Além de escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Edgard Telles Ribeiro também é diplomata. E essa informação nos é pertinente para falarmos deste ótimo O PUNHO E A RENDA, porque apesar de o próprio autor jurar que estamos diante de uma obra de ficção e que sua condução foge do estilo documental, a leitura deixou-me com a impressão de que somente alguém altamente familiarizado com os bastidores da política, poderia narrar uma história como essa…, vamos falar um pouco sobre isso.
A trama aqui mistura
espionagem e política nos bastidores do Itamaraty durante a ditadura militar.
Sob o olhar do narrador, acompanhamos Max, um jovem diplomata ambicioso, cuja
ascensão ocorre em paralelo com a escalada da repressão dos anos de chumbo que
aconteceu na América do Sul. E o título já sugere uma dualidade central do que
está por vir: o punho como símbolo da força e rigidez; a renda como arquétipo
da sofisticação, aparência e fragilidade.
A narrativa se constrói
justamente no atrito entre brutalidade e refinamento. Há aqui um relato de
memórias atravessadas por ambiguidades, omissões e desconforto constante.
Telles Ribeiro parece interessado em mostrar que a experiência humana nunca é
simples, mas linear, feita de zonas cinzentas e contraditórias.
Um ponto alto da obra, o qual
muitos autores contemporâneos costumam falhar, é que a exposição descritiva não
fica refém de grandes reviravoltas para sustentar interesse. O foco aqui não
está no impacto, mas sim na tensão psicológica e simbólica. O leitor percebe
facilmente que os personagens carregam muito mais do que dizem explicitamente.
O componente político é
importante sem se tornar panfletário. Seu autor sabe que sistemas autoritários
não sobrevivem apenas pela violência manifesta, mas também pela condensação das
relações pessoais, nos afetos, nos modos de se portar socialmente, no círculo
de cumplicidade…, ou seja, o poder sempre carrega marcas subjetivas.
Telles Ribeiro não parece ser
um mero escritor de romance que estudou profundamente história política, sua
escrita está carregada de sutilezas de alguém que vive, ou viveu, inserido
nesse ambiente de poder, negociações complexas e bastidores institucionais. A
narrativa aqui é recheada de um tipo de conhecimento que dificilmente pode ser
simulado apenas por pesquisa livresca. O tempo todo nos deparamos com nuances
de comportamento, linguagem, friezas e cálculos políticos que costumam surgir
com mais autenticidade em autores que conhecem esses ambientes de perto.
Significa que a obra transmite
uma sensação de familiaridade concreta com os mecanismos do poder (há uma
conversa, quase no fim, que me deixou profundamente pensativo, a cerca de
enriquecimento de urânio e a democracia brasileira). Não necessariamente porque
os fatos narrados sejam “verdadeiros” em sentido documental, mas porque a
lógica interna do funcionamento político é extremamente crível.
Quase me incomodei um pouco com o inchaço da trama. O PUNHO E A RENDA talvez ganhasse mais concisão estrutural se fosse um conteúdo mais enxuto. Porém, é inegável que o romance sustenta sua alma graças à consistência do universo que constrói. Diálogos, negociações implícitas, os gestos calculados, tudo isso produz a sensação de que estamos acompanhando um organismo político vivo, para além de uma trama inventada. Ou seja, ao término da leitura eu tive maior sensação de conquista do que de alívio.
O PUNHO E A RENDA é um romance cujo autor compreende a política como experiência humana concreta, e partindo dessa compreensão, criou um universo carregado de ambiguidades, interesses, seduções, medos, vaidades e cálculos estratégicos. O poder narrativo é uma mistura de estrutura institucional com linguagem cotidiana. É um convite à escuta atenta do mundo como ele é…, personagens que falam como pessoas habituadas à diplomacia e ao subtexto indireto. Seguimos lendo por conta da sensação de que, por trás de cada conversa aparentemente banal, existe uma engrenagem complexa se movimentando.
NOTA: 9,1
