segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CONTO: O NOME DELA


Deitada em meu peito, eu notava seu rosto subir e descer levemente ritmado por minha respiração lenta. Ela olhava atentamente para a foto que eu havia lhe mostrado; um garotinho assustado, as canelas à mostra parecendo dois palitos, em cima de uma bicicleta.

– Você era feio – comentou ela, entre o que imaginei ser uma mistura de sorriso e comedimento.

O quarto era um templo silencioso e isso fazia com que a voz dela enchesse o ambiente. Paredes brancas, manchadas pelo tempo, eram espectadoras de frases curtas e desenvoltas. Às vezes, as cortinas balançavam anunciando a entrada de uma brisa leve que gostava de passear pelo recinto, para surrupiar aquelas palavras soltas no ar e as levar para longe de mim, deixando restar apenas a incômoda quietude.

– Me fala o seu nome – pedi, enquanto acariciava a maciez dos seus cabelos.

Ela não respondeu nada. Apenas ficava olhando para a foto de minha infância, como se sua mente estivesse emersa, tentando desvendar aquele instante congelado que lhe era desconhecido.

De repente, ela sorriu para a foto de um jeito meio diferente de poucos instantes atrás. Quase deu para ter um vislumbre do filme que se passava em sua cabeça. Agora eu era agraciado pela imagem de seus dentes surgindo por detrás dos lábios esticados, abertos até quase os molares. Seu dedo indicador tocou levemente no papel fosco, fazendo uma leve carícia na bicicleta do garoto.

Naquele momento, eu senti inveja de mim mesmo. Queria voltar no tempo e ser de novo aquele moleque feio e magricela. Porque embora toda fragilidade estivesse exposta, a singeleza daquele menino era completamente capaz de raptar para si toda a atenção daquela dama. Conseguira fazer com que ela sorrisse de um jeito que eu jamais conseguirei.

– Nunca soube andar de bicicleta – confessou ela, o olhar desmanchado em anseios.

– Ainda há tempo... Eu posso te ensinar se quiser.

– Não quero mais – ela ergueu o tronco e sentou na beirada. Deu uma última olhada para o passado irrecuperável em sua mão, depois para os arranhões em meu peito, apertando os lábios – Tenho vergonha.

Tive vontade de insistir e dizer que era possível recuperar coisas que se perderam, mas havia algo que eu julgava mais precioso. Aulas de bicicletas serviriam apenas como uma boa razão para nos reencontrarmos. No entanto, eu ainda precisava arrancar o essencial dela. E não sabia direito como fazer...

– Posso ficar com essa foto pra mim? – ela ergueu o olhar até encontrar o meu. Eram olhos redondos e grandes. Um castanho tão profundo que eu pensei que fosse me perder para sempre. Minha coragem pífia fixada em suas esferas brilhantes até eu ser engolido em questão de segundos... A alma, antes equilibrada e soberba, havia sido totalmente subjugada dentro de seu precipício de ternura.

Uma vez eu li num livro velho que uma alma nunca se perde, ela sabe parar na hora certa, na beira do abismo, e deixar apenas que o corpo caia sozinho, para que um dia ele retorne mais forte e impávido. Como uma fênix que nasce das próprias cinzas... E embora livros velhos sustentem a premissa de parecerem detentores de incontestável sabedoria, acho que o abismo tem esse nome porque ele nos engole em definitivo;

Abismo é sinônimo de queda infindável;

Parado na beira do despenhadeiro, eu desafiei os olhos castanhos com toda a minha desprezível audácia:

– Eu troco a foto pelo seu nome – propus um acordo que considerei razoável. Pelo menos, foi o que tentei transparecer. Porque dentro de mim, eu sabia que aquele nome me era precioso e valeria muito mais do que um retrato de minha infância banal.

No entanto, minha dama se levantou e andou em direção ao banheiro. Sua silhueta nua era fabulosa; seu andar ereto e gracioso... Um corpo que se deixava ser violado para só então violar. Eu me perguntava quanto outros homens haviam sucumbido aos encantos daquele inebriante pecado. Quantos como eu, quiseram arrancar coisas dela, como algozes gananciosos, porém, reconhecidamente fracos e incapazes frente à tentação de sua carne curva e envolvente. Eu não havia sido o primeiro e certamente não era o único, mas queria ser o último a explorar sua sublime caverna; queria tê-la só para mim, sem nenhum pudor, deixando-me perecer às mais impensadas loucuras.

A verdadeira insanidade é reconhecer o veneno e, mesmo assim, desejá-lo em toda sua sedução.

Mas para me perder definitivamente eu precisava da chave do castelo... Eu necessitava de um nome. Mesmo sabendo que tê-lo seria a minha definitiva e total ruína.

Quando ela saiu do banheiro, com o corpo escondido numa toalha, notei que seus ombros à mostra ainda estavam molhados. Ela andou pelo quarto, verificou alguma coisa no telefone, abriu o frigobar... Ouço o estalo da lata de cerveja sendo aberta, enquanto um medo inesperado vem até meu ouvido e sussurra palavras ardilosas.

E recostado na cabeceira da cama, eu sou intimidado pelo receio e me torno pequeno, até ser seguro pelo pescoço e ter o ar escasseado. Eu sabia que tinha hoje e somente hoje para arrancar o nome dela. Precisava daquilo porque isso daria aos nossos encontros um significado, uma existência. Seria como lhe tornar parte de minha realidade; deixaríamos de ser subjetivos para mergulharmos na objetividade segura e acalentadora.

Sem o seu nome eu não poderia contar o que sinto; não poderia falar dela para os amigos no bar; não poderia relatar para ela como foi o meu dia após voltar do trabalho; não massagearia seus delicados dedos com minhas mãos grossas, enquanto me deixava cair novamente no precipício castanho... A falta daquele nome a isentava de uma identidade e eu não gostava da ideia de amar um fantasma.

– Tem um cara tocando violão perto da piscina – disse ela, entre um gole da cerveja, enquanto admirava o mundo lá fora, recostada na janela.

Levante-se e vá até lá, seu covarde!

Mas não adiantava exigir à minha frágil existência que fizesse algo. Eu estava sendo enforcado literalmente pelo medo e falar já não era mais uma opção. Toquei em meu pescoço, num ato desesperado de encontrar as garras maléficas do pânico a me estrangular. Com extrema dificuldade consegui me livrar do aperto que certamente me levaria à desfalecer. O ar voltou a invadir o meu peito, eu transpirava bicas, o coração acelerado bombeando angústia através da corrente.

Ela continuava a olhar pra fora e não notou a minha intensa luta em cima da cama.

Tomado por uma coragem inusitada, talvez oriunda de minha recente bravura em superar o que me parecia invencível, eu me levantei e fui até o encontro dela. Abracei-a por trás e apertei sua cintura contra o meu corpo.

