Carlos Herculano Lopes é um narrador sensível, meticuloso e um pouco conservador. Observa o mundo de longe, até mesmo quando algum de seus textos narra uma experiência pessoal, ele o faz com um olhar distante, quase em terceira pessoa, como uma ostra fechada que observa os bodes mundanos – embora esse trocadilho não tenha muito a ver com o título da obra, que também dá nome a uma das crônicas reunidas neste agradável volume.
A OSTRA E O BODE é um
compilado de crônicas que denota claramente a maturidade literária de seu
autor. Neste livro, Lopes explora o mundo não apenas como registro do
cotidiano, mas como instrumento de investigação da condição humana em sua
escala mais íntima.
Os textos aqui partem de
eventos aparentemente banais – um encontro ocasional, uma lembrança, uma cena
urbana – mas rapidamente se deslocam para uma dimensão mais profunda, onde o
que está em jogo é a própria estranheza do existir.
Outro aspecto interessante é a
relação com o tempo. Suas crônicas não são apenas narrativas de acontecimentos;
são dispositivos de suspensão temporal. O instante cotidiano se torna um portal
para o passado, para memórias, ou mesmo para uma reflexão ontológica mais
ampla. Há aqui uma desaceleração deliberada da percepção. E o autor o faz com
uma linguagem simples e acessível.
Há uma diversidade grande de
situações, quase sempre com o foco em situações que normalmente passam
despercebidas pela maioria de nós. Uma crônica que me prendeu bastante foi
Hassina, em que conta a história de um brasileiro que se encontra algumas vezes
num Café com uma mulher muçulmana prometida em casamento, e os dois se
apaixonam. O vínculo entre o brasileiro e a moça, chamada Hassina, não se
desenvolve na lógica da posse, mas na lógica da impossibilidade; a condução do
autor não tenta superar a realidade, ele apenas a contempla.
Percebi ao longo da leitura
certo excesso de sutileza, sinais de um conservadorismo do autor. Acho que isso
empobreceu um pouco a narrativa, mas não a ponto de a deixá-la ruim; Carlos
Herculano Lopes compensa isso com seu estilo delicado e denso. A beleza não
deriva da intensidade do evento narrado, mas da qualidade do olhar que o
apreende. O centro da crônica deixa de ser o acontecimento e passa a ser a
consciência que o observa.
É uma diferença decisiva, que não deixa o texto ruim, apenas impõe seu estilo.
A OSTRA E O BODE é um livro discreto na superfície, mas muito consistente em sua arquitetura interior; quanto mais se observa, mais se percebe que a verdadeira matéria da obra é o modo como a consciência se relaciona com aquilo que se viveu e as minúcias imperceptíveis do cotidiano.
NOTA: 8,6

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