Logo que comecei a leitura deste livro, tive a impressão de que eu estava entrando numa cansativa jornada de 318 páginas, as quais se piorassem, eu não veria alternativa, senão cometer um ato raro: abandonar a leitura. Sim, este A MULHER COM O LAPTOP começa um pouco enfadonho, daquelas leituras que causam inevitáveis ardências nos olhos. E mais; em momento algum ela decola pra nos fazer querer virar mais uma página e ler mais um pouquinho.
Este é um espaço de reflexão e opinião de um improvável leitor... Ordinário em sua existência, às vezes transgressor em sua análise. Mas como eu disse, é apenas um espaço. E como tal, precisa ser eternamente preenchido...
segunda-feira, 6 de abril de 2015
RESENHA DE LIVROS – A MULHER COM O LAPTOP
Logo que comecei a leitura deste livro, tive a impressão de que eu estava entrando numa cansativa jornada de 318 páginas, as quais se piorassem, eu não veria alternativa, senão cometer um ato raro: abandonar a leitura. Sim, este A MULHER COM O LAPTOP começa um pouco enfadonho, daquelas leituras que causam inevitáveis ardências nos olhos. E mais; em momento algum ela decola pra nos fazer querer virar mais uma página e ler mais um pouquinho.
sábado, 28 de março de 2015
CRÔNICA: SOLIDÃO
Foi proposital a deliberação
por deixar o título deste texto com apenas uma única palavra. Assim desejei,
como numa tentativa débil de fazer com que o próprio termo que designa o estado
de isolamento, soubesse como é se sentir sozinho. Por que eu daria a esse tema
outras palavras mais para lhe fazer companhia, se com este simples ato posso me
vingar de sua ríspida denominação?
Reparações à parte, solidão
não é condição necessariamente ruim. Sei que cada segundo da minha vida se
torna instantaneamente passado, mas é o instante imediato deste presente algo
que só posso notar quando estou só. A solidão me permite tatear a existência;
ela é um espelho que me obriga a olhar para dentro de mim... Apura-me.
Estar sozinho é como provar um
pouco de mim mesmo. É ter a chance de verificar a própria transcendência se
tornando ambiente. Isolado estou quando tenho as conversas mais sinceras comigo.
E constantemente é na quietude singular que nasce em meu ser as mais intrínsecas
inspirações.
Desse modo, penso que existe
em nosso poder a possibilidade de desfrutar de instantes íntimos, desde que nos
disponhamos ao acalento desta condição, a qual todos fogem como se a mesma
fosse um mal aterrador.
Afinal, por que devo temer a
única circunstância que me é garantidora? Estar sozinho é o estado universal, pois
eventualmente esta universalidade se desfaz pela presença de alguém.
Talvez a solidão seja vista
como maléfica justamente porque é ela quem me concede a chance de avaliar o que
há de mais grotesco em mim. E geralmente essa autoanálise aperta pelo pescoço,
sufoca, e me faz aceitar possibilidades impensáveis, como um revólver carregado
ou uma dose de cianureto..., finitudes transformadas em hipóteses sedutoras. O
suicídio certamente é o âmago do solitário quando externado em sua máxima.
Mas se eu falar na solidão na
terceira pessoa, então poderei dizer que não estou mais sozinho. Porque eu e
ela andaremos juntos, como bons comparsas testemunhando nossa imutabilidade. Eu
querendo entender por que ela gosta tanto de rodear-me; ela humildemente
resignada por não ser uma companheira exigente... Do contrário, certamente a
solidão rumaria em busca de alguém que soubesse lhe usar como instrumento de acréscimo
existencial, de maior produtividade. A solidão deve gostar que abusemos de sua
predominância contemplativa, apenas para que fiquemos um pouco mais ao seu
lado.
Mas que manifesto seria esse
que gosta de se fazer perceptível na ausência de qualquer possibilidade de
séquito? Se a vida foi criada do nada, então a solidão deva ser uma espécie de
lacuna no meio do que foi feito...
Se de fato o inferno for mesmo
os outros, como nos propôs Sartre,
então a solidão não é apenas algo a se ansiar, ela seria mais do que isso. A
solidão seria uma redoma que nos abriga de um oceano turbulento e caótico; seria
um útero a nos proteger como se fôssemos o seu feto. A solidão é a
possibilidade de plenitude, enquanto a manifestação de qualquer presença uma
espécie de diminuição do que haveria de melhor em nós...
