sábado, 22 de agosto de 2015

CRÔNICA: MATÉRIA DESCARTÁVEL


Sou acordado pelo ruído familiar do despertador. O som faz com que eu me lembre de que já são 08h30min de uma nova manhã de domingo. Ainda com os olhos fechados, apalpo a lateral direita, à procura do banquinho improvisado como criado-mudo, onde vibra o celular inquieto. Meus dedos só encontram uma protuberância retangular e elevada, forrada com tecido grosso. O toque inesperado me faz recordar que não estou dormindo no meu quarto, mas sim, no sofá-cama da sala. Agora sei onde desativar o alarme do celular, que se encontra um pouco mais acima, precisamente na mureta da sala.

A situação também me faz lembrar de que não durmo sozinho, mas dividindo a colcha king size com outro corpo que se abriga do friozinho matinal. Meu tronco se vira para o lado e eu fico de frente para ela, afundada até o topo da cabeça. Vejo apenas algumas mechas de cabelos loiros, transbordando para fora da colcha.

A constatação daquele ser me causa constrangimento. Não pela pouca familiaridade em estar aconchegado ao lado de uma bela mulher, mas talvez por estar vivenciando o resultado de atitudes impetuosas, ao meu lado uma aventura que deveria ter chegado ao fim horas atrás.

Eu me levanto e ando pela casa. Tudo me parece confuso, desconexo.

Vou até o banheiro. Sirvo-me da privada. Sirvo-me da pia.

Meu rosto, no reflexo do espelho não condiz com a previsão que eu tinha dele. E no lugar do que deveria ser feições de satisfação por uma noite de sexo recém-vivida, eu só vejo resquícios de tédio e desorientação. Esfrego a face com as mãos cheias de sabonete, numa tentativa de apagar traços de um evidente desprezo. Mas concluo que ostento uma realidade absoluta demais para ser desfeita por algo tão ineficaz quanto sabonete líquido... Não sei como esfregar a verdade até ela se transformar em cumplicidade.

Vou até a cozinha... Preparo um café.

Na sala, vejo o rosto amarrotado dela, finalmente emergido da colcha. Espreguiça-se demoradamente, depois olha pra mim e sorri, timidamente. Admito que é um sorriso meigo e cheio de ternura... quase sublime.

Sinto-me na obrigação de perguntar e ela diz que teve uma ótima noite de sono. Ela não devolve a mesma pergunta, mas acho que é melhor assim, pois certamente não iria gostar da resposta. Se é que eu teria coragem de dizer exatamente o que se passava em minha mente.

Um estímulo interno, que apontava para o fato de que a recente noite de sexo fez com que eu me tornasse um ser totalmente liberto das necessidades do corpo. Porém, eu continuava um completo miserável no que se refere a recursos que enriquecem a alma.

Não, ela não poderia ser condenada por isso... Talvez também me achasse fútil e dissimulado; apenas um objeto fálico e descartável, que apenas serviu para aplacar momentaneamente seus impulsos lascivos. E eu desejava que assim ela estivesse pensando, pois dessa forma minha mente poderia continuar censurando sua insignificância, sem que a culpa me torturasse.

Não se trata de uma manhã romântica, mas sim, confusa, na qual dois seres estranhos estudam as conexões primordiais um do outro, com elevada cautela, no intuito de parecermo-nos o menos excêntrico possível. E no meio desta insistente exibição de normalidade fingida, eu não me lembro de levar o café para ela na cama.

Aliás, eu não preciso fazer isso. Afinal, não é uma manhã romântica. É uma manhã confusa... E em manhãs confusas não precisamos levar café para ninguém. Além disso, eu não sei como ela gosta do café; eu não sei se ela gosta de café; eu não sei se ela gosta do cheiro do café; eu não sei se ela gostará do meu café; eu não sei...

Ela não diz absolutamente nada. Como alguém que é plenamente acostumada ao desprezo daquele com quem dividiu a cama, ela se levanta, vai até o banheiro e fecha a porta. E sem esperar por ela, eu me sento à bancada e inicio meu dejejum.

Sirvo-me de pão, biscoito, leite... Quero repor parte das energias que perdi com o sexo, num eterno ciclo de renovação de energia para posteriormente ser gasta com cópulas frívolas.

Ouço os sons abafados que vem do banheiro. Ela se serve de chuveiro, sabonete, creme dental... Livra-se de todos os vestígios meus que ficaram em seu corpo.

Quando a porta se abre, noto que ela está mais bela. Parece aliviada por ter se livrado do meu cheiro; como quem odeia estar impregnada com a essência da matéria descartável.

Descubro que sim, ela gosta de café. Também testemunho que a bebida, quando não está aos seus auspícios, lhe desperta a franqueza. Está fraco demais o seu café, é o que diz... Eu respondo que gosto de café fraco.

Isso resume toda a conversa que tivemos ao longo do café da manhã.

Depois ela arruma suas coisas na bolsa, enquanto eu desfaço o sofá-cama, transformo o quarto improvisado em sala novamente.

Ela comunica que precisa ir embora. Noto certa aflição em seu comportamento; parece ávida por fugir logo de minha casa, de minha presença. Igualmente sou acometido por um alívio crescente, após escutar tal anunciação.

Somos dois espectadores de nossa crueza. Talvez por isso nossa presença incomode tanto. Não gostamos de ser observados por alguém que sabe de nossa recíproca necessidade em usar outro ser humano. Tememos o olhar condenador daquele que aprendeu a reconhecer que somos nada mais do que buscadores da saciedade concupiscente.

Ela sai pelo portão... Não olha pra trás.

Eu o fecho e dou duas voltas na chave... Como se temesse que apenas uma volta fosse insuficiente.

Faremos isso de novo? Provavelmente...

Mas não será com ela, assim como ela não buscará por mim. Porque somos assim: nacos de carne descontrolados e excessivos; gananciosos que buscam suprir as próprias necessidades... Somos apenas Matéria descartável.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

RESENHA DE LIVRO – IVAN VÊ O MUNDO


Pela internet só o que se encontra é elogios inflados ao autor deste livro. E embora os méritos possam ser, de fato, dignos de sua majestade Ivan Lessa, vai aqui uma opinião, digamos, um pouco fora do conceito coletivo.

A leitura desta compilação, feita pela jornalista Helena Carone, teria sido um pouco mais agradável, caso o autor não parecesse tão entediado; sensação que tive em quase todos os textos reunidos nesta obra, intitulada IVAN VÊ O MUNDO. Esta é minha primeira experiência nos textos deste autor, portanto, não sei dizer se são marcas registradas de suas crônicas seguir sempre numa linha narrativa que oscila entre o enfado e o ordinário. Achei que a condução literária, embora detentora de uma linguagem inteligente, não consegue cativar em nenhum momento e o autor não parece fazer muita questão disso.

Outro aspecto relevante fica com os breves instantes de teor cômico intencional, que salpicam alguns textos. Mas na realidade estes momentos me soaram como anedotas remotas e que talvez tenham feito rir na década de 50. Só que o teor do contexto novamente parece não se preocupar se elas causam este efeito nos leitores. Como se fossem textos escritos intrinsecamente para não serem lidos, ou mesmo sem nenhuma premissa de agradar a quem lê.

