Seu destino geral todos
conhecem ou desconfiam. Já o destino de cada um ninguém sabe, exceto aqueles
indivíduos que estão devidamente caracterizados. Alguns mudam de rota, outros
desistem; não raro alguém desce imediatamente após embarcar, certamente deixou
para trás algo importante. Há aqueles cujo intento foi modificado durante o
trajeto, influenciados que foram por outros usuários. Mas independente do lugar
para onde estejam seguindo, que todos sejam reconhecidos por sua nomenclatura ordinária:
eles são passageiros.
Toda essa ênfase com a
definição se deve ao fato de que os passageiros desejam dispender o menor tempo
possível no interior da grande caixa metálica. Passageiro é um termo direto que
reconhece a todos como indivíduos submetidos a um procedimento transitório; que
nada acontece no mundo enquanto estiverem ali, no interior do muambado,
sendo transportados de um espaço para outro. Ali é onde ocorre o intervalo da
vida; nada acontece dentro do coletivo e nunca alguém buscou seus serviços por
estar com saudade daquele sacolejo constante, do sobe e desce de gente estranha,
de todo tipo de individualidade..., eis o aglomerado humano onde todos estão
unidos, mas cada um buscando seu próprio destino.
O ônibus é o neutro em
movimento.
O cinema já explorou à
exaustão o tema da máquina do tempo. Comumente, trata-se de uma cabine
hermética, cujo usuário é transportado para determinado época, inserindo suas
coordenadas temporais num painel cheio de botões. Pois bem, agora imagine se um
ônibus coletivo não tivesse janelas e as imediações do motorista fossem
impedidas aos passageiros, como acontece nas cabines dos aviões comerciais. Ou
seja, nestas condições estaríamos presos dentro de uma caixa sem saber o que
está acontecendo do lado de fora, e somente reestabeleceríamos o contato com o
mundo quando chegasse o momento de desembarcar. Sabe aquela sensação estranha
quando saímos de um elevador? De repente, adentramos uma caixa metálica
posicionada no térreo de um edifício, então, magicamente essa caixa se abre e
sentimos vertigem por conta da repentina visão de uma cidade há quilômetros de
profundidade. Saímos de um mundo, aparecemos noutro. Assim deve ser a sensação
de se viajar numa máquina do tempo...
Pois um ônibus sem janelas
seria como um elevador; usuários conspirariam a possibilidade de que o trajeto
não existe; que o ônibus simplesmente se teletransporta de um lugar para o
outro. Afinal, o passageiro só conhece o ponto de embarque/desembarque e o
interior da máquina. Ninguém sabe como é ou como funciona o poço de um
elevador.
Mas as janelas dos ônibus nos
permitem o testemunho do trajeto, muitas vezes até proporcionam a apreciação de
uma bela paisagem. É através das janelas que sabemos identificar nosso destino,
e o instante preciso de puxar a cordinha. Da janela somos todos isentos,
observando o mundo continuar sem nós por algum tempo. Vez ou outra, paira a
noção de que talvez não seja tão ruim assim estar dentro do ônibus, afinal, do
lado de fora está sempre acontecendo um instante de estresse, uma briga no
trânsito, um acidente. Abençoado ônibus que nos ofereceu a condição de
expectadores da vida ordinária. Quem está dentro do ônibus não tem nada a ver
com o mundo lá fora.
Mas e esses passageiros, quem
são? De onde aparece tanta gente?
Sei que vai parecer estranha a
comparação, mas os humanos são meio como baratas: estão em toda parte, surgem
do nada e a gente nunca sabe de onde aquela criatura veio. Talvez Franz Kafka
compreendesse o que quero dizer, afinal, o escritor foi ao limite do absurdo em
sua comparação do ser humano com um inseto.
Enfim, este distinto e
corrosivo ser andante vai surgindo de vários pontos e todos se reúnem em
específico local, à margem de uma rua. Todos espremidos na calçada, entediados
pela repetição do ato, quase não se falam. Olham para o chão, verificam o
celular, fones nos ouvidos, um ou outro comenta sobre o tempo maluco. A espera
faz os minutos parecerem horas. Então, irrompe no horizonte o caixote
retangular de rodas, que estaciona diante do aglomerado humano e todos
desaparecem da calçada.
