quinta-feira, 19 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA


Atenção para alguns pequenos spoilers nesta resenha que acredito não cheguem a comprometer na leitura. De qualquer modo, aviso de antemão e peço desculpas, mas foi inevitável.

Achei impressionante como as pessoas descrevem esse livro como sendo uma homenagem definitiva ao amor verdadeiro. E embora eu não tenha a pretensão de contestar opinião de ninguém, penso que minha leitura deste O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA causou-me perspectiva um pouco discrepante, ou no mínimo, uma visão singular e um tanto inconclusiva, é claro.

A literatura é uma construção artística dúbia. Acredito que muitos autores nem chegam a desenvolver seus trabalhos com essa pretensão. Mas a mente do criador rege um ponto de vista que pode ser difícil de ser fidelizado na linguagem escrita, assim como também costuma diferir da compreensão de quem lê. Ou seja, não há veredito definitivo em literatura, mesmo que a fonte desta análise venha do próprio autor. E embora este possa soar como um ponto de vista túrbido, eu acredito ser a maior virtude da arte escrita: a de causar diferentes percepções, justamente porque o analista faz uso de sua bagagem de vida para absorver o universo que o rodeia.

As personagens desenvolvidas nesta obra são demasiadas humanas. As descrições sentimentais dos envolvidos na patologia do amor (e aqui uso o termo patologia no sentido de desequilíbrio), de fato remetem a ações intensas e obstinações quase irracionais. E no lugar de refletirmos melhor sobre o absurdo decorrente do sentimento descrito, nós a elevamos à condição de esplendor; a pureza de se amar o outro. Isso talvez seja fruto da infindável busca de significado existencial que tanto nos acomete.

Gabriel Garcia Marques desenvolve suas três personagens principais sem retirar uma gota de suas contradições. Fermina Daza é uma mulher impetuosa e ao mesmo tempo não ultrapassa o limite imposto pelo patriarcalismo de seu tempo e às vezes até parece endossar essa realidade. Quando o amor lhe é negado ela simplesmente faz o que de fato seria o mais sensato para a maioria de nós: conforma-se a uma estabilidade conjugal, tornando imperativo o sentimento pragmático.

Juvenal Urbino é o arquétipo que melhor nos fará compreender a terceira personagem da trama que ainda não mencionei. Ele é um homem aparentemente impoluto, cuja profissão próspera e sua elevada estatura social fazem dele um partido cobiçado pelas damas da região em que vive. E como costumeiramente acontece com os seres humanos, o desejo de Juvenal se manifesta justamente pela donzela indiferente; a mulher que o ignora e até o menospreza. Desejo escapadiço cuja natureza o torna permanente... Até que sua conquista finalmente se torne manifesta, então está decretado o fim do interesse; o mais notório amor platônico possível.

Finalmente chegamos em Florentino Ariza, que diferente de Juvenal Urbino, não conseguiu ver seu desejo realizado e isso fez com que ele levasse sua obsessão ao limite do absurdo. É na personagem de Florentino que mais se transparece o arquétipo do amor perfeito, simplesmente porque sua impotência perante seu sentimento nos causa comoção. Mas o que notei aqui foi o exemplo do desejo não realizado, fato que fez de Florentino um incansável buscador da utopia daquilo que ele acredita saber do que se trata: o amor em sua mais perfeita manifestação.

Mas se analisarmos sem o viés do romantismo, como me pareceu a condução narrativa, poderemos compreender que Juvenal Urbino e Florentino Ariza simbolizam dois extremos que nos ajudam a identificar a complexidade do amor, que aqui é refletida sob a ironia da cólera, o que faz todo o sentido. A primeira personagem sendo o conquistador que ao ver seu intento realizado, percebe sua existência retornar à condição totalitária do tédio, até que retorne a patologia do amor por outra mulher. Já a segunda personagem é a figura do derrotado, que do alto de sua impotência, torna-se o poeta nostálgico, onde a impossibilidade do amor é justamente o que faz de seu sonho algo tão esplendido e cálido.

Florentino amou várias vezes ao longo de sua vida. Encontrou plenitude em muitas de suas aventuras e isso é retratado de maneira evidente quando ele alcança a velhice, porque somente no ganho de experiência de vida é que ele percebe a riqueza contida nas relações que encontrou pelo caminho; no instante em que chora escondido no banheiro por uma mulher que pensou não amar, chegando inclusive a estranhar o próprio pranto. Aliás, é precisamente sua condição de velho o que valida ainda mais sua percepção de amor imaculado por Fermina, pois exatamente a transformação física do casal, a perda da vaidade e a noção de autonomia o que os remete a pura e simples ternura, que talvez até seja permanente pela pouca vida que lhes restam.

Gabriel Garcia Marques é um autor não muito fácil de ler. Não pela linguagem complexa ou métodos truncados, mas por sua condução narrativa direta e irrefreável. O autor joga tudo de vez, vai contando sem dar trégua para o leitor respirar, algumas vezes precisei voltar alguns parágrafos por achar que havia me perdido. Confesso que essa continuidade sem freio me assustou no começo, mas aos poucos me acostumei ao modo imediato e prolixo da obra.

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA definitivamente é um livro romântico. Mas trata do amor de um modo orgânico como jamais li antes. E claro que meu ponto de vista sobre a obra é absolutamente meu, o que novamente reforço: é essa condição singular de nossa percepção de leitores imperfeitos o que torna a literatura algo tão especial.

NOTA: 7,5

terça-feira, 10 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIVA


Algumas vezes é preciso um pouco de perseverança e flexibilidade para se compreender e, por conseguinte, gostar de um autor. Clássicos do século XIX costumam carecer de elevada sensatez, pois é fatal que se entenda que tudo naquela narrativa pressupõe aspectos e valores de um determinado tempo.

