terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CRÔNICA: AQUELE SORRISO

Cabisbaixo e contra vontade, eu marchava rumo ao encontro com a velha rotina semanal de trabalho. Meu impreciso andar, resignado e lento, como o de alguém que é obrigado a suportar as toneladas da vida, quase claudicava. E embora meu destino final não fosse assim, tão trágico, ainda assim, a condução pesarosa e a má vontade eram condições imutáveis do ser... Nada demais, apenas mais uma triste e viscosa manhã de segunda-feira. E como de praxe, eu seguia resignado e indisposto.

Nem sempre é assim, geralmente honro meus compromissos capitalistas com um pouco mais de resiliência. No entanto, naquela manhã específica eu me encontrava cheio de tédio, consequências da mesmice torturante de um novo dia útil. Nos ouvidos, os fones tocavam música alta, como se fossem um apelo desesperado para que a sanidade emergisse de algum canto interior, porque a familiaridade do som às vezes me segura pela mão e impede que eu despenque de vez no abismo.

Então eu seguia em frente;

Passos curtos e hesitantes;

É claro que alegria é um estado inconstante e que raramente se manifesta numa manhã previsível, a qual sabemos que uma mesa de escritório recheada de desprazeres nos aguarda. Mas este texto nasceu pelo fato de que, naquela inusitada alvorada, um instante de acalento se fez e contrastou toda a inópia maledicente.

Sim, foi o capricho ocasional da vida que colocou em meu caminho uma dama completamente incompatível com a tristeza incoercível a qual emanava. Era um ser possuidor de andar despojado e exuberante, que olhava para o mundo lúgubre ao redor como se debochasse dele. Portadora de autoconfiança invejável, ela vinha em sentido contrário, pareceu olhar dentro de minha alma pútrida e me presenteou com um sorriso majestoso e impoluto, capaz de transformar em cores a mais depressiva palidez.

E do fundo do meu inferno e defronte a tanta confiança e esplendor que gratuitamente me era oferecido, não me restou alternativa, senão olhar ao redor em busca daquele que seria o suposto contemplado com tamanha demonstração de afeto, algo que não me achava digno... E eis que naquele instante, o mundo cruel e ameaçador zombou de meu ato impulsivo, mostrando que só havia eu no caminho daquele sorriso... Portanto, a perfeição de todo o encantamento havia, de fato, sido destinado a mim.

Esperanças diluídas entre eventos passados e os que estavam por vir se desfizeram de imediato. No lugar do rancor havia um novo eu, inflado por uma injeção de ânimo, a tentar devolver o meu mais sincero sorriso, o qual era nitidamente desprezível e um pouco acanhado, culpa da imprevisibilidade. E antes que aquela bela moça, dona da mais reluzente alegria, se perdesse de vez de meu campo de visão, perguntei-me quem seria aquela singela soberana, que com apenas um sorriso que durou não mais do que alguns poucos segundos, fora capaz de me resgatar do purgatório, transformando minha segunda-feira triste, num dia suportável e satisfatório.

Jamais recebi incentivo melhor.

E no meio do calçadão do centro da cidade, embasbacado com tamanha grandeza afetiva, demonstrada sem nenhum pudor, eu finalmente senti considerável ganho de potência, que pode também ser interpretado como alegria; definição de Espinoza, que significa a passagem para um estado mais potente do próprio ser.

Um sorriso e nada mais...

Contudo, foi ato grandioso que deixou claro o quanto a vida pode ser mais suportável, sem nenhum custo substancial. E eu saberei que aprendi essa lição quando finalmente conseguir devolver igual gentileza àquela doçura humana, que de bom grado oferecia seu sorriso aos miseráveis; que se traduziu num instante de felicidade única, feito especialmente para que me lembre de que a curva mais bela que uma mulher pode expor, é a de seus lábios esticados num formoso sorriso.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

CONTO: EU QUERIA FICAR RICO!

Sentado na calçada em frente ao portão de casa, eu refletia sobre as perspectivas da vida. E minhas deliberações nem um pouco precisas, concluíram que as coisas estariam sendo mais fáceis se eu fosse detentor de capital financeiro elevado. Então indaguei a mim mesmo, rindo de óbvia constatação: “como eu não havia pensado nisso antes?”. Sim, eu era jovem e os sonhos galopavam. E entrei de cabeça no meu mais novo projeto existencial: ficar rico.

Eu queria ficar rico, e minha mãe discordou irrefutável, alegando que isso era coisa de gente materialista, que tendo o suficiente para viver já estaria de bom tamanho;

Eu queria ficar rico, e meus colegas de escola aproveitaram para me contar seus sonhos também. Pelo menos aqueles que, assim como eu, tiveram a preocupação de gastar alguns instantes para pensar sobre o que queriam;

Eu queria ficar rico, e a professora falou que o caminho para isso era estudar muito. Perguntei a ela se todos os professores eram ricos, já que deviam estudar bastante. E sem entender o que havia feito de errado, fui colocado de castigo;

Eu queria ficar rico, mas dominado pelas lascívias da adolescência, achei que antes disso daria tempo de arranjar uma namorada;

Eu queria ficar rico, porém, me disseram que enquanto a sorte não chegasse eu deveria arrumar um emprego;

Eu queria ficar rico, e meu colega de trabalho fez as contas na cabeça, e por alguma razão, achou melhor mudar de assunto;

Eu queria ficar rico, e um sacerdote falou que eu deveria ter desprendimento dos bens mundanos, que somente a riqueza espiritual era o que realmente importava. Despediu-se após incontestável lição divina, e foi embora acelerando sua BMW conversível;

Eu queria ficar rico, mas no lugar de enriquecer, acabei tendo meu patrimônio subtraído ao ter que dar algumas moedas de esmola para um morador de rua, apenas pra não me ver consumido pela culpa;

Eu queria ficar rico, mas exausto após um longo e estressante dia no trabalho, achei que fosse merecedor de uma ida ao bar, para tomar umas cervejas com os amigos;

Eu queria ficar rico, e meus colegas de bar acharam graça! Abraçaram-me e tocamos os copos. Concluímos, bêbados, que isso era coisa pra gente mesquinha. O que importava mesmo era a amizade;

Eu queria ficar rico, e minha namorada me largou para ir à procura de alguém que já o fosse;

Eu queria ficar rico, então fui consultar as cartas, porque me disseram que o mundo exotérico me daria respostas. A cartomante se animou com minha visita, disse algumas coisas incompreensíveis, mas garantiu que se eu fizesse tudo direitinho, conseguiria alcançar minha obstinada meta;

Eu queria ficar rico, só que o meu salário do mês mal deu para pagar pelos serviços da cartomante;

Eu queria ficar rico, mas pensei que apesar de não ter chegado lá, ainda assim era um sujeito de sorte, pois havia arranjado uma nova namorada;

Eu queria ficar rico, então fui ler “O Segredo” e “Dez Lições para se Tornar Bem Sucedido”;

Eu queria ficar rico, mas houve antes uma incompatibilidade, pois minha nova garota tinha o sonho de se casar;

