segunda-feira, 20 de julho de 2026

CRÔNICA - AMIZADE

Sempre que penso na melhor definição de amizade, acredito ser mais simples identificar sua natureza por aquilo que ela não é. Ou seja, para mim amizade não é desrespeito, não é opressão e não é perfídia. Desse modo, os opostos me servem como régua básica do quanto sou um bom amigo…, ou pelo menos tento ser.

Contudo, apesar de parecer um conceito razoável, o avanço da idade possui o poder de nos distanciar de ideologias fechadas que restringem a possibilidade de enxergar circuitos amplos das relações sociais. O ser humano é complexo demais para que um conjunto de três adjetivos consiga dar conta de estabelecer as bases de um relacionamento. A experiência tem me mostrado que, para muito além da necessidade de enquadramento que conceituava, existem outras variáveis numa amizade, e algumas dessas variáveis podem ser tão amplas e determinantes quanto a noção de respeito, liberdade e lealdade.

Por exemplo, na minha vida tive poucas relações as quais pude classificar como amizade. Mas cada uma delas continha particularidades que talvez por conta desse olhar conservador de minha parte, fez com que eu deixasse de lado aspectos importantes para a continuidade daquela relação. E do alto de minha bitolada truculência, acrescentei um quarto elemento essencial para identificar um amigo: perenidade. Sim, eu acreditava que se acabou, é porque não era amizade.

Nos dias atuais, assim como no curso de outros aspectos da vida, as amizades mudaram.  Da mesma forma como a vida moderna está mais superficial em todas as suas esferas, seja no trabalho, no relacionamento afetivo, na família, em que, dentre outros aspectos dessa nova condição, podemos destacar a terceirização dos cuidados, a troca constante de emprego, a falta de tempo para momentos banais, a luta incessante pela produtividade, a sedução da meritocracia, entre outros, as amizades seguem a mesma metamorfose social.

Cultivar amizade na pós-modernidade é muito diferente de tempos antigos, tornou-se muito mais efêmero, ou como dizia Baumann, tornou-se líquido. Não vale mais a pena persistir, pois você pode trocar de amizade facilmente, afinal, em suas redes sociais destacam-se milhões de amigos. Desse modo, o cardápio repleto de opções, vamos trocando e testando…, e perdendo a capacidade de criar vínculos duradouros, significativos, assim como perdemos a capacidade de desenvolver habilidades como paciência e tolerância.

Estamos vivendo um mundo onde as facilidades comunicacionais da era tecnológica promovem maior capacidade de estabelecimento de contatos interpessoais, assim como reduz distâncias, mas quando utilizadas de maneira volúvel, tais facilidades comunicacionais geram o distanciamento afetivo entre sujeitos.

Mas o que estamos presenciando na sociedade moderna seria um processo de transformação das amizades ou sua efetiva extinção?

Uma pesquisa feita em 2021 pelo Survey Center on American Life mostrou que o número de pessoas que alegam não terem nenhum amigo aumentou em mais de 400% nos Estados Unidos. Outra pesquisa no mesmo ano, que contou com mais de 50 mil participantes de 26 países, feita pelo McCann Group, revelou que 46% dos participantes disseram não terem amigos naquele momento de suas vidas. E o Instituto Ipsos, em pesquisa aqui no Brasil, levantou alarmantes dados mostrando que 50% dos brasileiros participantes disseram que se sentem sós frequentemente, muitas vezes ou sempre.

Estas pesquisas, embora não sejam determinantes, não deixam dúvidas sobre uma realidade: amizade é algo que está desaparecendo nas sociedades modernas.

Todo esse cenário poderia ser problematizado, levando-se em conta fatores sociais, costumes locais ou dissociação da palavra amizade. Porém, a realidade é que o nível de habilidades sociais e empatia dos participantes eram parecidos, algo que foi testado por algumas das instituições que fizeram as pesquisas.

Quando me deparei com esses números, aquiesci para o fato de que o problema não estava apenas sobre meus conceitos restritivos, mas existe algo podre na forma como estamos nos relacionando uns com os outros. Portanto, creio que o problema vá muito além de uma mera necessidade de ampliar o funil social. Talvez haja algo errado com a nossa capacidade de resiliência, o desaparecimento de nossa cumplicidade, a forma com que priorizamos obtenção de coisas em detrimento de pessoas e, acima de tudo, o crescimento de nossa intolerância.

Relacionar-se com alguém pressupõe a quebra de barreiras as quais fortemente estabelecemos como mecanismos de defesa. Um amigo seria aquele que conseguiu ver através de nossas máscaras sociais sem julgamento, ao contrário, ele aprecia e talvez até se identifique com o aspecto orgânico do amigo.

O começo de qualquer relacionamento é doce porque tem curta duração. E que essa doçura se abriga precisamente naquela reconfortante consciência de que você não precisa desviar de seu universo, nem se desdobrar para mantê-la intacta. Ou seja, a convivência duradoura descortina nossa realidade menos lustrosa, faz-nos pensar sobre nossa vaidade e abre a possibilidade de olharmos para o que é diferente.

Mas estamos preparados para sustentar essa sofisticação?

Em entrevista concedida à Clarice Lispector, o dramaturgo Nelson Rodrigues, quando questionado sobre amizades, deu a seguinte resposta:

Eu tenho o que chamaria de amigos desconhecidos. São sujeitos que eu nunca vi, que cruzam comigo numa esquina, numa retreta, num velório. Certa vez, fui a uma capelinha ver um colega morto. Eram duas horas da manhã. Uma mocinha saiu do velório ao lado com um caderno na mão, fez uma mesura para mim e disse ‘quero ter a honra de apertar a mão do autor de A vida como ela é’. Depois me pediu o autógrafo. Eu senti que estava vivendo um momento da pobre ternura humana. Eis o que eu queria dizer: o amigo possível e certo é o desconhecido com quem cruzamos por um instante e nunca mais. A esse podemos amar e por esses podemos ser amados. O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência”.

No fundo, talvez seja o medo o sentimento que cria essa fria barreira que impede a imersão de cabeça do sujeito numa verdadeira amizade, colocando-o sempre na defensiva para que não venha a sofrer as consequências inevitáveis que ocorrem no enfrentamento de uma relação de amizade. Afastando-se da possibilidade de um vínculo afetivo, o sujeito incapaz de amar plenamente foge de seus próprios fantasmas existenciais, construindo, assim, uma vida vazia e sem significado.

No apogeu da sociedade de consumo, as pessoas foram assimiladas nesse degradante dispositivo de relações efêmeras sem maiores complicações éticas de consciência. Impaciência e indisponibilidade se tornaram a regra normativa, pois o ser humano moderno, cada vez mais fragilizado em sua interioridade, foge sofregamente do semelhante, pois aprendeu que semelhante deriva de equivalência, que não há espaço para tolerar a diversidade. Tememos nossa própria descartabilidade pessoal, e assim nos utilizamos convenientemente de todos os subterfúgios tecnológicos e ideológicos possíveis para fugir de nossa responsabilidade existencial perante o amigo.

