca se falou tanto sobre moralidade, porém, nunca se viveu tão pouco a ética. Segundo ele, a moral teria se tornado instrumento de autopromoção, e não de conduta; cada um de nós tenta exibir “o lado certo da história”, mas pouco se reflete sobre o propósito de se defender certas pautas. É uma crise ética revelada quando confundimos virtude com visibilidade. Em tempos de excesso de informação e fragmentação cultural, cada indivíduo atua como juiz e profeta de si mesmo, gerando um relativismo nocivo.

O ser humano sobreviveu como espécie graças à cooperação, pois se trata de criatura desprovida de habilidades fundamentais de subsistência, como couraça, capacidade de voar, garras afiadas, porte físico elevado ou velocidade. Na natureza, o ser humano é praticamente o mamífero mais vulnerável da categoria. Portanto, foi a vida em comunidade e o cuidado mútuo, a transmissão de saberes despendido pela espécie humana, os elementos que possibilitaram nossa sobrevivência dentro de um mundo hostil.

E o grande paradoxo de nossa sociedade contemporânea, é que quanto mais conectados estamos (graças à internet), mais isolados nos tornamos. A lógica do “todos contra todos” inverte a nossa natureza cooperativa; o ser humano transformou os espaços de convivência em campos de batalha moral. Karnal chama isso de falência da alteridade, ou seja, a perda da capacidade de reconhecer o outro como alguém legítimo em sua diferença. Quando a empatia se rompe, surge o medo, o ressentimento e, finalmente, o ódio.

Um ponto que me incomodou é que a obra carrega uma sensação de condensação excessiva, como se fosse uma versão escrita de uma das muitas palestras do autor. O texto tem ritmo oral e fluente, o que ajuda a prender o leitor, mas parece sacrificar a densidade analítica. Leandro Karnal faz um alerta para os perigos da superficialidade e o consumo instantâneo, mas parece que é precisamente o que ele faz aqui. Há também instantes em que utiliza algum sarcasmo e um pouco de humor os quais são característicos em suas palestras, mas no contexto escrito pode dificultar a leitura de quem não está familiarizado com o conteúdo visual do autor.

Enfim, TODOS CONTRA TODOS funciona melhor se encarado como uma introdução acessível ao tema do ódio e da polarização, e não como um tratado filosófico ou sociológico. E apesar de eu terminar a leitura com a sensação de que se trata de uma obra menor do que a capacidade intelectual de seu autor, trata-se de um trabalho que não pretende ser o mapa definitivo de sua pauta, mas um convite ao leitor que deseja começar a explorar o tema do ódio.

NOTA: 7,8

sábado, 20 de dezembro de 2025

RESENHA DE LIVRO – CILADA

Cada leitura que faço das obras de Harlan Coben aumenta minha admiração por sua capacidade de inserir diversas situações e personagens na mesma trama, e amarrar tudo de forma minuciosa, sem esquecer de responder a cada uma das muitas questões que nós, os apreensivos leitoras, levantamos ao longo da leitura.

CILADA só comprova essa regra. É um thriller de suspense, cuja narrativa cheia de reviravoltas impede que o leitor feche as páginas, até seu derradeiro final. O enredo discorre sobre o desaparecimento de uma jovem estudante, um assistente social acusado de pedofilia por uma jornalista que arma uma cilada que o joga num desses programas de auditório sensacionalista. O cara é inocentado por falta de provas, mas acaba assassinado em seguida. No meio disso, temos a repórter que perpetrou tudo e se tornou única testemunha do assassinato desse rapaz. Começa então, uma investigação da moça, cujo intento é descobrir se, de fato, desmascarou um criminoso ou se causou a morte de um homem inocente.

O enredo aqui é estruturado meio que de forma arquitetônica: o autor monta uma teia de acontecimentos em que cada pista, cada detalhe, aparentemente trivial, se revelará crucial adiante. O suspense não nasce da busca pelo culpado, mas sobre como as verdades se sobrepõem para depois se desfazerem. A condução é uma mistura de suspense policial clássico com drama humano contemporâneo.

Talvez esta seja a obra de Coben que escancara o circo despudorado da sociedade contemporânea que transforma tudo em espetáculo. A personagem principal, a jornalista Wendy Tynes, simboliza o poder e a responsabilidade ambígua das mídias; através de seu programa, Wendy acredita estar fazendo justiça ao expor criminosos, mas a trama levanta uma questão importante: será que a mídia jamais se equivoca?

Há um aspecto na história que me pareceu central: uma ferida emocional que guia sua protagonista por toda a história. No passado, um acidente ocasionado por uma jovem embriagada, resultou na morte do marido de Wendy. E isso não é citado por acaso. Harlan Coben desenvolve sua personagem sob um desejo inconsciente de reparação. Incapaz de perdoar o que lhe fizeram, ela passa a confundir justiça com vingança moral. O autor não menciona isso diretamente, mas deixa explicitado nas ações impetuosas de sua protagonista, na pressa em julgar o assistente social e na dificuldade em admitir a própria falibilidade.

Algo que me incomodou um pouco foi a ausência de profundidade emocional nas personagens. Talvez a condução vertiginosa, que é o ponto alto da obra, acabou por deixar o romance menos denso. Por exemplo, a vítima do assassinato, que poderia ser explorado como alguém trágico e multifacetado, acaba servindo apenas como uma mera peça do quebra-cabeça. Alguns diálogos também me pareceram pouco orgânicos, mas isso não chega a incomodar muito.

CILADA é um suspense envolvente que levanta questões importantes para nossa sociedade atual, mas não chega a ser uma obra memorável. O livro é um retrato da era da desconfiança; explicita que ninguém é o que parece ser; que verdades podem ser construídas ou desconstruídas e o problema da justiça como espetáculo social. Porém, acho que este é o trabalho de Harlan Coben mais rendido aos vícios da literatura moderna de consumo rápido: ritmo acelerado, múltiplas subtramas e certa superficialidade emocional das personagens.

NOTA: 7,6

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

CRÔNICA - A FILOSOFIA CLARICIANA

Ontem ao acordar, me deparei com uma barata no chão do banheiro. Quando me aproximei, ela começou a espernear de modo histérico, o que me fez esquecer a hipótese de que estivesse morta. Fiquei parado, diante daquele ser que sempre tive asco, observando seu desespero em desvirar para então fugir..., é inevitável: quando olho demais para esse inseto, minha memória se enche da leitura de um dos melhores livros que já li na vida: A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.

Mas nunca pensei em esmagar a barata e provar de sua massa, como faz a protagonista na trama. Falta-me a coragem e destreza de G.H. Então, com a ponta do coturno, ajudei a intrusa a se desvirar e acompanhei sua fuga desesperada..., foi a primeira vez que deixei uma barata escapar com vida de minha casa.

