domingo, 10 de dezembro de 2023

HOMENAGEM – A CRONISTA LISPECTOR

A crônica é um gênero da literatura que costuma fugir do rigor jornalístico, para se aproximar um pouco mais da função de entretenimento e reflexão, trazendo em seu conteúdo personagens que podem ser fictícios ou não, muitas vezes para nos relatar frivolidades que escapam do nosso interesse no dia a dia.

Se o viés do conteúdo da crônica nos parece inútil, podemos concluir que isso nada mais é do que um efeito colateral, pois ao aproximar o leitor de uma identificação própria que o fará reconhecer-se no texto, cria-se a impressão de ao dispensável. E quanto a isso, devo acrescentar que a crônica é possivelmente o gênero que melhor aproxima estes dois indivíduos aparentemente distantes: leitor e escritor.

Gosto desse modelo literário e o leio frequentemente. E apesar de ter a chance de degustar obras estupendas de diversos especialistas em crônica, foi somente quando li Clarice Lispector em sua delicada exposição de emoções pessoais por meio da crônica, que pude enxergar este modelo híbrido de literatura, da forma que aqui exponho. Afinal, é impossível deixar de se identificar com as angústias dessa brilhante autora, seus textos remetem-nos ao desconforto, instabilidade e questionamentos dos mais variados à cerca do cotidiano.

A crônica de Clarice fez com que eu me aproximasse dela, sua liberdade de se expressar com voz própria, libertando-se dos personagens fictícios que permeiam seus romances, além de outros trabalhos que fez usando pseudônimos, foi somente na crônica, por meio de imensa familiaridade humana, que a senhorita Lispector me fez querer saber mais sobre peculiaridades da vida que escapavam de meu olhar equivocado, numa intensa imersão íntima e orgânica.

Não é por acaso que quando sou perguntado sobre por onde começar a ler Clarice, eu indico sem medo de erra, que se comece pelo caminho da cronista, para só então adentrar em seu universo romancista. Sim, pois por meio da crônica, Clarice quebra barreiras metódicas e narra a vida cotidiana sem a impessoalidade da reportagem, acrescido um profundo mergulho psicológico.

Não quero dizer com isso que, em alguns momentos, a crônica de Clarice não esbarre no viés informativo, uma vez que, informação é tudo o que se relata, mesmo aquilo que menos importa. E o olhar para as impressões que se tem perante as frivolidades do cotidiano, do relato puro e simples daquilo que ocorreu dentro da mente, de divagações que se aprofundam conforme se avança na leitura, ou a linguagem acessível sem deixar de ser formosa, é o que segura na mão do leitor e o faz se aproximar de Clarice.

Sem as máscaras de outros gêneros, Clarice Lispector compartilha sentimentos próprios, tira-nos a dúvida quanto a quem pertence aquelas impressões, que sabemos ser fruto da intimidade da autora. Já quando lemos um conto ou um romance, tudo se torna mais nebuloso e impossível a associação do conteúdo ao pensamento do autor, embora seja fato que muito do que vai para as páginas de um livro carregue uma fagulha de influência da vida do escritor.

Através desse gênero composto, a grandiosa Clarice narra corajosamente assuntos que são parte de sua rotina, revelando seu modo de pensar, faz-nos enxergar sua própria rotina; Clarice se utiliza do cotidiano como matéria prima para nos despertar sensibilidade.

Sempre que nos aproximamos da data de seu nascimento (que coincide com a proximidade da data de sua morte), permito-me revisitar alguns de seus textos. Esse ano escolhi A Descoberta do Mundo, um compilado de crônicas que foram publicadas no Jornal do Brasil entre o ano de 1967 a 1973. E o que sempre me intriga nestas releituras é o ineditismo inerente na obra dessa autora; reler Clarice Lispector é como entrar num universo que, apesar de soar familiar, a todo momento se descobre algo novo a se refletir, que parece nos ter escapado em leituras passadas.

Quando Clarice fala de si por meio de sua crônica, exerce um magnetismo que nos puxa para perto dela. E é muito gostoso sabermo-nos tão próximo dessa extraordinária escritora, cuja coragem em entregar sua vida real, é o elemento que fez com que sua obra se tornasse irresistível.

FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

RESENHA DE LIVRO – A BESTA HUMANA

Criei este blog no ano de 2011 pensando em estabelecer um espaço autônomo, onde eu pudesse manter uma constância no exercício da escrita, principalmente em tempos os quais me via carente de inspiração. O intuito era não me permitir ficar muitos dias sem praticar, afinal, o elemento fundamental de quem anseia aprimorar o próprio trabalho é a persistência. Quem escreve sabe que o passar dos anos exercendo essa tarefa, inevitavelmente torna a escrita mais enxuta e palatável.

Mas não é determinante que todas as minhas leituras se tornem postagens aqui no blog; o livro precisa despertar alguma emoção, reflexão ou contrariedade. E como já mencionei diversas vezes, também não costumo falar sobre os clássicos da literatura, pois não faz sentido escrever sobre algo que já foi analisado infinitamente e por gente muito mais qualificada do que eu.

Mas às vezes o clássico é justamente a obra que causa grandes emoções, reflexões ou contrariedades, em alguns casos, os três ao mesmo tempo. E até a metade de minha leitura deste A BESTA HUMANA, não sustentava nenhuma intenção de escrever sobre ela. Porém, da metade final, e talvez por ter finalmente me familiarizado com o estilo do autor, o livro me fez pensar bastante e acho que vale dispender alguns parágrafos.

A trama se passa em 1870, um período em que as locomotivas a vapor eram o que de mais moderno existia em tecnologia de transportes. A besta humana do título faz uma analogia entre o ser humano e a máquina (no caso, a locomotiva), numa intersecção na qual criador e criatura trocam de papéis, tornando-se em alternâncias aleatórias, verdadeiras bestas imparáveis; de um lado a violência intrínseca da natureza humana, e do outro a máquina insensível em estado bruto.

No início nos é apresentado Severina e um pouco de sua vida de casada com Roubaud, um homem ciumento e possessivo, que destila na esposa sua insegurança na forma de violência; já nas primeiras páginas cria-se um asco terrível em relação aos acessos furiosos desse personagem. Com o passar da leitura, insere-se outra personagem central: Tiago, sujeito um pouco enrustido, que apesar de atraente, costuma fugir de mulheres por conta de um irrefreável desejo de morte, um impulso obscuro que o faz querer assassinar as mulheres que dele se aproximam.

Outros personagens entram em cena com o avançar dos capítulos, mas creio que a trama fique sobre o arco entre estes três citados, mais a locomotiva, que permeia toda a obra, influenciando diretamente as vidas daquelas pessoas, assim como é também o arquétipo da morte, por sua notória imponência.

Trata-se de uma história contendo diversas facetas da maledicência humana, onde os instintos mais primitivos sobressaem o senso ético em nome de interesses próprios, e quando não sobressai, insere-se uma justificativa simplória que valida a violência como método.

