sábado, 11 de junho de 2016

CRÔNICA: A HORA CERTA


Já parou pra pensar que nós temos horário pra tudo? Mesmo aqueles momentos em que aparentemente podemos deliberar sobre o que fazer com o tempo; os raros instantes de ócio, mesmo esses, tem hora para acontecer. E nestas raras ocasiões em que permeamos horários totalmente dispersos de qualquer compromisso marcado, acabamos tomados por um mal cada vez mais frequente: o tédio.

Somos dependentes de compromissos com hora marcada. Sem isso, nos tornamos vitimados pelo sentimento de enfado.

Desde o nascimento somos adestrados a não sermos autônomos, mas sim, doutrinados a respeitar as horas; a hora da mamadeira, a hora dos remédios, hora de tomar banho, hora de almoçar, hora de ganhar atenção dos pais, hora de largar a chupeta, hora de o bebê ir dormir.

E assim, vamos crescendo sob a doutrina da hora certa das coisas. Desde os tempos de berço havia um tutor, mestre ou responsável, destinado à nos ensinar que existe momento certo para vivermos as experiências da vida; havia a hora ideal para desfrutar e para sofrer; aprendemos a reconhecer o momento exato de nos tornarmos escravos servis; o tempo preciso de nos ajustarmos aos ditames sociais que, ao longo da vida, se transformam em incontestáveis obviedades.

Portanto, não me venha com choradeira e nem perca seu tempo, porque a vida tem hora certa pra tudo... E não durma no ponto, nem espere sentado! Sim, pois alguém um dia nos disse que o tempo é um relógio resoluto, cuja cronologia marca a hora certa do nosso momento. É prudente que saibamos reconhecer cada traço que o ponteiro alcança. E assim vamos seguindo com nossas vidas convencionadas naquelas coisas que estão ali, bem diante de nossos olhos, mas que não podem ser desfrutadas ou vividas porque ainda não é a hora certa:

A hora certa de acordar e de dormir. E medique-se caso o sono não venha nesta elaborada hora ideal;

A hora certa de tomar o café da manhã, almoço e jantar. E caso o seu organismo clame por energias fora destes horários convencionais, trate de adestrá-lo;

A hora certa para ir ao trabalho. E não se esqueça de registrar no ponto, porque esta hora você precisa comprovar que cumpriu;

A hora certa de fazer a coisa certa. Mesmo quando isso lhe parecer relativo;

A hora certa de falar e a de fazer silêncio. Não queremos parecer inconvenientes;

A hora certa de ler o jornal. Porque não podemos perder o tempo de fazer outras coisas;

A hora certa de esperar e, se for o caso, espere o tempo que for preciso;

A hora certa de sorrir. Porque sorriso na hora errada pode insultar e denegrir;

A hora certa de abrir a janela. Porque pode ter alguém olhando do lado de fora;

A hora certa de alimentar o cachorro. Porque os animais são nossas propriedades;

A hora certa de tomar sol. Mas apenas se você vive em regiões onde o clima seja propício. Do contrário, programe outras coisas pra fazer com esse horário;

A hora certa de fazer sexo. Porque espontaneidade é coisa de gente irresponsável;

A hora certa de tomar decisões. Porque elas requerem o bom discernimento;

A hora certa de escolher a pessoa que irá viver ao nosso lado. Porque sabemos que há certas fases na vida em que não sabemos fazer escolhas;

A hora certa de mentir. Porque aprendemos que nem todo mundo está preparado para ouvir a verdade. Aliás, aprendemos também que verdade é algo relativo;

A hora certa de ignorar e ser ignorado. Porque faz parte de aprender a selecionar aqueles que farão parte de nosso ciclo social;

A hora certa de servir. Porque um dia nos foi ensinado que aqueles que servem, um dia serão servidos;

A hora certa de viajar. Porque o lazer precisa ser disciplinado, ou pareceremos desleixados e fora do controle;

A hora certa de fazer um convite. Porque convite nas horas erradas podem gerar encontros inadequados;

A hora certa de dizer que é a hora certa. Porque quando nossa idade avançar, teremos a experiência de ensinar aos mais jovens a boa disciplina da cronologia regrada;

A hora certa de demonstrar seu afeto. Não me vá parecer piegas na frente dos outros!

A hora certa de quitar as dívidas. Essas jamais poderão ser esquecidas, pois elas tornarão o tempo excedido, em chagas no seu orçamento;

A hora certa de bajular. Porque existe a hora e a pessoa certa pra isso, é claro;

A hora certa de envelhecer. E você pode até achar que engana o tempo, mas as toxinas da estética não tardarão a chegada da hora certa do apodrecimento físico;

A hora certa de ir ao cinema. Pra não ter que ficar na primeira fila, tendo que torcer o pescoço;

A hora certa de brincar. E faça isso o quanto puder na infância, porque quando for adulto irão lhe chamar de irresponsável;

A hora certa de aproveitar a vida. Á esse tempo, chamamos fins de semana;

A hora certa de ser sério. Porque há lugares em que não podemos parecer alegres;

A hora certa de orar. Porque não importa qual seja a sua doutrina, seu Deus não pode estar o tempo inteiro à sua disposição;

A hora certa de pedir. Porque pedir na hora errada pode fazer com que pensem que fracassamos na vida;

A hora certa de adoecer? Bom, essa realidade não costuma ter hora certa, mas se cuidares direitinho de si mesmo, tu serás por longo tempo um cadáver adiado;

A hora certa de morrer. E pode parecer que não, mas acredite que há a hora certa até para isso. E quando a morte finalmente chegar, todas as horas anteriores passarão diante dos seus olhos...

E os olhos... Ah, os nossos olhos!

Eles foram testemunhas das nossas horas. Acompanharam vidrados de ansiedade a nossa vida sendo posta em perspectivas, as quais alguém que nem sabemos identificar, determinou-nos a hora certa de tudo. E nossos olhos contemplaram toda a existência devidamente sendo pontuada para ter algum sentido; olhares cheios de remorso e arrependimento... Sim, pois quando chegar a hora final, eles saberão que não há mais tempo pra nada.

