segunda-feira, 27 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – HERANÇA DE MARIA


Certa feita, durante uma visita à minha querida mãe, ela me contou uma coisa que permaneceu suspensa em minha mente por toda a leitura que, posteriormente viria a fazer deste HERANÇA DE MARIA, obra de Domingos Pellegrini: mamãe disse que Maria era nome de mulher que sofre; que toda a Maria que pisou neste mundo, veio para sofrer.

Contudo, diferente da minha Maria, a Maria que intitula este comovente romance parece se orgulhar de seu nome, até nos momentos em que as coisas não foram como ela planejara. A Maria dentro dessas páginas engole seco, suspira fundo, e continua anunciando para todos os desafios que se apresentam diante de si: “Ou não sou Maria ou resolverei logo essa situação”.

Orgulhosa de seu nome a Maria narrada neste livro mostrou-me que essas mulheres Marias são seres comuns, embora distintas em sentimentos: a minha mãe Maria é humilde em reconhecer a dor incutida em seu registro; a Maria de Domingos é uma mulher austera e destemida, que sabe de seus limites e por isso os esconde com orgulho. Mas por fim, entende que é excepcional como todas as outras, ou do contrário, não seria Maria.

Este livro é, antes de qualquer outra definição, uma emocionante homenagem de um filho que amou e odiou sua mãe em diferentes etapas da vida. No entanto, independente do sentimento, aqui encontramos entre ficção e realidade, a história de uma mulher cuja presença audaciosa deixou marcas em sua alma para toda vida. Então, eis que ele, autor narrador, começa a contar a história de sua genitora voraz, agora irreparavelmente encamada, sob os cuidados de um filho que não sabe quanto tempo ela ainda vegetará daquela forma triste. Intercalando capítulos que vão ao passado de sua família e retornam ao presente, no quarto de casa, onde sua Maria espera pela providência divina.

O ponto mais alto da obra fica por conta da honestidade do autor que parece, de fato, relatar situações intensas de sua vida, de forma muito crua. A intimidade expressada aqui é tocante, profunda, mas não chega a suscitar comoção. Domingos Pellegrini parece externar lugares profundos de sua alma. Em momento algum ele economiza em descrever sua mãe, seja para criticar ou para enaltecer; nenhum dos extremos exerce função narrativa. O que encontramos aqui são apenas os fatos sendo expostos através das páginas da maneira mais crível possível.

Em termo de relato é um livro vigoroso, por isso a dúvida enorme dentro de minha percepção quanto ao que é fato e o que é ficção. Muito cru e essencial, parece colocar seus personagens como realmente foram, excluindo do leitor qualquer chance de suspeita, muito embora sempre haja elementos irreais adicionados por quem desenvolve literatura.

Dois pontos considerei como sendo ápices da beleza na trama: o capítulo em que nos é apresentada a história do canivete, e o capítulo sobre Olguinha que me emocionou bastante a ponto de me fazer ser grato por ter descoberto esse livro.

Talvez a obra incomode os leitores que não curtem esse tipo de narrativa prolixa, sem mocinhos ou vilões, mas altamente sensível e crua, que eleva a proximidade com o que existe de mais humano em nós. Alguns momentos em que são relatados os tempos de conflitos entre ditadura e grupos revolucionários podem incomodar os que não curtem política, mesmo que aqui tenhamos um olhar em primeira pessoa.

Em suma, pode ser que gerações mais jovens pouco se identifiquem com esta obra, embora isso não seja conclusivo. Mas as gerações intermediárias e as mais velhas, principalmente aquelas que tiveram uma Maria em suas vidas, certamente se sentirão representados e se emocionarão quando encontrarem similaridade com suas próprias vivências... Quem vive ou viveu perto de uma dessas incomparáveis Marias, vai saber exatamente do que estou falando.

NOTA: 8,1

quarta-feira, 15 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – SÁBADOS INQUIETOS


Apesar de ser um homem que respira literatura, não foi através de um livro que conheci o escritor José Castello. Eu estava em casa assistindo a uma das muitas palestras que tanto aprecio sobre Clarice Lispector, ao reparar numa delas, um simplório senhor, com pernas cruzadas e olhar atento, que fazia comentários pertinentes e nos momentos certos, sinal inequívoco de lucidez. Era um dos mediadores. Dias depois voltei a ver o nome daquele senhor estampado na capa de um livro que encontrei por acaso num Sebo (é sempre por acaso que descubro boa literatura). Então, associei as possibilidades: um sujeito simpático, consciente e culto; uma seleção de crônicas de sua autoria... Deve se tratar de coisa boa.

Mas de que modo poderia eu resenhar o resenhista? Se após me deleitar com textos amplamente analíticos e charmosos, minhas palavras certamente sofrerão o inevitável efeito da comparação e, por consequência, a constatação de que sou um insípido leitor que se utiliza deste espaço de maneira irresponsável, afinal, falta-me o olhar aguçado e a sutileza crítica de um experiente exegeta como José Castello.

SÁBADOS INQUIETOS é uma coletânea das cem melhores crônicas de Castello, publicadas entre janeiro de 2007 e março de 2012 no jornal O Globo, aos sábados. E embora prefira se autodenominar como apenas um leitor comum, é evidente, já nos primeiros parágrafos de leitura, que estamos diante de um narrador sofisticado, analítico, mas ao mesmo tempo sensível; alguém que de fato esmiuçou cada obra examinada.

