Este é um espaço de reflexão e opinião de um improvável leitor... Ordinário em sua existência, às vezes transgressor em sua análise. Mas como eu disse, é apenas um espaço. E como tal, precisa ser eternamente preenchido...
domingo, 10 de setembro de 2017
CRÔNICA: UMA BELEZA DE CANETA
terça-feira, 22 de agosto de 2017
RESENHA DE LIVRO: WINSTON S. CHURCHILL – COMO CHEGUEI AO PODER
sábado, 5 de agosto de 2017
RESENHA DE LIVRO – WATERLOO
terça-feira, 25 de julho de 2017
CRÔNICA – NEUROSISMO
Sexta-feira, final de
expediente. Vou para o bar que ainda se encontra vazio, escolho uma mesa com
vista privilegiada para as frivolidades da cidade. Peço uma cerveja que, para
meu agrado, está trincando de gelada. Pronto! Agora é só relaxar, enquanto
espero pela chegada de meu melhor amigo e companheiro de copo.
E a mansidão fora rapidamente
superada. Ele logo surge atravessando a rua, ainda de uniforme do trabalho, as
mãos ensebadas nos bolsos denotando aparente descontração e um olhar atento e discreto.
Cumprimentamo-nos e ele sentou na outra extremidade da mesa.
Eu encho o copo que já estava
a sua esperar, brindamos para selar nosso protocolo e, antes que ele desse seu
primeiro gole, algo aconteceu para romper com a costumeira rotina:
– Parceiro... – ele devolveu o
copo à mesa sem ter dado sequer uma bicadinha – Antes que você diga qualquer
palavra, eu tenho que te pedir umas paradas.
Remexi-me na cadeira, nervoso.
O que será que ele tinha pra me dizer que não poderia esperar nem mesmo pelo sagrado
gole de cerveja?
– Eu quero te contar uns
lances sobre meu casamento, mas não começa a pegar no meu pé por causa de
algumas paradas que ficaram sem resolver.
Ainda estupefato, tentei
balbuciar algo, mas ele seguiu com suas recomendações:
– Aliás, eu acho melhor você
não fazer nenhum comentário sobre problemas...
Minha boca permanecia aberta,
porém, nem mesmo o ar escapava dela, totalmente emudecida.
– Aliás, é melhor você não
fazer nenhum tipo de comentário hoje.
E assim, ele foi me dando
detalhes do que havia sido aquela sua árdua sexta-feira de problemas conjugais,
o que logo me fez compreender duas coisas: a eminente fragilidade que o obrigou
a fazer advertências imediatas pelo bem da harmonia; e a certeza de que meu amigo
sabe muito bem com quem divide a mesa do bar.
Sim, pois a inegável realidade
é que sou um genuíno neurótico. E antes que eu pudesse enchê-lo com meus
conselhos toscos e ineficazes, meu amigo já antecipou que era preciso prevenir
o manifesto de uma nova oratória obsessiva, que certamente eu começaria a bombardear
em seus ouvidos.
Portanto, não houve
alternativa de minha parte, senão concordar plenamente com ele, fechar o bico e
tentar desligar o neurosismo, deixando meu ser apenas no modo ouvinte.
Vivo os meus dias tentando
controlar tudo, desde as coisas mais corriqueiras, os acontecimentos diários,
até a vida pessoal daqueles que amo. Tento levar uma vida regrada,
minuciosamente dentro de padrões que acredito ser possuidor de total comando.
Maneirismo que só quem convive mais perto de mim, tem consciência do enorme
chato que sempre fui.
Sei que isso foi o que
desencadeou em observações restritivas de meu já nem tão paciente amigo. Mas sei
que em breve, as poucas pessoas que ainda se atrevem a conviver comigo, certamente
tomarão medidas extremas, como elaborar um guia contendo dez passos para deixar
de se meter na vida alheia para me presentear no natal. Afinal, quem foi que
disse que quando um amigo precisa falar sobre a vida dele, significa que é hora
de dar conselhos? E de onde eu tirei essa ideia de que sou um bom conselheiro?
Neuróticos nunca são bons em recomendações.
Talvez tenha chegado a hora de
me perguntar de onde veio esta minha interminável neuropatia. Será que a
condição de chato irredutível faz parte de minha natureza ou fui acometido por
uma espécie de possessão de uma entidade enfadonha que se recusa a deixar este
corpo?