Lambi seus ombros molhados e subi com a boca até o pescoço e o beijei avidamente. Senti seus pelos eriçarem. Como ela não me dava nenhuma resposta, eu a segurei forte pelo braço e a virei, até ficar de frente para mim.

– Você sabe que eu não posso – concluiu ela, antecipando minha insistência.

– Eu só quero saber o seu nome... Isso não é um pedido de casamento.

– Por que temos que fazer deste, um encontro igual a todos os outros? – seus lábios a poucos centímetros do meu – Sem nossos nomes podemos ser quem nós quisermos.

– Eu não quero ser um a cada dia; não quero ser nenhum dos outros... Quero ser eu! Exclusivamente para você. E quero que você seja minha.

– E quem disse que você é o seu nome? Isso é apenas uma definição que te deram; uma marca social para que suas transgressões pudessem ser identificadas com mais facilidade – Ela me beijou levemente. Seus lábios humedeceram saliva e cevada em minha boca – Tudo o que fazemos em nossas vidas é encher os nossos nomes com a podridão que acumulamos ao longo dela – Ela falava com sua boca dentro da minha.

Então, lábios foram separados;

Meus olhos procuraram o teto;

Os dela procuravam encontrar minha aprovação em algum canto do quarto.

Sempre que um argumento vem em forma de justificativa, há por trás dele uma ruptura; uma divisão que nos deixa mais distantes daquilo que seria a obtenção do objeto desejado. Por três dias daquele inesquecível carnaval havíamos compartilhado praticamente tudo; nossa solidão, os abraços, os beijos, os lençóis do hotel, os cigarros, a mesa do café, os delirantes orgasmos... E de repente, ela não parecia mais disposta a repartir nem mesmo a lata de cerveja que estava bebendo. O que dizer então de dividir seu nome comigo?

Sim, eu havia passado aqueles três dias implorando por ele.

As pessoas olhavam para nós e viam um casal de namorados vivendo o apogeu da paixão. Sempre de mãos dadas, beijos ardentes e demorados, risos soltos e fáceis, proximidade quase ininterrupta...

E ao fim do terceiro dia, a recusa definitiva da identidade sob a bandeira do ineditismo que parecia lhe excitar, enquanto minava as minhas esperanças.

– Sabe o que acontece? – ela já estava enfiada em seu vestido de estampas leve de carnaval. Calçou as sandálias e chacoalhou os cabelos molhados com as mãos, num gesto que anunciava que ela iria escapar urgentemente, sem nem escová-los – Eu sei que você é como todos os outros; não quer uma namorada... Homens não gostam de carteira assinada.

Sua beleza era magnífica pela simplicidade.

Ela veio até mim e beijou meus lábios cerrados.

– O que você quer é que este feriado dure para sempre... Mas isso eu não posso lhe dar.

As palavras ficaram soltas novamente no ar, mas desta vez, não havia nenhuma brisa para apará-las. Ou talvez o vento entendesse que era a minha vez de fazer isso.

Minha dama sem nome escorregou pelos meus dedos e saiu pela porta.

Sobre a cama restara um garotinho derramado e perdido. Sendo observado por outro garotinho, que sentado em sua bicicleta, contemplava a maravilha do milagre de um passado transformado de volta em presente... Uma timidez muda e isolada, que teve a doce ilusão de que seria digna de obter um nome para si.

sábado, 5 de dezembro de 2015

RESENHA DE LIVRO – OS ESPIÕES


Ver o nome de Luiz Fernando Verissimo estampado no alto da capa de um livro já é motivo mais do que suficiente para que eu o retire da prateleira sem precisar ler a sinopse. No entanto, este leitor apaixonado precisa confessar que Verissimo funciona muito melhor como cronista.

De qualquer forma, estamos falando de um gênio da literatura brasileira, e nesta obra intitulada OS ESPIÕES, é possível encontrar algumas referências que são marcas do autor; propriedades que transformam suas crônicas em textos divertidos, instigantes e atraentes.

A trama nos mostra o dia-dia de um escritor frustrado que trabalha como olheiro numa pequena editora, cujo serviço consiste em analisar e quase sempre rechaçar originais que lhe chegam aos montes. Mesclando à vida profissional do personagem ainda existe sua vida familiar, que não ajuda muito. Portanto, basicamente nosso herói passa seus dias contando as horas para a chegada da sexta-feira, quando afoga as mágoas bebendo até perder a consciência.

Mas tudo muda quando ele recebe um envelope branco detendo dados manuscritos em mãos trêmulas, onde seu conteúdo sustenta parte do que lhe parece ser um instigante roteiro, intitulado apenas como “Ariadne”. No original, a tal Ariadne descreve uma vida conflituosa com um marido que mais se parece com um mafioso. Um bilhete faz indicativo de que se trata da primeira parte de uma autobiografia, que o autor prefere interpretar como a confissão de uma suicida em potencial, a qual dará cabo de sua vida no último capítulo.

Obcecado pelo original que vai chegando em fragmentos a editora, nosso personagem reúne uma destemida equipe – os espiões do título – para investigar o que se passa em Frondosa, cidade onde sua musa Ariadne vive.

A grande sacada de Veríssimo é que temos uma trama de espionagem, só que segue irreverentemente cheia de deliciosas situações hilárias, contradições, disfarces mal sucedidos e trapalhadas. É como se o objetivo deixasse de ser a edição propriamente do livro de Ariadne, passando para um tipo de ato heroico, onde a meta é salvar a pobre e indefesa dama do despotismo que acomete sua vida.

Contudo, mesmo tendo por trás o impecável toque de Midas de Luiz Fernando Veríssimo, a história acaba por se tornar um tanto ordinária. A evolução do texto segue bem água com açúcar, tendo como amparo apenas as situações cômicas, que vez ou outra consegue atrair nossa atenção.

Talvez eu tenha me deixado levar por uma alta expectativa, já que sou admirador do trabalho deste autor, quando atuando como cronista, o que me fez concluir que este livro esteja bem abaixo de seus demais trabalhos. O término da leitura me deixou com uma sensação de que ficou faltando algo...

Mas ainda assim é uma leitura recomendável, pois Veríssimo sabe criar personagens divertidos como ninguém, e consegue manter a história quase sempre num clima despretensioso, simpático e recreativo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

CONTO: ORDINÁRIA LOUCURA


Certa feita, um psiquiatra levou para uma de suas consultas um catálogo contendo dezenas de imagens dos trabalhos feitos por Pablo Picasso. Ele entregou o montante nas mãos de um paciente e ficou a observar atentamente qual seria sua reação.

Cuidadosamente o louco olhou para cada uma das imagens, chegando até mesmo a sorrir diante de algumas delas. E em determinado instante, ele ergueu os olhos, encarou o médico e perguntou:

– A pessoa que fez estes desenhos está internada em qual hospício?

– Ele não está internado em lugar nenhum – respondeu o médico, achando curiosa aquela indagação.

