domingo, 10 de setembro de 2017

CRÔNICA: UMA BELEZA DE CANETA


Sempre que vou para alguma praça fazer minhas leituras, carrego comigo algumas folhas em branco e uma caneta ensebada no bolso, caso eu precise anotar alguma informação pertinente, alguma ideia que surja... Uma frase pairando sobre o vendaval conturbado de minha mente.

Abro a folha em meu colo e faço uso do belíssimo instrumento que deu título a esta crônica. Enganou-se se você pensava que eu estava me referindo ao ostensivo lance futebolístico em que o jogador passa sutilmente com a bola por entre as pernas do adversário (aliás, se alguém souber me dizer o porquê da nomenclatura deste lance fazer referência com a caneta, eu ficarei muito agradecido).

Não senhor. A caneta aqui é aquele pequeno instrumento mágico, que imprime diretamente no papel sem o uso de uma impressora, em tempo real. Desenha palavras e formas ao gosto de seu usuário. E quando o combustível chega ao fim, precisamos fazer exatamente como os motoristas fazem com seus possantes motorizados: temos que levá-la até um posto e abastecer.

Vez ou outra, durante algumas de minhas constantes anotações, eu reparo certos olhares curiosos sobre mim. São pessoas que passam pela praça e estranham aquele meu ato antiquado demais para este mundo moderno. Gente me observando com algum espanto, transeuntes que quase não acreditam no que veem. Afinal, por que cargas d’água este sujeito não usa o aplicativo do celular para escrever? Onde foi parar o seu tablet? Será que ele não tem computador em casa? Será que ele tem casa? Céus, onde foi que ele conseguiu uma caneta?

Já ouvi falar em escolas na Europa que estão alfabetizando seus filhos sem o uso de canetas ou lápis. As crianças aprendem a escrever e ler através da tela de um aparelhinho.
E por falar em crianças, o João Lucas vinha perigosamente em rota de colisão com o meu banco de praça. Sua atenção completamente submersa em um aparelho celular que trazia nas mãos, e seguia passos sem rumo, quando uma voz salvadora lhe resgatou daquilo que seria um acidente trágico. “João Lucas! Preste atenção por onde anda, menino!”. E foi através do grito daquela mãe angustiada que eu aprendi o nome daquela rechonchuda massa desgovernada que avançava cegamente em minha direção. Ele tinha não mais do que três anos e já fazia atualizações em seus aplicativos tecnológicos.

Quanto a mim, anotava tudo o que via do meu banquinho, descrevendo cada pormenor com minha eficiente e inseparável caneta.

Outro dia, lendo a entrevista de um escritor das antigas, ele disse que escrever no computador é bom. Mas nada substituirá o charme de uma caneta tinteiro... Ok, senhor escritor. Concordo plenamente com você! E embora minha caneta esferográfica não venha a ser tão charmosa quanto a sua tinteiro, considero minhas queridas rabiscadoras bem mais elegante do que dedos ciscando num teclado.

Caneta é sinônimo de charme, de ostentar erudição. Não sei quanto aos engenheiros contemporâneos, mas os das antigas costumavam colocar suas canetas na orelha, num gesto que denotava presteza. Oradores adoravam gesticular ostensivamente com os braços, num ato de intensificar suas opiniões. Entre os dedos, havia sempre uma caneta para assoberbar seus discursos pedantes.

Pois um dos presentes mais originais que já ganhei na vida, foi justamente uma caneta com meu nome lustrosamente gravado em letras douradas. Tão lindo, que meu demasiado ciúme faz com que eu a mantenha confinada dentro do quarto, repousando em sua caixinha sobre a mesa de trabalho.

– Você não gostou da caneta que te dei, né? – perguntou certa vez minha namorada, o ser por trás da ótima ideia de me presentear com uma caneta.

– É claro que eu gostei amor! – respondi entusiasmado. E embora me ver usando a caneta fosse prova muito mais contundente do que uma mera resposta, acho que bem lá no fundo minha amada sabe que sou tão apaixonado por aquela caneta, que temo tirá-la do quarto e acabar se perdendo.

A situação é meio como naquele texto da Clarice Lispector em que ela narra as reações distintas de seus filhos a cerca de uma caneta de ouro que ela havia ganhado. Pois nesta história eu me identifico plenamente com o filho ambicioso que deseja a caneta.