Objetos fora do lugar me
deixam incomodado, manchas em superfícies que julguei deviam estar limpas,
ciscos nas roupas das pessoas, seus hábitos que considero ruins, o cansaço dos
outros que interpreto como preguiça, o ócio das pessoas que sempre julgo como
mal aproveitado... Tudo me incomoda!
Basta apenas que eu chegue num
ambiente e já começo a olhar pelos cantos, vasculhar coisas, investigar tudo
aquilo que não está como eu acho que deveria. Doutrinar a existência em geral
para que o mundo fique em plena conformidade com os meus auspícios. E quem vive
sob o mesmo teto comigo sofre dobrado:
“Meu
pai! Quem deixou essas coisas jogadas aqui?”;
“Por
que a cama está desarrumada até essa hora?”;
Quem
deixou a válvula do fogão aberta?”;
“Quem
tirou meus livros do lugar?”;
“Onde
está aquela cueca que sempre deixo pra usar no sábado?”;
“Não
é melhor limpar a cozinha primeiro e depois assistirmos o filme?”;
“Por
que têm dois sabonetes abertos?”;
“Alcatra
é carne pra se fazer nos fins de semana!”;
“Quem
pegou o meu chinelo?”;
“Não
consigo descansar em casa suja!”;
Minha voz irritante fica
ressoando dentro da mente dos meus pobres familiares. As pessoas que amo certamente
são seres extraordinariamente perseverantes. A coexistência diária comigo
certamente é provação capaz de valer a entrada no paraíso de qualquer religião.
Sou um insuportável fiscal da natureza humana... Não por acaso morei sozinho
por anos, sei muito bem que não existe altruísta capaz de conviver por muito
tempo comigo. E para aliviar este drama, minto pra mim alegando que gosto de
ter minha independência.
Certa feita, meu irmão mais
velho, recém-separado, pediu para ficar uns tempos em minha casa... Coitado.
Não suportou dividir o mesmo teto comigo nem por uma semana.
E o pior é que não sou um
ranzinza que olha apenas externamente para o que ocorre com a vida alheia. Acima
de tudo, sustento irrefreável comportamento analítico sobre minha própria
existência. Afinal, quem mais sofre a cobrança nesta história toda sou eu
mesmo.
Tornei-me um eterno escravo de
minhas próprias regras. Tenho um itinerário mental para as atividades de meus
dias. E nas raras vezes em que preciso sair deste confinamento militar, sinto
culpa. Como se eu estivesse me tornando um desleixado, incapaz de cumprir com os
deveres ilusórios, existentes apenas dentro da trevosa mente que me pertence.
Minhas camisas são arrumadas
no guarda-roupa de modo a serem usadas em ordem de chegada. Aquelas que
acabaram de sair da máquina de lavar vão para o final da fila, esperar sua vez
de serem usadas;
Leio meus livros em plena concordância
com a ordem em que eles foram comprados, sem jamais antecipar algum que
gostaria de ler primeiro;
Minhas revistas são guardadas
por tipo, e separo aquelas que ainda não li das que já foram devoradas;
Desde a infância que eu deixo
a carne no prato para comer só no final;
Os perfumes possuem datas
específicas. Tenho fragrância para usar no trabalho, durante o dia, nos fins de
semana e aqueles para ocasiões especiais;
Até o cachorro aqui em casa
sofre. Os biscoitos e guloseimas que sempre compro, uso um critério balanceado:
dois bifinhos pela manhã e os ossinhos recheados são para os fins de semana.
Levo uma vida amplamente
pautada pelas regras... Regras que estabeleci e não sei dizer de onde vieram.
No livro “O Poder do Hábito”, o autor Charles
Huhigg diz que quase tudo o que fazemos durante o nosso dia parece ser
oriundo de decisões tomadas com muito cuidado, porém, tudo não passa de um
aglomerado de hábitos. Contudo, creio que no meu caso, a coisa tende a ser um
pouco mais grave, pois além de ter uma série de comportamentos habituais, sei
muito bem que nada disso foi por mim revisado... Tudo foi construído numa
enorme teia de normas que estabeleci, há muito tempo em minha vida sem-graça. E
se isso tem facilitado os meus dias ou não, é algo que não delibero. É que
simplesmente considero infrutífero viver fora dos meus padrões de rotina.
Faço com que minhas normas se
transformem em algo automático, sem que precise ficar pensando em como será meu
dia amanhã. Quando planejo um passeio ou viagem, determino todos os pormenores,
antecipo os pagamentos, vasculho itinerários, procuro minimizar as chances de
que imprevistos aconteçam. No entanto, e este é o grande problema de minha neurose,
os imprevistos acontecem, queira eu controlá-los ou não.
