Em tempos onde o ego humano se tornou objeto explorado a todo custo em nome do lucro, da vaidade moral como força política e cultural, o historiador Leandro Karnal meio que parte da ideia hobbesiana de que o homem é o lobo do homem, atualizando nesta obra introdutória sobre o tema, o conceito para o universo contemporâneo.
Em TODOS CONTRA TODOS,
o autor faz uma breve mescla filosófica, histórica e sociológica sobre o
fenômeno da polarização nos dias atuais. O título, inclusive, antecipa esta que
é a ideia central: estamos inseridos num tempo em que a convivência se tornou
insustentável porque cada grupo enxerga o outro não como interlocutor, mas como
um inimigo.
Para Karnal, a grande mudança
do nosso tempo é que o conflito saiu da esfera do físico ou econômico,
tornando-se moral e simbólico. A luta atual seria por validação individual,
pela superioridade moral, cada um de nós se sustenta no espaço social como
régua de medida do equilibrado e aceitável. O outro é sempre algo ruim,
desfuncional e injusto. Criamos bolhas nas quais temos apenas convivência com
aquele que pensa igual, demonizamos assim, todo pensamento diferente.
O autor faz uma provocação
pertinente: nunca se falou tanto sobre moralidade, porém, nunca se viveu tão
pouco a ética. Segundo ele, a moral teria se tornado instrumento de
autopromoção, e não de conduta; cada um de nós tenta exibir “o lado certo da
história”, mas pouco se reflete sobre o propósito de se defender certas pautas.
É uma crise ética revelada quando confundimos virtude com visibilidade. Em
tempos de excesso de informação e fragmentação cultural, cada indivíduo atua
como juiz e profeta de si mesmo, gerando um relativismo nocivo.
O ser humano sobreviveu como
espécie graças à cooperação, pois se trata de criatura desprovida de
habilidades fundamentais de subsistência, como couraça, capacidade de voar,
garras afiadas, porte físico elevado ou velocidade. Na natureza, o ser humano é
praticamente o mamífero mais vulnerável da categoria. Portanto, foi a vida em
comunidade e o cuidado mútuo, a transmissão de saberes despendido pela espécie
humana, os elementos que possibilitaram nossa sobrevivência dentro de um mundo
hostil.
E o grande paradoxo de nossa
sociedade contemporânea, é que quanto mais conectados estamos (graças à
internet), mais isolados nos tornamos. A lógica do “todos contra todos” inverte
a nossa natureza cooperativa; o ser humano transformou os espaços de convivência
em campos de batalha moral. Karnal chama isso de falência da alteridade, ou
seja, a perda da capacidade de reconhecer o outro como alguém legítimo em sua
diferença. Quando a empatia se rompe, surge o medo, o ressentimento e,
finalmente, o ódio.
Um ponto que me incomodou é que a obra carrega uma sensação de condensação excessiva, como se fosse uma versão escrita de uma das muitas palestras do autor. O texto tem ritmo oral e fluente, o que ajuda a prender o leitor, mas parece sacrificar a densidade analítica. Leandro Karnal faz um alerta para os perigos da superficialidade e o consumo instantâneo, mas parece que é precisamente o que ele faz aqui. Há também instantes em que utiliza algum sarcasmo e um pouco de humor os quais são característicos em suas palestras, mas no contexto escrito pode dificultar a leitura de quem não está familiarizado com o conteúdo visual do autor.
Enfim, TODOS CONTRA TODOS funciona melhor se encarado como uma introdução acessível ao tema do ódio e da polarização, e não como um tratado filosófico ou sociológico. E apesar de eu terminar a leitura com a sensação de que se trata de uma obra menor do que a capacidade intelectual de seu autor, trata-se de um trabalho que não pretende ser o mapa definitivo de sua pauta, mas um convite ao leitor que deseja começar a explorar o tema do ódio.
NOTA: 7,8

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