Instantes bons da obra ficam por conta de um toque satírico que muitas vezes funciona. Como se Ivan fosse uma espécie de libertário que escreve com a premissa de tentar nos confundir. E os últimos textos narram sequencias de viagens, as quais o autor nos relata tudo o que viu e o que vê; com detalhes ricos e ágeis, percorrendo por cidades como Lisboa, Paris, Viena e outras... Do meu ponto de vista, este foi os melhores instantes da obra. É gostoso poder conhecer regiões europeias através da ótica de um autor que sabe enriquecer seus textos com detalhes que nos instiga a imaginação.

Ivan Lessa nasceu em São Paulo, cresceu no Rio de Janeiro e se mudou para Londres, onde viveu por mais de duas décadas, colaborando para a BBC londrina. Ele morreu em junho de 2012. Entre muitos trabalhos, o autor também colaborava com publicações brasileiras, nas revistas Playboy e Piauí, e foi um dos fundadores do extinto jornal “O Pasquim”. Autor de quatro obras, este IVAN VÊ O MUNDO é seu segundo volume, publicado originalmente em 1999.

Não vou cometer o disparate de afirmar que esta coletânea de crônicas seja ruim, até porque eu mesmo não sei bem ao certo o que dizer sobre a obra. Mas talvez o que possa ser ressaltado é que Ivan Lessa é um cronista um pouco diferente do que estou acostumado a ler. E embora seja sempre bom visitar o novo, satisfação nem sempre é algo garantido dentro dessa premissa. IVAN VÊ O MUNDO é um livro de crônicas que não me agradou, mas que está longe de ser desprezível... E talvez o que me falte seja um pouco mais de experiência como leitor... Sim, pois pode ser que eu não esteja preparado para invadir o universo dos veteranos da literatura, ou simplesmente ainda não consegui enxergar com os olhos do velho Ivan.

sábado, 8 de agosto de 2015

RESENHA DE LIVRO – OS PRISIONEIROS


Se assim como eu, você for um amante de contos, então vai uma previsão assertiva: tornar-nos-emos prisioneiros deste livro, quase ao ponto de alça-lo a condição de livro de cabeceira. Rubem Fonseca é um escritor estupendo, e sua obra digna de adjetivos distintos: vibrante, desconcertante, realista, surrealista, coerente, abstruso, cruel, deliciosa...

Poderia continuar com as atribuições, mas talvez seja um ato desnecessário e infinito. Por que eu começo esta resenha rasgando elogios á este Os Prisioneiros? Bem, talvez a melhor resposta seja dada a você, por meio do simples ato de ler a obra.

Neste trabalho maravilhoso nos deparamos com um vasto universo de personagens imaginários, onde o mestre Rubem Fonseca nos mostra toda sua maestria em construir diálogos e equilibrar a condução literária. Difícil é identificar o melhor conto desta coletânea. Só a título de exemplo, eu citaria “Teoria do Consumo Conspícuo”, belo trabalho dotado de um viés misterioso e até um pouco mórbido, e meio como uma cereja no topo do glacê, ela termina com um final inusitado.

O autor é munido de talento inquietante, ou melhor dizendo, este se mostrou capaz de narrar a inquietação decorrente do ser humano. Sua condução textual é composta por uma crueza de linguagem que nos exterioriza de forma quase palpável.

É sempre muito bom descobrir grandes autores, como fiz ao ler, pela primeira vez, o sr. Rubem Fonseca, embora seja dolorosa a realidade de se estar lendo algo que em muito breve chegará ao seu final, uma vez que, a literatura ideal é aquela em que degustamos devagar, temendo o seu término. O consolo ficaria na realidade de podermos rele-lo e, com este gesto meio amplificador, fazer deste Os Prisioneiros, aquele bom e velho livro de cabeceira. Só os amantes de livros entenderão o que quero dizer com isso.

Outro ponto que me soa confessional é a realidade de se estar diante de um gênio da literatura, o que inevitavelmente contrasta com a minha pequenez. E para este caso, aqueles que têm o hábito de escrever saberão do que estou falando.

Nascido em Juiz de Fora, no ano de 1925, Rubem Fonseca teve uma existência, eu diria, um tanto variada; foi office boy, escriturário, nadador, ajudante de mágico, revisor de jornal, comissário de polícia... Até que se formou em direito, virou professor da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas e, por fim, executivo da Light do Rio de Janeiro. Mas sua melhor contribuição a este país certamente foi como escritor, talento que só foi descoberto em 1960, com duas publicações de sua autoria para as revistas O Cruzeiro e Senhor. Os Prisioneiros é sua primeira coletânea de contos, que logo foi reconhecida pela crítica nacional como a mais criativa obra da literatura brasileira em décadas.

Sem nenhuma demagogia posso dizer que sou um leitor privilegiado, por ter tido a chance de conhecer mais este mestre da nossa literatura; um audacioso em incisivo cronista, que de fato, nos entregou esta obra genial, cujo título premonitório, fez deste leitor, mais um prisioneiro de sua brilhante ficção urbanista. O título Os Prisioneiros certamente deve referir-se á nós, porque não há outra condição para aqueles que se atreverem á viajar por esta deliciosa coletânea de contos.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

RESENHA DE LIVRO: A VIDA QUE VALE A PENA SER VIVIDA


Não se deixe enganar pelo título com cara de autoajuda desta obra. Fórmulas prontas ou qualquer direcionamento que lhe garanta a obtenção de soluções imediatas, que supostamente lhe ocorreu ao ler a capa, é o que menos você encontrará neste volume. Os próprios Clovis de Barros Filho e Arthur Meucci, autores da obra, fazem questão de deixar isso bem claro, já no início da leitura. Nas próprias palavras deles:

“... Saiba que você está equivocado. Este livro não atende às suas expectativas. Sua leitura não trará soluções. Nele você não encontrará nenhuma dica ou artifício para se dar bem. Por ele, o sucesso continuará dos outros, fora do seu alcance”.

E os professores não estão mesmo mentindo. Acho até que a leitura deste livro deixará você com mais dúvidas do que tinha antes de se atrever a viajar através de suas páginas. Talvez o título sugestivo seja mero golpe de marketing. Não à toa, este trabalho, filosófico por excelência, costuma ser encontrado em livrarias, justamente na seção de autoajuda, a qual a obra tanto ataca e condena.

Portanto, se sua intenção for encontrar respostas tirânicas, que impõe o que você precisa fazer para alcançar a vida boa, esqueça. Outros títulos certamente atenderão melhor sua necessidade pragmática. Porque frente à constante incerteza que se agiganta em nossas vidas, costumamos achar mais fácil obter garantias formuladas minuciosamente no sentido de direção, seja ideologias políticas ou mesmo a literatura de autoajuda.

Mas aqui a viagem é na contramão das certezas incontestáveis. Aqui temos conteúdo filosófico, escrito por professores de filosofia, que se consideram inimigos jurados da metodologia moderna que alega existir meios irrefutáveis de excelência existencial capaz de servir para qualquer pessoa.
Este livro, simplesmente fascinante de ser lido e relido, não se reduz, apenas, a uma simples tabela metodológica. Possui amplo conteúdo teórico com base no pensamento de grandes filósofos da história da humanidade, os quais podemos nos servir, e a partir desta leitura, ir mais à fundo naquelas ideias que mais nos agradem.

