quinta-feira, 7 de março de 2013

RESENHA DE LIVRO – A Vida Secreta da Gente



Era manhã de domingo. Eu vasculhava o armário da despensa á procura de papéis velhos para acender a churrasqueira, quando encontrei, em meio á uma pequena pilha de jornais, algumas edições de uma revista dominical chamada AG.  Meus instintos de leitor compulsivo geralmente me impedem de ir atirando uma revista no fogo, sem antes me certificar de que não há absolutamente nada de interessante nela. Portanto, já da pra imaginar que a função de selecionar papéis velhos é uma missão demorada para alguém como eu.
E foi folheando as páginas daquela revista esquecida, que encontrei, pela primeira vez, a coluna de uma cronista chamada Maria Sanz Martins. Mal havia começado a ler sua crônica e eu já estava perplexo com tamanha intimidade daquela autora com as palavras. Com uma incrível naturalidade em descrever o cotidiano, ela conseguiu tocar o interior existencial do ser humano falível que sou. E já sem me lembrar do verdadeiro propósito pelo qual estava dentro da despensa, lá estava eu, afundado no meio de tralhas velhas e mantimentos, á procura de mais edições da revista que abrigava entre suas páginas um talento tão atraente.
Obviamente o churrasco aconteceu naquela manhã, mas desde então, eu passei a ser um frequentador assíduo da despensa e do jornaleiro, aos domingos, só para comprar o jornal que continha a revista na qual apenas os textos daquela cronista chamada Maria me interessavam.
Passado alguns dias, enviei um e-mail para a autora (sim, quando admiro bastante o talento de um escritor, me sinto meio que na obrigação em, de alguma forma, parabeniza-lo). Nada demais, foram apenas elogios á cerca do esplêndido trabalho que ela vinha desempenhando, e terminei o e-mail sugerindo que ela escrevesse um livro de crônicas.
Então os dias se passaram. E eis que numa bela manhã, ao abrir minha caixa de mensagens, lá está um remetente com o nome: Maria Sanz Martins. Á princípio fiquei estupefato, pois são raros os autores que se dão ao trabalho de agradecerem á um e-mail. Além do mais, esse não é o objetivo de meus e-mails; faço apenas para saciar minha consciência de “missão cumprida”, pois como eu disse, gosto de parabenizar autores. Mas Maria me agradeceu de maneira efusiva e sincera. Chegou até a mencionar, devo dizer que com uma exagerada modéstia, que não se sentia preparada para escrever um livro naquele momento (isso já faz alguns anos).
Mas o benigno tempo nunca para, e eis que no início de 2012, eu sorrio ao descobrir que finalmente esta esplêndida autora, orgulho para nós capixabas e de mesmo nome de minha mãe, resolve nos brindar com seu primeiro livro de crônicas, intitulado “A Vida Secreta da Gente”, nome que é o mesmo de um dos mais belos textos do livro (foi lançado recentemente a segunda edição. Soube disso enquanto escrevia essa resenha). Carismática na dose certa, as crônicas deste belo trabalho são incrivelmente feitas como se a autora dissecasse a alma de nosso cotidiano, para transcrever aquilo que a cegueira causada pela correria de nosso dia-dia não nos deixa ver.
Por que este livro é especial?
Porque são raros os autores que conseguem despertar minha inspiração, nos dias em que a mente está vazia feito um limbo. E “A Vida Secreta da Gente” arranca na marra este estímulo em mim, quase que imediatamente ao abrir suas páginas.
O livro termina com uma breve frase que diz:
“Que as palavras nos encontrem”.
De fato, as palavras fizeram com que autor e leitor se encontrassem, mesmo que através de um simples e-mail, num dia desse qualquer. Mas foi muito prazeroso ver uma breve e imparcial sugestão, ser transformada em um dos melhores livros de crônicas que já li na vida.
 E que as palavras continuem á nos encontrar.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

RESENHA DE LIVRO – Metallica – All That Matters


Sempre gostei das biografias, pois elas me fazem aprender, cada vez mais, que o sucesso depende primeiramente do quanto nos dedicamos á nós mesmos. E este relato da trajetória de uma das maiores banda de rock de todos os tempos não é diferente.
Metallica – All That Matters é uma história de resistência e perseverança, de seres-humanos que dedicaram todos os seus esforços e enfrentaram suas próprias adversidades em prol da realização de um sonho. Um sonho chamado Metallica.
Aqui vemos um resumo de tudo, desde traumas praticamente insuperáveis como a morte do baixista Cliff Burton, passando por conflitos internos, chegando á desintegrações públicas que certamente teriam derrubado qualquer banda cujo foco no objetivo fosse menos intenso, e chegando á maturidade e experiência de seus integrantes, condição que é claramente notada em seu último trabalho, Death Magnetic.
O legado do Metallica, mesmo que muitas vezes controverso, influenciou inúmeras outras bandas de rock, assim como mostrou ao mundo que a pressão da mídia nunca foi algo suficientemente forte para impedir o quarteto de derrubar paradigmas e mudar tendências. É preciso coragem para dar a cara aos fãs, e James e sua turma sempre o fez, mesmo quando todos pareciam discordar de alguns de seus trabalhos. Você pode até não gostar de algum disco do Metallica, mas é impossível não reconhecer a determinação e coragem dos caras em mudar de ritmo á cada disco entregue. Uma condição rara, que apesar de alguns torcerem o nariz, fez com que o Metallica se tornasse talvez a única banda de Thrash metal no mundo, capaz de atrair fãs de todos os gostos.
O autor Paul Stenning fez uso de suas habilidades como jornalista, buscando conteúdo baseado em entrevistas, revistas, livros e comentários de pessoas que estiveram próximas á banda. Revirou as entranhas do gigante do metal para expor os bastidores, os vícios e as virtudes do Metallica.
Se você é fã da banda como eu, então eis aqui uma joia imperdível para ler, reler e exibi-la em sua estante de livros. Mas se você faz parte da minoria que não aprecia o talento do Metallica, assim mesmo eu lhe recomendo esta bela biografia, reforçando aquilo que disse no início desta resenha: biografias nos mostram que o caminho para o sucesso não é tortuoso nem é algo apenas para os sortudos. Sucesso é algo alcançável, mas que requer muito empenho e atitude de si mesmo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

RESENHA DE LIVRO – Não Conte a Ninguém


Fazia tempo que eu não lia um livro tão rápido. Sim, o clima deste “Não Conte a Ninguém” é tão sedutor que é quase impossível não sentir aquela sensação de arrependimento por precisar fecha-lo antes do fim.
Este é, talvez, o trabalho mais aclamado do escritor Harlan Coben (com justiça), ganhador de vários prêmios em 2001, e que teve uma adaptação para o cinema em 2006. Confesso que, embora sempre me sentisse atraído pelo livro e seu título convidativo, quando o via nas prateleiras, sempre o deixava para depois. Mesmo diante dos burburinhos entre as comunidades leitoras de que este era um ótimo livro, preferi esperar todos esses anos (não costumo comprar livros me baseando nos alardes dos leitores, pois se assim o fizesse eu teria, a contragosto, toda a coleção de Crepúsculo em minha estante. Nada contra os fãs da série). A verdade é que é difícil encontrar os grandes livros no meio de tantas prateleiras abarrotadas nas bibliotecas. Sem contar que eu sempre chego à loja já com uma enorme de lista dos títulos que quero ler como prioridade. De qualquer forma, é um gostoso arrependimento, pois como leitor compulsivo que sou a vez daquele livro esquecido sempre chega.