Também é preciso cautela com nossa arrogância. No meu caso, a soberba de achar o que devia ser feito, de desenvolver uma lista daqueles elementos que me pareciam fundamentais para a definição de amizade, era na verdade os critérios que permitiram que eu me considerasse o amigo irretocável, que jamais será alcançado por qualquer ser humano, tornando-me o exemplo máximo de indivíduo solitário em sua estupidez.

Acreditava que, após todos esses anos, eu saberia definir o que era uma amizade, para além da empáfia de me considerar o grande candidato a amigo. Mas aceitando meu discernimento escasso, talvez a grande amizade seja, para além dos ditames morais ou armadilhas das simplificações retóricas, uma instância onde duas individualidades se encontram e se reconhecem, como partes complementares de um todo incompleto. Pois percebi na pertinente definição de Michel de Montaigne, sobre seu grande amigo Étienne de La Boétie, o porquê da amizade entre os dois, o filósofo disse simplesmente: “porque era ele, porque era eu”.

Termino esta proza com um pensador que, de fato, compreende e sabe definir uma verdadeira amizade, o poema do mestre Oscar Wilde:


Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela cor da pela ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.

Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.

Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.

Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.

Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.

Quero-os metade infância e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

 

 

Feliz dia do amigo! - 20/07/2026

sábado, 4 de julho de 2026

RESENHA DE LIVRO – A PACIENTE SILENCIOSA


Mais um livro que entrou em meu radar por conta do grande burburinho que vem causando nas comunidades literárias. Geralmente, sou resistente a ler livros que estão muito cotados, não por preciosismo, mas porque tenho uma lista infinita de obras que quero ler, portanto, quase não sobra espaço para o que vem sendo lançado. Mas quis abrir uma exceção para este trabalho de Alex Michaelides por duas razões: a sinopse é muito boa e a trama toca no tema da terapia, um assunto que me interessa de perto. Mas cá entre nós, as poucas literaturas modernas que tenho lido atualmente me entusiasmaram bem pouco..., vamos falar sobre esta:

A PACIENTE SILENCIOSA, como mencionei, tem uma premissa um tanto sedutora: Pintora famosa é acusada de assassinar o marido e, desde então, fez votos de silêncio. Ela é internada numa clínica psiquiatra e sua abstenção chama atenção de um terapeuta forense, nosso protagonista, que se torna obcecado em ajudar a fazê-la falar novamente.

As impressões iniciais quanto a narrativa em primeira pessoa, deixam a sensação de que a condução informal da personagem narradora é proposital e isso até agrada num primeiro momento. Mas não demora para a trama deixar explicitado que está interessada em trocar a profundidade psicológica pela velha engenharia de suspense. O narrador parece menos um personagem complexo e mais um mero mecanismo narrativo.

O autor também perde a chance de explorar um elemento que me parecia essencial e sugestivo em sua sinopse: mergulhar a fundo nas relações humanas, especialmente traumas, obsessão e transferência emocional. Mesmo sendo um terapeuta diante de uma paciente que não fala, isso poderia ser trabalhado por meio de flashbacks, principalmente quando o diário da paciente chega até sua posse. Há instantes em que isso parece se anunciar, mas logo a condução retoma a simplificação para manter o segredo funcionando até o grande final.

Percebi aqui um rascunho de crítica ao uso da psicologia no romance. O livro usa a estética de trama psicológico, mas em nenhum momento aprofunda essas nuances. Elas funcionam mais como atmosfera sofisticada do que como investigação real da mente dos personagens. Não nos deparamos com nenhum confronto filosófico, algo que me pareceu outra perda de oportunidade.

Este recente formato de produção literária, pautada no uso de capítulos curtos, diálogos diretos, nenhuma imersão de personagens e o choque como motor principal, me incomoda bastante. Há momentos em que tive a sensação de estar lendo algo repetitivo, como se fosse um livro que já li antes, pois me parece que muitos autores contemporâneos seguem essa mesma cartilha.

A personagem principal, o terapeuta Theo Faber é outro problema: inicialmente se comporta como um profissional entusiasmado, mas no decorrer da leitura deixa evidente seu imenso despreparo como terapeuta. Então ele vai além: assumi a função de investigar o crime cometido por sua paciente, o que logo nos faz perceber que ele também é um investigador medíocre e desorientado.

Já a paciente do título, Alicia Berenson, com seu silêncio criando uma aura de mistério, nos faz querer saber quem é essa mulher e o que aconteceu. No entanto, essa ânsia do leitor se sustenta até o instante em que ela resolve abrir a boca (com o perdão do spoiler). Desse ponto em diante, ela se torna tão desinteressante quanto seu terapeuta. As demais personagens que entram e saem da trama também não ajudam a elevar a atmosfera, talvez por conta do método narrativo, que apenas relata os acontecimentos, sem nos aproximar do material humano que cada um deles deveria sustentar.

A PACIENTE SILENCIOSA é um thriller de suspense que parece mais preocupado em conduzir sua narrativa para o grande momento “surpresa” (tenho dificuldade com alguns termos inglês que andam infestando nossa linguagem, como esse tal plot twist), do que propriamente em contar uma boa história..., uma pena!


NOTA: 5,4

sábado, 20 de junho de 2026

RESENHA DE LIVRO: DANÇANDO NAS RUAS – uma história do êxtase coletivo

 


Ao longo da história do pensamento sempre houve um viés das ciências sociais em compreender problemas estruturais da sociedade, como desigualdade, poder, pobreza, conflitos geopolíticos. Desde Karl Marx até Max Webber, o interesse em inferir as estruturas e tensões coletivas nunca cessou, o olhar do pesquisador sempre voltado para o que há de mais pernicioso nos hábitos humanos. No entanto, eventos voltados para a alegria, como danças, festas ou ritos extáticos, estes sempre pareceram algo secundários, quase não científicos.

Pois eis que uma jornalista americana resolveu colocar luz nesta face marginalizada do ser humano. Vejamos o que ela descobriu:

DANÇANDO NAS RUAS – uma história do êxtase coletivo, de Barbara Ehrenreich, tem como ponto central uma análise sobre o ato ancestral de cultivar momentos de êxtase coletivo em sociedades humanas, desde celebrações públicas, danças em grupo e até festivais específicos, que criavam senso de pertencimento e igualdade. Eram rituais que quebravam hierarquias e aproximavam indivíduos de forma intensa.

A coletividade é um aspecto determinante da natureza humana. Ao longo da história, sempre que houveram sociedades, conjuntamente houveram atividades coletivas, sejam elas festas, danças, cerimonias e rituais, como forma de conexão entre indivíduos e, algumas vezes, até mesmo de resistência.

A premissa mira na ideia de que a alegria coletiva não é superficial, como é interpretado por sociedades modernas, mas algo fundamental. Os momentos de dança, festa e êxtase em grupo não são escapismos das agruras de se viver em sociedade, mas eles criam pertencimento, dissolvem hierarquias e fazem as pessoas se sentirem parte de algo maior. Isso sustenta um valor social e até psicológico enorme.