DIVA é a primeira obra que li de José de Alencar e, diferente de outros clássicos do XIX, a linguagem empregada aqui me enterneceu de imediato, algo que normalmente não acontece tão depressa comigo, daí a observação no início desta resenha.

A trama aqui é simplória; por meio de uma carta, a personagem Augusto revela para seu amigo Paulo, as mazelas e embates que afligiu sua relação afetiva com Emília; moça de personalidade demasiadamente forte.

Sob a caneta (sob a pena?) de um autor clichê, remeteríamos DIVA a um romance café com leite, banal, de reviravoltas trágicas para causar comoção. Contudo, José de Alencar sabe utilizar uma linguagem elegante e refinada, que privilegia o escopo narrativo, onde autenticidade e esmero textual é o que mais chama atenção.

A Emília do autor é, de fato, uma mulher impossível. Extremamente vaidosa, de um pudor exagerado quase como um TOC e de insensibilidade que beira o cruel, ela é o perfeito arquétipo de ser indomável e algumas vezes parece se deleitar por ser assim. Confesso que a odiei desde o início da leitura, mas percorrendo a algumas opiniões femininas pela internet, alguém sugeriu que este meu desconforto com a personagem é puro orgulho de macho. Enfim, talvez seja mesmo isso e, se realmente se tratar de orgulho, o livro acertou novamente, pois Emília me irritou por diversos momentos da trama...

Já Augusto, o desenganado narrador, soou-me como um verdadeiro banana. Provavelmente por achar que ele devia ter dado à sua amada as devidas lições oriundas do mesmo orgulho que me fez detestar Emília, por vezes eu me peguei esbravejando o comportamento irresoluto de Augusto, algo que sempre acontecia quando ele estava diante da incomparável beleza de sua musa. E ao término da leitura, vi-me envergonhado por julgar Augusto ao vê-lo se submeter aos caprichos de sua amada... Mas qual homem nunca o fez, perante os encantos da beleza de uma mulher?

DIVA é um romance charmoso, cuja linguagem é o que mais me chamou a atenção. Uma trama simples, porém, narrada na medida certa. O livro é curto, o que não permite que se torne cansativo, justamente porque o autor mantém seu foco exclusivamente no romance, exatamente como é uma carta confessional de um homem apaixonado.

E após esta deliciosa incursão, já estou providenciando outros títulos de José de Alencar, pois o que os comentários dizem pela internet é que DIVA é o mais singelo de seus trabalhos. Se os leitores online estiverem certos, essa é uma ótima notícia, afinal, é sempre bom começar a ler um grande autor por seus trabalhos menos expressivos, pois desse modo, a cereja ficará para o final.

NOTA: 7,9

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

RESENHA DE LIVRO – COM CLARICE


Autores que deixaram um legado literário extraordinário despertam um inevitável interesse nos leitores em conhecer um pouco melhor sobre como funcionava suas mentes sublimes, e Clarice Lispector faz parte desse restrito grupo de gênios que enriqueceram o mundo com inesquecíveis obras-primas.

COM CLARICE é uma obra singular cujo propósito é nos permitir exatamente isso: a possibilidade de darmos mais um passinho em direção ao universo de nossa rainha. Trata-se não somente de um livro sobre Clarice, mas um aglomerado de documentos, análises técnicas de alguns de seus trabalhos e opiniões de gente que conviveu muito perto dela.
Portanto, para os viciados no universo clariciano, como é o meu caso, eis aqui uma obra indispensável e atualmente não muito fácil de encontrar (a minha edição eu achei por acaso num Sebo na cidade de Uberlândia, uma sorte).

Autora plural, Clarice sempre se despiu de conceitos lineares para ir fundo nas agruras da alma humana. Sua literatura de prosa investe muito além dos sentidos e, sobretudo, atiça o pensamento do leitor. Talvez esta seja a autora que melhor me insere na condição de insatisfeito; que me faz querer pensar para além da superfície.

Minha inserção ao universo de Clarice se deu por suas crônicas, caminho que considero ótimo como porta de entrada, pela leveza e praticidade linguística. E desde quando passei a explorar sua literatura, principalmente ao inserir-me nos romances, uma certeza sempre esteve incutida ao longo das leituras: a obra de Clarice Lispector é inesgotável e evolutiva; inesgotável porque nunca se consegue alcançar saciedade; e evolutiva porque nosso discernimento costuma transitar por diferentes formas interpretativas a cada releitura.

E esta opinião parece ser comungada pelos autores desta crítica literária COM CLARICE: o constante sentimento de universo inexplorado e progressivo. Affonso Romano de Sant’anna e Marina Colassanti reuniram aqui parte do legado manancial e intelectual de Clarice, num gesto fragmentado de admiradores que conseguiram nos aproximar um pouco mais da icônica autora.

O livro divide-se em três partes, sendo que a primeira leva o título da obra e talvez seja o momento mais delicioso da leitura: dois textos em que os autores e amigos de Clarice rememoram alguns instantes passados ao lado da escritora. A segunda parte chama-se De Marina para Clarice, em que a narradora nos trás um conto e uma crônica carinhosa de teor clariciano. Finalmente temos a terceira parte, De Affonso para Clarice, momento da leitura em que o autor segue na árdua empreitada de analisar alguns dos trabalhos de Clarice (esta é a parte mais técnica e, por isso, pode incomodar um pouco), e encerra-se com algumas crônicas divertidas e pertinentes.

