domingo, 7 de junho de 2026

RESENHA DE LIVRO – UM MOMENTO, UMA MANHÃ

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Existem autores que sabem como pegar um tema do cotidiano, um acontecimento banal, uma condição social e transformar em conteúdo imersivo, onde o principal elemento é a natureza humana e suas inconstâncias frente ao ineditismo da vida. Infelizmente creio ser um recurso literário não muito comum, pois muitos escritores até partem de uma premissa interessante: uma manhã em que morre subitamente o marido de uma mulher, a coincidência de outra mulher que viu tudo do assento onde se encontrava no vagão do trem, e uma terceira, que é a melhor amiga da esposa desesperada, e que por acaso se encontrava noutro vagão desse mesmo trem. Seria o cenário oportuno para se pensar a complexidade da existência humana, porém, a autora transformou sua trama num entediante relato dos preparativos formais de um fatídico velório…, este breve cenário é a sinopse de UM MOMENTO, UMA MANHÃ, da escritora britânica Sarah Rayner; experiência que aponta para o triste fato de que minhas leituras de autores que desconheço, este ano estão bem abaixo do esperado.

A premissa da obra é, de fato, potente. O livro começa com ritmo direto e uma narrativa insinuante: o olhar despretensioso e entediado de uma das protagonistas, dentro do vagão de um trem. Porém, após o infortúnio, a condução toma outro rumo que denota uma diferença expressiva entre o potencial dramático e realização literária.

Um evento súbito, ou seja, a morte inesperada de um dos passageiros, observado a partir de diversos pontos de vista, ofereceria um campo fértil para explorar elementos que enriquecem um texto e tornam a leitura densa: choque existencial, negação, reorganização de sentidos, relações que se reconfiguram, a confusão causada pelo acontecimento drástico.

Mas há aqui um problema com a gestão da matéria narrativa: Rayner opta por um caminho que privilegia o registro do cotidiano imediato, algo quase documental: os trâmites, os gestos imprecisos, os protocolos sociais do luto, o choque disso tudo com a rotina da vida humana. Isso em si não é um erro, propriamente, alguns autores trabalham com o relato puro e simples da vida…, porém, a diferença está em como esse relato se recusa a tensionar, como se os personagens envolvidos fossem máquinas que seguem protocolos estabelecidos, alheios a qualquer tipo de inconstância.

Essa economia narrativa escancara outro problema: um acontecimento abrupto exige uma certa intensidade emocional e reflexiva a ser sustentada pela narrativa. Quando essa intensidade não se aprofunda, o texto passa a girar em torno do evento sem realmente expandi-lo. O leitor percebe que havia ali um núcleo forte, mas ele não foi plenamente explorado.

UM MOMENTO, UMA MANHÃ é uma adesão excessiva ao plano do acontecimento. O texto permanece o tempo inteiro na superfície do evento, como se a simples sucessão dos atos – preparar o velório, comunicar pessoas, trazer a notificação do acontecimento para crianças (cada vez que os pequenos eram inseridos na trama, a vontade era de parar de ler, os diálogos com as crianças soavam pouco orgânicos), lidar com procedimentos – fossem suficientes para sustentar a narrativa. Sem um trabalho mais profundo de linguagem, interioridade ou tensão simbólica, o relato se esgota rapidamente…, antes da metade do livro eu estava profundamente cansado da leitura.

UM MOMENTO, UMA MANHÃ é uma obra sem alma, completamente ausente de densidade subjetiva ou espessura existencial, a qual em nenhum instante é explorado a consciência das personagens. Há coisas acontecendo externamente na vida dos envolvidos, mas quase nada se enxerga internamente. É quase como ler um jornal: ele apenas relata o mundo, enquanto que o trabalho da literatura, quando potente, é reinterpretar esse mesmo mundo.

NOTA: 3,5