Émile Zola usa de sua escrita para desnudar a natureza do ser humano. Considerado um dos precursores da literatura naturalista, Zola tece essa natureza egocêntrica e asquerosa do humano através das atitudes e visão limitada de mundo de suas personagens, cujos anseios indizíveis estão em todos e em todo lugar, mas disfarçados por meio de máscaras sociais que encobrem suas verdadeiras faces. Este foi o ponto mais elevado da trama e que me fez seguir com a leitura.

Como já mencionei, tive alguma dificuldade na primeira metade do livro, pois leva um tempo até que nos acostumemos ao estilo exageradamente prolixo do autor. Há parágrafos que avançam para além de uma página, muitas vezes para narrar a frivolidade cotidiana. É preciso uma boa dose de persistência para se descobrir a magia da obra.

Outro elemento que incomoda um pouco é que li uma edição de 1982 da editora Hemus, cuja tradução foi feita por Eduardo Nunes Fonseca. Aqui a diagramação está muito comprimida, com letras muito pequenas, sem descanso nas páginas e significativos erros gramaticais.

A BESTA HUMANA é um romance perturbador que desnuda o ser humano em toda sua maldade inerente. Faz parte de um projeto de vinte livros que narra histórias naturais e sociais de um tempo, publicados entre os anos de 1871 e 1893. Leitura um pouco extensa, mas vale pela possibilidade de se testemunhar até onde desejos sórdidos podem levar indivíduos de uma sociedade.

NOTA: 7,2

domingo, 26 de novembro de 2023

CRÔNICA – UMA ÚLTIMA VEZ

Em que momento aquela senhora se sentou do meu lado, eu não saberia dizer. Também não saberia precisar quanto tempo fiquei desacordado. Estava com sono e os olhos cerraram-se com força incessável, o tronco pendeu para o lado, a cabeça tombou e o livro caiu sobre o assento. Nos últimos meses ando tão cansado, que sou tomado por um sono indescritível sempre que estou na praça para fazer minhas leituras..., então quando despertei ela estava bem ali, dividindo comigo o calor e o banco da praça.

Parecia não me notar, sentada cuidadosamente no cantinho, contemplando as frivolidades da praça, em silêncio total, pernas cruzadas, mãos apoiadas sobre o colo, observava tudo com demasiada atenção, mas se algo lhe despertava algum interesse, não demonstrava; nenhuma expressão ou movimento, parecia sequer respirar, como quem receia acordar seu companheiro de assento.

Recompus-me, meio sem jeito. Não é comum que alguém se sente do meu lado, as pessoas geralmente evitam proximidade com gente esquisita que tem tempo para ler livros e usa o banco da praça para cochilar. Ajeitei a gola da camisa, resgatei o livro aberto do assento, disse boa tarde, mas ela não me respondeu.

Permanecia quieta, observando a cidade.

Era uma mulher na casa dos sessenta anos, magra, usava um vestido leve e comprido. Seu rosto era de uma infinita serenidade, rugas desciam por seu pescoço imóvel. Parecia ser uma pessoa gentil, apesar de não ter respondido ao meu cumprimento, talvez por conta de problemas auditivos.

– Não precisa verificar o queixo o tempo todo – disse ela, súbito, sem me olhar diretamente – você não estava babando.

Era exatamente a neurose que me domina, sempre que estou a tirar cochilos, sentado no banco da praça; o receio de algo estar escorrendo da boca, talvez por repudiar pessoas que fazem isso, temo estar a fazer aquilo que condeno.

– Desculpe – falei, sem saber ao certo o que dizer – eu ando meio cansado. Há quanto tempo estou dormindo?

– Uns dez minutos, eu acho.

– Que coisa... Ainda bem que livro não é objeto de interesse de ninguém. Do contrário, eu teria meus livrinhos abreviados todos os dias.

– Na verdade, eu confesso que até verifiquei o título – disse ela, finalmente se virando pra mim – Mas não me interesso por processos.

O título do livro em questão era O Processo, de Franz Kafka. Era uma leitura um pouco confusa, a trama da obra é como estar dentro de um pesadelo estranho e imprevisível. Não era ruim, mas não estava me agradando... E quando não gosto de uma leitura, parece que meu sono se multiplica.

– Então a senhora veio até meu banco para ver se o livro que deixei escapar lhe interessava?

– Não, eu só notei o livro quando me sentei.

Olhei ao redor da praça e uma coisa me deixou intrigado:

– Há outros bancos vazios, por que a senhora veio se sentar aqui?

– Porque você não parece cansado..., parece triste.

Não sei dizer se com todo mundo é assim, mas dificilmente sou notado nos lugares em que estou. Pode ser que esteja sendo injusto comigo mesmo, ou quem sabe minha insignificância seja mais presente quando vou à praça ler, como apenas mais uma parte do cenário, não sou visto por ninguém. De qualquer forma, sinto-me ajustado quando estou lendo na praça, então pode ser que seja exatamente este encaixe que me torna invisível, pois tudo o que é comum, passa despercebido por olhares alheios..., acho que se trata de outra magia da leitura: a capacidade de escapar do momento presente.

– Estou vivendo o luto de uma perda muito grande – respondi, ainda surpreso com aquela observação a meu respeito.

– Quem ou o que você perdeu?

– Meu irmão mais novo – falei, a voz vacilante – passou as últimas três semanas lutando contra um AVC, mas foi derrotado na última sexta-feira.

– Vocês eram muito próximos? – agora ela parecia realmente interessada, aquele olhar calmo e afável me fez continuar.

– Eu diria que sim, tanto no aspecto regional, pois morávamos muito perto, quanto no aspecto emocional..., eu cuidei dele por muito tempo quando era bebê. Tínhamos nossas diferenças, as vezes isso gerava discussões, mas sempre tive uma ligação muito forte com ele.

Ela desviou o olhar para o chão. Havia alguns pombos nos rodeando, curiosos ou esperançosos por um gesto costumeiro que algumas pessoas fazem quando estão sentados na praça. E foi justamente o que a mulher fez, tirou não sei de onde uma sacolinha cheia de migalhas.

– O que você mais gostava no seu irmão? – ela retirou um tanto do conteúdo do saquinho e atirou no chão diante de nós.

– Acho que a coragem que ele tinha – levei um susto com a enorme quantidade de pombos que surgia de todos as direções, pousavam sob nossos pés para disputarem as migalhas – Ele focava no que queria e seguia em frente, não deixava que nenhum revés da vida lhe abalasse. Estava prosperando, realizando seus sonhos, parecia feliz..., então veio o maldito AVC e acabou com tudo.

– Se ele era o caçula, devia ser bem jovem, pois você não me parece muito velho.

– Ele tinha 34 anos..., eu tenho 42.

– O universo é mesmo injusto, não é mesmo? – disse ela, encarando a aglomeração de pombos – Tira-nos pessoas que amamos muito cedo, sem nenhuma fundamentação do ato.

– Só o que existe é a contingência, minha senhora.

– E por isso o ser humano tem tanto medo – ela atirou mais algumas migalhas e se virou para mim – Mas e quanto a Deus?

– Deus? A senhora acredita que existe alguma entidade por aí manipulando a nossa existência, como se fôssemos peões de um infinito jogo de tabuleiro?

