sábado, 2 de maio de 2026

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 4º PARTE

Toda criança é um artista entusiasmado, tomado por um inesgotável senso de curiosidade, uma criança não se cansa de invadir o inexplorado, experimentar situações novas, correr riscos, não teme a exposição e pouco se importa com a opinião dos outros..., crianças adoram criar coisas. É quase possível afirmar que a infância é a fase na qual o ser humano vivencia seu mais elevado grau de desenvolvimento cognitivo.

E num fatídico dia, essa criança se torna um adulto. Metamorfose regressiva, esse adulto agora é entediado, detesta sair de sua zona de conforto, vive cansado, recusa qualquer chance de fazer algo de um jeito diferente, é demasiadamente precavido, morre de medo da opinião alheia e sua única válvula de escape é passar os fins de semana deitado no sofá, maratonando séries em canais de estreaming.

– Quando foi que você se tornou esse adulto chato? – perguntei ao paciente, após minha pessimista explanação sobre perda da infância.

Como era de se esperar, ele não respondeu rapidamente. É normal as pessoas não saberem o que dizer quando são confrontadas com questões completamente distintas daquilo que foram treinadas a responder.

– Não sou um adulto chato – disse ele, emburrado, feito uma criança.

– Fique sossegado, todos os adultos são..., mas se o termo “chato” lhe soou desconfortável, vamos mudar para “diferente”. Quando você se tornou esse adulto tão diferente da criança que foi um dia?

– O que o faz pensar que sou tão diferente assim? – ele estava muito na defensiva.

– É uma hipótese.

– Não acho que eu me tornei tão diferente..., pelo menos não na essência. Claro que biologicamente falando eu mudei, também passei a ter mais responsabilidades. Mas quem eu realmente sou não mudou…, eu acho.

– E quem é você?

– Eu sou..., bom, você sabe quem sou. Meu nome está bem aí na sua agenda clínica.

– O nome que lhe deram quando nasceu não é você. De modo que vou insistir na pergunta: quem é você?

Ele me encarou por alguns segundos, tentando desvendar o que eu queria dele.

– Sou um empresário, marido e pai de uma filha adolescente.

– Isso também não é você. Apenas tem a ver com sua profissão e funções sociais. E apesar de importantes, essas coisas não o definem..., portanto, quem é você?

Dessa vez consegui fazer com que o paciente olhasse para dentro de si mesmo. Ele respirou longamente, observou o tapete sob seus pés, cruzou os braços e aguardou por algum tempo, no mais absoluto silêncio. E apesar de ter discordado sobre ter se tornado um adulto diferente do menino que um dia foi, agora não apresentava grande desassossego..., de fato, ele parecia quase contemplativo.

– Nunca me perguntaram isso. Pelo menos não dessa forma.

– De que forma?

– Não sei..., dessa forma genuinamente interessada em saber quem sou. Geralmente quando me fazem essa pergunta, as respostas que ofereço costumam dar conta. Mas acho que é a primeira vez que percebo que nada do que respondi ao longo da vida sou eu.

– Como se sente em relação a isso?

– Bem..., parece que eu não sei quem sou.

– Talvez você tenha se distanciado demais daquela criança que foi um dia.

– Você acha?

– O que eu acho não tem importância. Afinal, eu não conheci a criança que você foi..., mas o que realmente importa é o que você acha.

Ele retornou ao estado contemplativo. Seu olhar não mais testemunhava o cenário externo. Na verdade, ele parecia mergulhar para dentro da alma.

– Quando eu era menino, gostava de brincar com recortes de revistas – ele começou a falar, o olhar ainda compenetrado – Pegava as revistas de moda da minha mãe e passava horas caçando figuras das mais variadas. Usava os recortes para construir murais de diferentes temas: casas, animais, cidades, pessoas..., esse último era o meu favorito. Retirava imagens de pessoas que eu não soubesse o nome, entende? Não dos artistas famosos, porque os famosos eu sabia o nome deles. No meu mural só havia pessoas das quais não conhecia seus nomes..., e depois que os colava no papelão, eu pendurava na parede do quarto e ficava observando seus rostos, queria saber quem eram aquelas pessoas, ondem moravam, quais eram seus nomes – ele despertou das lembranças e me olhou, um pouco encabulado – Sei que era uma atividade idiota.

– Não era não. Idiota é essa sua afirmação, porque sei que não acredita nisso. Agora compreende porque eu disse que todo adulto é um chato?

– Sim, acho que você tem razão..., mas não sei dizer quando foi que me tornei esse adulto chato.

