terça-feira, 26 de maio de 2026

RESENHA DE LIVRO: O CRIME COMPENSA


Como já mencionei noutras resenhas, se as letras do nome do autor forem maiores do que o título da obra, certamente estamos diante de um sujeito que vende muito livro. Também sabemos que um livro que vende muito não necessariamente é um bom livro, talvez seja apenas um exemplo de marketing eficiente. Não cometerei a injustiça de dizer que Jeffrey Archer é um escritor medíocre, sem antes ler mais obras de sua autoria (embora não tenha certeza se quero fazer isso). Contudo, seu compilado de contos intitulado O CRIME COMPENSA, foi minha primeira experiência no universo literário dele..., e sobre isso, quero deixar os meus dois centavos.

Temos aqui uma coletânea de 14 contos independentes, quase todos contendo elementos de ambição, ganância, orgulho ou vingança. Geralmente o recurso do “final surpreendente” aparece, o autor costuma trabalhar com um estilo que me pareceu peculiar: personagens confiantes, golpes financeiros, sociais e alguma ironia moral.

Quando se lê apenas um livro, é no mínimo irresponsável identificar o estilo do autor, porque isso pode mudar com o tempo, assim como há escritores que variam de estilo, outros bons contadores de história, e alguns falham como estilistas. Archer parece escrever de forma direta, quase oral, fluído..., mas há instantes em que a narrativa pareceu simplista e excessivamente explicativa.

Os contos aqui reunidos não deixam muito espaço para ambiguidades ou interpretação. Em vez de sugerir, o texto prefere explicar. É um recurso que retira a sutileza, principalmente em contos mais longos, que ficam dando muitas voltas, até chegar numa tentativa de final impactante.

Outro problema que me incomodou por quase toda leitura fica por conta dos diálogos. Eles servem mais para mover a trama do que desenvolver e revelar caráter. Às vezes parecem artificiais, algo quase teatral. É como se o autor priorizasse o mecanismo da reviravolta em detrimento da profundidade psicológica, algo quase imperceptível aqui. Frequentemente o diálogo é usado meramente como ferramenta expositiva.

Talvez eu tenha começado um bom escritor pelo livro errado. Já ouvi muitos elogios a respeito da obra de Jeffrey Archer, dizem que ele funciona melhor em narrativas mais longas, onde podemos ver sua habilidade em desenvolver rivalidades e arcos complexos.

No caso deste O CRIME COMPENSA, o que sustenta os textos é o mecanismo da trama, sem deixar espaço para complexidade psíquica. Quando o conto é mais longo (aqui há uma disparidade em tamanhos, há contos de apenas uma página, outros contendo dezenas), essa estrutura começa a ficar visível demais, por isso alguns parecem arrastados, cansativos.

Talvez seja apenas uma escolha estética do autor: narrativas claras de impacto imediato. Não era o que eu esperava encontrar, e por isso me decepcionei.

Enfim, O CRIME COMPENSA é uma compilação de contos de um escritor Best-seller que eu quis conhecer, mas talvez ainda precise ler um de seus grandes sucessos para afastar essa primeira má impressão. Dos 14 contos, digamos que eu tenha gostado de 3 ou 4. Nesta obra me deparei com um autor que metralha seus contos com parágrafos explicativos demais e parece não confiar na capacidade de interpretação de seu leitor. E isso, para quem gosta de literatura mais profunda, acaba soando condescendente.

NOTA: 5,2

sábado, 2 de maio de 2026

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 4º PARTE

Toda criança é um artista entusiasmado, tomado por um inesgotável senso de curiosidade, uma criança não se cansa de invadir o inexplorado, experimentar situações novas, correr riscos, não teme a exposição e pouco se importa com a opinião dos outros..., crianças adoram criar coisas. É quase possível afirmar que a infância é a fase na qual o ser humano vivencia seu mais elevado grau de desenvolvimento cognitivo.

E num fatídico dia, essa criança se torna um adulto. Metamorfose regressiva, esse adulto agora é entediado, detesta sair de sua zona de conforto, vive cansado, recusa qualquer chance de fazer algo de um jeito diferente, é demasiadamente precavido, morre de medo da opinião alheia e sua única válvula de escape é passar os fins de semana deitado no sofá, maratonando séries em canais de estreaming.