Estava em silêncio, observava a barata, mas pensava na obra de Clarice e todo o seu conteúdo imersivo e filosófico por excelência.

Se estivesse viva, possivelmente a autora negaria qualquer similaridade com a filosofia, mas penso que a literatura de Clarice Lispector deve causar assombro em muito filósofo que se orgulha de seu ofício. Desse modo, talvez pudéssemos cometer uma branda transgressão aqui, classificando o conteúdo de sua obra como “pensamentos claricianos; a filosofia do indizível”.

Ler Clarice Lispector nos faz refletir sobre a existência de uma camada de realidade que escapa à linguagem, mas que ainda assim tenta ser dita. Quem já leu essa autora, sabe muito bem do que estou falando: Clarice nos toca sem pedir licença, ela é uma escritora que nos lê, não o contrário.

Porém, esse “indizível” não é uma mera abstração, mas uma força viva, que pulsa, incomoda e assusta. Ou seja, ela pensa a anterioridade do ser, como pensava Bergson “a intuição como acesso ao real”.

Talvez o ápice filosófico em toda sua bibliografia, esteja mesmo em A Paixão segundo G.H., na qual a protagonista passa por um processo violentíssimo de rompimento com a própria existência. Mas o que, propriamente, está sendo rompido?

Quem sabe a perda da humanidade entendida como distinta, a personagem referida apenas por suas iniciais G.H., percorre o caminho que remete à mística apofática, como menciona Eckhart e Sartre, com a ideia de que perder o eu é o primeiro passo para acessar a verdade do mundo. Quando sua protagonista, cuja jornada inteira ocorre dentro de um quarto de empregada, encara a barata esmagada, está diante do núcleo duro da existência. Aquele ser horroroso e banal, uma mera barata esmagada, vira o símbolo do real que não se deixa domesticar.

Este seria o escopo essencial da filosofia clariciana: G.H. percebe que a vida é indiferente, mas absoluta; que há uma unidade profunda em todas as formas de ser; que não existe hierarquia entre aquilo que é humano e o que não é; que o mundo é inteiramente feito de uma mesma matéria. Ou seja, estamos diante de um pensamento filosófico que não é, de maneira alguma, simples e fácil..., trata-se de uma filosofia de ruptura, de ferida, de excessos e de revelação quase divinatória. Em A Paixão segundo G.H., a epifania é uma experiência de sofrimento, de lucidez extrema. E após o asco, o medo e o desconforto, a revelação ocorre.

Poderíamos ainda dentro dessa mesma deliberação, mencionar outro aspecto que me parece interessante: Clarice trabalha toda sua construção narrativa se utilizando de um sagrado sem dogma, sem nenhuma teologia, apenas uma espiritualidade feita do choque com a matéria, como uma mística do banal: Deus como uma barata, no absoluto silêncio.

Por outro lado, a autora lida com sua ausência de intenção. Para Clarice, escrever é um ato perigoso, porque implica enfrentar a si mesmo. Ela escreve como quem caminha na beira de um abismo. Suas frases são instrumentos de escuta interior e tentativa de tocar o núcleo da realidade. Clarice filosofa com dedos ágeis em sua máquina de escrever, deixa de lado formalismos de tratados. Para Clarice, a realidade existe antes de qualquer nome, a palavra é sempre tardia. Esse real seria o núcleo duro, aquilo que G.H. identifica quando se depara com a barata: a vida em seu estado mais bruto. É um ato que nos oferece uma espécie de ontologia igualitária, pois o humano não é superior à barata ou a qualquer outro ser da natureza..., tudo é a mesma matéria viva.

Portanto, a identidade revela-se como ilusão. A sensação de “eu” é apenas um artefato, um arquétipo. O eu seria uma construção social, psicológica, uma máscara que esconde a verdade do ser. E a verdadeira experiência ontológica só ocorre quando houver uma ruptura, quando a máscara se quebrar..., nesse momento surge a desidentificação. A personagem G.H. diz: “Perdi a minha forma humana”.

Essa perda é necessária para que ela acesse o estado neutro. É o contrário do cogito cartesiano: o pensamento não fundaria o eu, mas o dissolveria. Contudo, é um encontro que exige aceitação da própria fragilidade, quando G.H. compreende que o outro absoluto é uma barata, fazendo o respeito ontológico se estender a todos os seres. Só então poderá haver uma transformação, pois toda transformação nasce da fratura.

Nessa hipotética filosofia clariciana, a verdade não estaria nas convenções sociais, mas naquilo que nos assusta. É uma teologia negativa, distante de qualquer transcendência ou moral. O sagrado estaria incutido naquilo que é repulsivo, bruto..., está em todos os animais.

E como se faz para conhecer esse sagrado? Pela intuição, pois para Clarice a racionalidade não capta aquilo que é essencial. É preciso ir ao extremo e causar a fratura do eu.

Seria preciso um desprendimento estoico para tal. Não é o meu caso, pelo menos ainda não. Deixei que a barata fugisse, assim como deixei escapar todas as chances de romper com meus egos, minhas fraquezas. A filosofia clariciana é um encontro com o que nos causa terror e estranheza…, e por hora sou a mera teoria escrita. Pois como nos ensinou a própria Clarice Lispector, a escrita é apenas um método epistemológico: um modo de tentar dizer o indizível.

 FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

RESENHA DE LIVRO – A GLÓRIA e seu cortejo de horrores

Quando li o primeiro romance publicado de Fernanda Torres, intitulado FIM, tive a impressão de que os cinco personagens principais na trama pareciam sustentar a mesma voz, com discretas ressalvas. Atualmente, e após ter torcido muito pelo Oscar de melhor atriz para nossa querida Fernanda (que infelizmente não veio), chegou a vez de ler este que é seu segundo romance, cujo título é A GLÓRIA E SEU CORTEJO DE HORRORES. De imediato já posso destacar um aspecto favorável na leitura: estamos diante de um único narrador, cuja autora fez com que sua voz enchesse as páginas da obra de modo tão crível a ponto de quase me fazer esquecer que se trata de uma mulher dando voz ao protagonista Mario Cardoso.

A trama permeia a trajetória de um ator consagrado que trabalhou em várias novelas de sucesso no país. Contudo, mais velho, Mario encasqueta com a ideia de interpretar Shakespeare no teatro, culminando num período de sua carreira que exibe glória e fracasso em tempos alternados. Não é preciso que mais do que isso seja exposto como sinopse; com essa premissa em curso, a história pega o leitor pela mão e o leva através de uma narrativa honesta, ácida e explícita, de um homem vaidoso e irônico.