O desabafo acima serve para enfatizar o quanto “Não Conte a Ninguém” é excelente; leitura obrigatória para quem curte um bom suspense. Daquelas que nos prende do início ao fim, bem ao estilo alucinante dos livros de Sidney Sheldon.

O fantástico enredo gira em torno de David Back e sua esposa Elizabeth. O casal é atacado quando comemoravam o aniversário de seu primeiro beijo. Ela é brutalmente assassinada, enquanto ele recebe um forte golpe na cabeça e cai num lago, inconsciente. O caso é rapidamente resolvido pela polícia e o assassino condenado. Só que oito anos depois do atentado, exatamente no dia em que marca a data da morte de Elizabeth, David Back recebe uma mensagem estranha em seu computador. Nela, há referencias que somente sua falecida esposa poderia conhecer, levantando a improvável hipótese de sua esposa estar viva. Pra rechear ainda mais a salada, a polícia descobre dois corpos enterrados no local onde ocorrera o atentado contra David e sua esposa, trazendo á tona uma série de questões sobre o que realmente aconteceu naquele dia.

O desenvolvimento dos fatos não possui um ritmo ininterrupto; segue uma linha firme, de capítulos curtos e em doses equilibradas de adrenalina e tensão, mas sem entrar na pieguice. E conforme a trama se desenrola, outras questões são inevitavelmente levantadas pelo leitor. Mesmo aquelas que não são diretamente expressadas pelos personagens da história. Há momentos em que nos sentimos tão absortos pela leitura que parece que iremos encontrar uma nova revelação em cada parágrafo. Coisa de mestre.

Ao final desta deliciosa leitura, tratei de procurar um pouco mais sobre este gênio chamado Harlan Coben, a fim de comprar outros títulos do cara. Pois se ele dispôs em seus outros trabalhos, metade da criatividade que usou neste “Não Conte a Ninguém”, certamente teremos garantia de outros bons livros do autor.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

RESENHA DE FILME – O Hobbit – Uma Aventura Inesperada



Provavelmente a melhor coisa neste filme, e que na certa tem sido o principal trunfo nas mangas do diretor Peter Jackson, é a gostosa sensação de retornar á Terra Média. Porque é simplesmente impossível não se apaixonar outra vez pelo mundo criado por J. R. R. Tolkien. E quando você menos espera, está novamente hipnotizado pelas paisagens épicas e abundantes do mundo encantado dos Hobbts.

Peter Jackson se tornou um especialista em dar vida ao mundo de Tolkien. Aqui ele mostra que continua afiado, e que é, sem sombra de dúvidas, o diretor oficial da Terra Média. Jackson nos brinda com mais um verdadeiro show de imagens belas e que de tão intensas e constantes, ás vezes até nos passam despercebidas. A trilha sonora agrada aos ouvidos com canções características de cada ambientação, exatamente como na trilogia de O Senhor dos Anéis.
A premissa de O Hobbit – Uma Jornada Inesperada é bem simples; o jovem Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) decide partir numa perigosa aventura ao lado de seu velho amigo Gandalf ( o sempre talentoso Ian Mckellen) e mais um bando de anões valentes (os pequenos parecem fazer parte de um time de competição de barbas. É um vasto show de pelos que fazem inveja em qualquer viking que se preze). Juntos, eles pretendem retomar a antiga cidade dos anões de Érebor, sitiada pelo Dragão Smaug. A viagem é longa e os perigos espreitam por todos os lados (particularmente eu acho um equívoco a coisa se tratar de uma jornada tão arriscada, e todo mundo sair praticamente ileso. Nem mesmo o desabamento de uma montanha sob as cabeças barbudas é capaz de dar cabo de alguém). As cenas de ação ficaram muito bacanas e os efeitos especiais são usados na medida certa. O propósito do roteiro é mostrar uma grandiosa aventura, e não uma mera desculpa para colocar os personagens em ação, coisa que infelizmente tem se tornado realidade em grandes produções.

Acho que o filme cometeu apenas um pequeno deslize. Ou porque não dizer, um demorado deslize; que é justamente a duração do filme. Á meu ver, a trama ficou um pouco extensa. Na certa, a ganância mais uma vez tomou conta dos produtores, que quiseram ganhar mais dinheiro e preferiram dividir o filme em duas partes (na internet eu li alguma coisa sobre serem três partes, o que se tratando de um único livro, é muito filme), deixando nas mãos do diretor a dura missão de preencher os muitos espaços vazios com coisas desnecessárias.

De qualquer forma, nem mesmo isso conseguiu estragar a produção, porque quando se está hipnotizado pela Terra Média, tempo é o que menos importa.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A COMOVENTE HISTÓRIA DE UMA SURDOCEGA QUE SE COMUNICA ATRAVÉS DO TATO


Muitas vezes a luta e a superação de algumas pessoas fazem as minhas ambições parecerem meras futilidades. Digo isso porque é simplesmente impossível não se surpreender com as conquistas de uma campeã da vida chamada Heldyeine Soares. Surdocega congênita, a garota alcançou o inimaginável ao aprender a se comunicar através do tato. E sua história nos é apresentada no seu recém-lançado livro, intitulado “Heldy Meu Nome – Rompendo as barreiras da surdocegueira”, que foi escrito pela pedagoga Ana Maria de Barros Silva; apenas mais uma que ficou impressionada com o desempenho de Heldyeine.
Quando tinha pouco mais de um ano de idade, a pequena Heldyeine se resumia em chorar e se arrastar de costas no chão, condição que lhe deixava com falhas no couro cabeludo. Sua situação era resultado da rubéola contraída pela mãe durante a gravidez. Heldyeine era tida como um caso vegetativo sem solução. Mas com o passar do tempo, a pequena mostrou que os diagnósticos estavam errados e pouco a pouco, foi aprendendo a pegar objetos, andar, alimentar-se, tomar banho, e até mesmo reconhecer pessoas e expressar emoções. E pasmem; ela faz tudo isso por meio do toque.
Atualmente Heldyeine se comunica por Libras (Língua Brasileira de Sinais) tátil, ou seja, todos os sinais são feitos com as mãos, tomando formas através de gestos que identificam coisas e pessoas. Ela aprendeu á fazer até bijuterias em sua casa. Uma verdadeira história de superação; de um ser humano que encontrou luz em sua existência escurecida.
Toda essa lição de coragem só foi possível primeiramente por conta da determinação e vontade dessa pessoa incrível chamada Heldyeine, e que também recebeu o amparo e o apoio da mãe e das irmãs mais velhas. E agora através de seu livro o mundo inteiro poderá compreender que a palavra impossível só existe no dicionário dos fracos.
Ah, e se você está se perguntando, a resposta é sim; Heldyeine está lendo os primeiros capítulos de seu próprio livro, que foram enviados á jovem em braile; existe um projeto da editora para também lança-lo nesse formato.
Eu sei, lições de vida como essa nos fazem sentir vergonha daquela última vez em que reclamamos por não ter conseguido terminar uma insignificante tarefa no prazo, ou de ter deixado escapar aquele curso de capacitação profissional, simplesmente por achar que ficava longe demais de nosso alcance.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