– Não tem problema.

– Acho que a sociedade vai nos moldando de modo a nos deixar em plena conformidade com o que o sistema social vigente precisa que sejamos. Desenvolver nossa essência é considerado improdutivo, por isso nos doutrinam – de repente, ele pareceu espantado – Talvez mais simples do que dizer quem sou, seja dizer o que eu me tornei, doutor.

– Então diga: o que você se tornou?

– Eu me tornei um acumulador de patrimônio, mesquinho. Quanto mais eu ganho, mais parece que preciso ganhar para suprir alguma vazio. É como se eu estivesse numa competição sem fim, onde cada pessoa ao redor eu o interprete como sendo um adversário, então preciso ultrapassá-lo, ter mais poder, mais status, mais notoriedade..., doutor, eu me tornei um...

Ele hesitou. Como é difícil encontrar a palavra certa que unifique tantos adjetivos que pairam em nossa mente sobre aquilo que nos tornamos.

– Um competidor..., tornei-me um guerreiro contemporâneo.

– Fale um pouco sobre esse seu eu guerreiro.

– Esse guerreiro é um sujeito mesquinho, amedrontado, que aprendeu a desconfiar de todos ao redor. Para além de sua epiderme tudo é ameaçador, por isso ele aprendeu a não ter compaixão e suas relações sociais estão estabelecidas sob a lógica da escada: todos estão sobre algum degrau, uns acima outros abaixo..., e esta é a batalha do guerreiro: alcançar o próximo degrau, enquanto impede que roubem o seu lugar atual.

– É uma ótima metáfora – falei, tentando o manter motivado, mas sem me abster da sinceridade – a resposta parece ter saído de dentro de você sem grande dificuldade.

– Acho que sim – ele inspirou demoradamente, como se houvesse acabado de encontrar uma enorme bagunça dentro de si – Eu nunca pensei que fosse dizer isso de mim mesmo, mas acho que sou uma pessoa horrível, doutor.

– Você não é uma pessoa horrível.

– Não estou sendo autoindulgente.

– E nem eu estou sendo razoável – levantei-me e fui até o bebedouro, no canto da sala – veja bem: geralmente quando paramos para observar nossa própria existência, com humildade e retidão, costumamos nos assustar com alguns aspectos negativos em nossa atual constituição humana, os quais passamos a vida inteira ignorando. O fato é que todos nós estamos moldados por um misto de traços positivos e outros negativos. Pode ser que você esteja assustado, porque por alguma razão se recusou a observar aquilo que pode melhorar em sua personalidade. Sempre há lugares em nós que são ignorados com o tempo. E quando disse que não estou sendo razoável, é porque acredito que o primeiro passo para se mudar algo dentro de nós, é reconhecer aquilo que precisa ser mudado..., e você está fazendo essa autoanálise agora – retornei com um copo com água e o entreguei – algumas vezes vai doer essa etapa de identificar suas falhas, mas o processo de cura começa com essa dor.

– Sabe, ao mesmo tempo em que consigo enxergar algumas falhas de caráter em mim, também percebo que não quero mudar; como se meus comportamentos funcionassem como medidas protetivas que impedem que outras pessoas sejam invasivas..., é como se houvessem duas vozes dentro da minha cabeça, doutor. Cada uma diz uma coisa contrária da outra.

– Observe e tente compreender o que estas vozes estão dizendo, o que há de importante em cada orientação que as vozes ditam. Então seu trabalho é pegar tudo e discernir, com coerência e desprendimento, até que você encontre a solução mais equilibrada. As vozes dentro da nossa cabeça costumam intimidar, causar medo, nos deixar tristes e até fazer com que percamos a confiança..., mas elas são como espectros de experiências da vida que você viveu até hoje. Contudo, essas vozes não são você.

– Como assim? – ele quase engasgou com a água – então a quem pertencem essas malditas vozes?

Como explicar para aquele paciente, de um modo que parecesse o menos metafísico possível, sem confrontar seu enorme ceticismo?

– Acho que vai ficar mais simples entender isso, utilizando uma ideia de um poeta chamado Khalil Gibran – dessa vez foi minha vez de inspirar longamente – a ideia dele é a seguinte: “Deus disse: ‘ame o seu inimigo!’ Eu obedeci, e amei à mim mesmo”.

Parado com o copo descartável vazio na mão, o paciente ficou encarado no tapete do chão por algum tempo. Depois, se despediu e foi embora, prometendo pensar sobre a sessão de hoje, mas eu estava convicto de que ele havia entendido a mensagem.


**continua**

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