terça-feira, 26 de agosto de 2025

CONTO – EM BUSCA DE SENTIDO – 1º PARTE


 – Como foi o seu dia?

Os manuais de práticas clinicas sugerem que não se deve usar frases estereotipadas durante uma sessão. A premissa é que isso retira a autenticidade da interação com o paciente, faz parecer um diálogo protocolar e, mais do que isso, deixa o paciente pensar que ele é apenas um instrumento do trabalho de alguém. “Como foi o seu dia” é uma pergunta que se faz para alguém que não nos interessa a resposta.

– Outro dia da marmota, doutor. – Respondeu o paciente, referindo-se ao filme O Feitiço do Tempo, em que o protagonista passa dias preso no mesmo dia, num ciclo interminável de repetição do mesmo dia – acordei, dirigi até o escritório, resolvi tarefas, dirigi de volta para casa, jantei com a esposa, assisti vídeos bobos na cama, até pegar no sono.

– Tentou fazer os exercícios que recomendei?

– Tentei sim..., escovei os dentes com a mão esquerda, mudei o trajeto até o trabalho, comecei um curso de origami, arranjei um cachorro – ele se recostou no sofá e suspirou pesadamente – nada disso adianta! Mudar o jeito de fazer as coisas funciona por alguns dias, mas logo vira rotina também.

– A mente humana é programada para automatizar tudo. Isso poupa energia.

– Por que diabos minha mente quer poupar tanta energia, doutor?

– É uma condição ancestral. A humanidade viveu a maior parte de sua existência na escassez. Conseguir alimento era difícil e incerto. Por isso herdamos esse cérebro econômico e agora precisamos lutar contra ele.

As respostas do paciente evidenciam a necessidade de eu iniciar a sessão com aquela pergunta interditada pelos manuais. Aquele paciente sofria de uma espécie de tédio crônico. Perguntar pelo seu dia era condição crucial para entender sua evolução. Não é muito raro entrarem pacientes no meu consultório com queixas de desânimo, falta de motivação ou de sentido no que faziam. A maioria dos casos era apenas um tédio recorrente. Quando faço esse tipo de diagnóstico, foco na busca por tirar o sujeito de sua zona de conforto, algo que não é muito fácil, pois evitar mudanças ou experiências novas é um comportamento tão habitual no ser humano quanto acreditar em divindades ou fazer fofoca. Contudo, ainda é o remédio mais eficaz para se tirar alguém do enfado.

– Meu cérebro deve ser idiota – o comentário dele foi auto infligido, mas fazer alguma observação desviaria nosso objetivo. Também não poderia rir, porque escutar alguém dizer que o próprio cérebro é idiota, meio que diz muito sobre essa pessoa.

– O cachorro não está ajudando?

– O cachorro me odeia, doutor. Passa tempo demais sendo bajulado pelas meninas..., quando chego em casa, ele meio que me enxerga como uma possível ameaça ao seu território.

– Você precisa interagir, se aproximar, levá-lo pra passear, passar algum tempo junto com ele.

– Eu até tento fazer isso. E pode ser coincidência, mas quando está com as meninas, o bicho brinca, corre, abana o rabo, se esfrega em todo mundo..., mas quando eu o levo para passear ele só sabe cagar e latir para as pessoas na rua.

Aquilo me fez pensar que até os animais possuem seus favoritos. Ou talvez meu paciente seja uma companhia desagradável até para o cachorro.

– Pelo menos ele está sendo bom para sua família – comentei, tentando amenizar – E o que mais você tem feito?

– Comecei a ler um livro – ele tentou buscar na mente suas tentativas de fazer atividades fora da rotina – Mas eu confesso que não aguento três parágrafos.

– Dependendo do autor, três parágrafos podem significar mais de uma página.

– Aquilo me dá nos nervos, doutor..., tem palavras demais naquela porra!

– Bem, é um livro. O que você queria?

– Sei lá, doutor..., aquela imensidão de palavras reunidas mais se parecem com uma tortura do que um hobby. Parece um lugar infinito..., fico exausto só de abrir a página.

– Qual é o título do livro?

– É um daqueles que você me recomendou..., O Poder do Hábito.

– Foi uma ótima escolha!

– Foi um ótimo tormento, melhor dizendo – ele parecia mesmo sofrer só de pensar referido objeto – aquilo parece uma lajota, não dá nem pra segurar.

– Encare o livro como um grande desafio, isso talvez te ajude. Grandes desafios geram satisfações igualmente grandes quando realizados.

– Ou grande desgosto caso não consiga vencer o desafio.

Ele tinha razão, mas eu não poderia contornar a hipótese proposta. De fato, quando miramos alto demais num projeto existe o risco real da não realização. E isso pode potencializar muito a noção de fracasso do paciente. Nessa hora é preciso oferecer argumentos válidos que o encorajem a seguir na empreitada.

– A receita ideal do progresso é o estabelecimento de metas pequenas, constantes e alcançáveis. Quebrar um grande desafio em várias etapas menores, porém, passíveis de serem vencidas. Isso pode ajudar.

– O que você sugere, doutor?

– Que você não pense no livro como um todo, nem imagine o término da longa leitura. Em vez disso, tente focar em três parágrafos por dia..., consegue fazer isso?

– Devo ler somente três parágrafos por dia?

– Não necessariamente, você pode ler o quanto quiser..., mas no lugar de pensar no término da leitura, estabeleça como meta três parágrafos por dia. Isso deve fazer com que seu cérebro perceba a meta como algo possível e você se sentirá motivado.

Ele fez um breve silêncio, coçou a barba, refletiu e então me encarou.

– Não acha que essa é uma meta ridícula?

– Isso é você quem vai definir. Se com o passar dos dias três parágrafos se tornarem fácil demais, aumente para cinco, depois para dez, quinze parágrafos.... Com o passar do tempo você vai estar lendo dez páginas diariamente.

– Não consigo me imaginar lendo tanto assim.

– Não tem problema. Por hora foque apenas nos três parágrafos.

Basicamente, o livro não teria um efeito de amainar o tédio, mas a esperança era de que o conteúdo despertasse seu interesse. O ser humano funciona muito melhor quando consegue enxergar resultados naquilo que se propõe a fazer. Aquele paciente queria acabar com um enfado que já o acompanhava há anos. Mas se tratava de um caso típico da sociedade contemporânea: após as questões básicas da vida serem resolvidas, como alimentação, repouso, moradia, segurança, emprego, saúde, propriedade…, vem as necessidades psicológicas como amor, amizade, família, estima, confiança, respeito dos outros e com os outros. Superada essas etapas, o ser humano entra na fase que considero a mais complicada da vida. E eu sabia que isso só seria possível quando meu paciente conseguisse se encaixar nessa tão abstrata fase: a busca de sentido na vida.


*continua*

sábado, 9 de agosto de 2025

RESENHA DE LIVRO – INTIMIDADES – dez contos eróticos de escritoras brasileiras e portuguesas

O erotismo que me agrada na literatura contemporânea, não é aquele que se impõe de fora para dentro, como acontece costumeiramente na literatura erótica tradicional (geralmente escrita sob o olhar masculino). O melhor do erotismo, em minha opinião, é aquele que nasce da interioridade feminina, que é vivenciado de forma a constituir as mulheres como individualidades que anseiam e agem, não apenas figuras clichês passivas ou meros objetos de desejos.