MATÉRIA: É POSSÍVEL ENTENDER O AMOR? A CIÊNCIA DIZ QUE SIM


Vamos falar de algo complexo em nossa vida: Amor.
Como anda esse departamento na sua? Você tem certeza de que já encontrou sua cara-metade? Por que um sentimento conhecido por ser extremamente forte como amor pode acabar?
Essas são perguntas mais do que conhecidas quando entramos nesse assunto. E por mais que se pense que “Amor” seja um tema inexplicável, a ciência começou a concluir que não. Que existem dados conclusivo e muita lógica no amor. Alguns cientistas até já determinam com a maior fundamentação que existe uma fórmula. É o caso de matemáticos da Universidade de Genebra, que estudaram o comportamento de mais de mil casais, analisando diversas características dos cônjuges. Eles concluíram que para uma maior taxa de felicidade e menor risco de separação num relacionamento, a mulher deve ser 5 anos mais jovem e 27% mais inteligente do que o homem. E que o ideal seria experimentar bastante antes de decidir. Logicamente essas conclusões são puramente estatísticas, ou seja, elas projetam um cenário ideal, mas sem levar em conta decisões e a complexidade humana.
Todas essas informações técnicas, e algumas nem tanto, sobre o comportamento á dois podem ser vistas no livro da Neurologista de UFRJ Suzana Herculano Houzel, intitulado Sexo, Drogas, Rock’ n’ Roll... & Chocolate – O Cérebro e os prazeres da vida cotidiana.

Alguns dados que encontramos no livro são curiosos e nos ajudam, pelo menos no sentido de direção. Por exemplo, pesquisas mostram que em 68% dos relacionamentos sérios, as pessoas foram apresentadas por um conhecido. E que cerca de 60% dos romances surgem em ambientes semiprivados, como escolas, trabalho ou festas particulares – lugares onde a afinidade entre pessoas é naturalmente maior. Só 10% dos romances se originam em bares e baladas. Outra coisa curiosa é que a pílula anticoncepcional pode interferir na capacidade olfativa da mulher em reconhecer o que lhe atrai. Aquela famosa “coisa de pele” que ás vezes nós afirmamos sentir, e que a ciência diz ser um fato.
Outros estudos interessantes, e que apresentam uma cara mais conclusiva aos relacionamentos, têm sido realizados pela antropóloga e especialista em estudos da relação entre amor e cérebro, Helen Fisher.
Eis abaixo, um pequeno teste oferecido por Helen, que serve para analisar o nosso atual grau de paixão. Segundo recomendação dela, para saber seu nível de satisfação com o parceiro, basta responder á esse teste baseando-se numa escala de satisfação de zero á dez:
Teste de nível de satisfação
1)      Quanto tempo durou e quanto foi satisfatório o seu último relacionamento sério?

2)      Imagine que você está numa festa. Muita gente interessante, troca de olhares e azaração. Sabendo que inicialmente os homens dão mais valor á beleza e a juventude, enquanto as mulheres estão mais preocupadas com o nível socioeconômico do parceiro, você se sente pronto e capacitado para disputar com seus concorrentes?

3)      Quanto tempo você pensa na pessoa amada por dia?

4)      Quanto você vai ao paraíso ao receber uma ligação, e-mail ou mensagem da pessoa amada? E o quanto você fica deprimido quando ela some?
A antropóloga afirma que esse teste, quando feito no início de um novo romance, os números tendem a ser sempre algo próximo do nível mais extremo. E após um período superior á seis meses, o ato de refazer esse mesmo teste mostra bem claro o quanto os dados se tornam mais modesto. Uma prova de que o amor começa quente e vai ficando mais morno com o passar do tempo. Coisa que não acontece na Índia, por exemplo, onde 95% dos casamentos são arranjados, fazendo com que as relações amorosas por lá seja algo progressivo, o que também não significa que sempre darão certo.  
Em minha opinião, paixão e amor são duas coisas totalmente diferentes, mas ambas acontecem de maneira inexplicável e repentina, porém nem sempre evolutiva. A dica desse post fica mesmo por conta do livro aparentemente interessante de Suzana Herculano Houzel, assim como os testes e pesquisas feitos pela americana Helen Fisher, que podem ser encontrados na Internet. Afinal, amor é sempre um sentimento que vai nos intrigar e chamar nossa atenção. Esteja você apaixonado ou não.

domingo, 23 de dezembro de 2012

RESENHA DE LIVRO - O Sári Vermelho


Um livro sobre política misturado com romance ou um romance cheio de política? Talvez a melhor coisa neste “O Sári Vermelho” seja a habilidade do autor em conduzir uma história de personalidades políticas, contada de forma imparcial, natural e simples. Uma narração acessível que prende o leitor do início ao fim do livro; empreitada que considero difícil por conta de se tratar da saga dos Nehru-Ghandi (não, o sobrenome Ghandi aqui não tem nada a ver com o famoso Mahatma, embora o patriarca da família Nehru tenha lutado ao lado do líder pacifista), família que governou a Índia por praticamente todo o século XX.
Javier Moro conta a história da vida de Sonia Ghandi, estudante italiana que aos dezenove anos conhece, em Cambridge, um jovem indiano chamado Rajiv Ghandi. Ambos se apaixonam e se casam. Só que o cara pertence á estirpe mais poderosa da Índia, o que muda completamente a vida de Sonia, que agora precisa se adaptar às mudanças radicais em sua vida, assim como inevitavelmente ela passa a fazer parte do meio político indiano.
O que mais agrada nessa biografia não autorizada (nenhum membro da família Nehru-Ghandi forneceu informações ou consentiu com esse livro. Todo o material foi baseado em incansáveis e minuciosas pesquisas, feitas pelo autor), foi o realismo de cada relato da vida dos personagens, o que nos faz entender um pouco a difícil tarefa de governar um país que vive em constantes diferenças religiosas; que adora mais de vinte milhões de divindades; que fala mais de oitocentos idiomas. A vida desses políticos é regida sob o medo constante de ataques terroristas de facções extremistas.
Outra coisa legal é o engajamento da luta de Sonia, uma italiana que aprendeu a amar o país do marido e que mesmo contra a vontade, assumiu cargos políticos após a morte de Rajiv, tornando-se uma das mulheres mais influentes e carismáticas do mundo.
O Sári Vermelho é leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco da Índia. Um verdadeiro deleite para os amantes de biografias, assim como uma espécie de manual da história política daquele país. Muito melhor do que novela das oito.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