– Não precisa tentar esconder isso de mim, doutor – insistiu o louco – Pode me dizer onde ele está internado.

– Já disse. Este homem não é paciente de hospício algum... Mas por que você achou que ele estivesse internado?

O louco sorriu e voltou a encarar as imagens sobre a mesa. Então falou:

– Estranho... Porque é exatamente assim que eu vejo o mundo.

sábado, 21 de novembro de 2015

RESENHA DE LIVRO: O DIÁRIO DE SIBYL DANFORTH, PARTEIRA


Não raro os livros nos permitem viajar através de mundos que, embora aparentemente perto de nossa existência, nos escapam de entendimento e interesse. Partos normais realizados em casa tem sido uma realidade cada vez menos presente neste atual mundo sistêmico e desinformado, onde a oportunidade de discernimento é arrancada da sociedade, restando-nos apenas deliberar por caminhos oferecidos por planos de saúde mafiosos, que nos empurram goela abaixo a direção do que temos que fazer como se fôssemos incapazes de pensar por nós mesmos.

E em vez de a medicina trabalhar em busca do aperfeiçoamento dos partos normais, sejam em hospitais ou no conforto do lar, o foco das pesquisas toma como meta a precisão e rapidez dos partos cesarianos; método artificial que avilta e desacelera o processo de recuperação da mãe.

Este belo livro intitulado O DIÁRIO DE SIBYL DANFORTH – PARTEIRA, embora seja um trabalho de ficção, trás à tona esse tema: a contradição e rejeição social dos trabalhos de partos em casa.

Chris Bohjalian se empenhou arduamente em pesquisas e mergulhou a fundo no mundo das parteiras, deixando sua obra recheada de conteúdo que nos ajuda a compreender um pouco melhor essa cabível, porém obscura, ideia dos partos em casa. O autor esmiúça o mundo das parteiras e nos entrega uma eficiente trama, que mescla em doses precisas, a realidade das parteiras dentro de uma história bem elaborada.

E por falar em trama, esta se passa na comunidade rural de Reddington, Vermont, num rigoroso inverno de 1981. A parteira que dá nome ao título da obra precisa tomar uma decisão rápida para salvar um bebê, submetido aos seus cuidados. Uma decisão que mudará a vida desta mulher para sempre.

No meio deste complicado parto, Sibyl percebe que a mãe sofre morte cerebral e ela não vê alternativa, senão fazer uma cesariana improvisada para salvar o bebê. No fim das contas, Sibyl acaba sendo acusada de homicídio, quando o Estado lança a hipótese de que ela fez a cesariana enquanto a mãe ainda estava viva.

O desenvolver da trama é narrado por Connie, filha de Sibyl Danforth, uma médica obstetra, que relembra o tempo em que a liberdade de sua mãe e a estrutura familiar esteve nas mãos de doze pessoas do júri popular. Aliás, as narrativas durante o julgamento são ótimas, com diálogos fortes e pesadas investidas, tanto da defesa quanto da acusação.

Os capítulos são entremeados por trechos interessantes do diário de Sibyl, que nos ajuda a entender o que se passou naquela trágica noite em que o parto fatídico aconteceu, assim como nos coloca mais próximo das angústias da autora, que embora se mostre uma parteira experiente, expõe todo o seu lado humano e frágil nas páginas de seu diário pessoal.

Um excelente entretenimento, que vai agradar a leitores que curtem histórias de tribunais, assim como também é um convite a uma reflexão mais de perto, sobre esse escapadiço universo das parteiras.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

CRÔNICA: O FIAT BRANCO

Sentado à mesa de uma lanchonete perto de casa, vejo minha visão abrangente das frivolidades de uma tarde de sábado serem bruscamente bloqueadas pela repentina presença de um carro branco, que parou bem diante da calçada onde me encontrava. Era um modelo da FIAT, não muito novo, mas se encontrava limpo e possuía uma aparência relativamente conservada.

O motorista abriu a porta e saiu de sua caixa de metal ambulante, altivo, como se fosse um genuíno membro da nobreza, recém-chegado do século XV e que acaba de descer de seu coche. Constatei certa semelhança nos traços de seu rosto quando, ao passar por mim, fez um leve aceno digno da realeza. Foi em direção ao balcão do bar e pediu uma Coca-Cola. Após efetuar o devido pagamento – que ele deve ter achado ultrajante o fato de um lorde ter que pagar por sua bebida – voltou para a fachada do estabelecimento, onde eu me encontrava visivelmente abrandecido, pois em instantes, me veria livre daquela parede de lata ordinária e intrometida.

Acontece que sempre que vou aos meus barzinhos prediletos, gosto de me sentar nas mesas que são colocadas em frente à calçada, o que permite um despretensioso testemunho da vizinhança. Porque se for para beber do lado de dentro do bar, cercado por paredes fóbicas que impossibilitam meu senso de ociosidade, então eu prefiro beber no conforto de casa.

Mas para a infelicidade total deste que vos escreve, o orgulhoso proprietário do FIAT branco resolveu apreciar sua Coca-Cola, sentando-se precisamente em uma mesa ao meu lado. Logo notei seu olhar de admiração e orgulho para com o seu antiquado artefato de locomoção, que certamente devia lhe conferir ganho de autoestima.

Inevitavelmente, iniciei um embate interior com meu próprio ser, que pesava os prós e os contras de continuar ali, sentado, tendo como única possibilidade de contemplação a lataria rudimentar daquele veículo, estacionado indevidamente – ou quem sabe propositalmente – para o meu minguado deleite.

Se eu fosse embora, estaria livre do FIAT branco em toda sua intromissão, e só isso já valeria à pena o esforço. Poderia levar umas cervejas pra casa e, no conforto do lar, eu ainda teria o privilégio de poder escolher uma boa música. No entanto, eu me veria outra vez confinado, acuado, escondido dos inéditos encontros com o mundo do lado de fora do meu portão, que embora sejam frustrantes em sua maioria, exatamente como estava sendo o encontro inesperado com o FIAT branco, algumas vezes nos fazem escapar do tédio. Também é válido salientar que a cerveja estupidamente gelada colaborava com minha impossibilidade de fuga. E a cada novo gole que eu dava, mais o meu corpo parecia acometer-se por uma redoma de amparo, a me abrigar do incessante calor.

Com o termômetro intuitivo batendo na extremidade do “seja forte e fique no bar mais um pouco, porque o malquisto já deve estar de saída. Afinal, os bebedores de Coca-Cola não costumam demorar em bares”, uma fagulha de otimismo mental fez seu trabalho de recordar a expectativa de que a vida algumas vezes nos surpreende com encontros alegradores... Contudo, eu admito que perseverar pelos raros embates prazerosos é ato de gente obstinada e insistente para além do que jamais conseguirei ser. E no meu caso, o resultado desse tipo de pensamento acaba surtindo efeito contrário de sua pretensão, e eu acabo sustentando o bordão de que nada é tão ruim que não possa piorar.

