sábado, 10 de janeiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – TODOS CONTRA TODOS – o ódio nosso de cada dia

Em tempos onde o ego humano se tornou objeto explorado a todo custo em nome do lucro, da vaidade moral como força política e cultural, o historiador Leandro Karnal meio que parte da ideia hobbesiana de que o homem é o lobo do homem, atualizando nesta obra introdutória sobre o tema, o conceito para o universo contemporâneo.

Em TODOS CONTRA TODOS, o autor faz uma breve mescla filosófica, histórica e sociológica sobre o fenômeno da polarização nos dias atuais. O título, inclusive, antecipa esta que é a ideia central: estamos inseridos num tempo em que a convivência se tornou insustentável porque cada grupo enxerga o outro não como interlocutor, mas como um inimigo.

Para Karnal, a grande mudança do nosso tempo é que o conflito saiu da esfera do físico ou econômico, tornando-se moral e simbólico. A luta atual seria por validação individual, pela superioridade moral, cada um de nós se sustenta no espaço social como régua de medida do equilibrado e aceitável. O outro é sempre algo ruim, desfuncional e injusto. Criamos bolhas nas quais temos apenas convivência com aquele que pensa igual, demonizamos assim, todo pensamento diferente.

O autor faz uma provocação pertinente: nunca se falou tanto sobre moralidade, porém, nunca se viveu tão pouco a ética. Segundo ele, a moral teria se tornado instrumento de autopromoção, e não de conduta; cada um de nós tenta exibir “o lado certo da história”, mas pouco se reflete sobre o propósito de se defender certas pautas. É uma crise ética revelada quando confundimos virtude com visibilidade. Em tempos de excesso de informação e fragmentação cultural, cada indivíduo atua como juiz e profeta de si mesmo, gerando um relativismo nocivo.

O ser humano sobreviveu como espécie graças à cooperação, pois se trata de criatura desprovida de habilidades fundamentais de subsistência, como couraça, capacidade de voar, garras afiadas, porte físico elevado ou velocidade. Na natureza, o ser humano é praticamente o mamífero mais vulnerável da categoria. Portanto, foi a vida em comunidade e o cuidado mútuo, a transmissão de saberes despendido pela espécie humana, os elementos que possibilitaram nossa sobrevivência dentro de um mundo hostil.

E o grande paradoxo de nossa sociedade contemporânea, é que quanto mais conectados estamos (graças à internet), mais isolados nos tornamos. A lógica do “todos contra todos” inverte a nossa natureza cooperativa; o ser humano transformou os espaços de convivência em campos de batalha moral. Karnal chama isso de falência da alteridade, ou seja, a perda da capacidade de reconhecer o outro como alguém legítimo em sua diferença. Quando a empatia se rompe, surge o medo, o ressentimento e, finalmente, o ódio.

Um ponto que me incomodou é que a obra carrega uma sensação de condensação excessiva, como se fosse uma versão escrita de uma das muitas palestras do autor. O texto tem ritmo oral e fluente, o que ajuda a prender o leitor, mas parece sacrificar a densidade analítica. Leandro Karnal faz um alerta para os perigos da superficialidade e o consumo instantâneo, mas parece que é precisamente o que ele faz aqui. Há também instantes em que utiliza algum sarcasmo e um pouco de humor os quais são característicos em suas palestras, mas no contexto escrito pode dificultar a leitura de quem não está familiarizado com o conteúdo visual do autor.

Enfim, TODOS CONTRA TODOS funciona melhor se encarado como uma introdução acessível ao tema do ódio e da polarização, e não como um tratado filosófico ou sociológico. E apesar de eu terminar a leitura com a sensação de que se trata de uma obra menor do que a capacidade intelectual de seu autor, trata-se de um trabalho que não pretende ser o mapa definitivo de sua pauta, mas um convite ao leitor que deseja começar a explorar o tema do ódio.

NOTA: 7,8

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