Aldous
Huxley
sugere que “Se somos todos diferentes, é
fatal que estejamos sós”. Caso sua constatação seja mesmo assertiva, então
a solidão deixaria de ser uma escolha, para nos ter como circunstância..., mas
se Huxley estiver errado, então seria a solidão uma espécie de perda do
humanismo?
Não deixemos que tais
pensadores, talvez meros amantes do isolamento, nos influenciem em demasia,
fazendo com que nos afeiçoemos a essa temerosa condição.
Contudo, muitas vezes me
peguei refletindo sobre minha solidão, e sinceramente em todo o vislumbre não havia
receio. Posso parecer um sujeito amargo, mas sei que vivo cercado, preso num
mundo que tem se mostrado desinteressante e chato; convivo em lugares cheios de
pessoas que não tem nada a acrescentar a ninguém, nem a elas mesmas... Meus
mais cândidos textos se parecem com queixas sobre a complexidade da
convivência; evito pessoas por preferir estar só; sinto cada vez menos vontade
de interagir com a comunidade em que estou inserido, porque dela nada posso
extrair, além de formalismos ideológicos e hábitos superficiais.
Sei que preciso viver em
sociedade, mas venho sentindo cada vez menos vontade de participar ativamente da
tribo. Não acho graça nas coisas que antes ria, não tenho vontade de conversas frívolas,
sinto-me angustiado em ambientes atulhados de gente.
A solidão para mim é uma fuga;
meu ócio necessário.
Não deve ser muito agradável
pensar sobre isso para a maioria das pessoas, mas na minha casa a solidão é
menos dissimulada e quase que ocupa todos os espaços. Em casa ela é anfitriã;
ampla e fácil de notar. Eu a venero quase que com idolatria...
Porque a solidão do meu lar me
segura pela mão, diz de uma vez o que quer, sem cerimônias..., realidade
completamente distinta daquela solidão que permeia o meio social; a solidão que
parece estar presente no ambiente de trabalho, na mesa de bar, no ponto de
ônibus, esta é bem mais circunspecta. Mesmo impregnados de seres humanos, aqueles
que temem a maledicente solidão, estes ambientes devoram as pessoas sem que se
deem conta disso. Diariamente posso ver minha velha companheira nos gestos
automatizados, na troca de palavras banais, no cotidiano customizado pelo consumismo
descerebrado. Mesmo no meio de tantos, somos absurdamente solitários.
Tornamo-nos uma versão robótica,
automatizada, munidos de microchips que se programam conforme a vontade dos
interessados que detém o poder capital. Adestram-nos a temer males inexistentes
e, quando estamos completamente alheios de nós mesmos, então nos colocam um
cabresto doutrinador, que massageia o pânico imaginário... E se porventura sentirmos
o incômodo recorrente da libertação dos males que nos foram inseridos, o
sistema imediatamente invoca seus meios para nos medicar, até que voltemos a
viver dentro da velha rotina programada e infeliz.
A solidão talvez fosse um
mecanismo capaz de nos fazer enxergar todo o esquema doutrinador. Porém, há também
um dispositivo designado a fazer com que nós, meras máquinas obedientes,
sintamos medo de tudo aquilo que poderia nos libertar.
O problema talvez não seja a
solidão em si, mas sim, a maneira pela qual a interpretamos. Deficiente é o
nosso julgamento sobre as coisas que não são dignas de confiança. Porque o
próprio julgamento precisa antes passar por uma espécie de peneira que há em
cada um de nós, moldada pelos conceitos pragmáticos que adquirimos ao longo da
vida... Então passamos a replicar sistematicamente o medo daquilo que desconhecemos.
Por que é tão difícil olhar
para as coisas sem julgamentos conceituais?