Os contos que foram organizados para compor esta compilação, são representantes desse cenário: o erotismo aqui não é romântico no sentido tradicional, muitas vezes, se aproxima de algo ambíguo, contraditório, uma mistura de prazer e vulnerabilidade, ternura e impotência, desejo e silêncio. O olhar feminino estabelecido nas narrativas presente em INTIMIDADES confere profundidade psicológica.

A organizadora por trás dessa empreitada é Luisa Coelho, portuguesa que vive no Brasil desde 2002, professora da Universidade de Brasília e autora de várias obras de ficção. Este compilado de contos reúne autoras brasileiras e portuguesas, proporcionando uma aproximação entre as duas culturas.

A obra reúne dez contos, explorando o erotismo sob diferentes perspectivas, com linguagem que passeia pela sutileza poética, realismo cru e intersubjetividade. O tema do erotismo aqui não é gratuito, mas está profundamente ligado à intimidade emocional.

Como já mencionei, o ponto forte está no protagonismo feminino. Livre de censura, culpa ou estigma, as autoras destilam a sensualidade de suas protagonistas, combinando erotismo com introspecção que não cai em clichês pornográficos, algo tão comum em literaturas eróticas escritas por homens.

Além disso, uma compilação como essa possui uma enorme relevância cultural, pois se inscreve numa posição que busca romper o silêncio histórico em torno da sexualidade feminina. Ao reunir autoras de dois países ligados por um trágico histórico colonial, a antologia também traça um mapa afetivo e cultural do erotismo em língua portuguesa, que ao meu ver, ainda foi pouco explorado sob a ótica feminina.

A curadoria de Luisa Coelho é atenta à diversidade; há contos com uma linguagem mais poética, outros são insinuantes, alguns dotados de realismo orgânico. Há experiências urbanas e íntimas, algumas são oníricas e simbólicas. Meus favoritos são Cobertor Engomado, de Branca Maria de Paula; Só Sexo, da sempre fabulosa Inês Pedrosa e Mónica, de Maria Teresa Horta.

INTIMIDADES é uma obra provocativa e, acima de tudo, um ensaio de liberdade. Quando uma mulher fala sobre seu corpo e seus desejos, como ocorre com as personagens dessa coletânea, ela não está apenas contando uma história, mas reivindicando sua existência e subvertendo silêncios históricos.

NOTA: 8,7

sábado, 26 de julho de 2025

RESENHA DE LIVRO – A CARA DA MORTE

Imaginário não é o mesmo que fantasia ou ilusão. Trata-se de um conjunto de imagens, símbolos, narrativas e crenças que uma sociedade desenvolve para dar sentido a certos fenômenos como o nascimento, o amor, o mal, e claro, a morte. Mas seria possível compreender o imaginário da morte?

Do ponto de vista psicanalítico, Freud tratava a morte como um conteúdo fundamental do inconsciente, ligado ao medo, à pulsão e ao sagrado.

Enquanto isso, a sociedade moderna, mais especificamente a ocidental, tenta desenvolver meios de camuflar a morte: hospitais afastam os corpos, cemitérios são murados, capelas mortuárias para que velórios ocorram longe dos lares, evita-se falar sobre luto ou finitude. Justamente por isso, pesquisar sobre o imaginário da morte é um modo de trazer à consciência o que foi reprimido socialmente.

A CARA DA MORTE é um estudo original que une perspectivas psicológicas, simbólicas e religiosas. A obra analisa o imaginário da morte através dos olhos de quem trabalha diretamente com ela, propondo uma reflexão sobre como a sociedade moderna contempla e administra a morte; sobre o quanto, ao delegarmos aos sepultadores (durante a pesquisa, a autora descobre que o termo “coveiro” é considerado por essa classe trabalhadora como pejorativo) o trabalho da morte, a sociedade retira de si o ônus simbólico desse enfrentamento.

O conteúdo aqui trata-se originalmente de uma dissertação de mestrado da autora Clarissa De Franco, no programa de Ciências da Religião da PUC-SP, que foi defendida no ano de 2008. Clarissa explora o imaginário da morte por meio dos relatos e sonhos dos sepultadores de alguns cemitérios paulistanos. A autora considera desde temas da antiguidade clássica e tradições cristãs, até as influências da herança afro-indígena na religiosidade brasileira.

Senti falta de um pouco mais de profundidade sobre o tema da terceirização da morte, muito embora eu saiba que esse não era o escopo central da obra. Quando entregamos a morte às mãos de profissionais como médicos, sepultadores, agentes funerários, o que estamos evitando de fato? Seria o sofrimento de ver um corpo? O medo da finitude? A desordem do fim? Ou estaríamos fugindo da percepção mais radical de todas: a noção de que aquela perda, aquele vazio, um dia também será eu.

Um ponto central que o livro aponta é sobre a precarização do trabalho dos sepultadores, identifica também que existe certo grau de dificuldade em se trabalhar em cemitérios das periferias, em relação aos cemitérios tradicionais utilizados pelas classes médias e altas, evidenciando que até mesmo a morte, esse fim universal e comum, também é marcada por desigualdade social.

Ou seja, na teoria a morte é igual para todos, mas na prática isso não ocorre. O que Clarissa mostra é que, mesmo no momento final, as diferenças de classes persistem e se manifestam de modo brutal. Cemitérios de periferia têm estrutura precária, escassez de materiais de trabalho, ausência de apoio psicológico e sobreposição de túmulos. Os sepultadores, pessoas que lidam com a dor alheia todos os dias, frequentemente trabalham em condições insalubres, sem reconhecimento, com baixos salários e quase nenhuma estabilidade. Já nos cemitérios da elite, os túmulos são tratados com ornamentos, capelas privativas, velórios longos e personalizados, serviços funerários caros e ostensivos.

Qual seria, afinal, essa cara da morte que intitula a obra? Clarissa De Franco nos propõe a pensar que sim, a morte tem uma cara. Mas de modo algum refere-se a um retrato estático que pode vestir qualquer sociedade em qualquer tempo, como se fosse uma máscara. A cara da morte que surge com a leitura, talvez seja algo mais arquetípico da morte, senhora de si, cujos conteúdos socioculturais foram sendo registrados em sua expressão, carregando-a de rugas e marcas, mas sem aspectos clichês como o manto negro e a foice alongada. A morte é, na verdade, um marcador cultural: o lugar e como se morre diz muito sobre quem se é, dentro de uma estrutura social.

NOTA: 8,4

terça-feira, 1 de julho de 2025

RESENHA DE LIVRO – TALVEZ VOCÊ DEVA CONVERSAR COM ALGUÉM

Embora nunca se tenha descoberto a parte inconsciente da psique humana, filósofos, romancistas e até os Vedas – texto sagrado indiano – já discorriam sobre a parte obscura da mente, há mais de mil anos. Sigmund Freud marcou seu nome na história ao identificar que os sintomas neuróticos eram mensagens inconscientes de conteúdos reprimidos, então ele criou a cura pela fala, que revolucionaria a interação entre paciente e o analista.

Funcionando como um processo de exploração e compreensão, a terapia, nos tempos modernos, é uma instância na qual paciente e terapeuta trabalham juntos para identificar e resolver problemas. Mas apesar de comprovadamente eficiente e produtiva, os diferentes métodos terapêuticos ainda são vistos com desconfiança por grande parte da sociedade, basicamente por considerarem ineficaz ou nutrindo certo preconceito perante questões psíquicas.