As crônicas são gostosas, cheias de referências do universo literário, recheadas de belas citações e aforismos de autores. Muitas vezes nos deparamos com elementos da vida do escritor alvo, curiosidades sobre sua vida ou sua obra, uma passagem interessante daquele livro criticado. Ou seja, José Castello é um engajado estudioso da literatura, o que torna a leitura de suas crônicas um exercício prazeroso. São textos indicativos que nos deixam com vontade de ler as obras referenciadas. Eu mesmo anotei pelo menos meia dúzia de obras que desconhecia, mas que minha vontade de ler fora despertada pela leitura deste amplo catálogo.

Para os leitores que não apreciam poesias, vale ressaltar que o autor é um confesso amante do gênero, portanto, grande parte das citações e autores incutidos em SÁBADOS INQUIETOS é acerca de nomes da poesia, consagrados ou não. Há diversos autores de prosa também, eu particularmente comungo da preferência de Castello por Clarice Lispector, mas é evidente que os escritores de poesias são amplamente mais citados nesta coletânea.

SÁBADOS INQUIETOS é um livro para se ler devagar, para que não se deixe perder as muitas referências charmosas e dicas preciosas. Vale muito como instrumento de pesquisa em diversidade literária, mas não somente, o livro destila seu charme o tempo inteiro, deixando um ar de leveza que distancia de outros trabalhos sistemáticos de críticos que odeiam ser enxergados como deveriam ser: os mais apaixonados e humildes leitores do universo dos livros.

NOTA: 7,7

quinta-feira, 26 de março de 2020

RESENHA DE LIVRO – O NEGÓCIO DOS LIVROS – Como as grandes corporações decidem o que você lê


O escritor tcheco Franz Kafka afirmou que “um livro tem que ser como um machado para o mar congelado dentro de nós”. Quando reflito sobre isso, imagino que um bom livro precisa desbravar a fronteira da ignorância; aquecer o discernimento e expandir o saber “o mar” congelado do leitor.

É difícil pensar em como estou me sentindo após o término da leitura desse O NEGÓCIO DOS LIVROS. O título, quando somado ao subtítulo, parece explicitar com clareza o tema que será abordado: revelar a influência do corporativismo sobre o que estamos lendo, universo geralmente distante da ética e da coerência em suas relações. No entanto, terminei a leitura sem compreender exatamente que caminho o autor quis percorrer. Ou pensando sobre as palavras de Kafka: este livro não foi capaz de quebrar o gelo de minha ignorância sobre o assunto.

Não estou me sentindo enganado, propriamente, nem acho que o título fora meramente uma jogada de marketing (o título da obra em inglês é o mesmo). Por outro lado, o conteúdo parece não ter saciado minha fome de conhecer os bastidores do mundo editorial, mas apenas inclinou-se levemente sobre algo que imagino que todo mundo já saiba: igualmente a qualquer outro mercado, o negócio dos livros também foi engolido pelo capitalismo e seu escopo singular não é outro senão o lucro.

 O autor André Schiffrin foi um respeitado editor nas décadas de sessenta e setenta, cujo universo particular girou em torno do mercado livreiro. Logo, pensa-se que um senhor calejado e imbuído de tanta experiência certamente possui muita história para contar sobre os bastidores desse mercado. Cria-se a impressão de que o cara vai fornecer luz nas trevas do cenário literário.

Mas não é exatamente isso o que acontece. O autor começa o livro fazendo um resumo do início de sua carreira, fala da ascensão e de como se tornou uma referência neste mercado. Em seguida, Schiffrin nos conta sobre o surgimento e o fim da Pantheon, empresa fundada por seu pai juntamente com alguns sócios no início da década de 1940. Então, passeamos por esse tema entremeando nomes de figuras que passaram pela empresa, as transformações que a solidificaram, os focos editoriais que a tornaram referência, etc.

Depois disso, a obra se concentra nas diversas fusões que aconteceram no mercado dos livros ao longo dos anos e que culminaram numa hegemonia absoluta de alguns poucos empresários, onde 95% do mercado pertencem a cinco grupos empresariais.

Os índices de cada capítulo pareciam insignificantes demais, logo a narrativa voltava seu foco aos muitos relatos de companhias gigantes engolindo tudo pela frente. Confesso que em certos momentos o autor parecia até um pouco nostálgico, tamanho era a quantidade de referências e nomes que pareciam fazer sentido unicamente a ele.

Também senti falta de uma figura essencial neste universo dos livros: o escritor. Aqui temos praticamente nada sobre esta peculiar personagem e sua ligação com as editoras. Há ainda um capítulo dedicado a falar sobre censura, mas também é feito de modo generalizado e quase não cita nomes ou traz referências.

Apesar disso, o livro é bem escrito, não é muito longo, o que não permitiu que termos técnicos tornasse a leitura cansativa; apontou para o perigo dos monopólios e fez um delicioso encerramento em que o autor fala da importância desta plataforma chamada livro.

O NEGÓCIO DOS LIVROS é uma obra sobre a experiência de um editor que um dia foi poderoso. Revela sua ascensão e queda e dedica um capítulo exclusivo para exaltar seu novo projeto sem fins lucrativos, o que elevou ainda mais a pessoalidade do conteúdo. Não foi exatamente uma leitura desperdiçada, mas talvez faltou um pouco mais de coragem por parte do autor em revelar os reais entraves desse universo, conforme sua experiência. Ou quem sabe, um pouco mais de teor investigativo que nos ajudasse a vislumbrar este mercado cada vez mais ambicioso, sem um ponto de vista tão genérico e simplista.

NOTA: 5,6

segunda-feira, 16 de março de 2020

RESENHA DE LIVRO – VAGALUMES & PARASITAS


Ser prolixo na literatura é ser detentor de um aspecto que carece de muito mais eficiência do que seu oposto, ou seja, um escritor sucinto. E embora a capacidade de desenvolver uma ideia em poucas palavras seja virtude notável, criar textos longos requer a habilidade de ir além da mera narrativa situacional... Exige profundidade reflexiva.