E mesmo sustentando a plena consciência de que terei que transcrever para meu computador tudo o que foi rabiscado no papel, isso não me é empecilho nenhum. E você poderia redarguir que este é sim, um trabalho desnecessário, repetitivo e saudosista... Mas sou um amante da escrita. E continuarei muito feliz em poder transcrever para o mundo virtual, minhas ideias que primeiramente foram registradas por uma caneta... Marca que ficou registrada neste mundo real e cada vez menos manuscrito.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

RESENHA DE LIVRO: WINSTON S. CHURCHILL – COMO CHEGUEI AO PODER


Quatro são as lideranças mais comentadas, biografadas e estudadas da segunda guerra mundial. E Winston Leonard Spencer Churchill é uma delas. Primeiro ministro britânico durante quase todo o conflito mundial, Churchill é, de fato, um homem da guerra. E embora tenha sido nomeado pela cúpula inglesa, como sendo a mente mais qualificada para conduzir a terra da rainha através de anos de trevas, Sir Winston não foi apenas isso.

Além de seu nome inesquecivelmente ligado ao grande conflito, Churchill também foi um estadista notável, oficial do exército britânico durante a primeira guerra, historiador, artista e escritor. Ele é o único primeiro ministro britânico a ter recebido um prêmio Nobel de Literatura.

E esta natureza do cara é o que mais interessa aqui neste ótimo COMO CHEGUEI AO PODER; relatos narrados pelo líder britânico dos tempos que antecederam sua ascensão ao poder.

O livro nos apresenta a visão do autor no que concerne à natureza política, os jogos de poder, a crises na Europa, especulações rivais, seus principais antagonistas e suas formas tradicionais de governo. Churchill especula sobre o cenário politico de sua época e usa de uma linguagem acessível e direta, permitindo ao leitor um ganho de compreensão sobre os eventos que culminaram no maior conflito armado do mundo.

A partir de 1933, após a subida de Hitler ao poder na Alemanha, e quando parecia evidente que o partido nazista empenhava-se na fortificação bélica do país, Churchill foi das poucas vozes que se levantou contra aquilo que considerava uma séria ameaça à estabilidade da Europa Central. Ele vinha constantemente à público alertar sobre a necessidade de o Reino Unido se armar.

No dia 10 de maio de 1940, poucas horas antes da invasão alemã da França, e diante do vergonhoso fracasso britânico na defesa da Noruega, o governo do então ministro Chamberlain não resistiu e caiu, abrindo caminho para a nomeação de Winston Churchill para o cargo político máximo, o de primeiro ministro.

Igualmente a qualquer figura pública no cenário geopolítico mundial, Churchill também tem atribuído à sua imagem manchas irreparáveis, justificáveis ou não, como por exemplo, a decisão do ataque aéreo à cidade de Dresden, ato que resultou na total devastação da região e matou mais de vinte e cinco mil civis.

Opiniões à parte, COMO CHEGUEI AO PODER é um livro que tem como ponto forte a apresentação de uma visão pessoal de mundo, narrada pelo autor; um homem que, além de importante figura política da Europa, também deixou explicitada através de sua literatura, o quanto era habilidoso na composição textual. É um livro que agradará tanto aos leitores que querem aprofundar seus conhecimentos sobre a segunda guerra mundial, quanto àqueles que gostam de esmiuçar os conturbados cenários geopolíticos mundiais.

sábado, 5 de agosto de 2017

RESENHA DE LIVRO – WATERLOO


Este livro é parte de uma recente empreitada que me propus: aprender um pouco sobre a trajetória de um dos maiores nomes da história militar mundial, o famigerado imperador Napoleão Bonaparte.

Separei artigos, salvei endereços na Web, busquei matérias em revistas de história, assisti diversos documentários, e finalmente deleitei-me na leitura deste decente WATERLOO; obra que narra a mais icônica batalha que decretou o fim da admirável carreira de Bonaparte.

E justamente partindo de minhas pesquisas é que me atrevo a dizer que, embora Napoleão houvesse assistido sua queda definitiva sacramentada na inexpressível Waterloo (pequena cidade situada na Bélgica), este cenário fora apenas efeito de outras causas, pois muito antes de seu exílio na minúscula ilha de Elba, o imperador teve seu vasto e temido exército francês dizimado pelo frio e agressividade em terras russas. Desde que as tropas de Napoleão ultrapassaram a fronteira, em junho de 1812, a Rússia mostrou seu lado mais inóspito. Pelo menos do ponto de vista das leituras que fiz sobre as fatalidades vivenciadas pelo exército francês contra os Russos, creio que elas me parecem infinitamente mais devastadoras do que a derrocada final em Waterloo.