COCÔLOGIA


Meu ritual quando vou ao banheiro descarregar o intestino consiste em: levar uma revista, mesmo que eu leia muito pouco quando estou no trono (o ato de ler atrapalha minha concentração. Geralmente levo a revista pros dias em que a criança demora a nascer); sentar-me na louça do vaso (nunca gostei da almofadinha do assento sanitário); conferir o papel após a limpeza para checar se o “danado” está realmente limpo; e finalmente observar o aspecto do resultado que ficou no fundo do vaso. E é exatamente este último ato a proposta imposta pelos autores Anish Sheth e Josh Richman com seu livro intitulado “O que seu cocô está dizendo á você”.
Sim, o titulo parece piada e embora o tema seja tratado de maneira hilária pelos autores, o livro é de conotação didática. Os autores dissecaram o assunto e foram aos confins da "merda" para nos revelar tudo aquilo que não prestamos atenção antes de darmos descarga. O estudo sobre o cocô nos brinda com informações que vão desde qual é a posição mais confortável, até problemas de saúde que podem ser identificados apenas verificando o estado, cheiro e a tonalidade de nossas fezes.
A obra já não é novidade. Foi lançado em 2008, mas como se trata de um assunto que é raramente discutido em meios sociais, achei interessante divulgar o trabalho. Afinal, não é todo dia que vemos um livro exclusivamente dedicado ao infame cocô.
O que seu cocô está dizendo á você” é, segundo o que li, uma divertida e inusitada leitura, que serve como um catálogo para ensinar, explicar e dar dicas sobre esse fundamental e indispensável alívio natural. Você vai aprender rindo, e descobrir que “cagar” é algo muito maior e mais importante do que simplesmente “passar um fax para o departamento de esgoto”.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

RESENHA DE LIVRO - Lugar Nenhum


Criar um conto de fadas baseado nas questões sociais do mundo atual. Essa foi a impressão que tive ao percorrer as páginas deste “Lugar Nenhum”, onde a famosa cidade Londres mascara uma outra Londres, usada para abrigar a escória da sociedade. E é esta Londres de Baixo, infestada das mais incríveis e bizarras criaturas, que serve de cenário para a trama do livro, nos dando um elevado vislumbre do que seria viver em meio aos esgotos de uma grande metrópole. Obviamente, isso seria como estar em “Lugar Nenhum”.
Logo nas primeiras páginas, mais ou menos no instante em que Richard Mayhew (personagem principal da história) resolve socorrer uma garota ensanguentada na rua e acaba indo parar na fétida Londres de Baixo, eu confesso que estava ficando um pouco entediado com o rumo no qual a trama estava seguindo. E para piorar, o leitor precisa, de forma repentina, a se adaptar com a inserção imediata de falantes criaturas esquisitas, sem a menor explicação do autor. Isso acabou me causando um pouco de desconforto com relação ao texto.
Mas com o avançar na leitura, e ajudado por uma deliciosa e viciante narrativa, logo vi que esses mesmos aspectos que me incomodavam inicialmente, se tornaram um ponto de distinção; é um convite para que desabroche a imaginação do leitor. Eu acredito que esse é o principal objetivo de um escritor: dar-nos asas á imaginação.
Sim, o texto é tão suave que envolve e embevece, nos conduzindo á um único foco: a trama. Essa característica do autor, Neil Gaiman, também contribuiu para camuflar os possíveis erros descritivos, normais em livros fantasiosos, assim como a escassez nos detalhes ambientais. E mesmo com o roteiro seguindo em sua fantasia cinzenta e desvairada, logo nos sentimos completamente familiarizados com ratos falantes, seres disformes, esgotos obscuros e até mesmo anjos.
O personagem principal não é muito carismático e possui personalidades fracas. Mas acredito que até mesmo tais peculiaridades foram propositais; talvez Neil Gaiman, de fato, queria um cidadão londrino mediano e pouco expressivo para sua trama. E é o que acontece: Richard inesperadamente vai parar na Londres de Baixo, dando inicio á uma aventura incrível e cheia de perigos, situação que obviamente sacode toda a estrutura do cara.
Como eu disse anteriormente, “Lugar Nenhum” é exercício para a imaginação, numa leitura agradável e rápida. Fiz uma busca na Internet, e descobri que esse foi o livro de estreia do autor, mas que ele já havia feito adaptações com o roteiro do livro em HQs. Isso denota sua familiaridade com o texto. Quanto a parte criativa, não sei se tudo saiu da mente de Neil Gaiman, mas o submundo descrito no texto ficou bem legal. O único aspecto que considerei negativo foi a dupla de vilões, o Sr. Group e o Sr. Vandemar; eu achei ambos chatos, previsíveis e insossos. Mas nem isso conseguiu estragar a fantástica viagem que foi percorrer os misteriosos esgotos de uma Londres esquecida... Uma Londres que poderia ser chamada de Lugar Nenhum.

sábado, 27 de outubro de 2012

CRÔNICA: O Jardim das Delícias fica no Sul

Certa vez, eu assisti á uma palestra em que o conferencista, um psicólogo e terapeuta, confessou-nos jamais ter conseguido curar uma pessoa apaixonada, devido á tamanha complexidade. Pois se paixão é um mal irremediável, eu posso-me autodiagnosticar como um doente incurável. E esse inesperado apego obsessivo teve início em minha última viagem de férias, quando fui completamente seduzido pelos encantos de uma pequena cidade... Uma cidade chamada Gramado.