quinta-feira, 26 de março de 2015
RESENHA DE LIVRO – A GAROTA QUE EU QUERO
Mesmo detentor de razoável aparência e olhos verdes (sempre tão apontados como algo indispensável na hora de uma boa xavecada), a timidez era algo determinante e que geralmente freava meus planos de interatividade com as garotas, na adolescência. Eu era um desastre na arte da conquista; da boa lábia... Creio que isso era bem ao contrário de meus irmãos, que sempre foram infinitamente mais habilidosos do que eu neste quesito.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
RESENHA DE LIVROS – PRATO SUJO
Enquanto componho esta resenha, aprecio um gelado e delicioso copo de suco de caju... industrializado. Talvez contrassenso maior do que este não exista, pois eu deveria estar me atentando aos cuidados na hora de ingerir algo estritamente feito por uma indústria interessada exclusivamente em conquistar meu paladar, sem se importar com as consequências de suas ações para se chegar á isso. Mas como dizem: o ser humano é o único animal que ingere coisas que fazem mal, sabendo que elas o fazem.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
CRÔNICA: AQUELE SORRISO
Cabisbaixo e contra vontade, eu
marchava rumo ao encontro com a velha rotina semanal de trabalho. Meu impreciso
andar, resignado e lento, como o de alguém que é obrigado a suportar as
toneladas da vida, quase claudicava. E embora meu destino final não fosse assim,
tão trágico, ainda assim, a condução pesarosa e a má vontade eram condições imutáveis
do ser... Nada demais, apenas mais uma triste e viscosa manhã de segunda-feira.
E como de praxe, eu seguia resignado e indisposto.
Nem sempre é assim, geralmente
honro meus compromissos capitalistas com um pouco mais de resiliência. No
entanto, naquela manhã específica eu me encontrava cheio de tédio,
consequências da mesmice torturante de um novo dia útil. Nos ouvidos, os fones
tocavam música alta, como se fossem um apelo desesperado para que a sanidade emergisse
de algum canto interior, porque a familiaridade do som às vezes me segura pela
mão e impede que eu despenque de vez no abismo.
Então eu seguia em frente;
Passos curtos e hesitantes;
É claro que alegria é um
estado inconstante e que raramente se manifesta numa manhã previsível, a qual
sabemos que uma mesa de escritório recheada de desprazeres nos aguarda. Mas este
texto nasceu pelo fato de que, naquela inusitada alvorada, um instante de
acalento se fez e contrastou toda a inópia maledicente.
Sim, foi o capricho ocasional
da vida que colocou em meu caminho uma dama completamente incompatível com a
tristeza incoercível a qual emanava. Era um ser possuidor de andar despojado e
exuberante, que olhava para o mundo lúgubre ao redor como se debochasse dele. Portadora
de autoconfiança invejável, ela vinha em sentido contrário, pareceu olhar dentro
de minha alma pútrida e me presenteou com um sorriso majestoso e impoluto,
capaz de transformar em cores a mais depressiva palidez.
E do fundo do meu inferno e
defronte a tanta confiança e esplendor que gratuitamente me era oferecido, não
me restou alternativa, senão olhar ao redor em busca daquele que seria o
suposto contemplado com tamanha demonstração de afeto, algo que não me achava
digno... E eis que naquele instante, o mundo cruel e ameaçador zombou de meu
ato impulsivo, mostrando que só havia eu no caminho daquele sorriso...
Portanto, a perfeição de todo o encantamento havia, de fato, sido destinado a
mim.
Esperanças diluídas entre
eventos passados e os que estavam por vir se desfizeram de imediato. No lugar
do rancor havia um novo eu, inflado por uma injeção de ânimo, a tentar devolver
o meu mais sincero sorriso, o qual era nitidamente desprezível e um pouco
acanhado, culpa da imprevisibilidade. E antes que aquela bela moça, dona da
mais reluzente alegria, se perdesse de vez de meu campo de visão, perguntei-me
quem seria aquela singela soberana, que com apenas um sorriso que durou não
mais do que alguns poucos segundos, fora capaz de me resgatar do purgatório,
transformando minha segunda-feira triste, num dia suportável e satisfatório.
Jamais recebi incentivo
melhor.
E no meio do calçadão do
centro da cidade, embasbacado com tamanha grandeza afetiva, demonstrada sem
nenhum pudor, eu finalmente senti considerável ganho de potência, que pode
também ser interpretado como alegria; definição de Espinoza, que significa a passagem para um estado mais potente do
próprio ser.
Um sorriso e nada mais...
domingo, 8 de fevereiro de 2015
CONTO: EU QUERIA FICAR RICO!
Sentado na calçada em frente ao
portão de casa, eu refletia sobre as perspectivas da vida. E minhas deliberações
nem um pouco precisas, concluíram que as coisas estariam sendo mais fáceis se
eu fosse detentor de capital financeiro elevado. Então indaguei a mim mesmo,
rindo de óbvia constatação: “como eu não havia pensado nisso antes?”. Sim, eu
era jovem e os sonhos galopavam. E entrei de cabeça no meu mais novo projeto
existencial: ficar rico.
