A descoberta de que eu estava diante de um filósofo brasileiro só aconteceu depois do interesse pela obra. E isso só elevou a vontade de ler seu conteúdo. Refletir sobre a vaidade foi o que, de fato, fez com que eu retirasse este volume da prateleira da livraria, trata-se de tema que me interessa de perto.
Sendo Matias
Aires um autor do século XVIII, já se pode fazer uma importante ressalva
aos leitores interessados: estamos diante de uma literatura de seu tempo,
portanto, alguns pensamentos podem estar ultrapassados ou fora de contexto
social. Porém, há algo em REFLEXÕES SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS que
continua surpreendentemente atual: a suspeita de que, por trás das virtudes,
das ambições, dos afetos e até dos atos aparentemente altruístas, existe quase
sempre alguma forma de vaidade operando.
Aires
parece desconfiar profundamente das justificativas que damos para nossas ações.
O ser humano acredita agir por generosidade, honra ou caridade. E aqui é como
se o autor perguntasse: “será mesmo?”. Talvez exista algo mais naquilo que move
cada um de nós: desejo de reconhecimento, necessidade de aprovação ou amor
próprio dissimulado.
O
autor também tenta fugir do elemento moral que perpassa o tema da vaidade; em
vários momentos, Matias Aires sugere que a vaidade é um aspecto
organizador da vida social, que produz ilusões, mas também civilidade,
reputação, comportamento virtuoso e até ordem social. Mas apesar de parecer uma
visão ambígua, é preciso que seja levada em consideração o lugar do autor:
naquele século ainda não existia duas correntes de pensamento importantes para
o assunto da vaidade: a psicologia e a psicanálise.
Quando
lemos a obra hoje, inevitavelmente somos tentados a traduzir suas categorias
morais para categorias psicológicas. Por detrás da vaidade, conseguimos
enxergar mecanismos psíquicos mais complexos do que a reflexão daquele tempo:
necessidade de reconhecimento, compensação narcísica, constituição de
identidade, desejo de pertencimento, medo da insignificância ou da morte
simbólica.
Um
ponto que me incomodou bastante é que Matias Aires se mostrou como sendo um
autor bastante condicionado ao seu tempo. Eu explico: há momentos em que parece
disposto a desmontar as ilusões individuais, mas não demonstra o mesmo ímpeto
para desmontar certas hierarquias sociais. A crítica moral é infinitamente mais
intensa do que a crítica política. Usando aqui um termo contemporâneo, Matias
Aires dá uma grande “passada de pano” para a burguesia de seu tempo, as
vezes chega a insinuar que há uma forma de vaidade virtuosa nessa categoria
social.
Outro problema, não menos recriminável, porém, infinitamente mais previsível, é certo teor patriarcal; quando fala de mulheres, o autor as reduz apenas ao campo da aparência e do ornamento. É como se a mulher aparecesse em sua reflexão apenas como objeto de contemplação masculina, em vez de um sujeito pleno da experiência humana. Achei um contrassenso, afinal, se a tese central da obra é que a vaidade atravessa toda a condição humana, não haveria argumento filosófico para restringir a experiência feminina a uma única modalidade de vaidade…, enfim.
REFLEXÕES
SOBRE A VAIDADE DOS HOMENS é uma obra importante pela sua visão
ampla sobre o tema da vaidade, mas talvez a melhor forma de ler no presente,
seja reconhecendo que seu autor é um observador agudo da psicologia humana, mas
sem o transformá-lo em uma autoridade infalível. Sua teoria da vaidade continua
provocadora, mas suas concessões às elites e sua visão limitada das mulheres
revelam, por sua vez, as fronteiras históricas de sua própria consciência.
NOTA: 7,6

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