Nesta obra envolvente e profundamente humana, Lori Gottlieb nos convida a adentrar os bastidores da psicoterapia, com uma honestidade ímpar e, proporcionando ao público que desconhece a prática, seus valores, benefícios e fazendo cair por terra estereótipos enganosos criados pelo senso comum.

Alternando entre sua função de terapeuta e também se submetendo à terapia, a autora constrói uma narrativa que quebra o estigma de que profissionais da saúde mental são imunes às próprias dores emocionais. Gottlieb, ela própria, é a protagonista da trama, cuja condução em primeira pessoa discorre, com humor, empatia e um olhar clínico, todas as fragilidades humanas. A trama equilibra de modo eficiente os relatos dos seus pacientes, com a própria jornada emocional da autora, que após o inesperado término de seu relacionamento, resolve acatar a sugestão de uma amiga de que “talvez devesse conversar com alguém”. Temos então um conteúdo abrangente que escancara porta e janela do set terapêutico para que conheçamos um pouco mais sobre como funciona esse tratamento.

TALVEZ VOCÊ DEVA CONVERSAR COM ALGUÉM é um livro que se destaca por tornar acessível os conceitos da psicologia clínica sem simplificá-los, conectando teoria e prática por meio de histórias reais e impactantes, algumas quase me trouxeram lágrimas, é uma leitura que humaniza tanto terapeuta quanto paciente e, sobretudo, ressalta o poder curativo por meio da escuta e do diálogo.

A protagonista e autora foge do clichê da profissional excelente e distante, que olha para os pacientes como se fossem seres inferiores pela ausência dos conhecimentos que detém. Não…, Lori Gottlieb é uma pessoa real, cheia de dúvidas, dores e contradições, quebrando o mito de que terapeutas são figuras inalcançáveis ou sem problemas.

Outro ponto forte é quanto a desmistificação da prática terapêutica. O livro mostra o que realmente ocorre durante uma sessão de terapia, desfazendo a imagem errônea de que se trata de um mero desabafo do paciente. A autora traz à tona valores éticos verdadeiros do processo clínico.

TALVEZ VOCÊ DEVA CONVERSAR COM ALGUÉM é uma excelente obra, cuja linguagem acessível e histórias cativantes aproximam o leitor do universo da saúde mental, sem tornar o tema medíocre. Em um mundo onde o sofrimento recorrentemente é silenciado, o livro é uma ode às emoções humanas…, da tristeza à raiva, da solidão à ansiedade, são experiências legítimas e tratáveis.

NOTA: 🔟😍

sábado, 14 de junho de 2025

RESENHA DE LIVRO – O DEMÔNIO DO MEIO-DIA

No contexto do Salmo 91 da bíblia, especificamente os versículos 5 e 6, o “demônio do meio-dia” é citado como expressão que pressupõe uma forma de manifestação do mal, que pode atacar e causar danos, mesmo em plena luz do dia. Quando Santo Agostinho disse que a razão era o principal atributo que nos distinguia dos outros animais, logo se compreendeu que a ausência da razão era sinal de desconsideração divina. Ou seja, a perda da razão seria uma punição de Deus incutida aos homens. Á partir dessa premissa, interpretações foram dadas por clérigos, como por exemplo, o enforcamento de Judas após sua traição, seria em decorrência do afastamento de sua alma do sagrado, Deus teria incutido nele melancolia e arrependimento, por isso ele se matou. Sendo assim, todo suicida seria alguém afastado do favorecimento divino, pois todo melancólico seria como Judas.

Portanto, ainda sob o olhar do contexto religioso, é preciso desvendar o nome do demônio que habita o ser humano, e somente através dessa descoberta será possível exorcizá-lo. Em tempos antigos a depressão ainda era um demônio inominado, então era conhecido como o demônio do meio-dia.

Este excelente trabalho do escritor Andrew Solomon, faz uma minuciosa autópsia de um dos maiores males que assola a humanidade, em especial a sociedade pós-moderna: a depressão. Como explicita o subtítulo, este livro é uma verdadeira anatomia sobre a depressão. O autor aborda muitas particularidades da doença, os tabus que ainda enfrenta, preconceitos e suas repercussões biológicas, culturais, médicas e históricas.

A obra está dividida em doze capítulos, cada qual com sua abordagem específica do tema em questão, tais como colapsos, tratamentos, alternativas, vício, suicídio, história, política, evolução, entre outros, analisa cada temática com um trabalho grande de pesquisa e de campo, feito pelo autor, que também sofre da doença e, de forma corajosa, expõe-se como complemento interpretativo.

O estilo textual é bem acessível, apesar de a obra conter muito levantamento estatístico e estudos acadêmicos, Solomon utiliza uma linguagem simples e fluida, sem se apegar a jargões técnicos ou pedantismo literário. É como se o livro fosse propositalmente feito para quem busca uma luz na escuridão da doença; O DEMÔNIO DO MEIO-DIA foi desenvolvido para acolher e amenizar as dúvidas daqueles que sofrem de depressão.

Alguns capítulos são interessantíssimos, pois apontam o problema da depressão de pontos de vista distintos ou mesmo ignorados por especialistas. Com a intenção de descortinar as mazelas em torno da depressão, o autor faz uma longa pesquisa através de cenários desesperançosos, complexos e até nocivos, como a falta de políticas públicas de conscientização e combate à doença, a falta de ética da indústria farmacêutica que tira proveito da complexidade da doença para vender remédios, o sofrimento da população mais pobre que, apesar de a depressão ser uma doença equitativa, suas consequências são inevitavelmente piores aos doentes que vivem em condições precárias de subsistência, e a história da depressão, muitas vezes mal interpretada, tomada como castigo divino ou tratada com métodos ineficazes.

Um ponto que me chamou muito a atenção, logo no início da leitura, foi a honestidade e sensibilidade com que Andrew Solomon trata a depressão. No primeiro capítulo, intitulado “depressão”, imediatamente o autor retirou de mim um estereótipo que carregava sobre a doença, ao afirmar que “a depressão é a imperfeição no amor”. Sempre achei que a definição mais abrangente para a depressão fosse “uma tristeza profunda”. Mas ao dizer que a depressão é a ausência de amor em todas as esferas, de cara o texto criou uma ruptura no meu modo leigo e até irresponsável de falar sobre algo que não compreendo:

“Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição (…). Embora não seja nenhum profilático contra a depressão, o amor é o que acolchoa a mente e a protege de si mesma (…). Quando estão bem, alguns amam a si mesmos, alguns amam outros, alguns amam o trabalho, e alguns amam a Deus: qualquer uma dessas paixões pode fornecer o sentido vital de propósito que é o oposto da depressão”. (pág.15)

O DEMÔNIO DO MEIO-DIA é mais do que uma análise sobre a depressão, é também um texto autobiográfico com ampla sustentação na literatura e em relatos variados de pessoas que sofrem com essa doença. É um retrato vívido e corajoso, construído de dentro para fora, ou seja, a partir da experiência própria do autor.

NOTA: 🔟😍

terça-feira, 27 de maio de 2025

CRÔNICA – BIBLIOFILIA

Há alguns anos, contratei o serviço de marcenaria para modificar minha estante de livros. Enquanto fazia suas medidas e anotações, notei que o profissional olhava ao redor, para minha querida e modesta coleção de volumes. Resolveu puxar assunto:

– Você gosta de filosofia?

– Além de outros temas... – respondi, meio surpreso, pois esperava outro tipo de abordagem – Também adoro ler sociologia, história, mas o romance é o meu gênero favorito.