Se nossos olhos pudessem prever o que estaria por vir dentro dessa vida minuciosamente regrada pelos compromissos marcados, eles teriam feito a hora certa da maneira que lhes conviessem. Porque talvez, e só talvez, a hora certa de qualquer coisa, seja exatamente aquela em que cada um de nós deliberarmos.

Porque hora certa serve apenas para manter você adestrado aos interesses de alguns interessados... E quem seriam esses interessados?

Bom... Talvez ainda não seja a hora certa pra pensarmos sobre isso.
***

“O tempo é relativo e não pode ser medido do mesmo modo e por toda parte”
                                                                                                (Albert Einstein)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

RESENHA DE LIVRO – MENTES PERIGOSAS, O PSICOPATA MORA AO LADO


Em 1993, no norte da Inglaterra, dois garotos sequestraram, torturam e deixaram na linha de trem uma criança de dois anos que foi estraçalhada pela locomotiva. Após serem detidos pelas autoridades fora perguntado aos garotos o porquê de terem cometido tamanha barbárie. Em resposta, um deles disse serenamente, para o choque ainda maior da sociedade: “só queríamos ver como é o crânio de uma criança explodindo”.

O crime que deixou o mundo estarrecido retrata com distinta clareza a premissa por trás desta decente obra da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva: tentar compreender um pouco melhor como funciona a mente de um psicopata.

A notícia ruim, segundo pesquisas intensas da autora, é que isso não é tarefa muito simples. No entanto, se a identificação talvez seja complexa, a constância dos famigerados psicopatas pode ser mais corriqueira do que se imagina. Exatamente como diz o subtítulo da obra: “O psicopata mora ao lado”; ou pior: talvez ele esteja dentro da sua própria casa, sem que você mesmo note isso.

A autora procura discorrer para uma visão, digamos, menos fatalista de um psicopata, dando ao temido gênero algo mais ordinário; os psicopatas podem estar em qualquer lugar, e os crimes brutais tão definidores deste gênero – como foi o caso dos garotos ingleses – seria apenas a máxima desta maledicência, algo que nos faz pensar que matar é a inevitável máxima desse tipo de criminoso, afinal, somente quando chegam a matar é que psicopatas vão parar nas capas dos jornais de nosso dia-dia. Mentes Perigosas trás para o termo psicopata definições que, embora caracterizem aquele tipo de ser humano inteiramente capaz de causar na sociedade, níveis consideráveis de estarrecimento e trauma, ainda são bem menos atrozes do que a óbvia associação deles com assassinatos e crimes brutais: trata-se de pessoas frias, manipuladoras, ausentes de consciência. São “predadores sociais”, nas palavras de Ana Beatriz. Gente que anda por ai, normal e liberta, camuflada de falsa ética, aparentemente incógnita. São pessoas comuns, de qualquer cor ou credo, que trabalham, estudam e levam suas vidas “normalmente”.

Um aspecto que me deixou levemente incomodado foi o uso de referências dos noticiários das franquias Globo, excessivamente usados pela autora. Penso que, de uma maneira infeliz, Ana Beatriz acabou deixando suas notas de rodapé um pouco restritivas. Mesmo diante da possibilidade de vermos a bibliografia de pesquisa, feita pela autora, no final da obra, talvez ela devesse ter feito variados usos referenciais em suas notas, ou pelo menos, ter diversificado os meios midiáticos, se era esse o intento.

Veja bem: não é uma questão de colocar em dúvida a qualidade do livro nem o intelecto evidente da autora, o qual eu já pude apreciar em palestras. Muito menos pretendo discorrer sobre assunto tão complexo, o qual eu possuo a mesma profundidade de um pires. Mas minha observação aponta para certa escassez de coerência na hora de mencionar meios de aprofundamento reflexivo; repetição constante das mesmas referências pode fazer com que o livro pareça limitante, ou pior, podem dar ao leitor a sensação de que tais menções de nota sejam propositais.

Quanto ao que de melhor podemos encontrar neste livro, é a textualização direcionada ao público leigo. Ana Beatriz discorre sua reflexão de maneira informal e acessível, permitindo que nós, leitores não acadêmicos, tenhamos a oportunidade de estudar sobre assunto tão intrincado.

Mentes Perigosas é um livro que interessa a todos nós, porque o tema é socialmente amplo, delicado e importante. De leitura simples e objetiva, nos deixa um pouco mais próximos da mais temível das atrocidades humanas; aquela que ainda temos pouca ou nenhuma compreensão: a psicopatia.

terça-feira, 31 de maio de 2016

CONTO: O PEDESTRE


De maneira cautelosa, o pedestre estacionou no meio-fio. Precavidamente olhou para os dois lados. Ponderou sobre as possibilidades... Esperou.

E tomado de extremo cuidado, conseguiu enxergar uma pequena oportunidade de travessia; um intervalo no meio do trânsito; um espaço de tempo que julgou ser propício... Mas havia certo risco de ser atropelado e, cauteloso, o pedestre hesitou.

Um pouco mais de espera era preciso e o nosso estimado caminhante teve paciência. A vida havia lhe ensinado a importância de ser perseverante. Sabia da dificuldade em se chegar ao tão desejado outro lado da pista, portanto, ele permaneceu ali, parado na lateral do asfalto, farejando a oportunidade ideal.

Pois eis que ela veio. Uma nova chance de travessia, desta vez, com muito mais folga, poucos carros vinham em sua direção e isso era sinal de relativa segurança... Mesmo assim, ainda existia alguma dose de risco, e o sempre prudente pedestre achou melhor não fazer seu tão aguardado cruzamento... Sim, o outro lado da pista estava logo ali, bem diante de seus olhos; a possibilidade de seguir em frente; o outro lado da vida cheia de ineditismos... O anseio de todo pedestre.

Só que antes era preciso fazer a travessia.

E outra vez estagnado, ele ficou a esperar por muito mais tempo. Até que finalmente o semáforo se fechou para o trânsito. Vermelho era a cor do desbravamento; os veículos parados em fila... Enfim, era chegado o momento da grande travessia, que agora poderia ser realizada em segurança. Sem que houvesse o menor resquício de lapso.