A título de conteúdo, Clovis de Barros, ao longo de toda obra, traz de maneira leve e ensaística, passagens com tonalidade prosaicas. Temos então, um agradável livro de filosofia, que segue uma linha de raciocínio facilitado e que tenta trazer reflexões de acordo com aquilo que poderia ser as dúvidas dos leitores. Como se estivéssemos assistindo a uma aula do professor.

E pra ficar ainda mais interessante a leitura deste livro, eu recomendo que você assista também à palestra de mesmo título, que pode ser facilmente encontrada no Youtube ou no Espaço Ética, o site do professor. É claro que o livro é bem mais rico em conteúdo, mas creio que as chances de você se tornar um buscador dos ensinamentos deste, que considero um dos homens mais inteligentes desse país, seja grande. Clóvis de Barros Filho é um sujeito dotado de didática fácil; que sabe tornar conteúdos eruditos em ensinamentos simples, como se estivéssemos papeando em um bar.

É leitura obrigatória para qualquer amante de filosofia. E para aqueles que se interessam pela disciplina, mas que olham com desconfiança para este caminho aparentemente intrincado e cheio de gente culta, este livro certamente será sua porta de entrada para o mundo da filosofia. Além de ser um excelente indicador de que a Vida que Vale à Pena Ser Vivida é exatamente esta que você desfruta, neste exato instante.

domingo, 26 de julho de 2015

HOMENAGEM: O FIM DA JORNADA?


O grande filósofo Aristóteles nos deu uma definição fantástica sobre o sentido da palavra amizade. Segundo o pensador grego, “A amizade é uma alma com dois corpos”.

Embora esta ideia nos pareça imaculada demais pra ser enriquecida, ainda assim, eu gostaria de circunstanciar, nesta breve reflexão, que ao longo de muitos séculos, houve um progresso na ideia deste grande filósofo.

E essa evolução aconteceu aqui, dentro dessa sala de aula.

Era uma sexta-feira treze de abril, do ano de 2012. Nunca tive crendices supersticiosas, mas aquela foi uma trágica sexta-feira 13 em minha vida. Durante uma despretensiosa pelada com os amigos do trabalho, eu me acidentei seriamente e precisei fazer uma cirurgia complicada. E entre muitas medidas que precisei tomar por conta disso, uma delas foi o meu afastamento do curso de inglês por quase um ano.

Mas a vida é mesmo uma estrada indecifrável, e as consequências daquele acidente, que só pareciam destinadas a frear minha vida, me conduziram até uma nova turminha do CCAA. Turma esta, a qual eu conhecia apenas a professora Maísa.

De início, a relação era de extrema cautela; de um lado, havia eu tentando me afeiçoar com aqueles desconhecidos rostos. E do outro, a maioria deles buscando entender quem era aquele estranho novato, que usava roupas pretas e cabelos compridos.

E a reciprocidade veio aos poucos. Até porque não poderia ter sido diferente; tínhamos apenas um encontro semanal onde o único instante em que havia a possibilidade de nos relacionar, era durante o intervalo da aula. Bom, dentro da sala a gente até poderia tentar, mas a Maísa nos obrigava a fazê-lo em inglês, o que para nós era praticamente impossível.

O tempo foi avançando e as noites de quartas se transformando em encontros cada vez mais familiares, entre alunos intencionados a se tornar bilíngues. Galgamos cada semestre, numa briga incessante por compreender um inglês que nos soava escapadiço; éramos um amontoado de mentes travadas, olhares receosos e línguas presas... Bom, talvez não para o Silvério, com sua audição sempre aguçada e uma pronúncia irritantemente impecável.

Mas o que aqueles contínuos encontros não nos deixavam notar era o quanto levávamos nosso intrincado progresso com respeito, harmonia, serenidade e compreensão um pelo outro. Até chegarmos ao auge dessa virtude coletiva, quando estávamos diante das deliberações de nossa formatura, e mesmo frente a condições contraditórias que nos foram impostas, nossa turma, consolidada e forte de união, optou por ficar junta. Mesmo isso implicando em não fazermos parte dos festejos de encerramento.

Ora, meus amigos, se estes não são resquícios da construção de um grupo forte e afetuoso, sinceramente eu não sei o que mais poderia ser.

Dessa nossa harmonia evolutiva, só abandonou o barco aqueles que não se viram encaixados; os que se sentiram desconexos, ou simplesmente não olhavam para o nosso grupo como prioridade... Portanto, temos aqui, nesta reta final da jornada, o molde concluído de uma turma que aprendeu a se gostar e se respeitar... E acreditem: não seria melhor se fosse com outros alunos. E de jeito nenhum este seleto grupo altruísta existiria se faltasse você, Florinda, Isabelle, Heitor, Lara, Luiz, Maísa, Marcus, Natália, Scarlat, Silvério.

Despeço-me aqui, tomado por certo pesar por estarmos no fim de nossas aventuras de quartas-feiras. Mas e quem disse que tinha de ser pra sempre, né? Afinal, tudo aquilo que nunca se acaba, acaba perdendo a graça e a notoriedade... De mim, sairei pela última vez por essa porta, um sujeito melhor do que quando entrei, pois aprendi a me sentir parte deste bando de aspirantes da língua universal. Sim, pois mais do que aprender uma língua, eu levo comigo valiosas lições de companheirismo e apreço.

Mas espera um pouco aí: e quanto a Aristóteles? O que a frase no início do texto tem á ver com tudo isso?

Bem, se um dia o velho pensador nos disse que a amizade é uma alma com dois corpos, acho que a adorável relação desta nossa turma de inglês conseguiu, ao longo desses dois anos e meio, provar que a amizade pode ir além. Porque nos tornamos diversidade harmoniosa; o caos decifrado... Sim, eu acho que hoje nos tornamos uma alma com onze corpos.


***
(Esta é uma singela homenagem à todos os meus colegas que se formaram comigo na última quarta-feira, dia 22/07/215)

sábado, 18 de julho de 2015

RESENHA DE LIVRO – O DIÁRIO DE ANNE FRANK – Edição Definitiva


A vantagem de se ter o blog menos lido do mundo, como é o caso deste, é que jamais serei apedrejado por expressar minha opinião. E esta opinião vai justamente à contramão da crítica comum sobre o DIÁRIO DE ANNE FRANK, porque este livro é unanimidade de aprovação entre leitores de qualquer língua que fora contemplada com a tradução desta obra. Realidade que se mostra claramente em seu preço de venda, sempre tão exorbitante. Mas eu achei a leitura deste O DIÁRIO DE ANNE FRANK cansativa e entediante. Contudo, creio que o problema não seja da pequena autora, a própria Anne Frank, que narrou em seu diário os difíceis dias vividos em confinamento, para escapar da truculência nazista. A questão aqui é que estamos lidando justamente com um diário, e como não poderia ser diferente, é o relato cotidiano de pessoas que vivem presas num pequeno espaço, onde suas vidas estão limitadas, deixando claro que não há muito para se narrar sobre essa sobrevivência, além da constante busca por superar mais um dia.

