sábado, 20 de fevereiro de 2016

CRÔNICA: INEVITÁVEL EVOLUÇÃO

Em meio a uma desordenada multidão de corpos andantes, eu tentava encontrar o portão de embarque do meu voo, quando de repente, sou abordado por uma voz metálica, cujas doses de estáticas se assemelhavam aos brinquedos eletrônicos que me faziam delirar na infância. Bem no meio do salão principal do Aeroporto Santos Dumont, assustei-me perante inusitada recepção, feita por uma máquina ambulante de mais ou menos um metro e vinte de altura. Era sorridente e, para meu completo desespero, totalmente solícita.

Inteiramente intimidado por aquela coisa – que imaginei se tratar de um totem de atendimento que conseguiu escapar da tomada e saiu perambulando pelo salão do aeroporto, como se entidades sobrenaturais o tivessem possuído – cambaleei tentando desviar de seu caminho. E num gesto tipicamente humano, minha covarde massa corpórea fugiu de sua investida, afinal, modernidades tecnológicas frequentemente me assustam..., e sem cessar os passos, virei-me, dando receosa olhadela no objeto inusitado que, embora não viera em meu encalço, continuava a me saudar com aquele sorriso largo em cores, provindo de uma tela onde se lia: “Posso Ajudar?”.

Se no lugar daquela máquina houvesse um ser humano desempenhando sua tarefa de abordagem, amparado por uma carteira de trabalho e benefícios previdenciários, certamente ele já teria ido se queixar junto ao departamento de RH à cerca da forte rejeição que aquele trabalho proporciona. Talvez até fosse submetido a intensas sessões de terapia, no intuito de se livrar dos constantes traumas sofridos na ingrata profissão.

Mas não era uma pessoa... Era um robô! E alguns minutos depois, já sob a improvável segurança dos bancos de espera, no meu portão de embarque, pude conferir com mais atenção qual era a função daquele frigobar sorridente.

Era um simpático robozinho a passear de um lado para o outro, abordando as pessoas e oferecendo sua tela em forma de rosto, onde uma discreta interface exibia uma série de auxílios e, dessa forma, aliviar dos ombros humanos o tedioso fardo de correr pelas necessidades alheias dos muitos passageiros que por ali transitavam.

Cheguei a pensar que não teria sido ruim se ele se encarregasse de levar minhas malas, mas logo suspeitei de que as tarefas que o intrépido androide oferecia eram escassas demais para dar conta da bagagem dos preguiçosos. Limitava-se a consultas em sua alegre tela dos horários dos próximos voos, um mapa instrutivo para localização dos serviços no interior do recinto, informações sobre transportes coletivos, previsão do tempo e esclarecimentos sobre o funcionamento do aeroporto.

No entanto, mesmo carente de sofisticados recursos, aquele fliperama com rodas, passeando no meio do salão, fez com que eu me sentisse inserido numa realidade insólita de ficção científica, bem ao estilo Isaac Asimov.

Se um singelo robozinho com uma tela limitada de expressão, abordando pessoas sem a necessidade da supervisão humana, já me causou estupefação, o que dizer então do fabuloso Eugene? A primeira máquina na história da inteligência artificial a passar no teste de Turing...

O computador batizado de Eugene foi criado pelos programadores Vladimir Veselov, Eugene Demchenko e Sergey Ulasen. O teste de Turing é constituído por um júri preparado para verificar as habilidades da inteligência artificial. Eugene deveria imitar um adolescente com tal perfeição que os juízes não pudessem perceber que estavam falando com uma máquina. E o próspero Eugene conseguiu convencer nada menos que 33% dos jurados, um feito inédito.

O teste de Turing visa estabelecer um critério que determine o que ou quem pode ser considerado um ser pensante. Basicamente este teste considera que a característica distintiva dos seres humanos é a linguagem, e por isso, o teste sempre se baseou em critérios linguísticos.

Eugene foi capaz de enganar um terço dos jurados de Turing. E embora este seja um número considerado insuficiente por alguns pesquisadores, ele nos prova que estamos no inevitável caminho de uma realidade não muito distante. Um futuro no qual algumas vezes o cinema nos fez ter algum vislumbre com lágrimas nos olhos. E embora meu inusitado encontro com aquela geladeira sorridente tivesse sido menos emocionante do que os personagens criados na telona, eu pude ter uma noção da inevitável evolução... Falo de um futuro não muito distante, que foi belamente retratado num filme de 2013, o qual eu assisti recentemente, intitulado “Ela” (Her – de Spike Jonze).

A trama desta fabulosa comédia dramática gira em torno de Theodore, que inusitadamente se apaixona por seu novo sistema operacional de alta tecnologia – talvez uma espécie de versão definitiva de Eugene – um sistema capaz de compreender o universo à sua volta e se comunicar com seu dono, usando todo um arsenal de anseios, desejos, cacoetes e até mesmo a fragilidade sentimental de um verdadeiro humano.

Confesso que conforme o filme avançava, eu também me via igualmente apaixonado pela doce voz que rouba o coração do personagem vivido pelo ator Joaquin Phoenix. Um trabalho que traz à tona, mesmo que de maneira um pouco contraditória, a complexidade na relação entre homem e inteligência artificial.

Certamente as mentes por trás da indústria desenvolvedora de tecnologia inteligente já notaram o quanto irão encher ainda mais os seus cofres, caso coloquem as mãos em tamanho avanço tecnocientífico, como mostrado neste no citado filme. Porém, tal futuro, temivelmente não muito distante, talvez precise ser analisado com um pouco mais de cautela.

Se as consequências dessa realidade vindoura já podem ser sentidas nos dias atuais, o que diremos em algumas décadas, quando de fato tivermos as nossas malas gentilmente carregadas por um simpático androide, que nos recepcionará com um cumprimento metálico e cordialidade fluente?

Se os nossos atuais celulares e smartphones já são sedutores o suficiente para fazer com que os andantes das grandes cidades percam total atenção à urbanização existente ao redor; aparelhinhos que fazem com que nos comportemos feito altistas tecnológicos, que caminham com suas cabeças baixas, fixadas numa tela que cabe na palma da mão, o que dizer do tempo em que poderemos ter diálogos complexos e profundos, com objetos artificiais que imitam o real no seu comportamento, capazes de nos aproximar do tato com um humanismo jamais alcançado em anos de entrosamento com outros seres humanos... Exatamente como nos provoca o filme citado.

O pobre Theodore teve sua carência e solidão amainada por uma placa de circuitos. E além de não o condenar, reitero que também poderia me ver vitimado pelo mesmo mal, frente a tamanha sedução de uma voz que, mesmo oriunda de um sistema operacional, causa encanto que nos leva à cegueira da sanidade... Ou será que o filme nos faz o retrato de um futuro improvável?

A meu ver, tem sido cada vez mais difícil duvidar da evolução tecnológica.

Imaginem os consultórios terapêuticos do futuro, lotados de gente em busca de ajuda para superar aquele relacionamento terminado de forma trágica com um sistema operacional. “Leve-o na loja de informática do Zé, e mande trocar a placa mãe por outra que seja mais próxima do seu temperamento apegado”, dirá o terapeuta que, aliás, será um circunspecto robô, de feições imparciais e usando jaleco branco.