Contudo, o pedestre desconfiou dos carros alinhados em sua frente. Pareciam astutos e ferozes, com seus motores errantes fazendo conjuras à sua tão cobiçada estabilidade... E sentindo que não havia garantias de uma travessia confiável, o pedestre não se mexeu... Permaneceu imóvel, covarde.

Porque chegar ao outro lado era arriscado demais;
Porque a vida não lhe dava nenhuma certeza;
Porque o medo de mudar lhe era mais assustador do que a própria travessia.

E petrificado de temor, o amofinado pedestre esperou, não sabendo mais pelo quê... Até ser brutalmente atropelado por um veículo desgovernado, que invadiu o meio-fio onde nosso herói se encontrava.

domingo, 8 de maio de 2016

RESENHA DE LIVRO: A FELICIDADE É FÁCIL


Um mundo de incertezas permeia as páginas desta excelente obra, cujo título parece ironizar o leitor. No entanto, logo nos primeiros parágrafos, vemos um motorista particular, levando um garotinho no banco de trás que, entretido profundamente em seus lápis de cor e caderno, faz o homem pensar no quanto a felicidade é fácil. Poucos instantes depois, o garoto é sequestrado e o motorista brutalmente assassinado.

A Felicidade é fácil.

Talvez tenha faltado uma interrogação ao título deste livro. Mas fique certo de não inserir esta mesma interrogação em sua mente, caso esteja receoso quanto a adquirir este esplendoroso trabalho de Edney Silvestre. Á menos que você não seja apreciador de uma trama dotada de intensidade existencial; teores quebradiços a cada nova pagina virada... Um livro quase que dotado de alma.

O enredo é uma espécie de um romance policial sem muita inclinação ao suspense. Mas seu grande ponto de distinção está na profundidade que o autor insere em praticamente todos os seus personagens: após ser sequestrado de dentro de um carro de luxo, uma criança muda se vê nas mãos de sequestradores inconsequentes, intencionados em enriquecer com o dinheiro que querem receber pelo resgate do filho de um importante publicitário. Enquanto isso, podemos acompanhar a vida deste mesmo publicitário, que desfruta de uma existência de poder, atolada em meio à alta corrupção do governo; a solidão e incertezas de sua esposa, uma ex-acompanhante de executivos; os empregados domésticos da casa, que das profundezas de suas submissões tentam subsistir; os ressentimentos de um motorista particular e a incerta relação com sua filha...

Tudo se entrelaça numa rede de relações complexas, onde nada é o que parece ser e a complexidade humana salta aos olhos do leitor. Edney Silvestre sabe compor personagens com almas conflituosas, que vivem suas vidas trágicas e aparentemente imutáveis, até chegarmos há um desfecho um tanto previsível, ou no mínimo, nada inovador. Contudo, a grande sacada fica mesmo por conta da extrema sutileza de cada personagem. Faz-nos amar e odiar cada um deles ao longo da trama. Enfim, o que interessa durante a viagem através das páginas deste belo trabalho, não é a chegada ao fim da história, mas sua travessia.

Outro ponto interessante é que aqui podemos começar a vivenciar a trajetória de Barbara, personagem que o autor usará noutro brilhante trabalho de sua autoria, intitulado VIDAS PROVISÓRIAS; obra que já foi resenhada neste blog.

Edney Silvestre têm me surpreendido cada vez mais com sua sutileza e elevada sensibilidade textual. Sei que eu ainda careço de maior conhecimento sobre a literatura brasileira e, portanto, não vou afirmar que somos pobres do estilo de escrita destilada por Edney. Mas o fato é que é sempre muito bom descobrir um autor como este; profundo, de escrita requintada, cujo grande trunfo fica por conta de sua enorme habilidade em exorcizar o sofrimento humano.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

RESENHA DE LIVRO: CONFIE EM MIM


No alto de quase todos os livros de Harlan Coben publicados no Brasil, há a seguinte constatação ostensiva: “Mais de cinquenta milhões de livros vendidos em todo mundo”. Seja soberba ou mera estratégia de marketing, o resultado final é sempre o mesmo: Harlan Coben é um fenômeno de vendas de livros. E este mérito não lhe é conferido por acaso. O cara sabe mesmo como conduzir um bom thriller de suspense, mantendo quase todas suas obras em elevado nível de qualidade.

Coben dispensa apresentação (só aqui no blog ele já foi resenhado três vezes, sempre assinando autorias de bons trabalhos), suas obras são detentoras de suspense bem construído, dotados de ótimos diálogos, personagens distintos e reviravoltas surpreendentes, são algumas das marcas registradas deste monstro da literatura moderna.

A trama, como sempre acontece nos trabalhos desse autor, conta a história de muita gente, mas vamos tentar fazer um breve resumo, uma vez que, nada mais do que um minúsculo vislumbre do estopim é o necessário para entendermos que impactantes desfechos nos aguardam, á cada nova pagina virada deste eficiente CONFIE EM MIM:

Tudo começa com o assassinato de uma moça chamada Marianne, fato que já nos deixa uma pista de que ela será peça chave do enredo, afinal, praticamente todos os personagens inseridos na história, mesmo os que já saem de cena no comecinho, acabam tendo considerável contribuição. Enquanto isso, o corpo de um adolescente é encontrado no telhado de uma escola, e sua mãe, traumatizada com o ocorrido, aos poucos vai desvendando coisas que irão deixar um ponto de interrogação naquilo que até então parecia se tratar de um óbvio suicídio do adolescente. Por fim, temos uma família comum onde os pais resolvem monitorar os passos do filho mais velho, instalando programas rastreadores em seu computador. No começo, tudo parece seguir sem nenhuma anormalidade. Mas eis que quando as coisas pairam dentro do habitual, eles identificam uma estranha mensagem, que mudará completamente o rumo das coisas.

Sim, todos esses distintos cenários de vidas ordinárias vão se entrelaçando aos poucos, aproximando a história de cada personagem, até desencadear num final surpreendente, ou mesmo que não lhe deixe atônito, certamente irá responder as muitas questões que o leitor fez ao longo de toda a leitura.

Bem-vindos ao mundo de Harlan Coben. Lugar onde o ar é escasso e tudo pode acontecer.

Não é a toa que as obras do cara sempre foram motivos de disputa acirrada entre os produtores da indústria cinematográfica, interessados em levar sua literatura para a telona.