A edição de que fala esta resenha trás na integra o diário de Anne, contendo agora, todos os trechos que foram cortados ou editados por seu pai, quando da primeira publicação, feito em 1947. Mas achei que os trechos retirados, que na época foram considerados inadequados, hoje praticamente passam despercebidos, frente ao seu conteúdo corriqueiro.

Na internet, eu leio muita gente afirmar que este livro é um relato histórico riquíssimo como poucos o são. Mas do meu ponto de vista, o livro é apenas um diário, com poucas passagens narrativas dos acontecimentos ao redor do mundo na época. Até porque tudo o que a família Frank sabia, era o que as pessoas de fora lhes relatavam, ou através dos noticiários, que acompanhavam por um rádio velho.

A maior parte do livro são relatos de uma garota adolescente, tendo que enfrentar os conflitos comuns desta fase da vida, e os constantes confrontos entre as pessoas que junto com ela estiveram enclausuradas; óbvias discórdias que certamente acontece quando se vive confinado em pequeno espaço, providos de pouquíssimos recursos, e que precisa ser dividido por muitas pessoas.

Eu me pergunto se O DIÁRIO DE ANNE FRANK seria esse sucesso estrondoso, caso ela, Anne Frank, não tivesse sua vida abreviada no holocausto. Será mesmo que este livro causaria tanta comoção, se Anne e sua família tivessem conseguido escapar ilesos do nazismo? Sinceramente eu acho que não.

Novamente afirmo que Anne Frank não é culpada pelo conteúdo insosso deste volume. O fato é que não há muito que se narrar no cotidiano de pessoas que estão escondidas, além das dificuldades como escassez, conflitos entre indivíduos, o tédio constante, e claro, os problemas existenciais enfrentados pela narradora adolescente.

Apesar disso, Anne Frank sabe escrever muito bem, para alguém com pouca idade. Ela narra de maneira coerente, é corajosa quando precisa confessar suas particularidades e não se importa em expor tudo para Kitty, nome que ela deu ao seu diário.

É chocante o que aconteceu naqueles tempos, e começar a leitura sabendo da dolorosa realidade, pode causar certo desconforto. Anne e quase todos que estavam no anexo secreto, são mortas pela barbárie nazista. E talvez a maior lição que este livro possa deixar é a lembrança de que o preconceito é a mais terrível e destrutiva ideia já criada pela mente humana.

Relato histórico ou não, acho que isso não importa. Só espero que jamais cesse a vergonha de nossa maledicência destrutiva, que tirou precocemente do mundo, esta garotinha inteligente e simpática, chamada Anne Frank.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

CRÔNICA: UMA SEMENTINHA DE ROCK PLANTADA NA INFÂNCIA


A primeira influência de rock que recebi na vida aconteceu da forma mais inusitada possível. Pois minha querida mãe, que costuma se referir ao meu repertório musical como “aquelas suas músicas doidonas” foi quem despertou este inconveniente cronista que voz escreve.

Foi num natal da década de oitenta, a minha Velha havia ganhado um vinil do John Lennon do meu pai, porque ela gostava da canção Imagine. Eu devia ter meus oito, nove anos de idade. E muito mais do que Imagine, eu curti de cara o disco inteiro. John era a trilha sonora de minhas manhãs semanais, enquanto eu ajudava mamãe com as tarefas do lar. Escutava tanto aquele Bolachão, que aprendi a cantar junto todas as canções. O inglês imaginário de menino e os solos devidamente destilados com os dedos deslizando através do cabo da vassoura.

Acho que minha mãe nunca notou o tamanho da encrenca que ela estava cultivando dentro de sua própria casa. Mas talvez hoje ela saiba reconhecer, quando olha pra mim dentro de casa, escutando minhas “músicas doidonas”, em volume digno de instigar a discórdia em toda vizinhança, que sou consequência de seu desejo; sou fruto de seu inofensivo anseio por uma música. Vejo em seu olhar de aquiescência o quanto ela compreende ter culpa daquele som de gente louca, escutado quase sempre com o volume até o talo.

Desde aqueles tempos, com a vassoura nas mãos, imitando John no meio da sala, o rock and roll se tornou o maior refúgio para minhas escapadas deste nosso mundo truculento e tirânico. Como se aquele pacto entre mamãe e Imagine tivesse depositado uma semente em meu ser. Que foi sendo regada ao longo dos anos, e hoje se enraizou profundamente em minha alma. Posso garantir que minhas músicas continuam sendo minha válvula de escape infalível, nos dias de tédio ou estresse. Não importa o ritmo, isso vai de acordo com a necessidade. Há dias em que uma baladinha bem light já serve para aliviar; outras vezes é preciso uma dose letal, então o gutural extremo se faz necessário. Desde as remansadas notas de Pearl Jam, até os graves infernais de Behemoth, minhas músicas e eu temos uma relação de religiosidade quase divina.

Outrora, eu poderia citar aqui outras fontes de descontração. Seria capaz de dizer que uma mesa de bar com uma cerveja gelada, futebol rolando na TV, e alguns chegados pra jogar conversa fora, ajudaria muito a matar o estresse. Mas atualmente o futebol parece ter se tornado uma instituição interessada apenas em proporcionar alegria aos cartolas e dirigentes. Quanto aos amigos, bem, estes ainda aparecem lá no bar quando lhes parece conveniente, mas talvez até eles já perceberam que o ambiente não tem mais tanto sentido, frente á um esporte que nos parece fruto de profunda desconfiança.

Escrever também poderia ser cogitado como santo remédio para os dias de trevas. Só que no meu caso, é impossível conseguir ir pra frente do computador quando não estou de bem com o mundo. Escrever é sim, uma atividade que preenche minha alma com extrema facilidade. Mas ela não cura os males da mesma. Porque para conseguir escrever, é preciso que antes eu esteja em plena paz e harmonia com o meu ser. Tristeza, melancolia ou languidez não são problemas pra mim. Ás vezes até me ajudam na composição textual. Contudo, tédio, raiva ou estresse são condições que só consigo curar ouvindo um bom rock and roll.

Imagino que os berros e estrondos destrutivos de muitas bandas que curto atualmente, pouco ou nada tem á ver com a melodia precisa de John Lennon e sua fabulosa Imagine. O fato é que o mundo, mudando sempre como não poderia deixar de ser, continua produzindo Rock de boa qualidade; de todos os tipos e para todas as tribos. E para aquela turminha careta que carrega consigo a velha ideia de que o Rock está morto, vai um recado: Talvez esteja na hora de abrir os ouvidos para o novo e o diferente, seus enviuvados nostálgicos, que vivem com suas mentes aprisionadas numa época que não existe mais. Procurem aprender o hoje, escutem tudo o que lhes pareçam novo; disponham de tempo e garimpem neste vasto universo chamado Rock And Roll. Tenho certeza de que conseguirão encontrar música aos seus auspícios, desde que vocês se comprometam a deixar de lado o ego irredutível de repetir que somente em longínqua época é que se fazia música de qualidade.