– Um rapazinho que trabalha comigo também curte filosofia, – disse ele, enquanto esticava a fita métrica na parede – vive bancando o pensador lá na oficina, sempre tem um conselho ou opinião sobre as coisas da vida.

– Ele deve gostar de ler – supus, e tentava decifrar se aquele comentário dele seria uma observação despretensiosa, ou se levantava uma hipótese de que toda pessoa que gosta de ler é um chato que adora meter o bedelho na vida alheia, visto que ambas hipóteses são absolutamente plausíveis.

Após outra anotação de medidas, ele pousou as duas mãos na cintura, olhou ao redor do escritório, e concluiu:

– Antes de chegar aqui eu achava que sim. Mas agora que estou diante dessa quantidade toda de livros, estou certo de que, de fato, meu colega até aprecia leitura. Mas obsessão de verdade deve ser o seu caso.

Foi a primeira vez em que alguém reparou nesse meu amor irrecuperável. Envaidecido, concluí que havia contratado o profissional certo (o resultado do serviço provou que ele não era, mas isso não vem ao caso), afinal, ele sabia que teria de caprichar na ampliação da estante. Porque é fato que todo amante quer sempre o melhor para o objeto amado.

– Geralmente não é isso o que as pessoas dizem quando veem meus livros pela primeira vez – comentei, sentindo-me o maior leitor do mundo – mas obrigado.

– E o que elas dizem?

– Basicamente fazem duas perguntas: se eu já li todos esses livros, e se eu gosto de ler.

– Bom, a primeira pergunta é até aceitável, já que quase ninguém lê livros nesse país. Contudo, a segunda pergunta me parece meio óbvia, né?

– Acho que as pessoas costumam perguntar coisas óbvias, porque precisam de algum tempo para assimilar aquela realidade a qual se está confrontando.

Não foi preciso muito para ele concluir que não fazia nenhum sentido comprar livros simplesmente para encher prateleiras. Geralmente um pseudo intelectual compra livros para deixar sua estante cheia e, através disso, parecer erudito aos olhos dos outros; enquanto um leitor de verdade precisa comprar estantes para guardar seus amados livros. Parece se tratar de dois casos semelhantes, mas há uma grande diferença aqui.

Precisei dos serviços de marcenaria, justamente porque meus livros já não estavam a caber nas antigas prateleiras, então tive que repensar o ambiente, arranjar mais espaço. Sim, pois meus livros amontoam-se cada vez mais, e creio que essa rotina de aquisição de novas obras só terá fim quando eu morrer.

O historiador português João José Alves Dias definiu como bibliófilo aquele sujeito que ama os livros. Encontrei o termo por acaso, enquanto fazia uma pesquisa sobre as maiores bibliotecas do mundo. Antes disso, eu não sabia que existia uma definição para essa obsessão que me é característica; contentava-me com a classificação de amante de livros.

Talvez a condição de se gostar tanto de algo ou alguém, deriva de experiências positivas que vivemos. Não acredito na ideia de amor à primeira vista, isso está mais para uma paixão, e como tal, tem prazo de validade. Ou seja, foi preciso que houvesse uma relação transformadora de longa data para que nascesse este bibliófilo que voz escreve.

Eu era muito jovem, vivendo numa década de noventa onde as mudanças culturais aceleravam-se, e as novas tecnologias surgiam como se fossem alienígenas que vieram de muito longe para nos proporcionar avanços significativos na vida cotidiana. Minha maior característica nessa fase foi a timidez; era um jovem muito fechado, passava grande parte do meu dia, sozinho, ouvindo música no rádio ou lendo gibi. Os instantes em que interagia com outras pessoas era na escola ou nas partidas de futebol no meio da rua. Amigos? Quase nenhum, sempre preferi fazer minhas coisas sozinho..., às vezes isso me incomodava um pouco, então para escapar dessa realidade solitária, minha mente criava diversos amigos imaginários, os quais preencheram minha juventude.

Pois numa tarde enfadonha de sábado, estava deitado no quarto, sem nada pra fazer, olhando as manchas na parede, formadas pelo desgaste. Então reparei na cabeceira da cama do meu irmão mais velho, um livro de autoajuda chamado O Poder do Subconsciente.

Vou dar uma olhada nisso, foi o que pensei, já que não tinha mais nada pra fazer mesmo – naquela época não havia internet, tampouco os modernos smartphones, quase nada para nos distrair da rotina enfadonha – Portanto, aquele livro esquecido no quarto, passou de uma opção improvável para um “não custa tentar”. Mal sabia eu que estava vivendo o instante que seria o divisor na minha vida: o fim de uma etapa completamente desprovida de entusiasmos, para iniciar uma nova fase onde os livros se tornariam meus companheiros inseparáveis.

Não exagero quando digo que os livros salvaram a minha vida. Porque conheço bem a melancolia que espreita minha existência, e os pensamentos destrutivos que me acometiam nos dias de profundo desalento..., a leitura servia como um método de apreciação contínuo da vida.

Através dos livros aprendi a ter maior concentração, melhorei a dicção e aumentei meu vocabulário, adquiri o prazer pelo desenvolvimento de longo prazo, aprendi a ser mais paciente, descobri pessoas incrivelmente sábias, conheci culturas distintas, impressionei-me com a engenhosidade dos criadores de mundos…, seja para o bem ou para o mal, compreendi a leitura como uma plataforma de conhecimento inesgotável…, também chorei perante descrições sensíveis que desnudam a alma humana.

Os livros entraram na minha vida naquela tarde cheia de tédio e dela nunca mais saíram. Aquele singelo volume sobre a cabeceira, desprezado, ignorado por todos, inclusive por seu proprietário. Meu irmão nunca teve interesse em ler, mas na sua cabeça de jovem cheio de hormônios, pairava o interesse em seduzir garotas. Então ele andava pra cima e pra baixo com aqueles livros de autoajuda (o gênero estava na moda naquela época), porque isso o fazia parecer um rapaz distinto, intelectual. Ao que parece, isso atraía a atenção das garotas..., bons tempos aquele.

Foi também por influencia dos livros que adquiri o gosto pela escrita, quase como um inevitável destino. Mas confesso que gosto mais da palavra bibliófilo do que escritor, pois soa pedante. Fato é que, independente de haver um termo que defina minha relação de amor com os livros, talvez para além dessa definição romântica sobre um hábito, o que exista seja algo mais ordinário, apenas um costume que foi praticado até se tornar uma recorrência inevitável. Afinal, não sou especial porque leio, mas os livros sim, são especiais por conseguirem atrair o interesse do mais desinteressado sujeito, entediado naquele quarto de paredes desproporcionais, e o transformá-lo neste orgulhoso bibliófilo…

sábado, 3 de maio de 2025

RESENHA DE LIVRO – MAR DE TELHAS

Nos tempos em que literatura era pedantismo burguês e seu pleno acesso um privilégio de poucos, as histórias e fábulas geralmente terminavam com casais heroicos vivendo felizes para sempre. Se fossem narrativas menos fantasiosas ou, no mínimo, intencionadas em desnudar a verdadeira natureza das relações humanas, haveria mesmo espaço para serem felizes no final?

A escritora e jornalista Mariana Lozzi surgiu no meu percurso de leituras sem pedir licença, e escancarou a realidade, digamos, menos palatável do ser humano; deixou explicitado que não existe um passado idílico ao qual podemos retornar para que sejamos mais felizes. Só o que nos é possibilitado é a crueza de nossa natureza, cuja banalidade muitas vezes será obscurecida por instintos mais primitivos e indecorosos.

