Ao longo da história do pensamento sempre houve um viés das ciências sociais em compreender problemas estruturais da sociedade, como desigualdade, poder, pobreza, conflitos geopolíticos. Desde Karl Marx até Max Webber, o interesse em inferir as estruturas e tensões coletivas nunca cessou, o olhar do pesquisador sempre voltado para o que há de mais pernicioso nos hábitos humanos. No entanto, eventos voltados para a alegria, como danças, festas ou ritos extáticos, estes sempre pareceram algo secundários, quase não científicos.
Pois eis que uma jornalista
americana resolveu colocar luz nesta face marginalizada do ser humano. Vejamos
o que ela descobriu:
DANÇANDO NAS RUAS – uma história
do êxtase coletivo, de Barbara Ehrenreich, tem como ponto
central uma análise sobre o ato ancestral de cultivar momentos de êxtase
coletivo em sociedades humanas, desde celebrações públicas, danças em grupo e
até festivais específicos, que criavam senso de pertencimento e igualdade. Eram
rituais que quebravam hierarquias e aproximavam indivíduos de forma intensa.
A coletividade é um aspecto
determinante da natureza humana. Ao longo da história, sempre que houveram
sociedades, conjuntamente houveram atividades coletivas, sejam elas festas,
danças, cerimonias e rituais, como forma de conexão entre indivíduos e, algumas
vezes, até mesmo de resistência.
A premissa mira na ideia de
que a alegria coletiva não é superficial, como é interpretado por sociedades
modernas, mas algo fundamental. Os momentos de dança, festa e êxtase em grupo
não são escapismos das agruras de se viver em sociedade, mas eles criam
pertencimento, dissolvem hierarquias e fazem as pessoas se sentirem parte de
algo maior. Isso sustenta um valor social e até psicológico enorme.
Ehrenreich argumenta que,
especialmente no ocidente moderno, essas experiências foram sendo reprimidas ou
controladas por instituições conservadoras como a Igreja, o Estado e até o
capitalismo. O objetivo era eliminar a suposta desordem e lascívia que
permeavam esses eventos.
Um aspecto interessante que a
obra analisa é o resultado desse rigor restritivo institucional sobre tais
eventos na vida contemporânea: atualmente a maior parte das formas de
celebração coletiva foram militarizadas (no sentido de dar a elas um formato
estritamente conservador e uniformizado), individualizadas ou comercializadas,
condições que reduziram, ou até extinguiram, o senso profundo de comunhão.
Atualmente, no lugar de confraternizarmos juntos, apenas consumimos
entretenimento.
A autora insiste na ideia de
que a alegria coletiva não é apenas uma questão de mera diversão, mas uma
necessidade humana básica, com potencial de influência política, o que
explicaria o interesse de extinguir esse aspecto de nossa cultura, por parte de
determinadas lideranças.
O livro evidencia a
dificuldade metodológica que surge ao se estudar estados de êxtase, emoção
intensa ou experiências corporais. Não é fácil medir ou descrever tais eventos
com ferramentas tradicionais. Mesmo estudos antropológicos, que fizeram
análises mais amplas, muitas vezes trataram esses momentos como meras
“curiosidades culturais”, não as tratando como fenômenos centrais de massas.
Outro fator abordado na obra é
o cultural: especificamente em sociedades ocidentais modernas, há uma
valorização exacerbada da racionalidade, do autocontrole e da produtividade.
Logo, estados de êxtase coletivo podem parecer irracionais, perigosos ou até
mesmo primitivos. Isso influencia o que pesquisadores atuais consideram como
sendo digno de estudo.
DANÇANDO NAS RUAS é uma
obra que toca num tema ignorado, e de forma provocadora nos faz um alerta: ao
substituir celebrações espontâneas por entretenimento passivo ou
comercializado, a sociedade acabou esvaziando essa experiência..., talvez
precisamos reconhecer que a necessidade de celebrar juntos, de “dançar nas
ruas”, não se trate de um ato de luxo, mas uma necessidade humana básica que,
ao longo dos séculos, foi sendo esquecida ou domesticada.
NOTA: 9,1

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