Sempre que penso na melhor definição de amizade, acredito ser mais simples identificar sua natureza por aquilo que ela não é. Ou seja, para mim amizade não é desrespeito, não é opressão e não é perfídia. Desse modo, os opostos me servem como régua básica do quanto sou um bom amigo…, ou pelo menos tento ser.
Contudo, apesar de parecer um
conceito razoável, o avanço da idade possui o poder de nos distanciar de
ideologias fechadas que restringem a possibilidade de enxergar circuitos amplos
das relações sociais. O ser humano é complexo demais para que um conjunto de
três adjetivos consiga dar conta de estabelecer as bases de um relacionamento.
A experiência tem me mostrado que, para muito além da necessidade de
enquadramento que conceituava, existem outras variáveis numa amizade, e algumas
dessas variáveis podem ser tão amplas e determinantes quanto a noção de
respeito, liberdade e lealdade.
Por exemplo, na minha vida
tive poucas relações as quais pude classificar como amizade. Mas cada uma delas
continha particularidades que talvez por conta desse olhar conservador de minha
parte, fez com que eu deixasse de lado aspectos importantes para a continuidade
daquela relação. E do alto de minha bitolada truculência, acrescentei um quarto
elemento essencial para identificar um amigo: perenidade. Sim, eu acreditava
que se acabou, é porque não era amizade.
Nos dias atuais, assim como no
curso de outros aspectos da vida, as amizades mudaram. Da mesma forma como a vida moderna está mais
superficial em todas as suas esferas, seja no trabalho, no relacionamento
afetivo, na família, em que, dentre outros aspectos dessa nova condição,
podemos destacar a terceirização dos cuidados, a troca constante de emprego, a
falta de tempo para momentos banais, a luta incessante pela produtividade, a
sedução da meritocracia, entre outros, as amizades seguem a mesma metamorfose
social.
Cultivar amizade na
pós-modernidade é muito diferente de tempos antigos, tornou-se muito mais
efêmero, ou como dizia Baumann, tornou-se líquido. Não vale mais a pena
persistir, pois você pode trocar de amizade facilmente, afinal, em suas redes
sociais destacam-se milhões de amigos. Desse modo, o cardápio repleto de
opções, vamos trocando e testando…, e perdendo a capacidade de criar vínculos
duradouros, significativos, assim como perdemos a capacidade de desenvolver
habilidades como paciência e tolerância.
Estamos vivendo um mundo onde
as facilidades comunicacionais da era tecnológica promovem maior capacidade de
estabelecimento de contatos interpessoais, assim como reduz distâncias, mas
quando utilizadas de maneira volúvel, tais facilidades comunicacionais geram o
distanciamento afetivo entre sujeitos.
Mas o que estamos presenciando
na sociedade moderna seria um processo de transformação das amizades ou sua
efetiva extinção?
Uma pesquisa feita em 2021
pelo Survey Center on American Life mostrou que o número de pessoas que
alegam não terem nenhum amigo aumentou em mais de 400% nos Estados Unidos. Outra
pesquisa no mesmo ano, que contou com mais de 50 mil participantes de 26
países, feita pelo McCann Group, revelou que 46% dos participantes disseram
não terem amigos naquele momento de suas vidas. E o Instituto Ipsos, em
pesquisa aqui no Brasil, levantou alarmantes dados mostrando que 50% dos
brasileiros participantes disseram que se sentem sós frequentemente, muitas
vezes ou sempre.
Estas pesquisas, embora não
sejam determinantes, não deixam dúvidas sobre uma realidade: amizade é algo que
está desaparecendo nas sociedades modernas.
Todo esse cenário poderia ser
problematizado, levando-se em conta fatores sociais, costumes locais ou
dissociação da palavra amizade. Porém, a realidade é que o nível de habilidades
sociais e empatia dos participantes eram parecidos, algo que foi testado por
algumas das instituições que fizeram as pesquisas.
Quando me deparei com esses
números, aquiesci para o fato de que o problema não estava apenas sobre meus
conceitos restritivos, mas existe algo podre na forma como estamos nos
relacionando uns com os outros. Portanto, creio que o problema vá muito além de
uma mera necessidade de ampliar o funil social. Talvez haja algo errado com a
nossa capacidade de resiliência, o desaparecimento de nossa cumplicidade, a
forma com que priorizamos obtenção de coisas em detrimento de pessoas e, acima
de tudo, o crescimento de nossa intolerância.