E após cinco dias vivendo sob os encantos da serra gaúcha, estou de volta ao lar. Ainda com pensamentos embevecidos como os de um adolescente cismado com o primeiro amor, resolvi escrever sobre essa paixão. Afinal, é a única coisa que paira em minha mente nesse momento.
Contudo, fica uma dúvida:
Como fazer com que o leitor tenha um leve vislumbre do que foi meu testemunho do paraíso, apenas lendo esta pequena crônica?
Quem já esteve em Gramado sabe que a tarefa é simplesmente impossível. Talvez nas mãos de um grande mestre da literatura (eu poderia citar vários) este ato pudesse se aproximar um pouco do enorme êxtase que foi a experiência que vivi. No entanto, minha condição de indigno só faz com que eu sinta ainda mais a ânsia por escrever. Afinal, todo mundo sabe que não existe diploma de apaixonado, e que nossa categoria adora cometer as mais incríveis loucuras, não é mesmo?
Eu poderia começar esta inviabilidade afirmando que minha paixão por Gramado foi amor á primeira vista, mas estaria mentindo. Porque minhas primeiras impressões ao chegar á cidade, foi que ela não passava de uma mera cidadezinha... Muito doce e pacata, porém tudo o que eu encontraria ali seria um lugar aconchegante onde eu pudesse descansar sossegado.
Mas a magia me aguardava. Talvez se espreitando por entre as margens da rodovia de acesso, completamente arborizadas, num tom de verde intenso que jamais havia visto. Ou decorando as primeiras fachadas floridas que notei; todas impecavelmente belas. Não sei se minha cegueira suburbana não me permitiu ver inicialmente, mas eis que foi inevitável não notar esta magia, quando ela tomou emprestada a face do recepcionista de nossa pousada e se transformou no sorriso mais sincero e intenso que um estranho já usou para me dar as boas vindas. Sorriso este que logo percebi, era sempre vivaz, alegre e acolhedor. Eu pude revê-lo inúmeras vezes, em inúmeros lugares e rostos diferentes...
Você poderia contestar dizendo: “mas é claro que você foi muito bem recebido, Michel. Mais de oitenta por cento da cidade vive do turismo, e você é apenas mais um ganha-pão que acaba de chegar.”. Mas eu gosto de acreditar que a realidade vai além do óbvio interesse. Porque foi como se existisse um campo magnético cercando a cidade. E quando você se atreve a ultrapassar este campo, todos aqueles costumeiros pesos sociais que carregamos conosco diariamente; cansaço, estresse, ansiedade, preocupação, todos eles ficam presos ali. Como se fosse uma teia que captura os males do espírito, e só então você pode adentrar no paraíso, de alma purificada.
Eu poderia facilmente mencionar as hipnotizantes ruas floridas da cidade, limpas e infestadas de detalhes arquitetônicos. Por todos os lados, turistas caminhando descontraidamente, e que assim como eu, também olhavam para tudo, embasbacados com tamanha beleza.
Ainda consigo sentir o doce sabor da cortesia oferecida pelo povo do sul. Algo que vai desde um “bom dia” casual, até a gentileza de alguém que freia e aguarda pacientemente, quando ameaçamos pisar na faixa de pedestre.
Poderia citar os inesquecíveis passeios que a cidade proporciona; santuários naturais com paisagens riquíssimas e aparentemente inexploradas; cachoeiras, vales, lagoas, todos impecavelmente preservados por descendentes da colonização alemã e italiana. E por falar nisso, também fiquei fascinado com a intensa presença da cultura desses povos europeus, sua culinária típica e seus costumes tradicionais. E tem também o passeio na velha Maria Fumaça, com seu deslizar lento pelos trilhos e o charmoso apito fumacento, fazendo com que todos nos arredores acenem e sorriam para a pequena centopeia de metal.
Certamente qualquer mortal que teve o privilegio de visitar Gramado, quis levar um pedacinho da cidade consigo. Porque é quase impossível resistir a tentação de tantos produtos com a cara da cidade. Um mundo feito de chocolates caseiros, malhas, artesanatos, couros e produtos coloniais.
O clima é um eterno outono romântico e o famoso vento sul sempre está lá presente para nos convidar ao encontro do aconchego de uma lareira, acompanhado de uma deliciosa taça de vinho, produzido nas mais surpreendentes vinícolas do país.
Sim, Gramado é tudo isso, e sei que em meus meros cinco dias de passeio, não consegui desfrutar nem dez por cento de sua beleza aparentemente infinita.
Quero voltar em breve. Se possível para contemplar o espetáculo do Natal Luz. Mas a ocasião não importa. Porque seja na suavidade do Outono; no colorido da primavera; no aconchego do inverno; ou na energia do verão, Gramado será sempre um pequeno paraíso na Terra. E posso afirmar que me sinto muito feliz, pois mesmo que por pouquíssimo tempo, fiz parte desta magia encantada.

sábado, 13 de outubro de 2012

CRÔNICA: Talking About Rock and Wine


Sentado na sala, notebook no colo, pensando no que escrever. Uma taça de vinho estupidamente gelada em minhas mãos, tilintava quando eu a levava até a boca, por conta das pedras de gelo, as quais eu considero essenciais no complemento do vinho. Com a mente vazia feito um balão furado, e a Internet engasgando que nem um FIAT 147, eu comecei a zapear os canais da TV, em busca de alguma inspiração. E eis que acabo me deparando com um programa que falava sobre a arte da degustação de vinho, num canal de documentários.
Logo de cara, um sujeito de meia idade, bigode escovinha, com ar de dono da verdade, apontava para o erro de se tomar o vinho com gelo. Segundo ele, a temperatura ideal para degustação é entre cinco e doze graus. E lá se foi toda a minha pose de bebedor entendido do assunto. “Ah, dane-se!”, pensei comigo. Afinal, tanto o vinho quanto o direito de bebê-lo do jeito que eu quisesse, eram meus. E não seria nenhum degustadorzinho de merda que iria mudar isso.
Pronto! Junto ao meu orgulho novamente intacto, veio a ideia de falar sobre rock. Achei que seria interessante escrever um pouco sobre as notícias que li recentemente á cerca do mundo das guitarras. E como sou leigo pra fazer enormes posts sobre rock, imaginei que ficaria legal buscar as novidades e inseri-las numa única postagem. Pois vamos á elas:
Li á algumas semanas, uma breve declaração da vocalista do Eths, Candice Clot, dizendo que estava deixando a banda. Isso aconteceu estranhamente no ano em que eles estão em turnê de divulgação de seu mais recente trabalho, o álbum III, que embora não seja o melhor disco do Eths, está bem legal.  Em minha opinião a notícia soou como o prenúncio do fim da banda, uma vez que, não consigo imaginar o Eths sem sua competente Frontwoman.
Na tela, o mago dos vinho olhava para dois dedos da bebida, dentro de uma taça bem maior do que a minha, contra um fundo branco. Segundo ele, o ato tinha o propósito de analisar a tonalidade e intensidade da cor do vinho. Instintivamente eu olhei para a minha taça e pensei que sempre que fazia isso, era apenas para verificar se ainda tinha gelo, e se não havia nenhum mosquito boiando...
Ainda sobre saídas, soube que a atual vocalista do Nightwish, Anette Olzon, também deixou a banda. Segundo o artigo no Twitter, tanto banda quanto cantora não estavam se entendo muito bem. Isso fica bem evidente quando se ouve o último trabalho deles, intitulado Imaginaerum, que eu considero como o pior disco da banda. Contudo, a separação aconteceu em entendimento mútuo, para o bem de ambas as partes. A boa notícia é que os caras já arranjaram uma substituta. E uma de peso! Trata-se da ex-vocalista do extinto After Forever, Floor Jansen. Em minha humilde opinião (e que a Anette me perdoe), o Nightwish acertou em cheio, pois eu considero Floor Jansen muito melhor e mais adequada ao estilo da banda.
E por falar em boas notícias, os deuses do Doom Metal, Draconian, finalmente anunciaram o nome da substituta para a vaga deixada por Lisa Johansson. E a difícil missão de pelo menos igualar a lindíssima voz de Lisa ficará sob os cuidados da sul-africana Heike Langhans. No you tube há uma canção dos caras já com a musa nos vocais:
A mina promete.
E após ficar um tempão agitando o vinho na taça, colocar seu enorme nariz na borda do copo e cheirar fundo, demoradamente, o sujeito finalmente cai de beiço. E enquanto eu viro o meu restinho de uma vez, ele ensina que é preciso manter o vinho na boca por cerca de quinze segundos para que as diferentes regiões da bochecha e da língua possam curtir a bebida. Não deu tempo de fazer isso, porque eu já tinha engolido o meu há tempos.
Mas voltando ao rock, vou agora citar um pouco daquilo que foi lançado de melhor nesse ano, até esse post. E eu começo destacando dois: o álbum Enslaved, do Soulfly, e Of Breath and Bone, do Be’lakor, ambos foram os melhores do ano até o momento. Outros bons trabalhos foram o Circus Black, do Amberian Down; We Are The Others, do Delain (nunca gostei muito dessa banda, mas este álbum é realmente muito bom, sendo uma evidente prova de evolução); Helvetios, do Eluveitie (além do Arkona, esta é minha banda de folk favorita); Requien For The Indifferent, do Epica; Changes, do Invisius; The Iron Will, do Kataklysm (esta é talvez a mais fantástica descoberta que fiz esse ano); Phanton Antichrist, dos veteranos do Kreator; Dark Adrenaline, do Lacuna Coil (a banda parece ter voltado á sua melhor forma); Resolution, do Lamb of God (simplesmente insano!); Prisioner, do The Agonist (um pouco abaixo da média da banda, mas ainda muito bom); Power Dive, do Voices do Destiny.
Os discos medianos foram: Horror Metal, do Cadaveria (sinceramente eu esperava bem mais); True Defiance, do Demon Hunter; III do eths (pior que o álbum, foi a triste notícia da saída da Candice Clot); Season of Raven Words, do Lethian Dreams.
Quanto á decepções, acho que recentemente não houve ninguém lançando uma completa porcaria. É claro que as duas listas acima foram feitas com base nas bandas que eu aprecio e conheço. Porque falar de tudo o que é lançado no infinito mundo do rock seria impossível em uma simples postagem. Além do mais, a intenção aqui foi apenas de passar um pouco daquilo que ouvi este ano, e classifiquei sem nenhuma base profissional, foi apenas a opinião de um ouvinte apaixonado. 
O cara na tela está agora dizendo que no intervalo entre a degustação de cada taça, é importante comer um pedaço de pão e tomar um pouco de água mineral para limpar o paladar... Mas quer saber de uma coisa? Eu vou agora mesmo abrir uma cerveja gelada, porque esse negócio de vinho dá muito trabalho.

