sábado, 11 de abril de 2026

RESENHA DE LIVRO – OS CATADORES DE CONCHAS


Encontrava-me garimpando num Sebo na capital do ES, Vitória, quando me deparei com um clássico da literatura britânica. Saliento que não foi muito difícil enxergar OS CATADORES DE CONCHAS na prateleira de literatura internacional, pois o tijolão de quase setecentas páginas, destacava-se por sua enormidade. E é precisamente essa robustez o que, num primeiro momento, despertou minha curiosidade. Afinal, eu já tinha ouvido referências positivas sobre a obra, portanto, seu tamanho pareceu um atrativo extra, pois a obra devia ter muito a dizer. Mas o que era para ser uma leitura prazerosa acabou se transformando em instantes de tédio, que só não foram maiores, porque sua autora, Rosamunde Pilcher, escreve de forma simples e fluida. Vamos falar um pouco sobre isso.

OS CATADORES DE CONCHAS se organiza em torno da memória, do tempo e da transmissão simbólica entre gerações de uma família inglesa. A protagonista, Penelope Keeling funciona como uma espécie de arquivo vivo de um século marcado por guerras, perdas e reconstruções. Enfrentando a velhice do presente momento e após quase sofrer um infarto, Penelope toma algumas decisões que vão despertar memórias de sua juventude, assim como entrará em conflito direto com seus três filhos.

Um dos eixos centrais do romance é a tensão geracional, ocasionada pela distinção entre valores econômicos, inseridos nas figuras dos filhos, e os valores sentimentais, encarnados na presença da matriarca. Existe aqui um interessante embate entre duas formas de habitar o mundo: uma orientada pela utilidade, outra nutrida pelo significado. Pilcher trabalha também a questão da solidão não patológica. Sua protagonista é uma mulher solitária, mas não vazia. Trata-se de uma solidão madura, deliberada, atravessada por afetos reais. Isso faz dela o arquétipo preciso dos valores sentimentais na trama.

O aspecto ético me pareceu sutilmente relevante: uma crítica à ingratidão geracional. Os filhos de Penelope não agem como vilões caricatos, mas como produtos de um tempo em que a escuta do passado se perdeu. A autora não os demoniza em momento algum, mas os expõe. OS CATADORES DE CONCHAS sugere que o verdadeiro empobrecimento não é financeiro, mas afetivo.

A condução narrativa é silenciosa, sem retórica nem julgamento explícito, o que torna a trama um tanto eficaz. A obra de arte que leva o nome do livro, não é um simples objeto narrativo, mas um dispositivo simbólico que expõe duas racionalidades inconciliáveis e discrepantes em termos. Para os filhos, o quadro Os Catadores de Conchas é apenas uma ativo, algo que pode ser convertido em dinheiro. Já para a mãe, Penelope, o quadro tem um enorme valor afetivo, a lembrança da juventude, a memória de quem ela foi e de quem se tornou. Portanto, para Penelope, o quadro não possui valor transferível ou negociável; existe apenas na relação entre sujeito e objeto. Tal enfrentamento faz com que a protagonista perceba uma evidente ausência de empatia por parte dos filhos: eles não desconsideram apenas um quadro, mas desconsideram a história da mãe.

Outras personagens surgem ao longo da história, mas servem apenas para reforçar o enfrentamento geracional, despertando nos filhos, sentimentos que lhe são característicos, como ciúmes e inveja. E esse desgaste silencioso na relação entre mãe e filhos é a fratura moral que jamais explode, mas apenas se acumula…

Os acontecimentos comuns de uma família de classe média do século vinte são exatamente os pontos de interesse de Rosamunde Pilcher. Ela descreve uma classe que não enfrenta fome, nem guerras diretas, tampouco tragédias existenciais. Seu foco está em falhas éticas nas relações familiares, não estamos diante de uma história de sobrevivência, é sobre a incapacidade de reconhecer o outro…, só que esse hiperfoco causou um problema:

Em OS CATADORES DE CONCHAS o entrave não está em seu tema – conflitos familiares, herança simbólica, incompreensão geracional – mas na desproporção entre matéria narrativa e extensão. A prolixidade da autora não é estilística no sentido forte, onde o excesso é compensado por densidade reflexiva. Pilcher estende-se em descritivas que retornam continuamente aos mesmos conflitos sem acrescentar novas camadas significativas. Ao retratar um universo socialmente seguro (classe média inglesa, estabilidade material, dramas ausentes de rupturas), o alongamento do texto acaba por cobrar um preço alto do leitor. O que poderia ser um texto coeso e elegante, dentro de, no máximo, 400 páginas, acabou por se tornar um árduo teste de paciência. Até para os leitores mais atentos e dispostos, 700 páginas é muito texto para tão pouco a ser narrado. O livro parece confiar excessivamente na identificação emocional do leitor com o cotidiano burguês. Concluir a leitura foi quase um alívio…

OS CATADORES DE CONCHAS é um romance afetivamente competente, mas dramaturgicamente inchado. Sua trama diz algo válido, porém, o repete mais vezes do que o necessário. Rosamunde Pilcher não tensiona o destino humano em larga escala, porém, expõe algo mais modesto: que a vida pode perder significado também em pequenas tragédias.

NOTA: 6,9