– E se houver?

– Então esse Deus é imensamente despótico e cruel.

– Cruel ou não, você não acredita nisso.

– Talvez até exista alguma força soberana por aí, mas ela não quer saber de nós. Somente passou por aqui e foi embora..., acho que estamos sozinhos neste planeta. E acho que o ser humano teme a solidão mais do que a morte.

Fizemos um breve silêncio. A mulher não parecia nem um pouco contrariada com minhas respostas. Até porque eu também não sabia o que ela pensava sobre esses assuntos metafísicos. Mas se ela se sentiu desconfortável com minhas respostas, a culpa era dela. Não foi eu quem começou a falar de Deus! Contudo, era prudente sustentarmos aquele silêncio por algum tempo. Algumas ideias demoram a serem digeridas pela mente.

– Quando foi a última vez que vocês se falaram? – foi ela quem retomou o papo.

– Você quer saber quando eu falei com Deus pela última vez?

– Achei que você não falasse com Deus.

– Converso comigo mesmo, como todo mundo..., acho que se fosse religioso eu acreditaria que estivesse conversando com Deus.

– Eu li em algum lugar que a relação de um ateu com Deus é como a de dois amigos que brigaram e não se falam mais; os dois ainda se amam, mas são orgulhosos demais para ceder.

– Eu não costumo me considerar um ateu.

– E o que você é?

– Não sou nada..., não gosto de rótulos.

– Tudo bem, mas quando eu fiz a pergunta, estava na verdade me referindo ao seu irmão..., quando foi a última vez que vocês dois se falaram?

– Acho que foi numa sexta-feira, eu passei na lanchonete dele e conversamos um pouco – as migalhas acabaram e, devagar, os pombos foram se dispersando. Ao longe, alguns motoristas começaram a buzinar, estressados no trânsito – Como não era incomum, tivemos outra discussão por conta de diferenças e eu usei um tom cheio de ironia para depreciá-lo. No sábado, eu não sai de casa pra nada, passei o dia estudando e no domingo cedo a mulher dele me ligou desesperada. Quando cheguei na casa deles, encontrei-o caído no chão, estava consciente, mas sem movimentos e não falava... aquela era a primeira de três imagens perturbadoras que vivenciaria nos próximos dias.

A confusão no trânsito pareceu se dissipar do mesmo modo que começou: espontaneamente.

– Quais foram as outras duas? – ela quis saber.

– A segunda foi quando o vi no hospital, duas semanas depois do AVC. Tinha sofrido algumas cirurgias, estava debilitado, o crânio muito inchado, inexpressivo, ele quase não se movia, apenas me acompanhava com o olhar. Não foi nada fácil ver um irmão que sempre vi saudável e alegre, arruinado daquela forma. Quando toquei a única mão que ele manifestava algum movimento, seu dedo polegar ficou a acariciar as costas da minha mão, levemente..., um dedo! Era todo o afeto que sua condição permitia demonstrar.

A lembrança daquele dia fez a indignação emergir em meu ser. Achava tudo aquilo muito injusto, como pode uma vida tão jovem e próspera ser abreviada daquele jeito cruel, sem ninguém com quem pudéssemos atribuir alguma responsabilidade? O mesmo ódio incoercível que senti ao ver meu irmão frágil numa cama de UTI estava de volta, ali na praça..., mas afinal, ódio de que? Ódio de quem?

Como a impotência diante da finitude é o elemento mais notório do ser humano, clamamos por vingança! Meu irmão estava morto e a sensação era de impunidade..., Isso me fez pensar que Deus fosse, de fato, uma entidade onipresente, pois assume até mesmo o lugar de réu, porque sabe que precisamos dessa ínfima clemência.

– A terceira imagem aterradora foi vê-lo no caixão, a pele arroxeada, gelada feito mármore. Não era apenas a imagem da morte dele, mas a representação do fim da esperança. A confirmação de que estamos mesmo sozinhos no mundo. Todas as orações e súplicas foram sumariamente ignoradas... Sim, talvez exista um Deus todo poderoso por aí, senhora. Mas ele está cagando pra nós aqui.

O calor ou a raiva começava a fazer meus poros minar. Estávamos sentados naquele banco recebendo um sopro cálido que parecia intencionado em nos expulsar dali. Pra piorar, eu tinha agora uma coisa entalada na garganta, fruto das memórias recentes. Enquanto a mulher do meu lado parecia impassível, o que me fez descartar a hipótese de que ela fosse membro de alguma religião interessada em usar a minha dor como justificativa para arrastar-me ao templo do Deus dela. A menos que fosse alguém exclusivamente interessada em somar mais um dizimista e, portanto, estivesse insensível ao meu sofrimento.

Porém, não parecia ser o caso, a mulher demonstrava interesse apenas quando me fazia perguntas, e então retornava ao modo contemplativo.

– E se você pudesse voltar no tempo? – perguntou ela.

– Como é?

– Se você pudesse estar de volta àquela sexta-feira, exatamente no instante em que chegou na lanchonete do seu irmão?

– Eu..., eu não sei. – Fui pego de surpresa por aquela pergunta, que estranhamente sova como uma proposta – Nunca pensei sobre isso.

– Funciona assim: – ela se virou e assumiu ares instrutivos – você vai devolver seu livro ao assento, exatamente onde ele estava, depois recostar a cabeça de volta no encosto do banco e fechar os olhos. Então você vai dormir novamente... Quando acordar, eu não estarei aqui e será sexta-feira, 29 de setembro. Você vai terminar sua leitura, voltar ao trabalho e no fim da tarde, irá até a lanchonete do seu irmão. Ele estará lá, cuidando das coisas como num dia qualquer.

Ela fez uma pausa, enquanto eu preenchia a mente com a visão dele me recebendo como sempre fazia, um abraço, duas ou três perguntas banais sobre o meu dia, então ofereceria uma cerveja gelada. Se aquilo fosse possível, poder desfrutar de sua presença uma vez mais, então eu estava diante de uma oferta irrecusável. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, a mulher ergueu o indicador em sinal de cautela:

– Só existe uma condição nisso que estou oferecendo a você.

– Que condição?

– Nada do que você fizer poderá mudar o que virá nos próximos dias – estava-me sendo colocado na consciência o paradoxo da escolha – Você terá seu retorno ao passado como se fosse uma chance de despedida da maneira que lhe parecer mais adequada. Contudo, terá que reviver os dias seguintes, que serão estritamente iguais ao que aconteceu; seu irmão sofrerá o acidente vascular cerebral, você será o primeiro a chegar para prestar socorro, ele ficará semanas internado numa UTI, você fará aquela mesma visita e receberá o limitado carinho que ele pôde fazer com o dedo..., então chegará o nefasto dia da morte, o indigesto velório, o enterro lúgubre e o inescapável luto...

Pareceu-me um preço muito alto a se pagar.

Eu não sustento nenhum tipo de remorso em relação à convivência que tive ao lado do meu querido irmão. Mas reconheço que seria muito bom poder voltar a lanchonete e encontrá-lo, uma última vez, ver aquele seu entusiasmo único e confiança inabalável, poder lhe dar um beijo e dizer que o amo..., contudo, viriam os próximos dias, cujas circunstâncias aterradoras causaram estrago incomensurável em minha alma.