Como eu posso querer dirigir
tudo, sistematicamente, se o tempero básico da vida é o ineditismo?
Pelo menos ainda consigo
suportar minha própria realidade regrada, mas suspeito de que logo estarei a
gastar uma fortuna com terapeutas. No entanto, o propósito desta reflexão não é
deliberar sobre minhas manias em relação a mim mesmo. Na verdade, o que mais
quero é deixar registrado minhas desculpas para todas aquelas corajosas
existências que convivem comigo; gente que faz vista grossa de minhas neuras em
prol de boa harmonia...
terça-feira, 11 de julho de 2017
RESENHA DE LIVRO – O AVESSO DA LIBERDADE
terça-feira, 6 de junho de 2017
RESENHA DE LIVRO – CAMPO DE SANGUE
quinta-feira, 18 de maio de 2017
CRÔNICA - O FETO E O MUNDO MARAVILHOSO!
segunda-feira, 8 de maio de 2017
RESENHA DE LIVRO – A DAMA FANTASMA
sexta-feira, 14 de abril de 2017
RESENHA DE LIVRO: A NOITE MAIS ESCURA DO ANO
quarta-feira, 15 de março de 2017
CRÔNICA - A PERDA DA GENTILEZA
O impulso humano em se parecer
maior desperta a comparação e atiça a disputa. Esta comparação sucede-se até
virar vício e daí surge a vaidade, que depois se transformar em inveja. Então nesse
ponto já se perdeu a possibilidade de harmonia e a capacidade de
discernimento... Sim, senhor diabo, não precisamos de você para nos destruir.
Recentemente comecei a tirar
carteira de habilitação. Foi um presente da minha namorada, ao constatar que
jamais farei isso por vontade própria. Nunca tive interesse por veículos
automotores, embora aprecie algumas de suas praticidades. Mas foi durante uma
das aulas de legislação, que comecei a entender as razões por trás desta minha particular
aversão ao trânsito: o ódio generalizado que este ambiente desencadeia. E eu só
soube disso porque um medo incontrolável aflorou em meu ser, no instante em que
o professor exibiu um vídeo que documentava a violência no trânsito. Não a
violência causada pelos trágicos acidentes, mas a violência orquestrada pela cólera
aflorada nas pessoas que precisam dividir espaço tão escasso, onde caixas motorizadas
tentam subjugar umas as outras.
Literalmente é uma guerra
diária.
Outro exemplo notório da
proliferação do ódio é a internet. E embora se trate de um espaço estrutural infinitamente
maior, a internet tem se mostrado um antro de intolerância desenfreada. Por
toda a Web se propagam vídeos de ataques a ideias, conceitos ou qualquer
veiculação que instigue alguma forma de contradição; comentários odiosos cheios
de preconceitos; ofensas sem nenhuma restrição; o desrespeito subjugando a
ética da convivência... Talvez porque através de uma tela de computador nos
tornamos infinitamente mais corajosos em expor o nosso inconformismo frente ao
que nos é diferente. Ou simplesmente porque através da internet criamos
avatares que camuflam e escondem nossa verdadeira face.
Vivemos numa sociedade de
ininterrupta competição, como se todos os seres humanos ao redor fossem adversários
em potencial. Não podemos baixar a guarda em nenhum momento porque o descanso é
sinal de fraqueza; escolher por uma vida de menos obtenções ou apenas ter o
suficiente é atitude de gente submissa. Somos uma sociedade inserida numa
panela de pressão, prestes a explodir...
Ver toda essa intolerância às
vezes desperta sentimento semelhante ao ocasionado pelo vídeo promovido pelo
instrutor de trânsito: suscita o medo em meu ser... Medo das pessoas. E mesmo
confessando este medo, eu sei que também faço parte deste universo maledicente.
Aliás, o medo é um poderoso combustível para alimentar o ódio.
O desencadeamento da cólera
humana só poderia resultar (entre cenários por nós já tão conhecidos de
violências urbanas e guerras) num lugar áspero de desconfiança e ressentimento,
onde a gentileza deixou de ser parte de nossa constituição.
Sobre um vetusto dito popular que
infelizmente parece equivocado de que “gentileza
gera gentileza”, paira sobre minha cabeça algo discrepante. Eu só consigo
notar nesta teoria aparentemente ingênua, mais da maldade humana. A ideia de
que uma ação cortês sucederá noutra, parte do pressuposto de que até mesmo as
ações altruístas do ser humano não passam de barganha coletiva. Faremos algo
gentil esperando sempre que algo semelhante nos seja devolvido. Não há espaço
para a intenção despretensiosa. E quando essa gentileza dissimulada não
acontece, nós aprendemos rapidamente a manifestar o ressentimento na forma de
revide.