Eu queria ficar rico, mas ela tinha outro sonho, que acabou se tornando também o meu sonho. Então tivemos um lindo filho;

Eu queria ficar rico, enquanto vivenciava outro domingo tedioso, sentado em frente à tevê, tentando me nutrir daquela ideia de que a família é a maior de todas as riquezas;

Eu queria ficar rico, e um misto de ansiedade e desespero me acometeu, na fila da casa lotérica, para refazer meu jogo da Megasena;

Eu queria ficar rico, enquanto esbravejava com as páginas do jornal, abertas em meu colo, onde dizia que o preço da cesta básica voltou a subir;

Eu queria ficar rico, então tive que trabalhar em dois empregos para conseguir dar conta das despesas com escola, plano de saúde e moradia familiar;

Eu queria ficar rico, só que meus devaneios foram interrompidos quando, por acaso, parei em frente ao espelho e não reconheci aquele rosto começando a enrugar e tantos fios brancos na cabeça;

Eu queria ficar rico, mas comecei a desconfiar dessa possibilidade, na fila da previdência, para acertar os pormenores de minha aposentadoria;

Eu queria ficar rico, e sentado no banco da praça jogando dominó com um velho amigo, contei sobre este ingênuo anseio de infância. Ele olhou para mim e disse: “nunca se esqueça de uma coisa, velho amigo: Rico não é aquele que mais tem, e sim, aquele que menos precisa...”;

Nós rimos de seu comentário sarcástico... Ele se despediu e disse que precisava ir pra casa porque estava na hora de seus remédios. Os longos anos manuseando um cabo de enxada resultaram em hérnias que lhe causavam dores intensas. Antes de ir, virou-se pra mim e disse, ainda sob os risos zombeteiros, que seu sonho de infância era ser piloto de avião.

O bom da vida, eu pensei comigo, é a recordação de que havia começado essa história toda rindo de não ter enxergado um caminho que me parecia óbvio... E eu terminava com a mesma graça, só que agora era porquê, de fato, o que sempre esteve evidente, talvez fosse o meu destino tortuoso.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

RESENHA DE LIVROS – AS ESGANADAS


Jô Soares é um homem indiscutivelmente inteligente. Além de entrevistador, é comediante, humorista, dramaturgo e escritor. E esta última ocupação do cara é o que nos interessa aqui. As Esganadas foi minha primeira incursão através de um de seus trabalhos literários. E embora eu jamais houvesse lido nada dele antes, devo confessar que fiquei com certo descontentamento, pois esperava mais de seu livro.

Bom, antes de tudo, quero salientar em defesa do Jô Soares escritor, que seu livro está longe de ser ruim. O que houve é que não gostei muito de sua pegada literária, que em minha opinião não funcionou muito numa trama de suspense policial. Em alguns instantes tive a sensação de estar lendo uma comédia de humor negro (o que talvez fosse proposital). De qualquer forma, o autor nos brinda com um trabalho altamente rico em vários aspectos. Eu começo por eles:
A trama deste As Esganadas se passa no Rio de Janeiro de 1938, um assassino está á solta perseguindo alvos peculiares: mulheres gordas. Com requintes de crueldades gastronômicas ele mata suas vítimas e depois expõe seus corpos acintosamente, bem ao estilo de vilãos criados por autores como Dan Brown. Quem sai á caça do malquisto é um quarteto composto por um delegado e seu assistente, ambos brasileiros; uma repórter charmosa e também de nacionalidade brazuca; e por fim, um antigo inspetor da polícia de Portugal, que após um incidente escandaloso, se muda para o Brasil e acaba se tornando dono de uma rede de confeitarias.

A linguagem do texto é impecável, recheado de palavras rebuscadas, o que deixa o texto charmoso. As descrições do Rio de Janeiro da época são de fazer cair o queixo, tamanha vastidão de detalhes. E quanto ás cenas dos crimes, estas se mostram tão minuciosas em suas particularidades, que muitas vezes o leitor consegue ter intensos vislumbres mentais dos cenários.
Só que inesperadamente a grandiosidade de detalhes foi justamente o tiro que saiu pela culatra. Há momentos em que a minuciosidade é tamanha, que acaba comprometendo na fluência do texto, deixando a história cansativa em vários instantes. Outro aspecto que não pareceu positivo foram algumas tentativas de se inserir momentos cômicos á trama, os quais não funcionaram muito bem. O que é um pouco inusitado, pois Jô Soares tem grande intimidade com a comédia e sabe fazer o telespectador rir com maestria e inteligência. Era de se esperar que pudéssemos ver esta habilidade inserida em suas histórias.

Em resumo, As Esganadas não chega a decepcionar. É um volume literário genial até certo ponto, mas que acabou tropeçando em sua própria impecabilidade, tornando-se um trabalho mediano e esquecível.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

RESENHA DE LIVRO – VOÇÊ E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS


Passar horas vasculhando prateleiras e bancas de livrarias, á procura de um título distinto, é um trabalho semelhante ao de um garimpeiro. E a sensação de encontrar um livro de aparência inexpressiva, porém de valor inestimável, em meio á pilhas e pilhas de amontoados literários com suas capas convidativas, certamente proporciona a mesma sensação de um garimpeiro que exuma sua preciosidade do meio da lama.

E foi exatamente dessa maneira que encontrei este simpático livro intitulado Você e Suas Circunstâncias. Um trabalho muito legal, que reúne um aglomerado de textos, a maioria com teor de crônicas, contendo situações cotidianas das mais inusitadas. E tudo muito bem narrado por esse promissor autor chamado Artur Eduardo.
Pode parecer inusitado, mas foi justamente essa levada despretensiosa mesclada á pequenos contos corriqueiros do nosso dia-dia, o que fez com que eu sentisse como se estivesse lendo algo novo, diferente. Não diferente exatamente no teor literário, mas foi como se eu fosse uma espécie de assinante de uma veiculação literária que relatasse o cotidiano de alguém muito próximo... Talvez os relatos de mim mesmo, diante do espelho.

Essa ideia prevaleceu ao longo de toda a leitura, porque o autor parece ir justamente à contramão da normalidade, para fazer com que tenhamos prazer em ler coisas que singularmente nos pareceria absurdo. Então, Artur Eduardo nos entrega contos que facilmente caberiam numa conversa cotidiana, se estes não nos fossem tão íntimos... Alguns até nós os temos como indignos de serem revelados. Em outras palavras, aqui nós encontramos um elevado relato da natureza humana em seu próprio habitat. E talvez seja isso o que torne alguns textos engraçados.
Você e Suas Circunstâncias não é exatamente conto nem crônica; não é prosa nem poesia. Talvez seja um pedaço da vida testemunhado em papel. Com diálogos charmosos, alguns divertidos, outros que seriam até cômicos se não fossem trágicos. Mas o fato é que esta é uma pérola que por mim foi garimpada com muito custo. E agora eu a exponho, orgulhosa em minha estante.

Bem, como eu disse no início desta resenha: não seria tão precioso, se fosse fácil achar alguns tesouros literários... Desejo-lhe uma boa leitura, lembrando-lhe de que para chegar á isto é preciso antes ter a paciência e perseverança dos bons caçadores de livros.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

RESENHA DE LIVRO – NÃO NASCEMOS PRONTOS!