Aquilo me fez pensar em contos mitológicos em que os deuses do Olimpo concediam algum desejo ao ser humano, que à priori soava como uma coisa boa, mas sempre havia algo nefasto escondido por trás da realização do desejo. A lição que os gregos queriam passar com esses contos era a de que os homens não sabem antever as consequências daquilo que desejam. Pelo menos quanto a isso eu estava sendo poupado, pois a doce senhora fez a gentileza de me contar o que havia nas entrelinhas de sua proposta. E diante disso, eu só poderia lhe dar uma resposta, fosse aquilo uma metáfora ou não, sei muito bem que não estava preparado para as consequências de reviver o encontro com a morte.

– Eu agradeço por me oferecer essa irresistível possibilidade – respondi, sem muita convicção e, por isso mesmo, torcia para ela não ser persuasiva – mas eu vou recusar sua oferta.

– Não deseja rever seu irmão uma vez mais?

– Desejo muito, senhora. Mas não sei se aguento passar por aquilo tudo novamente.

Ela estava a me olhar daquele jeito, direto, então precisei virar o rosto para evitar que ela me visse enxugando uma lagrima que escapou e desceu pela minha face. Sempre tive vergonha de chorar na presença das pessoas, embora era fato que nas últimas semanas eu andava a chorar copiosamente e em qualquer lugar, como nunca havia chorado antes. Mas naquele momento, ali no banco da praça, voltei a sentir vergonha de chorar.

– A dor vai passar, acredite – disse ela e se levantou – quando passar só restará a saudade. E desse ponto em diante, as lembranças serão prazerosas.

A mulher se afastou em uma direção qualquer, até desaparecer no meio da urbanização. Sozinho no banco da praça, eu senti um estranho arrepio que me fez retirar o telefone do bolso pra verificar a data. O que vi causou-me alívio, pois ainda estava no presente e eu não precisaria passar novamente por aqueles dias sombrios do passado recente.

Sim, eu teria adorado rever meu irmãozinho. Mas como aquela doce senhora garantiu, a dor já vai passar. E quando isso acontecer poderei revê-lo nas minhas lembranças, poder sustentar o melhor dele, sem que para isso eu tenha que vivenciar de novo os piores dias da minha vida...

Li em algum lugar que o mundo se torna mais difícil de se suportar, na medida em que morrem pessoas que gostavam da gente... Agora eu sei que isso é a mais pura verdade.

***

Em memória de meu querido irmão

18/03/1989 - 20/10/2023


sábado, 11 de novembro de 2023

RESENHA DE LIVRO – POSITIVAMENTE IRRACIONAL

Não importa qual o aspecto da vida humana esteja em pauta. A complexidade que nos é tão característico, faz com que qualquer especificidade seja de difícil compreensão. Conclusões racionais definitivamente estão fora de hipóteses quando se pensa no ser humano. Há diversas nuances que interferem ou que influenciam a equação do nosso comportamento. Talvez este seja o elemento mais agradável quando se inicia uma leitura como a desse POSITIVAMENTE IRRACIONAL: uma análise absolutamente convencida dessa complexidade e, portanto, tem por finalidade a espinhosa função de desbancar certezas desse enorme quebra-cabeça chamado humano.

O americano Dan Ariely é professor de psicologia e economia comportamental. Com inesgotável inquietação por compreender a nossa espécie, seus trabalhos são constantemente citados em distintas plataformas. Este aqui é seu segundo livro, que soa como uma espécie de continuação temática. O primeiro chama-se Previsivelmente Irracional. Em ambos a conduta do homem é o escopo essencial do autor.

No primeiro livro, Dan nos mostra implicações de tomadas de decisões aparentemente irracionais do ponto de vista comportamental, mas que fazemos de modo automático ou sem uma devida reflexão. O livro tem como premissas repensar o modo como nós agimos no cotidiano. Já POSIVITAMENTE IRRACIONAL busca responder questões como por que recompensas financeiras nem sempre funcionam? Por que superestimamos o que fazemos? Por que consideramos nossas ideias sempre melhores do que as dos outros?

Uma característica desse autor que aparece no primeiro livro e se repete neste, é para com sua didática experimental do comportamento humano. Dan Ariely se aprofunda em pesquisas da conduta econômica, coleta dados e nos faz um resumo de seu trabalho, usando uma linguagem acessível e às vezes até divertida. Também faz uso de sua própria experiência de vida para fazer associações com outros dados, como uma verdadeira cobaia da vida.

A irracionalidade está incutida em quase todas as nossas decisões de vida, de modo inconsciente. E inevitavelmente, isso reflete nos resultados futuros ou até geram conflitos inéditos e danos irreversíveis. Ter alguma noção de como funciona a mente humana é a premissa, talvez um tanto utópica, a qual o livro reconhece tamanha impossibilidade.

O autor faz parte de uma equipe de colaboradores do notório MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Os resultados de diversos testes sociológicos feitos pela equipe validam algumas perspectivas de como agimos sob a influência de padrões emotivos de comportamento, e de como tais padrões podem afetar nossa vida a longo prazo.

Também faz parte da análise da obra certos padrões comportamentais que inconscientemente estabelecemos na vida, sem nos darmos conta de que tais comportamentos foram estabelecidos em nossa conduta por um padrão condicional efêmero, como por exemplo, quando agimos tomados por emoções de curto prazo, que acabam se tornando algo normativo e achamos que isso é um aspecto de nossa natureza, em vez de comportamento aprendido.

POSITIVAMENTE IRRACIONAL é um interessante trabalho, inconclusivo por excelência, de linguagem acessível e recheado de curiosidades sobre nossa natureza. Busca compreender um pedacinho da complexidade humana, oferece novas perspectivas e verdades sobre nossas reais motivações na convivência profissional e pessoal e o que torna o ser humano quase inerentemente procrastinador.

NOTA: 9,3

sábado, 28 de outubro de 2023

RESENHA DE LIVRO – QUEIMADA VIVA

Desumanização é o modus operandi aplicado a seres socialmente invisíveis, seja pela indiferença ou preconceito. No cenário capitalista universal o preconceito que gera invisibilidade se estende a tudo o que está fora dos padrões de vida das classes hierarquicamente superiores. Desumanizar é tornar um indivíduo menos humano, abreviar sua individualidade, os aspectos criativos e distintos de sua personalidade. Desumanizar é transformar o outro em coisa; é quando um indivíduo perde seu valor essencial e então passa a se identificar como “objeto”, algo de utilidade finalista, e somente isso, pois coisas não têm iniciativa própria e são totalmente dependentes da vontade dos outros para movê-los.

Exemplo histórico e difundido desse conceito está no período da segunda guerra mundial, em que a Alemanha nazista dispendeu enorme esforço em propaganda no sentido de desumanizar os judeus. Tiveram relativo êxito em transformá-los em sub-raça, então receberam carta branca da sociedade para exterminar milhares de vidas humanas...