Eu queria ficar rico, e minha
mãe discordou irrefutável, alegando que isso era coisa de gente materialista,
que tendo o suficiente para viver já estaria de bom tamanho;
Eu queria ficar rico, e meus
colegas de escola aproveitaram para me contar seus sonhos também. Pelo menos
aqueles que, assim como eu, tiveram a preocupação de gastar alguns instantes
para pensar sobre o que queriam;
Eu queria ficar rico, e a
professora falou que o caminho para isso era estudar muito. Perguntei a ela se
todos os professores eram ricos, já que deviam estudar bastante. E sem entender
o que havia feito de errado, fui colocado de castigo;
Eu queria ficar rico, mas
dominado pelas lascívias da adolescência, achei que antes disso daria tempo de
arranjar uma namorada;
Eu queria ficar rico, porém,
me disseram que enquanto a sorte não chegasse eu deveria arrumar um emprego;
Eu queria ficar rico, e meu
colega de trabalho fez as contas na cabeça, e por alguma razão, achou melhor
mudar de assunto;
Eu queria ficar rico, e um
sacerdote falou que eu deveria ter desprendimento dos bens mundanos, que
somente a riqueza espiritual era o que realmente importava. Despediu-se após incontestável
lição divina, e foi embora acelerando sua BMW
conversível;
Eu queria ficar rico, mas no
lugar de enriquecer, acabei tendo meu patrimônio subtraído ao ter que dar algumas
moedas de esmola para um morador de rua, apenas pra não me ver consumido pela
culpa;
Eu queria ficar rico, mas
exausto após um longo e estressante dia no trabalho, achei que fosse merecedor
de uma ida ao bar, para tomar umas cervejas com os amigos;
Eu queria ficar rico, e meus
colegas de bar acharam graça! Abraçaram-me e tocamos os copos. Concluímos,
bêbados, que isso era coisa pra gente mesquinha. O que importava mesmo era a
amizade;
Eu queria ficar rico, e minha
namorada me largou para ir à procura de alguém que já o fosse;
Eu queria ficar rico, então
fui consultar as cartas, porque me disseram que o mundo exotérico me daria
respostas. A cartomante se animou com minha visita, disse algumas coisas
incompreensíveis, mas garantiu que se eu fizesse tudo direitinho, conseguiria
alcançar minha obstinada meta;
Eu queria ficar rico, só que o
meu salário do mês mal deu para pagar pelos serviços da cartomante;
Eu queria ficar rico, mas
pensei que apesar de não ter chegado lá, ainda assim era um sujeito de sorte,
pois havia arranjado uma nova namorada;
Eu queria ficar rico, então
fui ler “O Segredo” e “Dez Lições para se Tornar Bem Sucedido”;
Eu queria ficar rico, mas
houve antes uma incompatibilidade, pois minha nova garota tinha o sonho de se
casar;
Eu queria ficar rico, mas ela
tinha outro sonho, que acabou se tornando também o meu sonho. Então tivemos um
lindo filho;
Eu queria ficar rico, enquanto
vivenciava outro domingo tedioso, sentado em frente à tevê, tentando me nutrir daquela
ideia de que a família é a maior de todas as riquezas;
Eu queria ficar rico, e um
misto de ansiedade e desespero me acometeu, na fila da casa lotérica, para refazer
meu jogo da Megasena;
Eu queria ficar rico, enquanto
esbravejava com as páginas do jornal, abertas em meu colo, onde dizia que o
preço da cesta básica voltou a subir;
Eu queria ficar rico, então
tive que trabalhar em dois empregos para conseguir dar conta das despesas com escola,
plano de saúde e moradia familiar;
Eu queria ficar rico, só que
meus devaneios foram interrompidos quando, por acaso, parei em frente ao
espelho e não reconheci aquele rosto começando a enrugar e tantos fios brancos
na cabeça;
Eu queria ficar rico, mas
comecei a desconfiar dessa possibilidade, na fila da previdência, para acertar
os pormenores de minha aposentadoria;
Eu queria ficar rico, e
sentado no banco da praça jogando dominó com um velho amigo, contei sobre este
ingênuo anseio de infância. Ele olhou para mim e disse: “nunca se esqueça de uma coisa, velho amigo: Rico não é aquele que mais
tem, e sim, aquele que menos precisa...”;
Nós rimos de seu comentário
sarcástico... Ele se despediu e disse que precisava ir pra casa porque estava
na hora de seus remédios. Os longos anos manuseando um cabo de enxada
resultaram em hérnias que lhe causavam dores intensas. Antes de ir, virou-se
pra mim e disse, ainda sob os risos zombeteiros, que seu sonho de infância era
ser piloto de avião.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
RESENHA DE LIVROS – AS ESGANADAS
Jô Soares é um homem indiscutivelmente inteligente. Além de entrevistador, é comediante, humorista, dramaturgo e escritor. E esta última ocupação do cara é o que nos interessa aqui. As Esganadas foi minha primeira incursão através de um de seus trabalhos literários. E embora eu jamais houvesse lido nada dele antes, devo confessar que fiquei com certo descontentamento, pois esperava mais de seu livro.