Exatamente em concordância com o título da obra aqui resenhada, sou consciente de que não nasci pronto. Por essa razão, ainda não me sinto a altura de resenhar um livro do Filósofo Mario Sergio Cortella. Contudo, escrever tem sido cada vez mais, uma paixão inevitável e diária. E dentro dessa minha diligência amorosa, às vezes eu me permito cometer alguns pecados.

A primeira vez em que vislumbrei um pouco do talento desse autor, eu assistia á uma de suas palestras no youtube. Fiquei simplesmente boquiaberto com o alto nível de intelecto exposto de forma simples, porém altamente erudita. Desde então, tenho acompanhado seus muitos trabalhos espalhados pela internet, além de ter me tornado admirador, adquirindo seus livros que são volumes recheados de provocações filosóficas.
Não Nascemos Prontos! trás crônicas que nos ajudam a refletir sobre nossa vida e nos ajuda a manter o foco a todo instante, para que não percamos o brio e a dignidade em nossa contínua e ininterrupta busca por nós mesmos.

Definitivamente a grande mensagem deixada aqui por Cortella é para com o risco de algo que paira constante em nossa vida: a monotonia. Um estado que nos condiciona a mesmice, a ausência de variação... É sacolejo na alma, para que continuemos buscando exatamente aquilo que o título propõe. Porque precisamente como o autor narra: objetos como sapatos ou geladeiras são coisas que nascem prontas e vão se desfazendo. Enquanto os homens são seres que nascem não pronto e vão se fazendo.

***

RESENHA DE LIVRO – NÃO ESPERE PELO EPITÁFIO!


A premissa das crônicas desse volume é a de nos ajudar em algo que parece óbvio, mas muitas vezes, sem que percebamos, ficamos parados no mesmo lugar. Quantas coisas nós deixamos de fazer porque julgamos não termos tempo, porque não é de nosso interesse, ou simplesmente porque não nos diz respeito?


Como não poderia ser diferente, Mario Sergio Cortella conduz seus textos de forma impecável, com prosas gostosas, algumas portando doses de bom humor e quase sempre carregadas de referências filosóficas que nos ajudam a pensar. Em alguns textos nos deparamos com temas corporativos ou educacionais. E mesmo estes, que são assuntos teoricamente complexos, o autor consegue manter sua mesma linha narrativa um tanto característica: a linguagem acessível.
É muito fácil fazer com que as inquietações do autor passem a ser a nossa inquietação. Porque são provocações filosóficas que nos fazem pensar o novo, a partir de referências e estudos os quais Mario Sergio Cortella esmiuçou ao longo de uma vida dedicada á busca pelo conhecimento.
Talvez o que eu mais goste nos livros do Cortella, é que todos os que já li inevitavelmente aguçam os meus pensamentos. Seus textos me fazem pensar quase que automaticamente; despertam em mim a vontade de querer encontrar as mesmas fontes que o autor estudou; faz-me sair do comodismo e ir buscar aprendizado. E com este Não Espere Pelo Epitáfio! não aconteceu diferente.
É um volume que recomendo sem medo de errar. Por ser um trabalho rico, criado por este que é um dos maiores filósofos brasileiro do meu tempo, e que o faz sem nenhuma empáfia ou exibicionismo.

sábado, 27 de dezembro de 2014

CRÔNICA: OBTENÇÃO VERGONHOSA

Immanuel Kant, grande filósofo alemão do século XVIII, afirmou que: “Tudo aquilo que não puder contar como fez, não faça. Porque os motivos para não contar, são exatamente as razões para não fazer”. Infelizmente existem atos na vida dos quais nos faltam maturidade para evitar, ou quem sabe seja questão de conhecer um pouco melhor aquilo de que somos capazes? O fato é que este texto será uma espécie de confidência de um feito que sempre julguei irrevelável; algo que não sinto orgulho, porém, não me arrependo...

Foi ato no qual jamais o teria feito se tivesse o discernimento precedente de Kant, ou mesmo melhores conceitos éticos de convivência. Minha ação não denegriu, empobreceu ou feriu pessoas diretamente. Mas foi atitude deliberada que existiu unicamente em proveito do meu anseio individual, em detrimento do restante da comunidade em que convivo.

Era uma tarde de quinta-feira, de um inverno incomum e preguiçoso. Eu seguia com minha vida rotineira de sempre, que se resumia em escola, trabalho e leituras. Apenas uma ideia permeava a mente e contrastava com a mesmice cotidiana: havia passado os últimos dias arquitetando o plano que estava prestes a cometer. E precisamente no meu horário de almoço, saí em busca de minha obtenção vergonhosa...

Meus passos pouco firmes adentraram a recepção da Biblioteca Municipal de minha cidade. Cumprimentei a moça do balcão e disse que iria fazer uma das coisas que mais aprecio na vida: vasculhar com calma a seção de literatura.

– Sinta-se à vontade, Michel – disse ela, descontraída, quase nem me olhou, habituada que estava com minhas visitas.

Enquanto caminhava pelos corredores de enormes prateleiras, senti o suor frio que antecede o ato ilícito, exalando em meus poros. Fui até a seção de literatura estrangeira, passeei com os dedos através dos volumes empoeirados, até encontrar o objeto de meu desejo; um distinto livro, cujo título é “O Beijo”, de uma autora chamada Kathryn Harrison.

Livro em mãos, eu, no coração central da moral humana, olhei para os dois lados. Não havia ninguém que pudesse me flagrar. Olhei para o teto, para os cantos, e nenhuma câmera para me intimidar. Então levantei a camisa, enfiei o livro por baixo, e saí apressadamente, em passadas ainda mais irresolutas.

– Ué, Michel... Não vai levar nenhum hoje? – quis saber a moça da recepção.

– Eu volto noutra hora... Aconteceu um imprevisto e preciso ir – e assim eu escapei da biblioteca, levando na cintura, o livro ansiado.

Para eliminar os vestígios que pudessem me desqualificar como novo dono daquela obra, passei dias tentando, em vão, apagar os muitos carimbos da biblioteca, espalhados por várias páginas do livro.

Do agora meu livro...

“Por que você fez uma coisa dessa?”, foi a intimada que escutei da primeira pessoa que contei o que havia feito. E seu questionamento me soava justificável. Afinal, subtrair do patrimônio municipal um objeto que serve para proporcionar cultura, além de ser propriamente caracterizado como roubo, também pode, por puro cabimento, levar o rótulo de egoísmo. Porque além da ilicitude em si, hoje sou possuidor de algo que não tenho a menor pretensão em passar adiante, devolver ou doar. Em outras palavras, sou a pior das espécies: o acumulador..., detentor de um conteúdo cultural que não se expandirá.

Porque jamais empresto meus livros!

Sou um confesso colecionador de livros. E após este asqueroso episódio, pude, por experiência própria, concluí que integro a pior categoria de ser humano que existe. Porque colecionadores roubam a beleza do mundo, subtraem a arte, e as aprisionam para sempre; as condicionam a um confinamento eterno que ofusca sua preciosidade.

