sábado, 20 de junho de 2026

RESENHA DE LIVRO: DANÇANDO NAS RUAS – uma história do êxtase coletivo

 


Ao longo da história do pensamento sempre houve um viés das ciências sociais em compreender problemas estruturais da sociedade, como desigualdade, poder, pobreza, conflitos geopolíticos. Desde Karl Marx até Max Webber, o interesse em inferir as estruturas e tensões coletivas nunca cessou, o olhar do pesquisador sempre voltado para o que há de mais pernicioso nos hábitos humanos. No entanto, eventos voltados para a alegria, como danças, festas ou ritos extáticos, estes sempre pareceram algo secundários, quase não científicos.

Pois eis que uma jornalista americana resolveu colocar luz nesta face marginalizada do ser humano. Vejamos o que ela descobriu:

DANÇANDO NAS RUAS – uma história do êxtase coletivo, de Barbara Ehrenreich, tem como ponto central uma análise sobre o ato ancestral de cultivar momentos de êxtase coletivo em sociedades humanas, desde celebrações públicas, danças em grupo e até festivais específicos, que criavam senso de pertencimento e igualdade. Eram rituais que quebravam hierarquias e aproximavam indivíduos de forma intensa.

A coletividade é um aspecto determinante da natureza humana. Ao longo da história, sempre que houveram sociedades, conjuntamente houveram atividades coletivas, sejam elas festas, danças, cerimonias e rituais, como forma de conexão entre indivíduos e, algumas vezes, até mesmo de resistência.

A premissa mira na ideia de que a alegria coletiva não é superficial, como é interpretado por sociedades modernas, mas algo fundamental. Os momentos de dança, festa e êxtase em grupo não são escapismos das agruras de se viver em sociedade, mas eles criam pertencimento, dissolvem hierarquias e fazem as pessoas se sentirem parte de algo maior. Isso sustenta um valor social e até psicológico enorme.

Ehrenreich argumenta que, especialmente no ocidente moderno, essas experiências foram sendo reprimidas ou controladas por instituições conservadoras como a Igreja, o Estado e até o capitalismo. O objetivo era eliminar a suposta desordem e lascívia que permeavam esses eventos.

Um aspecto interessante que a obra analisa é o resultado desse rigor restritivo institucional sobre tais eventos na vida contemporânea: atualmente a maior parte das formas de celebração coletiva foram militarizadas (no sentido de dar a elas um formato estritamente conservador e uniformizado), individualizadas ou comercializadas, condições que reduziram, ou até extinguiram, o senso profundo de comunhão. Atualmente, no lugar de confraternizarmos juntos, apenas consumimos entretenimento.

A autora insiste na ideia de que a alegria coletiva não é apenas uma questão de mera diversão, mas uma necessidade humana básica, com potencial de influência política, o que explicaria o interesse de extinguir esse aspecto de nossa cultura, por parte de determinadas lideranças.

O livro evidencia a dificuldade metodológica que surge ao se estudar estados de êxtase, emoção intensa ou experiências corporais. Não é fácil medir ou descrever tais eventos com ferramentas tradicionais. Mesmo estudos antropológicos, que fizeram análises mais amplas, muitas vezes trataram esses momentos como meras “curiosidades culturais”, não as tratando como fenômenos centrais de massas.

Outro fator abordado na obra é o cultural: especificamente em sociedades ocidentais modernas, há uma valorização exacerbada da racionalidade, do autocontrole e da produtividade. Logo, estados de êxtase coletivo podem parecer irracionais, perigosos ou até mesmo primitivos. Isso influencia o que pesquisadores atuais consideram como sendo digno de estudo.

DANÇANDO NAS RUAS é uma obra que toca num tema ignorado, e de forma provocadora nos faz um alerta: ao substituir celebrações espontâneas por entretenimento passivo ou comercializado, a sociedade acabou esvaziando essa experiência..., talvez precisamos reconhecer que a necessidade de celebrar juntos, de “dançar nas ruas”, não se trate de um ato de luxo, mas uma necessidade humana básica que, ao longo dos séculos, foi sendo esquecida ou domesticada.