Através de seu protagonista, Fernanda Torres constrói uma espécie de alegoria da vaidade humana confrontada com o tempo, sem deixar explicitado uma questão que me pareceu central: o fascínio que a fama é capaz de exercer nas pessoas. Mario Cardoso é o típico artista que foi lapidado pelo olhar de seu público, portanto, carrega uma forte noção de identidade própria pautada na aprovação de terceiros. Contudo, à medida que o tempo passa e os aspectos biológicos do humano decaem, toda a estrutura narcísica acaba por ruir. É como se o “cortejo de horrores” incutido no título da obra, fosse um agouro inescapável.

Apesar da premissa parecer densa, Fernanda Torres sabe dosar a narrativa de modo a evitar alongadas monotonias ou inflexões de sua personagem. A autora ironiza o universo das celebridades e o vazio das relações pautadas pela fama, mas tece uma mesclagem do drama humano com certo tom irreverente.

Seria esta obra uma autocrítica disfarçada de ficção? O fato de Fernanda Torres pertencer ao mesmo universo de seu protagonista, não parece tornar sua escrita enviesada ou menos autêntica. Pelo contrário, há momentos em que a autora parece rir da classe artística, o que ao meu ver deixou o texto com uma percepção de honestidade, de quem conhece o ambiente que cerceia seu texto. Imagino que seja preciso coragem em retratar o lugar em que ainda se atua e convive.

Mario Cardoso é o arquétipo preciso de uma masculinidade vaidosa, performática e, ao mesmo tempo, frágil. Um homem que vive de sua imagem, mas percebe a própria decadência quando esta imagem se desfaz. Sua voz hora agrada pela honestidade, e noutros momentos nos deixa com vontade de parar de ler, tamanhas inconstâncias. É claro que se trata apenas de um achismo, mas fiquei com a impressão de que Fernanda Torres, sendo ela uma atriz, tenha convivido e visto de perto muitos Mario Cardoso ao longo de sua carreira. Ou seja, o olhar feminino parece ter aumentado a proximidade entre ficção e realidade.

A GLÓRIA E SEU CORTEJO DE HORRORES é um romance sobre vaidade, decadência, vazio existencial e mediocridade humana. O riso e a ironia servem como leve sopro na ferida social, onde tudo soa tangível: os bastidores, a corrupção e o declínio moral. Não se sabe se a autora criou uma ficção que é espelho da realidade, ou se fez exatamente o oposto: deu-nos a realidade, mas chamou de ficção para torná-la, digamos, um pouco mais palatável.

NOTA: 8,2

sábado, 8 de novembro de 2025

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 2º PARTE

Havia uma rachadura enorme na aliança dele, circundando quase toda a dimensão do objeto. Era uma lacuna negra, disforme e aparentemente irreparável. O nome da esposa havia se apagado por conta do desgaste, assim como o brilho reluzente da superfície se perdeu. O marido estava em pé, no banheiro, segurando a aliança no centro da palma de sua mão, perguntando-se como foi que surgiu aquela rachadura.

– E depois o que aconteceu? – perguntei ao paciente.

– Eu acordei. Meu coração estava acelerado!

– O que sentiu no instante em que acordou?

– Estava ofegante..., uma porcaria de aperto no peito.

Mesmo ali, sentado na minha frente, parecia que os sintomas estavam de volta. O paciente estava inquieto, cruzava e descruzava as pernas, enxugava as mãos nas laterais da calça jeans. Após repetir esses gestos inúmeras vezes, retirou os óculos e apertou as pálpebras. Levantou, foi até o bebedouro e se serviu de um pouco de água.

– Acha que foi um sinal, doutor? – perguntou ele, entre um gole e outro, ao lado da mesa com a jarra de plástico.

– Que tipo de sinal?

– Não sei..., talvez um divórcio esteja se aproximando – sugeriu ele – pode ser que o universo esteja me mandando um sinal para que eu perceba o quanto meu casamento já não faz mais sentido.

– Acredita que o universo se comunica com você?

– Bom, eu estou chamando de universo, né... – ele retornou para o assento onde estava – mas também podemos chamar de Deus.

– Você possui religiosidade?

– Não muito. Cresci em lar católico, minha mãe era bastante devota. Mas eu não sou muito ligado a religião..., não é nada contra, entende? Acho que o trabalho me toma tempo demais e acabei me afastando sem que notasse. Vez ou outra eu rezo, sabe..., tipo, converso comigo mesmo, deitado na cama ou quando estou no chuveiro. Entende? Conversar pode ser considerado uma forma de oração, né?

Aquele prolongamento em tentar explicar o afastamento da religião certamente emana de alguma culpa interna causada pelo receio de decepcionar a mãe que ele alega ser muito religiosa. Como já havia revelado em sessões passadas que a mãe faleceu há alguns anos, suponho que se trate de um temor em estar, de algum modo, sendo censurado pela memória dela. Ao se afastar da igreja, seu inconsciente o fez crer que ela o observa e faz julgamento. Por isso perguntei se ele tinha religiosidade em vez de religião. É comum as pessoas confundirem, mas o conceito é completamente diferente. Religiosidade é uma expressão individual de fé e espiritualidade; enquanto religião é um sistema fechado de crença, ou seja, um modo específico de se praticar a religiosidade.

– É claro! Minha maior crença está no poder do diálogo, por isso me tornei terapeuta.

– Então eu devo me divorciar?

– Essa não é uma decisão que deve ser tomada por mim, tampouco se deve usar um sonho como base fundamental. Eu apenas disse que acredito na força do diálogo – outra condição muito comum é o paciente buscar confirmação do terapeuta para suas convicções. Nessa hora é preciso muito cuidado, porque o paciente pode se tornar muito sedutor na busca por validação – Veja bem: Freud acreditava que os sonhos são expressões simbólicas de desejos reprimidos que, por conta de alguma censura, não foram admitidos pela consciência. Desse modo, o conteúdo manifesto de um sonho é uma versão distorcida do conteúdo latente.

– O que tudo isso quer dizer, doutor?

– Significa que geralmente o conteúdo de um sonho não é literal, e cada manifestação possui especificidades de quem sonha. Pode ser que haja uma condensação, ou seja, vários pensamentos ou emoções compactadas em um único elemento. Ideias abstratas podem ser convertidas em imagens visuais, por meio de símbolos.

– Então o que o doutor acha que meu sonho significa?

– Isso é você quem vai ter que decifrar. A particularidade que acabei de expor também serve para você..., o que o faz pensar que eu sou a melhor pessoa para investigar o seu sonho?

– Ora, você é o profissional nessa área – ele pareceu levemente contrariado – Pensei que fosse sua especialidade.

