sábado, 20 de dezembro de 2025

RESENHA DE LIVRO – CILADA

Cada leitura que faço das obras de Harlan Coben aumenta minha admiração por sua capacidade de inserir diversas situações e personagens na mesma trama, e amarrar tudo de forma minuciosa, sem esquecer de responder a cada uma das muitas questões que nós, os apreensivos leitoras, levantamos ao longo da leitura.

CILADA só comprova essa regra. É um thriller de suspense, cuja narrativa cheia de reviravoltas impede que o leitor feche as páginas, até seu derradeiro final. O enredo discorre sobre o desaparecimento de uma jovem estudante, um assistente social acusado de pedofilia por uma jornalista que arma uma cilada que o joga num desses programas de auditório sensacionalista. O cara é inocentado por falta de provas, mas acaba assassinado em seguida. No meio disso, temos a repórter que perpetrou tudo e se tornou única testemunha do assassinato desse rapaz. Começa então, uma investigação da moça, cujo intento é descobrir se, de fato, desmascarou um criminoso ou se causou a morte de um homem inocente.

O enredo aqui é estruturado meio que de forma arquitetônica: o autor monta uma teia de acontecimentos em que cada pista, cada detalhe, aparentemente trivial, se revelará crucial adiante. O suspense não nasce da busca pelo culpado, mas sobre como as verdades se sobrepõem para depois se desfazerem. A condução é uma mistura de suspense policial clássico com drama humano contemporâneo.

Talvez esta seja a obra de Coben que escancara o circo despudorado da sociedade contemporânea que transforma tudo em espetáculo. A personagem principal, a jornalista Wendy Tynes, simboliza o poder e a responsabilidade ambígua das mídias; através de seu programa, Wendy acredita estar fazendo justiça ao expor criminosos, mas a trama levanta uma questão importante: será que a mídia jamais se equivoca?

Há um aspecto na história que me pareceu central: uma ferida emocional que guia sua protagonista por toda a história. No passado, um acidente ocasionado por uma jovem embriagada, resultou na morte do marido de Wendy. E isso não é citado por acaso. Harlan Coben desenvolve sua personagem sob um desejo inconsciente de reparação. Incapaz de perdoar o que lhe fizeram, ela passa a confundir justiça com vingança moral. O autor não menciona isso diretamente, mas deixa explicitado nas ações impetuosas de sua protagonista, na pressa em julgar o assistente social e na dificuldade em admitir a própria falibilidade.

Algo que me incomodou um pouco foi a ausência de profundidade emocional nas personagens. Talvez a condução vertiginosa, que é o ponto alto da obra, acabou por deixar o romance menos denso. Por exemplo, a vítima do assassinato, que poderia ser explorado como alguém trágico e multifacetado, acaba servindo apenas como uma mera peça do quebra-cabeça. Alguns diálogos também me pareceram pouco orgânicos, mas isso não chega a incomodar muito.

CILADA é um suspense envolvente que levanta questões importantes para nossa sociedade atual, mas não chega a ser uma obra memorável. O livro é um retrato da era da desconfiança; explicita que ninguém é o que parece ser; que verdades podem ser construídas ou desconstruídas e o problema da justiça como espetáculo social. Porém, acho que este é o trabalho de Harlan Coben mais rendido aos vícios da literatura moderna de consumo rápido: ritmo acelerado, múltiplas subtramas e certa superficialidade emocional das personagens.

NOTA: 7,6

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

CRÔNICA - A FILOSOFIA CLARICIANA

Ontem ao acordar, me deparei com uma barata no chão do banheiro. Quando me aproximei, ela começou a espernear de modo histérico, o que me fez esquecer a hipótese de que estivesse morta. Fiquei parado, diante daquele ser que sempre tive asco, observando seu desespero em desvirar para então fugir..., é inevitável: quando olho demais para esse inseto, minha memória se enche da leitura de um dos melhores livros que já li na vida: A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector.

Mas nunca pensei em esmagar a barata e provar de sua massa, como faz a protagonista na trama. Falta-me a coragem e destreza de G.H. Então, com a ponta do coturno, ajudei a intrusa a se desvirar e acompanhei sua fuga desesperada..., foi a primeira vez que deixei uma barata escapar com vida de minha casa.

Estava em silêncio, observava a barata, mas pensava na obra de Clarice e todo o seu conteúdo imersivo e filosófico por excelência.

Se estivesse viva, possivelmente a autora negaria qualquer similaridade com a filosofia, mas penso que a literatura de Clarice Lispector deve causar assombro em muito filósofo que se orgulha de seu ofício. Desse modo, talvez pudéssemos cometer uma branda transgressão aqui, classificando o conteúdo de sua obra como “pensamentos claricianos; a filosofia do indizível”.

