sábado, 14 de março de 2026

RESENHA DE LIVRO –O SÉCULO DA SOLIDÃO – restabelecer conexões em um mundo fragmentado

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A ideia de que existam instâncias que trabalham arduamente na constituição de uma sociedade submissa e alienada, é algo que recebo com certo ceticismo, talvez porque estou vivendo o primeiro estágio do luto: negação. Contudo, ao mesmo tempo em que me é custoso crer em certos padrões deletérios, não sou otimista, e sei que a sociedade é complexa, se transforma em diversos sentidos e pende para diferentes esferas de pensamento. Mas se há algo em que acredito, é que muita gente se beneficia de certas condições da sociedade, e essas pessoas não estão nem um pouco interessadas em mudar a situação. A solidão certamente é uma dessas condições.

De maneira sintética, este excelente trabalho intitulado O SÉCULO DA SOLIDÃO – restabelecer conexões em um mundo fragmentado, da escritora inglesa Noreena Hertz, parte de uma tese forte e bem documentada: a solidão deixou de ser um fenômeno individual para se tornar um problema estrutural das sociedades contemporâneas. Aqui a autora traz uma abordagem que vai além do problema de pessoas que “se sentem sozinhas”, e volta seu olhar para um modelo de organização social, econômica e tecnológica que produz isolamento, mesmo em contextos de hiperconectividade.

O livro faz um diagnóstico fragmentado em alguns pontos centrais: a solidão como fenômeno político e econômico; as tecnologias e suas ilusões de conexão; as consequências psíquicas e sociais; a invisibilidade coletiva, ou seja, a falta de pertencimento social.

Hertz faz uma crítica contundente ao modelo econômico, sustentando que o neoliberalismo – entendido aqui não apenas como política econômica, mas como forma de organização social – produziu um novo cidadão radicalmente individualizado, competitivo e, por consequência, isolado. A autora nos mostra que o discurso econômico contemporâneo transformou as pessoas em empreendedores de si; cada um passou a ser responsável, sozinho, por seu sucesso, fracasso, saúde emocional e estabilidade financeira. Isso é algo que mina a noção de responsabilidade coletiva e enfraquece redes sociais de apoio, como sindicatos, associações, comunidades locais e até mesmo a família. Neste modelo estrutural, pedir ajuda é visto como fraqueza, depender do outro é uma falha moral, e o resultado é um sujeito formalmente autônomo, mas existencialmente desamparado.

O modo como nossa sociedade está organizada é extremamente voltado para a competição, em vez de cooperação. Em todos os espaços sociais a competição é a ordem: no trabalho, no consumo, nas relações humanas e até na construção de identidade.

Talvez o ponto mais inquietante da obra, seja justamente aquilo que me faz pensar na distopia: sociedades mais solitárias seriam mais fáceis de se governar e extorquir. Indivíduos isolados têm menos capacidade de organização coletiva, menos empatia e maior propensão a discursos simplistas e autoritários. No entanto, a autora não afirma a existência de um “comitê secreto” que estaria planejando a solidão, e é importante deixar isso bem claro: o que Noreena Hertz descreve é algo mais sutil, e justamente por isso, mais perturbador: processos estruturais que produzem efeitos previsíveis, sem a necessidade de intenção centralizada.

Ou seja, a obra não aponta para um problema de conspiração, mas de conveniência. Não é que alguém imaginou deliberadamente uma sociedade solitária, mas que certas formas de organização social produzem solidão, e isso é altamente conveniente para mercados que se beneficiam de indivíduos isolados que consomem mais, numa tentativa de suprir carências; plataformas digitais que lucram com atenção fragmentada e relações superficiais; sistemas políticos que funcionam melhor quando a ação coletiva está enfraquecida; ambientes de trabalho que rendem mais quando as pessoas competem umas com as outras.

Enfim, O SÉCULO DA SOLIDÃO é uma estupenda obra que nos faz refletir sobre o fato de que, apesar de não vivermos numa sociedade maligna, vivemos numa sociedade que aprendeu a conviver com seus danos colaterais e, em muitos casos, a lucrar com ele. Em suma, o livro aponta para uma condição dura, mas necessária: não estamos sozinhos porque falhamos como indivíduos, na verdade, estamos sozinhos porque fomos treinados a viver assim.