– A especialidade de um terapeuta é guiar o paciente através do seu autoconhecimento. Sou apenas um facilitador, o criador de um caminho seguro para você explorar seus padrões de comportamento..., mas definitivamente quem fará toda a travessia é você.

– Então por que raios você rejeitou a minha hipótese do divórcio?

– Não rejeitei.

– Claro que rejeitou.

– Em nenhum momento eu rejeitei ou validei sua hipótese. O que estou tentando é fazer você refletir sobre o cenário do sonho e compor um paralelo com o contexto atual da sua vida.

– Meu inconsciente deve estar tentando dizer que o casamento já era.

– Não seja precipitado em fazer interpretações. Existem outras hipóteses cabíveis, algumas as quais ainda desconhecemos. Pense nos sinais: quando acordou você disse que sentiu um aperto no peito, certo?

– Sim, foi o que aconteceu.

– Isso pode ser um sinal de ansiedade, a mera hipótese de um divórcio deixou você ansioso.

Ele hesitou. Olhou para o teto, massageou o pescoço e então o olhar desceu até tapete do consultório.

– Eu gosto da minha esposa...

– Então por que acha que haveriam manifestações no seu subconsciente tentando sabotar seu casamento?

Ele aquiesceu por mais algum tempo. De repente, algo lhe ocorreu na mente e foi quase palpável. Arriscou dizer alguma coisa, titubeou, voltou a tentar. Estava agora visivelmente desconfortável.

– Acho que é o sexo, doutor – sua voz ficou baixa, quase um sussurro. Certamente ele devia considerar o tema difícil de abordar – faz meses que a gente não se procura mais. Não rola nada, nenhum carinho! É como se houvéssemos nos tornado dois amigos que dividem a mesma cama.

– Você já a procurou para conversar sobre isso?

– Tentei uma vez..., ela desconversou. Disse que estou exagerando.

– E o que você fez?

– Ora, o que eu poderia fazer? Deixei esse assunto de lado, afinal, ela não parecia nem um pouco preocupada.

– Talvez você deva abordar o assunto novamente...

– A rotina nos distanciou – ele me interrompeu – depois que tivemos nossa filha a situação piorou. Nem nos falamos direito no quarto, a cama parece ter quilômetros de largura, nem me lembro mais de como é a pele dela... Acha que pode ter alguma relação com esse desânimo constante?

– Não podemos descartar a hipótese. Sua falta de sentido pode influenciar a perda de libido, uma vez que a energia vital e nossa satisfação geral estão diretamente ligadas ao desejo sexual.

– Sinto falta dela, doutor.

– Acha que seu casamento merece sua persistência?

– É claro que sim!

– Então converse de novo com ela. Conversas difíceis são necessárias para que se desenvolva a relação. Pode ser que precise mudar o modo de trazer esse assunto à tona. Talvez durante um vinho após o jantar ou leve-a pra fazer uma caminhada, algum local tranquilo em que vocês dois possam ter foco total na conversa. Nada de filhos por perto ou distrações desse tipo, consegue fazer isso?

 – Acho que sim – a resposta saiu meio hesitante, mas acho que ideias começaram a saltar na mente dele.

– E pelo amor de Deus, seja delicado.

Ele me olhou como se eu o houvesse ofendido.

– Diga o que pensa, mas evite criticar – segui orientando antes que ele começasse a reclamar – também não faça julgamentos, deixe que ela diga o que a incomoda, o que pensa sobre o distanciamento de vocês.

Estudos mostram que um maior senso de propósito na vida está diretamente associado a maior satisfação com atividades íntimas, independentemente de outros fatores. A falta de sentido pode afetar negativamente o bem-estar emocional e a autoestima, o que, por sua vez, pode diminuir o desejo sexual.


**continua**

sábado, 18 de outubro de 2025

RESENHA DE LIVRO – A VIDA SECRETA DOS ESCRITORES

Sempre que me proponho a conhecer um novo autor, faço uma breve pesquisa na internet para compreender melhor o tipo de terreno que estou explorando. Contudo, opto por fazer essa atividade só após terminar a leitura, talvez num ato involuntário de não prejudicar eventuais surpresas favoráveis que a trama poderia proporcionar. Pois foi a pesquisa que fiz sobre o autor deste mediano A VIDA SECRETA DOS ESCRITORES, um romancista francês chamado Guillaume Musso, o que evitou que eu cometesse uma injustiça nesta resenha. Afinal, o livro não é propriamente ruim. O caso é que eu era um leitor desavisado sobre o conteúdo que estava levando pra casa.

Vamos falar sobre isso.

A VIDA SECRETA DOS ESCRITORES é uma obra sedutora tanto na estética visual quanto no título sugestivo; devo dizer que foi a combinação de ambos que me fez retirar aquele belo box da prateleira; trabalho charmoso feito pela editora L&PM, que reúne o livro físico, mais uma pequena revista contendo informações da ilha fictícia que é cenário da história, e um marcador de página.

Contudo, retirar da prateleira não garante que levarei o livro. E eis que a obra possui um terceiro elemento sedutor: a sinopse, que me deixou bastante curioso: escritor consagrado misteriosamente resolve abandonar a carreira e se isolar numa ilha. Vinte anos depois, um aspirante e fã decide viajar até o local para descobrir como vive este que é seu escritor favorito. No meio disso, também surge a figura de uma repórter aparentemente interessada em saber do paradeiro do recluso autor. E pra instigar ainda mais nossa curiosidade, um assassinato ocorre na pacata ilha…, eu devia ter desconfiado de que isso era muitos pressupostos inseridos num reduzido volume de apenas 220 páginas.

E é este, precisamente, o aspecto que me incomodou durante toda a leitura: tem coisa demais acontecendo, várias personagens rondando a narrativa, aspectos investigativos, enigmas ligados ao passado da personagem escritor, alternância de tempo dos fatos…, é um aglomerado de temas envolventes, mas sem nenhum aprofundamento, a narrativa é conduzida de modo rápido, como se estivéssemos lendo uma matéria de jornal.

O livro até sugere reflexões existenciais, questionamentos éticos, mas não possui densidade, a condução parece insistir em permanecer sempre na superfície. Guillaume Musso insiste em reviravoltas para prender o leitor, o que faz com que a consistência não exista em momento algum. Em vários momentos há citações de grandes autores fazendo introduções de capítulos, mas até mesmo isso parece estar lá apenas para seduzir. O texto possui uma sensação de urgência que incomoda leitores questionadores ou atentos, que buscam profundidade literária.