Cautelosamente olhei para o lado e vi que o dono do detestável veículo estava a me devolver o fitar, agora com um sorriso largo e ufano.

Não tardou a puxar conversa, afinal, não havia mais ninguém por perto para ele importunar. Minha insignificante presença deve ter lhe servido de consolo, porque quando se há apenas uma única opção, o carecido se torna menos exigente. E como de praxe, iniciou suas tolices verbais nos atentando para o tempo. Afinal, era uma tarde de calor evidente demais para ser desprezada por uma forçosa conversa de bar.

Quanto a mim, apenas lhe dei respostas em total conformidade com suas abordagens esquecíveis, tentando dispor do máximo que minha já abalada paciência permitia. Pois eis que em meio aos comentários sobre o calor escaldante, o sujeito resolveu conduzir nossa enfadonha prosa ao rumo de seu desígnio:

– Sabe de uma coisa: deve fazer até mal sair nesse calor assim, depois de sair de dentro do ar frio do meu carro.

Tem toda razão! Então por que você não volta pra lá e se protege de uma possível insolação, ao mesmo tempo evita que meus ouvidos sejam bombardeados por suas imbecilidades orais? – por muito pouco e eu o teria dado essa resposta, mas minha polidez irritante acaba sempre por me vencer. E no lugar de repelir o indesejável, apenas concordei.

– Pois é... – respondi, em suspiro profundo, já pensando em tirar o celular do bolso e fingir atender alguma ligação.

– Comprei esse carro esta semana, sabe... – continuou ele, com o peito estufado, feito um pardal no poleiro, na esperança de arrancar de mim algum reconhecimento por sua obtenção material – Achei que nestes tempos de crise seria melhor pagar à vista. Nunca se sabe, né?

– Pois é... – Eu era um oceano de melancolia. Mas então, fui acometido por um sentimento típico dos derrotados: se não dá pra expurgar o calo, melhor que ficar parado é continuar caminhando com ele no pé. Elaborei uma piada, fazendo uso de uma frase que havia no para-brisa traseiro do FIAT branco.

– Você comprou mesmo esse carro, ou foi Deus quem lhe deu?

Ele soltou um risinho que me fez lembrar uma hiena abatendo a carniça. Exibiu uma comissão de frente dentária tão amarela quanto a camisa da nossa Seleção. Olhou para a frase no vidro e pareceu ter gostado da sugestão que joguei.

– Claro, claro! Você está certo... Foi mesmo Deus quem me deu – assentiu ele, do alto de sua religiosidade apalermada.

– Melhor dizendo, quem está certo é a frase no vidro, né.

Mais risadas. Pensei que seria melhor não o deixar tão à vontade, ou ele poderia acabar pedindo outra Coca-Cola.

– Então você acredita mesmo que Deus lhe concedeu um automóvel como forma de benção? – fiquei a me perguntar como eram as dádivas antes da invenção da roda ou do motor.

– Com certeza! Deus tem provido maravilhas em minha vida!

– Muito bem... – Pela primeira vez, virei-me pra ele, fingindo interesse – Nesse caso, deixe-me ver se compreendi direito essa lógica: está me dizendo que Deus lhe conferiu um bem material que indiretamente contribui com a devastação dos recursos naturais que estão cada vez mais escassos? – deixei que ele pensasse alguns segundos sobre a pergunta – Isso significa que o seu Deus é totalmente conivente com o aumento da emissão de CO2 na atmosfera, o que tem sido causa deste catastrófico calor que estamos enfrentando neste exato momento... – notei que ele se remexia na cadeira, desconfortável – Seu Deus lhe abençoou com objeto que melhor simboliza o sistema capitalista vigente, maior causador de desigualdade social, enquanto nega alimento básico para grande parcela da população? – outra pequena pausa para ele respirar – O Altíssimo conferiu um bem que está lhe dando a ilusão de status social, algo que visivelmente atiça sua soberba, e que aumentará a distância entre você e esse mesmo criador..., é isso o que está me dizendo?

Eu não havia me dado conta, mas o FIAT branco deveria estar me incomodando mais do que havia imaginado, pois fui capaz de proferir aquela breve impugnação sem ao menos gaguejar... E como já esperava, não houve nenhuma resposta imediata, além de uma parcimoniosa exclamação bovina:

– Hmmmm...

Embora minhas indagações sustentassem requintes de crueldades, eu não tinha a intenção de parecer um ateu fundamentalista que tenta humilhar a doutrina dos outros. De fato, o meu verdadeiro objetivo era cessar com o explícito envaidecimento orquestrado por aquele idiota, que então resolveu que havia se tornado alguém acima dos demais com quem convive neste mundinho de perdedores, e agora era digno de ostentar suas desprezíveis aquisições superficiais.

E para brindar a espiritualidade daquela gloriosa tarde de calor, ele não me deixou sem resposta, embora tenha sido um tanto evasivo:

– Vou lhe contar uma coisa sobre o nosso pai que está no céu... – antes, foi até a lixeira, na base do balcão, e jogou a lata vazia fora. Apesar de tudo, ele era mesmo asseado. Então retornou para concluir com sua majestosa teoria – Deus é um ser justo, misericordioso e que nos recompensa na hora certa. O pai sempre é generoso com seus filhos mais fiéis e concede de acordo com o merecimento de cada um.

E tentou validar sua teoria, lançando-me um olhar intimista.

– Mas se este seu Deus meritocrático resolver dar um carro para cada um de seus cerca de seis bilhões de filhos, atuais viventes deste plano, eu acho que não vai ter recursos naturais no planeta para atender a toda essa demanda – achei essa bem fácil de replicar.

– Eu sei... Mas Deus atende somente aos justos, os que foram bons e seguem fielmente a sua palavra.

– O que nos leva à conclusão de que você é parte desse seleto grupo de filhos prendados que está fazendo exatamente a coisa certa, não é mesmo?

– É claro... Contribuo com o dízimo e faço minhas orações todos os dias.

– E podemos também concluir que um pagão, feito eu, deva estar agindo exatamente em oposição aos ditames divinos. Afinal, eu ainda não fui agraciado com um extraordinário FIAT branco.

– Pode ser que sim... – ele já estava dentro do carro, porta fechada, tentando escapar. Mas o vidro foi abaixado para que cuspisse sua última lufada venenosa, que certamente me derrotaria – Você é um homem religioso?

– Não, eu não sou.

– Pois é... – Fez aquela cara de quem não precisa dizer mais nada.