Sim, são livros de um gênio do suspense, que podem ser retirados das livrarias sem nenhum medo de errar, com a certeza de que você estará levando pra casa uma ótima obra de suspense policial.

quinta-feira, 31 de março de 2016

RESENHA DE LIVROS – ADULTOS SEM FILTRO – E Outras Crônicas


Uma realidade ótima e que atualmente tem sido a principal razão de termos mais brasileiros interessados em ler – tá certo, eu concordo que a proporção relativa ao enorme tamanho deste país ainda parece pífia, só que mesmo melhorando a passos de tartaruga, é fato que estamos lendo mais. Outra pergunta cabível seria o que estamos lendo, mas estes são outros assuntos – o fato é que hoje se pode encontrar praticamente qualquer estilo de literatura, para todos os estilos e gostos.

Autores como Thalita Rebouças nos ajudam a enxergar com mais clareza essa pluralidade literária. Se neste país ainda falta o incentivo à leitura, pelo menos, a diversidade deixou de ser um problema. E o grande ponto de distinção da autora mencionada, talvez seja sua genuína simpatia. Nem é preciso ter lido algum de seus livros ou esbarrado com ela em algum aeroporto para que isso fique evidente. Basta um breve vislumbre sobre a figura desta sorridente carioca, para que se note, de imediato, que estamos diante de uma criatura que exala meiguice. E o mais perceptível é a capacidade de Thalita Rebouças em conseguir transmitir para o papel todo este seu lado mais terno, característica que torna sua escrita acessível e gostosa de ser lida. Em outras palavras, os livros dessa autora são opções de leitura ótima para quem gostaria de começar a ler, mas ainda olha com desconfiança para os livros, como se eles fossem instrumentos pertencentes à classe erudita.

E o livro alvo desta breve resenha é o primeiro trabalho de Thalita destinado ao público adulto. Contudo, creio que os jovens leitores também venham a apreciar a obra, uma vez que, não há linguagem pesada ou qualquer tipo de narrativa imprópria aos adolescentes, que seja mais agressiva do que o conteúdo no qual eles já estão habituados a ver nos programas televisivos e na internet.

As crônicas deste volume são recheadas de característica sutileza do começo ao fim. Uma leveza textual tão ampla que chega a incomodar um pouco no início, algo semelhante à escrita encontrada em revistas de fofoca de celebridades. Porém, caso o leitor ainda não tenha familiaridade com a forma de escrita, não se preocupe, pois logo a condução textual da autora nos remete à certo enternecimento que nos faz pensar que estamos no meio de uma gostosa prosa, de conteúdo coloquial, numa mesa de bar agradável ou em qualquer outro local de intensa informalidade. Dentro desse pacote, seus textos que mais me agradaram foram os sobre taxistas.

Entrando num aspecto negativo da obra eu só tenho a dizer que, em plena conformidade com o que acontece com todo livro publicado, certamente há pretensões comerciais por detrás da capa e do título. Pois somente ambições de editores sugeririam algo tão tosco e ordinário; tanto gráfico quanto o rótulo são fortemente bregas, fato que quase me fez desistir de comprar esta edição, que só não aconteceu porque sempre tive curiosidade em ler algo desta autora tão aclamada pelo público jovem.

Adultos Sem Filtro é um trabalho simpático e despretensioso, que certamente instigará a leitura em quem está tentando começar a ler, assim como nesta geração mirim, que enfeitiçada por recursos tecnológicos, carece de alguém que saiba invadir seu mundo miogizado para lhes mostrar que ler pode ser tão divertido quanto atualizar perfis em redes sociais.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

RESENHA DE LIVRO – GUERRAS ESTÚPIDAS


Ao ler o título inusitado deste livro, a primeira coisa que pensei foi na obviedade de sua afirmação. Á meu ver, toda e qualquer guerra declarada, talvez com raríssimas exceções, já é por si um ato estúpido.

E mesmo que você seja amante do pacifismo como eu, e esteja plenamente de acordo com a ideia de que toda violência, não importa a forma de sua manifestação, é uma estupidez descabida, este livro merece sua atenção, pois se trata de uma espécie de catálogo contendo as maiores imbecilidades humanas, que só poderiam resultar em mortes, destruições e perdas. E não apenas pelo triste fato de que numa guerra não há vencedores, mas também porque as razões que desencadearam os conflitos aqui reunidos são simplesmente bestiais e incompreensíveis. É um livro que traz à tona a realidade jamais revelada pela didática escolar de história: a ignorância humana e seus resultados catastróficos.

Desde os tempos das infundadas cruzadas, passando por Hitler e sua corja de egocêntricos, até chegarmos à famigerada guerra fria, a história retratada aqui possui uma ótica distinta, na qual o foco de reflexão aponta para os arquitetos dos grandes conflitos e os motivos que desencadearam os confrontos por eles arquitetados; quase todos forjados por ideias soberbas, conceitos banais e decisões irrisórias...

Os autores procuraram fugir dos conceitos tacanhos que geralmente permeiam os livros de história, quase sempre escritos para exaltar os “heróis” vencedores dos conflitos ou simplesmente para denotar que houve em determinado tempo uma guerra entre fulano contra ciclano. Sendo assim, Ed Strosser e Michael Prince, montaram um guia que reconstrói a história das guerras, golpes e revoluções, a partir de uma visão imparcial. E o resultado não poderia ser mais óbvio: praticamente todos os conflitos mundanos não passam de deliberações idiotas que só resultaram em perdas humanas.

Estes minuciosos autores, além de relatar os grandes centros do mundo, também não se esqueceram deste cantinho latino do planeta. A obra se envereda pela América do Sul, onde descobriremos o que parece ser o lado mais esdrúxulo dos conflitos armados. E é nesta canja de imbecilidade coletiva, que finalmente encontramos o nosso querido Brasil, que também teve sua dose de estupidez, ao participar, entre outros conflitos não citados, da Guerra da Tríplice Coroa.

Um aspecto que me incomodou um pouco durante a leitura, foi o leve teor cômico que os autores optaram em usar na condução textual da obra. Achei que a tentativa de fazer com que as situações narradas se tornassem hilárias não deu muito certo. No entanto, este resultado falho pode ter sido oriundo de uma tradução pouco eficiente. Mas mesmo este pequeno problema não chega a incomodar muito.