O autor concentra energia no enredo, mas se esquece do tecido narrativo que sustentaria a experiência estética. As personagens acabam funcionando mais como peças aleatórias de um jogo de tabuleiro simples; a escrita de Guillaume Musso é como uma partida de damas e isso vai incomodar leitores que pensaram se tratar de um jogo de xadrez, como foi o meu caso.

Minha introdução desta resenha foi justamente o que me trouxe a revelação: Musso é escritor de um estilo de literatura de “consumo rápido” (alguns críticos chamam isso de romance de aeroporto), sem a preocupação com espessura imersiva ou elementos reflexivos. A ideia é criar obras cujo conteúdo seja sedutor, mas sem a potência de permanecer ressoando na mente do leitor. Não é o tipo de literatura que me agrada. 

A VIDA SECRETA DOS ESCRITORES é uma obra que não vai além da sugestão em adentrar questões importantes, como vida íntima, bloqueio criativo e peso da fama. Mas o tal estilo comercial de literatura rápida puxa a trama e não deixa que saia da superfície. As temáticas parecem profundas, mas acabam tratadas de forma efêmeras, quase como se fosse o relato de alguém que você encontrou por acaso no ponto de ônibus.

NOTA: 6,1

sábado, 11 de outubro de 2025

RESENHA DE LIVRO – OS DESAFIOS DA TERAPIA

Recentemente rompi um tratamento terapêutico que vinha fazendo. Optei por não dizer a verdade quando a psicóloga me perguntou o motivo, achei que seria desconfortável dizer a verdade. O fato é que ela encarava nossas sessões de um modo excessivamente técnico; não havia nenhuma informalidade ou descontração; apenas uma mulher do outro lado da tela fazendo perguntas e eu respondendo a cada uma, sistematicamente. Essa descrição pode soar como a de uma autêntica sessão de terapia, mas é precisamente um dos erros apontados pelo autor Irvin D. Yalom, neste precioso e necessário trabalho, intitulado OS DESAFIO DA TERAPIA: a necessidade de fazer com que a terapia ganhe aspectos íntimos para que ela se pareça, cada vez mais, com uma conversa verdadeira e cúmplice, em vez de uma entrevista remota e cheia de formalidades, algo que afasta a chance de autenticidade por parte do paciente.

Yalom é um dos nomes mais influentes da psicoterapia contemporânea, e esta obra revela não apenas técnicas de casos clínicos, mas também as fragilidades, dilemas éticos e humanos do próprio terapeuta. Acima de tudo, o autor rompe com a visão tradicional do terapeuta como figura neutra e distante, como ocorria em minhas sessões com a psicóloga: ela assumia essa postura pouco humanizada de uma profissional que apenas observa o paciente; uma prática infeliz que afasta o paciente do processo terapêutico. Em minhas sessões, eu não me sentia dentro de uma conversa real; era mais como se eu fosse o objeto de trabalho de alguém.

O estilo narrativo do autor é leve e descomplicado. Diferente de manuais técnicos e textos acadêmicos, Yalom tece uma escrita híbrida que une casos clínicos narrados, reflexões existenciais, filosóficas e sua voz em primeira pessoa que não esconde suas inseguranças, erros ou dúvidas. O estilo dialógico aplicado aqui expõe conversas longas entre paciente e terapeuta, mantendo um lado orgânico e vivaz em cada encontro. Os capítulos são curtinhos, como se houvesse pausas para impedir que a leitura se torne maçante.

A obra parece, desde o prefácio, mostrar a que veio: quebrar a ilusão de neutralidade absoluta e mostrar que a autenticidade é infinitamente mais curativa do que formalidade. Enquanto a tradição terapêutica (sobretudo a psicanálise clássica) prega neutralidade e distanciamento, Yalom defende que o terapeuta se permita aparecer como ser humano, compartilhando emoções, dúvidas e fragilidades.

É como se o autor estivesse propondo o fim da hierarquia conservadora na psicoterapia. O terapeuta deveria deixar de ser uma “autoridade distante” para ser um companheiro de jornada, alguém que caminha junto através do processo de autodescoberta.

Evidente que o estilo menos arcaico proposto por Yalom não está isento de problemas. A entrega mútua no processo terapêutico pode ocasionar entraves como limites éticos, exposição excessiva, confusão sentimental. Mas o autor defende que o risco é menor do que a aridez de uma terapia puramente técnica. A modernidade na terapia está em aceitar a vulnerabilidade como parte do processo.

OS DESAFIOS DA TERAPIA é uma obra incrível por sua simplicidade, que pode ser lida tanto por profissionais, quanto por pacientes ou buscadores de conhecimento em geral. Para Irvin D. Yalom, a cura verdadeira e definitiva ocorre na qualidade da relação terapêutica: na confiança, na entrega, na presença mútua. É nesse espaço de encontro que paciente e terapeuta podem tocar em suas verdades mais profundas. Em um mundo marcado por alienação e relações superficiais, a terapia precisa oferecer a experiência radical aos envolvidos de ser visto e ouvido de verdade.

NOTA: 🔟😍

sábado, 27 de setembro de 2025

RESENHA DE LIVRO – O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS

Leitor que visitar o universo literário do escritor José Saramago precisa ter alguma dedicação, em especial na atenção aos aspectos simbólicos e a metaficção como recurso narrativo. Ah, e se você não é acostumado ao estilo desprendido de convenções gramaticais do autor, com frases longas e ausência quase total de pontuação, esse também poderá ser um desafio. E para além desses obstáculos, este O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS talvez seja a obra que mais oscila entre a ficção, personagens heterônimos e um pano de fundo histórico. Sim, leitores, este é um trabalho que concentra distintos elementos narrativos, o que em algum momento pode tornar a leitura um pouco confusa…, vamos falar disso.

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS narra o tempo final da personagem que dá nome ao título, que se trata de um português heterônimo do escritor Fernando Pessoa. Após dezesseis anos exilado no Brasil, Ricardo resolve retornar à Portugal. Médico e poeta, o protagonista escrevia suas odes sem jamais publicá-las. Seu retorno à terra natal foi motivado pelo falecimento de Fernando Pessoa em 30 de novembro de 1935, em Lisboa. Entre a melancolia pelo desconhecimento do lugar onde nasceu, Ricardo terá embates filosóficos com o fantasma do falecido amigo, num período histórico efervescente na Europa com a ascensão do salazarismo em Portugal e a instabilidade política no continente pré-segunda guerra mundial.

A trama não é fluida e um tanto prolixa, como sabemos ser marca registrada de Saramago, as coisas demoram para que acontecer aqui. Ricardo Reis é um sujeito distanciado, com uma pegada estoica, mas incapaz de agir diante das transformações sociais. É uma personagem desenvolvida com um viés crítico do autor, que aponta para o comumente lugar do intelectual contemplativo que não age. Após prestar homenagens ao amigo morto, começa a receber visitas de seu fantasma, as quais se desenrolam assuntos variados, como morte, vida, trabalhos literários e política atual.