– Sabe o que eu acho sobre Deus? – juro que começava a invejar o proprietário do FIAT branco; gostaria muito de poder ver minha estima aumentada por conta de uma bobagem como a compra de um carro. Mas aproveitei aqueles últimos momentos na presença do filho bendito, para concluir rápido raciocínio – Acho que Deus é uma criança com uma fazenda de formigas. Ele nunca toma nenhum partido. Fica apenas observando, talvez um tanto entediado, tudo o que nós, suas adoráveis formiguinhas, fazemos dentro da fazendinha de bobagens... Quem sabe até se permitindo rir de algumas formigas que se acham merecedoras de recompensas tolas, tomadas por elas como coisas divinas.

Ele ligou o FIAT branco e foi embora. Mas não sem antes prometer que iria orar para que minha alma perdida encontrasse o caminho da salvação.

Fiquei sentado em minha mesa, agora completamente detentor de uma visão privilegiada do nada que acontecia no tempo e espaço, imaginando onde estaria indo aquele sujeito cheio de verdades.

Será mesmo que ele acreditava que uma divindade o havia ofertado objeto que só serve para suprir alguma necessidade mundana? Ou talvez ele usasse o nome de Deus para camuflar sua vaidade em afirmar aos quatro cantos que não possui capacidades de obtenção sem o apoio divino?

É difícil saber...

E eu é que não vou me meter no discernimento alheio. Melhor pensar em coisas menos transcendentais, como a cerveja que eu estava a degustar e que se encontrava mesmo deliciosamente gelada. E se é errado dizer que minha bebida seja resultado de meus esforços pela sobrevivência neste mundo pragmático, então tudo bem... Eu agradeço a Deus, sem nenhum problema, pela cerveja gelada que ele pôs em minha mesa... Afinal, como dizia Nietzsche:

A verdade é um produto da necessidade psicológica de duração”.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

RESENHA DE LIVRO: AS MULHERES NA GUERRA 1939-1945 VOL. 1


A Segunda Guerra Mundial é tema que foi explorado à exaustão pelos meios culturais, tanto que atualmente quase tudo o que tem sido produzido, não passa de conteúdo previsível ou que simplesmente reconta o que já estamos cansados de saber. Dentro deste cenário atual de desgaste temático, destacam-se alguns poucos trabalhos que vão além do óbvio relato; obras que buscam o retrato daquilo que ainda não foi contado, o lado oculto da grande guerra.

Pois este belo trabalho intitulado AS MULHERES NA GUERRA 1939-1945 – VOL. 01, nos trás uma riquíssima ótica deste ser que foi fundamental aos esforços de guerra, mas que viveu latente aos olhares de uma sociedade injusta e totalmente patriarcal: a mulher.

O objetivo desta obra – que comporta dois volumes – é tirar nossas mulheres da condição de relegadas. Claude Quétel, não poupa esforços e vai a fundo em suas pesquisas, trazendo à tona, uma iconografia riquíssima, sendo que boa parte desta, inédita. Talvez este tenha sido o primeiro grande projeto diretamente intencionado em dar exclusividade a história das mulheres que viveram e combateram direta ou indiretamente na Segunda Guerra.

É triste a realidade de que por quase toda a trajetória da humanidade, as mulheres sempre foram eternas esquecidas dos relatos e documentos históricos. Elas têm seu passado ofuscado pelo passado dos homens, que além de terem sido eles próprios os autores dos acontecimentos, também quase sempre detinham as posições de maior importância, portanto, manipularam os fatos para que a história exaltasse seus egos desmedidos, sem se preocupar em trazer à tona a realidade do que houve. Este, entre outros atos cruéis, resultou na exclusão histórica de nossas pobres heroínas.

E na contramão desta injustiça, o autor deste livro nos mostrará que elas estão por toda parte: operando no esforço de guerra, ocupando o espaço do mercado de trabalho deixado pelo homem que fora para frente de batalha; muitas outras foram meras vítimas das bombas incessantes nas grandes cidades; cuidando dos infindáveis enfermos da guerra; operando pesadas máquinas no campo da agricultura; tendo que assumir a condição de chefas de seus lares; e muitas vezes até na linha de frente, combatendo junto aos guerrilheiros, na resistência ou auxiliares na retaguarda.

Infelizmente quando adquiri este, que é o volume um, eu não tinha conhecimento de que o segundo volume já havia sido lançado. E acabei deixando passar um bom tempo. Portanto, minha busca pelo volume dois tem se mostrado um tanto árdua (descobri recentemente que há uma edição especial com os dois volumes impressos num só).

Com eficiência, este extraordinário livro consegue trazer à tona a mulher em tempos de conflitos. Tira-lhes do anonimato e as colocam em seu devido lugar: ao lado do homem, na luta, no empenho e na coragem. Nem maior, nem menor. Mas acima de tudo, uma vítima que sempre possuiu importância fundamental e definitiva, portanto, devem ser sempre motivos de orgulho a nós, homens, que além de causadores das grandes barbáries, somos implacáveis na exclusão delas... As nossas destemidas e eternas companheiras.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

CRÔNICA: EM BUSCA DAQUELE SORRISO

Certa vez, tive minha manhã literalmente salva pelo impactante sorriso de uma desconhecida donzela, que ao olhar em minha direção, saudou-me com precioso gesto. Fiquei tão atônito por aquele sorriso, que fiz o que somente um introvertido poderia fazer: segui meu caminho, para posteriormente relatei os detalhes da forma mais fiel possível (essa breve transgressão pode ser conferida no texto “Aquele Sorriso”, nesta coletânea). O mesmo e velho romântico que jamais se manifesta ao fruto de seu encanto, só restou-me contar ao teclado o que me havia acontecido.

E após muitos adjetivos digitados numa vã tentativa de fidelizar a grandeza daquele sorriso, eu ainda tinha que resolver uma última questão, antes de postar o texto no blog:

Faltava encontrar a imagem que minimamente fizesse justiça ao encantamento que testemunhei naquela improvável manhã. Quisera eu ter congelado aquele instante numa foto ou filmagem, embora tenha plena certeza de que sua imagem está eternizada nos arquivos de minhas lembranças.

Mas eu ainda carecia de uma gravura que representasse o belo sorriso que ganhei. No entanto, a suspeita de que nada haveria de ser tão formoso, levou-me a constatação de que estava enfiado numa árdua e demorada busca; passei dias garimpando a internet, à procura de um sorriso equivalente.

Confesso que foi muito prazeroso me deparar com tantas e tão diversificadas expressões da angelical face feminina. Poderia até passar o resto de meus dias desempenhando esta agradável função: analisar sorrisos. E posso reafirmar, sem nenhum receio, tendo como álibi nosso saudoso Bob Marley, de que este gesto continua sendo a curvatura mais maravilhosa que podemos encontrar numa mulher: as curvas de seu majestoso sorriso.

Talvez nós, homens, seríamos mais felizes se aprendêssemos que um atalho prático para se encontrar alegria é conseguindo extrair um belo sorriso desta criatura detentora de insigne encanto denominada “Mulher”.

