domingo, 23 de agosto de 2026

RESENHA DE LIVRO – REFLEXÕES SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS

A descoberta de que eu estava diante de um filósofo brasileiro só aconteceu depois do interesse pela obra. E isso só elevou a vontade de ler seu conteúdo. Refletir sobre a vaidade foi o que, de fato, fez com que eu retirasse este volume da prateleira da livraria, trata-se de tema que me interessa de perto.

Sendo Matias Aires um autor do século XVIII, já se pode fazer uma importante ressalva aos leitores interessados: estamos diante de uma literatura de seu tempo, portanto, alguns pensamentos podem estar ultrapassados ou fora de contexto social. Porém, há algo em REFLEXÕES SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS que continua surpreendentemente atual: a suspeita de que, por trás das virtudes, das ambições, dos afetos e até dos atos aparentemente altruístas, existe quase sempre alguma forma de vaidade operando.

Aires parece desconfiar profundamente das justificativas que damos para nossas ações. O ser humano acredita agir por generosidade, honra ou caridade. E aqui é como se o autor perguntasse: “será mesmo?”. Talvez exista algo mais naquilo que move cada um de nós: desejo de reconhecimento, necessidade de aprovação ou amor próprio dissimulado.

O autor também tenta fugir do elemento moral que perpassa o tema da vaidade; em vários momentos, Matias Aires sugere que a vaidade é um aspecto organizador da vida social, que produz ilusões, mas também civilidade, reputação, comportamento virtuoso e até ordem social. Mas apesar de parecer uma visão ambígua, é preciso que seja levada em consideração o lugar do autor: naquele século ainda não existia duas correntes de pensamento importantes para o assunto da vaidade: a psicologia e a psicanálise.

Quando lemos a obra hoje, inevitavelmente somos tentados a traduzir suas categorias morais para categorias psicológicas. Por detrás da vaidade, conseguimos enxergar mecanismos psíquicos mais complexos do que a reflexão daquele tempo: necessidade de reconhecimento, compensação narcísica, constituição de identidade, desejo de pertencimento, medo da insignificância ou da morte simbólica.

Um ponto que me incomodou bastante é que Matias Aires se mostrou como sendo um autor bastante condicionado ao seu tempo. Eu explico: há momentos em que parece disposto a desmontar as ilusões individuais, mas não demonstra o mesmo ímpeto para desmontar certas hierarquias sociais. A crítica moral é infinitamente mais intensa do que a crítica política. Usando aqui um termo contemporâneo, Matias Aires dá uma grande “passada de pano” para a burguesia de seu tempo, as vezes chega a insinuar que há uma forma de vaidade virtuosa nessa categoria social.

Outro problema, não menos recriminável, porém, infinitamente mais previsível, é certo teor patriarcal; quando fala de mulheres, o autor as reduz apenas ao campo da aparência e do ornamento. É como se a mulher aparecesse em sua reflexão apenas como objeto de contemplação masculina, em vez de um sujeito pleno da experiência humana. Achei um contrassenso, afinal, se a tese central da obra é que a vaidade atravessa toda a condição humana, não haveria argumento filosófico para restringir a experiência feminina a uma única modalidade de vaidade…, enfim.

REFLEXÕES SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS é uma obra importante pela sua visão ampla sobre o tema da vaidade, mas talvez a melhor forma de ler no presente, seja reconhecendo que seu autor é um observador agudo da psicologia humana, mas sem o transformá-lo em uma autoridade infalível. Sua teoria da vaidade continua provocadora, mas suas concessões às elites e sua visão limitada das mulheres revelam, por sua vez, as fronteiras históricas de sua própria consciência.

NOTA: 7,6

terça-feira, 11 de agosto de 2026

RESENHA DE LIVRO – O PUNNO E A RENDA

Além de escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Edgard Telles Ribeiro também é diplomata. E essa informação nos é pertinente para falarmos deste ótimo O PUNHO E A RENDA, porque apesar de o próprio autor jurar que estamos diante de uma obra de ficção e que sua condução foge do estilo documental, a leitura deixou-me com a impressão de que somente alguém altamente familiarizado com os bastidores da política, poderia narrar uma história como essa…, vamos falar um pouco sobre isso.

A trama aqui mistura espionagem e política nos bastidores do Itamaraty durante a ditadura militar. Sob o olhar do narrador, acompanhamos Max, um jovem diplomata ambicioso, cuja ascensão ocorre em paralelo com a escalada da repressão dos anos de chumbo que aconteceu na América do Sul. E o título já sugere uma dualidade central do que está por vir: o punho como símbolo da força e rigidez; a renda como arquétipo da sofisticação, aparência e fragilidade.

A narrativa se constrói justamente no atrito entre brutalidade e refinamento. Há aqui um relato de memórias atravessadas por ambiguidades, omissões e desconforto constante. Telles Ribeiro parece interessado em mostrar que a experiência humana nunca é simples, mas linear, feita de zonas cinzentas e contraditórias.

Um ponto alto da obra, o qual muitos autores contemporâneos costumam falhar, é que a exposição descritiva não fica refém de grandes reviravoltas para sustentar interesse. O foco aqui não está no impacto, mas sim na tensão psicológica e simbólica. O leitor percebe facilmente que os personagens carregam muito mais do que dizem explicitamente.

O componente político é importante sem se tornar panfletário. Seu autor sabe que sistemas autoritários não sobrevivem apenas pela violência manifesta, mas também pela condensação das relações pessoais, nos afetos, nos modos de se portar socialmente, no círculo de cumplicidade…, ou seja, o poder sempre carrega marcas subjetivas.

Telles Ribeiro não parece ser um mero escritor de romance que estudou profundamente história política, sua escrita está carregada de sutilezas de alguém que vive, ou viveu, inserido nesse ambiente de poder, negociações complexas e bastidores institucionais. A narrativa aqui é recheada de um tipo de conhecimento que dificilmente pode ser simulado apenas por pesquisa livresca. O tempo todo nos deparamos com nuances de comportamento, linguagem, friezas e cálculos políticos que costumam surgir com mais autenticidade em autores que conhecem esses ambientes de perto.

Significa que a obra transmite uma sensação de familiaridade concreta com os mecanismos do poder (há uma conversa, quase no fim, que me deixou profundamente pensativo, a cerca de enriquecimento de urânio e a democracia brasileira). Não necessariamente porque os fatos narrados sejam “verdadeiros” em sentido documental, mas porque a lógica interna do funcionamento político é extremamente crível.

Quase me incomodei um pouco com o inchaço da trama. O PUNHO E A RENDA talvez ganhasse mais concisão estrutural se fosse um conteúdo mais enxuto. Porém, é inegável que o romance sustenta sua alma graças à consistência do universo que constrói. Diálogos, negociações implícitas, os gestos calculados, tudo isso produz a sensação de que estamos acompanhando um organismo político vivo, para além de uma trama inventada. Ou seja, ao término da leitura eu tive maior sensação de conquista do que de alívio.

O PUNHO E A RENDA é um romance cujo autor compreende a política como experiência humana concreta, e partindo dessa compreensão, criou um universo carregado de ambiguidades, interesses, seduções, medos, vaidades e cálculos estratégicos. O poder narrativo é uma mistura de estrutura institucional com linguagem cotidiana. É um convite à escuta atenta do mundo como ele é…, personagens que falam como pessoas habituadas à diplomacia e ao subtexto indireto. Seguimos lendo por conta da sensação de que, por trás de cada conversa aparentemente banal, existe uma engrenagem complexa se movimentando.


NOTA: 9,1