Qualquer objeto de consagração, quando cai nas mãos de alguém que coleciona, torna-se uma forma oprimida, objeto sem cor, arte inalcançável, a redução intelectual do mundo...

Colecionadores são seres que roubam para si toda a beleza cultural. E não raro as exibe como troféus pessoais, como se o mérito daquela venustidade pudesse ser transferido para si próprio... Sim, eu sou mais que leitor; sou um colecionador de livros cuja alma é cinzenta, por isso acumulo títulos em minha estante, numa desesperada tentativa em reluzir esta mesma alma apagada.

Ah, mas é só um livro, quem liga para um livro? Você deve estar se perguntando.

Ok, não irei tornar esta reflexão dissimulada com argumentos que justifiquem meu ato transgressor, pois eu mesmo já o tenho como injustificável. Mas permita-me pelo menos salientar que a deliberação pelo roubo, embora não devesse ser algo a se cogitar em nenhuma hipótese, este foi o último recurso, dado que eu havia feito de tudo para conseguir aquele título: o busquei em diversas livrarias; procurei pela internet; conversei com membros de sites de leitura caso alguém tivesse alguma ideia que pudesse ajudar; vasculhei por alguns Sebos do Estado; cheguei até mesmo a ligar para a Biblioteca e perguntar se havia alguma forma de obter o livro, e acabei por receber um sentencioso “Não” como resposta...

Enfim, eu havia tentado de tudo e, frustrado, acabei por concluir que não haveria um meio de adquiri-lo de forma honesta. E para um colecionador irrefreável, capaz de atropelar a moral para alcançar seu objeto de consagração, quanto maior a dificuldade em obtenção, maior a noção de preciosidade e valor. E alienado à dificuldade em encontrar rara obra, compreendi a importância de sua posse. Uma raridade que corria imenso risco de perder-se para sempre; invisível no meio de tantos outros livros populares, mais procurados e culturalmente mais lidos.

O Beijo, e aqui não faço nenhuma sinopse, conta a história de uma mulher que teve uma relação de incesto com o pai. É um tema forte, contado na íntegra pela autora que alegou ser um caso baseado em sua própria realidade. Tão intenso, que às vezes causa certo desconforto no leitor. Mas é uma literatura que sustenta requintes de leveza, de diálogos sutis e profundos, sentimentos explicitados de maneira a tirar todo o julgamento moral; que desnuda a alma da narradora de dentro das páginas... Algo que por si tornou a obra uma espécie de bestseller da minha insignificante coleção.

Se serei perdoado por subtrair objeto do patrimônio cultural da cidade, não sei dizer. Os moralistas certamente dirão que não. E dentro dessa ideia, posso alegar que sou o maior desses moralistas. Mas o objetivo desta reflexão não é o de obter redenção nenhuma, mas esboçar minha sincera confissão de que sempre que olho para a estante e vejo o livro antiteticamente adquirido, não sinto a menor culpa. Eu o entendo como uma conquista, preciosidade que apenas eu enxergo...

Contudo, não somente como colecionador, mas também como eterno apaixonado por livros, minha estante só aumenta de quantidade, ano após ano. E como não tenho herdeiros direto, como sei que vivo numa sociedade onde quase ninguém liga para livros, pode ser que um dia, quando eu já não for mais parte desse mundo, meus amados livros sejam doados para a Biblioteca Municipal, então meu cobiçado roubo retornará para as prateleiras empoeiradas de onde foi subtraído.

domingo, 21 de dezembro de 2014

CONTO: ELA E O TÉDIO


E quando me dei conta, estava sentado á mesa da lanchonete do trem em movimento, vendo-me ser circunstanciado pela fineza do acaso, que tão habilmente condicionou-me a um ambiente propício á reflexão. Do lado de fora, uma chuva forte salpicava a janela com pequenos cristais incolores, que escorregavam feito lágrimas pelo vidro.

Em minha frente, um casal nitidamente apaixonado trocava ternuras. Falavam baixinho ao pé do ouvido um do outro; achavam graça de quase tudo; tiravam fotos, sorridentes, aproveitando para usar como pano de fundo, o espetáculo torrencial proporcionado por uma natureza ostensiva que adora variar sua arte.
Foi como se toda essa ambientação tivesse se ajustado minuciosamente, para me instigar á pensar. E eu pensei... Trouxe a tona lembranças de algumas poucas horas atrás, quando eu conversava com Ela, na estação ferroviária.

Juro que não sei explicar, e acho que jamais saberei. Mas algo que Ela revelara sobre si mesma me deixou triste. Um desalento que me veio tardio, quando Ela já não se fazia mais presente.
Devo confessar que seu relato me foi entregue de forma refinada, numa canção da cantora Ana Carolina. Canção esta que descrevia com impecável precisão os sentimentos que acometiam sua perturbada e misteriosa mente... E Ela o cantou pra mim:

“Olho a cidade ao redor
E nada me interessa

Eu finjo ter calma
A solidão me apressa”

Só que aquele verso saiu da boca Dela carregado por uma beleza estranha e quase mórbida. Como se estivesse destinado á um fim trágico. Ela descreveu seu desinteresse total por qualquer forma de ação existencial... E com dificuldade, fez-se revelar aquele seu incômodo Tédio.
Eu me perguntei o porquê daquela minha repentina recordação. Sim, pois até aquele instante, sentado na lanchonete aguardando o meu pedido, minha mente transitava em relativa paz. Lembrei-me de Nietzsche, quando afirmou assertivamente que “Algo pensa em mim”. Pois algo estava á refletir em minha mente, e como o filósofo descreveu, eu não tinha o menor controle sobre aquilo.

Mas as dúvidas continuavam a pairar.
Por que a confissão Dela, proferida de maneira quase corriqueira enquanto esperávamos pelo atrasado trem, de repente me causou tanta perda de potência?

Com elevada facilidade, eu á trazia para meus pensamentos. Aquele ser encantador, que passara o fim de semana inteiro ao meu redor, destilando naturalmente sua inteligência, sua admirável humildade, seu jeito de me olhar afetuoso e ás vezes um pouco acanhado, sua sinceridade invejável... Dava-me de bom grado, um pouco do seu mundo, imaculado por sua simplicidade.
Mas o tempo inteiro Ela ainda sustentou algo mais na superfície de seu ser, o qual o único jeito para que eu notasse foi ter de revelar á mim... Algo que estava diante dos meus olhos o tempo todo, mas cego pelo meu egoísmo e arrogância, não pude ver. E quando eu finalmente deixei que Ela falasse, não havia mais tempo... O trem havia chegado.