Então, após muita pesquisa, descobri que não procurava um sorriso, mas sim, a sensação que tive quando estive diante daquele belo rosto que me olhou com alegria. E este ato deu outro sentido à minha longa empreitada: permitiu que despendesse maior atenção aos mais variados tipos de sorrisos, como se eu estivesse em meio a um estudo intensivo da venustidade feminina. Encantei-me com admiráveis formas; sorri de volta ante a vastidão de delicadas faces; desdenhei frente às exibicionistas; odiei sorrisos forçados a ponto de achá-los mais agressivos do que feições rancorosas propositivas; suspirei profundamente ao deparar-me com os mais encantadores.

Mas talvez a grande lição que aprendi durante minha insistente busca, foi a constatação de que os melhores sorrisos eram frutos de damas singelas, pois eram aqueles que aconteciam de maneira inesperada, fazendo com que seu manifesto se tornasse ainda mais estonteante. A simplicidade sempre foi o principal atributo dos sorrisos mais incríveis.

Mentalmente eu tentava separar cada um deles por tipo. Não sei se nossas adoráveis mulheres são capazes de exibir a todos em suas particularidades, afinal, eu os via em imagens, que eram representações fiéis ao que vejo nos lugares em que frequento, nos rostos que admiro... Não sei se elas conhecem cada estilo de seus próprios sorrisos, mas talvez isso não importe.

E desse modo, se você me perguntasse eu diria que sim; toda mulher pode ser capaz de exibir qualquer um dos sorrisos que encontrei ao longo da pesquisa. Mas acredito que alguns sejam raros demais e, portanto, concedidos somente em ocasiões especiais, que não precisa se tratar de um encontro romântico. Estes tesouros expressivos estão por aí, nos ambientes mais improváveis..., e algumas vezes temos o privilégio de nos deparar com tais manifestos, reluzidos em trágicas manhãs, onde só parecia haver trevas no mundo...

Eis alguns dos tipos que mexeram bastante comigo:

O Belo: é o sorriso que nos faz suspirar! Que nos deixam completamente embasbacados; é aquele que não carece de mais nada para ser formoso, seu simples manifesto é a pura definição da beleza. Esse tipo é altamente sedutor, mas ele pode ser ensaiado, e sabemos bem que algumas mulheres são especialistas nessa arte. De qualquer forma, este modelo não deixa de ser espetacular em formosura..., mas está bem longe do sorriso que buscava.

O Terno: este é o tipo de sorriso que nos acolhe nos braços; um gesto leve e que vem sempre cheio de afeição. É um ato fácil de ser encontrado em mulheres que sabemos que gosta da gente. Sou bastante familiarizado com este tipo de sorriso, pois muitas vezes o encontro exibido na face de minha mãe.

O Formal: é um sorriso metódico, proposital, que por detrás dele há sempre um teor técnico. Um sorriso que denota cobiça, ambição, que quer algo em troca de seu manifesto. Este é um sorriso aprendido, não é nem um pouco espontâneo e se você for um homem minimamente observador, notará o quanto ele carece de brilho. Costuma estar sempre estampado nos rostos de mulheres que desempenham funções sociais que exigem esse tipo de formalismo. Aeromoças são especialistas...

O Ingênuo: é aquele que acontece de maneira casual, sempre na contramão de interesses; este é o sorriso que destrona a soberba e zomba do sarcasmo. Não é raro e posso dizer que o vejo muitas vezes, em diferentes tipos de mulheres. O ingênuo, embora seja lindo, muitas vezes pode ser confundido com modéstia. No entanto, acredito que este sorriso, que muitas vezes é encantador, necessita quase sempre de um pouco mais de alegria. Porque sua ingenuidade pressupõe ausência de discernimento. É como vislumbrar um gesto que pode ou não acontecer, mas não existe um determinador para tal... De qualquer forma, este sorriso é enormemente gracioso.

O Exagerado: também muito conhecido pelo nome de “gargalhada”, é um sorriso fácil, que geralmente acontece em instantes descontraídos ou que foram cômicos além do recato. Seria este um sorriso perfeito, no entanto, algumas mulheres aprenderam a usá-lo de forma menos impoluta; algumas fazem uso deste recurso para exibir insultos mordazes; ironias despóticas. Um gesto que tem o viés de ser virtuoso, mas que nem sempre é..., talvez o grande problema seja o fato de que é bem complicado distinguir aqueles que são genuinamente alegres dos sarcásticos.

O Triste: parece contraditório, mas o sorriso triste também existe. Trata-se daquele sorriso que não quer existir; que se esforça para ser, que impõe ao corpo uma postura contrária daquilo que a alma está de fato sentindo... O sorriso triste sempre acha que dissimula a palidez, que pensa conseguir esconder do mundo a própria vergonha em ser triste. Costuma não ter muita curvatura labial, insignificantes riscos nas maçãs e os olhos parecem sempre distantes (os olhos nunca enganam), para muito além de qualquer um que tente a proeza de alcançá-lo.

O Tímido: é aquele sorriso que tenta se manter escondido; algumas vezes ele se manifesta por detrás de uma palma de mão a tentar ocultá-lo. Possui um aspecto avermelhado principalmente na região das bochechas e detém ruídos distintos, mas que em nada estragam sua formosura. Este talvez fosse o tipo que mais chegou perto daquilo que eu buscava, porque geralmente sorrisos tímidos conseguem ser impolutos em sua totalidade. São manifestações encorpadas de meiguices, prazer e costumam dizer à causa de sua manifestação que és bem-vindo. É um sorriso quase sempre inesperado, porém, valioso demais a quem o recebe.

O Afetado: é o sorriso que está bem longe de ser natural e, muitas vezes, soa pedante ou presunçoso. Este tipo só não é o mais feio de todos, porque pode haver situações em que ele aconteça como forma de amenizar ambientes, numa tentativa por deixar as coisas menos tensas; é um sorriso político sim, mas algumas vezes há por detrás a benéfica intenção de harmonia.

Vaidoso: Agora sim, este é o mais feio de todos os sorrisos que encontrei em minha pesquisa. Definitivamente não há nada de belo neste sorriso! Ele simplesmente é fútil e está o tempo inteiro tentando convencer de que é o melhor entre todos os sorrisos. O tipo que quer mostrar perfeição e superioridade...  É lamentável algo que constatei por quase todo o tempo de minha busca pelo sorriso perfeito: há incontáveis mulheres que adquiriram este como seu sorriso introdutório nas relações diárias. No conceito destas muitas desentendidas, este modelo seria o mais adequado para agraciar aqueles que amam. Pensam que através de um sorriso cheio de ensaio e soberba, conseguirão atrair maior atenção e aprovação..., pois estou convencido de que até mesmo um olhar de tristeza consegue ser mais atraente do que um sorriso vaidoso.