Então, ao chegar ao derradeiro confronto contra as forças britânicas em 1815, Napoleão trazia consigo um exército recomposto e fiel, mas agora era infinitamente menor, inclusive em larga desvantagem numérica em relação aos aliados que enfrentaria. Tinha como seus trunfos a fidelidade de um exército que o amava e o admirava; homens que mesmo cientes da desvantagem numérica no campo de batalha, sabiam que já haviam enfrentado situações semelhantes e vencido graças à genialidade de seu imperador.

Contudo, em Waterloo as adversidades foram cruciais no desfecho da guerra. E mesmo sabendo da complexidade em se analisar batalhas, talvez o vencedor neste caso, foi aquele que menos errou. Aqui nos deparamos com uma narrativa de sucessivos equívocos de estratégias, mensagens confusas ou imprecisas, o clima torrencial que não colaborava, a hesitação de comandantes, atitudes impensadas, um Napoleão aparentemente doente e enfraquecido, o líder britânico, Duque de Wellington, que mesmo receoso, soube manter sua defesa concisa e firme.

Por falar em Wellington, o Duque de Ferro provavelmente fora aquele que mais se beneficiou com os erros e empecilhos transcorridos na batalha. E embora fosse reconhecido por ser um exímio estrategista, quase foi pego com as calças curtas, enquanto se divertia no baile da duquesa de Richmond. O exército Francês marchava em seu encontro, e o duque recebia o relato de seu mensageiro em meio a um pomposo salão de dança.

O ponto forte da obra fica por conta da montagem textual feita pelo autor, repleta de relatos dos homens que vivenciaram a batalha. Narrativa de gente que esteve lá e disseram o que viram. Tais conteúdos denotam a obstinada busca do autor por material inédito para compor seu livro.

Em contrapartida, o que me incomodou um pouco foi um demasiado preciosismo deste mesmo autor em relação aos britânicos. E mesmo sustentando aspectos de imparcialidade, como quando relata o elevado envaidecimento do duque de Wellington ao se empenhar na exclusiva exaltação de si mesmo sobre a batalha, Bernard Cornwell parece não conseguir esconder seu patriotismo, atitude que certamente comprometeu suas pesquisas sobre o evento para a documentação histórica.

De qualquer forma, WATERLOO é um rico trabalho, cheio de referências, relatos pessoais daqueles que vivenciaram a guerra, e um olhar mais próximo de testemunhas que ali estiveram. Uma agradável leitura, que acertou em fugir da mera narrativa didática dos livros de história.

terça-feira, 25 de julho de 2017

CRÔNICA – NEUROSISMO

Sexta-feira, final de expediente. Vou para o bar que ainda se encontra vazio, escolho uma mesa com vista privilegiada para as frivolidades da cidade. Peço uma cerveja que, para meu agrado, está trincando de gelada. Pronto! Agora é só relaxar, enquanto espero pela chegada de meu melhor amigo e companheiro de copo.

E a mansidão fora rapidamente superada. Ele logo surge atravessando a rua, ainda de uniforme do trabalho, as mãos ensebadas nos bolsos denotando aparente descontração e um olhar atento e discreto. Cumprimentamo-nos e ele sentou na outra extremidade da mesa.

Eu encho o copo que já estava a sua esperar, brindamos para selar nosso protocolo e, antes que ele desse seu primeiro gole, algo aconteceu para romper com a costumeira rotina:

– Parceiro... – ele devolveu o copo à mesa sem ter dado sequer uma bicadinha – Antes que você diga qualquer palavra, eu tenho que te pedir umas paradas.

Remexi-me na cadeira, nervoso. O que será que ele tinha pra me dizer que não poderia esperar nem mesmo pelo sagrado gole de cerveja?

– Eu quero te contar uns lances sobre meu casamento, mas não começa a pegar no meu pé por causa de algumas paradas que ficaram sem resolver.

Ainda estupefato, tentei balbuciar algo, mas ele seguiu com suas recomendações:

– Aliás, eu acho melhor você não fazer nenhum comentário sobre problemas...

Minha boca permanecia aberta, porém, nem mesmo o ar escapava dela, totalmente emudecida.

– Aliás, é melhor você não fazer nenhum tipo de comentário hoje.

E assim, ele foi me dando detalhes do que havia sido aquela sua árdua sexta-feira de problemas conjugais, o que logo me fez compreender duas coisas: a eminente fragilidade que o obrigou a fazer advertências imediatas pelo bem da harmonia; e a certeza de que meu amigo sabe muito bem com quem divide a mesa do bar.

Sim, pois a inegável realidade é que sou um genuíno neurótico. E antes que eu pudesse enchê-lo com meus conselhos toscos e ineficazes, meu amigo já antecipou que era preciso prevenir o manifesto de uma nova oratória obsessiva, que certamente eu começaria a bombardear em seus ouvidos.