Encontram-se agora espremidos
em seu interior, entediados pela repetição do ato, quase não se falam. Olham
para a janela, verificam o celular, fones nos ouvidos, um ou outro fala sobre o
tempo maluco, talvez o mesmo sujeito que o fez lá na calçada, há pouco. Por que
essas pessoas resolveram sair de suas casas ao mesmo tempo? É tanta gente junta
que quase não cabe no ônibus, elas se encolhem para entrar, penduram-se na
porta, corpos imprensados, compartilhando calor, suor, fluídos salivares,
bactérias..., um verdadeiro enlatado humano.
Gente branca, preta, amarela,
marrom, cinza. Vestem todo tipo de indumentária, jeans, malha, moletom, manga
longa, manga curta, short, bermuda, saia, vestido, macacão, uniforme, terno e
gravata. Mochilas, bolsas, sacolas de supermercado, sacola de loja de utilidades
em geral, sacolas plásticas, sacolas de papel, bolsa de viagem, bolsa tiracolo,
chapéu, boné, tiara, pregadeira, caneta prendendo os cabelos na cabeça...,
cabelos pretos, loiros, ruivos, encaracolados, crespos, compridos, curtos,
grisalhos, cabeças sem nenhum cabelo... Dezenas e dezenas de cabeças reunidas.
De repente, um inesperado
buraco e as rodas sofrem o impacto, um tranco fugaz e todos os ombros
chacoalham ao mesmo tempo. Logo depois, uma freada brusca, e a pressão exercida
pela frenagem faz aquelas muitas cabeças reverenciarem em sincronia. Alguém se
levanta e sai amassando e sendo amassado por outros corpos, puxa a cordinha. O busão,
que estava em movimento, diminui até parar. Lá fora, outro grupo de pessoas
juntas na margem da pista. Humanos trocam olhares, descem dois, entram quatro.
As portas se fecham com dificuldade, a lata gigante de sardinha dá seta para
retomar o percurso. Alguém puxa a cordinha de novo, mas o condutor não tem
paciência, ainda tem muito chão pela frente, não há tempo a perder.
– Peraê, motor!
O ônibus espera um pouco mais.
Alguém está bloqueado no emaranhado de corpos. Ele puxa, estica, aperta,
empurra, chuta, pisa e é pisado, busca mais um espacinho, vai lutando por cada
centímetro em direção à porta de saída.
Do lado de fora, o outro
aglomerado de humanos observa a caixa de metal carregada de gente, e acha
aquele cenário natural; aguardam avidamente pela chegada de seu ônibus, todos
juntinhos, entediados pela repetição do ato, quase não se falam, olham para aquela
caixa parada que não lhes serve, depois voltam a verificar o celular, fones nos
ouvidos, alguém comenta sobre o calor infernal..., os de fora invejam a sorte
dos de dentro, porque já estão no caminho de seus destinos; os de dentro
anseiam a liberdade dos de fora, porque eles respiram ar limpo, possuem
distanciamento decente e correm menos riscos de infecções respiratórias. Os de
fora têm uma visão do futuro que os esperam ao contemplar os de dentro,
enquanto os de dentro reveem o próprio passado recente ao observar os de fora.
Uma mulher audaciosa consegue
entrar, ela veio correndo, surgiu não se sabe de onde, exatamente como fazem as
baratas. Dá alguns socos na porta do ônibus e então a mesma se abre. Vitoriosa,
espreme-se até a roleta, recebe e devolve ofensas com o trocador porque só
tinha uma nota de cinquenta e é difícil trocar uma nota de cinquenta.
Trocadores odeiam notas de cinquenta, mais até do que as de cem, pois na crise
atual, estas são raras. Todos acompanham o bate-boca sem se alterarem, afinal, isso
acontece todo dia.
E como num milagre da urbanização, a mulher consegue um lugar para estacionar sua massa orgânica entre o emaranhado de corpos. A expressão de ódio por conta da recente discussão se desfazendo, aos poucos, até virar tédio e ela se transforma em parte do cenário. Então ela olha pela janela, depois verifica o celular, põe os fones de ouvidos, um cara ao lado comenta que esse calorão só pode ser chuva mais tarde...