O método da escritora norte-americana Cynthia Ozick é o que podemos chamar de abundância textual. Porém, como acabei de mencionar, o excesso precisa de prudência incessante para não permitir que a narrativa se torne cansativa.

VAGALUMES & PARASITAS é um parcial exemplo desse problema; uma obra decente e bem escrita, mas que perde a chance de ser excepcional por conta do seu excessivo tamanho. Atravessar suas quatrocentas e cinquenta páginas não é tarefa das mais simples. Não pelo tamanho propriamente, a extensão não é sinônimo de fiasco. Mas porque há instantes enfadonhos que suscitam o desgaste no leitor.

A trama, ambientada na década de 30, é narrada em primeira pessoa, onde acompanhamos o olhar atento de Rose Meadows, uma jovem órfã que anseia por se esquecer de seu pai problemático. Após uma breve temporada vivendo com um primo, ela é contratada para trabalhar na casa de uma inusitada família de alemães que fugiram do caldeirão prestes a explodir que era a Europa desse período. E ao se instalar no interior da família Mitwisser descobrimos através da narrativa meticulosa de Rose o aglomerado de pessoas deslocadas e confusas que agora ela precisa dividir o mesmo teto.

Os aspectos de cada uma das personagens remetem-nos ao estranhamento de pessoas que não sabem como viver num lugar diferente. O Novo Mundo desconcerta a todos e isso logo nos é evidenciado. Rose precisa ser resiliente para sobreviver aos membros da família que estão desconexos e impotentes. A estrangeirice dessas pessoas é um desafio imenso para ela, que analisa o cotidiano como se fosse uma vigia incansável dos Mitwisser, quase como se ela própria não fizesse parte da história... Eis o lado excessivo da autora.

Num primeiro momento, a meticulosidade prosaica de Rose agrada e ajuda a criar empatia no leitor. Porém, após algumas centenas de páginas, isso começa a ficar entediante porque só o que a personagem faz é narrar. Raramente ela expressa alguma emoção ou discernimento sobre o que vê. Há momentos em que é até fácil se esquecer de que a narradora é parte da trama.

Porém, quando começava a surgir em mim vontade de abandonar a leitura, eis que uma das personagens, que havia ficado pra trás, reaparece na história e vi meu minguado ânimo se renovar. Esse ressurgimento foi a salvação do que eu estava prevendo como um final chato e fastidioso por vir. E além de o ato final ter sido completamente diferente do que pairava em minha intuição, devo dizer que o melhor do livro esteve guardado para os últimos capítulos. Houve então enfrentamentos instigantes, diálogos inteligentes e reviravoltas convincentes. Fiquei com a impressão de que Cynthia Ozick se acovardou um pouco e preferiu concluir sem nenhuma ousadia. Contudo, a autora não usou o caminho mais simples e o livro terminou de modo decente e inesperado.

VAGALUMES & PARASITAS é um livro para quem gosta de narrativas alongadas e minuciosas, sem nenhuma imersão. Usa uma linguagem simples que agrada, possui personagens curiosos, mas se estende de forma excessiva. Teria sido uma obra genial se cortasse ao menos um terço de sua desafiante jornada até a deleitável conclusão.

NOTA: 6,1

domingo, 23 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – A MENINA


O título desta obra se torna compreensível apenas quando se lê o subtítulo.  A MENINA é uma designação genérica demais para anunciar qualquer coisa. O rosto da “menina” na capa também revela muito pouco; trata-se de uma completa desconhecida num primeiro momento. Contudo, é no subtítulo, onde se encontra o nome de uma estrela consolidada de Hollywood, que então começa a pairar hipóteses na mente do leitor.

Particularmente eu conhecia pouquíssimo sobre a vida de Roman Polanski, o premiado diretor que, do instante em que passou pela vida da desconhecida jovem que ilustra a capa, a existência anônima da “menina” perdeu todo o confortável aspecto banal que permeia quase todos nós, seres comuns e distantes do estrelato do universo cinematográfico. O problema é que a breve colisão com o ilustre diretor não poderia ter ocorrido de modo mais trágico: a menina do título é a autora Samantha Geimer, a singela adolescente estuprada por Roman Polanski em março de 1977.

Mais de trinta anos depois a vítima, até então desejosa de privacidade e discrição, resolve contar o que houve naquela tarde de fotos na casa do ator Jack Nicholson (vale salientar que Jack não se encontrava em casa). Por décadas este caso dominou as mídias mundiais e atormentou tanto diretor quanto Samantha. E a moça sentiu-se na obrigação de sair das sombras quando, em 2009, Roman Polanski foi detido na Suíça em função de um mandato de prisão expedido décadas atrás.

O que de mais interessante existe neste relato parcialmente biográfico é justamente o olhar feminino sobre o problema do abuso. Samantha relata a problemática de ser uma vítima de estupro e, pior ainda, ter sofrido isso pelas mãos de um homem poderoso do cinema. A vida da autora nunca mais teve sossego, passando a ter que conviver sob a perversa sombra do crime sofrido. O nível de constrangimento tornou-se tão extenso que em determinado momento Samantha chega a alegar que o estupro não foi propriamente a pior coisa que lhe aconteceu, mas a repercussão dos fatos. Distorções inimagináveis tomaram conta do caso e a moça nunca mais teve sossego.

Outro aspecto que vale ser apontado é para o comprometimento com a narrativa mais crível; a autora procura descrever os acontecimentos com imparcialidade impressionante, não somente nos detalhes, mas também nos sentimentos. Samantha Geimer narra o que ocorreu aos treze anos de idade requintando sua história com o inevitável ponto de vista de uma adolescente. Quando ela alcança a maturidade, nota-se no contexto o pertinente ganho de reflexão sobre os acontecimentos; da metade do livro em diante há uma mulher que aprendeu a analisar os fatos com maior propriedade. Isso é tão notório no livro que quase parece se tratar narradoras diferentes em cada tempo.

