Encontrava-me garimpando num Sebo na capital do ES, Vitória, quando me deparei com um clássico da literatura britânica. Saliento que não foi muito difícil enxergar OS CATADORES DE CONCHAS na prateleira de literatura internacional, pois o tijolão de quase setecentas páginas, destacava-se por sua enormidade. E é precisamente essa robustez o que, num primeiro momento, despertou minha curiosidade. Afinal, eu já tinha ouvido referências positivas sobre a obra, portanto, seu tamanho pareceu um atrativo extra, pois a obra devia ter muito a dizer. Mas o que era para ser uma leitura prazerosa acabou se transformando em instantes de tédio, que só não foram maiores, porque sua autora, Rosamunde Pilcher, escreve de forma simples e fluida. Vamos falar um pouco sobre isso.
OS CATADORES DE CONCHAS se organiza em torno da memória, do
tempo e da transmissão simbólica entre gerações de uma família inglesa. A
protagonista, Penelope Keeling funciona como uma espécie de arquivo vivo de um
século marcado por guerras, perdas e reconstruções. Enfrentando a velhice do
presente momento e após quase sofrer um infarto, Penelope toma algumas decisões
que vão despertar memórias de sua juventude, assim como entrará em conflito
direto com seus três filhos.
Um dos eixos centrais do
romance é a tensão geracional, ocasionada pela distinção entre valores
econômicos, inseridos nas figuras dos filhos, e os valores sentimentais,
encarnados na presença da matriarca. Existe aqui um interessante embate entre
duas formas de habitar o mundo: uma orientada pela utilidade, outra nutrida
pelo significado. Pilcher trabalha também a questão da solidão não patológica.
Sua protagonista é uma mulher solitária, mas não vazia. Trata-se de uma solidão
madura, deliberada, atravessada por afetos reais. Isso faz dela o arquétipo
preciso dos valores sentimentais na trama.
O aspecto ético me pareceu
sutilmente relevante: uma crítica à ingratidão geracional. Os filhos de
Penelope não agem como vilões caricatos, mas como produtos de um tempo em que a
escuta do passado se perdeu. A autora não os demoniza em momento algum, mas os
expõe. OS CATADORES DE CONCHAS sugere que o verdadeiro empobrecimento
não é financeiro, mas afetivo.
A condução narrativa é
silenciosa, sem retórica nem julgamento explícito, o que torna a trama um tanto
eficaz. A obra de arte que leva o nome do livro, não é um simples objeto
narrativo, mas um dispositivo simbólico que expõe duas racionalidades
inconciliáveis e discrepantes em termos. Para os filhos, o quadro Os Catadores
de Conchas é apenas uma ativo, algo que pode ser convertido em dinheiro. Já
para a mãe, Penelope, o quadro tem um enorme valor afetivo, a lembrança da
juventude, a memória de quem ela foi e de quem se tornou. Portanto, para Penelope,
o quadro não possui valor transferível ou negociável; existe apenas na relação
entre sujeito e objeto. Tal enfrentamento faz com que a protagonista perceba uma
evidente ausência de empatia por parte dos filhos: eles não desconsideram
apenas um quadro, mas desconsideram a história da mãe.
Outras personagens surgem ao
longo da história, mas servem apenas para reforçar o enfrentamento geracional,
despertando nos filhos, sentimentos que lhe são característicos, como ciúmes e
inveja. E esse desgaste silencioso na relação entre mãe e filhos é a fratura
moral que jamais explode, mas apenas se acumula…
Os acontecimentos comuns de
uma família de classe média do século vinte são exatamente os pontos de
interesse de Rosamunde Pilcher. Ela descreve uma classe que não enfrenta
fome, nem guerras diretas, tampouco tragédias existenciais. Seu foco está em
falhas éticas nas relações familiares, não estamos diante de uma história de
sobrevivência, é sobre a incapacidade de reconhecer o outro…, só que esse
hiperfoco causou um problema:
Em OS CATADORES DE CONCHAS o entrave não está em seu tema – conflitos familiares, herança simbólica, incompreensão geracional – mas na desproporção entre matéria narrativa e extensão. A prolixidade da autora não é estilística no sentido forte, onde o excesso é compensado por densidade reflexiva. Pilcher estende-se em descritivas que retornam continuamente aos mesmos conflitos sem acrescentar novas camadas significativas. Ao retratar um universo socialmente seguro (classe média inglesa, estabilidade material, dramas ausentes de rupturas), o alongamento do texto acaba por cobrar um preço alto do leitor. O que poderia ser um texto coeso e elegante, dentro de, no máximo, 400 páginas, acabou por se tornar um árduo teste de paciência. Até para os leitores mais atentos e dispostos, 700 páginas é muito texto para tão pouco a ser narrado. O livro parece confiar excessivamente na identificação emocional do leitor com o cotidiano burguês. Concluir a leitura foi quase um alívio…
OS CATADORES DE CONCHAS é um romance afetivamente competente, mas dramaturgicamente inchado. Sua trama diz algo válido, porém, o repete mais vezes do que o necessário. Rosamunde Pilcher não tensiona o destino humano em larga escala, porém, expõe algo mais modesto: que a vida pode perder significado também em pequenas tragédias.
NOTA: 6,9

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