sábado, 18 de abril de 2026

RESENHA DE LIVRO – A OSTRA E O BODE

Carlos Herculano Lopes é um narrador sensível, meticuloso e um pouco conservador. Observa o mundo de longe, até mesmo quando algum de seus textos narra uma experiência pessoal, ele o faz com um olhar distante, quase em terceira pessoa, como uma ostra fechada que observa os bodes mundanos – embora esse trocadilho não tenha muito a ver com o título da obra, que também dá nome a uma das crônicas reunidas neste agradável volume.

A OSTRA E O BODE é um compilado de crônicas que denota claramente a maturidade literária de seu autor. Neste livro, Lopes explora o mundo não apenas como registro do cotidiano, mas como instrumento de investigação da condição humana em sua escala mais íntima.

Os textos aqui partem de eventos aparentemente banais – um encontro ocasional, uma lembrança, uma cena urbana – mas rapidamente se deslocam para uma dimensão mais profunda, onde o que está em jogo é a própria estranheza do existir.

Outro aspecto interessante é a relação com o tempo. Suas crônicas não são apenas narrativas de acontecimentos; são dispositivos de suspensão temporal. O instante cotidiano se torna um portal para o passado, para memórias, ou mesmo para uma reflexão ontológica mais ampla. Há aqui uma desaceleração deliberada da percepção. E o autor o faz com uma linguagem simples e acessível.

Há uma diversidade grande de situações, quase sempre com o foco em situações que normalmente passam despercebidas pela maioria de nós. Uma crônica que me prendeu bastante foi Hassina, em que conta a história de um brasileiro que se encontra algumas vezes num Café com uma mulher muçulmana prometida em casamento, e os dois se apaixonam. O vínculo entre o brasileiro e a moça, chamada Hassina, não se desenvolve na lógica da posse, mas na lógica da impossibilidade; a condução do autor não tenta superar a realidade, ele apenas a contempla.

Percebi ao longo da leitura certo excesso de sutileza, sinais de um conservadorismo do autor. Acho que isso empobreceu um pouco a narrativa, mas não a ponto de a deixá-la ruim; Carlos Herculano Lopes compensa isso com seu estilo delicado e denso. A beleza não deriva da intensidade do evento narrado, mas da qualidade do olhar que o apreende. O centro da crônica deixa de ser o acontecimento e passa a ser a consciência que o observa.

É uma diferença decisiva, que não deixa o texto ruim, apenas impõe seu estilo.

A OSTRA E O BODE é um livro discreto na superfície, mas muito consistente em sua arquitetura interior; quanto mais se observa, mais se percebe que a verdadeira matéria da obra é o modo como a consciência se relaciona com aquilo que se viveu e as minúcias imperceptíveis do cotidiano.

NOTA: 8,6

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