sábado, 4 de julho de 2026

RESENHA DE LIVRO – A PACIENTE SILENCIOSA


Mais um livro que entrou em meu radar por conta do grande burburinho que vem causando nas comunidades literárias. Geralmente, sou resistente a ler livros que estão muito cotados, não por preciosismo, mas porque tenho uma lista infinita de obras que quero ler, portanto, quase não sobra espaço para o que vem sendo lançado. Mas quis abrir uma exceção para este trabalho de Alex Michaelides por duas razões: a sinopse é muito boa e a trama toca no tema da terapia, um assunto que me interessa de perto. Mas cá entre nós, as poucas literaturas modernas que tenho lido atualmente me entusiasmaram bem pouco..., vamos falar sobre esta:

A PACIENTE SILENCIOSA, como mencionei, tem uma premissa um tanto sedutora: Pintora famosa é acusada de assassinar o marido e, desde então, fez votos de silêncio. Ela é internada numa clínica psiquiatra e sua abstenção chama atenção de um terapeuta forense, nosso protagonista, que se torna obcecado em ajudar a fazê-la falar novamente.

As impressões iniciais quanto a narrativa em primeira pessoa, deixam a sensação de que a condução informal da personagem narradora é proposital e isso até agrada num primeiro momento. Mas não demora para a trama deixar explicitado que está interessada em trocar a profundidade psicológica pela velha engenharia de suspense. O narrador parece menos um personagem complexo e mais um mero mecanismo narrativo.

O autor também perde a chance de explorar um elemento que me parecia essencial e sugestivo em sua sinopse: mergulhar a fundo nas relações humanas, especialmente traumas, obsessão e transferência emocional. Mesmo sendo um terapeuta diante de uma paciente que não fala, isso poderia ser trabalhado por meio de flashbacks, principalmente quando o diário da paciente chega até sua posse. Há instantes em que isso parece se anunciar, mas logo a condução retoma a simplificação para manter o segredo funcionando até o grande final.

Percebi aqui um rascunho de crítica ao uso da psicologia no romance. O livro usa a estética de trama psicológico, mas em nenhum momento aprofunda essas nuances. Elas funcionam mais como atmosfera sofisticada do que como investigação real da mente dos personagens. Não nos deparamos com nenhum confronto filosófico, algo que me pareceu outra perda de oportunidade.

Este recente formato de produção literária, pautada no uso de capítulos curtos, diálogos diretos, nenhuma imersão de personagens e o choque como motor principal, me incomoda bastante. Há momentos em que tive a sensação de estar lendo algo repetitivo, como se fosse um livro que já li antes, pois me parece que muitos autores contemporâneos seguem essa mesma cartilha.

A personagem principal, o terapeuta Theo Faber é outro problema: inicialmente se comporta como um profissional entusiasmado, mas no decorrer da leitura deixa evidente seu imenso despreparo como terapeuta. Então ele vai além: assumi a função de investigar o crime cometido por sua paciente, o que logo nos faz perceber que ele também é um investigador medíocre e desorientado.

Já a paciente do título, Alicia Berenson, com seu silêncio criando uma aura de mistério, nos faz querer saber quem é essa mulher e o que aconteceu. No entanto, essa ânsia do leitor se sustenta até o instante em que ela resolve abrir a boca (com o perdão do spoiler). Desse ponto em diante, ela se torna tão desinteressante quanto seu terapeuta. As demais personagens que entram e saem da trama também não ajudam a elevar a atmosfera, talvez por conta do método narrativo, que apenas relata os acontecimentos, sem nos aproximar do material humano que cada um deles deveria sustentar.

A PACIENTE SILENCIOSA é um thriller de suspense que parece mais preocupado em conduzir sua narrativa para o grande momento “surpresa” (tenho dificuldade com alguns termos inglês que andam infestando nossa linguagem, como esse tal plot twist), do que propriamente em contar uma boa história..., uma pena!


NOTA: 5,4

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