Há ainda um apêndice em que acompanhamos uma entrevista que Clarice forneceu para os dois autores, realizada no Museu de Imagem e Som do Rio de Janeiro em 1976.
Por essa razão COM CLARICE é uma obra singular e necessária para quem é fã. Uma viagem analítica e apaixonada de amigos que se encantaram e se intrigaram por essa mulher extraordinária; que igualmente a nós, singelos leitores, buscam preencher incessantemente suas constantes insuficiências existenciais.

NOTA: 8,5

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

RESENHA DE LIVRO – MALONE MORRE


Se você costuma usar resenhas de livros como orientação e sugestão de leitura, creio que esta não lhe servirá de nada. Menos ainda atente-se à pessoalidade da nota inserida ao término da mesma. Sim, pois talvez eu tenha cometido o equívoco venial de começar a ler Samuel Beckett por este MALONE MORRE. Trata-se aqui de uma obra subjetiva e multifacetada, que embora eu aprecie bastante o estilo, esta me foi uma leitura demasiado esgotante.

A trama é narrada pela personagem do título; um homem velho, moribundo, aparentemente debilitado e preso a uma cama de um confinamento que pode ser um hospital, manicômio ou similar. O cara possui apenas sua visão limitada do quarto, uma janela com restrita permissão visual, alguns poucos pertences os quais ele usa um lápis para escrever sobre aleatoriedades e, acima de tudo, suas infindáveis incertezas.

Malone não sabe onde se encontra, muito menos sabe dizer qualquer coisa sobre si mesmo com plena convicção. Externaliza seus pensamentos de maneira desordenada e é exatamente isso o que resume a leitura de seus relatos: desordem e mais desordem. Encontrar instantes de coerência ou permissividade aqui é algo incerto, talvez impossível. Samuel Beckett mantém a linguagem hermética por toda a trama, não nos fornecendo nada e encerrando de forma igualmente enigmática.

Por toda a leitura eu tentei alcançar o escopo psicológico do narrador, um homem claramente desprendido de qualquer forma de absolutismo, condição geralmente compreendida por aqueles que se encontram em situações similares a da personagem: o flerte progressivo e determinante da finitude.

Seus relatos começam com certa lógica, mas logo descaem para o absurdo. Quando descreve lugares, pode-se intuir tanto como uma visão distorcida do ambiente como uma mera metáfora. É notório como praticamente tudo e todos são sofríveis, personagens em limites extremos, insanos, feios, excluídos. Outras vezes somos remetidos aos arquétipos propositais do narrador, ou suas lembranças nebulosas e pouco confiáveis, ou estamos mesmo diante da tentativa de se narrar a miséria do ponto de vista de um miserável do modo mais cru que já li na vida.

Por vezes eu tive que fazer pausas por imaginar que havia perdido o foco da atenção. Relia, muitas vezes, páginas inteiras já lidas e a desordem perdurava imponente na minha cabeça. Contudo, durante toda a leitura havia um elemento que jamais se afastava de mim: a noção da indigência do ser. Seja a indigência do próprio narrador, de suas desafortunadas personagens ou de nós leitores, determinados a seguir acompanhando com nossa precária falta de percepção do que nos é mais acessível: a condição da penúria.

Seja lá o que Samuel Beckett quer nos passar com seu MALONE MORRE, a mensagem incutida na obra certamente me escapou. O fato é que em nenhum momento a trama segura na mão do leitor; é como se ela nos dissesse: terás que percorrer sozinho o vale dos indigentes. E faltou-me maturidade para tal.

MALONE MORRE é uma leitura complexa e inclemente que até mesmo a gramática parece querer nos confundir. Não é inacessível, mas carece sobriedade e desprendimento. Difícil de ser recomendada por seu teor sugestivo e impossível de ser resenhada... Enfim, esqueça a minha nota de rodapé.

NOTA: 5,8

segunda-feira, 22 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIA D


Fazendo uso de uma pitada de exagero, é preciso certo cuidado com atrofias na hora de ler esta pesada obra. O volume de conhecimento aqui reunido é gigantesco, e isso pode ser constatado no peso físico do livro (tratam-se de indispensáveis 715 páginas). Segurá-lo aberto por horas de leitura pode se tornar uma desconfortável experiência.

Mas a imersão narrativa, mesclada a uma expansão de detalhes compensam qualquer desafio na hora de encarar a robustez física; DIA D talvez possa ser considerado o trabalho definitivo sobre o maior desembarque de tropas da história militar. E esta opinião não é minha, vem de alguns historiadores e especialistas da Segunda Guerra Mundial.

Temos aqui um trabalho minucioso cuja narrativa se inicia no desembarque dos aliados no litoral da Normandia, em 06 de Junho de 1944, rumo à libertação da França que estava sob o jugo do terceiro Reich. E diferente dos demais trabalhos sobre esse importante período da grande guerra, DIA D é amplamente enriquecido por detalhes dos combates que muitas vezes escapam dos historiadores; um olhar quase em primeira pessoa.

O nível de imparcialidade do autor impressiona. Antony Beevor tece a narrativa na precisa fidelidade de sua pesquisa, e o que carece de levantamentos hipotéticos, ele os sugere em concordância com documentos oriundos de diferentes fontes. O intento jornalístico e a vontade de contar exatamente o que houve é formidável, o autor não puxa sardinha para nenhum lado, apenas analisa suas fontes e entrega um dos textos mais verossímeis que já li sobre a Segunda Guerra Mundial.

Embora a obra se preocupe em relevar alguns termos técnicos, nomes e datas, o brilho fica por conta do aspecto humano de todos os envolvidos: o inabalável empenho das tropas aliadas; o medo generalizado de não saber o que está à espera no país ocupado; a luta desesperada dos alemães em notória minoria; a tragédia da destruição que sempre desaba sobre os civis que lá se encontravam.