Mas se ainda assim continuarem odiando a atualidade do nosso querido Metal, então talvez seja melhor vocês irem ao bar curtir um futebolzinho; aquela instituição que foi privatizada para gozo de alguns canalhas, onde o grito de gol entalou numa goela que adorava cantar John com uma vassoura em punhos.

domingo, 5 de julho de 2015

CRÔNICA: DESEJO & VAIDADE


“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Geração vai e geração vem, mas a terra sempre permanece. Toda palavra é enfadonha, ninguém é capaz de explica-la. O olho não se sacia de ver, o ouvido não se farta de ouvir. O que foi será, e o que se fez, se tornará a fazer. Nada há de novo debaixo do sol”.
                                                                                            (Livro do Eclesiastes 1:2)

“Em última análise, ama-se o nosso desejo, e não o objeto desejado”.
                                                                                             (Friedrich Nietzsche)


Em síntese, desejo é a pura vontade de se obter algo; é a cobiça, a aspiração. Alguns pensadores pós-modernos atribuem o avanço da humanidade em todos seus aspectos, a um forte desejo intrínseco do ser humano. Sim, porque talvez a ausência da cobiça nos conduza a um lugar perigoso chamado tranquilidade. Pessoas desprovidas de desejos podem cair numa tediosa zona de conforto.

A autoajuda gosta de definir o puro desejo como condição essencial para a obtenção de conquistas, sejam elas quais forem. Diz este conceito, contraditório filosoficamente, que desejar com intensidade é tudo o que precisa acontecer para que se obtenha o fruto de tal aspiração...

No entanto, Maquiavel nos recomendaria cautela, pois a aproximação da realização de um desejo causaria elevação da ambição pelo mesmo. E desse modo, tal proximidade também eleva a dor do ambicioso, caso ele não conquiste o objeto de seu desejo.

Porque desejo, puramente válido por si pode ser algo perigoso, pois instigaria o vício.

Pra dar um exemplo da maledicência do desejo puro, usarei minha própria experiência de vida: desde a infância sou apaixonado pelos jogos eletrônicos. Antes mesmo dos livros se tornarem o preenchimento do meu vazio existencial, os games já desempenhavam esta função. Tanto é elevado esse amor platônico, que comprei um Super Nintendo aos doze, com o meu primeiro salário de trabalhador; console que na época era a plataforma mais badalada. E um fato que todo amante de videogames sabe muito bem, é que adquirir produtos originais aqui no Brasil é bem caro. E ao entramos na era moderna do admirável Playstation 3, embora eu já não possuísse mais tanto encantamento pelos jogos, ou pelo menos não dispunha de muito tempo para jogar, ainda assim, continuo gastando horrores com eles. E o pior: atualmente eu tenho bem mais poder de compra, se comparado aos meus tempos de adolescente. Dessa forma, mesmo ciente do abrandamento de minha paixão efetiva, algo nunca diminuiu em meu ser: o desejo de adquirir novos jogos. E do mesmo modo que fazia quando era um entusiasmado jogador, ainda continuo sentindo forte anseio em obter novos games. E o resultado disso é que minha estante da sala está infestada de títulos que nunca joguei, e talvez nunca jogue.

Quanto à vaidade, esta seria um tanto como a característica daquilo que não possui conteúdo e por isso, se baseia numa aparência falsa. Vaidade é o excesso de valor dado à própria aparência, aos atributos físicos ou intelectuais.

A grande problemática que a priore este texto esbarra, é que para se falar de vaidade, talvez seja preciso ser detentor de sua característica exaltada. A título de exemplo, é preciso ser belo para se falar da vaidade da beleza; é preciso ser rico para se falar da vaidade da ostentação; é precisa ser sábio para se falar da vaidade do conhecimento... Porque do contrário, qualquer coisa que seja dito parecerá ressentimento.

Talvez a estética seja a condição mais condenável, justamente por ser o orgulho mais fácil de enxergar. Uma pessoa dotada de elevada beleza é constantemente vigiada pelos olhares alheios, fazendo com que o belo precise estar o tempo inteiro tentando demonstrar que possui outras características, porque a beleza sofre com a ideia de que ela por si não baste. Do mesmo modo, a soberba pelos atributos físicos certamente é a condição mais dura de ser amenizada, embora a única inevitável.

Já a vaidade simbólica, seria uma maneira de depositar toda a nossa idolatria em obtenções materiais. Passamos a viver uma vida que mostre que tudo aquilo que possuímos represente o nosso ser. E então esbarraríamos na condição de vazio do ser humano. Este tipo de vaidade é amplamente notado por despertar a inveja. E talvez dentro desse conceito vaidoso é onde há maior condensação entre vaidade e desejo. Porque suplantar o vazio com coisas é como encher um saco sem fundo.

O terceiro e último exemplo de vaidade é a do sábio. Aquele que olha de cima para baixo, dominado pelos encantos, verdadeiros ou não, de seu próprio intelecto. Este tipo de soberba é talvez uma das mais difíceis de ser identificada, pois a erudição tem o viés de pureza, de condição obtida por meio do esforço elevado. O sábio é aquele que por meio de determinação e esforço, conseguiu se distanciar dos demais e, portanto, tem todo o direito de ser diferente; ele próprio tenta se enxergar como superior...

Muito bem; feito esta breve explanação sobre desejo e vaidade, eu lhes faço uma pergunta provocativa: quando estas duas condições humanas se unem num mesmo ser, o que acontece? Qual é o resultado da mescla entre anseio maior e o complexo de Narciso?

Se você quiser vislumbrar o resultado desta sórdida mistura, caro leitor, basta procurar um espelho.

O desejo seria como uma espécie de efeito e a vaidade a causa que gera este efeito. Porque se vaidade é a busca por se fugir do vazio, logo, surge no ser humano o desejo, e ambicionamos para não nos sentirmos oco.

Contudo, antes que você desista da leitura desta reflexão, se é que já não o fez imaginando que irá se deparar com um conteúdo acusador, que tem a premissa de ser detentor de verdades absolutas, fique tranquilo. Não é este o intuito deste autor, que assim como você, também sofre do mesmo mal. E exatamente em concordância com a bela passagem tirada do livro do Eclesiastes, ou da precisa afirmação nietzschiana, que principiaram este texto, sabemos bem que, ao fim das contas, tudo é mesmo pura vaidade... E é ela que instiga o desenfreado desejo.

Portanto, farei uso novamente de mim mesmo para exemplificar o que significa a busca de algo movido pelo desejo envaidecido:

Há muito eu tenho sido um buscador ávido de conhecimento na área de literatura e filosofia. E quanto mais eu aprendo, maior se torna meu desejo por obter mais informação. Quanto mais me aproximo das ideias dos grandes pensadores da história da humanidade, mais elevado fica a minha cobiça pela didática criativa, pela erudição. Pois bem, este meu comportamento poderia ser desejo puro, benigno, e talvez o seja para aqueles que me olham de fora. Mas eu sei que por trás desta obstinada busca pelo conhecimento, há resquícios, ou quem sabe mais do que apenas vestígios, uma gana ininterrupta e crescente, ambicionada pelo reconhecimento social; pela conquista do capital simbólico; pela concessão em ser ouvido... Porque tudo aquilo que sai de meu teclado, quando estou escrevendo sobre algo por mim estudado, tem o viés de se parecer como verdades incontestáveis; como se minhas palavras fossem inquestionáveis e absolutas. E logo após as cuspir na cara do leitor, eu abaixo a cabeça e dissimulo, finjo que não sou ninguém, que apenas estou expondo uma humilde análise sobre o tema em questão. No entanto, dentro de mim, paira uma constante voz dizendo: “Vamos, fale mais! Eu preciso de seus elogios... Não parem com os aplausos”.