Tomemos outro exemplo cinematográfico que gosto muito de trazer à tona para pensarmos sobre o que estamos fazendo de nós mesmo, ou melhor, o que a tecnologia está fazendo conosco: o filme de 2008 Wall-e (Wall-e – de Andrew Stanton) nos mostra uma sociedade que passou a viver em colônias espaciais por conta da elevada destruição da Terra. Mas o ponto que quero atentar é quanto ao padrão desta sociedade; pessoas obesas que se locomovem por meio de cadeiras flutuantes, onde uma grande tela fixada bem próxima à face humana atrai 100% da atenção do cadeirante. Neste mundo imaginário da ficção – ou seria visionário? – O ser humano se tornou definitivamente um escravo tecnológico, incapaz de se relacionar com coisas triviais, como vislumbrar os detalhes do lugar em que vive (isso nos é mostrado numa rápida cena em que um humano cai de sua cadeira voadora e, pela primeira vez, se vê encantado com a grandeza ao redor, a qual ele jamais havia reparado).

Notou certa familiaridade com nosso mundo atual, caro leitor? Se sua resposta for não, basta olhar com mais atenção para os ambientes sociais: transporte coletivo, bares noturnos, escolas, e certamente você irá se deparar com uma sociedade literalmente adormecida por uma telinha que cabe na palma da mão. No entanto, se você é incapaz de perceber mesmo isso, talvez seja tarde e você já esteja devidamente inserido nesta sociedade adoecida, que bestialmente fora dominada pela tecnologia.

Outro dia, perguntei a uma moça que subia as escadas do prédio onde trabalho, como ela conseguia subir degraus e digitar no celular ao mesmo tempo. Por breves dois segundos ela desviou a atenção da tela para me dizer que já estava acostumada.

Pois é... Estamos nos acostumando à domesticação tecnológica; a vivermos feito escravos pós-modernos. E o que é pior: a obviedade deste nosso umbroso presente parece ter desabado sobre nossas cabeças.

Talvez o grande problema não seja a chegada dessa tecnologia assustadoramente sedutora, mas sim, a nossa própria alienação. Porque não sei ao certo se sou antiquado demais para este mundo moderno, ou se tem sido cada vez mais comum me deparar com mesas de bares lotadas de pessoas interagindo umas com as outras pelo celular; seres reais que estão perdendo o interesse no mundo físico que lhes rodeiam, para continuar vivendo dentro de uma rede social editável, onde podemos nos vestir de deuses majestosos, felizes e belos, camuflando assim a nossa realidade ordinária e menos atraente.

Estamos enfim, diante de uma assustadora evolução? Pode ser que sim, mas talvez, ela não seja tão desastrosa como nos mostra o imaginário cinematográfico. Contudo, o grande aprendizado que infelizmente ainda nos escapa, é a eficiência de dominarmos as nossas admiráveis máquinas, antes que sejamos dominados por elas..., mas será que ainda há tempo?

Parece que nosso atual encantamento diante dos recursos tecnológicos tem deixado bem claro que já é tarde demais para a humanidade, emburrecida por sua própria criação..., mas agora chega dessa conversa de evolução tecnológica, porque já passou da hora de eu dar uma checada em meus estimulantes e irresistíveis perfis online.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

CONTO: DESPREZÍVEIS MIGALHAS


Eu compreendo todo o meu medo de seguir em frente, porque sei que acabará chegando um momento em que não poderei mais parar. Também temo pela ideia de parar, justamente porque seguir em frente é o que me livra da aflição.

Conceitos contraditórios...

Sempre achei bacana a ideia de poder voltar. O regresso pressupõe humildade e não é sempre que dispendemos desse atributo. Mas talvez por pura covardia de meu ser, eu nunca consegui voltar... No entanto, eu acho que nunca voltei nessa vida, porque de fato, eu nunca fui.

Os arrependimentos estão sempre ao meu lado. Sentam-se comigo no banco da praça e esperam, pacientemente, por alguma solução, respostas... Muitas vezes esta dor toma emprestado um avatar, então ela adquire forma e sua aparência se torna ainda mais angustiante. Nesta tarde cinzenta e onerosa, a dor está vestida de menino. Têm seis anos de idade, a pele branca como a areia que cerca o nosso banco, os cabelos lisos cortados bem curtos, bochechas avermelhadas de ternura, os olhos amendoados que ele coça constantemente, talvez por conta da poeira sem gravidade a respingar em nossa face. Ou pode ser apenas um tique nervoso que antecipa os acontecimentos que estão por vir.

O menino não da muita importância para a minha presença ao seu lado. Prefere observar os pombos, que perambulam sob nossos pés. Um deles estaciona bem em nossa frente. Seu pescoço hiperativo pende de um lado para o outro, questionando-nos à cerca de onde estão as migalhas.

Eu as jogo para ele, que degusta avidamente, usando a ponta do bico para destilar seus modos formais de ave submissa. Passado alguns minutos, eu me dou conta de que não posso estar jogando migalhas, simplesmente porque eu não tenho nenhuma em que esteja pronta a me desfazer... O pobre pombo também não demora a compreender que seu bico só encontra aquilo que eu não joguei.

A realidade é uma brincadeira sarcástica e cruel.

Sei que sou um ser constituído de sobras e farrapos, mas não tenho nem mesmo isso a oferecer. Ou talvez minhas migalhas sejam tão desprezíveis que não sirvam nem mesmo para saciar a fome de um pequeno pombo.

O garotinho se cansa da ave faminta e finalmente olha para mim. Talvez me reprovando por eu não ter feito nada pela fome do pobre animal alado. Condena-me por deixar que a pomba vá à procura de outros bancos onde outros seres talvez tenham migalhas degustáveis.

As minhas são amargas demais para servir de alimento.

– Vamos pra casa agora? – o menino quer saber.

Eu balanço a cabeça negando. Evito o brilho de expectativa em seus olhos.

Desvio o olhar rápido para não ver a dor. Eu sei o que o termo “casa” quer dizer para aquela pequena vida; sei o significado de sua pergunta aflitiva; sei também que a mochila pendurada em suas costas pode responder melhor do que eu àquela pergunta.

Mas inevitavelmente sou traída pelo meu silêncio. Ele é a transparência que eu tento evitar...
Um homem idoso se aproxima de nós. Ele arrasta com certa dificuldade um carrinho pela alça, mas acho que de certa maneira, é o carrinho que o puxa pelas mãos.

– Você quer um picolé? – Pergunto ao menino, quando o velho claudicante para em nossa frente e sugere que a tarde é quente e propícia a uma iguaria gelada.

Dessa vez é o garoto quem balança a cabeça negando. Outra vez eu não me atrevo a olhá-lo por completo. Mas meio de canto, eu vejo que ele está emburrado.

Quer voltar pra casa, eu entendo. Mas como posso levá-lo para um lugar que eu não sei onde fica? Pelo menos nunca encontrei no mundo um lugar onde me sentisse abrigada; um lugar em que eu pudesse chamar de lar.

O velho também se afasta carrancudo. Para ele deve ser inaceitável o fato de que um moleque de seis anos acabara de recusar um de seus deliciosos picolés... No fim das contas, parece que todos nós queremos alguma coisa.

A pomba quer migalhas;
O garotinho quer ir pra casa;
O velho quer que as pessoas consumam;
E eu quero que tudo termine logo...

Foi aqui, neste mesmo banco de praça, de assento desconfortável, áspero e rachado pelo tempo, que fui confrontada por uma das questões mais difíceis que alguém já me fez na vida:

– Por que você sempre se senta neste banco? – Perguntou Lucinda, uma amiga dos tempos de escola. Naquele dia, ela parecia distraída, como se não direcionasse sua questão a mim.