Ehrenreich argumenta que, especialmente no ocidente moderno, essas experiências foram sendo reprimidas ou controladas por instituições conservadoras como a Igreja, o Estado e até o capitalismo. O objetivo era eliminar a suposta desordem e lascívia que permeavam esses eventos.

Um aspecto interessante que a obra analisa é o resultado desse rigor restritivo institucional sobre tais eventos na vida contemporânea: atualmente a maior parte das formas de celebração coletiva foram militarizadas (no sentido de dar a elas um formato estritamente conservador e uniformizado), individualizadas ou comercializadas, condições que reduziram, ou até extinguiram, o senso profundo de comunhão. Atualmente, no lugar de confraternizarmos juntos, apenas consumimos entretenimento.

A autora insiste na ideia de que a alegria coletiva não é apenas uma questão de mera diversão, mas uma necessidade humana básica, com potencial de influência política, o que explicaria o interesse de extinguir esse aspecto de nossa cultura, por parte de determinadas lideranças.

O livro evidencia a dificuldade metodológica que surge ao se estudar estados de êxtase, emoção intensa ou experiências corporais. Não é fácil medir ou descrever tais eventos com ferramentas tradicionais. Mesmo estudos antropológicos, que fizeram análises mais amplas, muitas vezes trataram esses momentos como meras “curiosidades culturais”, não as tratando como fenômenos centrais de massas.

Outro fator abordado na obra é o cultural: especificamente em sociedades ocidentais modernas, há uma valorização exacerbada da racionalidade, do autocontrole e da produtividade. Logo, estados de êxtase coletivo podem parecer irracionais, perigosos ou até mesmo primitivos. Isso influencia o que pesquisadores atuais consideram como sendo digno de estudo.

DANÇANDO NAS RUAS é uma obra que toca num tema ignorado, e de forma provocadora nos faz um alerta: ao substituir celebrações espontâneas por entretenimento passivo ou comercializado, a sociedade acabou esvaziando essa experiência..., talvez precisamos reconhecer que a necessidade de celebrar juntos, de “dançar nas ruas”, não se trate de um ato de luxo, mas uma necessidade humana básica que, ao longo dos séculos, foi sendo esquecida ou domesticada.


NOTA: 9,1

domingo, 7 de junho de 2026

RESENHA DE LIVRO – UM MOMENTO, UMA MANHÃ

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Existem autores que sabem como pegar um tema do cotidiano, um acontecimento banal, uma condição social e transformar em conteúdo imersivo, onde o principal elemento é a natureza humana e suas inconstâncias frente ao ineditismo da vida. Infelizmente creio ser um recurso literário não muito comum, pois muitos escritores até partem de uma premissa interessante: uma manhã em que morre subitamente o marido de uma mulher, a coincidência de outra mulher que viu tudo do assento onde se encontrava no vagão do trem, e uma terceira, que é a melhor amiga da esposa desesperada, e que por acaso se encontrava noutro vagão desse mesmo trem. Seria o cenário oportuno para se pensar a complexidade da existência humana, porém, a autora transformou sua trama num entediante relato dos preparativos formais de um fatídico velório…, este breve cenário é a sinopse de UM MOMENTO, UMA MANHÃ, da escritora britânica Sarah Rayner; experiência que aponta para o triste fato de que minhas leituras de autores que desconheço, este ano estão bem abaixo do esperado.

A premissa da obra é, de fato, potente. O livro começa com ritmo direto e uma narrativa insinuante: o olhar despretensioso e entediado de uma das protagonistas, dentro do vagão de um trem. Porém, após o infortúnio, a condução toma outro rumo que denota uma diferença expressiva entre o potencial dramático e realização literária.

Um evento súbito, ou seja, a morte inesperada de um dos passageiros, observado a partir de diversos pontos de vista, ofereceria um campo fértil para explorar elementos que enriquecem um texto e tornam a leitura densa: choque existencial, negação, reorganização de sentidos, relações que se reconfiguram, a confusão causada pelo acontecimento drástico.

Mas há aqui um problema com a gestão da matéria narrativa: Rayner opta por um caminho que privilegia o registro do cotidiano imediato, algo quase documental: os trâmites, os gestos imprecisos, os protocolos sociais do luto, o choque disso tudo com a rotina da vida humana. Isso em si não é um erro, propriamente, alguns autores trabalham com o relato puro e simples da vida…, porém, a diferença está em como esse relato se recusa a tensionar, como se os personagens envolvidos fossem máquinas que seguem protocolos estabelecidos, alheios a qualquer tipo de inconstância.

Essa economia narrativa escancara outro problema: um acontecimento abrupto exige uma certa intensidade emocional e reflexiva a ser sustentada pela narrativa. Quando essa intensidade não se aprofunda, o texto passa a girar em torno do evento sem realmente expandi-lo. O leitor percebe que havia ali um núcleo forte, mas ele não foi plenamente explorado.

UM MOMENTO, UMA MANHÃ é uma adesão excessiva ao plano do acontecimento. O texto permanece o tempo inteiro na superfície do evento, como se a simples sucessão dos atos – preparar o velório, comunicar pessoas, trazer a notificação do acontecimento para crianças (cada vez que os pequenos eram inseridos na trama, a vontade era de parar de ler, os diálogos com as crianças soavam pouco orgânicos), lidar com procedimentos – fossem suficientes para sustentar a narrativa. Sem um trabalho mais profundo de linguagem, interioridade ou tensão simbólica, o relato se esgota rapidamente…, antes da metade do livro eu estava profundamente cansado da leitura.

UM MOMENTO, UMA MANHÃ é uma obra sem alma, completamente ausente de densidade subjetiva ou espessura existencial, a qual em nenhum instante é explorado a consciência das personagens. Há coisas acontecendo externamente na vida dos envolvidos, mas quase nada se enxerga internamente. É quase como ler um jornal: ele apenas relata o mundo, enquanto que o trabalho da literatura, quando potente, é reinterpretar esse mesmo mundo.

NOTA: 3,5

terça-feira, 26 de maio de 2026

RESENHA DE LIVRO: O CRIME COMPENSA


Como já mencionei noutras resenhas, se as letras do nome do autor forem maiores do que o título da obra, certamente estamos diante de um sujeito que vende muito livro. Também sabemos que um livro que vende muito não necessariamente é um bom livro, talvez seja apenas um exemplo de marketing eficiente. Não cometerei a injustiça de dizer que Jeffrey Archer é um escritor medíocre, sem antes ler mais obras de sua autoria (embora não tenha certeza se quero fazer isso). Contudo, seu compilado de contos intitulado O CRIME COMPENSA, foi minha primeira experiência no universo literário dele..., e sobre isso, quero deixar os meus dois centavos.

Temos aqui uma coletânea de 14 contos independentes, quase todos contendo elementos de ambição, ganância, orgulho ou vingança. Geralmente o recurso do “final surpreendente” aparece, o autor costuma trabalhar com um estilo que me pareceu peculiar: personagens confiantes, golpes financeiros, sociais e alguma ironia moral.