O ritmo do livro não é cansativo, o que é muito bom quando se está lendo esse tipo de literatura. A linguagem é prosaica, sem nenhuma sofisticação. A diagramação também é limpa, espaçada, o que torna a leitura agradável. Tais características são importantes pontuar porque gêneros semelhantes às biografias costumam cansar quando segue uma linha narrativa mais técnica.

 A MENINA é um livro corajoso e envolvente. Um relato sutil que precisa ser lido, não apenas por aqueles que desejam se aprofundar no polêmico assunto em torno da vida dos envolvidos, mas também para quem anseia por testemunhos de mulheres que precisam lidar com um mundo machista que insiste em puni-las até mesmo quando submetidas às mais horrendas formas de violência. Só temos que agradecer pela coragem dessas mulheres.

NOTA: 7,6

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – NOTURNO EM MANHATTAN


O subgênero romance investigativo, assim como acontece com a maioria dos tipos literários, costuma alcançar leitores variados quando consegue utilizar elementos que não sejam propriamente característicos de sua forma. Isso também ajuda a deixar a trama menos cansativa. Colin Harrison já mostrou que sabe como inserir isso em seus trabalhos, porém o resultado dessa vez foi uma discreta obra intitulada NOTURNO EM MANHATTAN.

Exemplo da boa intuição do autor já se nota no protagonista. Enquanto os suspenses policiais costumam pairar em torno de um investigador ou perito em desvendar crimes, aqui a personagem é um abutre da mídia; um colunista de jornal cujo trabalho é ir à busca de tragédias humanas para desenvolver suas crônicas. Porter Wren, apesar da profissão pouco moral, aparenta ser um sujeito minimamente decente e segue sua vida cotidiana da maneira mais banal possível. Contudo, a passividade que o permeia desaparece no instante em que ele se envolve com Caroline Crowley, viúva de um famoso cineasta. Começa-se um cenário de intrigas, dúvidas e um interminável pisar em solo desconhecido... A vida do jornalista se torna um inferno em tempo recorde.

O autor mantém a mesma pegada prolixa de seus outros trabalhos; Collin Harrison não economiza vocabulário na hora de tecer sua trama, mas a sensação que tive é que neste livro especificamente esta característica funcionou em alguns momentos, mas noutros não.

A narrativa como um todo é agradável mesmo alongando-se em demasia. O autor sabe contar sua história com leveza; ele insere elementos informais, gírias e obscenidades que ajudam a tornar a narrativa mais crível. Também as personagens comportam-se de modo orgânico e inerente, o que agrada bastante. O leitor tem um longo livro pela frente, porém raramente este se torna cansativo.

Mas o problema ocasionado por esta acentuação verbosa acontece no final. Conhecendo outros trabalhos do autor, achei estranha a necessidade em explicar demais os instantes finais. Collin Harrison passa muito tempo narrando o que já foi dito ao longo da trama, esmiúça detalhadamente cada ponto chave da história, como se houvesse uma preocupação com a capacidade de compreensão do leitor. Eu cheguei a pensar que estava diante de um resumo da obra. Talvez isso tenha acontecido pela incapacidade do autor em tornar seu trabalho mais enxuto, pois o livro poderia ter terminado com pelo menos umas cinquenta páginas a menos. Ou seja, a maior virtude de Collin Harrison aqui acabou se tornando um considerável entrave.

Em breves passagens também podemos acompanhar a descrição de uma cidade efervescente como Manhattan, sempre focado em seu aspecto mais lúgubre. O autor nos mostra a marginalidade que permeia a cidade, a miséria dos cidadãos esquecidos e que sempre estão ladeando o glamour e requinte das grandes metrópoles. O livro precisava deste elemento sórdido que assertivamente elevou o dinamismo do texto.

NOTURNO EM MANHATTAN é um livro discreto e bem escrito, porém, exageradamente prolixo principalmente no final. Sustenta os elementos narrativos que fazem de Collin Harrison um excelente escritor, mas peca ao tentar retirar do leitor o prazer de analisar seu conteúdo.

NOTA: 7,5

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – COM OS PÉS ATADOS


Quando comecei a compor esta resenha, eu ainda não havia terminado a leitura. Não é uma situação incomum, geralmente anoto observações sobre o que resenhar ao longo da leitura. Além disso, eu já me encontrava nas páginas finais, porém, já sentia que algumas considerações, deste que foi o livro o qual mais esperei para ler em 2019, precisavam ser pontuadas.

Pois eis que a expectativa pode ter sido o maior entrave que ocorreu durante minha leitura deste circunspecto COM OS PÉS ATADOS: o demasiado anseio pelo retorno ao universo da autora Kathryn Harrison. Eu era bem jovem que li O BEIJO (há uma reflexão sobre ele aqui no blog), obra extraordinária que fez com que eu me apaixonasse pelo estilo de sua autora.  Certamente este fato encheu minha análise de emoções, prejudicando a apreciação racional, ainda mais por ter considerado este livro inferior ao que li anteriormente.

No entanto, antecipo que COM OS PÉS ATADOS está longe de ser um livro ruim, embora caibam algumas considerações... Farei uma breve sinopse e depois esmiuçar os problemas:

A trama se passa na China do século XIX e explora, entre os costumes regionais, o asqueroso hábito de esmagar os pés das mulheres para torná-las mais sedutoras aos futuros maridos. Esse ritual maligno de mutilação que visa acentuar a fragilidade feminina é o pano de fundo. May, a personagem principal, viveu esse tempo, mas ela da um jeito de fugir da submissão incutida ao feminino e vai parar em Xangai onde começa vida nova. Como sinopse isso basta para entender o escopo narrativo. Não vou me estender muito para não tornar a resenha extensa demais.

