A ideia de que existam instâncias que trabalham arduamente na constituição de uma sociedade submissa e alienada, é algo que recebo com certo ceticismo, talvez porque estou vivendo o primeiro estágio do luto: negação. Contudo, ao mesmo tempo em que me é custoso crer em certos padrões deletérios, não sou otimista, e sei que a sociedade é complexa, se transforma em diversos sentidos e pende para diferentes esferas de pensamento. Mas se há algo em que acredito, é que muita gente se beneficia de certas condições da sociedade, e essas pessoas não estão nem um pouco interessadas em mudar a situação. A solidão certamente é uma dessas condições.
De maneira sintética, este
excelente trabalho intitulado O SÉCULO DA SOLIDÃO – restabelecer conexões
em um mundo fragmentado, da escritora inglesa Noreena Hertz,
parte de uma tese forte e bem documentada: a solidão deixou de ser um fenômeno
individual para se tornar um problema estrutural das sociedades contemporâneas.
Aqui a autora traz uma abordagem que vai além do problema de pessoas que “se
sentem sozinhas”, e volta seu olhar para um modelo de organização social,
econômica e tecnológica que produz isolamento, mesmo em contextos de
hiperconectividade.
O livro faz um diagnóstico
fragmentado em alguns pontos centrais: a solidão como fenômeno político e
econômico; as tecnologias e suas ilusões de conexão; as consequências psíquicas
e sociais; a invisibilidade coletiva, ou seja, a falta de pertencimento social.
Hertz faz uma crítica
contundente ao modelo econômico, sustentando que o neoliberalismo – entendido
aqui não apenas como política econômica, mas como forma de organização social –
produziu um novo cidadão radicalmente individualizado, competitivo e, por consequência,
isolado. A autora nos mostra que o discurso econômico contemporâneo transformou
as pessoas em empreendedores de si; cada um passou a ser responsável, sozinho,
por seu sucesso, fracasso, saúde emocional e estabilidade financeira. Isso é
algo que mina a noção de responsabilidade coletiva e enfraquece redes sociais
de apoio, como sindicatos, associações, comunidades locais e até mesmo a
família. Neste modelo estrutural, pedir ajuda é visto como fraqueza, depender
do outro é uma falha moral, e o resultado é um sujeito formalmente autônomo,
mas existencialmente desamparado.
O modo como nossa sociedade
está organizada é extremamente voltado para a competição, em vez de cooperação.
Em todos os espaços sociais a competição é a ordem: no trabalho, no consumo,
nas relações humanas e até na construção de identidade.
Talvez o ponto mais
inquietante da obra, seja justamente aquilo que me faz pensar na distopia:
sociedades mais solitárias seriam mais fáceis de se governar e extorquir.
Indivíduos isolados têm menos capacidade de organização coletiva, menos empatia
e maior propensão a discursos simplistas e autoritários. No entanto, a autora
não afirma a existência de um “comitê secreto” que estaria planejando a
solidão, e é importante deixar isso bem claro: o que Noreena Hertz
descreve é algo mais sutil, e justamente por isso, mais perturbador: processos
estruturais que produzem efeitos previsíveis, sem a necessidade de intenção
centralizada.
Ou seja, a obra não aponta para um problema de conspiração, mas de conveniência. Não é que alguém imaginou deliberadamente uma sociedade solitária, mas que certas formas de organização social produzem solidão, e isso é altamente conveniente para mercados que se beneficiam de indivíduos isolados que consomem mais, numa tentativa de suprir carências; plataformas digitais que lucram com atenção fragmentada e relações superficiais; sistemas políticos que funcionam melhor quando a ação coletiva está enfraquecida; ambientes de trabalho que rendem mais quando as pessoas competem umas com as outras.
Enfim, O SÉCULO DA SOLIDÃO é uma estupenda obra que nos faz refletir sobre o fato de que, apesar de não vivermos numa sociedade maligna, vivemos numa sociedade que aprendeu a conviver com seus danos colaterais e, em muitos casos, a lucrar com ele. Em suma, o livro aponta para uma condição dura, mas necessária: não estamos sozinhos porque falhamos como indivíduos, na verdade, estamos sozinhos porque fomos treinados a viver assim.
NOTA: 🔟😍

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