Porque de nada valeria qualquer forma de obtenção, se não houvesse o reconhecimento externo.

Não é por acaso, que o espelho é tido na mitologia como um presente do demônio, a fim de totalizar a auto apreciação e impedir que cesse o envaidecimento humano. Portanto, acho válida a afirmação que fiz, há pouco, para que pensemos sobre nossa ambiciosa realidade: se quiser conhecer o resultado da junção entre desejo e vaidade, olhe-se no espelho e encontrará sua resposta. Porque sempre se trata do eu em detrimento de nós; porque achamos que somos a referência do universo; tudo o que nos aparenta ser maior, chamamos de excesso; enquanto aquilo que parece menor, nós avaliamos como desleixo ou incapacidade. A soberba nos faz pensar que somos o modelo ideal de equilíbrio.

Em outro exemplo oportuno da fragilidade humana, eu usarei a alegoria de Santo Antônio – Santo Antão – figura famosa dos anacoretas, aqueles que vão para cavernas ou passam quase a vida inteira no deserto, jejuando. Santo Antão foi um homem que morreu aos cento e cinco anos, os quais ele passou jejuando em cavernas, onde era atacado diariamente pelo demônio. O propósito da entidade obscura era o de desviar a espiritualidade daquele homem. O maligno se concentrou em Santo Antão por quase oito décadas, fazendo com que quando ele rezasse olhando para o crucifixo de Cristo, enxergasse uma mulher nua; constantemente o erguia no ar para distraí-lo; quando ele jejuava aparecia sobre a mesa as iguarias mais extraordinárias que se pudesse supor. Pois eis que Antão conseguiu resistir a tudo; um homem que provou ser dotado de autocontrole excepcional, quase sobre-humano. Foi então, que finalmente o demônio desistiu, virou-se para seu alvo de tormento e disse: “Você venceu! Foste mais forte do que eu.”, e retirou-se da caverna. E Santo Antão caiu de joelhos e agradeceu com uma oração simples: “Muito obrigado, senhor. Agora eu me tornei um santo.”. E naquela hora, o demônio sorriu e voltou, pois Santo Antão havia resistido a todos os pecados possíveis... Menos a vaidade, que no caso dele, tratava-se da soberba de ser santo.

Porque por trás de cada virtude existe um desejo que nos aproxima do vício.

O desejo é como uma espécie de alavanca que aciona a busca por obtenções que servirão para alimentar a vaidade. E esta premissa se torna acumulativa e insinuante, mas que não deve ser entendida como um mal externo, algo isolado e que pode ser tratado ou extinto por meios objetivos. Não. A vaidade faz parte de nós. É um sentimento incessante que tem como seu combustível maior a observação dos outros. Preferimos viver constantemente sob o olhar de terceiros, do que sentir que estamos sozinhos, alheios ao resto do mundo. Tomados pela vaidade estamos, quando transformamos todas as nossas relações sociais em mercadorias, cada vez mais dadas ao prestígio, quase sempre ilógico e desnecessário.

Desfrutamos de uma vida vivida para os outros. Vaidosos somos quando afirmamos que não possuímos vaidade, e assim, assumimos uma postura de humildade elevada frente ao nosso semelhante.

É querer possuir o melhor sempre, porque ser detentor do melhor é ter a própria honra terceirizada, posta em objetos para deleite dos expectadores da vida. É comprar o que não se precisa, com o dinheiro que não se tem, para mostrar para quem não se gosta.

terça-feira, 23 de junho de 2015

RESENHA DE LIVRO – VIDAS PROVISÓRIAS


O autor do livro analisado nesta resenha, certamente é bem mais conhecido por seus trabalhos como repórter. Á título de exemplo, Edney Silvestre se destacou como correspondente em Nova York, durante os ataques terroristas do onze de Setembro. Mas o cara é também possuidor de grande talento para literatura que, e assim como era no meu caso, a maioria dos brasileiros desconhece.

Vidas Provisórias é um trabalho dotado de viés delicado e sutil, que narra histórias paralelas e simplistas de dois personagens, os quais vivem “vidas provisórias” no exterior: um jovem universitário, irmão de um militar dos tempos da ditadura, que é sequestrado em seu apartamento no Rio de Janeiro e brutalmente torturado pelas mãos dos militares da década de 60, depois é descartado em fronteira, sem nenhum documento de identidade. Ao mesmo tempo, acompanhamos uma adolescente de dezessete, que escapa do Brasil, munida de passaporte falso, temendo a violência truculenta que assolava o país.
Usando de sua elevada experiência vivida no exterior, Edney nos entrega um trabalho fantástico, cujas tramas são relatos quase palpáveis, onde fica fácil trazer á tona todos os infortúnios vividos por Paulo e Barbara, os dois protagonistas. As dificuldades enfrentadas por eles, que precisam se adaptar á viver num país desconhecido, se escondendo como se fossem ratos, lutando contra o medo da deportação, diariamente sob a sensação de viver como indesejáveis, cheios de saudade da terra natal e dos familiares. Tudo isso nos é mostrado sem pudor, onde a essência do ser humano permeia ao longo de cada parágrafo.

O livro possui uma pegada melancólica, mas não chega á nos deixar entediado. O autor é minucioso nos detalhes e nos transporta facilmente para dentro de suas páginas. As cenas de tortura vividas por Paulo me incomodaram bastante, assim como a constante sensação de inadequação que Barbara ostenta ao longo de sua trajetória. A obra também é rica nos detalhes que aconteceram ao redor do mundo, em conformidade com o tempo vivido por cada personagem.
Gostei muito também do visual deste volume. Este segue com o desenvolver das duas histórias, alternando-as em pequenos capítulos, onde cada um possui um estilo diagramático diferente, inclusive nas cores. É mesmo um belo trabalho.

Edney Silvestre é outro autor extremamente competente que só fui conhecer este ano (atualmente venho mantendo um faro aguçado para descobrir bons autores nas livrarias). Ele possui outros trabalhos, até com mais notoriedade, os quais eu certamente procurarei muito em breve.
É literatura bem escrita e delicada, infestada de intensidade emocional e até um pouco triste. Mas acima de tudo, um livro que fala de esperança, de luta pela sobrevivência dentro de um mundo aparentemente empenhado em nossa destruição. Uma obra que beira a perfeição, justamente por trazer o leitor de volta ao tato com sua própria humanidade.

sábado, 6 de junho de 2015

RESENHA DE LIVRO - OURO


Por trás da gloriosa conquista do lugar mais alto no topo e da obtenção de uma reluzente medalha olímpica, existe vida.