– O que? – eu tentei ganhar tempo. Dizem que responder com outra pergunta denota que não temos resposta e, por isso, tentamos delongar. E eu costumo fazer isso quando sou questionada à cerca de algo sobre mim que nunca parei para refletir – Como assim?

– Ué, sempre que vem nesta praça, você se senta aqui.

– Isso não é verdade – Respondi categórica. O que Lucinda queria dizer com aquilo? Que eu era previsível? Neurótica? Que eu era incapaz de sair da minha regrada rotina?

– Bom, eu sempre vejo você sentada aqui – reforçou ela, convicta.

– É porque eu gosto de me sentar neste banco. Mas se ele não estiver disponível, eu me sento noutro, sem nenhum problema.

Ela não quis combater o meu argumento, mas acho que era porque sabia que eu não conseguiria lhe convencer de nada. Permaneceu sentada ao meu lado, observando uma formiga passear pelo seu braço. Perseguia o inseto que dava voltas em seu cotovelo, como se aquilo fosse ato mais coerente do que minha defesa.

– Era aqui que você se sentava pra dar uns pegas no Edgar; e quando ele te deu um pé na bunda, você veio pra cá e ficou chorando... Sempre que saímos da escola a gente se senta aqui.

– Achei que era você quem escolhia este lugar – Tive que mentir, porque aquelas constatações estavam me deixando nervosa. Era claro que eu já havia me sentado noutros bancos!

– Eu apenas te seguia – completou Lucinda, com ar de indiferença – Mas depois de um tempo, passei a fazer isso no automático, porque entendi que você só fica relaxada quando está neste banco...

Fiquei em silêncio, tentando pensar numa única vez em que eu pudesse ter me sentado em outro lugar... Só consegui me Recordar de uma manhã chuvosa na qual eu insisti em me sentar no mesmo local pelo qual sou acusada de fidelidade, mesmo estando ele molhado e escorregadio. Nas raras vezes em que encontrava alguém aqui, eu me sentia desconfortável, ficava rodando pela praça, feito uma tonta, e acabava indo embora. Acho que até as pessoas que ocasionalmente frequentavam a praça já haviam aprendido que este banco me pertencia. Porque tem sido cada vez mais raro encontrar alguém sentado nele.

A maioria das pessoas evita automaticamente aquilo que foi proclamado por alguém...

E a incapacidade de encontrar justificativa para tamanha obviedade me consumiu por toda a vida.
A complexidade em responder certas questões pressupõe a fragilidade da existência. Talvez este banco velho seja, de fato, o único lugar do mundo onde eu consegui me sentir aconchegada, protegida...

Minha armadura particular.

Mas aquela questão me fez pensar, e do alto de meu amedrontamento, eu procurei justificação. E a cada novo pretexto formulado, uma nova rachadura se fazia em meu concreto quebradiço e frágil. Eu era o meu próprio banco de pedra, o qual eu recusava a aceitar sua majestade ordinária e explícita. Inquietantes e suspeitas eram as minhas conclusões, o que dizer então de meus atos medíocres? De como eu me arrumava toda, sob a alegação de que iria sair para curtir a noite. E no lugar de fazer isso, eu vinha pra cá, me sentar no banco; dos instantes de descontrole porque alguém havia derramado alguma coisa gosmenta no assento e eu tive que ir embora, pensando em voltar com água para lavar o meu minguado pedaço de mundo; dos dias em que eu esperava de longe e em pé, até que os intrusos levantassem e fossem embora, para eu finalmente poder me sentar.

Era estranho pensar no quanto aquele pedaço velho de concreto era presente em minha existência. No quanto eu me encontrava obcecada por isso, e o pior, o quanto as pessoas já haviam notado; comentavam pelas minhas costas...

Eu era a maluca do banco da praça. E talvez temendo que eu os enxotasse ninguém se sentava mais aqui.

Lucinda foi a única que tentou me avisar sobre minha paranoia. Devia ser mesmo uma grande amiga, pois mesmo diante da imensa dificuldade em relatar algo constrangedor, ela foi corajosa e tentou fazê-lo. Focou sua atenção numa formiguinha para fazer parecer que aquela abordagem não era nada demais; que era só uma pergunta sem importância.

Mas o banco da praça era a minha teimosia; o meu hábito pecaminoso...

E outra vez eu estou sentada nele, pois somente aqui sou capaz de resolver questões cruciais de minha desprezível existência. Ou pelo menos, porque eu preciso pensar em como dar algum significado à vida de alguém. E já que eu não sei voltar de nenhum lugar por jamais ter ido, acho que tal ideia acabou se tornando um acalento, porque sou alguém que desconhece o caminho do regresso, e isso me impede de dar espaço ao arrependimento.

O casal que eu aguardo surge ao longe. Adentram timidamente na praça e não precisam procurar por mim, pois sabem em qual banco eu estou sentada.

Os passos dos dois se tornam imprecisos conforme se aproximam. A mulher caminha grudada ao homem; está usando saia longa e blusa de manga curta. Apoia-se com as duas mãos no braço do marido, num gesto que denota toda a sua apreensão. Ele está usando calça social e camisa de manga longa; trajes formais demais para um passeio na praça.

– Estamos no horário – disse o homem, mas eu não soube interpretar se aquilo foi uma pergunta ou se ele está só exaltando sua pontualidade. Sorriu para o garotinho ao meu lado e o cumprimentou, fazendo uma tosca vozinha de criança.

– Nós trouxemos o seu dinheiro – disse a mulher, sem fazer cerimônias. Parece cada vez mais desconfortável. Cada segundo ali, perto de mim, faz aumentar a angústia em seu olhar. Ela teme que eu possa desistir.

– Não, eu não quero mais o dinheiro de vocês.

– Como assim você não quer? – indagou o homem – Nós já havíamos combinado tudo... Quer que aumentemos a oferta?

– Esse dinheiro é sujo. Não é certo receber por uma vida...
– Você vai desistir, não vai? – perguntou a mulher, melindrada. As mãos a apertar cada vez mais o braço do marido.
– Não. Eu não vou voltar atrás... Não sei como fazer isso.

Os olhos dela são duas bolas redondas e brilhantes. Parecem bestificados por testemunhar minhas constatações, ao mesmo tempo em que se sentem aliviados por eu ser louca. Um segundo de lucidez e eu estragaria todos os sonhos de maternidade daquela pobre mulher... Sonhos que foram depositados numa realidade que teme a manifestação da salubridade.

Eu devia mesmo me parecer com uma louca desvairada. Mas contraditoriamente, minha loucura se fez necessária para a felicidade daquele casal.

– Se você quiser podemos fazer um depósito – insistiu o homem, certamente convicto de que importâncias monetárias lhe serviriam como uma espécie de garantia; um seguro contra possíveis arrependimentos – Talvez você não esteja à vontade em pegar o dinheiro assim, dessa maneira.

Assim, dessa maneira... Que maneira ele se referia? Escrota? Vulgar? Canalha?

– Se você me oferecer isso mais uma vez, eu pego o garoto e sumo daqui para sempre!

– Desculpa – ele resolve assumir uma postura submissa, chegou até a baixar a cabeça... Mas eu sei que toda essa encenação é só pra me humilhar; pra fazer transparecer o lixo de ser humano que eu sou; que ele jamais seria alguém capaz de fazer o que eu estou fazendo; seu gesto é pra mostrar o quanto ele se considera melhor do que eu – Por favor, me desculpa. Eu só achei que você estivesse desconfort...