Em resumo, As Esganadas não chega a decepcionar. É um volume literário genial até certo ponto, mas que acabou tropeçando em sua própria impecabilidade, tornando-se um trabalho mediano e esquecível.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
RESENHA DE LIVRO – VOÇÊ E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS
Passar horas vasculhando prateleiras e bancas de livrarias, á procura de um título distinto, é um trabalho semelhante ao de um garimpeiro. E a sensação de encontrar um livro de aparência inexpressiva, porém de valor inestimável, em meio á pilhas e pilhas de amontoados literários com suas capas convidativas, certamente proporciona a mesma sensação de um garimpeiro que exuma sua preciosidade do meio da lama.
Bem, como eu disse no início desta resenha: não seria tão precioso, se fosse fácil achar alguns tesouros literários... Desejo-lhe uma boa leitura, lembrando-lhe de que para chegar á isto é preciso antes ter a paciência e perseverança dos bons caçadores de livros.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
RESENHA DE LIVRO – NÃO NASCEMOS PRONTOS!
Exatamente em concordância com o título da obra aqui resenhada, sou consciente de que não nasci pronto. Por essa razão, ainda não me sinto a altura de resenhar um livro do Filósofo Mario Sergio Cortella. Contudo, escrever tem sido cada vez mais, uma paixão inevitável e diária. E dentro dessa minha diligência amorosa, às vezes eu me permito cometer alguns pecados.
Definitivamente a grande mensagem deixada aqui por Cortella é para com o risco de algo que paira constante em nossa vida: a monotonia. Um estado que nos condiciona a mesmice, a ausência de variação... É sacolejo na alma, para que continuemos buscando exatamente aquilo que o título propõe. Porque precisamente como o autor narra: objetos como sapatos ou geladeiras são coisas que nascem prontas e vão se desfazendo. Enquanto os homens são seres que nascem não pronto e vão se fazendo.
A premissa das crônicas desse volume é a de nos ajudar em algo que parece óbvio, mas muitas vezes, sem que percebamos, ficamos parados no mesmo lugar. Quantas coisas nós deixamos de fazer porque julgamos não termos tempo, porque não é de nosso interesse, ou simplesmente porque não nos diz respeito?
sábado, 27 de dezembro de 2014
CRÔNICA: OBTENÇÃO VERGONHOSA
Immanuel
Kant, grande filósofo alemão do século XVIII, afirmou que: “Tudo aquilo que não puder contar como fez,
não faça. Porque os motivos para não contar, são exatamente as razões para não
fazer”. Infelizmente existem atos na vida dos quais nos faltam maturidade
para evitar, ou quem sabe seja questão de conhecer um pouco melhor aquilo de
que somos capazes? O fato é que este texto será uma espécie de confidência de
um feito que sempre julguei irrevelável; algo que não sinto orgulho, porém, não
me arrependo...
Foi ato no qual jamais o teria
feito se tivesse o discernimento precedente de Kant, ou mesmo melhores
conceitos éticos de convivência. Minha ação não denegriu, empobreceu ou feriu
pessoas diretamente. Mas foi atitude deliberada que existiu unicamente em
proveito do meu anseio individual, em detrimento do restante da comunidade em
que convivo.
Era uma tarde de quinta-feira,
de um inverno incomum e preguiçoso. Eu seguia com minha vida rotineira de
sempre, que se resumia em escola, trabalho e leituras. Apenas uma ideia
permeava a mente e contrastava com a mesmice cotidiana: havia passado os
últimos dias arquitetando o plano que estava prestes a cometer. E precisamente
no meu horário de almoço, saí em busca de minha obtenção vergonhosa...