Sim, DIA D deve ser considerado um livro indispensável para quem se interessa pelo tema. Contudo, cabem aqui algumas observações:

É preciso certo conhecimento, mesmo que não muito aprofundado, sobre a Segunda Guerra, pois o autor se concentra nos bastidores dos acontecimentos, sem fazer nenhuma apresentação. Os grandes generais, as divisões de destaques, os termos técnicos recheiam a obra por todo o instante sem fazer nenhuma referência (há apenas um glossário de siglas e fontes no final da obra), o que é perfeitamente compreensivo, haja vista que o livro narra um pequeno período da grande guerra que se passa já em tempos finais. Leitores introdutórios devem começar por obras mais genéricas antes de entrar em narrativas específicas.

Outro aspecto singular do livro foi a maneira com que Antony Beevor procura esmiuçar e compreender a mente dos generais de ambos os lados. Minha leitura deste DIA D tornou-me ainda mais admirador do marechal de campo alemão Erwin Rommel. Outras obras e documentários que pude acompanhar sempre o descreveram como um exímio estrategista e líder articulado. Neste volume tais conceitos são ainda mais acentuados, mostrando que, de fato, Rommel era um homem de elevada inteligência militar e principalmente sobriedade ímpar ao deixar de lado o orgulho e aprender com os próprios erros (condição raramente relatada pelos especialistas que pesquisaram o corpo de liderança do Terceiro Reich). Possivelmente as coisas poderiam ter sido menos trágicas para os alemães, caso o vaidoso Hitler tivesse dado ouvidos ao discernimento dos bons generais que tinha no comando de seu exército.

Não sei se em todas as edições estão iguais (a minha é da editora Record, lançada no ano de 2010), mas esta ainda vem com um bônus maravilhoso: muitas fotos do conflitos, imagens de personagens importantes e diversos mapas que nos ajudam a entender a problemática geográfica.

DIA D é um trabalho estupendo cuja imparcialidade e imersão narrativa nos ajuda a compreender que, embora tenha sido uma operação fundamental, o dia D foi um conflito arduamente vivido por ambos os lados, onde erros e acertos são descritos com a honestidade de um autor que soube mostrar aquilo que são os embates militares de nossa história.

NOTA: 9,5

terça-feira, 9 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O LOBO DA ESTEPE


Se as mazelas da solidão humana podem ser narradas de algum modo, sem deixar que se escape o equilíbrio entre o desencaixe existencial e a vontade de potência, eu creio ainda não ter lido nenhum autor que o soube esmiuçar isso melhor do que Hermann Hesse.

O LOBO DA ESTEPE é a autoproclamação da personagem que, solitário em sua essência, define-se como tal. Um ser humano em crise, só que provido de lucidez necessária para compreender sua natureza animalesca e desarmônica, tão honesto que quase o remete ao indizível.

Eis diante de nossas mãos a possibilidade de ler poesia em prosa, de teor angustiante no que tange a complexidade humana, mas acima de tudo, tragicamente enriquecida e bela.
Harry Haller é um homem entediado e a primeira parte do livro traz esse sentimento de modo quase indigesto ao leitor. Há neste ponto da narrativa um segmento confessional, auto analítico, de linguagem penitente que costuma causar certo enfado. Mas é proposital, o autor precisa mostrar quem é seu protagonista, ou seja, trata-se aqui de um caminho inescapável ao leitor.

Depois disso, a trama ganha vigor; Harry despe-se em sua dualidade, homem e lobo, então passamos a acompanhar seus confrontos antagônicos quase que insolúveis de alguém cujos preceitos burgueses o desagradam, mas que não consegue se livrar desse mal. A personagem demonstra seu asco social ao mesmo tempo em que se compreende como o arauto da mediocridade.

Sei que esta resenha soa um pouco hermética, mas o caminho é esse mesmo. A beleza de O LOBO DA ESTEPE não está na linearidade, portanto, não cabe fazer uma sinopse aqui. Até porque isso seria desnecessário pelo fato de que estamos falando de um clássico da literatura.

O livro retrata a necessidade de autoconhecimento, do caminho sem volta que é tentar compreender a si mesmo e que, embora mais árduo do que a felicidade obtida através da mera ignorância, Harry precisa angariar meios de escapar de sua cilada existencial para finalmente usufruir dos verdadeiros prazeres da vida, que numa definição epicurista, seria propriamente o prazer por meio daquilo que é mais simples.

O LOBO DA ESTEPE é um livro memorável por sua mensagem. Hermann Hesse espatifa sua personagem para, em seguida, juntar seus cacos enquanto nos cortamos em pequenas pontas. As referências em Mozart, no Teatro Mágico, na analogia do próprio nome do autor com as personagens, tudo aqui possui uma correlação, porém, nem um pouco conclusivo, o autor deixa tudo para a mera reflexão do leitor, o que é maravilhoso. E o faz sem se esquecer de sua observação pessoal, feita já no posfácio, em que Hermann Hesse sugere com humildade invejável, o que sua literatura criou na mente dos leitores da época e a verdadeira mensagem que gostaria de ter lhes passado... Eis uma obra atemporal, que como várias outras, jamais se esgotará em significado.

NOTA: 8,1

quarta-feira, 3 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIAS DA MEIA NOITE


Já que o próprio mestre Machado de Assis sugere o lado despretensioso de sua obra ao dizer que são “escritos apenas ao correr da pena”, achei que caberia uma breve explanação sobre este insigne HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE, visto que não costumo resenhar grandes clássicos.