A pouca noção de importância da trama me incomodou desde o início. Várias personagens dividindo as páginas quase que em igualdade com May acabaram por prejudicar a consistência. Achei que esse descuido interferiu numa familiaridade maior entre personagem e leitor.

Veja bem: isso não chega a ser um problema para o ritmo propriamente, mas inevitavelmente retirou de May sua essência. Depois que temos explicada a origem da protagonista, May simplesmente desaparece ou passa a dividir em igualdade o espaço de importância narrativo. Isso prejudicou na empatia, influenciou na compreensão da história e, diante de um texto que não deixa claro qual dos protagonistas é seu centro, todos acabaram descaracterizados.

Há aqui algumas figuras cujos aspectos quase cativam o leitor. Porém, eles são pouco explorados porque a trama muda de foco constantemente. Posso dar dois exemplos disso: o marido de May, que com sua interminável e quase irracional admiração pela esposa, seria um elemento enriquecedor; ou a sobrinha Alice com seu apego inabalável pelos modos impetuosos da tia. Talvez o livro estivesse suficientemente abastecido concentrando seu fio condutor apenas nestas três personagens. Só que Kathryn Harrison não excede o foco em ninguém, quase a ponto de tornar a leitura enfadonha.

A narrativa sensível, minuciosa e irônica que tanto ansiei por encontrar, aconteceu em pouquíssimos momentos. Quando a autora os insere, o texto imediatamente ganha beleza, se torna atrevido, aprimorado, sofisticado... Senti falta dessa característica brilhante da autora:

“Alice não respondera, mas mergulhara a colher no café, transmitindo insulto com o gesto estudado, cuidadoso, silencioso, de mexer a colher, resolutamente evitando – como jamais o fizera – chocar o talher contra a porcelana”.

Outra coisa que incomodou é que há instante em que temos a impressão de que algumas palavras não foram traduzidas devidamente ao contexto, o que não é conclusivo, afinal, eu não sou nenhum perito em tradução. Mas ao longo da leitura percebi algumas palavras inseridas de maneira estranha e incoerente.

Felizmente os capítulos finais retomam o foco na personagem principal, o que proporcionou um ganho imersivo e consolidou May como protagonista. O ato final não chega a surpreender, mas não descamba para a pieguice e termina no momento certo.

COM OS PÉS ATADOS é um livro mediano, cuja criadora parece ter economizado em talento. Mostra uma história de crueldade com as mulheres de um modo íntegro, sem vitimismo e com algum requinte de beleza. E embora minha expectativa elevada tenha influenciado um pouco, vale à pena ser lido.

NOTA: 6,4

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – O SOPRO DE BELIAL


O ser humano é uma espécie peculiar capaz de perpetrar qualquer ato. Basta apenas que ele dê o primeiro passo.

Essa ideia faz-se verídica quando a personagem Karl Mcquorn chega até uma ordinária casa de repouso para idosos, disposto a oferecer seus trabalhos como pintor, no que parece se tratar de uma despretensiosa ação altruísta. Ele rapidamente faz amizade com um dos internos que, vez ou outra, até o ajuda nos afazeres. Durante a jornada de trabalho, ambos aproveitam para conversar e, aos poucos, o novo amigo descobre que o simpático pintor traz consigo um passado trágico e que talvez ele não tenha viajado tão longe apenas para pintar paredes.

O SOPRO DE BELIAL é um thriller em que os acontecimentos fluem rápido. A cada página virada, a cada capítulo avançado, novas revelações vão sendo feitas, personagens fundamentais nos são apresentados e todos se encaixam na relevante pertinência do axioma que inicia esta resenha: o homem é capaz de assumir qualquer atitude, tudo depende daquilo que o move.

Aqui nada e nem ninguém está inserido por acaso. Tudo terá um propósito, uma explicação. A condução narrativa nos mantém acompanhando as conversas entre Karl e o Sr. Morris – o interno do asilo. E conforme Karl conta sua história, o leitor é transportado ao passado do personagem, no tempo em que precisou ir morar numa cidadezinha do interior, na casa de sua avó, após a mãe ter sido brutalmente assassinada. E como num macabro quebra-cabeça, tudo vai desembocar em causas que fundamentam as atuais ações do presente.

O enredo é engenhoso, constante e convincente. Não é linear, hora ele está fixo no presente e nos revela os dias de trabalho no asilo onde acontecem as conversas entre Karl e o Sr. Morris. Em outro momento, intercala capítulos que narram o passado difícil vivido na casa de sua ascendente. Por falar na avó, Miranda é uma mulher áspera e enigmática; parece viver alheia à realidade ao mesmo tempo em que aparenta ser o escopo do universo lúgubre que acomete seu misterioso lar. Tal problemática é o que torna complicada a convivência com o neto, assim como o deixa obcecado em querer descobrir os mistérios por trás dos aparentes rituais ocultistas que podem estar acontecendo dentro do quarto da avó.

O enredo deixa propositalmente pontos em aberto para que a cada capítulo avançado um novo mistério ou dúvida preencha a mente do leitor. Até que se chegue ao ponto de já não poder separar o que é alucinação do plano real... E tudo se encaixa precisamente nos capítulos finais, os quais nos revelarão desde os intentos que movem o atormentado protagonista, até o obscuro título da obra.