Portanto, não houve alternativa de minha parte, senão concordar plenamente com ele, fechar o bico e tentar desligar o neurosismo, deixando meu ser apenas no modo ouvinte.

Vivo os meus dias tentando controlar tudo, desde as coisas mais corriqueiras, os acontecimentos diários, até a vida pessoal daqueles que amo. Tento levar uma vida regrada, minuciosamente dentro de padrões que acredito ser possuidor de total comando. Maneirismo que só quem convive mais perto de mim, tem consciência do enorme chato que sempre fui.

Sei que isso foi o que desencadeou em observações restritivas de meu já nem tão paciente amigo. Mas sei que em breve, as poucas pessoas que ainda se atrevem a conviver comigo, certamente tomarão medidas extremas, como elaborar um guia contendo dez passos para deixar de se meter na vida alheia para me presentear no natal. Afinal, quem foi que disse que quando um amigo precisa falar sobre a vida dele, significa que é hora de dar conselhos? E de onde eu tirei essa ideia de que sou um bom conselheiro?

Neuróticos nunca são bons em recomendações.

Talvez tenha chegado a hora de me perguntar de onde veio esta minha interminável neuropatia. Será que a condição de chato irredutível faz parte de minha natureza ou fui acometido por uma espécie de possessão de uma entidade enfadonha que se recusa a deixar este corpo?

Objetos fora do lugar me deixam incomodado, manchas em superfícies que julguei deviam estar limpas, ciscos nas roupas das pessoas, seus hábitos que considero ruins, o cansaço dos outros que interpreto como preguiça, o ócio das pessoas que sempre julgo como mal aproveitado... Tudo me incomoda!

Basta apenas que eu chegue num ambiente e já começo a olhar pelos cantos, vasculhar coisas, investigar tudo aquilo que não está como eu acho que deveria. Doutrinar a existência em geral para que o mundo fique em plena conformidade com os meus auspícios. E quem vive sob o mesmo teto comigo sofre dobrado:

“Meu pai! Quem deixou essas coisas jogadas aqui?”;

“Por que a cama está desarrumada até essa hora?”;

Quem deixou a válvula do fogão aberta?”;

“Quem tirou meus livros do lugar?”;

“Onde está aquela cueca que sempre deixo pra usar no sábado?”;

“Não é melhor limpar a cozinha primeiro e depois assistirmos o filme?”;

“Por que têm dois sabonetes abertos?”;

“Alcatra é carne pra se fazer nos fins de semana!”;

“Quem pegou o meu chinelo?”;

“Não consigo descansar em casa suja!”;

Minha voz irritante fica ressoando dentro da mente dos meus pobres familiares. As pessoas que amo certamente são seres extraordinariamente perseverantes. A coexistência diária comigo certamente é provação capaz de valer a entrada no paraíso de qualquer religião. Sou um insuportável fiscal da natureza humana... Não por acaso morei sozinho por anos, sei muito bem que não existe altruísta capaz de conviver por muito tempo comigo. E para aliviar este drama, minto pra mim alegando que gosto de ter minha independência.

Certa feita, meu irmão mais velho, recém-separado, pediu para ficar uns tempos em minha casa... Coitado. Não suportou dividir o mesmo teto comigo nem por uma semana.

E o pior é que não sou um ranzinza que olha apenas externamente para o que ocorre com a vida alheia. Acima de tudo, sustento irrefreável comportamento analítico sobre minha própria existência. Afinal, quem mais sofre a cobrança nesta história toda sou eu mesmo.

Tornei-me um eterno escravo de minhas próprias regras. Tenho um itinerário mental para as atividades de meus dias. E nas raras vezes em que preciso sair deste confinamento militar, sinto culpa. Como se eu estivesse me tornando um desleixado, incapaz de cumprir com os deveres ilusórios, existentes apenas dentro da trevosa mente que me pertence.

Minhas camisas são arrumadas no guarda-roupa de modo a serem usadas em ordem de chegada. Aquelas que acabaram de sair da máquina de lavar vão para o final da fila, esperar sua vez de serem usadas;

Leio meus livros em plena concordância com a ordem em que eles foram comprados, sem jamais antecipar algum que gostaria de ler primeiro;

Minhas revistas são guardadas por tipo, e separo aquelas que ainda não li das que já foram devoradas;

Desde a infância que eu deixo a carne no prato para comer só no final;

Os perfumes possuem datas específicas. Tenho fragrância para usar no trabalho, durante o dia, nos fins de semana e aqueles para ocasiões especiais;

Até o cachorro aqui em casa sofre. Os biscoitos e guloseimas que sempre compro, uso um critério balanceado: dois bifinhos pela manhã e os ossinhos recheados são para os fins de semana.

