Cada leitura que faço das obras de Harlan Coben aumenta minha admiração por sua capacidade de inserir diversas situações e personagens na mesma trama, e amarrar tudo de forma minuciosa, sem esquecer de responder a cada uma das muitas questões que nós, os apreensivos leitoras, levantamos ao longo da leitura.
CILADA só
comprova essa regra. É um thriller de suspense, cuja narrativa cheia de
reviravoltas impede que o leitor feche as páginas, até seu derradeiro final. O
enredo discorre sobre o desaparecimento de uma jovem estudante, um assistente
social acusado de pedofilia por uma jornalista que arma uma cilada que o joga
num desses programas de auditório sensacionalista. O cara é inocentado por
falta de provas, mas acaba assassinado em seguida. No meio disso, temos a
repórter que perpetrou tudo e se tornou única testemunha do assassinato desse
rapaz. Começa então, uma investigação da moça, cujo intento é descobrir se, de
fato, desmascarou um criminoso ou se causou a morte de um homem inocente.
O enredo aqui é estruturado
meio que de forma arquitetônica: o autor monta uma teia de acontecimentos em
que cada pista, cada detalhe, aparentemente trivial, se revelará crucial
adiante. O suspense não nasce da busca pelo culpado, mas sobre como as verdades
se sobrepõem para depois se desfazerem. A condução é uma mistura de suspense
policial clássico com drama humano contemporâneo.
Talvez esta seja a obra de
Coben que escancara o circo despudorado da sociedade contemporânea que
transforma tudo em espetáculo. A personagem principal, a jornalista Wendy
Tynes, simboliza o poder e a responsabilidade ambígua das mídias; através de
seu programa, Wendy acredita estar fazendo justiça ao expor criminosos, mas a
trama levanta uma questão importante: será que a mídia jamais se equivoca?
Há um aspecto na história que
me pareceu central: uma ferida emocional que guia sua protagonista por toda a história.
No passado, um acidente ocasionado por uma jovem embriagada, resultou na morte
do marido de Wendy. E isso não é citado por acaso. Harlan Coben
desenvolve sua personagem sob um desejo inconsciente de reparação. Incapaz de
perdoar o que lhe fizeram, ela passa a confundir justiça com vingança moral. O
autor não menciona isso diretamente, mas deixa explicitado nas ações impetuosas
de sua protagonista, na pressa em julgar o assistente social e na dificuldade
em admitir a própria falibilidade.
Algo que me incomodou um pouco foi a ausência de profundidade emocional nas personagens. Talvez a condução vertiginosa, que é o ponto alto da obra, acabou por deixar o romance menos denso. Por exemplo, a vítima do assassinato, que poderia ser explorado como alguém trágico e multifacetado, acaba servindo apenas como uma mera peça do quebra-cabeça. Alguns diálogos também me pareceram pouco orgânicos, mas isso não chega a incomodar muito.
CILADA é um suspense envolvente que levanta questões importantes para nossa sociedade atual, mas não chega a ser uma obra memorável. O livro é um retrato da era da desconfiança; explicita que ninguém é o que parece ser; que verdades podem ser construídas ou desconstruídas e o problema da justiça como espetáculo social. Porém, acho que este é o trabalho de Harlan Coben mais rendido aos vícios da literatura moderna de consumo rápido: ritmo acelerado, múltiplas subtramas e certa superficialidade emocional das personagens.
NOTA: 7,6

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