E finalmente, a grandeza altruísta que lutei tanto para encontrar:

O Visceral: era exatamente o tipo de sorriso que eu procurava. Aquele que acontece particularmente espontâneo; que vem natural, de dentro pra fora; que é leitura fácil da alegria feminina; que considerei a mais rara beleza que poucos homens têm a sorte de ver numa mulher. É o sorriso que te faz sentir saudade assim que ele termina. E quando nos damos conta, estamos conduzindo todos os nossos esforços diários apenas para reencontrá-lo..., uma vez mais. Porém, mesmo sendo um gesto, que assim como todos os outros, também morrerá desfeito na face da mulher, este sorriso será eterno na lembrança de cada homem que um dia foi digno de contemplá-lo.

Sim, mulheres. O sorriso só encantará quando vier de dentro de vocês; quando tudo o que há em volta deixar de ser mundo e vocês se tornarem a própria expressão da alegria. O gesto límpido que reduz homens à meninos; que nos faz perder toda a ilusão de controle; que causa orgulho desmedido em cavalheiros que foram capazes de cativar suas fontes...

Eu encontrei este sorriso poucas vezes em minha vida. Uma delas foi aquela inesperada manhã de segunda-feira, onde precisei parar e aguardar alguns instantes, completamente intimidado por tamanho primor. Outra vez foi no resultado de minha pesquisa, quando senti inveja do garotinho na foto que abre este texto (a foto no blog), que habilidosamente conseguiu ser recompensado por inesquecível instante de beleza feminina. E que tenho certeza absoluta, esse mesmo garotinho também se tornou um obcecado buscador dessa plenitude, que vez ou outra, nos é gentilmente concebida por esses anjos terrenos que chamamos de mulher.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

CONTO: A INSÔNIA

0h: 17min.

Perco os reflexos, as pálpebras ficando pesadas. O entorpecimento do corpo se elevando, os sentidos cada vez menos perceptíveis..., apago a luz e rendo-me, fecho os olhos. Deveria haver a imediata desconexão com o mundo...

Mas na penumbra algo continua aceso, agitado. Dentro da escuridão ouço vozes, penso em coisas incoerentes, relembro instantes idiotas e sem importância..., através das trevas recordo situações que vivi antes de estar ali, semi desplugado. Às vezes, tudo parece se projetar ao mesmo tempo, minha mente é uma snowglobe que alguém agitou freneticamente. E enquanto aguardo impotente no travesseiro, os pedacinhos de memórias voam de um lado para o outro, aleatoriamente.

Ainda mergulhado em trevas, ouço ruídos importunos, farfalhar de persianas, vozes abafadas ao longe, o volume de algum televisor ligado, cachorros latindo, fúrias entrecortadas, a manifestação de insetos que optam pela camuflagem noturna...

Contraditório ao sono, a insistência faz as pálpebras fechadas doerem e então abro-as. Não é assim que se dorme, o ato de fechar os olhos não garante nada! Então, nesse mesmo escuro ruidoso que o vejo, outra vez parado no marco da porta do quarto, me velando... Hoje ele está de terno, detém tons escuros e sua gravata bege não combina com o resto do figurino. A face esquelética dele me desaprova, sabe que novamente me será negada a transição para fora deste plano..., ele vira as costas e desaparece, em direção à cozinha. Nunca soube o que ou quem realmente é aquele sujeito, mas sempre me visita quando não consigo dormir. Se o faz nas raras noites em que estou desfalecido é difícil saber..., sinceramente eu acho que não. Ele é como um espectro vigia, que sabe com exatidão as noites em que não dormirei.

Acho que ele vem até meu quarto para apreciar meu desalento;

Para ver de perto o quanto sou incapaz de exercer ato tão ordinário;

Para ratificar a semelhança de nossa catástrofe;

Para me dizer com seu olhar gélido que meus esforços são inúteis...

Sempre pensei nele como uma alma que fora negado o sono, e agora perambula, acordado pelo mundo, à procura de mais dos seus.

 01h: 24min.

Derrotado, reacendo a luz. Sou um leitor antiquado, então no lugar de sofisticados meios tecnológicos, busco o livro no criado-mudo e o abro. Costumo ler por horas e horas..., nada acontece. Apenas mitoses e meioses que se recusam a se desprender da lucidez. Espero pelo instante em que serei vencido, o instante em que as frases do livro parecem cada vez mais disformes... O livro despencando no chão.

Apago a luz.

Aqui estou, desnudo..., desmascarado. Sem uniformes, sem roupas sofisticadas, sem camuflagens sociais. Nada de perfumes, gel capilar, loções corporais ou qualquer outro meio objetivo que ajude a despistar a natureza vulgar. Meu único anseio não exige ornamento. Só o que quero é pegar no sono! E transgressivamente desperto, sou estudado pela noite com seus olhos escuros e agigantados, cuja penumbra é como um holofote, que no lugar do clarão, emana trevas que profanam o sossego e roubam minha letargia.

Entretanto, a esperança ainda está por aqui em algum lugar... Talvez tenha escorregado pelos lençóis e foi parar debaixo da cama. Só que não me atrevo, pois é lá onde vivem os monstros. Debaixo da cama repousam as maiores fontes dos pânicos noturnos; Aranhas negras, serpentes malignas, insetos peçonhentos, espectros desenganados.

Se eu fosse menos covarde talvez apalpasse embaixo da cama para procurar pelo meu sono, mas não ouso fazê-lo. Em vez disso, encolho-me sobre o colchão para me proteger..., cada vez menor, até meu corpo reduzido suar, angustiado.

02h: 10min.

Levanto-me e vou até o banheiro. Os pés descalços desbravam o piso fresco. A insanidade me faz pensar que não seria uma má ideia deitar no chão... Dou descarga, aperto a maçaneta da torneira que gotejava pecaminosamente, faço tudo sem acender a luz. Valho-me da familiaridade que me permite antecipar cada obstáculo sem ver... Faço tudo, e me esqueço de lavar as mãos. Sigo o caminho de volta, ciente de que inversamente a mim, a noite me enxerga com clareza.

Passo pela cozinha e abro a geladeira. A claridade irrompe no mármore, na pia, nas paredes esbranquiçadas..., e nele. A iluminação, mesmo fraca, permite que o veja de novo. É aquele sujeito! Está agachado num canto qualquer a me espreitar. Trocamos olhares mudos, silenciosos, como dois suspeitos. Ele agora parece um pouco constrangido com minha presença, como se eu o tivesse flagrado em alguma de suas transgressões noturnas. Para tornarmo-nos cúmplices, ele desce o olhar até a garrafa de água em minhas mãos e parece me condenar por ter bebido do gargalo... Agora não podemos mais nos delatar, tornamo-nos iguais, transgressores da madrugada.

Àquela altura, com a visão já completamente comparsa do negrume, consigo enxergar um pouco melhor. Ele está segurando uma caneta que usa pra escrever coisas no próprio braço. Vejo um amontoado desconexo de palavras riscadas em sua magricela página feita de epiderme. Assim como eu, ele também deve gostar de relatar as frivolidades consequentes da insônia. São apenas palavras..., palavras que vagueiam pelo tortuoso terreno de nossas mentes, indo e voltando; construindo imagens, fazendo conexões com situações ocorridas, outras inéditas, apontando pessoas... São apenas palavras.