sábado, 29 de setembro de 2012

RESENHA DE LIVRO - O Lírio e a Quimera - TOMO I - Mademoseille de Miry


Geralmente quando estou compondo uma resenha de livro, tenho o hábito de vasculhar na internet para conferir o que outros leitores acharam do livro. E curiosamente não encontrei nenhuma resenha deste livro impressionante do romancista Romaric S. Büel.
O Lírio e a Quimera – Tomo I  - Mademoiselle de Miry, é o início de uma trilogia que conta a saga de Marie Adelaide de Miry, futura baronesa de Santa Maria, e sua trajetória que destaca a aproximação entre a cultura e a história da França e do Brasil; O Lírio, que é o símbolo da França dos Orleans, e a Quimera (dragão), emblema da monarquia dos Bragança. Em uma Europa do século XIX, o autor nos revela as proezas desta jovem aristocrata francesa, através de uma narrativa vibrante, mostrando de maneira detalhista, um pouco do que foram os bastidores da nobreza europeia e brasileira.
É simplesmente uma vasta mistura de criados e nobres, reis e rainhas, artistas e comerciantes, burguesia e escravidão. Um prato cheio para os amantes de literatura e história. O autor é indiscutivelmente um conhecedor das artes e culturas, tanto brasileiras quanto europeias. Já o ritmo da trama oscila um pouco, deixando alguns momentos sonolentos, que nos faz pensar que eles estão no livro apenas com o propósito de “encher linguiça”. As coisas só começam a ficar intrigantes da metade em diante, e quando você se sentir completamente entorpecido pela leitura, eis que o tomo I acaba e você terá que, como eu, adquirir a segunda parte, intitulada A Imperatriz do Café.
Uma bela jogada de marketing. Mas que vale a pena, pois o livro é muito bom.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

CRÔNICA: ANTES LER DO QUE REMEDIAR



Ao chegar do trabalho e abrir a porta, eis que meus sapatos se deparam com uma costumeira pilha de correspondências. Não, eu não sou tão importante assim. A pilha em sua maioria era apenas as contas do mês, que nunca se esquecem de chegar.
No entanto, naquele fatídico fim de tarde, um dos envelopes me chamou a atenção. Ele era robusto, pesado e me recebia com um saudoso “Parabéns”. Curioso, me sentei no sofá, já completamente esperançoso de que finalmente a providencia divina se lembrou deste pobre sofredor, e me enviou boas novas... Afinal, meu nome estava no alto da correspondência, escancarado em negrito, e me dava os parabéns.
Restava saber pelo quê.
Ao abrir a carta encontro um belíssimo cartão magnético preso em uma folha onde havia meus dados impressos; um enorme encarte, que se desdobrava de forma super criativa, enfatizando o quanto eu era um homem de sorte e indicando todas as vantagens que eu acabara de receber; e por fim, um livreto sem-graça cujo título era: Termo de uso e Política de Privacidade.
Obviamente eu descartei o livreto e fui direto ás boas notícias conferir as vantagens da minha nova vida, agora que eu tinha em mãos, tão reluzente cartão magnético. E após uma rápida lida no encarte, que parecia tão empolgante quanto um convite para um réveillon em Paris, peguei o telefone, totalmente decidido, para discar o número de desbloqueio do cartão.
Mas foi nesse exato momento, com o telefone encostado no ouvido e a boca salivando de ansiedade, que me lembrei de uma matéria que havia lido recentemente em uma revista. E a matéria apontava justamente para a importância de se ler aquele livreto, o tal... Como era mesmo o nome? Ah, sim... Está aqui:
Termo de uso e Política de Privacidade.
Confesso que só me lembrei do título, porque o resgatei do chão, já com marcas de sola de sapato, mas graças, ainda ao alcance de minhas mãos...
A situação acima é algo que se repete quase que diariamente em minha vida: vivo concordando com qualquer espécie de cláusula e termos enigmáticos, sem saber dos mistérios que espreitam suas entrelinhas. Seja através de contratos bancários, financiamentos, ou mesmo um simples aplicativo para computador, nunca, em hipótese alguma, eu desperdiço alguns minutos do meu precioso tempo para entender um pouco mais dos direitos e deveres nos quais estou me submetendo. Afinal, você conhece alguém que perde tempo lendo contratos?
Pois o artigo que li mostrava alguns exemplos do quanto isso não é uma perda de tempo. Pelo contrário, em muitos casos, a perda de tempo virá depois, para cancelar este mesmo contrato com algumas empresas que infestam seus termos com cláusulas abusivas.
É o caso de um britânico, que teve alguns aplicativos deletados de seu tablete pela Microsoft, sem aviso prévio. O caso foi parar na justiça e a empresa provou que agia dentro dos termos. Estava tudo lá, em destaque em um dos primeiros parágrafos do contrato. Outro caso aconteceu com a Amazon, que em 2009 removeu livros do Kindle de alguns usuários, alegando irregularidades na publicação dos volumes.
No caso do meu “lindo” cartão magnético, e que aparentemente era só vantagens, eu me dispus a perder alguns minutos e desafiar páginas e mais páginas de um texto chato, de linguagem técnica e cheio de termos complexos, para descobrir que, a tal anuidade grátis para sempre, a qual o cartão oferecia em destaque, só me beneficiaria, se eu usasse o cartão todos os meses, rigorosamente. E que se eu deixasse de comprar num único mês dentro do ano corrente, a anuidade passaria a valer em sua totalidade. Um susto, que me fez devolver o fone ao gancho, contente pelos minutos desperdiçados, que me pouparam assinar um contrato abusivo, o qual me deixaria a mercê de uma empresa vigarista, que certamente aposta a eficácia de seus truques, na certeza de que seus usuários jamais perderão tempo, lendo contratos propositalmente feitos de modo complexo, com letras miúdas e cheios de interpretações duvidosas.
E a coisa é bem séria: em 2005, um sujeito resolveu ler um contrato. No meio das cláusulas, ele encontrou algo estranho – um prêmio de mil dólares. O cara entrou em contato com a empresa responsável, e recebeu o dito prêmio. O problema é que foram preciso 5 meses, e mais de três mil contratos assinados para que alguém  notasse a brincadeira, que tinha como propósito, certificar se os clientes daquela empresa estavam ou não, lendo o contrato de uso.
Nada mais óbvio: num mundo recheado de marketing comercial, promoções aparentemente irresistíveis, e gente tentando se dar bem, o negócio é: ler para entender do negócio... Ou não assinar nada com ninguém.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