Por que eu começo esta resenha falando de desumanização?

Porque tudo isso que você acabou de ler, serve como sinopse desse livro, pois é exatamente disso que a obra trata. No caso de Queimada Viva, um importante e necessário documento histórico, a desumanização cultural leva o nome de patriarcado, uma praga que caiu e ainda cai sobre os ombros das mulheres de diversas regiões do planeta; seres humanos que foram transformados em coisa, para que fosse validado sua condição de escravizadas.

A história de Souad, narrada por ela mesma, começa com descrições do seu cotidiano de condenada por ter nascido mulher e, portanto, ter que viver numa comunidade sem nenhum direito, nenhuma justiça, nenhum tipo de possibilidade de desenvolvimento minimamente aceitável. Souad apenas sobrevive cada dia em que o patriarca de sua família a submete a trabalho forçado, tortura ininterrupta e condições existenciais precárias, enquanto ela sonha com a única possibilidade de anseio permitido à uma mulher: se casar e talvez assim, poder trabalhar um pouco menos, apanhar um pouco menos e subsistir um pouco mais. Mas ela sabe que não será dessa forma, e o desejo emudecido de toda mulher nascida na mesma comunidade da Cisjordânia que Souad nasceu, é casar com um homem cujo chicote arranque menos sangue que o chicote do pai.

“Até onde meu cérebro é capaz de lembrar, eu nunca soube o que é brincar ou ter prazer. Nascer menina na minha aldeia é uma maldição. O único sonho possível de liberdade é o casamento”, (página 10).

Souad nos revela sua vida de infância sofrida até a adolescência em que começam os anseios de um casamento. Mas naquela comunidade a regra é esperar até que as irmãs mais velhas se casem primeiro. Enquanto espera, ela se encanta por um homem, eles se encontram algumas vezes e o inferno se instaura na vida da jovem palestina. Uma mulher naquela cidade não pode ter encontros com um homem antes do casamento, aliás, não pode sequer olhar na direção de um homem. Souad engravida e é condenada por algo asqueroso que por lá chamam de “crime de honra”.

O castigo é o título da obra.

A forma com que nos é apresentado os momentos que antecedem o castigo até o momento em que Souad vai parar num hospital, é tão verossímil que causa desconforto; a sutileza de detalhes narrativos escancara a banalidade do mal com tamanho desalento, que eu precisava fazer pausas na leitura, até que o ar retornasse aos meus pulmões (fazia tempo que não encontrava um livro capaz de me causar tanta aflição). Milagrosamente sobrevive, então a mãe de Souad vai visitá-la no hospital e o leitor pensa: “ela só pode estar com o coração doendo por ver a própria filha completamente queimada”. Doce ilusão que vou deixar para o leitor descobrir o que a mãe foi fazer no hospital onde a filha se encontrava, após receber o castigo do crime de honra...

Souad é uma rara sobrevivente dessa cultura misógina e asquerosa, que de tão primitiva em costumes, se torna difícil de ser assimilada por nossa cultura. Sobreviveu para nos contar não somente sua história, mas a de milhares de mulheres que continuam lá... E sinceramente, não sei mais o que escrever, só peço que leiam este livro. É preciso que saibamos o quão variável e imenso pode ser a maldade humana!

O filósofo Sócrates disse que “a ignorância é o único mal”.

Segundo essa ideia, quem faz o mal, só o faz porque não compreende que está a fazer, portanto, sua ignorância é o que o leva a maledicência. Mas a história de Souad faz com que essa hipótese caia por terra, pois a mensagem que esta necessária obra nos traz é que a verdadeira causa da maldade no mundo não está propriamente na ignorância, mas na falta de empatia.

NOTA: **10**

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

RESENHA DE LIVRO – UM LIVRO EM FUGA

Edgard Telles Ribeiro é um exemplo notório do quanto os brasileiros conhecem pouco a literatura de seu país. O próprio autor disse numa entrevista, já um pouco antiga, que seus livros são bem mais conhecidos no exterior do que aqui no Brasil. Diplomata aposentado, Ribeiro fez uso de sua condição nômade para levar suas obras a outros países e, por consequência, adquiriu certa notoriedade..., contudo, por aqui ele segue como um ilustre desconhecido. 

Talvez por conta do passado como diplomata, este UM LIVRO EM FUGA tenha algo de biográfico, como salientam alguns críticos sobre o quanto é impossível desvencilhar o autor de sua obra por completo. O protagonista aqui é um homem caminhando para a terceira idade, embaixador, segue uma existência meio cosmopolita, seu último abrigo na longínqua e desconhecida Samarkan, no Uzbequistão. Eis que por conta de questões familiares, precisa voltar ao Brasil, onde se hospeda na casa de uma antiga namorada...

Não há muito o que dizer em sinopse, UM LIVRO EM FUGA vai conduzir o leitor através do olhar de um homem que, apesar de parecer gostar de sua vida sem raízes, começa a sentir um incômodo existencial, como se um vazio progressivo estivesse em expansão em sua alma.

Essa noção surge inesperadamente quando, após dias acolhido na casa da antiga namorada, ela confessa que está noiva e prestes a se casar. De modo abrupto, o chão do protagonista desaparece, ele sente o baque de uma porta que considerou estar sempre aberta à sua disposição, de repente será fechada em definitivo.

As reflexões e autoanálise progridem ao longo da narrativa, nosso herói discorre muitas vezes para dentro do passado vivido com a ex esposa, um tempo em que supostamente havia aquilo que atualmente anseia: significado. Também quando se encontra com um velho conhecido e a mera presença de ambos parece suscitar uma época empolgante (ou exageradamente construída pela memória saudosista do narrador), mesmo que parte disso não chega a ser verbalizado à mesa, a noção de desencaixe com o presente é algo quase palpável.

UM LIVRO EM FUGA parece nutrir mais de um significado em seu título. Além de a personagem principal ser escritor (outro aspecto que coincide com o autor da obra) e estar em busca de um norte para seu novo trabalho, aqui as impressões sobre fuga também parecem transitar pela percepção que o protagonista tem a respeito de seu universo: seria algo em fuga de sua realidade ou ele próprio tentando escapar daquilo que se tornou?

Edgard Telles Ribeiro é um escritor minimalista e sensível. Agrada-me o modo com que conduz suas personagens (ou seria as personagens que conduzem o teclado do autor?) cheios de incertezas, para desfechos nem um pouco convencionais e, exatamente por isso, tornam-se deliciosamente críveis.

NOTA: 7,9

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

RESENHA DE LIVRO – COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA

O filósofo Michel Foucault sugeriu que toda obra escrita possui autonomia e se basta. Segundo ele, “À crítica não cabe destacar as relações da obra com o autor, nem querer reconstituir através dos textos um pensamento ou uma experiência; ela deve antes analisar a obra em sua estrutura, em sua arquitetura, em sua forma intrínseca e no jogo de suas relações internas”.