MAR DE TELHAS é uma obra singular que consegue, de maneira generosa sem deixar de ser suave, dialogar com o leitor. Uma narrativa que possui frescor trágico, quase como um sopro após a palmada, dimensões que ligam, por camadas enevoadas, a autora, a mãe, o pai, o filho e o leitor. Pode ser que algumas dimensões mais fortes desses seres nos levem a lapsos de memórias em comum.

Na trama, três membros de uma família dividem as páginas dessa meticulosa trajetória (há um quarto membro, mas que nos abandona logo nas primeiras páginas), na qual uma família compartilha excentricidades, comunga o absurdo e idolatra o tédio; a mãe, cujo casamento nublou os instintos mais primitivos ou se livrou de influências que lhe soavam mais características; o pai que do alto da sua mediocridade procura um modo de fazer dessa abundante banalidade uma forma de manter seus afetos distantes da natureza repulsiva; e temos o filho, menino quieto e delicado, que parece não encontrar sentido em sua existência, por isso vive em silêncio sepulcral, talvez por temer certa familiaridade com os seus, ou por mero desencaixe.

A evolução da leitura é prazerosa, segmenta-se por capítulos curtos, de linguagem fácil, porém, não menos delicada, muitas vezes comunga de um trejeito regional, alguns instantes me fizeram lembrar grandes escritores, como Graciliano Ramos. Temos aqui uma narrativa cuja beleza se sustenta em seu encruamento, o foco está sempre no ser humano. O resto é apenas pano de fundo.

Mariana Lozzi enriquece seu texto por meio de uma compreensão ampla não apenas de sua própria reflexão intelectual sobre os fatos, mas também estimula o desenvolvimento do apreço pela problematização de questões que não foram analisadas profundamente por suas personagens (recurso que é apreciável, visto que deixa esta tarefa para o leitor). Seu texto não visa docilizar os corpos para narrar cidadãos integrados ao sistema vigente, mas despertar no leitor a capacidade de pensar por conta própria sobre todos os problemas e questões que afloram no cotidiano.

 Os subcapítulos curtos se mostraram um caprichoso problema. Conforme eram modestos em extensão, eu sentia falta de mergulhar um pouco mais na vivência de cada indivíduo. De qualquer forma, a autora dedica um capítulo exclusivamente a cada uma de suas personagens, cujas vivências possibilita a inserção de outras personagens que igualmente seriam interessantes de se ler, e nos deixa familiarizado com a tragédia daquela singela família, a qual poderia se estender geracionalmente, como fez Gabriel Garcia Marques em seu notório Cem anos de Solidão.

MAR DE TELHAS é uma tragédia pós moderna no sentido mais grego do termo, narrado de um modo sensível, honesto e quase poético. Não convida à uma épica jornada instrumental, mas nos joga para dentro daquilo que talvez nos seja mais familiar: o lado grotesco e surreal do inconsciente humano.

NOTA: 9,08

segunda-feira, 21 de abril de 2025

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIAS ÍNTIMAS – sexualidade e erotismo na história do Brasil

Um dos reducionismos mais atrozes que assombra a história e a ciências humanas é o completo e suspeito silêncio acerca do pensamento feminino e da mulher como pensadora. A grande maioria dos documentos oficiais, manuais de orientação comportamental e jornalístico, assim como a própria literatura, todos foram escritos por homens, e quase todos eles tratam os temas femininos exatamente como o senso comum e vulgar de sua época. Ou seja, sempre foi relegado ao homem o desenvolvimento da história…, mas a exclusão do feminino trouxe prejuízos para a construção do conhecimento.

Desse modo, quando se entra na esfera da história da intimidade sexual, o cenário é ainda mais opressivo, relegando à mulher a condição de mero receptáculo gestatório ou diversão libidinal, condição das plebeias que não conseguiram um casamento arranjado. É o que relata a própria Mary Del Priore, autora deste excelente HISTÓRIAS ÍNTIMAS – sexualidade e erotismo na história do Brasil: “o historiador pouco sabe sobre como se comportavam, na cama, homens e mulheres” (pag. 77). Só o que resta fazer é mergulhar profundamente em documentos da época em que se estuda, verificar anotações de religiosos, tratados médicos, pinturas e poesias, mas principalmente, os meios de comunicação; e exatamente como mencionado, são instâncias perpetuamente dominadas por homens. Portanto, a história da sexualidade brasileira, e por que não dizer a história da sexualidade mundial, é uma história essencialmente misógina.

Del Priore encarou o desafio e tentou abranger, da colônia ao império, os aspectos da intimidade na história brasileira. Divido em cinco capítulos, a obra aborda os séculos XVI, XVII e XVIII, intitulado de “O século hipócrita”. Depois vem o século XIX como sendo a “Primeira rachadura no muro da repressão”, passando pelas primeiras décadas do século vinte “Olhares indiscretos”, terminando a jornada abarcando desde o regime militar até os dias atuais “As transformações da intimidade”.

Desde a estranheza por parte da corte portuguesa que desembarcou aqui a cerca da nudez de povos indígenas, passando pelo traumático abuso de escravizadas por parte de seus senhores, que mais do que usá-las como força de trabalho, também serviam como escravas sexuais, a obra relata a influência pesada da religião sobre o comportamento sexual da sociedade, que apregoava o sexo como forma exclusiva de procriação, a opressão do patriarcado, a permissão da promiscuidade irrestrita à toda mulher que não fosse branca e de “boa família”, as doenças sexualmente transmissíveis que trouxeram consigo pânicos e preconceitos direcionados as minorias, como foi o caso da aids.

Um dos aspectos muito legais da obra são muitas curiosidades sobre a sexualidade de nossos ancestrais, como a ausência de beijo na boca, que foi se tornar um hábito prazeroso somente após a introdução de higienizadores bucais pela indústria; exóticos métodos contraceptivos sem nenhuma eficácia científica, o curioso interesse dos homens pelos pés femininos, a ausência de privacidade nos lares do Brasil colônia, impossibilitando o ato sexual, lares sem divisões por aposentos, onde as pessoas pobres vestiam um mísero pedaço de trapo, dentro de uma casa sem fechadura, pois tratava-se de item que custava muito caro. Tudo narrado com o belo e enriquecido conteúdo erudito da autora, o que não torna a leitura cansativa, mas ao contrário, uma experiência extremamente prazerosa.

HISTÓRIAS ÍNTIMAS – sexualidade e erotismo na história do Brasil, é uma obra que articula de forma fluída e agradável, os diferentes momentos da história da sexualidade brasileira, a qual em seu cerne, escancara a difícil jornada de emancipação e libertação pelas mulheres, das amarras opressivas do patriarcado, simplesmente mais um trabalho irretocável dessa grande historiadora que é Mary Del Priore.

NOTA: 🔟😍

domingo, 6 de abril de 2025

RESENHA DE LIVRO – A JANGADA DE PEDRA

O crítico literário José Castello escreveu que “a literatura não chega a ser o que está dentro de um livro, é mais sobre a luta que um livro esconde”. Essa ideia basicamente descortina o que não está explicitamente inserido neste A JANGADA DE PEDRA, romance do aclamado escritor português e altamente resenhado aqui no blog, José Saramago: um acidente geológico como metáfora e, por que não dizer o anseio, de um autor crítico de políticas deletérias capitalistas que dominaram a Europa, desde a época de seu lançamento.