Quando se lê apenas um livro, é no mínimo irresponsável identificar o estilo do autor, porque isso pode mudar com o tempo, assim como há escritores que variam de estilo, outros bons contadores de história, e alguns falham como estilistas. Archer parece escrever de forma direta, quase oral, fluído..., mas há instantes em que a narrativa pareceu simplista e excessivamente explicativa.

Os contos aqui reunidos não deixam muito espaço para ambiguidades ou interpretação. Em vez de sugerir, o texto prefere explicar. É um recurso que retira a sutileza, principalmente em contos mais longos, que ficam dando muitas voltas, até chegar numa tentativa de final impactante.

Outro problema que me incomodou por quase toda leitura fica por conta dos diálogos. Eles servem mais para mover a trama do que desenvolver e revelar caráter. Às vezes parecem artificiais, algo quase teatral. É como se o autor priorizasse o mecanismo da reviravolta em detrimento da profundidade psicológica, algo quase imperceptível aqui. Frequentemente o diálogo é usado meramente como ferramenta expositiva.

Talvez eu tenha começado um bom escritor pelo livro errado. Já ouvi muitos elogios a respeito da obra de Jeffrey Archer, dizem que ele funciona melhor em narrativas mais longas, onde podemos ver sua habilidade em desenvolver rivalidades e arcos complexos.

No caso deste O CRIME COMPENSA, o que sustenta os textos é o mecanismo da trama, sem deixar espaço para complexidade psíquica. Quando o conto é mais longo (aqui há uma disparidade em tamanhos, há contos de apenas uma página, outros contendo dezenas), essa estrutura começa a ficar visível demais, por isso alguns parecem arrastados, cansativos.

Talvez seja apenas uma escolha estética do autor: narrativas claras de impacto imediato. Não era o que eu esperava encontrar, e por isso me decepcionei.

Enfim, O CRIME COMPENSA é uma compilação de contos de um escritor Best-seller que eu quis conhecer, mas talvez ainda precise ler um de seus grandes sucessos para afastar essa primeira má impressão. Dos 14 contos, digamos que eu tenha gostado de 3 ou 4. Nesta obra me deparei com um autor que metralha seus contos com parágrafos explicativos demais e parece não confiar na capacidade de interpretação de seu leitor. E isso, para quem gosta de literatura mais profunda, acaba soando condescendente.

NOTA: 5,2

sábado, 2 de maio de 2026

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 4º PARTE

Toda criança é um artista entusiasmado, tomado por um inesgotável senso de curiosidade, uma criança não se cansa de invadir o inexplorado, experimentar situações novas, correr riscos, não teme a exposição e pouco se importa com a opinião dos outros..., crianças adoram criar coisas. É quase possível afirmar que a infância é a fase na qual o ser humano vivencia seu mais elevado grau de desenvolvimento cognitivo.

E num fatídico dia, essa criança se torna um adulto. Metamorfose regressiva, esse adulto agora é entediado, detesta sair de sua zona de conforto, vive cansado, recusa qualquer chance de fazer algo de um jeito diferente, é demasiadamente precavido, morre de medo da opinião alheia e sua única válvula de escape é passar os fins de semana deitado no sofá, maratonando séries em canais de estreaming.

– Quando foi que você se tornou esse adulto chato? – perguntei ao paciente, após minha pessimista explanação sobre perda da infância.

Como era de se esperar, ele não respondeu rapidamente. É normal as pessoas não saberem o que dizer quando são confrontadas com questões completamente distintas daquilo que foram treinadas a responder.

– Não sou um adulto chato – disse ele, emburrado, feito uma criança.

– Fique sossegado, todos os adultos são..., mas se o termo “chato” lhe soou desconfortável, vamos mudar para “diferente”. Quando você se tornou esse adulto tão diferente da criança que foi um dia?

– O que o faz pensar que sou tão diferente assim? – ele estava muito na defensiva.

– É uma hipótese.

– Não acho que eu me tornei tão diferente..., pelo menos não na essência. Claro que biologicamente falando eu mudei, também passei a ter mais responsabilidades. Mas quem eu realmente sou não mudou…, eu acho.

– E quem é você?

– Eu sou..., bom, você sabe quem sou. Meu nome está bem aí na sua agenda clínica.

– O nome que lhe deram quando nasceu não é você. De modo que vou insistir na pergunta: quem é você?

Ele me encarou por alguns segundos, tentando desvendar o que eu queria dele.

– Sou um empresário, marido e pai de uma filha adolescente.

– Isso também não é você. Apenas tem a ver com sua profissão e funções sociais. E apesar de importantes, essas coisas não o definem..., portanto, quem é você?

Dessa vez consegui fazer com que o paciente olhasse para dentro de si mesmo. Ele respirou longamente, observou o tapete sob seus pés, cruzou os braços e aguardou por algum tempo, no mais absoluto silêncio. E apesar de ter discordado sobre ter se tornado um adulto diferente do menino que um dia foi, agora não apresentava grande desassossego..., de fato, ele parecia quase contemplativo.

– Nunca me perguntaram isso. Pelo menos não dessa forma.

– De que forma?

– Não sei..., dessa forma genuinamente interessada em saber quem sou. Geralmente quando me fazem essa pergunta, as respostas que ofereço costumam dar conta. Mas acho que é a primeira vez que percebo que nada do que respondi ao longo da vida sou eu.

– Como se sente em relação a isso?

– Bem..., parece que eu não sei quem sou.

– Talvez você tenha se distanciado demais daquela criança que foi um dia.

– Você acha?

– O que eu acho não tem importância. Afinal, eu não conheci a criança que você foi..., mas o que realmente importa é o que você acha.

Ele retornou ao estado contemplativo. Seu olhar não mais testemunhava o cenário externo. Na verdade, ele parecia mergulhar para dentro da alma.

– Quando eu era menino, gostava de brincar com recortes de revistas – ele começou a falar, o olhar ainda compenetrado – Pegava as revistas de moda da minha mãe e passava horas caçando figuras das mais variadas. Usava os recortes para construir murais de diferentes temas: casas, animais, cidades, pessoas..., esse último era o meu favorito. Retirava imagens de pessoas que eu não soubesse o nome, entende? Não dos artistas famosos, porque os famosos eu sabia o nome deles. No meu mural só havia pessoas das quais não conhecia seus nomes..., e depois que os colava no papelão, eu pendurava na parede do quarto e ficava observando seus rostos, queria saber quem eram aquelas pessoas, ondem moravam, quais eram seus nomes – ele despertou das lembranças e me olhou, um pouco encabulado – Sei que era uma atividade idiota.

– Não era não. Idiota é essa sua afirmação, porque sei que não acredita nisso. Agora compreende porque eu disse que todo adulto é um chato?

– Sim, acho que você tem razão..., mas não sei dizer quando foi que me tornei esse adulto chato.

– Não tem problema.

– Acho que a sociedade vai nos moldando de modo a nos deixar em plena conformidade com o que o sistema social vigente precisa que sejamos. Desenvolver nossa essência é considerado improdutivo, por isso nos doutrinam – de repente, ele pareceu espantado – Talvez mais simples do que dizer quem sou, seja dizer o que eu me tornei, doutor.