Relacionar-se com alguém
pressupõe a quebra de barreiras as quais fortemente estabelecemos como
mecanismos de defesa. Um amigo seria aquele que conseguiu ver através de nossas
máscaras sociais sem julgamento, ao contrário, ele aprecia e talvez até se identifique
com o aspecto orgânico do amigo.
O começo de qualquer
relacionamento é doce porque tem curta duração. E que essa doçura se abriga
precisamente naquela reconfortante consciência de que você não precisa desviar
de seu universo, nem se desdobrar para mantê-la intacta. Ou seja, a convivência
duradoura descortina nossa realidade menos lustrosa, faz-nos pensar sobre nossa
vaidade e abre a possibilidade de olharmos para o que é diferente.
Mas estamos preparados para
sustentar essa sofisticação?
Em entrevista concedida à
Clarice Lispector, o dramaturgo Nelson Rodrigues, quando questionado sobre
amizades, deu a seguinte resposta:
“Eu tenho o que chamaria de
amigos desconhecidos. São sujeitos que eu nunca vi, que cruzam comigo numa
esquina, numa retreta, num velório. Certa vez, fui a uma capelinha ver um
colega morto. Eram duas horas da manhã. Uma mocinha saiu do velório ao lado com
um caderno na mão, fez uma mesura para mim e disse ‘quero ter a honra de
apertar a mão do autor de A vida como ela é’. Depois me pediu o autógrafo. Eu
senti que estava vivendo um momento da pobre ternura humana. Eis o que eu
queria dizer: o amigo possível e certo é o desconhecido com quem cruzamos por
um instante e nunca mais. A esse podemos amar e por esses podemos ser amados. O
trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência”.
No fundo, talvez seja o medo o
sentimento que cria essa fria barreira que impede a imersão de cabeça do
sujeito numa verdadeira amizade, colocando-o sempre na defensiva para que não
venha a sofrer as consequências inevitáveis que ocorrem no enfrentamento de uma
relação de amizade. Afastando-se da possibilidade de um vínculo afetivo, o
sujeito incapaz de amar plenamente foge de seus próprios fantasmas
existenciais, construindo, assim, uma vida vazia e sem significado.
No apogeu da sociedade de
consumo, as pessoas foram assimiladas nesse degradante dispositivo de relações
efêmeras sem maiores complicações éticas de consciência. Impaciência e
indisponibilidade se tornaram a regra normativa, pois o ser humano moderno,
cada vez mais fragilizado em sua interioridade, foge sofregamente do
semelhante, pois aprendeu que semelhante deriva de equivalência, que não há
espaço para tolerar a diversidade. Tememos nossa própria descartabilidade
pessoal, e assim nos utilizamos convenientemente de todos os subterfúgios
tecnológicos e ideológicos possíveis para fugir de nossa responsabilidade
existencial perante o amigo.
Também é preciso cautela com
nossa arrogância. No meu caso, a soberba de achar o que devia ser feito, de
desenvolver uma lista daqueles elementos que me pareciam fundamentais para a
definição de amizade, era na verdade os critérios que permitiram que eu me
considerasse o amigo irretocável, que jamais será alcançado por qualquer ser
humano, tornando-me o exemplo máximo de indivíduo solitário em sua estupidez.
Acreditava que, após todos
esses anos, eu saberia definir o que era uma amizade, para além da empáfia de
me considerar o grande candidato a amigo. Mas aceitando meu discernimento
escasso, talvez a grande amizade seja, para além dos ditames morais ou
armadilhas das simplificações retóricas, uma instância onde duas
individualidades se encontram e se reconhecem, como partes complementares de um
todo incompleto. Pois percebi na pertinente definição de Michel de Montaigne,
sobre seu grande amigo Étienne de La Boétie, o porquê da amizade entre os dois,
o filósofo disse simplesmente: “porque era ele, porque era eu”.
Termino esta proza com um
pensador que, de fato, compreende e sabe definir uma verdadeira amizade, o
poema do mestre Oscar Wilde:
Loucos
e Santos
Escolho
meus amigos não pela cor da pela ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem
que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim
não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico
com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles
não quero resposta, quero meu avesso.
Que me
tragam dúvidas e angústias e aguentem o que há de pior em mim.
Para
isso, só sendo louco.
Quero
os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho
meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não
quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo
que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus
amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não
quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero
amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas
lutam para que a fantasia não desapareça.
Não
quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os
metade infância e outra metade velhice!
Crianças,
para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca
tenham pressa.
Tenho
amigos para saber quem eu sou.
Pois
os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me
esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.
Feliz dia do amigo! - 20/07/2026

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