Para se ler o mestre nos tempos de hoje é preciso que seja levado em consideração dois aspectos: 1) Machado de Assis é um homem do seu tempo, ou seja, reeditar a linguagem para tornar sua literatura mais acessível certamente aviltaria a essência da linguagem, a qual eu considero fundamental. Adotar o dialeto desusado como desculpa para não ler grandes autores do passado soa-me como falta de gosto pelo esforço... Isso é preguiça mesmo! 2) nunca se deixe enganar pelo teor muitas vezes indiferente adotado pelo autor (sua condução narrativa, vez ou outra, dá-nos a impressão de que o texto não quer chegar a lugar algum). Sempre há por trás da literatura Machadiana uma premissa irônica e sagaz, que descortina a problemática social daquela época.

Feitas as observações, vamos falar do livro:

HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE é uma compilação de contos que foram publicados originalmente num jornal que circulou no período de 1863 até 1878. Os seis contos que aqui se encontram reunidos, naquele tempo eram destinados às leitoras, público que ainda estava em ascensão.

Sob um olhar menos imersivo, o livro pode soar meio raso, de contos sem grande relevância. Mas de um ponto de vista mais analítico, a narrativa reunida nesta obra se revela um pouco mais sutil, e apresenta o típico cenário social de um tempo em que vaidade e ganancia pairavam constantes nos costumes, principalmente da famigerada burguesia (ué, mas será que mudou alguma coisa atualmente?).

Caso seja assertivo este último parêntese que fiz, eu poderia sugerir que Machado de Assis segue tão atual quanto em seu longínquo século XIX. Portanto, não se deve subestimar este trabalho que, embora pareça menos sofisticado, aborda temas fundamentais como preconceito e cobiça.

Faço menção aqui ao conto “O Relógio de Ouro”, sobre um marido que encontra no quarto do casal, desconhecido relógio que coloca em sua mente dúvidas quanto a fidelidade da esposa. O final é deliciosamente revelador.

HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE (o título também denota ironia) é uma obra que pode servir como porta de entrada para aqueles que desejam começar a ler Machado de Assis. São contos enriquecidos pelo característico charme do mestre, segmentados por narrativa ágil e sutil. Merecem a atenção do leitor brasileiro.

NOTA: 7,7

terça-feira, 25 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O VENTRE


Penso que ler seja o delicioso encontro ente dois universos distintos: a personalidade inserida pelo autor e o choque com a existência frenética daquele que lê. Cada frase consumida, cada parágrafo avançado, possui aspectos distintos para cada um de nós, e a releitura denota a evolução daquilo que, embora seja considerada uma plataforma fechada em sua estrutura, esta jamais se esgotará.

O VENTRE é um trabalho estupendo que deve ser degustado devagar, porque a personagem quer exibir a discrepância de ventres indesejados; quer relatar a continuidade da solidão irrevelável que somente aqueles que, assim como ela, também se originaram de ventres equivocados. Uma solidão profunda, arrasadora, que inevitavelmente nos remete à nossa própria solidão de leitores.

A racionalidade incutida em José Severo, o protagonista e narrador deste não menos que genial romance do mestre Carlos Heitor Cony, soa como sabedoria com requintes de crueldades, porém, sem lugar para autocomiseração. José Severo reconhece sua natureza deslocada, mas o encara de modo lúcido e ausente de qualquer percepção de merecimento pelo sofrimento vivido.

O sentimento de inadequação de Severo é percebido já nas primeiras páginas. Contudo, sem o clamor por piedade, o narrador apenas segue contando sua mera condição de algo a se tolerar; sua percepção daquilo que lhe foi fornecido como família parece-nos algo quase implacável. O bastardo protagonista simplesmente se conforma com sua condição de despossuído; uma mãe que se esforça por ignorá-lo, um pai que o percebe como uma ameaça, e o irmão que é notado como se fosse o algoz e que se encaixa perfeitamente ao outros membros da casa.

E no meio desse descolamento existencial, ainda há a paixão irrefreável por Helena, o afeto que será sua noção de impotência condicional, depois o escopo de disputa. Então tornar-se-á a mulher proibida e, finalmente, outro ventre equivocado.

Carlos Heitor Cony é um mestre na arte de se fazer suavizar pela leitura; seus textos inserem-se na mente do leitor e misturam-se à própria memória. É praticamente impossível não se ver relembrando coisas do nosso passado. E não existe volta, uma vez invocados os afetos, a leitura se fragmenta de intervalos necessários. Há aqui uma complacência fundamental pela personagem, depois o desejo de querer ser este personagem e, por fim, descobrirmo-nos sendo este personagem.

Em O Ventre predomina no leitor o anseio pelo conhecimento adquirido através da condição de inadequação; a sabedoria oriunda de um mundo que nos nega tudo. Acredito que todos nós já nos sentimos desajustado em algum momento. De algum modo, todos um dia já nos sentimos ventres indesejáveis.

De um ponto de vista mais pessoal, considerei a voz narrativa tão preenchida de sensibilidade que as situações se parecem quase lembranças, um tom quase autobiográfico, mas logicamente, sem sê-lo. E o silêncio necessário que citei há pouco, deve-se ser invocado em qualquer leitura, mas em especial, nesta deliciosa obra. Pois é dessa forma que se alcança o verdadeiro seguimento até o imaginado ventre, que indesejado ou não, é o lugar de silêncio por excelência... Dimensão que favorece o único ruído permitido quando se está a ler obra tão deliciosa: a inquietação do próprio ser.

NOTA: 9,1

quinta-feira, 20 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O ÓCIO CRIATIVO


“O homem que trabalha perde um tempo precioso”.
(proverbio espanhol)

Quem trabalha demais quase não tem tempo para ganhar dinheiro
(dito popular)

Estas duas máximas, contraditórias numa sociedade que idolatra o trabalho, resumem a ideia por trás deste atual e decente volume reflexivo. O ÓCIO CRIATIVO propõe analisar de modo provocativo a sociedade pós-industrial que condena e desvaloriza a criatividade e o tempo livre.