Diante do exposto, podemos levantar duas hipóteses a respeito desse belo trabalho do também filósofo Alain De Botton, intitulado COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA: estamos diante de uma excelente análise sobre a obra de Marcel Proust, que mais do que esmiuçar a sensibilidade literária, serve como conteúdo de orientação que nos ajuda a viver melhor e, portanto, fazendo completa oposição ao que Foucault disse. Ou podemos dizer que, de fato um clássico da literatura se basta por si, não cabendo à crítica nenhum tipo de contextualização, e precisamente foi o que fez De Botton ao jogar luz sobre a obra e, no lugar da análise, apenas nos deu um vislumbre mais amplo de um gênio chamado Marcel Proust.

Pensando que é quase impossível para um escritor que analisa a obra de um companheiro de profissão se manter imparcial, creio que aqui encontraremos ao longo da leitura, um bocado das impressões de Alain De Botton, o que particularmente considerei um acréscimo requintado.

COMO PROUST MODE MUDAR SUA VIDA se trata de um exame detalhado do mais aclamado livro de Marcel Proust, EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, o autor se utiliza de uma linguagem humorada, cheia de aspectos de autoajuda e, porque não dizer, quase terapêutica. De Botton nos revela este mundo de Proust como um sistema composto de diferentes perspectivas, indo das mais corriqueiras, às mais complexas.

A motivação do autor é um tanto pertinente e convidativa, faz com que participemos de seu ponto de vista. De modo a priorizar a simplificação de sua escrita, De Botton nos oferece lições no lugar de filosofar. Ou talvez estivesse apenas simplificando algo a tal ponto que transformou a contemplação implícita na filosofia em algo altamente didático.

Sem se ater à conceitos universais, ou seja, algo que sirva para todos, o propósito do autor é precisamente aquilo que fez com que ele fundasse sua famosa School of Life (escola da vida): a chance de vivermos melhor. Apesar da estrutura feita em capítulos curtos sempre apontando para uma lição específica, além de um título similar a obras de autoajuda, pois usa o termo “como” para dar ênfase a algo que o conteúdo oferece, não considero esta obra, uma autoajuda em seu estado bruto. Vejo este trabalho mais como um guia sugestivo de possibilidades.

COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA não é nem de perto uma análise precisa ou uma biografia de Marcel Proust, apesar das muitas referências e relatos sobre sua vida. Mas pessoalmente falando, sinto como se a leitura desse livro fosse uma viagem singular, além de deliciosa, pois li sobre um autor sem antes ter lido sua obra..

NOTA: 9,1

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

CRÔNICA - QUASE IMPORTÂNCIA

É dia de saber do futuro! E você, cético leitor, pode não acreditar nesse tipo de assunto sobre adivinhação, mediunidade, gurus e feiticeiros, mas eu gosto de projetar as coisas boas que me anunciam. Garanto que as melhores escolhas que fiz na vida, foram fundamentadas pelas orientações de um xamã espiritual.

É bom deixar as coisas bem esclarecidas, pois odeio ser acusada de não ter avisado em tempo sobre aquilo que estou propondo em meus textos.

Entro em roupas leves e práticas, não uso nada que leve mais de dez segundos para vestir; nada de tiras, amarrados, lycras, apertos, dobras, redobras..., a leveza dos tecidos serve apenas para encobrir meus mistérios epidérmicos. Meus cabelos são sempre cortados muito curtos porque não os quero pentear. Maquiagem? De jeito nenhum! Minha existência já foi naturalmente colorida pela vida.

Saio bem cedo para evitar o trânsito. Tomo um ônibus e sigo até o endereço de minha mais recente cartomante. É uma moça jovem, no máximo uns trinta anos de idade e acho que isso a incomoda; este é um ramo em que as pessoas velhas costumam receber maior credibilidade. Ela sustenta um ar exageradamente sério, usa óculos de grau e lenço sobre a cabeça, tudo para parecer mais velha. Usa muitas joias no pescoço e nos pulsos; tem um tique de ficar empurrando os óculos que escorregam pela base do nariz; vários escritos tatuados ao longo dos braços os quais desconheço o idioma. Faz pausas constantes durante suas poucas falas e gesticula muito com os braços. Vez ou outra retira os óculos, fecha os olhos e encena um instante reflexivo... Sim, ela finge! Mas acho que com o passar do tempo se livrará dessa autoimagem clichê de guia espiritual.

Quando aperto o interfone ela atende com voz mal-humorada. Seu elevado prestígio não permite que lhe acordem tão cedo. Considera-se profissional requisitada demais e não precisa levantar da cama antes das nove da manhã. Mas ela sabe de minha natureza ansiosa, e quando estou em sua porta às sete e quinze da “madrugada”, ela resolve abrir uma exceção.

Não é uma questão de gentileza; a cartomante não me ignora porque eu pago três vezes mais para que me atenda fora de seus horários estabelecidos... Não, eu não sou rica, se é o que está pensando. Meu conceito de riqueza é um pouco diferente do senso comum: rico não é aquele que possui mais dinheiro, e sim, aquele que dele menos precisa. Só não me tomem como uma mulher medíocre, eu adoro dinheiro.

De qualquer forma, não há nada que um bom café seja incapaz de elevar. E quando ela me viu parada em sua porta, com dois expressos quentinhos, seu humor melhorou um pouco.

O consultório é a sala..., uma sala ordinária demais para uma cartomante. Sua ânsia por parecer o modelo incontestável de tradutora do futuro parece se resumir em sua aparência. Do contrário, haveria mandalas, amuletos, talismãs e incenso por todo canto.

– Minha mãe disse que eu preciso arranjar um emprego e não uma cartomante – comentei, enquanto ela me encarava com atenção afetada – ela vive dizendo pra eu fazer coisas as quais não estou envolvida: arranjar trabalho, fazer um curso de culinária, ler Augusto Cury, voltar para igreja, começar uma dieta porque acha que estou deprimida...

– Por que Augusto Cury? – ela pergunta.

Eu havia dado um extenso monólogo de sugestões e a outra se interessou apenas pelo escritor... Definitivamente não devia deixar as previsões do meu futuro com alguém mais jovem do que eu.

– É o autor favorito dela... – falei, indiferente, acho que a cartomante notou mudança em meu comportamento, porque de repente, ajeitou-se no tapete, como se o papo finalmente tornara-se interessante – Mas quer saber: eu acho que mamãe vive me dando conselhos porque ela deseja que eu me torne melhor para ela.

– Como assim?

– É isso mesmo que você entendeu... Mamãe não quer que eu seja uma pessoa melhor, propriamente. O que ela quer mesmo é que eu me torne mais fácil para ela.

A cartomante não disse nada. Odeio conversar com gente que não expressa nenhuma opinião. Gosto que discordem, concordem, mandem-me para a merda ou digam que sou louca. O silêncio das pessoas me soa perigoso demais. Entretanto, não sei se uma consulta com uma cartomante poderia ser considerada exatamente uma conversa.

– Por que você está deprimida?

– Eu não estou deprimida.

– Mas você acabou de dizer que está deprimida.

– Eu disse que minha mãe acha que estou deprimida e que uma dieta sempre ajuda a curar depressão.

