sábado, 24 de janeiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – TODOS OS NOMES

As obras de José Saramago parecem um convite a olharmos para aquilo de mais pequeno existente ao nosso redor, pois é lá que o essencial se esconde. O autor tem essa capacidade de partir de um ponto banal e transformar o cotidiano mais simples de suas personagens.

Em TODOS OS NOMES essa característica é ainda mais evidente: seu protagonista é um homem comum, invisível, alguém ignorado. Trabalha em escritório, vive sozinho, coleciona recorte de jornais…, pois justamente a partir dessa existência ordinária que Saramago constrói suas observações a respeito do ser humano.

A trama gira em torno do Sr. José, funcionário de uma espécie de cartório de registro civil, instituição burocrática que guarda registro de todos os vivos e mortos. O sr. José segue seus dias de forma automatizada e corriqueira, até que de modo acidental, cria interesse pelo registro de uma mulher desconhecida e decide investigar sua vida, rompendo a ordem institucional e mergulhando em uma jornada que mistura obsessão, identidade e transcendência.

O conhecido estilo narrativo do autor se faz presente nessa obra; uso de frases extensas, diálogos entrelaçados, pontuação confusa, meio que imitando um fluxo de consciência. O estilo aqui ganha em potencial, pois parece refletir o modo confuso e incerto de seu personagem. A prosa é, ao mesmo tempo, uma crítica com pitadas de filosofia. Contudo, sempre reforço cautela aos leitores que desconhecem o estilo saramaguiano, pois pode incomodar um pouco.

TODOS OS NOMES é uma obra alegórica por definição. Uma crítica à necessidade de buscar identidade dentro de uma sociedade impessoal e robotizada. Saramago denuncia o mundo contemporâneo que transforma vidas em registros, desafiando o leitor a refletir sobre a própria existência. O título do livro faz referência, mas propositalmente a única personagem detentora de nome próprio é seu protagonista. Todos os demais são identificados por substantivos.

O cartório é um bom exemplo dessa alienação social. É um órgão público, porém, assemelha-se a um labirinto metafísico, como se fosse um espaço entre a vida e a morte. A ficha da mulher desconhecida nas mãos do Sr. José é o símbolo do que se perdeu na humanidade: nosso herói parte de dados numéricos para ir em busca do ser humano de verdade. O cartório existe como uma instância cujo objetivo é reduzir o ser humano a algo que possa ser meramente registrado, arquivado, controlado.

Há um problema que tornou a leitura um pouco arrastada: o ritmo é lento, algo quase hipnótico, marcado pela busca incessante do personagem principal através do alongado interior do cartório, como se fosse um labirinto mesmo. Essa sensação de arrasto incomoda, mesmo para leitores que já conhecem o estilo prolixo do autor. Por exemplo, há encontros com outras personagens interessantes, como um pastor de ovelhas dentro de um cemitério, cujos diálogos parecem encurtados para que o Sr. José continue sua jornada exaustiva. Saramago não nos permite repousar na reflexão dos encontros entre personagens, prefere insistir no movimento da busca do protagonista, o que é uma pena. Talvez o cartório como metáfora do labirinto, não é apenas um cenário, mas a própria narrativa. Mesmo assim, confesso que em alguns momentos a leitura me fez bocejar.

TODOS OS NOMES é uma obra de grande densidade simbólica e filosófica, que transforma o cotidiano burocrático de um homem em uma jornada de reflexão sobre identidade, solidão e o apagamento da individualidade dos seres humanos. A leitura pode ser exigente e um pouco cansativa, mas por sua premissa singular, vale a pena a travessia do labirinto simbólico articulado por outro José, o nosso eterno Saramago.

NOTA: 6,9

sábado, 10 de janeiro de 2026

RESENHA DE LIVRO – TODOS CONTRA TODOS – o ódio nosso de cada dia

Em tempos onde o ego humano se tornou objeto explorado a todo custo em nome do lucro, da vaidade moral como força política e cultural, o historiador Leandro Karnal meio que parte da ideia hobbesiana de que o homem é o lobo do homem, atualizando nesta obra introdutória sobre o tema, o conceito para o universo contemporâneo.

Em TODOS CONTRA TODOS, o autor faz uma breve mescla filosófica, histórica e sociológica sobre o fenômeno da polarização nos dias atuais. O título, inclusive, antecipa esta que é a ideia central: estamos inseridos num tempo em que a convivência se tornou insustentável porque cada grupo enxerga o outro não como interlocutor, mas como um inimigo.

Para Karnal, a grande mudança do nosso tempo é que o conflito saiu da esfera do físico ou econômico, tornando-se moral e simbólico. A luta atual seria por validação individual, pela superioridade moral, cada um de nós se sustenta no espaço social como régua de medida do equilibrado e aceitável. O outro é sempre algo ruim, desfuncional e injusto. Criamos bolhas nas quais temos apenas convivência com aquele que pensa igual, demonizamos assim, todo pensamento diferente.

O autor faz uma provocação pertinente: nunca se falou tanto sobre moralidade, porém, nunca se viveu tão pouco a ética. Segundo ele, a moral teria se tornado instrumento de autopromoção, e não de conduta; cada um de nós tenta exibir “o lado certo da história”, mas pouco se reflete sobre o propósito de se defender certas pautas. É uma crise ética revelada quando confundimos virtude com visibilidade. Em tempos de excesso de informação e fragmentação cultural, cada indivíduo atua como juiz e profeta de si mesmo, gerando um relativismo nocivo.

O ser humano sobreviveu como espécie graças à cooperação, pois se trata de criatura desprovida de habilidades fundamentais de subsistência, como couraça, capacidade de voar, garras afiadas, porte físico elevado ou velocidade. Na natureza, o ser humano é praticamente o mamífero mais vulnerável da categoria. Portanto, foi a vida em comunidade e o cuidado mútuo, a transmissão de saberes despendido pela espécie humana, os elementos que possibilitaram nossa sobrevivência dentro de um mundo hostil.

E o grande paradoxo de nossa sociedade contemporânea, é que quanto mais conectados estamos (graças à internet), mais isolados nos tornamos. A lógica do “todos contra todos” inverte a nossa natureza cooperativa; o ser humano transformou os espaços de convivência em campos de batalha moral. Karnal chama isso de falência da alteridade, ou seja, a perda da capacidade de reconhecer o outro como alguém legítimo em sua diferença. Quando a empatia se rompe, surge o medo, o ressentimento e, finalmente, o ódio.

Um ponto que me incomodou é que a obra carrega uma sensação de condensação excessiva, como se fosse uma versão escrita de uma das muitas palestras do autor. O texto tem ritmo oral e fluente, o que ajuda a prender o leitor, mas parece sacrificar a densidade analítica. Leandro Karnal faz um alerta para os perigos da superficialidade e o consumo instantâneo, mas parece que é precisamente o que ele faz aqui. Há também instantes em que utiliza algum sarcasmo e um pouco de humor os quais são característicos em suas palestras, mas no contexto escrito pode dificultar a leitura de quem não está familiarizado com o conteúdo visual do autor.

Enfim, TODOS CONTRA TODOS funciona melhor se encarado como uma introdução acessível ao tema do ódio e da polarização, e não como um tratado filosófico ou sociológico. E apesar de eu terminar a leitura com a sensação de que se trata de uma obra menor do que a capacidade intelectual de seu autor, trata-se de um trabalho que não pretende ser o mapa definitivo de sua pauta, mas um convite ao leitor que deseja começar a explorar o tema do ódio.

NOTA: 7,8