Meus passos pouco firmes
adentraram a recepção da Biblioteca Municipal de minha cidade. Cumprimentei a
moça do balcão e disse que iria fazer uma das coisas que mais aprecio na vida:
vasculhar com calma a seção de literatura.
– Sinta-se à vontade, Michel –
disse ela, descontraída, quase nem me olhou, habituada que estava com minhas
visitas.
Enquanto caminhava pelos
corredores de enormes prateleiras, senti o suor frio que antecede o ato
ilícito, exalando em meus poros. Fui até a seção de literatura estrangeira,
passeei com os dedos através dos volumes empoeirados, até encontrar o objeto de
meu desejo; um distinto livro, cujo título é “O Beijo”, de uma autora chamada Kathryn
Harrison.
Livro em mãos, eu, no coração
central da moral humana, olhei para os dois lados. Não havia ninguém que
pudesse me flagrar. Olhei para o teto, para os cantos, e nenhuma câmera para me
intimidar. Então levantei a camisa, enfiei o livro por baixo, e saí
apressadamente, em passadas ainda mais irresolutas.
– Ué, Michel... Não vai levar
nenhum hoje? – quis saber a moça da recepção.
– Eu volto noutra hora... Aconteceu
um imprevisto e preciso ir – e assim eu escapei da biblioteca, levando na
cintura, o livro ansiado.
Para eliminar os vestígios que
pudessem me desqualificar como novo dono daquela obra, passei dias tentando, em
vão, apagar os muitos carimbos da biblioteca, espalhados por várias páginas do
livro.
Do agora meu livro...
“Por
que você fez uma coisa dessa?”, foi a intimada que escutei
da primeira pessoa que contei o que havia feito. E seu questionamento me soava justificável.
Afinal, subtrair do patrimônio municipal um objeto que serve para proporcionar
cultura, além de ser propriamente caracterizado como roubo, também pode, por
puro cabimento, levar o rótulo de egoísmo. Porque além da ilicitude em si, hoje
sou possuidor de algo que não tenho a menor pretensão em passar adiante, devolver
ou doar. Em outras palavras, sou a pior das espécies: o acumulador..., detentor
de um conteúdo cultural que não se expandirá.
Porque jamais empresto meus
livros!
Sou um confesso colecionador
de livros. E após este asqueroso episódio, pude, por experiência própria,
concluí que integro a pior categoria de ser humano que existe. Porque colecionadores
roubam a beleza do mundo, subtraem a arte, e as aprisionam para sempre; as
condicionam a um confinamento eterno que ofusca sua preciosidade.
Qualquer objeto de
consagração, quando cai nas mãos de alguém que coleciona, torna-se uma forma
oprimida, objeto sem cor, arte inalcançável, a redução intelectual do mundo...
Colecionadores são seres que
roubam para si toda a beleza cultural. E não raro as exibe como troféus
pessoais, como se o mérito daquela venustidade pudesse ser transferido para si
próprio... Sim, eu sou mais que leitor; sou um colecionador de livros cuja alma
é cinzenta, por isso acumulo títulos em minha estante, numa desesperada
tentativa em reluzir esta mesma alma apagada.
Ah, mas é só um livro, quem
liga para um livro? Você deve estar se perguntando.
Ok, não irei tornar esta
reflexão dissimulada com argumentos que justifiquem meu ato transgressor, pois
eu mesmo já o tenho como injustificável. Mas permita-me pelo menos salientar
que a deliberação pelo roubo, embora não devesse ser algo a se cogitar em
nenhuma hipótese, este foi o último recurso, dado que eu havia feito de tudo
para conseguir aquele título: o busquei em diversas livrarias; procurei pela
internet; conversei com membros de sites de leitura caso alguém tivesse alguma
ideia que pudesse ajudar; vasculhei por alguns Sebos do Estado; cheguei até
mesmo a ligar para a Biblioteca e perguntar se havia alguma forma de obter o livro,
e acabei por receber um sentencioso “Não” como resposta...
Enfim, eu havia tentado de
tudo e, frustrado, acabei por concluir que não haveria um meio de adquiri-lo de
forma honesta. E para um colecionador irrefreável, capaz de atropelar a moral
para alcançar seu objeto de consagração, quanto maior a dificuldade em obtenção,
maior a noção de preciosidade e valor. E alienado à dificuldade em encontrar rara
obra, compreendi a importância de sua posse. Uma raridade que corria imenso
risco de perder-se para sempre; invisível no meio de tantos outros livros populares,
mais procurados e culturalmente mais lidos.