As ações mais notórias do protagonista, resume-se em ler jornais, os quais retratam os acontecimentos centrais daquele período. Por vezes, Ricardo se sente contrariado, percebe o clima opressivo que cresce rapidamente nos arredores, mas segue apenas como um expectador. Talvez neste aspecto, o fantasma de Pessoa funcione como uma voz de sua consciência, inquieta, irônica e provocativa.

O lugar de cada personagem também pode ser subentendido como metáfora. Sendo Fernando Pessoa um poeta da vida real inserido como fantasma que surge para seu heterônimo, tal condição pode ser entendida como um reencontro com a própria essência do escritor. Ao trazer Pessoa para dentro de um cenário de turbulência política, José Saramago instiga o leitor a perceber que a poesia, quando desconectada da vida concreta, corre o risco de ser cúmplice do cenário atual.

Existe aqui também uma crítica velada ao regime contraditório de Salazar, o autor não menciona diretamente censuras ou prisões políticas, mas deixa tudo muito bem explicitado na ambientação da trama: tensão nas ruas, presença de militares por toda parte, desconfiança generalizada, o jornal de papel como veículo de propaganda, o clima de normalidade artificial.

Dois problemas que considerei foi as constantes menções a figuras históricas do período, o que pode incomodar leitores que têm pouca familiaridade com aquele momento social; também a condução narrativa que segue como pensamentos contínuos, quase orais, como se a intenção de Saramago fosse a de criar fluxos de consciência, como ocorre dentro da mente humana. Vez ou outra, interrompe a narrativa com observações irônicas, como se estivesse conversando diretamente com o leitor. Não se trata de recursos negativos, eles aparecem noutras obras de José Saramago. Porém, o estilo me pareceu um pouco fora de contexto e também pode incomodar leitores desavisados.

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS é uma viagem da incerteza como narrativa estética. A personagem de Ricardo Reis é, em sua essência, feita de hesitação e contemplação. O autor deixa propositalmente algumas pontas soltas, com diálogos que não oferecem todas as respostas, oferecendo o elemento da indecisão como estímulo a que se continue a reflexão e pesquisa.

NOTA: 7,1

sábado, 13 de setembro de 2025

RESENHA DE LIVRO – DEUSAS, BRUXAS E FEITICEIRAS – histórias de quando Deus era mulher

Na história da humanidade a substituição de deusas por deuses, de sacerdotisas por padres, de curandeiras por magos, não foi por acaso e, tampouco um ato simbólico; foi um projeto de poder que moldou o mundo em que vivemos hoje. Mesmo com o vagaroso, porém, contínuo avanço de pesquisas antropológicas, a maior falácia atual que ainda sustenta o apagamento de culturas matriarcais da história, é a ideia de que o feminino estaria interessado em interpor e subjugar a cultura masculina atual.

Portanto, a própria ideia de apagamento de nossa história parece algo fora de cogitação; a sociedade como se organiza na contemporaneidade nos traz a impressão de que nossa cultura é uma consequência inevitável e singular. Só que pesquisas históricas recentes apontam que isso é um grave engano!

DEUSAS, BRUXAS E FEITICEIRAS – Histórias de quando deus era mulher, da escritora Julia Myara é uma obra que ilumina o silenciamento simbólico das mulheres ao longo da história e convida o leitor a repensar o sagrado a partir de uma tradição que teve (e ainda pode ter) o feminino no centro.

A obra busca resgatar a presença feminina sagrada em períodos antigos, tempo em que deusas, sacerdotisas, curandeiras, bruxas e feiticeiras ocupavam papéis centrais na sociedade. O escopo da autora é analisar mitos de culturas como a neolítica, suméria, babilônica, canaanita, entre outras, resgatando figuras femininas que foram silenciadas (propositalmente) e demonizadas com o advento das religiões patriarcais.

A premissa combina elementos históricos, filosofia antiga e até uma pitada de psicanálise para oferecer uma leitura rica e multifacetada sobre o apagamento simbólico do feminino sacramental. A condução se utiliza de um tom que é ao mesmo tempo livre e erudito, voltado tanto para o público geral quanto para quem se interessa por espiritualidade, história e sociologia. Obviamente, é uma obra que levanta inúmeros temas, portanto, não se esgota em seu conteúdo, mas propõe temas como itens introdutórios para quem deseja pesquisar.

Mesmo assim, aqui tudo é muito bem fundamentado. A autora não tira nada do achismo, baseia-se em análises históricas de outros autores e deixa tudo referenciado em textos de rodapé ou nas fontes finais.

Por falar na autora, Julia Myara é professora de filosofia antiga na PUC-Rio e analista junguiana. Seu trabalho acadêmico inclui pesquisas sobre gênero na antiguidade, narrativas míticas comparadas e religião. Ela também participa de palestras na Casa do Saber e de um ótimo podcast no Youtube, em canal intitulado CDH – Conhecimento da Humanidade.

O ponto forte da obra é que ela visa colocar uma interrogação nas religiões – principalmente as monoteístas – como aparelhos de legitimação. Religiões como o judaísmo, cristianismo e o islamismo, consolidam a figura do homem como imagem e semelhança de Deus, enquanto o feminino é frequentemente associado à tentação, desobediência, ao pecado e a desordem. Ao submeter o feminino, o patriarcado centralizou poder, controle social e discurso religioso. E esse modelo persistiu porque passou a ser visto como natural, muitas vezes como algo sagrado e, portanto, incontestável; quando, na verdade, foi algo construído histórico e ideologicamente.

DEUSAS, BRUXAS E FEITICEIRAS – Histórias de quando deus era mulher é um excelente trabalho que nos chama atenção para distorções quanto a substituição de deusas acolhedoras por deuses guerreiros – um projeto de poder que moldou a grande maioria das sociedades atuais. Contudo, as figuras femininas resistem até hoje, presentes em mitos ignorados, tradições populares antigas, nos rituais ancestrais, nas narrativas que agora estão sendo resgatadas, como faz Julia nesta importante obra.


NOTA: 🔟😍

terça-feira, 26 de agosto de 2025

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 1º PARTE


 – Como foi o seu dia?

Os manuais de práticas clinicas sugerem que não se deve usar frases estereotipadas durante uma sessão. A premissa é que isso retira a autenticidade da interação com o paciente, faz parecer um diálogo protocolar e, mais do que isso, deixa o paciente pensar que ele é apenas um instrumento do trabalho de alguém. “Como foi o seu dia” é uma pergunta que se faz para alguém que não nos interessa a resposta.