RESENHA DE LIVRO – A MULHER DE PILATOS


Um personagem bíblico que é timidamente citado uma única vez na bíblia, provavelmente não haveria de ganhar muito assédio de historiadores. Mas a esposa de Pilatos, Claudia Prócula, venceu este tabu, e nas mãos da jornalista e biografa Antoinette May, ganhou, numa mescla de teoria e fundamentação, sua trajetória contada, que supostamente teve início no segundo ano do reinado do imperador Tibério – descrito como ano 16 da era comum.
Se levarmos em conta a história descrita no livro sagrado, Claudia é um personagem menos que coadjuvante, e em se tratando de uma mulher, certamente ela sofreu as consequências do prestígio escasso, dados ás damas de um tempo machista. Sim, mas estes são ingredientes que sempre despertaram a minha atenção de imediato: Adoro ler sobre as mulheres que viveram em tempos onde a masculinidade era uma prática cultuada e absolutista. Geralmente o especulativo retrato dessas damas é feito de forma brilhante, mostrando o quanto foram guerreiras e se sobressaíram, mesmo em condições submissas e muito distantes dos postos de liderança na humanidade.
Portanto, logicamente meu interesse neste livro era constante. E por ironia ou acaso, levei muitos anos para conseguir finalmente saboreá-lo.
Mas este A Mulher de Pilatos, que apesar de começar bem, acaba pecando no receio de arriscar. Uma vez que, se é para trabalhar em um personagem onde há apenas espaço para possíveis conjecturas, por que não ousar e inserir uma trama mais impactante? Ou se era apenas para descrever aquilo que o autor imaginava ter acontecido de fato com seu personagem alvo, por que igualar tanto a história ao mesmo rumo da bíblia?
Como eu disse anteriormente, o livro começa muito bem; Claudia é a narradora de sua própria história, e isso por si já se torna uma grande jogada, afinal, ler os relatos de um personagem bíblico é um feito luxuoso, embora ao mesmo tempo arriscado. E mesmo perante esse caminho tortuoso, Antoinette May se saiu muito bem. Os detalhes enriquecidos de inúmeras referências culturais da época são magistralmente narrados pela historiadora. E até mesmo características que foram inseridas á Claudia ficaram legais, como dons de vidência, fragilidade feminina, discrição e um constante impressionismo, que pairava em um tempo no qual reinava uma vasta cultura politeísta. Tudo isso foi por demais, pontos á favor da autora.
Contudo, Antoinette May logo se mostra intencionada á descambar tudo para o biblicismo. E toda a originalidade, e por que não dizer toda inspiração criativa, se torna uma verdadeira desculpa para uma entediante narrativa á cerca das já tão conhecidas passagens bíblicas que relatam os instantes finais de Jesus Cristo. As últimas páginas chegam á beira da exaustão (se você quer saber tudo o que acontece no final deste livro, leia um dos evangelhos da bíblia).
Não quero criticar a autora por ter inserido em seu livro os acontecimentos da história na bíblia, até porque isso de certa forma já era esperado, dado ao fato de que estamos falando de Claudia Prócula, mulher de um dos personagens mais polêmicos nas últimas horas de Cristo. O problema, em minha opinião, foi quando a autora transformou sua personagem numa espécie de locutora dos principais fatos e momentos finais de Jesus. É como se houvesse uma preocupação em retirar Claudia de sua condição de coadjuvante, dando á ela um posto de testemunha ocular com um pouco mais de notoriedade, algo que lhe foi negligenciado (ninguém sabe se propositalmente ou não) pelos autores da bíblia. Isso também não teria sido um problema, caso a autora tivesse mantido seu punho criativo, e contado tudo o que já sabemos, mas através de um ângulo de visão diferente, no caso aqui, em descrições pessoais de Claudia. Porém, no lugar disso o que a autora faz é inserir passagens dos feitos de Jesus, na maioria das vezes de maneira idêntica ao que é descrito na Bíblia.
De qualquer maneira, o livro vale pela ótima construção narrativa e pela viagem literal, cortesia do vasto conhecimento que a autora mostrou possuir sobre história antiga. É um livro mediano, que talvez ficou faltando uma pitada do charme de Dan Brown, ou um pouco da sensibilidade de Kathleen McGowan.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