O livro possui um eficiente grau de detalhes históricos, aprofunda onde pouco se falou em outros livros, e é assertivo quanto a ideia de retratar o lado mais imbecil dos homens: fazer guerras para solucionar questões que poderiam facilmente ser resolvidas de maneira menos dolorosa. Afinal, se guerras fossem a resposta para o bem comum da humanidade, certamente nós já teríamos erradicado a dor e o sofrimento deste mundo conflituoso.

É leitura indispensável, pois talvez se aprendermos a nos tornar conhecedores de nossa ignorância, poderemos ser menos estúpidos ao tomarmos decisões.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

CRÔNICA: INEVITÁVEL EVOLUÇÃO

Em meio a uma desordenada multidão de corpos andantes, eu tentava encontrar o portão de embarque do meu voo, quando de repente, sou abordado por uma voz metálica, cujas doses de estáticas se assemelhavam aos brinquedos eletrônicos que me faziam delirar na infância. Bem no meio do salão principal do Aeroporto Santos Dumont, assustei-me perante inusitada recepção, feita por uma máquina ambulante de mais ou menos um metro e vinte de altura. Era sorridente e, para meu completo desespero, totalmente solícita.

Inteiramente intimidado por aquela coisa – que imaginei se tratar de um totem de atendimento que conseguiu escapar da tomada e saiu perambulando pelo salão do aeroporto, como se entidades sobrenaturais o tivessem possuído – cambaleei tentando desviar de seu caminho. E num gesto tipicamente humano, minha covarde massa corpórea fugiu de sua investida, afinal, modernidades tecnológicas frequentemente me assustam..., e sem cessar os passos, virei-me, dando receosa olhadela no objeto inusitado que, embora não viera em meu encalço, continuava a me saudar com aquele sorriso largo em cores, provindo de uma tela onde se lia: “Posso Ajudar?”.

Se no lugar daquela máquina houvesse um ser humano desempenhando sua tarefa de abordagem, amparado por uma carteira de trabalho e benefícios previdenciários, certamente ele já teria ido se queixar junto ao departamento de RH à cerca da forte rejeição que aquele trabalho proporciona. Talvez até fosse submetido a intensas sessões de terapia, no intuito de se livrar dos constantes traumas sofridos na ingrata profissão.

Mas não era uma pessoa... Era um robô! E alguns minutos depois, já sob a improvável segurança dos bancos de espera, no meu portão de embarque, pude conferir com mais atenção qual era a função daquele frigobar sorridente.

Era um simpático robozinho a passear de um lado para o outro, abordando as pessoas e oferecendo sua tela em forma de rosto, onde uma discreta interface exibia uma série de auxílios e, dessa forma, aliviar dos ombros humanos o tedioso fardo de correr pelas necessidades alheias dos muitos passageiros que por ali transitavam.

Cheguei a pensar que não teria sido ruim se ele se encarregasse de levar minhas malas, mas logo suspeitei de que as tarefas que o intrépido androide oferecia eram escassas demais para dar conta da bagagem dos preguiçosos. Limitava-se a consultas em sua alegre tela dos horários dos próximos voos, um mapa instrutivo para localização dos serviços no interior do recinto, informações sobre transportes coletivos, previsão do tempo e esclarecimentos sobre o funcionamento do aeroporto.

No entanto, mesmo carente de sofisticados recursos, aquele fliperama com rodas, passeando no meio do salão, fez com que eu me sentisse inserido numa realidade insólita de ficção científica, bem ao estilo Isaac Asimov.

Se um singelo robozinho com uma tela limitada de expressão, abordando pessoas sem a necessidade da supervisão humana, já me causou estupefação, o que dizer então do fabuloso Eugene? A primeira máquina na história da inteligência artificial a passar no teste de Turing...

O computador batizado de Eugene foi criado pelos programadores Vladimir Veselov, Eugene Demchenko e Sergey Ulasen. O teste de Turing é constituído por um júri preparado para verificar as habilidades da inteligência artificial. Eugene deveria imitar um adolescente com tal perfeição que os juízes não pudessem perceber que estavam falando com uma máquina. E o próspero Eugene conseguiu convencer nada menos que 33% dos jurados, um feito inédito.

O teste de Turing visa estabelecer um critério que determine o que ou quem pode ser considerado um ser pensante. Basicamente este teste considera que a característica distintiva dos seres humanos é a linguagem, e por isso, o teste sempre se baseou em critérios linguísticos.

Eugene foi capaz de enganar um terço dos jurados de Turing. E embora este seja um número considerado insuficiente por alguns pesquisadores, ele nos prova que estamos no inevitável caminho de uma realidade não muito distante. Um futuro no qual algumas vezes o cinema nos fez ter algum vislumbre com lágrimas nos olhos. E embora meu inusitado encontro com aquela geladeira sorridente tivesse sido menos emocionante do que os personagens criados na telona, eu pude ter uma noção da inevitável evolução... Falo de um futuro não muito distante, que foi belamente retratado num filme de 2013, o qual eu assisti recentemente, intitulado “Ela” (Her – de Spike Jonze).

A trama desta fabulosa comédia dramática gira em torno de Theodore, que inusitadamente se apaixona por seu novo sistema operacional de alta tecnologia – talvez uma espécie de versão definitiva de Eugene – um sistema capaz de compreender o universo à sua volta e se comunicar com seu dono, usando todo um arsenal de anseios, desejos, cacoetes e até mesmo a fragilidade sentimental de um verdadeiro humano.

Confesso que conforme o filme avançava, eu também me via igualmente apaixonado pela doce voz que rouba o coração do personagem vivido pelo ator Joaquin Phoenix. Um trabalho que traz à tona, mesmo que de maneira um pouco contraditória, a complexidade na relação entre homem e inteligência artificial.

Certamente as mentes por trás da indústria desenvolvedora de tecnologia inteligente já notaram o quanto irão encher ainda mais os seus cofres, caso coloquem as mãos em tamanho avanço tecnocientífico, como mostrado neste no citado filme. Porém, tal futuro, temivelmente não muito distante, talvez precise ser analisado com um pouco mais de cautela.