Um ponto negativo talvez esteja dentro da própria trama. A história explicita de forma clara que existem razões escusas movendo as atitudes do personagem principal, mas não existe a preocupação em pontuar os porquês de o protagonista ter demorado tantos anos para finalmente colocar seus intentos em prática. O livro da um salto cronológico e nos deixa com a sensação de desencaixa entre personagens de gerações distintas. O posfácio até consegue dar alguns esclarecimentos de forma eficiente, mas se calcularmos as idades dos envolvidos na trama, isso acaba gerando uma pequena interrogação em nossas mentes.

O SOPRO DE BELIAL é um suspense peculiar onde tudo e todos possuem uma importância. É conciso em sua narrativa e não deixa o fôlego se perder. Trata-se de um sutil rastro de sangue, mortes e rituais obscuros, ladeando todos os envolvidos, permeando cada parágrafo, até desembocar no angustiante e aterrador ato final.

NOTA: 7,9

INTERESSADOS EM ADQUIRIR A OBRA:
https://www.editoraviseu.com.br/o-sopro-de-belial-prod.html

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA (Vol. 1, 2 e 3)


Para que o nosso povo saia da condição infeliz de crença de nação sem memória é preciso que, antes de qualquer coisa, nós brasileiros aprendamos a respeitar a história do Brasil. Acredito que somente através da consideração profunda e continuada é que poderemos pensar em desenvolver melhorias no âmbito da história, essa disciplina tão desprezada pelos brasileiros.

Foi durante a leitura do volume dois que me ocorreu a ideia de fazer uma única resenha com os três livros dessa série, os quais adquiri numa feira de literatura por um preço irrecusável. Mas somente quando estava terminando de ler o volume três, o qual eu pensava se tratar do último, foi que descobri a existência de um quarto livro, o qual até o fechamento dessa resenha ainda me empenho para adquirir.

Portanto, esta resenha trata apenas dos três primeiros volumes.

HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA é uma viagem de mais de quinhentos anos e que começa lá trás, num Brasil colônia, passando pelo império, até chegarmos à república.  Sob uma ótica menos acadêmica e mais orgânica, o livro apresenta aspectos do nosso povo de forma pouco comum na literatura histórica; leva o leitor para dentro do passado da convivência cotidiana, no lar, como as pessoas se banhavam, como extraíam o sustento, os costumes, a vida social, a relação com a natureza, a forma de fazer comércio, a expansão industrial... Sempre sustentando narrativa testemunhal, de pessoas que naqueles períodos estiveram inseridos.

O primeiro volume, COLÔNIA, a autora investiga as tradições e costumes de nosso antepassado, como alimentação, a maneira como se vestiam, onde e como moravam, o que faziam para se divertir, o trabalho, a família, a sociedade de forma geral, sempre sob a luz da vida cotidiana, o que denota o árduo trabalho de investigação histórica da autora.

O segundo volume, IMPÉRIO, relata um Brasil iniciando sua trajetória autônoma como nação. Acompanhamos figuras importantes como Dom Pedro I, muito jovem e inseguro. Mas Mary Del Priore logo escapa da realeza e desce alguns degraus para encontrar a evolução das famílias comuns, a expansão escravocrata, a separação definitiva entre o que é público do privado, os movimentos separatistas que começaram a tomar conta do país.

O terceiro volume, REPÚBLICA, mergulhamos em diversas crises econômicas e financeiras, a proliferação da bolsa, ascensão das elites, embates políticos que culminaram em mudanças cruciais, a vontade de inserir a cultura europeia em nosso meio, a expansão de novas tecnologias que hoje nos são tão triviais como a geladeira, o rádio e o automóvel. Neste volume poderemos ter uma ideia de como era a vida cotidiana dos nossos avós.

A genialidade da autora se torna clara quando da comparação com qualquer livro de história do Brasil endossado pelo MEC que é usado nas escolas. O conteúdo histórico apresentado em sala de aula costuma ser técnico demais, deixando a leitura cansativa e enfadonha. Mary Del Priore foge desse tipo de condução, faz uso de uma linguagem coloquial, insere toda sua longa pesquisa de modo simples e acessível; trata do nosso passado de uma maneira que não poderia ser definida de outra forma: a autora retrata o Brasil com o dedicado amor de historiadora.

Além da extraordinária narrativa, a obra é também belíssima visualmente, trazendo uma enriquecida coleção de imagens históricas, principalmente no terceiro volume em que o acesso ao conteúdo visual era mais amplo.

HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA é uma coleção riquíssima sobre a história do nosso povo. Um inestimável préstimo à alma do Brasil, que infelizmente é desconhecido e ignorado por praticamente todo brasileiro, que por desleixo ou escassez de conhecimento, perde a chance de aprender sobre a nossa história de uma forma acessível, agradável e, por que não dizer, apaixonante.

NOTA: *10*

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – GOETHE E BARRABÁS


O título contendo dois nomes de considerável importância, escritor e personagem bíblica, impulsiona o leitor e enche-o de curiosidade a respeito do conteúdo. Goethe, pensador e escritor alemão do século XVII, criador do personagem icônico Fausto, dividindo espaço com Barrabás, figura bíblica que foi um dos extremos do primeiro plebiscito que se tem notícias, terminou por receber a liberdade, enquanto o filho de Deus foi parar na cruz.
Quando me deparei com o título deste livro, retirei-o com vontade de entender sua premissa. E embora a sinopse não dissesse muita coisa, e o meu minguado conhecimento de literatura deixou escapar o nome de Deonísio da Silva, eu quis levar para casa e descobrir do que se tratava.

Foi um achado prazeroso.

A pegada irônica do autor recheia sua obra com personagens ilustre da literatura ou canônicas, percorre os preâmbulos nebulosos da mente insegura do ser humano e desagua num universo cheio de metáforas cujo pano de fundo é o escopo do Fausto de Goethe: a vontade inerente do homem a alcançar desejos inalcançáveis, e para isso fazer uma barganha com o diabo.