– Quando foi que você se tornou esse adulto chato? – perguntei ao paciente, após minha pessimista explanação sobre perda da infância.

Como era de se esperar, ele não respondeu rapidamente. É normal as pessoas não saberem o que dizer quando são confrontadas com questões completamente distintas daquilo que foram treinadas a responder.

– Não sou um adulto chato – disse ele, emburrado, feito uma criança.

– Fique sossegado, todos os adultos são..., mas se o termo “chato” lhe soou desconfortável, vamos mudar para “diferente”. Quando você se tornou esse adulto tão diferente da criança que foi um dia?

– O que o faz pensar que sou tão diferente assim? – ele estava muito na defensiva.

– É uma hipótese.

– Não acho que eu me tornei tão diferente..., pelo menos não na essência. Claro que biologicamente falando eu mudei, também passei a ter mais responsabilidades. Mas quem eu realmente sou não mudou…, eu acho.

– E quem é você?

– Eu sou..., bom, você sabe quem sou. Meu nome está bem aí na sua agenda clínica.

– O nome que lhe deram quando nasceu não é você. De modo que vou insistir na pergunta: quem é você?

Ele me encarou por alguns segundos, tentando desvendar o que eu queria dele.

– Sou um empresário, marido e pai de uma filha adolescente.

– Isso também não é você. Apenas tem a ver com sua profissão e funções sociais. E apesar de importantes, essas coisas não o definem..., portanto, quem é você?

Dessa vez consegui fazer com que o paciente olhasse para dentro de si mesmo. Ele respirou longamente, observou o tapete sob seus pés, cruzou os braços e aguardou por algum tempo, no mais absoluto silêncio. E apesar de ter discordado sobre ter se tornado um adulto diferente do menino que um dia foi, agora não apresentava grande desassossego..., de fato, ele parecia quase contemplativo.

– Nunca me perguntaram isso. Pelo menos não dessa forma.

– De que forma?

– Não sei..., dessa forma genuinamente interessada em saber quem sou. Geralmente quando me fazem essa pergunta, as respostas que ofereço costumam dar conta. Mas acho que é a primeira vez que percebo que nada do que respondi ao longo da vida sou eu.

– Como se sente em relação a isso?

– Bem..., parece que eu não sei quem sou.

– Talvez você tenha se distanciado demais daquela criança que foi um dia.

– Você acha?

– O que eu acho não tem importância. Afinal, eu não conheci a criança que você foi..., mas o que realmente importa é o que você acha.

Ele retornou ao estado contemplativo. Seu olhar não mais testemunhava o cenário externo. Na verdade, ele parecia mergulhar para dentro da alma.

– Quando eu era menino, gostava de brincar com recortes de revistas – ele começou a falar, o olhar ainda compenetrado – Pegava as revistas de moda da minha mãe e passava horas caçando figuras das mais variadas. Usava os recortes para construir murais de diferentes temas: casas, animais, cidades, pessoas..., esse último era o meu favorito. Retirava imagens de pessoas que eu não soubesse o nome, entende? Não dos artistas famosos, porque os famosos eu sabia o nome deles. No meu mural só havia pessoas das quais não conhecia seus nomes..., e depois que os colava no papelão, eu pendurava na parede do quarto e ficava observando seus rostos, queria saber quem eram aquelas pessoas, ondem moravam, quais eram seus nomes – ele despertou das lembranças e me olhou, um pouco encabulado – Sei que era uma atividade idiota.

– Não era não. Idiota é essa sua afirmação, porque sei que não acredita nisso. Agora compreende porque eu disse que todo adulto é um chato?

– Sim, acho que você tem razão..., mas não sei dizer quando foi que me tornei esse adulto chato.

– Não tem problema.

– Acho que a sociedade vai nos moldando de modo a nos deixar em plena conformidade com o que o sistema social vigente precisa que sejamos. Desenvolver nossa essência é considerado improdutivo, por isso nos doutrinam – de repente, ele pareceu espantado – Talvez mais simples do que dizer quem sou, seja dizer o que eu me tornei, doutor.