Se as consequências dessa realidade vindoura já podem ser sentidas nos dias atuais, o que diremos em algumas décadas, quando de fato tivermos as nossas malas gentilmente carregadas por um simpático androide, que nos recepcionará com um cumprimento metálico e cordialidade fluente?

Se os nossos atuais celulares e smartphones já são sedutores o suficiente para fazer com que os andantes das grandes cidades percam total atenção à urbanização existente ao redor; aparelhinhos que fazem com que nos comportemos feito altistas tecnológicos, que caminham com suas cabeças baixas, fixadas numa tela que cabe na palma da mão, o que dizer do tempo em que poderemos ter diálogos complexos e profundos, com objetos artificiais que imitam o real no seu comportamento, capazes de nos aproximar do tato com um humanismo jamais alcançado em anos de entrosamento com outros seres humanos... Exatamente como nos provoca o filme citado.

O pobre Theodore teve sua carência e solidão amainada por uma placa de circuitos. E além de não o condenar, reitero que também poderia me ver vitimado pelo mesmo mal, frente a tamanha sedução de uma voz que, mesmo oriunda de um sistema operacional, causa encanto que nos leva à cegueira da sanidade... Ou será que o filme nos faz o retrato de um futuro improvável?

A meu ver, tem sido cada vez mais difícil duvidar da evolução tecnológica.

Imaginem os consultórios terapêuticos do futuro, lotados de gente em busca de ajuda para superar aquele relacionamento terminado de forma trágica com um sistema operacional. “Leve-o na loja de informática do Zé, e mande trocar a placa mãe por outra que seja mais próxima do seu temperamento apegado”, dirá o terapeuta que, aliás, será um circunspecto robô, de feições imparciais e usando jaleco branco.

Tomemos outro exemplo cinematográfico que gosto muito de trazer à tona para pensarmos sobre o que estamos fazendo de nós mesmo, ou melhor, o que a tecnologia está fazendo conosco: o filme de 2008 Wall-e (Wall-e – de Andrew Stanton) nos mostra uma sociedade que passou a viver em colônias espaciais por conta da elevada destruição da Terra. Mas o ponto que quero atentar é quanto ao padrão desta sociedade; pessoas obesas que se locomovem por meio de cadeiras flutuantes, onde uma grande tela fixada bem próxima à face humana atrai 100% da atenção do cadeirante. Neste mundo imaginário da ficção – ou seria visionário? – O ser humano se tornou definitivamente um escravo tecnológico, incapaz de se relacionar com coisas triviais, como vislumbrar os detalhes do lugar em que vive (isso nos é mostrado numa rápida cena em que um humano cai de sua cadeira voadora e, pela primeira vez, se vê encantado com a grandeza ao redor, a qual ele jamais havia reparado).

Notou certa familiaridade com nosso mundo atual, caro leitor? Se sua resposta for não, basta olhar com mais atenção para os ambientes sociais: transporte coletivo, bares noturnos, escolas, e certamente você irá se deparar com uma sociedade literalmente adormecida por uma telinha que cabe na palma da mão. No entanto, se você é incapaz de perceber mesmo isso, talvez seja tarde e você já esteja devidamente inserido nesta sociedade adoecida, que bestialmente fora dominada pela tecnologia.

Outro dia, perguntei a uma moça que subia as escadas do prédio onde trabalho, como ela conseguia subir degraus e digitar no celular ao mesmo tempo. Por breves dois segundos ela desviou a atenção da tela para me dizer que já estava acostumada.

Pois é... Estamos nos acostumando à domesticação tecnológica; a vivermos feito escravos pós-modernos. E o que é pior: a obviedade deste nosso umbroso presente parece ter desabado sobre nossas cabeças.

Talvez o grande problema não seja a chegada dessa tecnologia assustadoramente sedutora, mas sim, a nossa própria alienação. Porque não sei ao certo se sou antiquado demais para este mundo moderno, ou se tem sido cada vez mais comum me deparar com mesas de bares lotadas de pessoas interagindo umas com as outras pelo celular; seres reais que estão perdendo o interesse no mundo físico que lhes rodeiam, para continuar vivendo dentro de uma rede social editável, onde podemos nos vestir de deuses majestosos, felizes e belos, camuflando assim a nossa realidade ordinária e menos atraente.

Estamos enfim, diante de uma assustadora evolução? Pode ser que sim, mas talvez, ela não seja tão desastrosa como nos mostra o imaginário cinematográfico. Contudo, o grande aprendizado que infelizmente ainda nos escapa, é a eficiência de dominarmos as nossas admiráveis máquinas, antes que sejamos dominados por elas..., mas será que ainda há tempo?

Parece que nosso atual encantamento diante dos recursos tecnológicos tem deixado bem claro que já é tarde demais para a humanidade, emburrecida por sua própria criação..., mas agora chega dessa conversa de evolução tecnológica, porque já passou da hora de eu dar uma checada em meus estimulantes e irresistíveis perfis online.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

CONTO: DESPREZÍVEIS MIGALHAS


Eu compreendo todo o meu medo de seguir em frente, porque sei que acabará chegando um momento em que não poderei mais parar. Também temo pela ideia de parar, justamente porque seguir em frente é o que me livra da aflição.

Conceitos contraditórios...

Sempre achei bacana a ideia de poder voltar. O regresso pressupõe humildade e não é sempre que dispendemos desse atributo. Mas talvez por pura covardia de meu ser, eu nunca consegui voltar... No entanto, eu acho que nunca voltei nessa vida, porque de fato, eu nunca fui.

Os arrependimentos estão sempre ao meu lado. Sentam-se comigo no banco da praça e esperam, pacientemente, por alguma solução, respostas... Muitas vezes esta dor toma emprestado um avatar, então ela adquire forma e sua aparência se torna ainda mais angustiante. Nesta tarde cinzenta e onerosa, a dor está vestida de menino. Têm seis anos de idade, a pele branca como a areia que cerca o nosso banco, os cabelos lisos cortados bem curtos, bochechas avermelhadas de ternura, os olhos amendoados que ele coça constantemente, talvez por conta da poeira sem gravidade a respingar em nossa face. Ou pode ser apenas um tique nervoso que antecipa os acontecimentos que estão por vir.