Desse modo, na trama os Pireneus se racham e a Península Ibérica se separa do continente Europeu. Temos um romance pós-moderno que, pela via do ficcional problematiza a adesão de Portugal e Espanha à comunidade Europeia. A narrativa começa com um acontecimento insólito; uma ruptura geológica ocorre, provocando o deslocamento da Península Ibérica, que passa a vagar pelo oceano como uma ilha em movimento.

Através desse ocorrido, Saramago insere seus personagens e desenvolve seu universo utópico, baseado na evidente fragilidade dos antigos laços que a região sustentava com a Europa. Das obras do autor que li até aqui, está é, sem sombra de dúvida, sua maior crítica política ao sistema econômico capitalista europeu (a caverna também me parece seguir este modelo crítico, mas aqui a narrativa é mais escancarada e subentende a vontade do autor de uma nova ordem mundial em oposição à então comunidade europeia).

A península se liberta do continente, como se fosse uma jangada de pedra, seria a metáfora para o comportamento da pessoa que, esgotada pela despersonalização do mundo global, se atreve a romper com ditames que lhe eram entendidos como definitivos, tornando-se soberana e responsável pelo seu destino, quase como uma personagem na obra.

E por falar em personagens, temos aqui cinco que são o arco central, inseridos no fenômeno da ruptura, são pessoas que, igualmente a ousadia da ilha agora guiada por vontade própria, eles têm a possibilidade de recuperação de suas múltiplas vozes silenciadas, talvez prontas para se tornarem sujeitos de seus destinos. Desprender-se de sua geografia original exigirá às personagens a mudança que as levará a redescoberta de suas identidades; as personagens, perante a inevitabilidade natural, podem finalmente preencher suas vidas com significação. Cada um deles enfrenta um dilema pessoal, que antes da inesperada ruptura, consideravam como destinos inevitáveis, eles se tornam indivíduos e gestores de suas ações.

Incomodou-me um pouco a forma com que, desconhecidos se encontram de forma efêmera e entram numa condição nômade, juntam-se os cinco, mais um cachorro, quase como uma epopeia justificada por suas existências sem sentido, mas rapidamente orquestram a ruptura com o passado para aceitar o que lhes está diante dos olhos, sem nenhum questionamento, medo ou problematização condicional, me pareceu um pouco corrido, mas talvez até mesmo isso tenha sido proposital na trama: a inserção em uma vida não idealizada que convida a novas experiências. Contudo, de todas as obras que li de Saramago, as relações entre personagens aqui são as mais desinteressantes.  

A JANGADA DE PEDRA é uma crítica dentro de um romance, que busca exibir o que a península tem de melhor e que recusa modelos impostos que trazem o empobrecimento daquilo que somos; tanto a ruptura da ilha, quanto o grupo de pessoas desapegadas de conceitos estabelecidos, buscam uma forma autêntica de viver.

NOTA: 6,6

domingo, 9 de março de 2025

RESENHA DE LIVRO – RÁPIDO E DEVAGAR – duas formas de pensar

No dia 15 de janeiro de 2009, o voo 1549 da US Airways decolou de Nova York com destino a Charlotte, levando 155 pessoas a bordo. Poucos segundo após a decolagem o Airbus colidiu com uma revoada de pássaros, fazendo com que perdesse os dois motores. Imediatamente o piloto Chesley Sullenberg, mais conhecido como Sully, comunicou a torre de comando que estaria retornando para o aeroporto, mas percebendo rapidamente e, de forma ponderada, concluiu que não daria tempo, avisou a torre que o pouso seria no Rio Hudson mesmo. O ato foi heroico e salvou todos os passageiros. Contudo, posterior ao episódio, Sully foi contestado por profissionais da aviação, fazendo uso de argumentos baseados em simuladores de voo, disseram que daria tempo de planar até o aeroporto.

O caso ficou conhecido como Milagre do Hudson, e cabe aqui como introdução, porque ilustra de forma precisa, um ser humano diante de uma tomada de decisão, no qual teve poucos segundos para avaliar a situação, ponderar sobre as possibilidades e agir, ainda com o agravante de lidar com a responsabilidade pela vida de centenas de pessoas. Sully tomou a decisão certa, afinal, eu suspeito de que fazer uma escolha diante de uma telinha de simulador de voo deve causar bem menos tensão e estresse do que dentro de um avião em pleno voo e sem motores.

Situações como a de Sully, as quais precisamos da máxima habilidade cerebral para tomar uma decisão, cujo menor erro pode ser fatal, são raras. Mas estamos o tempo inteiro tomando decisões na vida, sejam conscientes ou não, somos dotados de um sistema complexo, com variáveis que alteram nossa forma de pensar e agir. É o que nos mostra a famosa obra RÁPIDO E DEVAGAR – duas formas de pensar, do psicólogo e vencedor do Nobel de economia Daniel Kahneman; através de um sofisticado modo de juntar conceitos herméticos, o autor nos entrega um arcabouço compreensivo sobre o modus operandi da mente, para além da linguagem acadêmica.

O modelo desenvolvido por Kahneman mostra que pensar “rápido e devagar”, como sugere o título, envolve duas formas padrões de tomadas de decisão: rápida e intuitiva, que no livro o autor denomina como sistema 1, e a lenta e analítica, que chamou de sistema 2. Compreender ambos os processos é a grande contribuição do livro, pois os modelos comportamentais dependem de situações em que as pessoas não costumam agir de forma racional. Contudo, existe um limite para a aplicação desses conceitos, como sugere o próprio autor: conhecer os processos decisórios não é garantia de evitar erros associados ao modelo de tomada de decisão.

A obra oferece diversas sugestões de como fugir das armadilhas do nosso próprio processo cognitivo enviesado. Um desses efeitos estudados é o da predisposição, no qual a primeira opinião dada numa discussão consegue levar os participantes a uma rápida convergência de opinião. Kahneman propõe que os participantes escrevam suas ideias antes da reunião, para impedir que o primeiro a falar acabe conduzindo o grupo para sua ideia.

Certamente uma grande lição que podemos tirar dessa obra é que os erros de previsão são inevitáveis, pois o mundo é imprevisível. Ou seja, se no lugar do piloto Sully estivesse algum dos entusiastas dos simuladores de voos, escravos de previsões tecnológicas, 155 pessoas teriam perdido suas vidas. Outra importante lição é que uma grande certeza não é indicadora de precisão – a baixa confiança talvez forneça muito mais informações…, enfim, temos aqui um compilado de surpreendentes estudos sobre a condição da mente humana.

RÁPIDO E DEVAGAR – duas formas de pensar, não se trata de um livro com regras simples de autoajuda ou um compilado de sugestões simplórias para auxiliar gestores. É uma obra sofisticada, para quem deseja entender como processamos informações e tomamos decisões. Com escrita simples e concisa, Daniel Kahneman nos convida a refletir sobre a nossa forma de interpretar o mundo.

NOTA: **10**

sábado, 22 de fevereiro de 2025

CRÔNICA – Algo perdido

Recentemente, solucionei um problema no trabalho que estava gerando dores de cabeça e apreensão em quase todos os envolvidos na empreitada. Sabe aquele impasse que aparentemente nos parece insolúvel? E por sustentar esse aspecto perseverante, entrei para buscar soluções usando uma postura completamente despretensiosa, ou quem sabe até pessimista. Pois eis que, três dias depois, consegui encontrar um caminho que possibilitou uma sucessão de ações dos colegas, até finalmente o problema ser resolvido em definitivo.