O Beijo, e aqui não faço
nenhuma sinopse, conta a história de uma mulher que teve uma relação de incesto
com o pai. É um tema forte, contado na íntegra pela autora que alegou ser um
caso baseado em sua própria realidade. Tão intenso, que às vezes causa certo
desconforto no leitor. Mas é uma literatura que sustenta requintes de leveza,
de diálogos sutis e profundos, sentimentos explicitados de maneira a tirar todo
o julgamento moral; que desnuda a alma da narradora de dentro das páginas...
Algo que por si tornou a obra uma espécie de bestseller da minha insignificante coleção.
Se serei perdoado por subtrair
objeto do patrimônio cultural da cidade, não sei dizer. Os moralistas
certamente dirão que não. E dentro dessa ideia, posso alegar que sou o maior
desses moralistas. Mas o objetivo desta reflexão não é o de obter redenção
nenhuma, mas esboçar minha sincera confissão de que sempre que olho para a
estante e vejo o livro antiteticamente adquirido, não sinto a menor culpa. Eu o
entendo como uma conquista, preciosidade que apenas eu enxergo...
domingo, 21 de dezembro de 2014
CONTO: ELA E O TÉDIO
E quando me dei conta, estava sentado á mesa da lanchonete do trem em movimento, vendo-me ser circunstanciado pela fineza do acaso, que tão habilmente condicionou-me a um ambiente propício á reflexão. Do lado de fora, uma chuva forte salpicava a janela com pequenos cristais incolores, que escorregavam feito lágrimas pelo vidro.
sábado, 13 de dezembro de 2014
RESENHA DE LIVRO: CLARICE NA CABECEIRA
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
CRÔNICA: PEQUENOS ATOS DELINQUENTES
Uma ação pode ter efeitos contraditórios daquilo que fora pretendido, após sua execução. E isso acontece simplesmente por conta do ineditismo da vida. A ação é ato pensado, mas infelizmente o pensamento é pequeno demais para antecipar determinados efeitos. E embora algumas vezes o resultado alcançado seja exatamente aquilo que fora esperado, seus efeitos podem ser entristecedores.
Sim, minha ação foi bem sucedida. Consegui expulsar a criatura indesejada. Tekila também pareceu satisfeita, pois cessou com seu escândalo horroroso. Mas o resultado (efeito) de minha ação me deixou momentaneamente deprimido, inexpressivo... Coautor de um crime que não tive a intenção de cometer.
sábado, 22 de novembro de 2014
RESENHA DE LIVRO – 10 ANOS DE AVENTURA NA HISTÓRIA – AS REPORTAGENS FUNDAMENTAIS
Meu maior interesse quando adquiri este livro, que como o título deixa explícito, homenageia os dez anos da revista AVENTURA NA HISTÓRIA, da Editora Abril, era a oportunidade de poder ler algumas matérias que foram publicadas antes de meu conhecimento deste excelente veículo de conhecimento histórico.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
RESENHA DE LIVRO – VINGANÇA DA MARÉ
Antes de iniciar a resenha propriamente dita, quero alertar o caro leitor para os perigos ao procurar uma resenha em veiculação online, pois tenho notado que alguns diálogos textuais, que se autodenominam resenhas, estão, na verdade, revelando explicitamente conteúdo indevido. Tenho reparado isso com certa frequência, pois geralmente quando termino de ler um livro, procuro na internet algumas opiniões sobre o mesmo, apenas para verificar como anda a aceitação daquele trabalho, como uma espécie de sondagem de mercado. E no caso deste livro, em três oportunidades de visitas á blogs e afins, eu encontrei gafes que revelam o conteúdo irrevelável da história. Ou seja, tem gente que no lugar de criar resenhas opinativas e instigadoras, acaba criando uma espécie de resumo do livro, o que compromete qualquer possível chance deste nos proporcionar alguma emoção.
Eu reforço: a maior sugestão dada na resenha deste livro, amigo leitor, talvez seja exatamente o fato de que a expectativa pode ser venenosa, se nossa ânsia elevada recair sobre os ombros de um autor que foi brilhante em sua estreia.