O menino não da muita importância para a minha presença ao seu lado. Prefere observar os pombos, que perambulam sob nossos pés. Um deles estaciona bem em nossa frente. Seu pescoço hiperativo pende de um lado para o outro, questionando-nos à cerca de onde estão as migalhas.

Eu as jogo para ele, que degusta avidamente, usando a ponta do bico para destilar seus modos formais de ave submissa. Passado alguns minutos, eu me dou conta de que não posso estar jogando migalhas, simplesmente porque eu não tenho nenhuma em que esteja pronta a me desfazer... O pobre pombo também não demora a compreender que seu bico só encontra aquilo que eu não joguei.

A realidade é uma brincadeira sarcástica e cruel.

Sei que sou um ser constituído de sobras e farrapos, mas não tenho nem mesmo isso a oferecer. Ou talvez minhas migalhas sejam tão desprezíveis que não sirvam nem mesmo para saciar a fome de um pequeno pombo.

O garotinho se cansa da ave faminta e finalmente olha para mim. Talvez me reprovando por eu não ter feito nada pela fome do pobre animal alado. Condena-me por deixar que a pomba vá à procura de outros bancos onde outros seres talvez tenham migalhas degustáveis.

As minhas são amargas demais para servir de alimento.

– Vamos pra casa agora? – o menino quer saber.

Eu balanço a cabeça negando. Evito o brilho de expectativa em seus olhos.

Desvio o olhar rápido para não ver a dor. Eu sei o que o termo “casa” quer dizer para aquela pequena vida; sei o significado de sua pergunta aflitiva; sei também que a mochila pendurada em suas costas pode responder melhor do que eu àquela pergunta.

Mas inevitavelmente sou traída pelo meu silêncio. Ele é a transparência que eu tento evitar...
Um homem idoso se aproxima de nós. Ele arrasta com certa dificuldade um carrinho pela alça, mas acho que de certa maneira, é o carrinho que o puxa pelas mãos.

– Você quer um picolé? – Pergunto ao menino, quando o velho claudicante para em nossa frente e sugere que a tarde é quente e propícia a uma iguaria gelada.

Dessa vez é o garoto quem balança a cabeça negando. Outra vez eu não me atrevo a olhá-lo por completo. Mas meio de canto, eu vejo que ele está emburrado.

Quer voltar pra casa, eu entendo. Mas como posso levá-lo para um lugar que eu não sei onde fica? Pelo menos nunca encontrei no mundo um lugar onde me sentisse abrigada; um lugar em que eu pudesse chamar de lar.

O velho também se afasta carrancudo. Para ele deve ser inaceitável o fato de que um moleque de seis anos acabara de recusar um de seus deliciosos picolés... No fim das contas, parece que todos nós queremos alguma coisa.

A pomba quer migalhas;
O garotinho quer ir pra casa;
O velho quer que as pessoas consumam;
E eu quero que tudo termine logo...

Foi aqui, neste mesmo banco de praça, de assento desconfortável, áspero e rachado pelo tempo, que fui confrontada por uma das questões mais difíceis que alguém já me fez na vida:

– Por que você sempre se senta neste banco? – Perguntou Lucinda, uma amiga dos tempos de escola. Naquele dia, ela parecia distraída, como se não direcionasse sua questão a mim.

– O que? – eu tentei ganhar tempo. Dizem que responder com outra pergunta denota que não temos resposta e, por isso, tentamos delongar. E eu costumo fazer isso quando sou questionada à cerca de algo sobre mim que nunca parei para refletir – Como assim?

– Ué, sempre que vem nesta praça, você se senta aqui.

– Isso não é verdade – Respondi categórica. O que Lucinda queria dizer com aquilo? Que eu era previsível? Neurótica? Que eu era incapaz de sair da minha regrada rotina?

– Bom, eu sempre vejo você sentada aqui – reforçou ela, convicta.

– É porque eu gosto de me sentar neste banco. Mas se ele não estiver disponível, eu me sento noutro, sem nenhum problema.

Ela não quis combater o meu argumento, mas acho que era porque sabia que eu não conseguiria lhe convencer de nada. Permaneceu sentada ao meu lado, observando uma formiga passear pelo seu braço. Perseguia o inseto que dava voltas em seu cotovelo, como se aquilo fosse ato mais coerente do que minha defesa.

– Era aqui que você se sentava pra dar uns pegas no Edgar; e quando ele te deu um pé na bunda, você veio pra cá e ficou chorando... Sempre que saímos da escola a gente se senta aqui.

– Achei que era você quem escolhia este lugar – Tive que mentir, porque aquelas constatações estavam me deixando nervosa. Era claro que eu já havia me sentado noutros bancos!

– Eu apenas te seguia – completou Lucinda, com ar de indiferença – Mas depois de um tempo, passei a fazer isso no automático, porque entendi que você só fica relaxada quando está neste banco...

Fiquei em silêncio, tentando pensar numa única vez em que eu pudesse ter me sentado em outro lugar... Só consegui me Recordar de uma manhã chuvosa na qual eu insisti em me sentar no mesmo local pelo qual sou acusada de fidelidade, mesmo estando ele molhado e escorregadio. Nas raras vezes em que encontrava alguém aqui, eu me sentia desconfortável, ficava rodando pela praça, feito uma tonta, e acabava indo embora. Acho que até as pessoas que ocasionalmente frequentavam a praça já haviam aprendido que este banco me pertencia. Porque tem sido cada vez mais raro encontrar alguém sentado nele.

A maioria das pessoas evita automaticamente aquilo que foi proclamado por alguém...

E a incapacidade de encontrar justificativa para tamanha obviedade me consumiu por toda a vida.
A complexidade em responder certas questões pressupõe a fragilidade da existência. Talvez este banco velho seja, de fato, o único lugar do mundo onde eu consegui me sentir aconchegada, protegida...

Minha armadura particular.

