A PACIENTE SILENCIOSA, como
mencionei, tem uma premissa um tanto sedutora: Pintora famosa é acusada de
assassinar o marido e, desde então, fez votos de silêncio. Ela é internada numa
clínica psiquiatra e sua abstenção chama atenção de um terapeuta forense, nosso
protagonista, que se torna obcecado em ajudar a fazê-la falar novamente.
As impressões iniciais quanto
a narrativa em primeira pessoa, deixam a sensação de que a condução informal da
personagem narradora é proposital e isso até agrada num primeiro momento. Mas
não demora para a trama deixar explicitado que está interessada em trocar a profundidade
psicológica pela velha engenharia de suspense. O narrador parece menos um
personagem complexo e mais um mero mecanismo narrativo.
O autor também perde a chance
de explorar um elemento que me parecia essencial e sugestivo em sua sinopse:
mergulhar a fundo nas relações humanas, especialmente traumas, obsessão e
transferência emocional. Mesmo sendo um terapeuta diante de uma paciente que
não fala, isso poderia ser trabalhado por meio de flashbacks, principalmente
quando o diário da paciente chega até sua posse. Há instantes em que isso
parece se anunciar, mas logo a condução retoma a simplificação para manter o
segredo funcionando até o grande final.
Percebi aqui um rascunho de
crítica ao uso da psicologia no romance. O livro usa a estética de trama
psicológico, mas em nenhum momento aprofunda essas nuances. Elas funcionam mais
como atmosfera sofisticada do que como investigação real da mente dos
personagens. Não nos deparamos com nenhum confronto filosófico, algo que me
pareceu outra perda de oportunidade.
Este recente formato de
produção literária, pautada no uso de capítulos curtos, diálogos diretos,
nenhuma imersão de personagens e o choque como motor principal, me incomoda
bastante. Há momentos em que tive a sensação de estar lendo algo repetitivo,
como se fosse um livro que já li antes, pois me parece que muitos autores contemporâneos
seguem essa mesma cartilha.
A personagem principal, o
terapeuta Theo Faber é outro problema: inicialmente se comporta como um
profissional entusiasmado, mas no decorrer da leitura deixa evidente seu imenso
despreparo como terapeuta. Então ele vai além: assumi a função de investigar o
crime cometido por sua paciente, o que logo nos faz perceber que ele também é
um investigador medíocre e desorientado.
Já a paciente do título,
Alicia Berenson, com seu silêncio criando uma aura de mistério, nos faz querer
saber quem é essa mulher e o que aconteceu. No entanto, essa ânsia do leitor se
sustenta até o instante em que ela resolve abrir a boca (com o perdão do
spoiler). Desse ponto em diante, ela se torna tão desinteressante quanto seu
terapeuta. As demais personagens que entram e saem da trama também não ajudam a
elevar a atmosfera, talvez por conta do método narrativo, que apenas relata os
acontecimentos, sem nos aproximar do material humano que cada um deles deveria
sustentar.
A PACIENTE SILENCIOSA é um thriller
de suspense que parece mais preocupado em conduzir sua narrativa para o grande
momento “surpresa” (tenho dificuldade com alguns termos inglês que andam infestando
nossa linguagem, como esse tal plot twist),
do que propriamente em contar uma boa história..., uma pena!
NOTA: 5,4

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