Vida que geralmente é sufocada pela obstinada busca pela excelência no esporte. Certamente a abnegação desta mesma vida parece ser condição primordial para que um atleta seja merecedor do lugar mais alto do pódio.
Neste excelente trabalho, de título simplório, mas detentor de conteúdo riquíssimo, o autor Chris Cleave nos remete á uma história de superação e limites do ser humano, onde um questionamento paira constante na mente do leitor: até onde seríamos capazes de ir para conquistar a glória olímpica.

Eis a premissa deste fabuloso livro intitulado OURO.
A trama, que por sinal é muito simples, conta a história de duas jovens que fazem parte de um grupo de ciclismo de elite, e juntas elas vivem uma trajetória de sofrimento, luta e superação. O autor enriquece suas personagens dando á elas personalidades distintas, que constantemente as coloca em intensos conflitos. O enredo também está repleto de bons coadjuvantes, todos envolventes e em harmonia com o desenrolar da história.

Há momentos em que eu adorava suas personagens, e noutros eu era capaz de detestá-las facilmente. Uma delas, chamada Zoe, foi a que mais mexeu comigo ao longo da leitura, talvez por ser uma mulher de temperamento muito forte; dotada de um determinismo provocador. O autor me fez amar e odiar Zoe em diversos instantes da obra. E no fim das contas, soube que eu a adorava desde o início. Não há espaço para vilões aqui. O que temos são seres humanos confrontando suas limitações e suas falhas.
Chris Cleave talvez tenha sido a maior descoberta literária que fiz este ano. Ele sabe narrar de maneira brilhante os limites físicos e emocionais das pessoas. Foi capaz de transformar um roteiro banal num intenso relato da fragilidade humana. A leitura deste livro me fez sentir as dores dos personagens, como poucos livros foram capazes de fazê-lo.  Levou-me ás lágrimas em alguns instantes, e arrancou sorrisos de meus lábios noutros. Não é um autor inovador, mas ele consegue despertar sentimentos em seus leitores com facilidade absurda.

O livro mais conhecido dele chama-se PEQUENA ABELHA, e certamente estarei antenado neste, e em todos os outros trabalhos deste promissor contador de histórias britânico.
Ouro foi uma excelente descoberta que fiz. Um livro que quase não retirei da prateleira por parecer desinteressante, mas que valeu muito á pena ter conhecido. É aquele tipo de leitura que faço devagar, temendo que esta chegue ao seu final... Recomendadíssimo!

domingo, 26 de abril de 2015

RESENHA DE LIVRO: UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL


O ser humano é uma inconstante dicotomia entre benevolência e crueldade. Qualquer um dos lados aflorados é capaz de transformar drasticamente a vida deste mesmo indivíduo ou de pessoas ao seu redor.

Quando um garotinho de rua pede uma moeda de esmola para Laura Schroff, ela vê sua benevolência atiçada, e deste momento em diante, ela tem a sua vida e a daquela improvável alma, vagante das ruas de Nova York, mudadas para sempre.
Exatamente como o título sugere, este livro trata mesmo de UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL, conta uma inusitada relação de amor entre uma executiva estabilizada e um menino negro pedinte de rua. Mas particularmente eu prefiro o título original da obra: An Invisible Thread (Um Fio Invisível), pois faz mais justiça ao que a autora queria passar sobre sua relação com Maurice; o garoto de rua que certo dia lhe pede esmola e eles acabam se tornando amigos.

A trama começa narrando o inusitado encontro entre os dois protagonistas, mas ela não fica atrelada apenas ao cotidiano atual. Os autores, Laura Schroff e Alex Tresniowski, constantemente mudam o foco para mostrar o passado turbulento que fora a vida de Laura e Maurice, construção literária que nos ajuda a entender e gostar dos personagens.
A história contada no livro é real e foi vivida pelos protagonistas. E mesmo diante de relatos fortes sobre vidas improváveis, lares destruídos por violência, drogas e miséria, ainda sim a veracidade dos fatos não deixa o clima tornar-se novelesco ou piegas. Tive a sensação de que os autores tentaram fidelizar a realidade de cada situação vivida por Laura e Maurice, sem haver a preocupação em arrancar lágrimas do leitor.

Em determinado instante da trama, Laura, que narra tudo em primeira pessoa, levanta um questionamento bem interessante: Ela se pergunta se é correto entrar na vida de um menino pobre e sem perspectivas, e então lhe proporcionar instantes de conforto, lazer e fartura. Isso seria mesmo algo digno á se fazer? Segundo ela, tal atitude poderia vir a ser um ato de dissimulada crueldade, pois sempre após se encontrar com Laura, Maurice precisava se deparar com o contraste sombrio que sua vida é em comparação á vida de sua nova amiga. A autora se pergunta se tudo o que faz para o garoto, talvez não seja apenas para que ela própria se sinta melhor... Uma questão difícil de ponderar.
Um ponto que achei desnecessário foi uma entrevista que encerra o livro, na qual Laura conta alguns detalhes sobre a obra e o seu desenvolvimento. Não creio que isso fosse necessário, uma vez que, a própria trama já desenrola coisas suficientes para nos deixar por dentro da importância e o desejo de se realizar este trabalho. De qualquer forma, a entrevista é um posfácio e não há necessidade de ser lida.

UMA LIÇÃO INESQUECÍVEL é o testemunho de duas vidas que em determinado instante de tempo se encontram, de forma inesperada e irreversível. Então, executiva e morador de rua se tornam amigos, e aprendem juntos humildade e amor.
O teor do livro parece nos dar indícios de que há qualquer momento iremos ás lágrimas, mas embora estejamos diante de uma bela história, a desconsolação não chega á se fazer presente.

Mas é um bonito relato de vida e vale á pena ser degustado.