Levo uma vida amplamente pautada pelas regras... Regras que estabeleci e não sei dizer de onde vieram.

No livro “O Poder do Hábito”, o autor Charles Huhigg diz que quase tudo o que fazemos durante o nosso dia parece ser oriundo de decisões tomadas com muito cuidado, porém, tudo não passa de um aglomerado de hábitos. Contudo, creio que no meu caso, a coisa tende a ser um pouco mais grave, pois além de ter uma série de comportamentos habituais, sei muito bem que nada disso foi por mim revisado... Tudo foi construído numa enorme teia de normas que estabeleci, há muito tempo em minha vida sem-graça. E se isso tem facilitado os meus dias ou não, é algo que não delibero. É que simplesmente considero infrutífero viver fora dos meus padrões de rotina.

Faço com que minhas normas se transformem em algo automático, sem que precise ficar pensando em como será meu dia amanhã. Quando planejo um passeio ou viagem, determino todos os pormenores, antecipo os pagamentos, vasculho itinerários, procuro minimizar as chances de que imprevistos aconteçam. No entanto, e este é o grande problema de minha neurose, os imprevistos acontecem, queira eu controlá-los ou não.

Como eu posso querer dirigir tudo, sistematicamente, se o tempero básico da vida é o ineditismo?

Pelo menos ainda consigo suportar minha própria realidade regrada, mas suspeito de que logo estarei a gastar uma fortuna com terapeutas. No entanto, o propósito desta reflexão não é deliberar sobre minhas manias em relação a mim mesmo. Na verdade, o que mais quero é deixar registrado minhas desculpas para todas aquelas corajosas existências que convivem comigo; gente que faz vista grossa de minhas neuras em prol de boa harmonia...

Pessoal, eu não sou assim porque os odeio, mas justamente por saber que são partes fundamentais de minha vida, é que tento colocar vocês dentro dos meus padrões rígidos de disciplina... Porque se estou a pegar no seu pé, saiba que apenas o faço porque gosto de você. Pois do contrário, minha natureza bizarra teria o comportamento que lhe é típico quando não gosta de alguém... Ela simplesmente ignora.

terça-feira, 11 de julho de 2017

RESENHA DE LIVRO – O AVESSO DA LIBERDADE


Será possível pensarmos na ideia de liberdade sem que a palavra soe como mera obviedade existencial? Por que nos prestarmos a pensar sobre tema que permeia a vida comum de forma tão simples e evidente, garoto propaganda de toda a nossa solenidade? O sentido de liberdade seria mesmo algo adquirido ou elemento natural do ser?

Foi pensando em problematizar este tema, que o autor Adauto Novaes organizou esta coletânea enriquecedora, que nos ajuda a pensar sobre o assunto que por demais foi utilizado pela oratória popular. Tanto que hoje a definição de liberdade parece ter se tornado arquétipo identitário dos padrões sociais de conveniência; ídolo de doutrinas materialistas. Liberdade é palavra fácil na boca de muitos, mas o típico caso de termo que de tão desgastado parece ter perdido o sentido.

O conteúdo deste excelente O AVESSO DA LIBERDADE, busca pensar o tema proposto em toda sua diversidade histórica, cultural e afetiva. Analisar as condições particulares e efetivas de seu exercício, compreendendo esta distorção que maquia atos obscuros e aprisiona homens livres. Os autores esmiúçam o assunto, levando em consideração, problemáticas que vão desde a dualidade entre matéria e espírito; passando por elaboração condicional e natureza intrínseca, até chegarmos aos conceitos da liberdade dentro de trabalhos artísticos, aparentemente frutos de situacionismos de seu tempo.

Em cada capítulo, os autores fazem uso de eficientes nomes que pensaram a liberdade ao longo da história do pensamento. Podemos discorrer sobre artigos à luz de Epicuro, Santo Agostinho, Spinoza, Pascal, Hobbes e outros...

Maravilhoso é o artigo do autor Luiz Carlos Villalta, intitulado “Liberdades Imaginárias”, em que trata dos movimentos inconfidentes no Brasil colonial. Ideias de liberdades oriundas de outros países, que inflaram o anseio de brasileiros, desencadeando em lutas armadas (ou não), cuja paixão pela liberdade não passou de sonho desembocado em tragédias.