– Já terminamos o que viemos fazer aqui! – ignoro seu apelo e ergo a voz, talvez sejam resquícios do orgulho que ainda me resta. Concentro meu foco nos olhos daquela vindoura mãe, para que ela entenda o que está acontecendo.

Corajosamente, ela permanece firme, encarando-me. Parece conseguir ler tudo o que meu silêncio quer lhe dizer. E seus olhos me retornam respostas que me ajudam a concluir com o ato final:

Sei que o que está fazendo não é culpa sua... Pelo menos, não é somente culpa sua. Sei que mulher é sinônimo de dor. Sei que o fardo sempre fica por nossa conta... Deixe-me te ajudar a carregar este fardo. Prometo que darei a ele tudo o que você tentou e não conseguiu, mas sempre o lembrarei de sua enorme coragem”.

O casal foi embora, levando aquela pequena vida no colo. O pai lhe retirou a mochila para aliviar o peso de suas costas, enquanto a mãe o envolvia em seus braços com terna firmeza... Ninguém olhou para trás e isso é um bom final.

Ao meu entendimento, significa que agora eles são uma família que seguirá sempre em frente. Mesmo quando o adiante não lhes parecer tão nítido.

Por que eu sempre me sento aqui neste banco?

Dizem que cada um tem da vida aquilo que merece. Talvez eu não mereça mais do que um banquinho trincado e velho, cuja estrutura desgastada assemelha-se ao meu coração...

Um lugar cimentado, feio e endurecido.

sábado, 16 de janeiro de 2016

RESENHA DE LIVRO: O ANDAR DO BÊBADO


Durante os dias em que eu estava afundado na leitura deste fabuloso livro, um colega de trabalho, ao vê-lo sobre minha mesa, olhou-me com certo sarcasmo e garantiu, com base no título metafórico da obra, que eu estava a ler o livro certo pra mim.

De fato, meu estimado colega tinha razão. Mas não pela intenção de seu maldoso comentário, pressupondo que eu precisava ler livros relacionados aos desequilíbrios etílicos. Ele acertou, porque eu aprecio ler trabalhos que trazem à tona, a ideia de que não existe no mundo fórmula generalizada de se obter sucesso. No caso deste livro, o autor vai esmiuçar à cerca do quanto a aleatoriedade é ampla e inevitável na vida daqueles que conseguiram chegar ao auge do sucesso, assim como é crucial na triste realidade dos que sempre estiveram afundados na lama pegajosa do fracasso.

Portanto, O Andar do Bêbado, nada mais é do que uma alegoria que descreve o movimento aleatório; uma expressão popular que serve para nos ajudar a compreender os acontecimentos da vida diária.

O combustível que impulsiona o autor, Leonard Mlodinow, é justamente ir à busca dos princípios que governam o acaso, do desenvolvimento dessas ideias e da maneira pela qual elas atuam em nossa existência. Mlodinow também busca compreender porque o modo como tomamos algumas decisões, podem nos levar a julgamentos equivocados e resultados ruins frente ao determinismo da aleatoriedade.

Com competência elevada diante de um assunto que facilmente nos escapa, o autor consegue nos mostrar o papel do acaso no mundo em que vivemos e nos revela de que modo podemos reconhecer tal atuação nas questões de nosso dia-dia. Nesta obra, poderemos transitar através da crítica em relação à doutrina do determinismo, que pressupõe que nossas qualidades pessoais e propriedades de situações, levam direta e inequivocamente a consequências precisas. Passamos também pelo fenômeno conhecido como Efeito Borboleta, baseado na ordinária ideia de que o bater de asas de uma borboleta, poderia ter grandes efeitos nos subsequentes padrões atmosféricos.

Atenta-nos para os perigos de se crer que os erros do passado devem ser consequências da ignorância ou da incompetência. Acreditamos, irracionalmente, que pessoas ricas e de sucesso são heróis, enquanto pobres e fracassados não passam de bodes expiatórios. Temos o pragmático conceito de que o brilhantismo de algumas pessoas é proporcional a seus ganhos substanciais. Deixamos que nosso minguado discernimento não enxergue o potencial individual, somente o resultado final em si.

E fechando o enriquecido conteúdo da obra, temos o último capítulo, cujo título é o mesmo do livro e que para mim foi a melhor e mais motivadora parte da leitura. Aconselha-nos a nunca desistir de algum projeto, baseado no julgamento dos outros, que o melhor a se fazer é acreditar em nós mesmos. O autor recomenda que sigamos em frente, pois a grande sacada é que, como o acaso efetivamente participa do cotidiano, um dos mais importantes fatores que determinam o sucesso está sob o nosso controle: “o número de vezes que nos arriscamos, ou seja, o número de oportunidades que aproveitamos”.

Reconhecer que eventos aleatórios são contributivos ao nosso destino é, além de uma realidade efetivamente motivadora, também nos ajuda a perceber o quanto estamos em iguais condições com aqueles que já estão alguns degraus em nossa frente.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CONTO: O NOME DELA


Deitada em meu peito, eu notava seu rosto subir e descer levemente ritmado por minha respiração lenta. Ela olhava atentamente para a foto que eu havia lhe mostrado; um garotinho assustado, as canelas à mostra parecendo dois palitos, em cima de uma bicicleta.

– Você era feio – comentou ela, entre o que imaginei ser uma mistura de sorriso e comedimento.

O quarto era um templo silencioso e isso fazia com que a voz dela enchesse o ambiente. Paredes brancas, manchadas pelo tempo, eram espectadoras de frases curtas e desenvoltas. Às vezes, as cortinas balançavam anunciando a entrada de uma brisa leve que gostava de passear pelo recinto, para surrupiar aquelas palavras soltas no ar e as levar para longe de mim, deixando restar apenas a incômoda quietude.

– Me fala o seu nome – pedi, enquanto acariciava a maciez dos seus cabelos.

Ela não respondeu nada. Apenas ficava olhando para a foto de minha infância, como se sua mente estivesse emersa, tentando desvendar aquele instante congelado que lhe era desconhecido.

De repente, ela sorriu para a foto de um jeito meio diferente de poucos instantes atrás. Quase deu para ter um vislumbre do filme que se passava em sua cabeça. Agora eu era agraciado pela imagem de seus dentes surgindo por detrás dos lábios esticados, abertos até quase os molares. Seu dedo indicador tocou levemente no papel fosco, fazendo uma leve carícia na bicicleta do garoto.

Naquele momento, eu senti inveja de mim mesmo. Queria voltar no tempo e ser de novo aquele moleque feio e magricela. Porque embora toda fragilidade estivesse exposta, a singeleza daquele menino era completamente capaz de raptar para si toda a atenção daquela dama. Conseguira fazer com que ela sorrisse de um jeito que eu jamais conseguirei.

– Nunca soube andar de bicicleta – confessou ela, o olhar desmanchado em anseios.

– Ainda há tempo... Eu posso te ensinar se quiser.

– Não quero mais – ela ergueu o tronco e sentou na beirada. Deu uma última olhada para o passado irrecuperável em sua mão, depois para os arranhões em meu peito, apertando os lábios – Tenho vergonha.

Tive vontade de insistir e dizer que era possível recuperar coisas que se perderam, mas havia algo que eu julgava mais precioso. Aulas de bicicletas serviriam apenas como uma boa razão para nos reencontrarmos. No entanto, eu ainda precisava arrancar o essencial dela. E não sabia direito como fazer...