Assim que embarquei, olhei pela janela, na direção da estação... Ela não estava mais lá. Perdi totalmente do meu campo de visão aquele ser portador do Tédio mais palpável que já estive perto.
E agora, olhando pela janela da lanchonete do trem, me dei conta de que estou longe demais, enquanto a paisagem lúgubre do lado de fora, me acusa impiedosamente de negligência...

sábado, 13 de dezembro de 2014

RESENHA DE LIVRO: CLARICE NA CABECEIRA


Outro dia, em conversa com uma grande amiga, perguntei á ela sobre um livro que estava lendo. Com certa pitada de desconforto, ela alegou que estava lendo devagar, porque temia que a leitura terminasse. Eu ri da situação inevitável dela, e tentei lhe confortar com o argumento de que obviamente ela poderia voltar á ler seu delicioso livro quando quisesse.
O fato que é algumas semanas após a corriqueira conversa com minha amiga, eis que me deparei fazendo exatamente a mesma coisa que ela: freando minha leitura por puro medo da mesma chegar ao fim. E este nosso medo tem por trás um delicioso fundamento: é que livros desse porte são prazerosos demais, e seu término desencadeia o mesmo sentimento que nos acomete quando nos deparamos com o fundo vazio do potinho de iogurte... Uma grande tristeza por algo tão bom ter chegado ao fim.

Clarice Lispector consegue causar esse efeito. E este magnífico CLARICE NA CABECEIRA não poderia ter outro, senão este mesmo título, que a meu ver, serve para exemplificar de forma precisa, meus relatos iniciais: é preciso tê-lo em nossa cabeceira, para amenizar a dor de ter que o devolver á estante de livros, e sabe Deus quando iremos tomá-lo á leituras novamente.
Aqui temos um volume contendo vinte crônicas que sucedem uma introdução feita por alguns ilustres leitores de Clarice Lispector. E diante de tantos relatos dignos, análises precisas e colocações assertivas sobre o trabalho da autora, eu não me vi em condições de fazer o mesmo. Mas posso expor meu elevado contentamento por ter tido mais uma chance de estar perto desta gênia da literatura. E exatamente como diz a introdução do livro, Clarice parece pegar na mão do leitor e dizer “vem comigo”. Seus relatos cotidianos são leves e absurdamente atraentes... Algo quase tangível.

Apenas para citar uma, talvez a que mais tenha me pegado pelo braço, foi a crônica intitulada “O caso da Caneta de Ouro”. Em minha opinião, este charmoso relato de Clarice sobre seus filhos, em que um deseja sua nova caneta de ouro, enquanto o outro não se importa com a mesma, é um grandioso embate literário que põe defronte desejo versus desprendimento. E termina com um alerta reflexivo: “Nem sempre esmiuçar demais da certo”.
Sim, o iogurte terminou, deixando apenas o sabor delicioso de seu conteúdo, preso dentro da minha flutuante memória de leitor. Mas a melhor parte é que não há como ver o fundo vazio, porque Clarice é, inquestionavelmente, sinônimo de preenchimento da alma.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CRÔNICA: PEQUENOS ATOS DELINQUENTES


Uma ação pode ter efeitos contraditórios daquilo que fora pretendido, após sua execução. E isso acontece simplesmente por conta do ineditismo da vida. A ação é ato pensado, mas infelizmente o pensamento é pequeno demais para antecipar determinados efeitos. E embora algumas vezes o resultado alcançado seja exatamente aquilo que fora esperado, seus efeitos podem ser entristecedores.

Porque efeito também é causa. E esta resulta em mais efeitos.
Era uma manhã de sábado e eu cuidava de alguns afazeres domésticos, quando a Tekila (minha pequena e ruidosa Poodle) começou a latir agudamente, em direção específica, mais precisamente focada nas escadas da porta de entrada. Geralmente ela faz alardes com qualquer coisa, mas quando sua atenção está fixada em um único ponto, é porque algo indevido violou a privacidade de nosso lar.

São nessas horas que eu tenho que intermediar o latido ininterrupto com o objeto de sua causalidade. Então, quando olhei para a escada, eis que avistei um calango, estacionado num dos degraus. Era talvez um dos maiores que eu já havia visto, tinha em torno de uns trinta centímetros, da ponta da cauda até a cabeça.
E meu embate mental se deu início.

O que fazer com aquele representante colossal de sua espécie? Afinal, embora uma criatura pequena, o calango era amplamente maior que os demais de sua categoria. Portanto, soube que não cabia á mim, destruir aquele que era uma espécie de mandatário do poderio robusto da natureza em sua vasta diversidade. Por outro lado, ele não era bem vindo, dada sua inusitada presença. Nunca havia recebido em minha casa, a visita de um réptil, portanto, eu não sabia exatamente o que fazer... Sem falar que Tekila não fechada o focinho.
Foi quando tive uma considerável ideia (ação), que foi a de encher um copo com água e jogar no inopinado lagarto, a fim de afugentá-lo. Contudo, após o que eu imagino ter sido a quarta “canecada d’agua” o calango continuava no mesmo lugar. Sequer se moveu. Talvez até gostando do refrescante banho proporcionado por meu ato ingênuo.

Tekila seguia com seu irritante vocábulo “cachorrês”, o qual eu interpretei como algo do tipo: “Isso não está dando certo, seu idiota! Tente outra coisa!”. E angustiado pelos instantes de incerteza, eu busquei a vassoura e voltei para a escada. A ideia agora era arrastar o intruso para fora do nosso lar.
Dessa vez eu tive êxito e a estranha criatura, tomada de temor, se viu tendo que escapar das cerdas de piaçava, cuja truculência deixou claro que sua presença não era bem vinda.

O calango finalmente fugiu, por debaixo da greta do portão. Do lado de fora, um grupo de malévolos humanos o aguardava. Um quarteto de pirralhos, pés descalços, roupas esfarrapadas e pedras nas mãos.
Esperavam esperançosos pelo retorno daquele que perseguiam.

E o pobre réptil fora apedrejado impiedosamente, como se fosse um ser cuja existência deveria servir de pura diversão para alguns seres humanos, que queriam praticar tiro-ao-alvo. Fora morto pela insistência, pois os agressores erravam seu alvo, em sequências quase misericordiosas; como se dessem brechas para que alguma providência viesse á tempo de salvar aquela vida encurralada. Mas tudo o que o pobre animal pôde fazer foi usar seu instinto, que sempre o mandou fingir-se de morto, perante situação de eminente perigo... E esperar pela pedra certeira, pois os asquerosos bípedes não desistiriam, enquanto isso não acontecesse.
Do alto da minha varanda eu acompanhei todo o ato de barbárie, que só poderia mesmo ser orquestrada pelo animal humano. Os garotos terminaram sua chacina, e depois foram embora, satisfeitos e agradecidos, pois um quinto integrante da carnificina finalmente havia colaborado, colocando o pobre animal para fora de seu improvisado refúgio, com uma vassoura.

Sim, minha ação foi bem sucedida. Consegui expulsar a criatura indesejada. Tekila também pareceu satisfeita, pois cessou com seu escândalo horroroso. Mas o resultado (efeito) de minha ação me deixou momentaneamente deprimido, inexpressivo... Coautor de um crime que não tive a intenção de cometer.

sábado, 22 de novembro de 2014

RESENHA DE LIVRO – 10 ANOS DE AVENTURA NA HISTÓRIA – AS REPORTAGENS FUNDAMENTAIS


Meu maior interesse quando adquiri este livro, que como o título deixa explícito, homenageia os dez anos da revista AVENTURA NA HISTÓRIA, da Editora Abril, era a oportunidade de poder ler algumas matérias que foram publicadas antes de meu conhecimento deste excelente veículo de conhecimento histórico.