Precisos e bem articulados também são os artigos que trabalharam a noção de liberdade de inventar, ou seja, a liberdade do artista. Faz-nos questionar se a arte se mostra, e em quais momentos, fruto da pura criação livre, ou ela sempre fora convencionada por limites permissivos. O capítulo do autor Willi Bolle, intitulado “A Liberdade de Pensar” analisa os procedimentos sofisticados do mestre Guimarães Rosa e seu magnífico GRANDE SERTÃO: VEREDAS, na composição precisa da linguagem e do tema, o sertão.

A coletânea deste O AVESSO DA LIBERDADE não segue uma sequência linear; alguns possuem linguagem um pouco mais complexa, outros facilitam com diálogos informais. Alguns artigos aprofundam tanto o assunto que o leitor chega a se perguntar aonde o autor pretende chegar. Mas é justamente esta amplitude temática o motor que faz com que o tópico da liberdade seja analisado de diferentes ângulos e em múltiplas perspectivas.

É um livro para ser relido várias vezes, ou pelo menos os capítulos que nos pareceram mais pertinentes. E que nem mesmo o já longínquo ano de lançamento da obra (2002), não ofusca seu teor discursivo atual, um tema tão rico, ainda que difuso e complexo... E justamente por conta desta complexidade que precisamos deixar a preguiça de lado para dar espaço a trabalhos com esse tipo de premissa: a literatura filosófica em prol da amplificação de mentes bitoladas.

terça-feira, 6 de junho de 2017

RESENHA DE LIVRO – CAMPO DE SANGUE


Quatro protagonistas; quatro mulheres em torno de um homem. Talvez elas não o tivessem lapidado propriamente, mas foram presenças cruciais, que interferiram, entremearam, conviveram e misturaram-se ao quinto protagonista: um sujeito confuso e apagado, cuja solidão existencial irá levá-lo a cometer um crime.

E as quatro mulheres, edificantes ou edificadas por ele, se encontram numa sala distinta, aguardando para deporem por conta do crime protagonizado pelo anônimo personagem. Aliás, deixar de nomear protagonistas parece ser algo fundamental para Dulce Maria Cardoso, ótima escritora portuguesa que assina esta sublime narrativa, intitulada CAMPO DE SANGUE.

Portanto, logo após a epígrafe do texto, que faz uma breve explanação sobre o título da obra, nos deparamos com este ordinário cenário: quatro mulheres que não se conhecem, esperando numa desconfortável sala, para ajudar as autoridades a entender o fundamento de um assassinato cometido por um homem considerado pacífico. E é justamente esse sujeito a única coincidência que há nas quatro personagens.

A autora nos revela logo nas primeiras páginas, do que se trata seu enredo. Revela o que aconteceu e quem são as figuras de sua trama, como se o intento fosse não deixar nenhum mistério para o leitor. Joga todos os protagonistas nas páginas e vai, lentamente e de forma magnífica, desmistificando cada um deles, em particular, o homem. Este é um sujeito carente e entediado, que passa seus dias tentando reinventar-se para melhor se adequar a cada uma das mulheres de sua vida: a mãe, a ex-mulher, a senhoria, e a moça bonita (a adjetivação em substituição aos nomes dos personagens funcionou perfeitamente para nutrir a beleza da narrativa).

Dulce Maria deixa apenas uma interrogação: a identidade da pessoa assassinada pelo homem.

Mas o brilho da obra não está em deixar mistérios. O propósito da autora é arremeter o leitor diretamente ao mundo de seus personagens. E esta o faz com elevada maestria, dotada de sensibilidade apurada, Dulce Maria descortina o mundo de inquietações dos seres sob a ótica de seus personagens; a intimidade vista de muito perto. Uma leitura quase palpável.

Acompanhei absorto toda a beleza de cenários ordinários, deliberações despercebidas que nos acomete em circunstancias distintas. A autora aprofunda-se nesta ótica corriqueira do cotidiano sacolejado pelo acontecimento inusitado: o assassinato. Então narra de maneira precisa cada detalhe, cada incômodo sentido, a emersão de introspecções infundadas, na existência caótica e perdida, cujos atos são quase sempre incoerentes, improváveis, imprevisíveis e tolos. Mostra-nos sem pudor “um amor exagerado, quase uma doença” (como é replicado belamente no texto), que terminará de modo trágico. E então testemunhamos as consequências de afetos efervescidos por vidas desprovidas de discernimentos...

O cunho detalhista de Dulce Maria Cardoso é simplesmente genial. Ela coloca o leitor a refletir sobre as mais inexplicáveis sensações oriundas de sentimentos escapadiços, como o amor, que aqui não é retratado de forma romantizada, mas na precisa descrição do que este sentimento representa: a perda total do controle; suas erupções assustadoras, desencadeadas inesperadamente de vidas cheias de inseguranças, onde a derradeira realidade paira sobre nossas cabeças: a eminente possibilidade de nossa perda do senso...