RESENHA DE FILME: BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE



Dois aspectos eu considerava extremamente difíceis de serem alcançados por Christopher Nolan, em seu desfecho na trilogia do morcegão: elaborar uma trama tão bem amarrada quanto a do filme anterior; conseguir fazer com que o novo vilão tirasse de suas costas a responsabilidade (inevitável e impossível) de substituir o perfeito Coringa.
Nolan não chegou a falhar. Mas também não foi brilhante em nenhuma das duas coisas.
Mas, se de fato a missão de fazer o espectador desgrudar de uma vez a imagem do vilão de cicatrizes e terno roxo (magistralmente incarnado por Heath Legder) de suas memórias, era mesmo algo impossível, pelo menos uma boa trama não deveria ser um desafio assim tão complicado para um inovador como Nolan. E embora eu acredite que, em nada este terceiro filme conseguiu superar seu antecessor, sei que minha opinião talvez seja a minoria.
Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, é um ótimo filme. O diretor segue o clima sombrio dos dois primeiros longas (talvez este tenha se tornado um pouco mais artificial, porque agora temos naves e combates aéreos), e desta vez nos mostra Bane na telona, um vilão mais bruto e menos dissimulado, talvez para obrigar o herói á usar um pouco mais de testosterona, e menos o seu cérebro.  Uma boa ideia. Mas, mesmo que isso de fato tenha acontecido, o desfecho de Bane ficou um pouco insosso.
Já o filme começa com uma linha até interessante: Mostra um Bruce Wayne decadente, mergulhado em seus fantasmas do passado. E a queda do homem fez com que este, desistisse do herói.  Vemos também uma Gothan City que enaltece seu herói do passado, Harvey Dent, sob uma mentira na qual o comissário Gordon não aguenta mais carregar consigo. Então, eis que surge o terrorista mascarado Bane, e a cidade volta a se ver em perigo eminente (não sei o porquê dessa obsessão nos vilões de Batman em destruir a cidade. Parece que todos seguem uma mesma linha de raciocínio e não possuem interesses próprios... Mas tudo bem). E para completar a salada, também surge na história, uma ladra inescrupulosa e sexy, muito sexy, chamada Selina Kyle, a tão aguardada Mulher-Gato.
Sim, realmente parece um bocado de encrenca, e antes mesmo de chegar aos trinta minutos, eu já começava a suspeitar de coisas demais acontecendo, o que inevitavelmente é indício de correria para que o filme termine, e que todos os pepinos deixados ao longo do caminho sejam respondidos.
Dito e feito: da metade em diante, as coisas começam a acontecer muito rápidas, comprometendo um pouco na qualidade do roteiro.
No entanto, como motor de arranque, temos um batalhão de atores brilhantes para garantir a mesma construção narrativa charmosa dos dois filmes anteriores: Gary Oldman (o comissário Gordon), Morgan Freeman (como Lucius Fox), Michael Caine (o mordomo Alfred), Anne Hathaway (a irresistível Mulher Gato), Joseph Gordon Levitt (como um policial braço direito de Batman), Tom Hardy (como o vilão Bane), Marion Cotillard (como a milionária Miranda Tate), e é claro, Christian Bale (nosso inovador Batman).
Num resumo geral: Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um filmaço, mas que o público terá dificuldades em lidar com a sombra da perfeição de seu antecessor de 2008, Batman – O Cavaleiro das Trevas.

sábado, 21 de julho de 2012

RESENHA DE LIVRO: O Rei da Noite


Indispensável para os amantes de literatura e recomendável aos aficionados por crônicas, este “O Rei da Noite” do escritor e cronista baiano João Ubaldo Ribeiro (dispensa apresentações), usa de uma beleza graciosa e inteligente para mostrarmos um pouco da temática do cotidiano das pessoas, o comportamento humano nas relações sociais, e um pouco da vida boemia. Tudo nos é apresentado de forma divertida e hilária, de acordo com inúmeras situações vividas pelo próprio autor.
Os diversos temas vão desde comportamentos sociais, padrões de beleza nacional, relações familiares, e até experiências no uso da alimentação macrobiótica. Difícil dizer quais os melhores textos. Eu, particularmente me identifiquei com o tema que aborda o sofrimento dos escritores ao aguardarem as tiragens das primeiras edições de seus livros, e as banalidades em forma de proza proporcionadas pelas tantas idas aos botecos afora.
A eficiência com que o autor consegue atrair a atenção do leitor para situações complexas do dia-dia é louvável. Mesmo temas estressantes como segurança pública, emprego, campanhas para prevenção á saúde, e o medo da família com relação ás drogas, tornam-se um deleite. Sem inibir nossas percepções sobre o tema, e ainda nos faz mergulhar em lembranças de fatos semelhantes, que aconteceram em nosso próprio cotidiano.
Recomendo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

RESENHA DE FILME: O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA


O fator determinante que fez com que eu desse um pulo no cinema para conferir este “O Espetacular Homem-Aranha”, foi o trailer. Nele, vi três coisas que inicialmente despertaram meu interesse: efeitos especiais novos que permitiram ao herói exibir muito mais de seus malabarismos, coisa que ficou faltando no primeiro longa; o visual mais de moleque magricelo do Aranha, pois particularmente eu achava o Tobey Maguire acima do peso para os padrões esqueléticos do personagem; e por fim, eu teria a chance de ver o real início das aventuras do Aranha, pois este novo filme prometia “a historia nunca contada antes”.
Mas antes de relatar se realmente minhas três expectativas foram saciadas, permita-me ressaltar um detalhe importantíssimo:
O Espetacular Homem-Aranha” é um filme bom. Aliás, muito bom mesmo. É cheio de acertos e de erros como qualquer outro filme. Mas num conceito geral, o diretor Marc Webb não deixa a desejar.
Agora vamos aos fatos:
Os efeitos especiais estão divinos, e apesar da pequena diferença de tempo entre a antiga trilogia e este novo longa, eles parecem melhorados. Talvez não no sentido técnico da coisa, mas os efeitos foram melhores aproveitados, deixando o aranha exatamente como queríamos ver, e não vimos, no filme antigo: um aranha mirabolantemente espetacular;
O ator aqui é o não muito conhecido Andrew Garfield, que apesar de usar de um visual bem mais descolado (o cara anda até de skate pelos corredores da escola, coisa que não existe no desengonçado e “politicamente correto” Peter dos quadrinhos), ele deu ao personagem um ar mais moleque que ostenta a pouca responsabilidade de alguém que ainda está descobrindo o mundo.
Por fim, a suposta “história nunca contada antes” não foi exatamente de inteira veracidade.  Embora possamos ver aqui uma trama inicial girando em torno dos pais de Peter Parker, o filme logo muda seu rumo e as semelhanças com a produção de 2002 tornam-se desnecessariamente evidentes: Peter é picado por uma aranha; Tio Ben parte dessa para a melhor, em situação semelhante;  o aranha aprendendo tudo de novo... blá, blá, blá.
Contudo, mesmo sabendo que o passado do aracnídeo dispensa mais apresentações, aqui podemos ver sua primeira namorada, Gwen Stacy (muito bem interpretada por Emma Stone), algumas piadas e situações engraçadas, proporcionadas por um aranha bem mais divertido; e o Lagarto, um dos vilões mais conhecidos, aqui parece pouco aproveitado, uma vez que, nos quadrinhos a vida do monstrengo é bem mais complexa.
Por fim, “O Espetacular Homem-Aranha” é entretenimento de primeira e não decepciona. Porém, o que infelizmente irá incomodar um pouco, é a constante sensação de estarmos diante de um filme desnecessário, afinal, a trilogia do diretor Sam Raimi, que começou em 2002, ainda está muito fresca na memória dos fãs.