E embora as quatorze matérias selecionadas para este livro sejam todas dignas de tal posição, acho que este trabalho poderia ter sido bem maior, dada enorme quantidade de boas matérias apresentadas pela revista, ao longo desses dez anos. Mas segundo explicações da editora de redação, Patrícia Hargreaves, foi preciso que regras fossem seguidas, para enxugar o livro. E a primeira delas foi que este teria apenas matérias de capa, assim como a tentativa de sempre abarcar diferentes períodos históricos. O resultado foi bom, mas ainda acho que o tamanho do livro poderia ter sido maior.
Há reportagens magníficas, como a “FÚRIA MONGOL”, que narra um pouco da história do nascimento daquele que se tornaria o líder de um dos mais eficientes exércitos já reunido. Seu nome é Temudjin, mais conhecido como Gêngis Khan.

Em outra matéria, também muito boa, intitulada “QUEM TEM MEDO DO ISLÃ?”, podemos entender um pouco desta que se tornou a religião mais temida pelo ocidente, numa viagem bacana que começa na inóspita Arábia da época de Maomé.
Pra destacar uma última, eu citaria “POR QUE GETÚLIO SE MATOU?”, uma ótima reportagem que tenta entender os motivos que levaram ao presidente brasileiro a por fim á sua própria vida.

A revista AVENTURA NA HISTÓRIA possui como sua principal característica, textos enxutos e de fácil leitura. Uma dinâmica textual que agrada a quem lê, mesmo quando estamos diante de temas relativamente chatos. Algo que talvez possa deixar alguns historiadores de nariz torto, mas acho que o tipo de abordagem feita pela equipe editorial é muito boa e assertiva. Afinal, está é uma revista feita para nós, leitores, e não para aqueles que do alto de sua empáfia, se dizem intelectos historiadores.
Recomendadíssimo aos amantes de história.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

RESENHA DE LIVRO – VINGANÇA DA MARÉ


Antes de iniciar a resenha propriamente dita, quero alertar o caro leitor para os perigos ao procurar uma resenha em veiculação online, pois tenho notado que alguns diálogos textuais, que se autodenominam resenhas, estão, na verdade, revelando explicitamente conteúdo indevido. Tenho reparado isso com certa frequência, pois geralmente quando termino de ler um livro, procuro na internet algumas opiniões sobre o mesmo, apenas para verificar como anda a aceitação daquele trabalho, como uma espécie de sondagem de mercado. E no caso deste livro, em três oportunidades de visitas á blogs e afins, eu encontrei gafes que revelam o conteúdo irrevelável da história. Ou seja, tem gente que no lugar de criar resenhas opinativas e instigadoras, acaba criando uma espécie de resumo do livro, o que compromete qualquer possível chance deste nos proporcionar alguma emoção.

Portanto, a primeira recomendação desta resenha (e talvez de todas as outras) é não procurar por nenhuma delas, antes de ter lido o livro. Se bem que, após ter lido, você provavelmente não precisará mais procurar por resenhas (fazer isso depois de ter lido é mania de gente esquisita, feito eu).
Bom, Vingança da Maré é um livro que chegou ao mercado com expectativas elevadas. Justamente porque a criação antecessora da autora foi muito boa. E eu sempre costumo dizer que livros de estreia, quando despertam elevada aceitação pública, acabam gerando exagerada expectativa quanto aos próximos trabalhos do autor. Se Elizabeth Haynes tivesse escrito este Vingança da Maré antes de seu megassucesso No Escuro (vide resenha neste blog), é bem provável que ela estivesse cotada atualmente entre as promitentes autoras de literatura da atualidade. Só que a problemática desse pensamento é que, caso a autora tivesse escrito este livro antes de seu maior sucesso, talvez ela ainda estivesse fadada ao anonimato, sem que as pessoas pudessem descobrir seu grande talento, que só viria posteriormente.

Mas nada aqui chega á ser exatamente ruim. É apenas inferior a autêntica capacidade narrativa que Elisabeth Haynes já nos provou ser detentora. A comparação é inútil, porém inevitável. E nós leitores, quando compramos o novo livro de um autor que já nos provou do que é capaz, queremos reviver mais daquele suspense cruciante e pungente, o qual nós degustamos em seu livro de estreia...
Mas esta pegada instigante, infelizmente ficou faltando nesta nova empreitada.

A trama conta a história de Genevieve, uma mulher determinada, objetivada á trabalhar arduamente, alternando entre seu emprego como executiva de vendas, com o de dançarina de pole dance, para concretizar um sonho: comprar um barco e mudar-se para o mesmo.
Inicialmente a ideia parece longínqua, mas seus dois empregos começam a render substancialmente, e em pouco tempo ela consegue dinheiro para tal realização. Mas já na festa de inauguração de seu barco, um corpo aparece boiando próximo ao ancoradouro do mesmo, e inesperadamente, Genevieve reconhece a vítima.

Tendo seu lar flutuante maculado, a moça se vê envolvida com perigos relacionados ao submundo, os quais ela pensou terem sido deixados pra trás, quando largou sua vida de dançarina noturna.
A ideia da história é bem legal, há aqui situações de crimes, traições e resgate do passado, alguns funcionando de forma relativamente fluente. Mas o livro talvez peque justamente no sentido de cativar por meio do suspense circunstancial. Porque seu segmento, embora pareça ter um breve início impactante, acaba seguindo por uma trilha morna, sem nenhuma relevante, e descamba para um final previsível... Porém não chega á ser decepcionante.

Eu reforço: a maior sugestão dada na resenha deste livro, amigo leitor, talvez seja exatamente o fato de que a expectativa pode ser venenosa, se nossa ânsia elevada recair sobre os ombros de um autor que foi brilhante em sua estreia.

sábado, 25 de outubro de 2014

RESENHA DE LIVRO – O PODER DO HÁBITO


A permanência dentro de um comportamento habitual é condição que permeia qualquer ser humano. O hábito é uma conduta tão forte, tão perseverante, que talvez a sua maior influência esteja exatamente na capacidade de se ocultar.

Quando pensamos na ideia de hábito, á princípio ela nos parece uma coisa pequena e indigna de reflexão. E ainda se consideramos o fato de que alguns autores, como Charles Duhigg, que dedicaram anos de estudos á esmiuçar esse tema que raramente possui notoriedade no meio acadêmico e social, ficamos com uma leve impressão de que esses sujeitos não têm nada do que fazer.
Mas a verdade é que o habito é algo imensamente presencial, um ato quase que religioso. E por isso sempre considerei de grande valia a ideia de estudar temas de pouco interesse coletivo, porque essa busca nos tira da condição de conformidade com aquilo que surge em nosso cotidiano, sempre mascarado como algo estritamente óbvio e, portanto, desnecessário de ser entendido. E o hábito não é uma exceção.