– Então diga: o que você se tornou?

– Eu me tornei um acumulador de patrimônio, mesquinho. Quanto mais eu ganho, mais parece que preciso ganhar para suprir alguma vazio. É como se eu estivesse numa competição sem fim, onde cada pessoa ao redor eu o interprete como sendo um adversário, então preciso ultrapassá-lo, ter mais poder, mais status, mais notoriedade..., doutor, eu me tornei um...

Ele hesitou. Como é difícil encontrar a palavra certa que unifique tantos adjetivos que pairam em nossa mente sobre aquilo que nos tornamos.

– Um competidor..., tornei-me um guerreiro contemporâneo.

– Fale um pouco sobre esse seu eu guerreiro.

– Esse guerreiro é um sujeito mesquinho, amedrontado, que aprendeu a desconfiar de todos ao redor. Para além de sua epiderme tudo é ameaçador, por isso ele aprendeu a não ter compaixão e suas relações sociais estão estabelecidas sob a lógica da escada: todos estão sobre algum degrau, uns acima outros abaixo..., e esta é a batalha do guerreiro: alcançar o próximo degrau, enquanto impede que roubem o seu lugar atual.

– É uma ótima metáfora – falei, tentando o manter motivado, mas sem me abster da sinceridade – a resposta parece ter saído de dentro de você sem grande dificuldade.

– Acho que sim – ele inspirou demoradamente, como se houvesse acabado de encontrar uma enorme bagunça dentro de si – Eu nunca pensei que fosse dizer isso de mim mesmo, mas acho que sou uma pessoa horrível, doutor.

– Você não é uma pessoa horrível.

– Não estou sendo autoindulgente.

– E nem eu estou sendo razoável – levantei-me e fui até o bebedouro, no canto da sala – veja bem: geralmente quando paramos para observar nossa própria existência, com humildade e retidão, costumamos nos assustar com alguns aspectos negativos em nossa atual constituição humana, os quais passamos a vida inteira ignorando. O fato é que todos nós estamos moldados por um misto de traços positivos e outros negativos. Pode ser que você esteja assustado, porque por alguma razão se recusou a observar aquilo que pode melhorar em sua personalidade. Sempre há lugares em nós que são ignorados com o tempo. E quando disse que não estou sendo razoável, é porque acredito que o primeiro passo para se mudar algo dentro de nós, é reconhecer aquilo que precisa ser mudado..., e você está fazendo essa autoanálise agora – retornei com um copo com água e o entreguei – algumas vezes vai doer essa etapa de identificar suas falhas, mas o processo de cura começa com essa dor.

– Sabe, ao mesmo tempo em que consigo enxergar algumas falhas de caráter em mim, também percebo que não quero mudar; como se meus comportamentos funcionassem como medidas protetivas que impedem que outras pessoas sejam invasivas..., é como se houvessem duas vozes dentro da minha cabeça, doutor. Cada uma diz uma coisa contrária da outra.

– Observe e tente compreender o que estas vozes estão dizendo, o que há de importante em cada orientação que as vozes ditam. Então seu trabalho é pegar tudo e discernir, com coerência e desprendimento, até que você encontre a solução mais equilibrada. As vozes dentro da nossa cabeça costumam intimidar, causar medo, nos deixar tristes e até fazer com que percamos a confiança..., mas elas são como espectros de experiências da vida que você viveu até hoje. Contudo, essas vozes não são você.

– Como assim? – ele quase engasgou com a água – então a quem pertencem essas malditas vozes?

Como explicar para aquele paciente, de um modo que parecesse o menos metafísico possível, sem confrontar seu enorme ceticismo?

– Acho que vai ficar mais simples entender isso, utilizando uma ideia de um poeta chamado Khalil Gibran – dessa vez foi minha vez de inspirar longamente – a ideia dele é a seguinte: “Deus disse: ‘ame o seu inimigo!’ Eu obedeci, e amei à mim mesmo”.

Parado com o copo descartável vazio na mão, o paciente ficou encarado no tapete do chão por algum tempo. Depois, se despediu e foi embora, prometendo pensar sobre a sessão de hoje, mas eu estava convicto de que ele havia entendido a mensagem.


**continua**

sábado, 18 de abril de 2026

RESENHA DE LIVRO – A OSTRA E O BODE

Carlos Herculano Lopes é um narrador sensível, meticuloso e um pouco conservador. Observa o mundo de longe, até mesmo quando algum de seus textos narra uma experiência pessoal, ele o faz com um olhar distante, quase em terceira pessoa, como uma ostra fechada que observa os bodes mundanos – embora esse trocadilho não tenha muito a ver com o título da obra, que também dá nome a uma das crônicas reunidas neste agradável volume.

A OSTRA E O BODE é um compilado de crônicas que denota claramente a maturidade literária de seu autor. Neste livro, Lopes explora o mundo não apenas como registro do cotidiano, mas como instrumento de investigação da condição humana em sua escala mais íntima.

Os textos aqui partem de eventos aparentemente banais – um encontro ocasional, uma lembrança, uma cena urbana – mas rapidamente se deslocam para uma dimensão mais profunda, onde o que está em jogo é a própria estranheza do existir.

Outro aspecto interessante é a relação com o tempo. Suas crônicas não são apenas narrativas de acontecimentos; são dispositivos de suspensão temporal. O instante cotidiano se torna um portal para o passado, para memórias, ou mesmo para uma reflexão ontológica mais ampla. Há aqui uma desaceleração deliberada da percepção. E o autor o faz com uma linguagem simples e acessível.

Há uma diversidade grande de situações, quase sempre com o foco em situações que normalmente passam despercebidas pela maioria de nós. Uma crônica que me prendeu bastante foi Hassina, em que conta a história de um brasileiro que se encontra algumas vezes num Café com uma mulher muçulmana prometida em casamento, e os dois se apaixonam. O vínculo entre o brasileiro e a moça, chamada Hassina, não se desenvolve na lógica da posse, mas na lógica da impossibilidade; a condução do autor não tenta superar a realidade, ele apenas a contempla.

Percebi ao longo da leitura certo excesso de sutileza, sinais de um conservadorismo do autor. Acho que isso empobreceu um pouco a narrativa, mas não a ponto de a deixá-la ruim; Carlos Herculano Lopes compensa isso com seu estilo delicado e denso. A beleza não deriva da intensidade do evento narrado, mas da qualidade do olhar que o apreende. O centro da crônica deixa de ser o acontecimento e passa a ser a consciência que o observa.

É uma diferença decisiva, que não deixa o texto ruim, apenas impõe seu estilo.

A OSTRA E O BODE é um livro discreto na superfície, mas muito consistente em sua arquitetura interior; quanto mais se observa, mais se percebe que a verdadeira matéria da obra é o modo como a consciência se relaciona com aquilo que se viveu e as minúcias imperceptíveis do cotidiano.