– Então diga: o que você se tornou?

– Eu me tornei um acumulador de patrimônio, mesquinho. Quanto mais eu ganho, mais parece que preciso ganhar para suprir alguma vazio. É como se eu estivesse numa competição sem fim, onde cada pessoa ao redor eu o interprete como sendo um adversário, então preciso ultrapassá-lo, ter mais poder, mais status, mais notoriedade..., doutor, eu me tornei um...

Ele hesitou. Como é difícil encontrar a palavra certa que unifique tantos adjetivos que pairam em nossa mente sobre aquilo que nos tornamos.

– Um competidor..., tornei-me um guerreiro contemporâneo.

– Fale um pouco sobre esse seu eu guerreiro.

– Esse guerreiro é um sujeito mesquinho, amedrontado, que aprendeu a desconfiar de todos ao redor. Para além de sua epiderme tudo é ameaçador, por isso ele aprendeu a não ter compaixão e suas relações sociais estão estabelecidas sob a lógica da escada: todos estão sobre algum degrau, uns acima outros abaixo..., e esta é a batalha do guerreiro: alcançar o próximo degrau, enquanto impede que roubem o seu lugar atual.

– É uma ótima metáfora – falei, tentando o manter motivado, mas sem me abster da sinceridade – a resposta parece ter saído de dentro de você sem grande dificuldade.

– Acho que sim – ele inspirou demoradamente, como se houvesse acabado de encontrar uma enorme bagunça dentro de si – Eu nunca pensei que fosse dizer isso de mim mesmo, mas acho que sou uma pessoa horrível, doutor.

– Você não é uma pessoa horrível.

– Não estou sendo autoindulgente.

– E nem eu estou sendo razoável – levantei-me e fui até o bebedouro, no canto da sala – veja bem: geralmente quando paramos para observar nossa própria existência, com humildade e retidão, costumamos nos assustar com alguns aspectos negativos em nossa atual constituição humana, os quais passamos a vida inteira ignorando. O fato é que todos nós estamos moldados por um misto de traços positivos e outros negativos. Pode ser que você esteja assustado, porque por alguma razão se recusou a observar aquilo que pode melhorar em sua personalidade. Sempre há lugares em nós que são ignorados com o tempo. E quando disse que não estou sendo razoável, é porque acredito que o primeiro passo para se mudar algo dentro de nós, é reconhecer aquilo que precisa ser mudado..., e você está fazendo essa autoanálise agora – retornei com um copo com água e o entreguei – algumas vezes vai doer essa etapa de identificar suas falhas, mas o processo de cura começa com essa dor.

– Sabe, ao mesmo tempo em que consigo enxergar algumas falhas de caráter em mim, também percebo que não quero mudar; como se meus comportamentos funcionassem como medidas protetivas que impedem que outras pessoas sejam invasivas..., é como se houvessem duas vozes dentro da minha cabeça, doutor. Cada uma diz uma coisa contrária da outra.

– Observe e tente compreender o que estas vozes estão dizendo, o que há de importante em cada orientação que as vozes ditam. Então seu trabalho é pegar tudo e discernir, com coerência e desprendimento, até que você encontre a solução mais equilibrada. As vozes dentro da nossa cabeça costumam intimidar, causar medo, nos deixar tristes e até fazer com que percamos a confiança..., mas elas são como espectros de experiências da vida que você viveu até hoje. Contudo, essas vozes não são você.

– Como assim? – ele quase engasgou com a água – então a quem pertencem essas malditas vozes?

Como explicar para aquele paciente, de um modo que parecesse o menos metafísico possível, sem confrontar seu enorme ceticismo?

– Acho que vai ficar mais simples entender isso, utilizando uma ideia de um poeta chamado Khalil Gibran – dessa vez foi minha vez de inspirar longamente – a ideia dele é a seguinte: “Deus disse: ‘ame o seu inimigo!’ Eu obedeci, e amei à mim mesmo”.

Parado com o copo descartável vazio na mão, o paciente ficou encarado no tapete do chão por algum tempo. Depois, se despediu e foi embora, prometendo pensar sobre a sessão de hoje, mas eu estava convicto de que ele havia entendido a mensagem.


**continua**