– Posso ficar com essa foto pra mim? – ela ergueu o olhar até encontrar o meu. Eram olhos redondos e grandes. Um castanho tão profundo que eu pensei que fosse me perder para sempre. Minha coragem pífia fixada em suas esferas brilhantes até eu ser engolido em questão de segundos... A alma, antes equilibrada e soberba, havia sido totalmente subjugada dentro de seu precipício de ternura.

Uma vez eu li num livro velho que uma alma nunca se perde, ela sabe parar na hora certa, na beira do abismo, e deixar apenas que o corpo caia sozinho, para que um dia ele retorne mais forte e impávido. Como uma fênix que nasce das próprias cinzas... E embora livros velhos sustentem a premissa de parecerem detentores de incontestável sabedoria, acho que o abismo tem esse nome porque ele nos engole em definitivo;

Abismo é sinônimo de queda infindável;

Parado na beira do despenhadeiro, eu desafiei os olhos castanhos com toda a minha desprezível audácia:

– Eu troco a foto pelo seu nome – propus um acordo que considerei razoável. Pelo menos, foi o que tentei transparecer. Porque dentro de mim, eu sabia que aquele nome me era precioso e valeria muito mais do que um retrato de minha infância banal.

No entanto, minha dama se levantou e andou em direção ao banheiro. Sua silhueta nua era fabulosa; seu andar ereto e gracioso... Um corpo que se deixava ser violado para só então violar. Eu me perguntava quanto outros homens haviam sucumbido aos encantos daquele inebriante pecado. Quantos como eu, quiseram arrancar coisas dela, como algozes gananciosos, porém, reconhecidamente fracos e incapazes frente à tentação de sua carne curva e envolvente. Eu não havia sido o primeiro e certamente não era o único, mas queria ser o último a explorar sua sublime caverna; queria tê-la só para mim, sem nenhum pudor, deixando-me perecer às mais impensadas loucuras.

A verdadeira insanidade é reconhecer o veneno e, mesmo assim, desejá-lo em toda sua sedução.

Mas para me perder definitivamente eu precisava da chave do castelo... Eu necessitava de um nome. Mesmo sabendo que tê-lo seria a minha definitiva e total ruína.

Quando ela saiu do banheiro, com o corpo escondido numa toalha, notei que seus ombros à mostra ainda estavam molhados. Ela andou pelo quarto, verificou alguma coisa no telefone, abriu o frigobar... Ouço o estalo da lata de cerveja sendo aberta, enquanto um medo inesperado vem até meu ouvido e sussurra palavras ardilosas.

E recostado na cabeceira da cama, eu sou intimidado pelo receio e me torno pequeno, até ser seguro pelo pescoço e ter o ar escasseado. Eu sabia que tinha hoje e somente hoje para arrancar o nome dela. Precisava daquilo porque isso daria aos nossos encontros um significado, uma existência. Seria como lhe tornar parte de minha realidade; deixaríamos de ser subjetivos para mergulharmos na objetividade segura e acalentadora.

Sem o seu nome eu não poderia contar o que sinto; não poderia falar dela para os amigos no bar; não poderia relatar para ela como foi o meu dia após voltar do trabalho; não massagearia seus delicados dedos com minhas mãos grossas, enquanto me deixava cair novamente no precipício castanho... A falta daquele nome a isentava de uma identidade e eu não gostava da ideia de amar um fantasma.

– Tem um cara tocando violão perto da piscina – disse ela, entre um gole da cerveja, enquanto admirava o mundo lá fora, recostada na janela.

Levante-se e vá até lá, seu covarde!

Mas não adiantava exigir à minha frágil existência que fizesse algo. Eu estava sendo enforcado literalmente pelo medo e falar já não era mais uma opção. Toquei em meu pescoço, num ato desesperado de encontrar as garras maléficas do pânico a me estrangular. Com extrema dificuldade consegui me livrar do aperto que certamente me levaria à desfalecer. O ar voltou a invadir o meu peito, eu transpirava bicas, o coração acelerado bombeando angústia através da corrente.

Ela continuava a olhar pra fora e não notou a minha intensa luta em cima da cama.

Tomado por uma coragem inusitada, talvez oriunda de minha recente bravura em superar o que me parecia invencível, eu me levantei e fui até o encontro dela. Abracei-a por trás e apertei sua cintura contra o meu corpo.

Lambi seus ombros molhados e subi com a boca até o pescoço e o beijei avidamente. Senti seus pelos eriçarem. Como ela não me dava nenhuma resposta, eu a segurei forte pelo braço e a virei, até ficar de frente para mim.

– Você sabe que eu não posso – concluiu ela, antecipando minha insistência.

– Eu só quero saber o seu nome... Isso não é um pedido de casamento.

– Por que temos que fazer deste, um encontro igual a todos os outros? – seus lábios a poucos centímetros do meu – Sem nossos nomes podemos ser quem nós quisermos.

– Eu não quero ser um a cada dia; não quero ser nenhum dos outros... Quero ser eu! Exclusivamente para você. E quero que você seja minha.

– E quem disse que você é o seu nome? Isso é apenas uma definição que te deram; uma marca social para que suas transgressões pudessem ser identificadas com mais facilidade – Ela me beijou levemente. Seus lábios humedeceram saliva e cevada em minha boca – Tudo o que fazemos em nossas vidas é encher os nossos nomes com a podridão que acumulamos ao longo dela – Ela falava com sua boca dentro da minha.

Então, lábios foram separados;

Meus olhos procuraram o teto;

Os dela procuravam encontrar minha aprovação em algum canto do quarto.

Sempre que um argumento vem em forma de justificativa, há por trás dele uma ruptura; uma divisão que nos deixa mais distantes daquilo que seria a obtenção do objeto desejado. Por três dias daquele inesquecível carnaval havíamos compartilhado praticamente tudo; nossa solidão, os abraços, os beijos, os lençóis do hotel, os cigarros, a mesa do café, os delirantes orgasmos... E de repente, ela não parecia mais disposta a repartir nem mesmo a lata de cerveja que estava bebendo. O que dizer então de dividir seu nome comigo?

Sim, eu havia passado aqueles três dias implorando por ele.

As pessoas olhavam para nós e viam um casal de namorados vivendo o apogeu da paixão. Sempre de mãos dadas, beijos ardentes e demorados, risos soltos e fáceis, proximidade quase ininterrupta...

E ao fim do terceiro dia, a recusa definitiva da identidade sob a bandeira do ineditismo que parecia lhe excitar, enquanto minava as minhas esperanças.

– Sabe o que acontece? – ela já estava enfiada em seu vestido de estampas leve de carnaval. Calçou as sandálias e chacoalhou os cabelos molhados com as mãos, num gesto que anunciava que ela iria escapar urgentemente, sem nem escová-los – Eu sei que você é como todos os outros; não quer uma namorada... Homens não gostam de carteira assinada.

Sua beleza era magnífica pela simplicidade.

Ela veio até mim e beijou meus lábios cerrados.

– O que você quer é que este feriado dure para sempre... Mas isso eu não posso lhe dar.

As palavras ficaram soltas novamente no ar, mas desta vez, não havia nenhuma brisa para apará-las. Ou talvez o vento entendesse que era a minha vez de fazer isso.

Minha dama sem nome escorregou pelos meus dedos e saiu pela porta.