NOTA: 8,6

sábado, 11 de abril de 2026

RESENHA DE LIVRO – OS CATADORES DE CONCHAS


Encontrava-me garimpando num Sebo na capital do ES, Vitória, quando me deparei com um clássico da literatura britânica. Saliento que não foi muito difícil enxergar OS CATADORES DE CONCHAS na prateleira de literatura internacional, pois o tijolão de quase setecentas páginas, destacava-se por sua enormidade. E é precisamente essa robustez o que, num primeiro momento, despertou minha curiosidade. Afinal, eu já tinha ouvido referências positivas sobre a obra, portanto, seu tamanho pareceu um atrativo extra, pois a obra devia ter muito a dizer. Mas o que era para ser uma leitura prazerosa acabou se transformando em instantes de tédio, que só não foram maiores, porque sua autora, Rosamunde Pilcher, escreve de forma simples e fluida. Vamos falar um pouco sobre isso.

OS CATADORES DE CONCHAS se organiza em torno da memória, do tempo e da transmissão simbólica entre gerações de uma família inglesa. A protagonista, Penelope Keeling funciona como uma espécie de arquivo vivo de um século marcado por guerras, perdas e reconstruções. Enfrentando a velhice do presente momento e após quase sofrer um infarto, Penelope toma algumas decisões que vão despertar memórias de sua juventude, assim como entrará em conflito direto com seus três filhos.

Um dos eixos centrais do romance é a tensão geracional, ocasionada pela distinção entre valores econômicos, inseridos nas figuras dos filhos, e os valores sentimentais, encarnados na presença da matriarca. Existe aqui um interessante embate entre duas formas de habitar o mundo: uma orientada pela utilidade, outra nutrida pelo significado. Pilcher trabalha também a questão da solidão não patológica. Sua protagonista é uma mulher solitária, mas não vazia. Trata-se de uma solidão madura, deliberada, atravessada por afetos reais. Isso faz dela o arquétipo preciso dos valores sentimentais na trama.

O aspecto ético me pareceu sutilmente relevante: uma crítica à ingratidão geracional. Os filhos de Penelope não agem como vilões caricatos, mas como produtos de um tempo em que a escuta do passado se perdeu. A autora não os demoniza em momento algum, mas os expõe. OS CATADORES DE CONCHAS sugere que o verdadeiro empobrecimento não é financeiro, mas afetivo.

A condução narrativa é silenciosa, sem retórica nem julgamento explícito, o que torna a trama um tanto eficaz. A obra de arte que leva o nome do livro, não é um simples objeto narrativo, mas um dispositivo simbólico que expõe duas racionalidades inconciliáveis e discrepantes em termos. Para os filhos, o quadro Os Catadores de Conchas é apenas uma ativo, algo que pode ser convertido em dinheiro. Já para a mãe, Penelope, o quadro tem um enorme valor afetivo, a lembrança da juventude, a memória de quem ela foi e de quem se tornou. Portanto, para Penelope, o quadro não possui valor transferível ou negociável; existe apenas na relação entre sujeito e objeto. Tal enfrentamento faz com que a protagonista perceba uma evidente ausência de empatia por parte dos filhos: eles não desconsideram apenas um quadro, mas desconsideram a história da mãe.

Outras personagens surgem ao longo da história, mas servem apenas para reforçar o enfrentamento geracional, despertando nos filhos, sentimentos que lhe são característicos, como ciúmes e inveja. E esse desgaste silencioso na relação entre mãe e filhos é a fratura moral que jamais explode, mas apenas se acumula…

Os acontecimentos comuns de uma família de classe média do século vinte são exatamente os pontos de interesse de Rosamunde Pilcher. Ela descreve uma classe que não enfrenta fome, nem guerras diretas, tampouco tragédias existenciais. Seu foco está em falhas éticas nas relações familiares, não estamos diante de uma história de sobrevivência, é sobre a incapacidade de reconhecer o outro…, só que esse hiperfoco causou um problema:

Em OS CATADORES DE CONCHAS o entrave não está em seu tema – conflitos familiares, herança simbólica, incompreensão geracional – mas na desproporção entre matéria narrativa e extensão. A prolixidade da autora não é estilística no sentido forte, onde o excesso é compensado por densidade reflexiva. Pilcher estende-se em descritivas que retornam continuamente aos mesmos conflitos sem acrescentar novas camadas significativas. Ao retratar um universo socialmente seguro (classe média inglesa, estabilidade material, dramas ausentes de rupturas), o alongamento do texto acaba por cobrar um preço alto do leitor. O que poderia ser um texto coeso e elegante, dentro de, no máximo, 400 páginas, acabou por se tornar um árduo teste de paciência. Até para os leitores mais atentos e dispostos, 700 páginas é muito texto para tão pouco a ser narrado. O livro parece confiar excessivamente na identificação emocional do leitor com o cotidiano burguês. Concluir a leitura foi quase um alívio…

OS CATADORES DE CONCHAS é um romance afetivamente competente, mas dramaturgicamente inchado. Sua trama diz algo válido, porém, o repete mais vezes do que o necessário. Rosamunde Pilcher não tensiona o destino humano em larga escala, porém, expõe algo mais modesto: que a vida pode perder significado também em pequenas tragédias.

NOTA: 6,9

sábado, 14 de março de 2026

RESENHA DE LIVRO –O SÉCULO DA SOLIDÃO – restabelecer conexões em um mundo fragmentado

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A ideia de que existam instâncias que trabalham arduamente na constituição de uma sociedade submissa e alienada, é algo que recebo com certo ceticismo, talvez porque estou vivendo o primeiro estágio do luto: negação. Contudo, ao mesmo tempo em que me é custoso crer em certos padrões deletérios, não sou otimista, e sei que a sociedade é complexa, se transforma em diversos sentidos e pende para diferentes esferas de pensamento. Mas se há algo em que acredito, é que muita gente se beneficia de certas condições da sociedade, e essas pessoas não estão nem um pouco interessadas em mudar a situação. A solidão certamente é uma dessas condições.

De maneira sintética, este excelente trabalho intitulado O SÉCULO DA SOLIDÃO – restabelecer conexões em um mundo fragmentado, da escritora inglesa Noreena Hertz, parte de uma tese forte e bem documentada: a solidão deixou de ser um fenômeno individual para se tornar um problema estrutural das sociedades contemporâneas. Aqui a autora traz uma abordagem que vai além do problema de pessoas que “se sentem sozinhas”, e volta seu olhar para um modelo de organização social, econômica e tecnológica que produz isolamento, mesmo em contextos de hiperconectividade.

O livro faz um diagnóstico fragmentado em alguns pontos centrais: a solidão como fenômeno político e econômico; as tecnologias e suas ilusões de conexão; as consequências psíquicas e sociais; a invisibilidade coletiva, ou seja, a falta de pertencimento social.

Hertz faz uma crítica contundente ao modelo econômico, sustentando que o neoliberalismo – entendido aqui não apenas como política econômica, mas como forma de organização social – produziu um novo cidadão radicalmente individualizado, competitivo e, por consequência, isolado. A autora nos mostra que o discurso econômico contemporâneo transformou as pessoas em empreendedores de si; cada um passou a ser responsável, sozinho, por seu sucesso, fracasso, saúde emocional e estabilidade financeira. Isso é algo que mina a noção de responsabilidade coletiva e enfraquece redes sociais de apoio, como sindicatos, associações, comunidades locais e até mesmo a família. Neste modelo estrutural, pedir ajuda é visto como fraqueza, depender do outro é uma falha moral, e o resultado é um sujeito formalmente autônomo, mas existencialmente desamparado.