Mesmo em pleno avanço sociológico, a quebra de diversos entraves sociais não acontece facilmente. Alguns temas ainda continuam soando-nos como sagrados; sendo o trabalho um destes. O tabu é abordado sob a perspectiva com que o sociólogo italiano, Domenico De Masi, sugere: o desprendimento do período industrial que adestrou o ser humano ao labor de modo irracional e desnecessário.

A obra foi construída em diálogos. Trata-se de um bate-papo, uma entrevista que De Masi concedeu à Maria Serena Palieri. Ou seja, a temática do ócio aqui será analisada de maneira informal e descontraída, o que deixa a leitura bem mais fluida.

A premissa de uma sociedade majoritariamente estabelecida no ócio, livrando-se finalmente das agruras do expediente exacerbado e sem sentido, parece-nos um lugar belo de se viver na teoria, mas que na prática infelizmente ainda não faz parte do pensamento medieval da classe trabalhadora. Ter um emprego de 44 horas semanais ainda é sinônimo de dignidade e definidora de bom cidadão. E embora todos nós trabalhadores possamos ser dignos e éticos, o atestado para tal parece carecer de uma carteira assinada.

O intento do autor neste ótimo diálogo não é o de incitar o trabalho como um adversário do homem pós-moderno, mas estimular a reflexão sobre os males que a obsessão com a labuta vem causando na humanidade; segundo De Masi é uma enorme contradição que empresas ainda contratem pessoas medíocres e fúteis, simplesmente por seu caráter manipulável; que a criatividade não pode ser exercida em espaço despótico, onde a repetição sem sentido prolifera constante; que a burocratização é um mal progressivo que impede a autonomia inventiva e gera desníveis salariais.

É sabido que este tipo de assunto parece-nos paradoxal neste mundo onde o desemprego prolifera mesmo nas grandes e desenvolvidas metrópoles. Contudo, o autor não se comporta como um utópico apaixonado; de fato, suas ideias invocam o tema do desemprego de modo atual, denotando as mazelas oriundas do sistema capitalista que parece investir demais em ferramentas tecnológicas e de menos no material humano, que segundo De Masi, é o único detentor da possibilidade de criatividade na natureza. Esquecer-se do desenvolvimento humano para se concentrar em máquinas é o que tem gerado crises econômicas e desempregos em proporções astronômicas.

Domenico De Masi é um árduo defensor da economia criativa; espaços que possam unir o trabalho, prazer e criatividade. Menos autoritarismo por parte das instituições públicas e privadas é o que pode proporcionar o livre pensar criativo, que segundo o autor, trata-se de um futuro inevitável; ainda distante do pensamento consumista da civilização, mas ainda assim, inevitável.

NOTA: 8,4

quinta-feira, 13 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – REMÉDIO AMARGO


A temática proposta neste livro é amplamente rica. O universo da indústria farmacêutica é um espaço em que se é possível extrair inúmeros enredos, principalmente por se tratar de uma área científica que oscila entre a necessidade do desenvolvimento de medicamentos eficientes e o enriquecimento ilícito por conta da proliferação dos mesmos.

REMÉDIO AMARGO é engajado dentro dessa premissa: um laboratório renomado está lançando no mercado um novo produto para mulheres grávidas com a promessa de revolucionar a indústria e salvar a companhia da falência. E embora haja entusiasmo por parte dos colaboradores, paira um enorme medo de que se repita o fracasso de um medicamento similar no passado. No meio disso, acompanhamos a escalada da protagonista principal, Célia Jordan, uma mulher determinada que tenta superar o desafio do machismo no mercado de trabalho da década de 60, e usando de sua irrefreável ambição, galgar o topo da cadeia alimentar.

O autor aqui é o aclamado Arthur Hailey, que dispensa apresentações. Neste trabalho, que foi seu último em vida, temos uma trama muito técnica e cheia de intrigas dentro da temática proposta, mas que derrapa em alguns aspectos... Vamos a eles:

Como eu já mencionei, há aqui uma enorme explanação procedimental a cerca dos bastidores da indústria farmacêutica, o que comprova o engajamento do autor em pesquisar o assunto pretendido por sua obra. No entanto, Arthur Hailey parece mais preocupado com especificidades burocráticas e o funcionamento do sistema, do que propriamente em inserir complexidades éticas na conduta de seus personagens, algo que ajudaria a elevar a dúvida de forma constante na cabeça do leitor. A trama até nos mostra a problemática moral do interesse ganancioso na diretoria da indústria, mas o faz de modo superficial, parece algo unilateral que precisa estar ali, mas que não é isso o que deve ser contado.

O autor aparentemente está mais interessado em promover sua personagem principal. Célia é exaltada aqui de um modo insistente que quase fez da moça uma existência improvável; ela é impetuosa, forte, determinada, bela, altiva, perfeita, possui um instinto infalível de antecipar problemas e os coadjuvantes comportam-se de modo a exaltar isso com exagerada reverência e submissão. Arthur Hailey até chega a tentar inserir imperfeições em Célia, mas o faz de modo tímido e logo retoma os louvores inflamados a cerca de sua musa. Célia Jordan é retratada como se fosse uma heroína infalível de desenho animado; uma espécie arquétipo mitológico que o autor entrega de maneira patologicamente apaixonada... Sério, gente, isso cansa demais!