Sobre a cama restara um garotinho derramado e perdido. Sendo observado por outro garotinho, que sentado em sua bicicleta, contemplava a maravilha do milagre de um passado transformado de volta em presente... Uma timidez muda e isolada, que teve a doce ilusão de que seria digna de obter um nome para si.

sábado, 5 de dezembro de 2015

RESENHA DE LIVRO – OS ESPIÕES


Ver o nome de Luiz Fernando Verissimo estampado no alto da capa de um livro já é motivo mais do que suficiente para que eu o retire da prateleira sem precisar ler a sinopse. No entanto, este leitor apaixonado precisa confessar que Verissimo funciona muito melhor como cronista.

De qualquer forma, estamos falando de um gênio da literatura brasileira, e nesta obra intitulada OS ESPIÕES, é possível encontrar algumas referências que são marcas do autor; propriedades que transformam suas crônicas em textos divertidos, instigantes e atraentes.

A trama nos mostra o dia-dia de um escritor frustrado que trabalha como olheiro numa pequena editora, cujo serviço consiste em analisar e quase sempre rechaçar originais que lhe chegam aos montes. Mesclando à vida profissional do personagem ainda existe sua vida familiar, que não ajuda muito. Portanto, basicamente nosso herói passa seus dias contando as horas para a chegada da sexta-feira, quando afoga as mágoas bebendo até perder a consciência.

Mas tudo muda quando ele recebe um envelope branco detendo dados manuscritos em mãos trêmulas, onde seu conteúdo sustenta parte do que lhe parece ser um instigante roteiro, intitulado apenas como “Ariadne”. No original, a tal Ariadne descreve uma vida conflituosa com um marido que mais se parece com um mafioso. Um bilhete faz indicativo de que se trata da primeira parte de uma autobiografia, que o autor prefere interpretar como a confissão de uma suicida em potencial, a qual dará cabo de sua vida no último capítulo.

Obcecado pelo original que vai chegando em fragmentos a editora, nosso personagem reúne uma destemida equipe – os espiões do título – para investigar o que se passa em Frondosa, cidade onde sua musa Ariadne vive.

A grande sacada de Veríssimo é que temos uma trama de espionagem, só que segue irreverentemente cheia de deliciosas situações hilárias, contradições, disfarces mal sucedidos e trapalhadas. É como se o objetivo deixasse de ser a edição propriamente do livro de Ariadne, passando para um tipo de ato heroico, onde a meta é salvar a pobre e indefesa dama do despotismo que acomete sua vida.

Contudo, mesmo tendo por trás o impecável toque de Midas de Luiz Fernando Veríssimo, a história acaba por se tornar um tanto ordinária. A evolução do texto segue bem água com açúcar, tendo como amparo apenas as situações cômicas, que vez ou outra consegue atrair nossa atenção.

Talvez eu tenha me deixado levar por uma alta expectativa, já que sou admirador do trabalho deste autor, quando atuando como cronista, o que me fez concluir que este livro esteja bem abaixo de seus demais trabalhos. O término da leitura me deixou com uma sensação de que ficou faltando algo...

Mas ainda assim é uma leitura recomendável, pois Veríssimo sabe criar personagens divertidos como ninguém, e consegue manter a história quase sempre num clima despretensioso, simpático e recreativo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

CONTO: ORDINÁRIA LOUCURA


Certa feita, um psiquiatra levou para uma de suas consultas um catálogo contendo dezenas de imagens dos trabalhos feitos por Pablo Picasso. Ele entregou o montante nas mãos de um paciente e ficou a observar atentamente qual seria sua reação.

Cuidadosamente o louco olhou para cada uma das imagens, chegando até mesmo a sorrir diante de algumas delas. E em determinado instante, ele ergueu os olhos, encarou o médico e perguntou:

– A pessoa que fez estes desenhos está internada em qual hospício?

– Ele não está internado em lugar nenhum – respondeu o médico, achando curiosa aquela indagação.

– Não precisa tentar esconder isso de mim, doutor – insistiu o louco – Pode me dizer onde ele está internado.

– Já disse. Este homem não é paciente de hospício algum... Mas por que você achou que ele estivesse internado?

O louco sorriu e voltou a encarar as imagens sobre a mesa. Então falou:

– Estranho... Porque é exatamente assim que eu vejo o mundo.

sábado, 21 de novembro de 2015

RESENHA DE LIVRO: O DIÁRIO DE SIBYL DANFORTH, PARTEIRA


Não raro os livros nos permitem viajar através de mundos que, embora aparentemente perto de nossa existência, nos escapam de entendimento e interesse. Partos normais realizados em casa tem sido uma realidade cada vez menos presente neste atual mundo sistêmico e desinformado, onde a oportunidade de discernimento é arrancada da sociedade, restando-nos apenas deliberar por caminhos oferecidos por planos de saúde mafiosos, que nos empurram goela abaixo a direção do que temos que fazer como se fôssemos incapazes de pensar por nós mesmos.

E em vez de a medicina trabalhar em busca do aperfeiçoamento dos partos normais, sejam em hospitais ou no conforto do lar, o foco das pesquisas toma como meta a precisão e rapidez dos partos cesarianos; método artificial que avilta e desacelera o processo de recuperação da mãe.

Este belo livro intitulado O DIÁRIO DE SIBYL DANFORTH – PARTEIRA, embora seja um trabalho de ficção, trás à tona esse tema: a contradição e rejeição social dos trabalhos de partos em casa.

Chris Bohjalian se empenhou arduamente em pesquisas e mergulhou a fundo no mundo das parteiras, deixando sua obra recheada de conteúdo que nos ajuda a compreender um pouco melhor essa cabível, porém obscura, ideia dos partos em casa. O autor esmiúça o mundo das parteiras e nos entrega uma eficiente trama, que mescla em doses precisas, a realidade das parteiras dentro de uma história bem elaborada.

E por falar em trama, esta se passa na comunidade rural de Reddington, Vermont, num rigoroso inverno de 1981. A parteira que dá nome ao título da obra precisa tomar uma decisão rápida para salvar um bebê, submetido aos seus cuidados. Uma decisão que mudará a vida desta mulher para sempre.

No meio deste complicado parto, Sibyl percebe que a mãe sofre morte cerebral e ela não vê alternativa, senão fazer uma cesariana improvisada para salvar o bebê. No fim das contas, Sibyl acaba sendo acusada de homicídio, quando o Estado lança a hipótese de que ela fez a cesariana enquanto a mãe ainda estava viva.

O desenvolver da trama é narrado por Connie, filha de Sibyl Danforth, uma médica obstetra, que relembra o tempo em que a liberdade de sua mãe e a estrutura familiar esteve nas mãos de doze pessoas do júri popular. Aliás, as narrativas durante o julgamento são ótimas, com diálogos fortes e pesadas investidas, tanto da defesa quanto da acusação.

Os capítulos são entremeados por trechos interessantes do diário de Sibyl, que nos ajuda a entender o que se passou naquela trágica noite em que o parto fatídico aconteceu, assim como nos coloca mais próximo das angústias da autora, que embora se mostre uma parteira experiente, expõe todo o seu lado humano e frágil nas páginas de seu diário pessoal.