NOTA: 9,1

domingo, 7 de junho de 2026

RESENHA DE LIVRO – UM MOMENTO, UMA MANHÃ

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Existem autores que sabem como pegar um tema do cotidiano, um acontecimento banal, uma condição social e transformar em conteúdo imersivo, onde o principal elemento é a natureza humana e suas inconstâncias frente ao ineditismo da vida. Infelizmente creio ser um recurso literário não muito comum, pois muitos escritores até partem de uma premissa interessante: uma manhã em que morre subitamente o marido de uma mulher, a coincidência de outra mulher que viu tudo do assento onde se encontrava no vagão do trem, e uma terceira, que é a melhor amiga da esposa desesperada, e que por acaso se encontrava noutro vagão desse mesmo trem. Seria o cenário oportuno para se pensar a complexidade da existência humana, porém, a autora transformou sua trama num entediante relato dos preparativos formais de um fatídico velório…, este breve cenário é a sinopse de UM MOMENTO, UMA MANHÃ, da escritora britânica Sarah Rayner; experiência que aponta para o triste fato de que minhas leituras de autores que desconheço, este ano estão bem abaixo do esperado.

A premissa da obra é, de fato, potente. O livro começa com ritmo direto e uma narrativa insinuante: o olhar despretensioso e entediado de uma das protagonistas, dentro do vagão de um trem. Porém, após o infortúnio, a condução toma outro rumo que denota uma diferença expressiva entre o potencial dramático e realização literária.

Um evento súbito, ou seja, a morte inesperada de um dos passageiros, observado a partir de diversos pontos de vista, ofereceria um campo fértil para explorar elementos que enriquecem um texto e tornam a leitura densa: choque existencial, negação, reorganização de sentidos, relações que se reconfiguram, a confusão causada pelo acontecimento drástico.

Mas há aqui um problema com a gestão da matéria narrativa: Rayner opta por um caminho que privilegia o registro do cotidiano imediato, algo quase documental: os trâmites, os gestos imprecisos, os protocolos sociais do luto, o choque disso tudo com a rotina da vida humana. Isso em si não é um erro, propriamente, alguns autores trabalham com o relato puro e simples da vida…, porém, a diferença está em como esse relato se recusa a tensionar, como se os personagens envolvidos fossem máquinas que seguem protocolos estabelecidos, alheios a qualquer tipo de inconstância.

Essa economia narrativa escancara outro problema: um acontecimento abrupto exige uma certa intensidade emocional e reflexiva a ser sustentada pela narrativa. Quando essa intensidade não se aprofunda, o texto passa a girar em torno do evento sem realmente expandi-lo. O leitor percebe que havia ali um núcleo forte, mas ele não foi plenamente explorado.

UM MOMENTO, UMA MANHÃ é uma adesão excessiva ao plano do acontecimento. O texto permanece o tempo inteiro na superfície do evento, como se a simples sucessão dos atos – preparar o velório, comunicar pessoas, trazer a notificação do acontecimento para crianças (cada vez que os pequenos eram inseridos na trama, a vontade era de parar de ler, os diálogos com as crianças soavam pouco orgânicos), lidar com procedimentos – fossem suficientes para sustentar a narrativa. Sem um trabalho mais profundo de linguagem, interioridade ou tensão simbólica, o relato se esgota rapidamente…, antes da metade do livro eu estava profundamente cansado da leitura.

UM MOMENTO, UMA MANHÃ é uma obra sem alma, completamente ausente de densidade subjetiva ou espessura existencial, a qual em nenhum instante é explorado a consciência das personagens. Há coisas acontecendo externamente na vida dos envolvidos, mas quase nada se enxerga internamente. É quase como ler um jornal: ele apenas relata o mundo, enquanto que o trabalho da literatura, quando potente, é reinterpretar esse mesmo mundo.

NOTA: 3,5