Na trama, nem um pouco previsível, Barrabás encontra na pureza de Salomé a chance de viverem juntos uma bela história de amor. E entremeio aos cativantes personagens que surgem em tempos não lineares, o questionamento máximo aqui sugerido: como ser feliz sem ter que vender a alma ao diabo?

E falando em personagens, quase todos são por demais interessantes. Desde a avó descolada, o padre que nega sua religiosidade no leito de morte, até um estimado animal de estimação, praticamente todos aqui cativam o leitor a ponto de me fazer achar que alguns foram pouco explorados.

Os diálogos são o que de mais charmoso se encontra aqui; o olhar sobre cada tema abordado; a introdução dos capítulos as quais se notam as metáforas fazendo amálgamas de mundo velhos com o atual; a originalidade reflexiva em cada opinião... O texto não se acanha e vai desenvolvendo temas, lançando reflexão na mente do leitor.

A obra parece fazer analogias o tempo inteiro (ou eu terei que fazer releituras para absorver melhor a mensagem incutida), algumas metáforas se inserem seguidamente, como mencionei anteriormente, e nos deparamos com uma história gostosa de ser lida; de pessoas admiráveis e cheias de incertezas.

O capítulo final pareceu o menos atraente. Talvez o percurso agradável da leitura tenha me tornado um pouco exigente em relação ao seu término, mas fiquei com uma leve sensação de que faltou um pouco mais do charme destilado por todos os cantos. De qualquer forma, o nome de Deonísio da Silva, este ilustre desconhecido, já está anotado para que eu procure por mais de seus trabalhos.

GOETHE E BARRABÁS é um livro diferente e que vale à pena ser lido. Diverte, provoca e destila um charme narrativo não muito fácil de encontrar por aí. Poderia ter explorado melhor algumas personagens, mas talvez essa observação seja oriunda da leve frustração por considerar a obra tão enriquecida e ao mesmo tempo tão curtinha...

NOTA: 8,1

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA


Livros que abordam temas complexos de um modo fácil e sustentando linguagem coloquial, deveriam ser obrigatórios em nossas escolas. Não é a primeira vez em que expresso essa opinião, mas é que ela retorna à minha mente sempre que leio uma obra com tais características.

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA escapa dos termos técnicos, dispensa a linguagem acadêmica e entrega seu conteúdo de modo a parecer uma conversa descontraída entre amigos num bar. Ou seja, os elementos aqui são fundamentais para quem deseja se inserir em assuntos herméticos.

Num primeiro momento a condução informal da obra pode soar um pouco displicente, como se o autor estivesse lidando com economia de forma leviana. Mas o truque é encarar o livro como porta de entrada para o assunto proposto. E exatamente isso que o autor faz: uma crítica ao pensamento raso e automático que está incutido na mente da maioria dos brasileiros. Colocar uma interrogação sobre aquilo que parece obvio na truncada economia desse país é um convite do autor para que se acione o pensamento crítico tomando esse livro como ponto de partida para leituras mais abrangentes.

Alguns temas levantados aqui parecem superados num primeiro momento, como, por exemplo, o pensamento do trabalhador brasileiro que considera o patrão um ser maléfico e que deve ser vigiado em rédeas curtas pelo estado, que neste mesmo pensamento equivocado, enxerga nossa legislação trabalhista como um mecanismo divino a proteger os pobres e indefesos trabalhadores. A inclinação libertária e direitista do autor talvez incomode possíveis leitores extremistas de esquerda, o que não é o meu caso. Raramente me desassossego com algum tema, pois me considero um leitor curioso demais para me render a rótulos restritivos.

Leandro Narlock é jornalista e foi repórter da revista Veja. Também foi editor da Superinteressante e Aventura na História. Portanto, o teor jornalístico é notável por todo conteúdo deste volume, assim como também a devida inserção de suas fontes estão expostas para quem quiser se aprofundar ou verificar a autenticidade do que está sendo dito (mesmo que algumas dessas fontes sejam parciais, pelo menos elas estão aqui para serem contempladas).

Eu até poderia considerar a escassez de profundidade na maioria dos temas (tive esse mesmo incômodo ao ler o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, escrito pelo Luiz Felipe Pondé), mas acredito que não é essa a premissa em nenhum dos volumes da série Politicamente Incorreto. A contradição é levantada aqui como pontapé inicial, o que nos leva a pensar um pouco no escopo do título, ao usar o termo “guia”. Não dá pra dizer que estamos diante de um guia, pois falta aqui a mecânica instrutiva que compõe um livro que sirva como manual de instrução de verdade.

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA não chega a ser um livro indispensável, mas vale como porta de entrada para quem deseja entender um pouco os entraves de nossa economia. De linguagem descomplicada, também pode agradar aos leitores que, embora gostem de ler sobre economia, não desejam se tornar doutores sobre o tema.

NOTA: 7,6

sábado, 30 de novembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – O CORTIÇO


São as raras exceções que confirmam uma regra. Se o espaço de convivência é definidor (ou pelo menos influenciador) da moral, então eis que qualquer caso esporádico apenas demonstra o quanto a precariedade de um “cortiço”, em geral, comporta seres humanos inescrupulosos que por conta da escassez precisam lutar como selvagens por seu lugar ao sol.

O Cortiço é uma obra advinda da metade do século XIX que analisa o convívio humano de um modo, digamos, cientifico, quase empírico. Desse ponto de vista, o comportamento de suas personagens seria fruto do meio em que estes se encontram, advindos de uma exposição contundente que parece conferir à trama um escopo de denúncia das injustiças sociais daquele tempo.