Ao notar o progresso na dissolução do problema, assim como o evidente alívio no olhar de cada envolvido, fui acometido por emoções que não sentia há anos: leveza, sensação de ter sido parte importante no processo, orgulho próprio pelo trabalho bem feito, satisfação comigo mesmo. E não teve nada a ver com ser bom no trabalho ou a vaidade manifesta pelo fato de eu ter encontrado um caminho para a dissolução. Apenas estava me sentindo bem, uma sensação que há muito não sentia.

Então criou-se dúvidas em minha mente quanto a isso:

Será que tudo o que nos propusermos a fazer na vida, carecerá do manifesto desses sentimentos para continuarmos motivados?

É possível se sentir realizado fazendo apenas o que se gosta, sem que isso precise gerar resultados objetivos ou aprovação de outras pessoas? Se sim, existe um limite para essa auto realização? A satisfação estaria diretamente ligada às consequências do meio social em que estamos inseridos?

Sabemos que no ambiente corporativo não existe motivação mais forte do que a mera necessidade de sobrevivência do trabalhador. Mas estou pensando aqui para além dessa necessidade básica, até porque o trabalho costumeiramente é ambiente umbroso no qual estamos inseridos apenas porque temos contas para pagar. Do contrário, dificilmente aceitaríamos as condições humilhantes que frequentemente somos submetidos por imposição.

Outras perguntas me invadiram com igual intensidade, porém, as demais são estritamente direcionadas a minha própria experiência de vida: porque não sinto mais essas coisas boas quando estou desenvolvendo os conteúdos de que gosto? Onde foi parar a satisfação que sentia ao verificar um produto acabado que considerei bem feito? Por que as coisas que antes eram agradáveis, hoje parecem tediosas e sem sentido?

Antecipadamente tenho uma observação a relatar: aquelas emoções boas que senti chegaram ao fim tão depressa quanto o dia virou noite e arremessou suas ações no passado. Contudo, também não sei explicar porque as reações positivas abandonaram meu ser tão precocemente.

Foi-se o tempo em que elaborar um texto me deixava alegre, ou o término de uma leitura auspiciosa. Sentar para escutar uma música até me causa algum relaxamento, mas está bem longe das emoções descritas no começo desta breve reflexão. E o mais curioso é que sentimentos positivos os quais parecem necessários à manutenção da minha potência de agir, foi ocorrer justamente no trabalho, ambiente onde isso muito raramente ocorre. Do meu ponto de vista, o trabalho sempre foi o lugar no qual me submeto porque tenho boletos para pagar que a literatura jamais foi capaz de resolver. Ou seja, sempre tive uma relação meramente pragmática com o emprego, enquanto a literatura era minha válvula de escape...

Deveria ser o contrário..., talvez um dia fora assim. Sou culpado por apreciar ocupações que demandam isolamento, persistência e resignação, eu sei muito bem disso. Sem o distanciamento social, o desprendimento de recompensas imediatas e desapego a resultados objetivos, a literatura torna-se impossível de ser erigida ou contemplada. Porém, antes havia uma coisa dentro de mim que atiçava minha motivação a continuar fazendo o que sempre fiz. Essa coisa parece ter se perdido..., de repente, senti que tive um reencontro com essa coisa no trabalho, naquele serviço executado com eficiência, tornando o ambiente inóspito da troca de tempo por dinheiro, num instante de enorme satisfação comigo mesmo.

O dia seguinte foi este texto..., frases incompreensivas pelo desinteresse em ser diferente. Foi só o que deu pra fazer, sem nenhum entusiasmo aparente e na incerteza de continuar criando para a inexistência de propósito, nem mesmo o ordinário ato de sanar o tédio deste que voz escreve.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

RESENHA DE LIVRO – O CRIADO-MUDO



Primeira obra publicada de Edgard Telles Ribeiro, minha expectativa ao ler este O CRIADO-MUDO, era alta, justamente por encontrar seu característico estilo linguístico, em que o autor estabelece um nítido predomínio das personagens sobre os eventos que os cercam, em seus trabalhos posteriores..., infelizmente não foi o que encontrei aqui, embora isso não desvalide a obra como um todo. Vamos falar um pouco sobre isso.

O CRIADO-MUDO conta a história de uma jovem viúva, casada por arranjo da família aos 14 anos com um homem de mais de 60, que após planejar e assassinar o marido rico, molda sua vida de viagens, romances e aventuras. Narrado pelo protagonista, Fernando, décadas depois da morte da viúva Guilhermina, ele recebe o convite para inauguração de um singelo antiquário, cujo nome chama sua atenção. A dona do estabelecimento é sobrinha neta de Guilhermina e foi atriz principal de um filme que Fernando dirigiu. Desse modo, toda a mobília exposta no antiquário, assim como tudo o que a tia-avó deixou para Andrea, servem como elementos que suscitarão diálogos que descortinam a trama.

A narrativa tem uma pegada dinâmica, faz intercalação de narradores, com uso de diálogos reconstituídos quando se trata do tempo passado. A condução, como costuma acontecer com romances pós-modernos, possui um estilo desarrumado que desafia o leitor, à medida que avança na leitura, a ordenar os fatos. Gosto desse tipo de retrospectos entrelaçados, a obra ganha em mistério. A trama é centrada em personagens que passam a se reconstruir a partir de suas lembranças ou do encontro com objetos que despertam memórias ou ponderações.

O título da obra faz referência a um tipo de mobília comum nos antigos lares, mas no contexto da obra, o criado-mudo adquire uma dimensão simbólica, refletindo o silêncio, a solidão e o afastamento das relações humanas.

É aqui que ocorre algo que incomodou um pouco durante minha leitura. O CRIADO-MUDO traz uma abordagem um pouco diferente se comparado às outras obras de Edgard Telles Ribeiro, como “A Moreninha” ou “O mundo dos Outros”. Enquanto muitos de seus outros livros têm um tom mais introspectivo e uma análise profunda da psique de seus personagens, O CRIADO-MUDO pode ser lido de forma mais linear, com enredo que parece se concentrar mais nas interações cotidianas e acontecimentos do passado, do que no característico mergulho denso da complexidade humana, traço tão característico do autor.

A condução narrativa intensifica muito os aspectos do cenário e dos acontecimentos ao redor, deixando os envolvidos apenas como partes do cenário. A forma de linguagem é rica em detalhes e estilisticamente cuidadosa, parece absorver grande parte da atenção, deixando de lado a profundidade dos personagens. Contudo, que fique claro não se tratar de um problema, mas de um método narrativo, focado mais na experiência do ambiente e na impressão gerada pelos cenários, mas é um estilo diferente do que veio a se tornar a escrita de Telles Ribeiro, posteriormente.

Quando se está familiarizado com o estilo de um autor, é natural que esperemos encontrar os elementos recorrentes que nos atraíram em sua bibliografia. E como este se trata de o primeiro trabalho do autor, talvez Telles Ribeiro estivesse explorando propostas diferentes e experimentando estilos narrativos, até encontrar a pegada introspectiva que se tornaria sua característica mais notória.

O CRIADO-MUDO é uma obra bem escrita, não cronológica, intercalada como recurso principal do autor o fluxo das lembranças dos envolvidos. Com uma sensação de movimento circular entre tempos, a trama imprime fluidez e beleza narrativa, porém, econômica nos aspectos introspectivos de suas personagens.