O modo como nossa sociedade está organizada é extremamente voltado para a competição, em vez de cooperação. Em todos os espaços sociais a competição é a ordem: no trabalho, no consumo, nas relações humanas e até na construção de identidade.

Talvez o ponto mais inquietante da obra, seja justamente aquilo que me faz pensar na distopia: sociedades mais solitárias seriam mais fáceis de se governar e extorquir. Indivíduos isolados têm menos capacidade de organização coletiva, menos empatia e maior propensão a discursos simplistas e autoritários. No entanto, a autora não afirma a existência de um “comitê secreto” que estaria planejando a solidão, e é importante deixar isso bem claro: o que Noreena Hertz descreve é algo mais sutil, e justamente por isso, mais perturbador: processos estruturais que produzem efeitos previsíveis, sem a necessidade de intenção centralizada.

Ou seja, a obra não aponta para um problema de conspiração, mas de conveniência. Não é que alguém imaginou deliberadamente uma sociedade solitária, mas que certas formas de organização social produzem solidão, e isso é altamente conveniente para mercados que se beneficiam de indivíduos isolados que consomem mais, numa tentativa de suprir carências; plataformas digitais que lucram com atenção fragmentada e relações superficiais; sistemas políticos que funcionam melhor quando a ação coletiva está enfraquecida; ambientes de trabalho que rendem mais quando as pessoas competem umas com as outras.

Enfim, O SÉCULO DA SOLIDÃO é uma estupenda obra que nos faz refletir sobre o fato de que, apesar de não vivermos numa sociedade maligna, vivemos numa sociedade que aprendeu a conviver com seus danos colaterais e, em muitos casos, a lucrar com ele. Em suma, o livro aponta para uma condição dura, mas necessária: não estamos sozinhos porque falhamos como indivíduos, na verdade, estamos sozinhos porque fomos treinados a viver assim.

NOTA: 🔟😍

terça-feira, 3 de março de 2026

RESENHA DE LIVRO – A CASA DO POETA TRÁGICO

Eis um exemplo de literatura que, se fosse lançada em tempos atuais, seria perseguida pela cultura do politicamente correto por conta de seu tema central: relação amorosa entre uma jovem adolescente e homem na casa dos quarenta. No entanto, estamos aqui apenas para analisar a obra, e a questão moral é rapidamente absorvida pela sensível e melancólica escrita de Carlos Heitor Cony...

Publicitário de meia idade, vivendo o auge do tédio existencial, fica obcecado por uma jovem que passa a perseguir discretamente durante uma viagem de cruzeiro. Após o desembarque da moça, Augusto, nosso protagonista, insiste na busca pela moça misteriosa, até conseguir falar com ela. Começa aí um romance que escapa completamente daquele estereótipo do macho dominador; o personagem de Cony é um homem inseguro e rancoroso, que precisa lidar com a desilusão de descobrir que não é soberano daquilo que pensou ser o grande criador: aquela jovem moça que ele pensa ter descoberto.

A narrativa deste A CASA DO POETA TRÁGICO foge de ideais e padrões de fácil identificação social. De fato, Cony desenvolve uma trama incômoda pela lentidão e melancólica do ponto de vista de seu protagonista que narra a história. Talvez o grande acerto da obra seja precisamente essa fuga do lugar comum: aos poucos, descobrimos que a fragilidade não pertence à Mona, a jovem conquistada, mas está em Augusto, o instável conquistador.

Vale à pena mencionar alguns pontos que não chegam a ser spoiler, mas que são pertinentes para se compreender o arco amoroso dos protagonistas: a trama se passa três anos após a separação de Mona e Augusto, eles viveram juntos por 15 anos; o nome de Mona foi praticamente uma imposição feita por Augusto quando se conheceram; Augusto já fora casado antes com uma mulher de idade equivalente.

Ditas nesta resenha, essas informações parecem triviais e apresentam pouco sobre a complexidade da relação dos personagens. Mas são pertinentes para entendermos as motivações de cada um dos envolvidos, em especial, Augusto.

Nosso protagonista parece uma mera alegoria daquilo que gostaria de ser. E sua persona parece funcionar, pelo menos durante o tempo em que viveu com Mona e compartilhou algumas de suas experiências de vida. Porém, há sempre um viés de fachada; Augusto sofre por antecipação, é ranzinza e, ao mesmo tempo, incapaz de agir com firmeza, percebe-se algum ressentimento em relação a si mesmo.

Enquanto Mona é a mulher vivendo o processo de desabrochar, que anseia descobrir o mundo, mas não se torna piegas. Ela aceita sua condição de aprendiz sem resignação, olha para seu mentor de cabeça erguida e, em alguns momentos, sabe que exerce poder sobre ele. Apesar disso, ela o respeita, mas não o cultua.

Exatamente essa seria a tragédia de Augusto: ele parece não se conformar com essa similaridade cada vez mais crescente em mona; tende a transformar tudo em lembrança (característica que acontece com personagens de outras obras de Cony), em mito pessoal, em reconstrução subjetiva. Quando tudo parece irrecuperável, Augusto se vitimiza, submete-se à uma cadeira de rodas para suscitar comiseração... Desse modo, a casa do título é o lugar metafórico da tragédia, pois seu arquiteto fracassa na elaboração da própria história; um lugar onde tentou, sem sucesso, interpretar o papel do homem experiente, mas foi incapaz de encobrir sua insegurança.

O decorrer da leitura me deixou com a sensação de que Augusto não se apaixona por Mona; isso parece implícito em sua exigência por renomear a amada, dando ao ato um caráter deífico. Augusto não ama aquela jovem, mas a instrumentaliza como forma de sobreviver a si mesmo. E, claro, para além do já citado escopo moral da trama, trata-se de outro elemento que carrega uma enorme violência emocional, ainda que Cony desenvolva sua história de forma sutil e psicológica.

E a relação de Augusto com o filho parece corroborar com a desorganização do protagonista.

É uma trama cheia de camadas, porém, algumas um tanto sutis.

A CASA DO POETA TRÁGICO é o relato de um homem em busca de si mesmo, mas que encontra somente o reflexo daquilo que teme ser. Não há redenção, tampouco aprendizagem profunda…, há apenas uma constatação melancólica, quase silenciosa, de que sua vida continuará sendo aquilo que sempre foi: uma busca fracassada do crescimento existencial pautado na construção de algo externo, esquecendo-se de seus medos e traumas internos.

NOTA: 8,5

sábado, 14 de fevereiro de 2026

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 3º PARTE

Certa vez, um paciente disse que a esposa surgiu na sala pedindo ajuda para cortar uma unha encravada que estava doendo muito. Ele não gostou do pedido por duas razões: sentia aflição ao ter que lidar com feridas, e no instante do pedido ele estava assistindo futebol. Porém, mesmo contrariado, atendeu o pedido da esposa. Afinal, quando uma esposa pede algo só há uma coisa a se fazer...