Outra coisa que me incomodou é condução extremamente prolixa. Há cenas aqui que são desnecessárias demais, como reuniões para tratar de assuntos com equipes de publicitários e advogados da companhia; instantes enfadonhos que quase me fizeram desistir da leitura e tornaram o livro assustadoramente extenso.

Os diálogos também não são orgânicos, eles deixam a impressão de que estamos lendo máquinas programadas que conversam entre si, sem a menor naturalidade ou improviso. Há aqui uma escassez enorme de sensibilidade narrativa. Um exemplo disso são as crianças, que quando surgem nos diálogos são artificiais como personagens de uma propaganda de margarina.

REMÉDIO AMARGO é um livro de título instigantes, conduzido por autor renomado e de trama que não soube explorar o extenso universo de seu tema. É um trabalho que passa suas quase quinhentas páginas tentando transformar a protagonista principal numa espécie de bond-girl, esquecendo-se de seus outros personagens que poderiam ter contribuído para elevar a dinâmica da história... Uma pena.

NOTA: 4,1

sábado, 18 de maio de 2019

RESENHA DE LIVRO – A MORTE DE IVAN ILITCH


Pensar sobre a morte nos aproxima de nossa humanidade porque se trata de tema a exigir que olhemos para nós mesmos; a noção de sua proximidade nos afasta daquilo que nos constituía como indivíduos sociais: bens materiais, profissão respeitável, requinte e vaidade. Então, resta apenas o retorno ao que nos é verdadeiro, o frágil e palpável insignificante ser humano; mesmo que isso nos ocorra de modo caótico.

A MORTE DE IVAN ILITCH, primeiro leitura que fiz do aclamado escritor russo Lev Tolstói, causou-me certo desconforto existencial, mais ou menos como tentei expressar na frase que inicia esta resenha. A ideia de inexistência da finitude parece soar como condição para que consigamos viver em paz. No entanto, como somos a única espécie da natureza que sabe que a ampulheta da alma escorre sua areia de modo ininterrupto, procuramos formas de nublar essa certeza, quase que de modo obstinado.

A trama nos coloca perto de um homem (O Ivan do título) que está em busca daquilo que considera essencial: os signos sociais permissivos à dignidade de sua existência. Então nosso herói é acometido de implacável doença e, de repente, se vê a beira da morte. Veja bem: aqui a resenha não está cometendo nenhum spoiler; não apenas o protagonista, como também o leitor sabe, desde o princípio, que Ivan irá morrer. E tal percepção não é o fio condutor do enredo, mas a desconstrução de um homem que, assim como todos os outros mortais, pensa que pode se esconder da finitude.

Sempre que pego um autor clássico o qual ainda não conheço, respiro fundo e busco invocar a máxima concentração possível, já prevendo que estou adentrando em território dificílimo de percorrer. Contudo, em se tratando de Tolstoi isso não aconteceu. O cara escrevia de modo simples e permissivo, como se a verdadeira genialidade da escrita se desenvolva por meio de relatos descomplicados e que nem por isso perdem o viés daquilo que se quer expressar. Fez-me pensar que a linguagem erudita muitas vezes é apenas sinônimo de pedantismo e a intenção vaidosa de tornar ideias pouco claras.

O livro é curtinho; da para chegar ao final antes que a segunda xícara de chá termine. Porém, isso provavelmente não acontecerá porque A MORTE DE IVAN ILITCH é um convite à reflexão; simplesmente não é possível percorrer estas páginas sem fazermos algumas pausas para olharmos com um pouco mais de sensibilidade para a nossa própria existência e o que estamos fazendo com ela.

É um raro livro que trata de amargo assunto em que estamos todos nós determinados. E embora a morte paire arrogante em toda sua inevitabilidade, talvez seja exatamente sua presença aquilo que mais nos aproxima do nosso lado mais orgânico; a percepção de que nada importa, somos apenas células insignificantes e irrisórias em busca de significado justamente onde não se pode haver: no desprezível acúmulo substancial de coisas.

NOTA: 8

sábado, 11 de maio de 2019

RESENHA DE LIVRO – HOMENS, MULHERES & FILHOS


Temos aqui um trabalho peculiar, difícil de ser recomendado, digerido ou rotulado. Mas aprovar ou abominar, embora pareça dividir leitores de modo equilibrado, nenhum dos lados pode contestar a faceta cruciante que o escritor Chad Kultgen sustenta, de uma sociedade alienada e confusa, que aparentemente sabe cada vez menos sobre aqueles seres que nela convivem, em essencial, aqueles que nos são mais próximos.

Eis a essência desta decente obra.

A priori a trama sugere algo inofensivo e parece denotar que temos em mãos só outro daqueles livros purpurinados, cujo estilo é o típico “bate e assopra” e acima de tudo, atesta aquilo que os adolescentes adoram ler: que eles são vítimas e estão vivenciando a pior fase de suas vidas...

Só que o buraco é bem mais embaixo. HOMENS, MULHERES & FILHOS traz ao leitor, de forma pungente, as incertezas dos adolescentes sim. Mas não se prende a esta fase unicamente e invade também o universo dos adultos, explicitando com textualidade intimista, sexual e despudorada, que ninguém neste planetinha cheio de gente sabe exatamente como lidar com as próprias mazelas existenciais; exibe-nos famílias pós-modernas, que cometem o equívoco de achar que compreendem a diversidade abundante do ser humano, pelo simples fato de se estar deliberando sobre um membro da família, ou pior, sobre si mesmos.

Talvez o que faltou para tornar este livro memorável fosse uma boa dose de profundidade nos aspectos naturais e psicológicos de cada personagem, mas é impossível não exaltar a coragem com que algumas problemáticas de nossa sociedade atual são atiradas na cara do leitor, como se fosse uma dolorida bofetada.