NOTA: 🔟😍

terça-feira, 3 de março de 2026

RESENHA DE LIVRO – A CASA DO POETA TRÁGICO

Eis um exemplo de literatura que, se fosse lançada em tempos atuais, seria perseguida pela cultura do politicamente correto por conta de seu tema central: relação amorosa entre uma jovem adolescente e homem na casa dos quarenta. No entanto, estamos aqui apenas para analisar a obra, e a questão moral é rapidamente absorvida pela sensível e melancólica escrita de Carlos Heitor Cony...

Publicitário de meia idade, vivendo o auge do tédio existencial, fica obcecado por uma jovem que passa a perseguir discretamente durante uma viagem de cruzeiro. Após o desembarque da moça, Augusto, nosso protagonista, insiste na busca pela moça misteriosa, até conseguir falar com ela. Começa aí um romance que escapa completamente daquele estereótipo do macho dominador; o personagem de Cony é um homem inseguro e rancoroso, que precisa lidar com a desilusão de descobrir que não é soberano daquilo que pensou ser o grande criador: aquela jovem moça que ele pensa ter descoberto.

A narrativa deste A CASA DO POETA TRÁGICO foge de ideais e padrões de fácil identificação social. De fato, Cony desenvolve uma trama incômoda pela lentidão e melancólica do ponto de vista de seu protagonista que narra a história. Talvez o grande acerto da obra seja precisamente essa fuga do lugar comum: aos poucos, descobrimos que a fragilidade não pertence à Mona, a jovem conquistada, mas está em Augusto, o instável conquistador.

Vale à pena mencionar alguns pontos que não chegam a ser spoiler, mas que são pertinentes para se compreender o arco amoroso dos protagonistas: a trama se passa três anos após a separação de Mona e Augusto, eles viveram juntos por 15 anos; o nome de Mona foi praticamente uma imposição feita por Augusto quando se conheceram; Augusto já fora casado antes com uma mulher de idade equivalente.

Ditas nesta resenha, essas informações parecem triviais e apresentam pouco sobre a complexidade da relação dos personagens. Mas são pertinentes para entendermos as motivações de cada um dos envolvidos, em especial, Augusto.

Nosso protagonista parece uma mera alegoria daquilo que gostaria de ser. E sua persona parece funcionar, pelo menos durante o tempo em que viveu com Mona e compartilhou algumas de suas experiências de vida. Porém, há sempre um viés de fachada; Augusto sofre por antecipação, é ranzinza e, ao mesmo tempo, incapaz de agir com firmeza, percebe-se algum ressentimento em relação a si mesmo.

Enquanto Mona é a mulher vivendo o processo de desabrochar, que anseia descobrir o mundo, mas não se torna piegas. Ela aceita sua condição de aprendiz sem resignação, olha para seu mentor de cabeça erguida e, em alguns momentos, sabe que exerce poder sobre ele. Apesar disso, ela o respeita, mas não o cultua.

Exatamente essa seria a tragédia de Augusto: ele parece não se conformar com essa similaridade cada vez mais crescente em mona; tende a transformar tudo em lembrança (característica que acontece com personagens de outras obras de Cony), em mito pessoal, em reconstrução subjetiva. Quando tudo parece irrecuperável, Augusto se vitimiza, submete-se à uma cadeira de rodas para suscitar comiseração... Desse modo, a casa do título é o lugar metafórico da tragédia, pois seu arquiteto fracassa na elaboração da própria história; um lugar onde tentou, sem sucesso, interpretar o papel do homem experiente, mas foi incapaz de encobrir sua insegurança.

O decorrer da leitura me deixou com a sensação de que Augusto não se apaixona por Mona; isso parece implícito em sua exigência por renomear a amada, dando ao ato um caráter deífico. Augusto não ama aquela jovem, mas a instrumentaliza como forma de sobreviver a si mesmo. E, claro, para além do já citado escopo moral da trama, trata-se de outro elemento que carrega uma enorme violência emocional, ainda que Cony desenvolva sua história de forma sutil e psicológica.

E a relação de Augusto com o filho parece corroborar com a desorganização do protagonista.

É uma trama cheia de camadas, porém, algumas um tanto sutis.

A CASA DO POETA TRÁGICO é o relato de um homem em busca de si mesmo, mas que encontra somente o reflexo daquilo que teme ser. Não há redenção, tampouco aprendizagem profunda…, há apenas uma constatação melancólica, quase silenciosa, de que sua vida continuará sendo aquilo que sempre foi: uma busca fracassada do crescimento existencial pautado na construção de algo externo, esquecendo-se de seus medos e traumas internos.

NOTA: 8,5