NOTA: 7

sábado, 25 de janeiro de 2025

RESENHA DE LIVRO – A MULHER DESILUDIDA

Conhecida por ser uma das principais figuras do movimento existencialista, Simone de Beauvoir dedicou suas obras, seja ficção ou analítica, a pensar de forma revolucionária a condição feminina, assim como teve influência significativa na luta pela emancipação das mulheres.

Portanto, apesar de aqui se tratar de ficção, A MULHER DESILUDIDA, é um livro de contos, cuja dinâmica só poderia ostentar a visão de mundo da autora, também servindo como crítica social sobre as opressões e condições de submissão do papel das mulheres. Os três contos aqui reunidos tratarão de mulheres que, ao longo de suas vidas, internalizaram as normas patriarcais que as condicionaram à subordinação; mulheres que chegaram na maturidade sem alcançar satisfação em suas vidas pessoais, profissionais e amorosas.

Apesar de cada conto ser independente, ambos compartilham experiências semelhantes de desilusão e frustração, quase como se fossem a mesma voz, algo que me causou leve incômodo, visto que as personagens, de certa maneira, possuem pensamentos e reações muito parecidas, o que pode ter sido proposital, visto que a principal crítica inserida na leitura de Beauvoir é quanto da generalizada ausência de autonomia e constante vazio existencial das mulheres.

O primeiro conto, intitulado “A idade da discrição”, trata do cotidiano de um casal entrando na terceira idade, cuja esposa se afunda numa crise existencial após descobrirem as opções conservadoras do filho, que decide ir trabalhar no Ministério da Cultura do governo vigente. Neste conto segue-se longos embates entre protagonistas sobre o envelhecimento e necessidade de pertencimento.

Depois temos o menor texto da obra, “Monólogo”, no qual o título já antecipa do que se trata; um breve desabafo, quase odioso, da protagonista Murielle, que viveu uma vida conturbada de duas separações e o suicídio de uma filha. Aqui não é apenas um relato confuso (caracterizado pela falta de pontuação) e triste da personagem, mas uma condição que surge do confronto entre a vida como ela é e as expectativas que as mulheres, moldadas pela sociedade machista, têm sobre o que deveriam ser.

Por fim, temos o conto que dá título à obra, mais longo e, na minha opinião, o melhor dos três. “A mulher desiludida” nos revela Monique, que é o arquétipo mais caricato da dona de casa “exemplar”, ela vê seu mundo higienizado e restrito se transformar num inferno existencial, quando descobre que o marido tem uma amante. Em formato de diário, acompanhamos as dores, inseguranças e falta de sentido de uma mulher que depositou todas as esperanças de vida no casamento, Monique tudo fará para preservar e manter seu casamento. A personagem chega ao extremo de concessões jamais imaginadas, chega a aceitar a vida dupla do marido, mas não consegue se livrar da sombra de sua rival.

A MULHER DESILUDIDA é uma eficiente obra, que combina literatura e crítica do sistema patriarcal, com diálogos intensos e imersivos. Ao construir personagens complexas que questionam suas existências, a autora nos oferece um olhar profundo sobre o que significa ser mulher dentro de uma sociedade que categoricamente rejeita sua autonomia.

NOTA: 8,5

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

RESENHA DE LIVRO – O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO

Antes de entrarmos na análise deste trabalho do aclamado escritor Norman Mailer, é preciso que seja feita uma oportuna ressalva: este conteúdo se trata de um breve resumo de minhas impressões. Aqui não há intenção de pontuar eventos históricos, muito menos criticar orientações religiosas de ninguém. O intuito deste blog é meramente o de apreciação do conteúdo como ele é de fato: uma obra de ficção literária.

A observação me pareceu indispensável, para então começar esta resenha com questões que me parecem pertinentes e que me acompanharam durante toda a leitura: qual é a intenção deste livro? O que motivaria um amante de literatura a lê-lo? Porém, se estamos diante de um conteúdo doutrinário, quais elementos atrairiam a atenção de um leitor cristão?

Indiscutivelmente popular, a história de Jesus já foi amplamente contada por diversos historiadores, acadêmicos, teólogos e igualmente interpretada por várias vertentes religiosas ao longo de dois mil anos de existência. Seja você religioso ou não, há algo aqui que não pode ser negligenciado: a história de Jesus narrada pelos evangelhos é ampla, rica em substância e flexível em sua forma. Isso significa que se trata de conteúdo detentor de elementos variados o suficiente para se contar reproduções magníficas e até pontos de vistas fora do senso comum. Cinema, teatro e a própria literatura possuem exemplos eficientes dessa possibilidade e amplitude narrativa.

Pois bem…, O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO, traz-nos uma visão em primeira pessoa, ou seja, o próprio Jesus é quem nos relata sua jornada, partindo especificamente dos mesmos pontos que os evangelhos: um breve resumo do nascimento, passando fugazmente pela vida adulta e chegando aos tempos finais de sua vida. Com uma fidelidade aos textos bíblicos quase que congénere. Tudo aqui exibe-se de modo a deixar os leitores do evangelho familiarizado, como se tratasse de uma réplica narrada em primeira pessoa.

Portanto, insisto em perguntar: o que Norman Mailer queria com este livro?

Causando-nos expectativas, o Jesus de Mailer faz uma introdução em que diz: “Porquanto não diria que as palavras de Marcos sejam falsas, elas contêm muito exagero. E mais ainda as de Mateus, e Lucas, e João, que me atribuíram frases que nunca proferi, descrevendo-me como amável, quando estava pálido de ira. (...) Portanto, farei meu próprio relato”. Pareceu-me a introdução de uma personagem que quer revisar o que foi dito, quer corrigir equívocos, complementar impressões deixadas nas escrituras. Infelizmente esse narrador ousado e original não aparece em nenhum momento.

Logo nas primeiras páginas nota-se que o autor não está a contar uma história sob uma perspectiva crível e humanizada, como fez José Saramago com seu excelente O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO (tem resenha aqui no blog); também não estamos diante de um livro destinado ao público religioso, afinal, esse tipo de leitor busca o conteúdo fonte de sua doutrina em leituras que lhe são sagradas, ou seja, dentro dos evangelhos. E mesmo para um público geral, interessado na condução fluída aqui presente, assim como os fãs do autor, mesmo para esse público não parece haver uma causa notória que motivasse a obra.

Norman Mailer não apresenta sua personagem de modo distinto. Apenas o faz contar na própria voz o que já está escrito nos textos bíblicos. A narrativa mantém-se, o tempo inteiro, ajustando-se à ordem cronológica de cada episódio, simplesmente para fidelizar as escrituras do evangelho, algumas vezes conduzindo a narrativa para se chegar às falas, exatamente como estão nos evangelhos. É como se houvesse uma preocupação em relatar cada uma das passagens importantes da vida de Jesus, algo que, do meu ponto de vista, retirou a possibilidade de envolvimento do leitor; deixou a trama enfadonha e protocolar; o excesso de preocupação em reproduzir tudo como já conhecemos, inclusive na fidelidade das falas dos personagens, fez com que se perdesse a chance de se contar uma história detentora de sua própria essência.

O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO é um livro sem alma, que replica tudo o que está escrito em escrituras históricas, deixando o leitor sem saber se o que está lendo é uma simplificação esquecível da trajetória de Jesus para leitores preguiçosos, ou se estamos diante de um autor que resolveu contar uma versão de sua personagem histórica favorita, mas que por alguma razão, achou mais seguro apenas replicar o que já foi dito... Nem revisionista, tampouco revolucionária, é uma obra que não sabe a que veio.

NOTA: 4,4