E justamente essa é a grande proposta deste O PODER DO HÁBITO, que é a de tentar entender comportamentos que vão muito além de uma simples atitude tomada, com constante frequência ou inconsciente execução. O comportamento habitual pode ser algo banal, como o ato de escovar os dentes sempre daquela mesma forma. Mas ele também pode ser algo infinitamente transformador; algumas vezes até identificador de nossa própria personalidade. De fato, talvez o hábito possa vir á ser entendido como uma espécie de ocultamento de outras formas de realidades. E que só não ás vemos por conta da cegueira dos costumes automáticos.
Tomemos como exemplo, a própria cultura a qual nós nascemos e fomos criados. Esta muito tem á ver com nossa conduta atual, mesmo que você não siga a doutrina da mesma. Ou seja, você vive regido por hábitos culturais adquiridos em tempos passados, ainda nos dias de hoje. E uma das maiores máculas deste comportamento chamado hábito é justamente o seu ocultismo. O hábito é cada vez mais poderoso na proporção em que ele não é visto por você. Quanto menos você enxergar o hábito, maior será a influencia dele sobre sua vida.

Este livro não possui a premissa de fazer com que o leitor se livre de seus hábitos, até porque isto seria como condicionar o cérebro á pensar em cada ato necessário para ser dado no dia-dia. Sob esta perspectiva, a mente humana provavelmente entraria em colapso. Não, a ideia deste trabalho, que nos é apresentado em formato de pesquisas, é nos mostrar que podemos identificar comportamentos habituais de nossas vidas, para que possamos customiza-los em algo de maior produtividade. Principalmente aqueles hábitos que nos são nocivos.
O livro nos revela vários exemplos de transformações que só foram possíveis através de foco em padrões que moldavam cada aspecto de determinadas vidas. Vai nos mostrar que algumas mudanças da natureza humana podem nos conduzir por caminhos menos atravancados. Caminhos que não poderiam ser vistos por conta da sutileza de nossa atitude repetitiva, e que nos pareciam tão óbvios.

É um convite á reflexão, que Charles Duhigg nos faz. E com maestria ele vai nos propor que mudar comportamentos é difícil. Mas este adestramento pode ser crucial para a busca do sucesso, seja na sua vida, ou no direcionamento de sua empresa.

domingo, 12 de outubro de 2014

RESENHA DE LIVRO – FIQUE COMIGO


Talvez o maio atributo do escritor Harlan Coben seja sua singular capacidade em prender a atenção do leitor, em doses de crescente angústia. Seus livros geralmente possuem uma composição brilhantemente bem elaborada no sentido de manter o suspense no ar, por quase toda a trama.

Mas embora este FIQUE COMIGO siga essa mesma receita, ele não é o melhor dos trabalhos do autor (“Não Conte á Ninguém” é disparado, o meu favorito do cara). Opiniões á parte, o livro é muito bom, e mesmo sendo uma construção literária composta por vários personagens que são peças chaves da trama, ainda assim, a história é muito bem amarrada.
E por falar em trama, ponto sempre tão bem construído por Harlan Coben, eis um rápido resumo:

FIQUE COMIGO conta a história de três pessoas distintas e que aparentemente não possuem nada em comum. Mas ambas carregam cicatrizes de um mesmo acontecimento do passado. Megan Pierce é uma mãe de família, que toca sua vida comum e banal, com certo teor de tédio. Mas tudo o que ela vive atualmente parece ser uma forma de apagar um passado bem diferente.
Quando o livro nos apresenta o cotidiano de Ray Levine, logo podemos notar o quanto este é um sujeito que perdeu toda a crença em si próprio. É um cara que vive tempos de tédio e fracasso constante. Ele ganha vida como fotógrafo. Mas o que antes era um talentoso e próspero profissional se tornou apenas um pífio paparazzo de celebridades.

Broome é um detetive obcecado por um crime insolúvel que aconteceu há dezessete anos. Ele meio que transformou o ato de continuar perto dos fatos e consequências deste crime, como uma espécie de hábito progressivo.
Então, eis um misterioso acontecimento, faz com que os caminhos dessas pessoas se cruzem.

O livro começa um pouco confuso, porque nos é entregue pequenos e constantes capítulos, que nos mostra a vivencia de cada um dos personagens. E muitas informações e nomes, acabam gerando certa dificuldade na memorização do leitor. Mas o autor sabe como ninguém deixas pequenas pistas ao longo da trama, que rapidamente faz com que aprendamos a lidar com as situações diversas que nos são impostas.
FIQUE COMIGO é uma surpreendente história de ficção policial contemporânea, que certamente vai entreter com eficiência, qualquer leitor apaixonado pelo gênero. Harlan Coben é um escritor recomendadíssimo nessa linha narrativa, que nos prende facilmente e transforma a leitura num ato compulsivo, que nos faz encontrar um novo ponto de interrogação, á cada página virada. Mas sem deixar nenhum deles sem resposta.

sábado, 27 de setembro de 2014

CRÔNICA: ADIÇÃO IRRISÓRIA


Era uma indesejável segunda-feira e eu conversava, na cozinha do escritório, com alguns colegas de trabalho, quando um deles anunciou, de maneira receosa, seus números do fim de semana:

– Sábado eu só peguei sete.
Perante corajosa anunciação, os demais ouvintes foram atraídos por seu relato. Inclusive eu. Alguns com incredulidade nos olhos, outros com evidente satisfação. Talvez até tivesse havido algum olhar condescendente.

Quanto ao meu olhar, este foi de total auto avaliação. Porque embora meus olhos estivessem pousados na figura de meu colega, era pra mim mesmo que eles atentavam... E comparavam.
Se você que está lendo esse texto for uma mulher, então me deixe explicar que o número “sete”, sendo ele posterior á afirmação de “só peguei”, automaticamente significa “mulheres” na concepção de um homem. Portanto, eu, diante daquela sincera confissão, só conseguia exigir de minha mente, que fizesse um levantamento de meus próprios números. Não sei bem para que serviria este ato consciente (ou talvez inconsciente), mas o fato é que eu queria me lembrar das somatórias de minha maior noite de glória. E o relatório gerado pelo meu processador neural, foi simplesmente uma adição irrisória, tamanha insignificância.

“Não é possível!”, eu pensei comigo, com a mesma decepção de um empresário que acaba de checar dados numéricos que lhe apontam para uma eminente falência. “Não pode ser só isso”. Eu ordenava para que o meu processador cerebral gerasse um novo relatório, buscando informações que supostamente se encontram empoeiradas no arquivo morto da minha mente. Mas os resultados continuavam os mesmos:
Em minha noite de maior glória, eu havia pegado apenas duas.

E já que os relatórios não acrescentaram nenhuma nova soma; nem mesmo uma pífia baranga bêbada de fim de noite, eu resolvi duvidar de sua veracidade. Passei a relembrar minha noite “gloriosa”.
Foi numa festa de aniversário da cidade. Eu estava com uma colega de trabalho. Tudo seguia muito legal, passeávamos de mãos dadas; eu me sentindo o garanhão porque ela uma garota expressiva em atributos físicos, portanto, eu vivia uma noite de plena fartura. Bem, isso nos meus simplórios conceitos. Mas, eis que ela anunciou que estava cansada e queria ir embora. Ainda era cedo e eu, no auge de meu apogeu, não queria ver a festa acabar. Então levei a mina até sua condução e voltei para festa. Mal sabia eu, que a razão de meu ego inflado, acabara de ir embora.