O resultado desta hecatombe foi este livro magnífico! Uma obra singular de uma autora sensível e precisa. Talvez a melhor leitura que fiz neste ano, até agora.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

CRÔNICA - O FETO E O MUNDO MARAVILHOSO!


No dia em que eu finalmente nascer, ah, ninguém me segura!

Quando eu nascer vocês verão. Serei aquilo que de melhor existe! Por métodos aviltantes, serei retirado dos grotões de minha mãe e abrirei meus olhos para este mundo maravilhoso e inimaginável do externo. Poderei ser a criança que sempre desejei; o molde exato de meu querido pai.

Serei amamentado por pouquíssimo tempo, pois neste mundo maravilhoso não há necessidade de sugar o néctar que pensávamos ser vital de nossa mãe. No lugar dele eu provarei de toda artificialidade existente, para liberar minha genitora deste fardo alimentício. Serei entregue a uma mulher que, a troco de salário mínimo, cuidará de mim até a adolescência, enquanto aquela que por definição levaria o título de mãe, estará a ganhar dinheiro para poder pagar alguém que desempenhe a humilhante função de limpar as minhas fraldas sujas.

Tornar-me-ei um adolescente esbelto e corado. Cheio de vida e vontade eloquente, quase obstinada. E quando a relutância começar a minar pelos meus poros, receberei a oportuna educação moderada; o exercício da ordem sem contestação, serei doutrinado pela convivência cultural daquele meio em que estarei inserido... Será mais fácil, dirão, caso eu venha a questionar.

Terei livros, sim, muitos livros... Mas não exatamente os livros que vocês pensam. Eles serão como manuais de instruções a revelar quase nada de nenhum tempo. O passado me parecerá enfadonho e desnecessário, o presente escapadiço e inconstante, o futuro assustador e incerto. Os livros pelos quais serei indicado a ler nada me dirão de objetivo ou pertinente, afinal, neste mundo maravilhoso eu nada precisarei, pois vocês me darão tudo.

Portanto, eu não precisarei me preocupar com nada. Terei somente que me ater às atualizações de minhas redes sociais, os bate-papos ininterruptos que me ocuparão a mente, enquanto as coisas acontecem no mundo a se enquadrar para meu gozo. O prestígio tecnológico a envaidecer-nos para que nos sintamos como deuses a olhar para o mundo exibido na palma da mão. E quando eu chegar à universidade saberei exatamente o que escolher: a graduação mais pragmática, aquela que proverá os melhores salários e oportunidades de mercado. Isto me será de imensa valia! Sim, pois neste mundo maravilhoso, eu não saberei o que quero. Portanto, precisarei de vocês com seus meios objetivos a me indicar a direção certa.

E finalmente quando chegar a fase adulta, arranjarei estágios empolgantes, serei posto sentado a uma mesa onde sobre ela haverá muito que fazer, funções excitantes que precisam ser desempenhadas para a continuidade deste mundo maravilhoso, é o que dirão. E manterei o ritmo, darei produção, não farei perguntas... Aliás, este mundo maravilhoso não me ensinou a fazer perguntas, pois aqui já existem respostas prontas pra tudo.

Adestrado que serei, não restará dúvidas e me verei efetivado num oportuno emprego. Jamais saberei quem são meus chefes ou de onde vem o dinheiro que me pagam. Serei apenas a minúscula engrenagem de uma gigantesca máquina cuja função eu não sei qual é. Mas neste mundo maravilhoso eu me sentirei seguro com tanta gente trabalhando pelo bem desta máquina... Remar no mesmo sentido, este é o lema!

Precisarei de uma esposa, é o que dirão. E desprovido da inútil capacidade de discernimento, encontrarei aquela que melhor se encaixar à minha proposta de construir o lar perfeito. Seremos um casal regrado, assinaremos papéis, vulgarizaremos nossa relação para satisfazer os olhares alheios, daremos justificativas de nossos atos, não nos conheceremos, pois isto não é importante, desde que não falte dinheiro para prover o nosso querido lar. Neste mundo maravilhoso seremos almas gêmeas sem almas: dois seres igualmente robotizados, adestrados e absolutamente resolutos... Saberemos exatamente qual será o próximo passo.