Ler Clarice Lispector nos faz refletir sobre a existência de uma camada de realidade que escapa à linguagem, mas que ainda assim tenta ser dita. Quem já leu essa autora, sabe muito bem do que estou falando: Clarice nos toca sem pedir licença, ela é uma escritora que nos lê, não o contrário.

Porém, esse “indizível” não é uma mera abstração, mas uma força viva, que pulsa, incomoda e assusta. Ou seja, ela pensa a anterioridade do ser, como pensava Bergson “a intuição como acesso ao real”.

Talvez o ápice filosófico em toda sua bibliografia, esteja mesmo em A Paixão segundo G.H., na qual a protagonista passa por um processo violentíssimo de rompimento com a própria existência. Mas o que, propriamente, está sendo rompido?

Quem sabe a perda da humanidade entendida como distinta, a personagem referida apenas por suas iniciais G.H., percorre o caminho que remete à mística apofática, como menciona Eckhart e Sartre, com a ideia de que perder o eu é o primeiro passo para acessar a verdade do mundo. Quando sua protagonista, cuja jornada inteira ocorre dentro de um quarto de empregada, encara a barata esmagada, está diante do núcleo duro da existência. Aquele ser horroroso e banal, uma mera barata esmagada, vira o símbolo do real que não se deixa domesticar.

Este seria o escopo essencial da filosofia clariciana: G.H. percebe que a vida é indiferente, mas absoluta; que há uma unidade profunda em todas as formas de ser; que não existe hierarquia entre aquilo que é humano e o que não é; que o mundo é inteiramente feito de uma mesma matéria. Ou seja, estamos diante de um pensamento filosófico que não é, de maneira alguma, simples e fácil..., trata-se de uma filosofia de ruptura, de ferida, de excessos e de revelação quase divinatória. Em A Paixão segundo G.H., a epifania é uma experiência de sofrimento, de lucidez extrema. E após o asco, o medo e o desconforto, a revelação ocorre.

Poderíamos ainda dentro dessa mesma deliberação, mencionar outro aspecto que me parece interessante: Clarice trabalha toda sua construção narrativa se utilizando de um sagrado sem dogma, sem nenhuma teologia, apenas uma espiritualidade feita do choque com a matéria, como uma mística do banal: Deus como uma barata, no absoluto silêncio.

Por outro lado, a autora lida com sua ausência de intenção. Para Clarice, escrever é um ato perigoso, porque implica enfrentar a si mesmo. Ela escreve como quem caminha na beira de um abismo. Suas frases são instrumentos de escuta interior e tentativa de tocar o núcleo da realidade. Clarice filosofa com dedos ágeis em sua máquina de escrever, deixa de lado formalismos de tratados. Para Clarice, a realidade existe antes de qualquer nome, a palavra é sempre tardia. Esse real seria o núcleo duro, aquilo que G.H. identifica quando se depara com a barata: a vida em seu estado mais bruto. É um ato que nos oferece uma espécie de ontologia igualitária, pois o humano não é superior à barata ou a qualquer outro ser da natureza..., tudo é a mesma matéria viva.

Portanto, a identidade revela-se como ilusão. A sensação de “eu” é apenas um artefato, um arquétipo. O eu seria uma construção social, psicológica, uma máscara que esconde a verdade do ser. E a verdadeira experiência ontológica só ocorre quando houver uma ruptura, quando a máscara se quebrar..., nesse momento surge a desidentificação. A personagem G.H. diz: “Perdi a minha forma humana”.

Essa perda é necessária para que ela acesse o estado neutro. É o contrário do cogito cartesiano: o pensamento não fundaria o eu, mas o dissolveria. Contudo, é um encontro que exige aceitação da própria fragilidade, quando G.H. compreende que o outro absoluto é uma barata, fazendo o respeito ontológico se estender a todos os seres. Só então poderá haver uma transformação, pois toda transformação nasce da fratura.

Nessa hipotética filosofia clariciana, a verdade não estaria nas convenções sociais, mas naquilo que nos assusta. É uma teologia negativa, distante de qualquer transcendência ou moral. O sagrado estaria incutido naquilo que é repulsivo, bruto..., está em todos os animais.

E como se faz para conhecer esse sagrado? Pela intuição, pois para Clarice a racionalidade não capta aquilo que é essencial. É preciso ir ao extremo e causar a fratura do eu.

Seria preciso um desprendimento estoico para tal. Não é o meu caso, pelo menos ainda não. Deixei que a barata fugisse, assim como deixei escapar todas as chances de romper com meus egos, minhas fraquezas. A filosofia clariciana é um encontro com o que nos causa terror e estranheza…, e por hora sou a mera teoria escrita. Pois como nos ensinou a própria Clarice Lispector, a escrita é apenas um método epistemológico: um modo de tentar dizer o indizível.

 FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!