Um excelente entretenimento, que vai agradar a leitores que curtem histórias de tribunais, assim como também é um convite a uma reflexão mais de perto, sobre esse escapadiço universo das parteiras.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

CRÔNICA: O FIAT BRANCO

Sentado à mesa de uma lanchonete perto de casa, vejo minha visão abrangente das frivolidades de uma tarde de sábado serem bruscamente bloqueadas pela repentina presença de um carro branco, que parou bem diante da calçada onde me encontrava. Era um modelo da FIAT, não muito novo, mas se encontrava limpo e possuía uma aparência relativamente conservada.

O motorista abriu a porta e saiu de sua caixa de metal ambulante, altivo, como se fosse um genuíno membro da nobreza, recém-chegado do século XV e que acaba de descer de seu coche. Constatei certa semelhança nos traços de seu rosto quando, ao passar por mim, fez um leve aceno digno da realeza. Foi em direção ao balcão do bar e pediu uma Coca-Cola. Após efetuar o devido pagamento – que ele deve ter achado ultrajante o fato de um lorde ter que pagar por sua bebida – voltou para a fachada do estabelecimento, onde eu me encontrava visivelmente abrandecido, pois em instantes, me veria livre daquela parede de lata ordinária e intrometida.

Acontece que sempre que vou aos meus barzinhos prediletos, gosto de me sentar nas mesas que são colocadas em frente à calçada, o que permite um despretensioso testemunho da vizinhança. Porque se for para beber do lado de dentro do bar, cercado por paredes fóbicas que impossibilitam meu senso de ociosidade, então eu prefiro beber no conforto de casa.

Mas para a infelicidade total deste que vos escreve, o orgulhoso proprietário do FIAT branco resolveu apreciar sua Coca-Cola, sentando-se precisamente em uma mesa ao meu lado. Logo notei seu olhar de admiração e orgulho para com o seu antiquado artefato de locomoção, que certamente devia lhe conferir ganho de autoestima.

Inevitavelmente, iniciei um embate interior com meu próprio ser, que pesava os prós e os contras de continuar ali, sentado, tendo como única possibilidade de contemplação a lataria rudimentar daquele veículo, estacionado indevidamente – ou quem sabe propositalmente – para o meu minguado deleite.

Se eu fosse embora, estaria livre do FIAT branco em toda sua intromissão, e só isso já valeria à pena o esforço. Poderia levar umas cervejas pra casa e, no conforto do lar, eu ainda teria o privilégio de poder escolher uma boa música. No entanto, eu me veria outra vez confinado, acuado, escondido dos inéditos encontros com o mundo do lado de fora do meu portão, que embora sejam frustrantes em sua maioria, exatamente como estava sendo o encontro inesperado com o FIAT branco, algumas vezes nos fazem escapar do tédio. Também é válido salientar que a cerveja estupidamente gelada colaborava com minha impossibilidade de fuga. E a cada novo gole que eu dava, mais o meu corpo parecia acometer-se por uma redoma de amparo, a me abrigar do incessante calor.

Com o termômetro intuitivo batendo na extremidade do “seja forte e fique no bar mais um pouco, porque o malquisto já deve estar de saída. Afinal, os bebedores de Coca-Cola não costumam demorar em bares”, uma fagulha de otimismo mental fez seu trabalho de recordar a expectativa de que a vida algumas vezes nos surpreende com encontros alegradores... Contudo, eu admito que perseverar pelos raros embates prazerosos é ato de gente obstinada e insistente para além do que jamais conseguirei ser. E no meu caso, o resultado desse tipo de pensamento acaba surtindo efeito contrário de sua pretensão, e eu acabo sustentando o bordão de que nada é tão ruim que não possa piorar.

Cautelosamente olhei para o lado e vi que o dono do detestável veículo estava a me devolver o fitar, agora com um sorriso largo e ufano.

Não tardou a puxar conversa, afinal, não havia mais ninguém por perto para ele importunar. Minha insignificante presença deve ter lhe servido de consolo, porque quando se há apenas uma única opção, o carecido se torna menos exigente. E como de praxe, iniciou suas tolices verbais nos atentando para o tempo. Afinal, era uma tarde de calor evidente demais para ser desprezada por uma forçosa conversa de bar.

Quanto a mim, apenas lhe dei respostas em total conformidade com suas abordagens esquecíveis, tentando dispor do máximo que minha já abalada paciência permitia. Pois eis que em meio aos comentários sobre o calor escaldante, o sujeito resolveu conduzir nossa enfadonha prosa ao rumo de seu desígnio:

– Sabe de uma coisa: deve fazer até mal sair nesse calor assim, depois de sair de dentro do ar frio do meu carro.

Tem toda razão! Então por que você não volta pra lá e se protege de uma possível insolação, ao mesmo tempo evita que meus ouvidos sejam bombardeados por suas imbecilidades orais? – por muito pouco e eu o teria dado essa resposta, mas minha polidez irritante acaba sempre por me vencer. E no lugar de repelir o indesejável, apenas concordei.

– Pois é... – respondi, em suspiro profundo, já pensando em tirar o celular do bolso e fingir atender alguma ligação.

– Comprei esse carro esta semana, sabe... – continuou ele, com o peito estufado, feito um pardal no poleiro, na esperança de arrancar de mim algum reconhecimento por sua obtenção material – Achei que nestes tempos de crise seria melhor pagar à vista. Nunca se sabe, né?

– Pois é... – Eu era um oceano de melancolia. Mas então, fui acometido por um sentimento típico dos derrotados: se não dá pra expurgar o calo, melhor que ficar parado é continuar caminhando com ele no pé. Elaborei uma piada, fazendo uso de uma frase que havia no para-brisa traseiro do FIAT branco.

– Você comprou mesmo esse carro, ou foi Deus quem lhe deu?

Ele soltou um risinho que me fez lembrar uma hiena abatendo a carniça. Exibiu uma comissão de frente dentária tão amarela quanto a camisa da nossa Seleção. Olhou para a frase no vidro e pareceu ter gostado da sugestão que joguei.

– Claro, claro! Você está certo... Foi mesmo Deus quem me deu – assentiu ele, do alto de sua religiosidade apalermada.

– Melhor dizendo, quem está certo é a frase no vidro, né.

Mais risadas. Pensei que seria melhor não o deixar tão à vontade, ou ele poderia acabar pedindo outra Coca-Cola.

– Então você acredita mesmo que Deus lhe concedeu um automóvel como forma de benção? – fiquei a me perguntar como eram as dádivas antes da invenção da roda ou do motor.

– Com certeza! Deus tem provido maravilhas em minha vida!

– Muito bem... – Pela primeira vez, virei-me pra ele, fingindo interesse – Nesse caso, deixe-me ver se compreendi direito essa lógica: está me dizendo que Deus lhe conferiu um bem material que indiretamente contribui com a devastação dos recursos naturais que estão cada vez mais escassos? – deixei que ele pensasse alguns segundos sobre a pergunta – Isso significa que o seu Deus é totalmente conivente com o aumento da emissão de CO2 na atmosfera, o que tem sido causa deste catastrófico calor que estamos enfrentando neste exato momento... – notei que ele se remexia na cadeira, desconfortável – Seu Deus lhe abençoou com objeto que melhor simboliza o sistema capitalista vigente, maior causador de desigualdade social, enquanto nega alimento básico para grande parcela da população? – outra pequena pausa para ele respirar – O Altíssimo conferiu um bem que está lhe dando a ilusão de status social, algo que visivelmente atiça sua soberba, e que aumentará a distância entre você e esse mesmo criador..., é isso o que está me dizendo?