Outra vez fez silêncio e continuou o trabalho de organizar cartas sobre a mesa de centro... E eu ansiosa pelas boas previsões! Até porque naquele momento já estávamos sem café.

Por que essa mulher vive me pedindo para falar da minha mãe?

Quando fiz essa pergunta a cartomante respondeu que eu já falava sobre ela sem que fosse preciso pedir. Mas então por que cargas d’água ela segue me pedindo para falar sobre mamãe?

“Porque eu acho que quando está falando sobre ela, na verdade é apenas uma projeção; você só está falando de si mesma”.

Se essa resposta era pra ser ofensiva não funcionou porque eu não entendi o que ela quis dizer. Não sou uma narcisista que só sei falar de mim mesma. Nem retardada por falar de uma pessoa me referindo à outra... E se o assunto “mamãe” vem à tona tantas vezes é porque ela vive me perguntando, ora! Se eu quisesse falar do meu presente ou do meu passado eu procuraria um terapeuta e não uma cartomante.

Falei para ela se concentrar no meu futuro, então ela virou algumas cartas. Previu algo sobre eu ser o entremeio de destinos esparsos, de expectativas muito perto de se concretizarem e terminou dizendo que em breve eu farei uma viagem de lazer, mas que será importante para aspectos profissionais.

– Mas eu nem tenho um emprego.

– Vai ver essa viagem abrirá as portas de uma boa profissão.

– Eu não quero trabalhar... Você disse que será uma viagem de lazer!

– Bom, é o que está dizendo as cartas – ela odeia ser contrariada – O jogo apenas mostra o caminho. Trilhar é uma decisão sua.

Dito isso, ficamos ambas olhando uma para a cara da outra. Eu esperando mais um pouco dessas malditas cartas, tipo o local exato em que irei viajar ou se estarei afetuosamente nos braços de um homem charmoso. Quanto a cartomante, certamente me encarava porque queria que eu me desse por satisfeita, afinal, aquilo eram cartas e não o google maps. É sério, isso foi ela quem disse, do alto de seus péssimos modos.

Talvez eu devesse mesmo procurar uma cartomante mais velha. Aquela garotinha ainda não sabia ler as preciosas cartas com maior profundidade.

Após a sessão, fui me sentar na pracinha perto do centro da cidade, esperando uma ligação que não vinha. Fico um pouco receosa quando estou perto de espaços verdes, porque não gosto muito de interagir com a natureza. Sempre considerei a natureza cruel, mas por mais que tente me manter longe, ela sempre dá um jeito de me inserir em suas diabruras.

A natureza nunca se esquece dos seres que habitam suas entranhas.

De repente, um pássaro voou bem perto da minha cabeça e pousou no gramado ao lado do banco onde eu estava. Mais ou menos do tamanho de um pombo, era cinzento e parecia agitado, procurando alguma coisa. Não demorou a encontrar no chão um fino rabo que sacolejava isoladamente. A destemida ave reivindicou com o bico aquele rabo perdido e o engoliu de uma só vez... Não satisfeita, voltou a procurar pela suposta presa, que agora havia se tornado criatura cotó... Então a ave chegou mais perto de mim, parou quase ao meu lado, a cabeça girando por todas as direções à procura de um pobre animal sem rabo.

A obstinação daquele bicho me surpreendeu. Ela receava minha presença, mas não a temia. Pelo contrário, chegava cada vez mais perto. E imóvel no assento do banquinho, eu apenas esperava pelo desfecho daquela aventura, talvez até torcendo pela ave corajosa que se comportava com uma audácia que jamais vi num animal...

Mas após algum tempo, ela se cansou e voou desapontada. Sua mortífera investida aérea lhe rendera apenas um esquelético rabo.

Passados alguns minutos, quando me convencera de que o celular não prestaria nenhum manifesto, levantei-me para voltar pra casa e, nesse momento, ao erguer uma das pernas, foi que encontrei o fugitivo sem rabo. Era uma lagartixa ou algo do tipo, refugiada e imóvel sob o solado do meu pé esquerdo.

Petrificada, o bicho também parecia me encarar, mas aquela era uma expressão totalmente diferente do olhar do pássaro. Eu via temor na fixação congelante da lagartixa. Sem dúvida era uma sobrevivente, mas permanecia atenta para o perigo que eu representava. Justo eu, que sem querer havia salvado sua vida.

Por que será que eu sempre tiro conclusões óbvias das coisas? De onde vem essa minha hipótese de que um caçador que desafia os próprios limites para atingir seu objetivo, só pode ser mais corajoso do que a caça que fornece uma parte do seu corpo para continuar viva?

Desejei boa sorte para a valente lagartixa e voltei para casa sem minha ligação, mas com a mente cheia de dúvidas advindas da natureza e sua interminável crueldade.

Antes precisei fazer uns serviços numa agência bancária, que por sorte não estava muito cheia. Enquanto aguardava com a senha na mão, notei (era impossível não notar) duas mulheres espremendo espinha uma da outra. Inclinavam-se com unhas erguidas e afiadas, dedos que pareciam prestes a atravessar o crânio, um enrosco obsceno que me fez pensar em acasalamentos de espécimes exóticas.

Nada contra gente que curte expressar afeição apertando cravo no rosto como macaco procurando insetos no pelo do outro. Mas fazer isso dentro do banco pareceu exagerado e até perigoso... Sim, pois estávamos correndo um sério risco de ter uma gosma branca respingada sobre nós... Acredite no que digo: eu já vi espinha voar enormes distâncias quando são explodidas do rosto das pessoas, parecem até um vulcão de lava amarelada.

Um colega que não vejo há muito tempo, disse, certa vez, que terminou um relacionamento de anos porque não aguentava mais ser espremido pela garota. Falou que chegou a fazer um tratamento intensivo contra acnes não por considerar cravos um incômodo, mas porque odiava ser torturado pela parceira.

Fiquei pensando que talvez uma das moças que se alternavam em espremidas dentro do banco fosse a ex citada por meu colega... Vai ver ela finalmente encontrou alguém que adora garimpar espinha tanto quanto ela. Se isso for verdade, eu terei que retirar o que disse, afinal, talvez a natureza não seja tão má assim, pois une semelhantes.

A cartomante disse, uma vez, que eu encontrarei um cara parecidíssimo comigo, mas que eu não deveria me envolver porque seremos como polos iguais de uma corrente elétrica: ou nada acontece ou a porra vai explodir violentamente.

Pra dizer a verdade, o conselho dela não me deixou com medo. Aliás, eu estou convencida de que as cartas revelam apenas o futuro das pessoas; o conselho fica por conta da cartomante, que no caso dela, pareceu-me um conselho infestado de ressentimento, sim pois as cartas costumam me revelar boas coisas que estão por vir. Talvez quando jogue as cartas para si mesma o efeito seja estritamente o contrário.

Desde então vivo atenta para o encontro com esse tal cara parecidíssimo comigo, porque se seremos assim, tão semelhantes, logo nos veremos dentro de um banco espremendo espinha um do outro, feito dois chipanzés...