Mas aquela questão me fez pensar, e do alto de meu amedrontamento, eu procurei justificação. E a cada novo pretexto formulado, uma nova rachadura se fazia em meu concreto quebradiço e frágil. Eu era o meu próprio banco de pedra, o qual eu recusava a aceitar sua majestade ordinária e explícita. Inquietantes e suspeitas eram as minhas conclusões, o que dizer então de meus atos medíocres? De como eu me arrumava toda, sob a alegação de que iria sair para curtir a noite. E no lugar de fazer isso, eu vinha pra cá, me sentar no banco; dos instantes de descontrole porque alguém havia derramado alguma coisa gosmenta no assento e eu tive que ir embora, pensando em voltar com água para lavar o meu minguado pedaço de mundo; dos dias em que eu esperava de longe e em pé, até que os intrusos levantassem e fossem embora, para eu finalmente poder me sentar.

Era estranho pensar no quanto aquele pedaço velho de concreto era presente em minha existência. No quanto eu me encontrava obcecada por isso, e o pior, o quanto as pessoas já haviam notado; comentavam pelas minhas costas...

Eu era a maluca do banco da praça. E talvez temendo que eu os enxotasse ninguém se sentava mais aqui.

Lucinda foi a única que tentou me avisar sobre minha paranoia. Devia ser mesmo uma grande amiga, pois mesmo diante da imensa dificuldade em relatar algo constrangedor, ela foi corajosa e tentou fazê-lo. Focou sua atenção numa formiguinha para fazer parecer que aquela abordagem não era nada demais; que era só uma pergunta sem importância.

Mas o banco da praça era a minha teimosia; o meu hábito pecaminoso...

E outra vez eu estou sentada nele, pois somente aqui sou capaz de resolver questões cruciais de minha desprezível existência. Ou pelo menos, porque eu preciso pensar em como dar algum significado à vida de alguém. E já que eu não sei voltar de nenhum lugar por jamais ter ido, acho que tal ideia acabou se tornando um acalento, porque sou alguém que desconhece o caminho do regresso, e isso me impede de dar espaço ao arrependimento.

O casal que eu aguardo surge ao longe. Adentram timidamente na praça e não precisam procurar por mim, pois sabem em qual banco eu estou sentada.

Os passos dos dois se tornam imprecisos conforme se aproximam. A mulher caminha grudada ao homem; está usando saia longa e blusa de manga curta. Apoia-se com as duas mãos no braço do marido, num gesto que denota toda a sua apreensão. Ele está usando calça social e camisa de manga longa; trajes formais demais para um passeio na praça.

– Estamos no horário – disse o homem, mas eu não soube interpretar se aquilo foi uma pergunta ou se ele está só exaltando sua pontualidade. Sorriu para o garotinho ao meu lado e o cumprimentou, fazendo uma tosca vozinha de criança.

– Nós trouxemos o seu dinheiro – disse a mulher, sem fazer cerimônias. Parece cada vez mais desconfortável. Cada segundo ali, perto de mim, faz aumentar a angústia em seu olhar. Ela teme que eu possa desistir.

– Não, eu não quero mais o dinheiro de vocês.

– Como assim você não quer? – indagou o homem – Nós já havíamos combinado tudo... Quer que aumentemos a oferta?

– Esse dinheiro é sujo. Não é certo receber por uma vida...
– Você vai desistir, não vai? – perguntou a mulher, melindrada. As mãos a apertar cada vez mais o braço do marido.
– Não. Eu não vou voltar atrás... Não sei como fazer isso.

Os olhos dela são duas bolas redondas e brilhantes. Parecem bestificados por testemunhar minhas constatações, ao mesmo tempo em que se sentem aliviados por eu ser louca. Um segundo de lucidez e eu estragaria todos os sonhos de maternidade daquela pobre mulher... Sonhos que foram depositados numa realidade que teme a manifestação da salubridade.

Eu devia mesmo me parecer com uma louca desvairada. Mas contraditoriamente, minha loucura se fez necessária para a felicidade daquele casal.

– Se você quiser podemos fazer um depósito – insistiu o homem, certamente convicto de que importâncias monetárias lhe serviriam como uma espécie de garantia; um seguro contra possíveis arrependimentos – Talvez você não esteja à vontade em pegar o dinheiro assim, dessa maneira.

Assim, dessa maneira... Que maneira ele se referia? Escrota? Vulgar? Canalha?

– Se você me oferecer isso mais uma vez, eu pego o garoto e sumo daqui para sempre!

– Desculpa – ele resolve assumir uma postura submissa, chegou até a baixar a cabeça... Mas eu sei que toda essa encenação é só pra me humilhar; pra fazer transparecer o lixo de ser humano que eu sou; que ele jamais seria alguém capaz de fazer o que eu estou fazendo; seu gesto é pra mostrar o quanto ele se considera melhor do que eu – Por favor, me desculpa. Eu só achei que você estivesse desconfort...

– Já terminamos o que viemos fazer aqui! – ignoro seu apelo e ergo a voz, talvez sejam resquícios do orgulho que ainda me resta. Concentro meu foco nos olhos daquela vindoura mãe, para que ela entenda o que está acontecendo.

Corajosamente, ela permanece firme, encarando-me. Parece conseguir ler tudo o que meu silêncio quer lhe dizer. E seus olhos me retornam respostas que me ajudam a concluir com o ato final:

Sei que o que está fazendo não é culpa sua... Pelo menos, não é somente culpa sua. Sei que mulher é sinônimo de dor. Sei que o fardo sempre fica por nossa conta... Deixe-me te ajudar a carregar este fardo. Prometo que darei a ele tudo o que você tentou e não conseguiu, mas sempre o lembrarei de sua enorme coragem”.

O casal foi embora, levando aquela pequena vida no colo. O pai lhe retirou a mochila para aliviar o peso de suas costas, enquanto a mãe o envolvia em seus braços com terna firmeza... Ninguém olhou para trás e isso é um bom final.

Ao meu entendimento, significa que agora eles são uma família que seguirá sempre em frente. Mesmo quando o adiante não lhes parecer tão nítido.

Por que eu sempre me sento aqui neste banco?

Dizem que cada um tem da vida aquilo que merece. Talvez eu não mereça mais do que um banquinho trincado e velho, cuja estrutura desgastada assemelha-se ao meu coração...

Um lugar cimentado, feio e endurecido.