Jornada, madrugada, precipício, linguagem, passos, casebre, lugubridade, oração, tristeza, inveja, astuciar, preguiça, maltrato, barulho, frase, rotina, luminária, termômetro, latido, precário, quarta-feira, asfalto, almoço, medo, tesão, minutos, administração, poder, insinuante, beleza, invisível, honestidade, calor, perdição, culpa, solavanco, refratário, inexistente, respeito, dívidas, rapidez, aurora...

Apenas palavras aleatórias... Não conheço o significado de algumas, mas sei o que todas juntas querem comigo. Elas se empenham em me manter acordado.

Com os olhos pesados eu volto pra cama. julguei que aquele jogo de contar palavras ajudou com o sono.

03h: 14min.

Sabe qual é o ponto mais severo da angústia? É aquela condição em que você tenta chorar e não consegue. Chorar seria como expurgar, colocar pra fora toda a raiva, todo desgosto... Nem mesmo este pequeno agrado a insônia me permite. E abrindo caminho através da noite, sigo desperto... É estranho estar acordado quando se tem a sensação de que o resto do mundo dorme. Sinto-me como se todos tivessem sido convidados para uma festa e eu tive que ficar aqui, sozinho, neste plano escurecido e dissimulado, que não sente piedade dos que não conhecem o caminho até o palácio de Hypnos, onde certamente todas as almas do mundo repousam agora.

Completamente desperto neste mundo de seres que dormem, só posso sustentar a expectativa dos primeiros clarões que expulsarão as trevas, dando lugar a uma nova manhã. Então, as pessoas despertarão amassadas de sono, letárgicas, com suas faces inchadas de tanto dormir...

Vê-los todas as manhãs caminhando, bêbados de preguiça e ausência de ânimo, característicos efeitos que acometem aqueles que dormem, mesmo aqueles que usam de meios artificiais para tal, estes sempre me causaram profunda inveja.

Mas a luz de uma nova manhã não costuma ser um socorro que surge fácil para aqueles que infortunadamente estão a lhe aguardar. E enquanto isso, o meu leito segue torturando-me. Mudo de posição constantemente. Nada do que faço parece proporcionar-me conforto por mais que dois ou três minutos...

04h: 49min.

A esta altura já existem sinais de vitalidade mundana. De gente que dormiu o suficiente, os de sono fácil... Ouço o cantarolar de uma mulher, motores de carros isolados, um casal conversando, acho que trocam detalhes sobre como será o dia de cada um. Talvez estejam fazendo uma oração de agradecimento pela noite bem dormida.

No meu quarto, os pensamentos se tornaram inteiramente coerentes. Como se ao longo da madrugada o quebra-cabeça de palavras soltas fora encaixando suas peças e finalmente consegui ter uma visão total do quadro. Penso em atividades que me esperam neste novo dia; numa garota que por incompetência deixei escapar e que ainda me faz falta; penso no céu, do lado de fora da janela, que por um instante achei que seria escuro para sempre; na possibilidade de estar indo novamente ao encontro da mesmice; no medo de voltar sozinho pra casa; na insônia que estará a minha espere para mais um encontro; no sujeito moribundo agachado na cozinha, riscando o braço...

Tenho medo de que as pessoas vejam o caos explicitado em minha face distorcida. Que elas notem o quanto sou incapaz de algo tão tolo quanto adormecer. Tentarei novamente evitar seus inúteis conselhos, os quais já foram todos testados... Por que toda pessoa que não sofre de determinado problema, tem a mania de achar que sabe o que deve ser feito?

Voltarei para casa no fim do dia, como sempre faço. Talvez me embriague para forçar a inércia, porque eu não aguento mais permanecer desperto. Querer a pausa deste mundo é pedir demais?

Quero fechar meus olhos e dormir. Por que me negas o intervalo acalentador da vida, ó despótica insônia?

Cessarei aqui o meu lamurio de incertezas... Dizem que é tudo culpa da cafeína... Estou com vontade de bocejar.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

RESENHA DE LIVRO: RAPSÓDIAS EM BERLIM


Não raro sou abordado por pessoas que conhecem o meu insaciável apetite por livros, me pedindo dicas de leitura. O último acercamento aconteceu há algumas semanas, no ponto de ônibus. Um conhecido me indagou à cerca de uma boa dica de livro de contos. Diante de tal solicitude, eu poderia lhe sugerir vários títulos, inclusive alguns grandes mestres do gênero por ele desejado. Mas fazendo valer uma de minhas recentes leituras, eu, sem pestanejar, recomendei-lhe que lesse o livro alvo desta resenha.

Porque a diversidade de contos que compõem esta obra belíssima, certamente atenderá a gregos e troianos.

Devo confessar que precisei consultar um dicionário para compreender desusada palavra que concebe o título, o qual faz referência a um dos contos deste excelente volume.

Rapsódias em Berlim é outro livro que tive sorte em descobrir, discreto e despretensioso, no meio de uma enorme prateleira de um Sebo. O autor Pedro Stiehl, gaúcho de Montenegro, nos entrega uma extraordinária reunião de narrativas distintas e precisas, de personagens cuja proximidade com o humanismo é capaz de fornecer ao leitor fortes reflexões sobre inusitadas situações.

Enquanto vamos nos deparando com construções literárias que facilitam o processo imaginativo, um filme vai se passando na mente do leitor. De mim, foi arrancado à força uma das raras certezas de que tenho na vida: a enorme sucessão de encontros inéditos, que caracteriza este nosso conturbado mundo.

Um texto que li e reli com especial carinho, foi “O Diabinho e a Sereia”, maravilhoso conto de uma garotinha questionadora e seu paciente avô, que em uma de suas constantes cavalgadas matinais, entram em embates filosóficos, existenciais e folclóricos. Uma prosa gostosa de ler, hilária em alguns instantes, reflexiva noutros. Este conto está logo no comecinho do livro, o que fez com que o autor me ganhasse para o resto da obra.

Ah, e se você está se perguntando, vai aqui a explicação para lhe poupar recorrer ao dicionário: Rapsódia é o nome dado a certas composições musicais e poéticas; Na Grécia antiga, dava-se o nome de Rapsódia, poemas épicos a serem recitados.

Rapsódias em Berlin é um trabalho que nos serve de exemplo de que, mesmo sem nos atermos aos grandes nomes da literatura, podemos encontrar talentos fabulosos procurando por espaço. Pedro Stiehl representa este talento, que nos trás a certeza de que no meio da salada referencial da literatura mundial, podemos ficar por aqui mesmo, nos autores brazucas, afinal, aqui tem gente muito boa, produzindo material de peso e qualidade.