– Outro dia da marmota, doutor. – Respondeu o paciente, referindo-se ao filme O Feitiço do Tempo, em que o protagonista passa dias preso no mesmo dia, num ciclo interminável de repetição do mesmo dia – acordei, dirigi até o escritório, resolvi tarefas, dirigi de volta para casa, jantei com a esposa, assisti vídeos bobos na cama, até pegar no sono.

– Tentou fazer os exercícios que recomendei?

– Tentei sim..., escovei os dentes com a mão esquerda, mudei o trajeto até o trabalho, comecei um curso de origami, arranjei um cachorro – ele se recostou no sofá e suspirou pesadamente – nada disso adianta! Mudar o jeito de fazer as coisas funciona por alguns dias, mas logo vira rotina também.

– A mente humana é programada para automatizar tudo. Isso poupa energia.

– Por que diabos minha mente quer poupar tanta energia, doutor?

– É uma condição ancestral. A humanidade viveu a maior parte de sua existência na escassez. Conseguir alimento era difícil e incerto. Por isso herdamos esse cérebro econômico e agora precisamos lutar contra ele.

As respostas do paciente evidenciam a necessidade de eu iniciar a sessão com aquela pergunta interditada pelos manuais. Aquele paciente sofria de uma espécie de tédio crônico. Perguntar pelo seu dia era condição crucial para entender sua evolução. Não é muito raro entrarem pacientes no meu consultório com queixas de desânimo, falta de motivação ou de sentido no que faziam. A maioria dos casos era apenas um tédio recorrente. Quando faço esse tipo de diagnóstico, foco na busca por tirar o sujeito de sua zona de conforto, algo que não é muito fácil, pois evitar mudanças ou experiências novas é um comportamento tão habitual no ser humano quanto acreditar em divindades ou fazer fofoca. Contudo, ainda é o remédio mais eficaz para se tirar alguém do enfado.

– Meu cérebro deve ser idiota – o comentário dele foi auto infligido, mas fazer alguma observação desviaria nosso objetivo. Também não poderia rir, porque escutar alguém dizer que o próprio cérebro é idiota, meio que diz muito sobre essa pessoa.

– O cachorro não está ajudando?

– O cachorro me odeia, doutor. Passa tempo demais sendo bajulado pelas meninas..., quando chego em casa, ele meio que me enxerga como uma possível ameaça ao seu território.

– Você precisa interagir, se aproximar, levá-lo pra passear, passar algum tempo junto com ele.

– Eu até tento fazer isso. E pode ser coincidência, mas quando está com as meninas, o bicho brinca, corre, abana o rabo, se esfrega em todo mundo..., mas quando eu o levo para passear ele só sabe cagar e latir para as pessoas na rua.

Aquilo me fez pensar que até os animais possuem seus favoritos. Ou talvez meu paciente seja uma companhia desagradável até para o cachorro.

– Pelo menos ele está sendo bom para sua família – comentei, tentando amenizar – E o que mais você tem feito?

– Comecei a ler um livro – ele tentou buscar na mente suas tentativas de fazer atividades fora da rotina – Mas eu confesso que não aguento três parágrafos.

– Dependendo do autor, três parágrafos podem significar mais de uma página.

– Aquilo me dá nos nervos, doutor..., tem palavras demais naquela porra!

– Bem, é um livro. O que você queria?

– Sei lá, doutor..., aquela imensidão de palavras reunidas mais se parecem com uma tortura do que um hobby. Parece um lugar infinito..., fico exausto só de abrir a página.

– Qual é o título do livro?

– É um daqueles que você me recomendou..., O Poder do Hábito.

– Foi uma ótima escolha!

– Foi um ótimo tormento, melhor dizendo – ele parecia mesmo sofrer só de pensar referido objeto – aquilo parece uma lajota, não dá nem pra segurar.

– Encare o livro como um grande desafio, isso talvez te ajude. Grandes desafios geram satisfações igualmente grandes quando realizados.

– Ou grande desgosto caso não consiga vencer o desafio.

Ele tinha razão, mas eu não poderia contornar a hipótese proposta. De fato, quando miramos alto demais num projeto existe o risco real da não realização. E isso pode potencializar muito a noção de fracasso do paciente. Nessa hora é preciso oferecer argumentos válidos que o encorajem a seguir na empreitada.

– A receita ideal do progresso é o estabelecimento de metas pequenas, constantes e alcançáveis. Quebrar um grande desafio em várias etapas menores, porém, passíveis de serem vencidas. Isso pode ajudar.

– O que você sugere, doutor?

– Que você não pense no livro como um todo, nem imagine o término da longa leitura. Em vez disso, tente focar em três parágrafos por dia..., consegue fazer isso?

– Devo ler somente três parágrafos por dia?

– Não necessariamente, você pode ler o quanto quiser..., mas no lugar de pensar no término da leitura, estabeleça como meta três parágrafos por dia. Isso deve fazer com que seu cérebro perceba a meta como algo possível e você se sentirá motivado.

Ele fez um breve silêncio, coçou a barba, refletiu e então me encarou.

– Não acha que essa é uma meta ridícula?

– Isso é você quem vai definir. Se com o passar dos dias três parágrafos se tornarem fácil demais, aumente para cinco, depois para dez, quinze parágrafos.... Com o passar do tempo você vai estar lendo dez páginas diariamente.

– Não consigo me imaginar lendo tanto assim.

– Não tem problema. Por hora foque apenas nos três parágrafos.

Basicamente, o livro não teria um efeito de amainar o tédio, mas a esperança era de que o conteúdo despertasse seu interesse. O ser humano funciona muito melhor quando consegue enxergar resultados naquilo que se propõe a fazer. Aquele paciente queria acabar com um enfado que já o acompanhava há anos. Mas se tratava de um caso típico da sociedade contemporânea: após as questões básicas da vida serem resolvidas, como alimentação, repouso, moradia, segurança, emprego, saúde, propriedade…, vem as necessidades psicológicas como amor, amizade, família, estima, confiança, respeito dos outros e com os outros. Superada essas etapas, o ser humano entra na fase que considero a mais complicada da vida. E eu sabia que isso só seria possível quando meu paciente conseguisse se encaixar nessa tão abstrata fase: a busca de sentido na vida.


*continua*

sábado, 9 de agosto de 2025

RESENHA DE LIVRO – INTIMIDADES – dez contos eróticos de escritoras brasileiras e portuguesas

O erotismo que me agrada na literatura contemporânea, não é aquele que se impõe de fora para dentro, como acontece costumeiramente na literatura erótica tradicional (geralmente escrita sob o olhar masculino). O melhor do erotismo, em minha opinião, é aquele que nasce da interioridade feminina, que é vivenciado de forma a constituir as mulheres como individualidades que anseiam e agem, não apenas figuras clichês passivas ou meros objetos de desejos.