Mas sinceramente, ou esse pedaço de mau caminho está demorando demais, ou ele passou pela minha vida e, destrambelhada que sou, acabei não notando...

sábado, 2 de setembro de 2023

RESENHA DE LIVRO – ESTAÇÃO CARANDIRU

Em 1989, o médico Drauzio Varella aceitou exercer um trabalho voluntário de prevenção à AIDS, dentro da maior casa de detenção da América do Sul, a Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, por estar situada no bairro de mesmo nome. Seus muros abrigavam algo em torno de 7.200 presos, era praticamente uma pequena cidade.

A obra Estação Carandiru é o resultado dessa rica experiência vivida pelo médico, durante seu tempo de trabalho no recinto. Temos aqui uma compilação de histórias de vidas de gente que, ausentes de recursos substanciais ou de ferramentas de inclusão social, a contingencia os conduziram ao mundo do crime, geralmente pela via da necessidade de ganhar dinheiro ou por conta de relacionamentos conflituosos, salvo raras exceções.

Ao longo de uma década na convivência com os mais distintos indivíduos cumprindo pena, Drauzio foi uma presença constante, não somente no trabalho de prevenção no qual havia sido contratado, mas estabelecendo-se na Detenção como figura de confiança e apoio, fazendo amizades que duram ainda hoje, mal sabia o médico precisar a riqueza de conteúdo que encontraria naquele lugar improvável.

Este é, portanto, o ponto mais alto desta obra, ganhadora dos prêmios Jabuti de não ficção e livro do ano de 1999: os mais distintos e inusitados relatos das pessoas que viveram parte de suas vidas naquele espaço precário e fóbico; pessoas comuns, que transgrediram a sociedade vigente, cometeram crimes bárbaros e foram retirados do meio de convivência. Engana-se o leitor que acha que Estação Carandiru relata apenas o fato mais conhecido sobre o presídio: a trágica chacina ocorrida em 1992, quando a tropa de choque da polícia invadiu o presídio e abateu 111 presos. Engana-se também quem pensa que estamos diante de uma crônica da vida de bandidos.

Não. Este livro é um retrato da precariedade dos cidadãos mais abundantes no país: pessoas vindas da classe menos favorecida, que por vício ou falta de oportunidade, fizeram o que fizeram e foram parar naquele imenso aglomerado de condenados, num espaço físico minúsculo onde existe um rígido código de leis não escritas, elaboradas pela própria população carcerária, na qual a contravenção geralmente resulta na pena de morte sumária. É claro que é preciso uma boa dose de ausência de julgamentos por parte do leitor para que nasça essa leitura enriquecida.

A condução narrativa do autor é de viés jornalístico, o que contribui para a fluidez. Atribui-se a isso, uma linguagem leve, ágil e imparcial. Drauzio se limita a contar o que lhe fora relatado, sem opinar ou interferir com moralismos, aqui encontramos justamente o palco montado na exatidão de seus envolvidos. O trabalho do autor foi o de deixar que ele exista...

Até mesmo a fluência da linguagem, o peculiar estilo dialogal da “malandragem” se manteve fiel aos relatos. Quando é a vez de um preso narrar, o que foi parar no corpo do livro é sua precisa descrição, sem que houvesse intervenções gramaticais por parte dos editores.

Estação Carandiru é um belo trabalho documental, cuja premissa não é a de meramente fazer alguma denúncia da precariedade do sistema prisional brasileiro, embora a evidência seja inevitável para o leitor. Creio que maior do que o problema das penitenciárias deficientes, é a alienação da sociedade mais pobre, totalmente ignorada pelas instituições estatais desse país, o indivíduo desassistido sabe que o inferno da detenção espreita sua existência, quase como se isso fosse um projeto político.

NOTA: **10**

segunda-feira, 31 de julho de 2023

RESENHA DE LIVRO – DAMAS DE COPAS

Gosto quando descubro autores talentosos e desconhecidos das grandes mídias. Geralmente esse incógnito artista surge diante de mim depois de muito garimpo, em meio a prateleiras empoeiradas e esquecidas, dentro de Sebos tão desconhecidas quanto os exímios volumes que compõem seu arsenal. Afinal de contas, quem procura acha, não é mesmo? Assim aconteceu com muitos livros que estão resenhados aqui no blog, e assim que cheguei até essa ilustre desconhecida chamada Cecília Costa.

Degustei sem grandes expectativas este DAMAS DE COPAS, obra de título recorrente, uma capa discreta e conteúdo agradável, apesar de sustentar algumas particularidades que incomodaram. Vamos falar um pouco disso.

A trama narra em primeira pessoa a história de quatro mulheres que dividem o mesmo lar durante os tempos da pós ditadura no Brasil. Mulheres em torno dos trinta anos, cujas naturezas distintas constroem a estrutura de acontecimentos que faz com a narradora reflita sobre aquele tempo vivido e de suas experiências femininas. Por todo o tempo da leitura, Marta, a narradora, conversa não com o leitor, mas com outra personagem, Maria. São suas inflexões, opiniões e fantasias o ideário que nos faz enxergar aquele universo.

O livro começa um pouco excessivo em um fluxo de pensamento que quase incomoda e lança no leitor aquela desconfiança de que estamos entrando um cansativo volume de quase trezentas páginas de infinitas palavras e pouquíssimas ideias. Mas com o avanço na leitura, entramos naquilo que de melhor acontece: a história sendo contada por sua personagem, o entremeio da vida compartilhada com as demais colegas morando juntas, finalmente ganha o leitor que se interessa em saber mais sobre aquelas vidas.

Conforme narradora relata de forma propositalmente expositiva, cria-se em nossa mente certa desconfiança quanto a credibilidade do que está sendo dito, justamente por conta do olhar individualizado da protagonista. Delírio e realidade parecem mesclarem-se, e isso me pareceu acintoso. Não é uma narrativa ruim, mas o tempo todo deixa suspenso elementos como equívoco e talvez um pouco de vitimismo.

Os capítulos são intercalados com composições poéticas também construídas por Marta, que está a escrever um livro inspirado na convivência com as demais personagens. São como prefácios os quais achei um pouco cansativos e desnecessários. Cada vez que eu me deparava com tais introduções, meu interesse pela leitura diminuía consideravelmente.

Há uma personagem em específico, que é construída pela narradora como sendo o demônio encarnado. Beth nos é relatada como uma pessoa amarga, ressentida, cheia de baixa estima e um interminável rancor com o mundo que lhe cerca. No entanto, a mesma narrativa expositiva e de pouca credibilidade de Marta, deixa a impressão de que a coisa talvez não tenha acontecido exatamente como foi contado. Há momentos em que esse dedo apontando defeitos fica tão veemente, que faz parece exatamente o oposto do que está sendo dito, como naquela ideia que diz que quando Pedro fala de Paulo, fala mais de Pedro do que de Paulo.

DAMAS DE COPAS é um livro razoável, com uma narrativa interessante e ao mesmo tempo desvairada, cujas vivências de suas personagens são elementos que incitam temas diversos como feminismo, violência, cultura, ditadura e harmonia familiar. Uma condução relativamente fluída, intercalada com introduções extensas, mas vale a leitura.

NOTA: 7,6