segunda-feira, 20 de julho de 2026

CRÔNICA - AMIZADE

Sempre que penso na melhor definição de amizade, acredito ser mais simples identificar sua natureza por aquilo que ela não é. Ou seja, para mim amizade não é desrespeito, não é opressão e não é perfídia. Desse modo, os opostos me servem como régua básica do quanto sou um bom amigo…, ou pelo menos tento ser.

Contudo, apesar de parecer um conceito razoável, o avanço da idade possui o poder de nos distanciar de ideologias fechadas que restringem a possibilidade de enxergar circuitos amplos das relações sociais. O ser humano é complexo demais para que um conjunto de três adjetivos consiga dar conta de estabelecer as bases de um relacionamento. A experiência tem me mostrado que, para muito além da necessidade de enquadramento que conceituava, existem outras variáveis numa amizade, e algumas dessas variáveis podem ser tão amplas e determinantes quanto a noção de respeito, liberdade e lealdade.

Por exemplo, na minha vida tive poucas relações as quais pude classificar como amizade. Mas cada uma delas continha particularidades que talvez por conta desse olhar conservador de minha parte, fez com que eu deixasse de lado aspectos importantes para a continuidade daquela relação. E do alto de minha bitolada truculência, acrescentei um quarto elemento essencial para identificar um amigo: perenidade. Sim, eu acreditava que se acabou, é porque não era amizade.

Nos dias atuais, assim como no curso de outros aspectos da vida, as amizades mudaram.  Da mesma forma como a vida moderna está mais superficial em todas as suas esferas, seja no trabalho, no relacionamento afetivo, na família, em que, dentre outros aspectos dessa nova condição, podemos destacar a terceirização dos cuidados, a troca constante de emprego, a falta de tempo para momentos banais, a luta incessante pela produtividade, a sedução da meritocracia, entre outros, as amizades seguem a mesma metamorfose social.

Cultivar amizade na pós-modernidade é muito diferente de tempos antigos, tornou-se muito mais efêmero, ou como dizia Baumann, tornou-se líquido. Não vale mais a pena persistir, pois você pode trocar de amizade facilmente, afinal, em suas redes sociais destacam-se milhões de amigos. Desse modo, o cardápio repleto de opções, vamos trocando e testando…, e perdendo a capacidade de criar vínculos duradouros, significativos, assim como perdemos a capacidade de desenvolver habilidades como paciência e tolerância.

Estamos vivendo um mundo onde as facilidades comunicacionais da era tecnológica promovem maior capacidade de estabelecimento de contatos interpessoais, assim como reduz distâncias, mas quando utilizadas de maneira volúvel, tais facilidades comunicacionais geram o distanciamento afetivo entre sujeitos.

Mas o que estamos presenciando na sociedade moderna seria um processo de transformação das amizades ou sua efetiva extinção?

Uma pesquisa feita em 2021 pelo Survey Center on American Life mostrou que o número de pessoas que alegam não terem nenhum amigo aumentou em mais de 400% nos Estados Unidos. Outra pesquisa no mesmo ano, que contou com mais de 50 mil participantes de 26 países, feita pelo McCann Group, revelou que 46% dos participantes disseram não terem amigos naquele momento de suas vidas. E o Instituto Ipsos, em pesquisa aqui no Brasil, levantou alarmantes dados mostrando que 50% dos brasileiros participantes disseram que se sentem sós frequentemente, muitas vezes ou sempre.

Estas pesquisas, embora não sejam determinantes, não deixam dúvidas sobre uma realidade: amizade é algo que está desaparecendo nas sociedades modernas.

Todo esse cenário poderia ser problematizado, levando-se em conta fatores sociais, costumes locais ou dissociação da palavra amizade. Porém, a realidade é que o nível de habilidades sociais e empatia dos participantes eram parecidos, algo que foi testado por algumas das instituições que fizeram as pesquisas.