Eu não havia me dado conta, mas o FIAT branco deveria estar me incomodando mais do que havia imaginado, pois fui capaz de proferir aquela breve impugnação sem ao menos gaguejar... E como já esperava, não houve nenhuma resposta imediata, além de uma parcimoniosa exclamação bovina:

– Hmmmm...

Embora minhas indagações sustentassem requintes de crueldades, eu não tinha a intenção de parecer um ateu fundamentalista que tenta humilhar a doutrina dos outros. De fato, o meu verdadeiro objetivo era cessar com o explícito envaidecimento orquestrado por aquele idiota, que então resolveu que havia se tornado alguém acima dos demais com quem convive neste mundinho de perdedores, e agora era digno de ostentar suas desprezíveis aquisições superficiais.

E para brindar a espiritualidade daquela gloriosa tarde de calor, ele não me deixou sem resposta, embora tenha sido um tanto evasivo:

– Vou lhe contar uma coisa sobre o nosso pai que está no céu... – antes, foi até a lixeira, na base do balcão, e jogou a lata vazia fora. Apesar de tudo, ele era mesmo asseado. Então retornou para concluir com sua majestosa teoria – Deus é um ser justo, misericordioso e que nos recompensa na hora certa. O pai sempre é generoso com seus filhos mais fiéis e concede de acordo com o merecimento de cada um.

E tentou validar sua teoria, lançando-me um olhar intimista.

– Mas se este seu Deus meritocrático resolver dar um carro para cada um de seus cerca de seis bilhões de filhos, atuais viventes deste plano, eu acho que não vai ter recursos naturais no planeta para atender a toda essa demanda – achei essa bem fácil de replicar.

– Eu sei... Mas Deus atende somente aos justos, os que foram bons e seguem fielmente a sua palavra.

– O que nos leva à conclusão de que você é parte desse seleto grupo de filhos prendados que está fazendo exatamente a coisa certa, não é mesmo?

– É claro... Contribuo com o dízimo e faço minhas orações todos os dias.

– E podemos também concluir que um pagão, feito eu, deva estar agindo exatamente em oposição aos ditames divinos. Afinal, eu ainda não fui agraciado com um extraordinário FIAT branco.

– Pode ser que sim... – ele já estava dentro do carro, porta fechada, tentando escapar. Mas o vidro foi abaixado para que cuspisse sua última lufada venenosa, que certamente me derrotaria – Você é um homem religioso?

– Não, eu não sou.

– Pois é... – Fez aquela cara de quem não precisa dizer mais nada.

– Sabe o que eu acho sobre Deus? – juro que começava a invejar o proprietário do FIAT branco; gostaria muito de poder ver minha estima aumentada por conta de uma bobagem como a compra de um carro. Mas aproveitei aqueles últimos momentos na presença do filho bendito, para concluir rápido raciocínio – Acho que Deus é uma criança com uma fazenda de formigas. Ele nunca toma nenhum partido. Fica apenas observando, talvez um tanto entediado, tudo o que nós, suas adoráveis formiguinhas, fazemos dentro da fazendinha de bobagens... Quem sabe até se permitindo rir de algumas formigas que se acham merecedoras de recompensas tolas, tomadas por elas como coisas divinas.

Ele ligou o FIAT branco e foi embora. Mas não sem antes prometer que iria orar para que minha alma perdida encontrasse o caminho da salvação.

Fiquei sentado em minha mesa, agora completamente detentor de uma visão privilegiada do nada que acontecia no tempo e espaço, imaginando onde estaria indo aquele sujeito cheio de verdades.

Será mesmo que ele acreditava que uma divindade o havia ofertado objeto que só serve para suprir alguma necessidade mundana? Ou talvez ele usasse o nome de Deus para camuflar sua vaidade em afirmar aos quatro cantos que não possui capacidades de obtenção sem o apoio divino?

É difícil saber...

E eu é que não vou me meter no discernimento alheio. Melhor pensar em coisas menos transcendentais, como a cerveja que eu estava a degustar e que se encontrava mesmo deliciosamente gelada. E se é errado dizer que minha bebida seja resultado de meus esforços pela sobrevivência neste mundo pragmático, então tudo bem... Eu agradeço a Deus, sem nenhum problema, pela cerveja gelada que ele pôs em minha mesa... Afinal, como dizia Nietzsche:

A verdade é um produto da necessidade psicológica de duração”.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

RESENHA DE LIVRO: AS MULHERES NA GUERRA 1939-1945 VOL. 1


A Segunda Guerra Mundial é tema que foi explorado à exaustão pelos meios culturais, tanto que atualmente quase tudo o que tem sido produzido, não passa de conteúdo previsível ou que simplesmente reconta o que já estamos cansados de saber. Dentro deste cenário atual de desgaste temático, destacam-se alguns poucos trabalhos que vão além do óbvio relato; obras que buscam o retrato daquilo que ainda não foi contado, o lado oculto da grande guerra.

Pois este belo trabalho intitulado AS MULHERES NA GUERRA 1939-1945 – VOL. 01, nos trás uma riquíssima ótica deste ser que foi fundamental aos esforços de guerra, mas que viveu latente aos olhares de uma sociedade injusta e totalmente patriarcal: a mulher.

O objetivo desta obra – que comporta dois volumes – é tirar nossas mulheres da condição de relegadas. Claude Quétel, não poupa esforços e vai a fundo em suas pesquisas, trazendo à tona, uma iconografia riquíssima, sendo que boa parte desta, inédita. Talvez este tenha sido o primeiro grande projeto diretamente intencionado em dar exclusividade a história das mulheres que viveram e combateram direta ou indiretamente na Segunda Guerra.

É triste a realidade de que por quase toda a trajetória da humanidade, as mulheres sempre foram eternas esquecidas dos relatos e documentos históricos. Elas têm seu passado ofuscado pelo passado dos homens, que além de terem sido eles próprios os autores dos acontecimentos, também quase sempre detinham as posições de maior importância, portanto, manipularam os fatos para que a história exaltasse seus egos desmedidos, sem se preocupar em trazer à tona a realidade do que houve. Este, entre outros atos cruéis, resultou na exclusão histórica de nossas pobres heroínas.

E na contramão desta injustiça, o autor deste livro nos mostrará que elas estão por toda parte: operando no esforço de guerra, ocupando o espaço do mercado de trabalho deixado pelo homem que fora para frente de batalha; muitas outras foram meras vítimas das bombas incessantes nas grandes cidades; cuidando dos infindáveis enfermos da guerra; operando pesadas máquinas no campo da agricultura; tendo que assumir a condição de chefas de seus lares; e muitas vezes até na linha de frente, combatendo junto aos guerrilheiros, na resistência ou auxiliares na retaguarda.

Infelizmente quando adquiri este, que é o volume um, eu não tinha conhecimento de que o segundo volume já havia sido lançado. E acabei deixando passar um bom tempo. Portanto, minha busca pelo volume dois tem se mostrado um tanto árdua (descobri recentemente que há uma edição especial com os dois volumes impressos num só).

Com eficiência, este extraordinário livro consegue trazer à tona a mulher em tempos de conflitos. Tira-lhes do anonimato e as colocam em seu devido lugar: ao lado do homem, na luta, no empenho e na coragem. Nem maior, nem menor. Mas acima de tudo, uma vítima que sempre possuiu importância fundamental e definitiva, portanto, devem ser sempre motivos de orgulho a nós, homens, que além de causadores das grandes barbáries, somos implacáveis na exclusão delas... As nossas destemidas e eternas companheiras.