A veracidade analítica expressada aqui poderia até ser compreendida como documento histórico ou sociológico, justamente por mostrar de maneira abrangente o surgimento da classe trabalhadora mais humilde.

A trama nos remete à João Romão logo no comecinho e parece seguir com esta personagem como principal. Mas de um ponto de vista alegórico a impressão é de que todos viventes narrados são apenas células da autêntica personagem: o próprio cortiço; jamais li um livro cujo título se encaixe tão adequadamente.

O fio narrativo permeia a ascensão social de João, típico indivíduo advindo do meio proletário e através do capitalismo inescrupuloso se torna rico. João é importante porque é o criador do cortiço; lugar que se torna laboratório de convivência para as mais distintas personalidades sociais. Contudo, o seguimento distancia-se de seu protagonista, proporcionando um olhar maior e mais amplo, possibilitando-nos o testemunho da vida no cortiço como um todo; a obra entende que João Romão tem sua função, mas sabe mesclar seu desenvolvimento juntamente com o do lugar que intitula a história.

O estilo linguístico de Aluísio Azevedo não é excessivo e nem minimalista, narra na dose certa lugares, aspectos, sentimentos. Trata de modo equilibrado seus protagonistas e por essa razão considerei o cortiço como sendo a personagem essencial; todos os envolvidos na trama têm seu nível de importância e o autor não perde ninguém pelo caminho. A harmonia narrativa estabelecida aqui é simplesmente genial.

O Cortiço demora um pouco pra funcionar; requer um tanto de perseverança do leitor, principalmente nos primeiros capítulos nos quais são jogadas quase todas as personagens de uma só vez. Mas com paciência na leitura o livro logo te prende e não larga mais.

A edição que li foi reformulada pela editora Ediouros e o resultado agrada bastante; a linguagem foi revigorada, mas sem deixar que se percam os aspectos vocábulos daquele tempo, isso ajuda a tornar a leitura acessível sem comprometer sua essência.

O Cortiço é outro belo volume de nossa literatura que talvez tenha sido usado de forma errada por nossa pedagogia, pois a ação de obrigar alunos a lerem obras como essa, muitas vezes pode produzir o efeito contrário do esperado: fazer com que o jovem se afaste de nossa riquíssima literatura. Autores como Aluísio Azevedo, Machado de Assis, Clarice Lispector, não devem ser limitados apenas ao escopo didático, mas acima de tudo, a proximidade com o que há de melhor na literatura desses gênios: o vislumbre inebriante de sua riqueza narrativa.

NOTA: 8,3

sábado, 2 de novembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – MOINHOS DE VENTO


Quando se fala em George Orwell, dois trabalhos deste monstro da literatura preenchem a mente do interlocutor: 1984 e A Revolução dos Bichos. E obviamente também são estes dois clássicos do cara que eu carrego como meta de leituras futuras. Contudo, foi vasculhando acervos de usados pela internet que encontrei este então bem mais modesto MOINHOS DE VENTO, que por conta da casualidade acabou sendo minha primeira incursão no universo literário de Orwell.

Minha leitura de MOINHOS DE VENTO remeteu-me, de imediato, a aspectos os quais já haviam me alertado sobre o estilo do autor: a contradição do ser humano, o apontamento para o sistema opressor capitalista, e talvez um dedo na ferida sociológica de seu tempo.

A trama conta a história de Gordon Comstock, caricato cidadão inglês de infância pobre, cujo pavor ao sistema capitalista moedor de carne humana lhe remete a paranoias prejudiciais para sua subsistência e o enterra, cada vez mais, no fundo do poço. Gordon veste sua aversão ao regime econômico vigente até a fase adulta, situação que torna quase nula suas perspectivas existenciais.

Perceba que esta breve sinopse já denota o tipo de literatura que o leitor ira se deparar. Pois eis que durante a leitura, outros elementos da narrativa de George Orwell permeiam o tempo inteiro, algumas delas com um sutil teor de protesto. A que mais me chamou a atenção foi precisamente a hipocrisia do ser humano, incutida na personalidade da personagem principal.

Gordon é um homem aparentemente bem instruído, dotado de sagacidade peculiar ao analisar a sociedade que o rodeia, assim como também aspira ao universo da poesia. No entanto, quando prega seu repúdio ao dinheiro, Gordon mais se parece com um sofista, pois se imbui de discurso irreprovável, mas na prática carece o tempo inteiro de recursos econômicos para sustentar suas obvias necessidades; ele quer parecer desprendido da ganância substancial e até classifica o dinheiro como uma espécie de Deus escravocrata. Mas mesmo dentro de uma realidade quase que de mendicância, Gordon segue recusando possibilidades de crescimento econômico, ao mesmo tempo em que vive sugando os escassos recursos de sua irmã.

É uma assertiva narrativa da corrupção dos ideais que o autor tão bem nos entrega. Orwell não se priva de mostrar a frustração e revolta de seu protagonista em pé de igualdade com o comportamento discrepante que reconhece e até aceita as regras consumistas.

Eu diria que um probleminha a ser mencionado é o final, que considerei previsível e me deixou com a sensação de esgotamento, como se tudo o que havia para ser dito aconteceu, deixando a conclusão sem grande acabamento. Mas creio que isso não chegou a incomodar muito.

MOINHOS DE VENTO (até agora não entendi o título em português) é obra de um dos maiores romancistas do século XX. E embora eu ainda não tenha lido seus trabalhos mais notórios, foi evidente verificar seu domínio narrativo. Espero ler mais de Orwell, cujo método literário contribui para iluminar nossas mentes escuras no que concerne a complexidade humana.

NOTA: 7,7