– Atender o pedido dela – antecipou o paciente – mesmo se for a final do seu time.

– Exatamente! O homem que é casado por mais de 24 horas sabe desse fato…, pelo menos foi o que garantiu esse paciente.

– Esposa atendida significa casamento feliz, doutor – ele achou o próprio comentário engraçado, mas foi um misto de graça por conta do absurdo e choque pela constatação da realidade.

– Enfim…, – fiz menção por dar segmento ao relato, para não haver risco de desviarmos o assunto – enquanto mexia com o alicate no dedo da mulher, repousado em sua perna, esse paciente disse ter fixado a atenção em algo que, até aquele dia, considerava banal: o pezinho delicado dela. E após algum tempo admirando, concluiu que estava diante do pé mais lindo que já havia visto na vida.

Fiz uma pausa proposital. Queria ver o que as feições do paciente revelavam. Notei certo desassossego, mas não saberia identificar o motivo. Contudo, ele não disse nada.

– Esse homem disse que naquela noite, os dois transaram incrivelmente, como não acontecia há anos. Contou-me que havia se apaixonado de novo pela esposa, graças à contemplação de um pé que ele havia ignorado a vida toda.

Outra pausa para ruminar ideias.

– Minha esposa tem pés horrorosos, doutor – disse ele, olhando-me meio decepcionado – são compridos e esqueléticos. Já ouvi falar de caras que têm fetiche por pés, mas acho que não funcionaria comigo.

– Não é sobre isso.

– Então por que me contou essa história?

– Esqueça os pés, esse não é o elemento principal do relato – e eu achando que ele havia captado a mensagem – O que há de interessante nesse caso é que aquele paciente, de modo involuntário, notou algo que esteve o tempo inteiro ali, diante de seus olhos, sem que jamais houvesse dado atenção.

– Quer que eu dê mais atenção à minha mulher?

– Não exatamente a ela, mas aos pequenos detalhes. Observe com mais atenção, olhe ao redor para coisas que ela faz, como ela manuseia objetos, suas manias, trejeitos..., toda a admiração que sentimos se perde quando paramos de notar o que está em nosso entorno. Isso é deletério em todos os sentidos. Estou falando do “lugar comum”, esse estado no qual apenas existimos, sem que se perceba os detalhes do que acontece…, quando se está inserido no paraíso, o hábito nos força a deixar de notá-lo.

– Não conhece minha esposa, doutor. Ela é meio neurótica, acho que não vai reagir muito bem se eu ficar lhe bisbilhotando pela casa.

– Não é esse tipo de observação vigilante. Precisa ser sutil com o olhar. Quando ela falar com você, preste atenção nos olhos, veja como mexe a boca, repare o pescoço dela..., detalhes. E se acaso algo lhe chamar a atenção, não hesite em elogiar.

– É que as vezes a gente não se lembra de praticar essas coisas, doutor – ele esfregou as duas mãos no comprimento das pernas, como se o simples pensamento sobre aquelas dicas já o esgotasse – Quando chego em casa, geralmente estou cansado do trabalho.

– Ocorre que tudo na vida é uma questão de prioridade – falei, enquanto lutava interiormente para evitar a manifestação de um suspiro de pesar – Se o seu casamento não é prioridade hoje, continuará chegando exausto do trabalho e talvez sua vida conjugal continue como está…, pelo menos por mais algum tempo.

– Está insinuando que devo trabalhar menos?

– Não estou insinuando nada. O que disse foi que tudo na vida é uma questão de prioridade. Se o trabalho hoje é sua prioridade, possivelmente está dando menos atenção a outras áreas da sua vida. Disse noutra sessão, que é um homem estabilizado financeiramente e que já tem patrimônio garantido pelo resto de seus dias.

– Ocorre que outras pessoas também dependem do que faço.

– Isso é nobre de sua parte..., mas por que você continua trabalhando tanto?

– Sou dono de uma empresa com capital de doze milhões de reais, doutor – homens como esse paciente costumam depositar muito ego em suas posições no trabalho. O discurso era de vitimismo, mas na verdade, não era difícil notar certo orgulho – Muitos compromissos requerem minha atenção, todos os dias.

– Você não precisa dar nenhuma explicação a mim. Mas vou reiterar o que acabei de dizer: tudo na vida é questão de prioridade. Portanto, suas prioridades serão os lugares onde você dispenderá maior tempo e dedicação..., ou você já viu alguém que sobreviveu à um infarto, dizer que não tem tempo pra fazer atividade física?

Dessa vez, ele se remexeu na poltrona, desconfortável.

– Antes do infarto, o médico dava orientações e ele retrucava: “não tenho tempo pra isso, doutor!”. Então depois de quase morrer, todos os dias as cinco da manhã e lá está o empresário ocupadíssimo fazendo sua caminhada religiosamente. Pergunto: o que foi que mudou na vida desse sujeito?

– Ele deixou de ser sedentário?

– Ele mudou de prioridade.

Muitas vezes a terapia consiste em dizer o óbvio para alguns pacientes. Infelizmente esse ato está sendo cada vez mais necessário. As pessoas não encontram sentido em suas vidas, então dedicam todo esforço em coisas que disseram pra elas que era importante: carreira, filhos, obtenção material, posição social… Contudo, quase sempre se esquecem daquilo que é mais fundamental: elas próprias.

– Não posso deixar de trabalhar..., minha filha ainda não possui estabilidade garantida.

– Ninguém tem estabilidade garantida. Isso demandaria mais do que apenas dinheiro, requer elementos que não podemos controlar. De qualquer forma, você não precisa parar de trabalhar, talvez só tenha que alterar o modo como trabalha.

– Como assim?

– Disse que chega em casa exausto todos os dias. Isso pode ser indicativo de que precise mudar alguns aspectos da sua rotina..., talvez delegar mais de suas funções para outras pessoas fazerem.

– As pessoas são incompetentes! – ele alterou um pouco a voz, como se o que eu tivesse sugerido fosse uma aberração – Não confio nelas.

– Não confia na sua equipe de trabalho?

– Em parte, sim..., porém, são incapazes de desempenhar minhas funções da mesma maneira que eu faço.

– Mas talvez elas consigam fazer da maneira delas.

– E, portanto, com resultados piores.

– Você pode se surpreender com a capacidade das pessoas. Quantas vezes você tentou dar uma chance para seus colaboradores?

O silêncio dele foi resposta suficiente.

– Lembra-se da atenção aos detalhes que acabamos de conversar? – perguntei.

– Claro que me lembro.

– Pois bem..., esse hábito não serve apenas para o casamento. Serve para todos os aspectos da nossa vida. Pode ser que você sustente baixa percepção aos detalhes de cada membro de sua equipe. E esse descuido não permite que note atributos interessantes que poderiam conferir ganhos para a empresa, e talvez aliviar a pressão sobre você.

– Tudo bem, doutor..., darei mais atenção aos pequenos detalhes.


**continua**