O livro possui muitos personagens, todos em condições iguais de importância e jogados de uma vez na narrativa. Isso teria sido um problema para o aspecto familiaridade, mas o autor soube conduzir a trama em subcapítulos curtos e com prosas ágeis, o que facilitou na hora de situar cada um deles.

As situações são bem críveis, alguns momentos chegam a incomodar um pouco. Há instantes em que a narrativa parece perder o freio e simplesmente vai contando tudo, de um jeito cru e quase pornográfico. O livro deixa claro que não quer entrar no lado imersivo de seus personagens, e sim, focar apenas em contar sua história.

Os personagens não desagradam nem nos deleitam. Inserem-se, de um lado ao outro, dentro de um cenário cheio de lacunas em que tentam esconder suas facetas: o ímpeto sexual, a competitividade juvenil, a impotência perante o trauma, condutas exóticas ocultas, o medo da sociedade julgadora. A trama não se prende em esmiuçar seus temas, mesmo assim, seguimos lendo pela vontade de saber como essa mistura caótica terminará.

O livro também tem seus probleminhas: algumas narrativas são cansativas, como por exemplo, as partidas da divisão escolar de futebol americano; momentos chatos e desnecessários para o entendimento. Poderiam ter sido resumidos ou cortados.

O desfecho de cada um dos personagens também é previsível demais. No entanto, isso não chega a incomodar porque a condução prosaica é simpática; a gente quer continuar lendo mesmo sabendo o que vai acontecer daqui a pouco.

O final trouxe uma explanação valiosa sobre causa e efeito no desfecho de um dos personagens. É bem neste ponto do livro que a mensagem maior sobre nada ser o que parece diante dos olhos se torna evidente.

HOMENS, MULHERES & FILHOS termina no momento certo; sem descambar para pieguices, nem reviravoltas comoventes... Coloca o inacabado em seu lugar ideal, restando-nos o árduo incômodo de sabermos que nada se encerra propriamente, que tudo é cíclico e que talvez seja essa a magia por trás da complexidade: a possibilidade de aprender a deixar de lado os anseios e vaidades, para quem sabe aprendermos a aceitar o diferente no outro.

NOTA: 7,1

segunda-feira, 29 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – O COMPROMISSO


Um texto quando parece sofisticado demais, muitas vezes deixa-nos com a sensação de que foi escrito por algum esnobe interessado apenas em receber meia dúzia de elogios por saber compor algo difícil de ser compreendido. Esse estilo pedante de linguagem por vezes não passa de literatura irrelevante e esquecível, disfarçada de erudição. E na contramão disso, é maravilhoso quando encontramos um livro que destila uma linguagem que simplesmente quer relatar algo, e que o faz de modo natural, direto... Tão direto que a crueza de seu conteúdo é o viés de seu encanto.

O COMPROMISSO é exatamente isso: uma belíssima aula de narrativa da vida em que você entende cada parágrafo, relatos diretos e imparciais de alguém que meramente quer contar sobre o cotidiano. É precisamente desse modo orgânico que transcorre a leitura de Herta Muller. O acaso nos faz sentar ao lado de uma mulher dentro de um bonde. De modo despretensioso, ela se vira e começa a contar seus relatos como se fosse meramente uma existência acumulada que precisa verbalizar; que precisa externalizar o que paira em sua mente, naquele exato instante em que suas memórias flutuam. Não importa quem é o ouvinte (leitor) que está ao lado dela. Então, essa mulher resiliente revela os pedaços de sua trajetória constrangedora sem pedir licença, sem clamar por sua opinião, sem explicar o que sente.

Após suas confissões espontâneas, essa mulher se levanta do lugar em que estava, despede-se e vai embora, deixando você inteiramente atônito e boquiaberto. Sobram-se apenas ouvinte (leitor) com sua frágil estrutura existencial completamente abalada por aqueles relatos; o ouvinte (leitor) compreende que inevitavelmente passará dias pensando sobre tudo aquilo que ouviu, justamente porque o imaterial era quase palpável.

A mulher em questão está justamente indo para O COMPROMISSO. Desse modo, ela toma o bonde outra vez, para mais um interrogatório humilhante às autoridades do regime ditatorial que perdura em seu país, sem saber se volta pra casa ou não; se será finalmente presa e torturada; sem saber como fará para esconder o ódio de seu algoz. Ela cometeu ato impensado de colocar bilhetes nos ternos da fábrica onde trabalhava, oferecendo-se em casamento para alguém que a livrasse da tirania opressora do Estado.

No entanto, mesmo diante da extraordinária e bela narrativa, O COMPROMISSO não é um livro para qualquer leitor. A história não transcorre linear, aqui não existe a preocupação em colóquios objetivos, mas sim, reflexões ásperas, linguagem direta e sóbria... Não há tempo para arrependimentos ou concessões.

A trama vai pra frente e pra trás o tempo todo, pode até causar certa confusão na imersão do leitor. Mas o intuito aqui passa muito longe de conclusões ou respostas; estamos diante de uma vida que aconteceu tanto, que ao término do relato, ficaremos com a sensação de que fomos preenchidos, não pela linearidade começo, meio e fim, mas justamente pela maneira com que o mundo te colocou no caminho dessa mulher e inevitavelmente você se saciou com sua história.

A leitura causa impacto, a continuidade de um choque após outro nos deixa apreensivos, a narração harmoniosamente simples, como quando ela examina os outros passageiros dentro do bonde que observa...

Texto legítimo é texto fácil de entender. Herta Muller transborda delicadeza, dá um show de literatura com seu livro, que de tão cândido, revela-se altamente resplandecente.

NOTA: 9