Os contos que foram organizados para compor esta compilação, são representantes desse cenário: o erotismo aqui não é romântico no sentido tradicional, muitas vezes, se aproxima de algo ambíguo, contraditório, uma mistura de prazer e vulnerabilidade, ternura e impotência, desejo e silêncio. O olhar feminino estabelecido nas narrativas presente em INTIMIDADES confere profundidade psicológica.

A organizadora por trás dessa empreitada é Luisa Coelho, portuguesa que vive no Brasil desde 2002, professora da Universidade de Brasília e autora de várias obras de ficção. Este compilado de contos reúne autoras brasileiras e portuguesas, proporcionando uma aproximação entre as duas culturas.

A obra reúne dez contos, explorando o erotismo sob diferentes perspectivas, com linguagem que passeia pela sutileza poética, realismo cru e intersubjetividade. O tema do erotismo aqui não é gratuito, mas está profundamente ligado à intimidade emocional.

Como já mencionei, o ponto forte está no protagonismo feminino. Livre de censura, culpa ou estigma, as autoras destilam a sensualidade de suas protagonistas, combinando erotismo com introspecção que não cai em clichês pornográficos, algo tão comum em literaturas eróticas escritas por homens.

Além disso, uma compilação como essa possui uma enorme relevância cultural, pois se inscreve numa posição que busca romper o silêncio histórico em torno da sexualidade feminina. Ao reunir autoras de dois países ligados por um trágico histórico colonial, a antologia também traça um mapa afetivo e cultural do erotismo em língua portuguesa, que ao meu ver, ainda foi pouco explorado sob a ótica feminina.

A curadoria de Luisa Coelho é atenta à diversidade; há contos com uma linguagem mais poética, outros são insinuantes, alguns dotados de realismo orgânico. Há experiências urbanas e íntimas, algumas são oníricas e simbólicas. Meus favoritos são Cobertor Engomado, de Branca Maria de Paula; Só Sexo, da sempre fabulosa Inês Pedrosa e Mónica, de Maria Teresa Horta.

INTIMIDADES é uma obra provocativa e, acima de tudo, um ensaio de liberdade. Quando uma mulher fala sobre seu corpo e seus desejos, como ocorre com as personagens dessa coletânea, ela não está apenas contando uma história, mas reivindicando sua existência e subvertendo silêncios históricos.

NOTA: 8,7

sábado, 26 de julho de 2025

RESENHA DE LIVRO – A CARA DA MORTE

Imaginário não é o mesmo que fantasia ou ilusão. Trata-se de um conjunto de imagens, símbolos, narrativas e crenças que uma sociedade desenvolve para dar sentido a certos fenômenos como o nascimento, o amor, o mal, e claro, a morte. Mas seria possível compreender o imaginário da morte?

Do ponto de vista psicanalítico, Freud tratava a morte como um conteúdo fundamental do inconsciente, ligado ao medo, à pulsão e ao sagrado.

Enquanto isso, a sociedade moderna, mais especificamente a ocidental, tenta desenvolver meios de camuflar a morte: hospitais afastam os corpos, cemitérios são murados, capelas mortuárias para que velórios ocorram longe dos lares, evita-se falar sobre luto ou finitude. Justamente por isso, pesquisar sobre o imaginário da morte é um modo de trazer à consciência o que foi reprimido socialmente.

A CARA DA MORTE é um estudo original que une perspectivas psicológicas, simbólicas e religiosas. A obra analisa o imaginário da morte através dos olhos de quem trabalha diretamente com ela, propondo uma reflexão sobre como a sociedade moderna contempla e administra a morte; sobre o quanto, ao delegarmos aos sepultadores (durante a pesquisa, a autora descobre que o termo “coveiro” é considerado por essa classe trabalhadora como pejorativo) o trabalho da morte, a sociedade retira de si o ônus simbólico desse enfrentamento.

O conteúdo aqui trata-se originalmente de uma dissertação de mestrado da autora Clarissa De Franco, no programa de Ciências da Religião da PUC-SP, que foi defendida no ano de 2008. Clarissa explora o imaginário da morte por meio dos relatos e sonhos dos sepultadores de alguns cemitérios paulistanos. A autora considera desde temas da antiguidade clássica e tradições cristãs, até as influências da herança afro-indígena na religiosidade brasileira.

Senti falta de um pouco mais de profundidade sobre o tema da terceirização da morte, muito embora eu saiba que esse não era o escopo central da obra. Quando entregamos a morte às mãos de profissionais como médicos, sepultadores, agentes funerários, o que estamos evitando de fato? Seria o sofrimento de ver um corpo? O medo da finitude? A desordem do fim? Ou estaríamos fugindo da percepção mais radical de todas: a noção de que aquela perda, aquele vazio, um dia também será eu.

Um ponto central que o livro aponta é sobre a precarização do trabalho dos sepultadores, identifica também que existe certo grau de dificuldade em se trabalhar em cemitérios das periferias, em relação aos cemitérios tradicionais utilizados pelas classes médias e altas, evidenciando que até mesmo a morte, esse fim universal e comum, também é marcada por desigualdade social.

Ou seja, na teoria a morte é igual para todos, mas na prática isso não ocorre. O que Clarissa mostra é que, mesmo no momento final, as diferenças de classes persistem e se manifestam de modo brutal. Cemitérios de periferia têm estrutura precária, escassez de materiais de trabalho, ausência de apoio psicológico e sobreposição de túmulos. Os sepultadores, pessoas que lidam com a dor alheia todos os dias, frequentemente trabalham em condições insalubres, sem reconhecimento, com baixos salários e quase nenhuma estabilidade. Já nos cemitérios da elite, os túmulos são tratados com ornamentos, capelas privativas, velórios longos e personalizados, serviços funerários caros e ostensivos.

Qual seria, afinal, essa cara da morte que intitula a obra? Clarissa De Franco nos propõe a pensar que sim, a morte tem uma cara. Mas de modo algum refere-se a um retrato estático que pode vestir qualquer sociedade em qualquer tempo, como se fosse uma máscara. A cara da morte que surge com a leitura, talvez seja algo mais arquetípico da morte, senhora de si, cujos conteúdos socioculturais foram sendo registrados em sua expressão, carregando-a de rugas e marcas, mas sem aspectos clichês como o manto negro e a foice alongada. A morte é, na verdade, um marcador cultural: o lugar e como se morre diz muito sobre quem se é, dentro de uma estrutura social.

NOTA: 8,4