Quando me deparei com esses números, aquiesci para o fato de que o problema não estava apenas sobre meus conceitos restritivos, mas existe algo podre na forma como estamos nos relacionando uns com os outros. Portanto, creio que o problema vá muito além de uma mera necessidade de ampliar o funil social. Talvez haja algo errado com a nossa capacidade de resiliência, o desaparecimento de nossa cumplicidade, a forma com que priorizamos obtenção de coisas em detrimento de pessoas e, acima de tudo, o crescimento de nossa intolerância.

Relacionar-se com alguém pressupõe a quebra de barreiras as quais fortemente estabelecemos como mecanismos de defesa. Um amigo seria aquele que conseguiu ver através de nossas máscaras sociais sem julgamento, ao contrário, ele aprecia e talvez até se identifique com o aspecto orgânico do amigo.

O começo de qualquer relacionamento é doce porque tem curta duração. E que essa doçura se abriga precisamente naquela reconfortante consciência de que você não precisa desviar de seu universo, nem se desdobrar para mantê-la intacta. Ou seja, a convivência duradoura descortina nossa realidade menos lustrosa, faz-nos pensar sobre nossa vaidade e abre a possibilidade de olharmos para o que é diferente.

Mas estamos preparados para sustentar essa sofisticação?

Em entrevista concedida à Clarice Lispector, o dramaturgo Nelson Rodrigues, quando questionado sobre amizades, deu a seguinte resposta:

Eu tenho o que chamaria de amigos desconhecidos. São sujeitos que eu nunca vi, que cruzam comigo numa esquina, numa retreta, num velório. Certa vez, fui a uma capelinha ver um colega morto. Eram duas horas da manhã. Uma mocinha saiu do velório ao lado com um caderno na mão, fez uma mesura para mim e disse ‘quero ter a honra de apertar a mão do autor de A vida como ela é’. Depois me pediu o autógrafo. Eu senti que estava vivendo um momento da pobre ternura humana. Eis o que eu queria dizer: o amigo possível e certo é o desconhecido com quem cruzamos por um instante e nunca mais. A esse podemos amar e por esses podemos ser amados. O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência”.

No fundo, talvez seja o medo o sentimento que cria essa fria barreira que impede a imersão de cabeça do sujeito numa verdadeira amizade, colocando-o sempre na defensiva para que não venha a sofrer as consequências inevitáveis que ocorrem no enfrentamento de uma relação de amizade. Afastando-se da possibilidade de um vínculo afetivo, o sujeito incapaz de amar plenamente foge de seus próprios fantasmas existenciais, construindo, assim, uma vida vazia e sem significado.

No apogeu da sociedade de consumo, as pessoas foram assimiladas nesse degradante dispositivo de relações efêmeras sem maiores complicações éticas de consciência. Impaciência e indisponibilidade se tornaram a regra normativa, pois o ser humano moderno, cada vez mais fragilizado em sua interioridade, foge sofregamente do semelhante, pois aprendeu que semelhante deriva de equivalência, que não há espaço para tolerar a diversidade. Tememos nossa própria descartabilidade pessoal, e assim nos utilizamos convenientemente de todos os subterfúgios tecnológicos e ideológicos possíveis para fugir de nossa responsabilidade existencial perante o amigo.

Também é preciso cautela com nossa arrogância. No meu caso, a soberba de achar o que devia ser feito, de desenvolver uma lista daqueles elementos que me pareciam fundamentais para a definição de amizade, era na verdade os critérios que permitiram que eu me considerasse o amigo irretocável, que jamais será alcançado por qualquer ser humano, tornando-me o exemplo máximo de indivíduo solitário em sua estupidez.

Acreditava que, após todos esses anos, eu saberia definir o que era uma amizade, para além da empáfia de me considerar o grande candidato a amigo. Mas aceitando meu discernimento escasso, talvez a grande amizade seja, para além dos ditames morais ou armadilhas das simplificações retóricas, uma instância onde duas individualidades se encontram e se reconhecem, como partes complementares de um todo incompleto. Pois percebi na pertinente definição de Michel de Montaigne, sobre seu grande amigo Étienne de La Boétie, o porquê da amizade entre os dois, o filósofo disse simplesmente: “porque era ele, porque era eu”.

Termino esta proza com um pensador que, de fato, compreende e sabe definir uma verdadeira amizade, o poema do mestre Oscar Wilde:


Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela cor da pela ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.

Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.

Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.

Que me tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.

Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.

Quero-os metade infância e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.

 

 

Feliz dia do amigo! - 20/07/2026

sábado, 4 de julho de 2026

RESENHA DE LIVRO – A PACIENTE SILENCIOSA


Mais um livro que entrou em meu radar por conta do grande burburinho que vem causando nas comunidades literárias. Geralmente, sou resistente a ler livros que estão muito cotados, não por preciosismo, mas porque tenho uma lista infinita de obras que quero ler, portanto, quase não sobra espaço para o que vem sendo lançado. Mas quis abrir uma exceção para este trabalho de Alex Michaelides por duas razões: a sinopse é muito boa e a trama toca no tema da terapia, um assunto que me interessa de perto. Mas cá entre nós, as poucas literaturas modernas que tenho lido atualmente me entusiasmaram bem pouco..., vamos falar sobre esta:

A PACIENTE SILENCIOSA, como mencionei, tem uma premissa um tanto sedutora: Pintora famosa é acusada de assassinar o marido e, desde então, fez votos de silêncio. Ela é internada numa clínica psiquiatra e sua abstenção chama atenção de um terapeuta forense, nosso protagonista, que se torna obcecado em ajudar a fazê-la falar novamente.

As impressões iniciais quanto a narrativa em primeira pessoa, deixam a sensação de que a condução informal da personagem narradora é proposital e isso até agrada num primeiro momento. Mas não demora para a trama deixar explicitado que está interessada em trocar a profundidade psicológica pela velha engenharia de suspense. O narrador parece menos um personagem complexo e mais um mero mecanismo narrativo.

O autor também perde a chance de explorar um elemento que me parecia essencial e sugestivo em sua sinopse: mergulhar a fundo nas relações humanas, especialmente traumas, obsessão e transferência emocional. Mesmo sendo um terapeuta diante de uma paciente que não fala, isso poderia ser trabalhado por meio de flashbacks, principalmente quando o diário da paciente chega até sua posse. Há instantes em que isso parece se anunciar, mas logo a condução retoma a simplificação para manter o segredo funcionando até o grande final.

Percebi aqui um rascunho de crítica ao uso da psicologia no romance. O livro usa a estética de trama psicológico, mas em nenhum momento aprofunda essas nuances. Elas funcionam mais como atmosfera sofisticada do que como investigação real da mente dos personagens. Não nos deparamos com nenhum confronto filosófico, algo que me pareceu outra perda de oportunidade.

Este recente formato de produção literária, pautada no uso de capítulos curtos, diálogos diretos, nenhuma imersão de personagens e o choque como motor principal, me incomoda bastante. Há momentos em que tive a sensação de estar lendo algo repetitivo, como se fosse um livro que já li antes, pois me parece que muitos autores contemporâneos seguem essa mesma cartilha.

A personagem principal, o terapeuta Theo Faber é outro problema: inicialmente se comporta como um profissional entusiasmado, mas no decorrer da leitura deixa evidente seu imenso despreparo como terapeuta. Então ele vai além: assumi a função de investigar o crime cometido por sua paciente, o que logo nos faz perceber que ele também é um investigador medíocre e desorientado.

Já a paciente do título, Alicia Berenson, com seu silêncio criando uma aura de mistério, nos faz querer saber quem é essa mulher e o que aconteceu. No entanto, essa ânsia do leitor se sustenta até o instante em que ela resolve abrir a boca (com o perdão do spoiler). Desse ponto em diante, ela se torna tão desinteressante quanto seu terapeuta. As demais personagens que entram e saem da trama também não ajudam a elevar a atmosfera, talvez por conta do método narrativo, que apenas relata os acontecimentos, sem nos aproximar do material humano que cada um deles deveria sustentar.

A PACIENTE SILENCIOSA é um thriller de suspense que parece mais preocupado em conduzir sua narrativa para o grande momento “surpresa” (tenho dificuldade com alguns termos inglês que andam infestando nossa linguagem, como esse tal plot twist), do que propriamente em contar uma boa história..., uma pena!


NOTA: 5,4