Procurando fugir do
isolamento, as pessoas desenvolveram seus métodos de convivência baseados em
modelos sociais de grupos, geralmente identificados por renda, religião ou futebol,
pela melanina ou simplesmente por forma física. Grupos que se odeiam mutuamente,
mas que talvez convivessem em maior harmonia, desde que cada um permanecesse no
seu quadrado. No entanto, grupos sociais são pequenas esferas de uma infinita
floresta suburbana, na qual tais grupos se dispersam para disputar espaço, seja
na escola, nas estradas, no ambiente de trabalho, no supermercado, na fila do
banco, na praça pública. Indivíduos pertencentes a distintos grupos, que se
veem difundidos, pois precisam resolver questões cotidianas, acabam fazendo a
leitura do outro como sendo uma realidade que tenta subjugar a sua própria, desencadeando
um egoísmo que gera faíscas pérfidas de desconfiança.
Então semelhantes desconhecem-se,
tornam a convivência dispersa por meio da indiferença: um lugar no ônibus que
não é concedido; um desconto obsequioso que é negado a um carecido; um objeto ignorado
que caiu no chão; uma fila furada na cara dura; uma cortesia sumariamente
negada; ouvidos fechados ao que está fora da bolha.
Pra piorar, um elemento aprofundou
ainda mais a desconfiança coletiva. E se não era possível que houvesse
gentileza por meio da boa vontade, então devíamos encarar um inimigo em comum
para que odiemos de mãos dadas. Este inimigo se chamaria “Governo”. Mas nem mesmo
a asquerosa corja dos políticos foi capaz de nos unir ao redor de um objetivo
comum...
O Governo que causaria
aproximação com o semelhante, por meio de sua veia opressora, organizou-se em políticas
partidárias que só elevou a polarização das bolhas em conceitos de direita e
esquerda.
O grande Tácito, na Roma
clássica, dizia que “os homens
apressam-se mais em retribuir um dano do que um benefício”. Parece-me
atual, pois enquanto estamos a acompanhar o porco gordo do capitalismo minando
nossas conquistas, bravejamos uns com os outros e viramos as costas para aquele
sujeito que votou no candidato X. E no meio do apocalipse diário fazemos da
incivilidade o nosso maior hábito.
Ao ler um texto que me pareceu
utópico de um psicólogo pacifista, ele disse que a gentileza anda de mãos dadas
com a educação. E embora esta ideia pareça um tanto pertinente, percebo que
mesmo um verbo tão próspero quanto educar, parece estar se perdendo em
conceitos contraditórios. Houve um relativismo na forma com que ensinamos a
cortesia. Afinal de contas, nem todo mundo merece amabilidade e demonstrar isso
o tempo inteiro se tornou sinal claro de fraqueza.
Porque o Sistema exige que
você seja forte;
Porque o seu grupo social
admira sua valentia;
Porque se frear com seus
compromissos será ultrapassado por seu vizinho;
Porque o sucesso é a linha de
chegada dos corajosos.
Gentileza virou coisa de indivíduo
incapaz. Sim, pois somente quando se está acuado ou enfraquecido é que olhamos
para o lado e lá estão as ameaças. É quando a nossa impotência se eleva a
patamares degradantes que dissimulamos e assumimos uma postura cortês; pechinchamos
em busca de apaziguar as relações; largamos o osso apenas quando não temos mais
dentes para continuar mordendo. No entanto, só o que queremos é galgar topos
maiores, e quando o semelhante se mostrar um obstáculo, este será tratado como
tal.
Fomos ensinados que gentileza
inferioriza, enfraquece e demanda humildade, algo que não sabemos mais o que
significa. Melhor é ser odioso e insensível porque nos deixa com a aparência de
espertos e soberanos. Num mundo de desafetos é vantajoso parecermos inabaláveis
para que ninguém pense em fazer xixi na nossa horta.
Então, o mesmo psicólogo cita
em seu dócil texto que o maior exemplo da gentileza humana está nas situações
de grandes catástrofes; que é nos momentos de maior dor que o ser humano demonstra
seu altruísmo e que, segundo o texto, este ato é intrínseco de nossa espécie.