Mas aquela foi uma noite incomum para alguém nos meus padrões pouco dignos de um Don Juan de Marco. E logo uma segunda ficante surgiu em meu caminho. Tratava-se de outra gatinha apetecível, e esta, ficou comigo pelo resto da noite.
Em suma, minha mente não havia se enganado. Eu só peguei mesmo duas.

De repente, eu despertei de meu devaneio, e estava de volta á cozinha do escritório, ouvindo agora o relato de outro colega. Este se mostrou bem menos modesto, e sapecou um sonoro “VOCÊ É MUITO FRACO, CARA! EU PEGUEI QUINZE!”.
Á princípio, eu imaginei que, sem querer, talvez as minhas memórias do passado houvessem escapado de minha boca e eu as tivesse proferido em voz alta. Mas logo notei que o pegador das quinze, direcionava sua ostentação ao pegador das sete. Ou seja, minha diminuta glória continuava oculta aos ouvintes do café da manhã. E isso era bom, porque certamente minhas “duas pegadas” o fariam entrar em choque anafilático, de tanto rir.

O cara das sete pegadas caiu impiedosamente de seu pedestal, enquanto eu me encolhia em algum canto, imaginando o que diria quando chegasse a minha vez de relatar algo sobre a noite de sábado. Aliás, meu fim de semana inteiro havia sido zero (Não se esqueça de que aquele meu expressivo número dois, foi numa outra festa, em uma longínqua data).

Pois foi diante de tão elevados relatos, que minha pequenez se perguntava: “como caralhos alguém consegue pegar quinze garotas, numa única noite?”. E não vi alternativa, senão perguntar como isso funcionava, diretamente á uma mulher.
O sexo feminino certamente mataria minha curiosidade sem me apontar com dedos machistas. Só que para minha surpresa, antes de ela me relatar como as coisas funcionavam, a humilde moça salientou que havia pegado vinte e dois naquele mesmo sábado de fartura. Afirmação que provavelmente humilharia até mesmo o cara das quinze pegadas.

De qualquer forma, minha colega foi amplamente solícita, e me forneceu detalhes de como funcionam as coisas nas baladas dos dias atuais: Basta chegar furtivamente aos ouvidos de uma garota, não importa qual, sugerir algo pragmático, do tipo “já é ou já era?”, e se a garota consentir, você ganha um ou dois minutos de troca de fluídos labiais, com direitos á uma fervorosa disputa de línguas, onde são compartilhadas centenas de bactérias.
– Depois você sai e vai para a próxima – decretou minha colega, do alto de sua vasta experiência.

– Mas você nem se despede? Tipo, não troca nem o número do telefone?
– Tá maluco? Se eu parasse para ficar dando tchau pra todo mundo ou trocando endereço do facebook, as minha amigas teriam me ultrapassado, né?

– Deixe-me ver se entendi: tudo isso não era uma questão de diversão com direito á dar uns pegas em caras legais, mas sim uma espécie de competição?
Minha colega não precisou pensar muito. Sem cerimônias, ela cuspiu um suficiente “É!”.

Naquele instante, a síndrome de ineficiente que pairava sobre mim, se desfez. Concluí que eu era mesmo um sujeito afortunado, simplesmente pelo fato de não entender como funcionava aquele negócio de pegar dezenas numa única festa.
Não senhor!

Era bem melhor em meus tempos de juventude, onde havia espaço para uma troca de conversa, para os galanteios, cavalheirismos e troca de olhares... Tudo isso precisava acontecer antes de um simples beijo. Como era gostoso aquele tempo em que andar de mãos dadas fazia com que nós nos sentíssemos os maiores dos pegadores da noite; muito mais habilidosos, pois sabíamos como entreter uma mulher numa noite inteira, em vez de passar toda a festa, marcando tracinhos no braço, para cada  beijos banal que déssemos ao longo da noite. Ato este que só serve para inflar o ego na presença dos colegas de trabalho, no dia seguinte.
Se eu acho que as coisas eram melhores no passado, isso não importa. O fato é que nada me impede de ter orgulho de minha saudosa e memorável adição irrisória.

sábado, 13 de setembro de 2014

RESENHA DE LIVRO: O LADO BOM DOS SEUS PROBLEMAS


Este simpático trabalho do autor Mauricio Horta, começa com um prólogo que deixa bem claro as pretensões incomuns do mesmo: ele diz que neste livro, intitulado O Lado Bom dos Seus Problemas, você não encontrará formulas prontas para a felicidade plena, o que vai bem ao sentido contrário de tantos outros títulos, que vendem livros daqueles que se dizem senhores da verdade, os considerados gurus da sabedoria. São sempre livros cuja pretensão é nos mostrar 10 maneiras para se ter sucesso imediato; os 7 hábitos do empresário Pitbull; os dez mandamentos do homem altamente eficaz; e por aí segue...

Penso que esses conceitos são fechados e acabam soando como uma cilada. É como se quisessem nos ensinar a rir de nossas desgraças; sentir alegria diante de um determinante diagnóstico de câncer; dar gargalhada ao topar com o joelho na quina da cama... E sabe de uma coisa, meu amigo leitor? Livros com essa premissa amontoam-se nas prateleiras das livrarias Brasil afora.
Só que aqui já nos deparamos com um prólogo que adverte leitores que buscam por métodos preestabelecidos, para que devolvam este volume para a prateleira. E o título pode até soar enfeitadinho e fazer parecer que estamos mesmo diante de alguém que vai nos empurrar goela abaixo, os benefícios de se afirmar, o dia inteiro, que tudo vai dar certo.

Mas não.  Aqui o que encontramos é um catálogo de estudos sobre sentimentos considerados por nós como ruim. E bem sabemos que reações como inveja, medo e ansiedade, são algumas potências desanimadoras de fato. Mas a premissa deste trabalho é nos mostrar o quanto alguns desses sentimentos nos fazem adquirir força de onde pensávamos não ter, assim como uma visão de mundo menos ingênua. Em outras palavras, existe sim, um lado que pode ser considerado bom em nossas frustrações diárias.
Outro aspecto fundamental á ser ressaltado, é que este também não é o relato de um cético, destinado á nos entediar com seu demasiado resmungo. São textos explicativos, com linguagem simples, que apontam de forma imparcial, as causas e efeitos de cada sentimento proposto.

O único tema que achei um pouco vago foi o “Ciúme”. O autor passa quase todo o conteúdo relatando causas, e só nos últimos parágrafos é que tenta levantar alguns pontos que supostamente seriam positivos aos portadores de tal debilidade. Mas mesmo assim, não achei sua sustentabilidade muito assertiva.
Em resumo, o livro é muito legal. Faz parte de projetos ligados á equipe editorial da revista Superinteressante (fato que atraiu minha atenção para este volume) e acerta por manter um conteúdo quase que didático, com linguagem informal e muitos exemplos de como é possível encontrar pontos positivos, justamente naquilo que nos parece entristecedor.