sábado, 25 de abril de 2015

CRÔNICA: SALA VAZIA


Deitado no tapete da sala, de barriga pra baixo, eu pensava em alguma coisa para escrever. O barulho do ventilador ligado, girando para paredes vazias, lá no quarto, era um sinal de que eu vagueava sem destino pela casa. Em minha frente, a estante de livros onde notei uma grossa camada de poeira, uniformemente adormecida entre os volumes... Pensei que eu deveria arriscar compor uma poesia.
Será que foi o vislumbre da poeira impregnada em meus móveis que despertou essa inusitada sugestão? Certa vez, eu li num texto, que as palavras surgem e constroem frases naturalmente na mente de um poeta, diante do simples entrever da realidade ordinária. Eu não me julgo um poeta, e nem mesmo sou bom na arte de construir versos. Principalmente porque acredito que a grande magia da poesia não é a de transmitir algo lógico ou comunicativo, mas, sobretudo a de construir emoções.
Mas eu aprendi que escrever deve se tornar um hábito constante na vida de quem quer se manter estudante dessa arte... Se escrever for apenas um hobby, então seremos como atletas de fim de semana, onde não exercitaremos o suficiente para elevarmo-nos á novos degraus de excelência. Exatamente como um atleta que precisa praticar os músculos, um escritor precisa praticar a escrita. Mesmo quando sua mente está vazia, feito calçadão do centro da cidade em noite de chuva.
Bom, o fato é que o desconforto de ficar muito tempo deitado assim, imprensando o abdômen, me deixa sem ar. Então, eu me sentei e, casualmente, olhei para o negrume da tela da TV desligada. Foi estranho, mas me lembrei de que fazia meses que eu não assistia nenhum canal televisivo e, mesmo assim, não sentia falta de nenhum deles. Quantas risadas tolas, quantos gritos de gol, quantos bocejos entediados, quanta indignação. Quantas lágrimas eu e ela já compartilhamos juntos... Eu queria fazer as pazes contigo, ó querida condutora da futilidade mundana. Mas o espelho escurecido e emburrado, diante de mim, mais se parecia com uma criança mimada, que jamais perdoará o meu completo abandono.
Absorto, eu reparo um pequeno tufo de algodão, preso nos pelos do meu peito. Eu o retiro e olho de perto. E entendo que não se trata de um tufo de algodão, mas de resquícios da Tekila, minha adorável Poodle, portadora de enorme quantidade de fiapos de algodão, que se desprendem dela, deixando por onde passa um rastro matreiro de cor branca. Percebi que toda a extensão do tapete era um ambiente impregnado de pequenos bolinhos provindos de sua crina canina, denotando que aquele recinto havia sido emancipado.

Senti-me um estranho, um intruso dentro de minha própria sala.
Até mesmo o tapete, com toda sua expansividade familiar, agora me era excêntrico, porque eu havia me tornado um visitante raro da sala, incapaz de notar seu novo adorno esbranquiçado.
Como pode eu ser incapaz de reparar transformações tão evidentes dentro da minha própria casa? Era como se eu estivesse entrando na sala pela primeira vez. E exatamente como ocorre na natureza dominante, a Tekila teria todo o direito de me expulsar, pois aquele terreno agora lhe pertencia. Afinal, até a TV recusava-se á fazer as pazes comigo; os livros deviam me odiar por deixá-los á mercê da poeira incessante; e os fiapos de algodão de minha pequena leoa reivindicavam o solo daquele ambiente.
Levantei-me e fugi, feito um covarde, para a cozinha. Frequentemente, eu esticava o pescoço, como um periscópio humano, vigiando a sala de longe. Aquelas veracidades cruéis não me queriam por lá, e agora eu temia estar sendo perseguido, e talvez a revolução se intensificasse, ocasionando em uma expulsão coletiva. Tive medo de olhar também ao redor da cozinha, pois os talheres poderiam se unir aos copos e o microondas, numa campanha coletiva para me repelir.

O ser humano é o único animal que não sabe o que fazer na hora de marcar terreno.
Mas a sala já havia aprendido isso, e a corte residencial estava formada, em todos os vãos da estante. A acusação trouxe algumas testemunhas de peso: minhas pequenas Gueixas de pano, que conviveram comigo há tanto tempo, agora me olhavam com menos admiração: “Você é mesmo um ausente! Como pôde ser tão ingrato? Até já dormiste neste chão, velado por nós!”, eu era capaz de escutar suas duras acusações. O dragão de argila, que adquiri de uma vendedora indígena em Foz do Iguaçu, apesar de não ter feito nenhum pronunciamento, pareceu optar pela neutralidade, recusando-se á tomar algum partido... E por fim, a Dama da Justiça, imponente e resoluta, o mais antigo adereço da estante, com sua balança nas mãos, parecia pronta para me dar a sentença.
Culpado!
Finalmente eu entendi que não somos nós aqueles que precisam invadir, sobrepor ou apreciar o lar. Na verdade, é o ambiente que nos escolhe, que nos analisa antes de decidir se gostará de nós... Ou ele nos expulsa sem nenhum pudor, como se fôssemos indesejáveis leprosos.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

RESENHA DE LIVROS – A MULHER COM O LAPTOP


Logo que comecei a leitura deste livro, tive a impressão de que eu estava entrando numa cansativa jornada de 318 páginas, as quais se piorassem, eu não veria alternativa, senão cometer um ato raro: abandonar a leitura. Sim, este A MULHER COM O LAPTOP começa um pouco enfadonho, daquelas leituras que causam inevitáveis ardências nos olhos. E mais; em momento algum ela decola pra nos fazer querer virar mais uma página e ler mais um pouquinho.

Outro aspecto que imediatamente me causou desconforto, é que o autor nos arremessa, sem nenhum pudor, uma elevada quantidade de personagens, o que nos deixa completamente perdidos, tentando recordar quem é quem na história.
Começo esta resenha com queixas, exatamente para dar segmento á epítome, destacando que o autor, D.M. Thomas, consegue se redimir em parte de alguns de seus pecados literários, conforme vamos progredindo nas páginas deste seu trabalho.

A trama passa a ter um ganho substancial na exata proporção em que o personagem principal vai se mostrando para o leitor. Sobretudo quando ele faz desabafos impronunciáveis, instigado pelos próprios sentimentos. Ainda assim, a leitura peca por nunca passar de morna e quase não têm grandes instantes para nos deliciar. São apenas situações quase que corriqueira, como se estivéssemos acompanhando o dia-dia de pessoas num inusitado workshop. A falta de familiaridade com os personagens também incomoda bastante, mas acho que o leitor acaba criando certo vínculo próprio apenas com os seus preferidos, embora eu deva dizer que nenhum foi cativante o suficiente aos meus auspícios, talvez por falta de mais interação construtiva ou o elevado número de coadjuvantes.
A trama conta a história de Simon, escritor de segunda classe, que é convidado á passar uma temporada numa ilha grega, onde coordenará uma oficina literária. Os “alunos” da oficina são personagens distintos, meio que em busca de certa libertação de seus impulsos interiores. O desafio de Simon é de tentar ensinar aos participantes a diferença entre querer escrever e a qualidade do que é escrito. A trama parece meia vaga e ás vezes nos deixa a impressão de que ela é mero escapismo para algo maior que está por vir, o que infelizmente nunca acontece.

Os pontos fortes do livro ficam por conta da narrativa bem construída, muitas vezes intensa e noutras com diálogos profundos: “Quanto mais bela uma mulher, mas ela tende a desprezar a beleza feminina, após o declínio da sua”. Sacadas reflexivas, como essa, embelezam alguns instantes da obra. Outro aspecto positivo é que a forma de linguagem é um pouco diferente da habitual. Não sei dizer nem se é difícil, mas é imprevisível e incomum, principalmente quando se trata de um narrador na primeira pessoa. Incomodou um pouco no início, mas depois aprendi a gostar da forma de escrita de D.M. Thomas, um escritor que mostrou possuir um estilo textual peculiar, mas que teria sido melhor aproveitado se a trama fosse um pouco mais sedutora.
Foi uma viagem por uma história nem um pouco previsível, mas sem grandes momentos. Com uma forma de linguagem singular, e um título que só foi ser explicado no finzinho da obra. Pra quem for degustar, fica a dica: não avance até o final para entender o título. Prefira desfrutar de todo o livro, viajando numa aventura pouco empolgante, mas que é simpática e despretensiosa.