Acordaremos às seis da manhã e este será o único instante do dia em que nos veremos. Minha alma gêmea sem alma tomará um caminho e eu, outro ser igualmente sem alma, seguirei por outro. Enfrentaremos trânsito, atestaremos através de digitais a nossa presença no trabalho, sentar-nos-emos em cadeiras enrijecidas, seremos a engrenagem da maquina outra vez, função importante esta. Pararemos por alguns minutos para nos nutrir, correremos outra vez para nossas enrijecidas cadeiras, muitas coisas pra serem feitas; repetitivos relatórios, repetitivos memorandos, repetitivas declarações, repetitivas digitações, repetitivo trabalho... Ah, este mundo maravilhoso sabe mesmo como se replicar.

Então nos tornaremos uma família bem sucedida. Obteremos todo o conforto oriundo de nosso consumismo exacerbado, impensado. Adquiriremos coisas sem saber suas reais funções; compraremos objetos que ajudem a nos manter sob o alinhamento da rotina semanal. Trocaremos objetos por outros objetos que a princípio parecerão importantes e mais modernos, mas na verdade este mundo maravilhoso não nos dará explicações para que possamos compreender as razões pelas quais temos que consumir tanto... Ora, isso não será preciso, porque estaremos protegidos e garantidos, basta que continuemos fazendo as escolhas certas.

Finalmente chegarei à minha tão aguardada vez da multiplicação. Serei eu a inserir outra vida no mundo que terá como desejo primordial, espelhar-se no pai. Depositarei minha semente numa mulher transformada em máquina de conceber. E esta gerará a vida que dará continuidade a este mundo maravilhoso. E enquanto eu me preparo para seguir para o limbo compulsório da previdência que me manterá vivo por mais algum tempo, terei o sentimento de missão cumprida, enquanto olho e vejo meu estimado filho contar a sua história deste mundo maravilhoso... É chegada a sua vez de narrar meu filho:

“No dia em que eu finalmente nascer, ah, ninguém me segura!”.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

RESENHA DE LIVRO – A DAMA FANTASMA


Sem mais delongas: homem é acusado de assassinar a própria esposa, encontrada morta em sua casa, e a única pessoa que pode ajudar a atestar sua inocência e livrá-lo da cadeira elétrica, é uma mulher sem nome, sem rosto, sem ao menos alguma testemunha que a tenha visto junto ao protagonista na noite em que ocorreu o assassinato. Em suma, ela é a DAMA FANTASMA do título.

Apesar de uma capa agradável e um autor famoso por sua obra JANELA INDISCRETA, foi por conta desta curta e intrigante sinopse que levei este livro pra casa. Cornell Woolrich tenta desenvolver uma trama envolvente e enigmática, mas seu protagonista é apático, embora não chegue a ser repugnante. O livro também possui alguns instantes confusos, principalmente da metade em diante. E embora tudo seja explicado no decorrer da leitura, acabamos aterrissando num final que prova que apenas manter o mistério não garante o brilhantismo da obra.

Aborrecido por conta de tumultos conjugais, Scott Henderson sai pra noite para espairecer, encontra uma moça que aceita lhe fazer companhia, mesmo sem que haja formalismos triviais como trocar nomes ou qualquer informação sobre o outro. O casal entra num acordo inusitado e passa algumas horas na noite de Nova York, curtindo os prazeres boêmios de maneira descompromissada. O problema começa quando Henderson chega em casa e da de cara com uma equipe policial já em processo de investigação por conta da esposa encontrada morta no quarto. O cara se torna o principal suspeito e a única pessoa que pode comprovar que ele não esteve em casa no instante do crime é uma mulher sem nome, a qual ele não se lembra de nada, nem sequer de detalhes físicos. E pra piorar a situação, a polícia investiga todos os recintos em que o casal esteve, onde as pessoas afirmam reconhecer Henderson, mas ninguém parece se lembrar da mulher que esteve em sua companhia.

A situação do pobre condenado se torna tão improvável, que em alguns instantes chegamos a pensar que estamos diante de um caso de insanidade e que o final descambará num crime de delírio psicopata... Nisso, a obra tem sua genialidade.

Uma das melhores cenas do livro fica por conta da narração de uma moça sentada no balcão de um bar, encarrando de maneira acintosa e causando constrangimentos no barman. A narrativa detalhista do autor, circunstanciando uma relação de pura intimidação oriunda de um ser a subjugar outro com seu irrefreável olhar, é simplesmente extraordinária.

Mas nem tudo são acertos, e Cornell parece perder o fôlego conforme a trama avança. Achei que o autor se enrola um pouco da metade em diante, inserindo situações embaraçosas orquestradas em sua maioria por um novo personagem que surge para tentar ajudar o amigo condenado à morte. A história muda e ficamos com este personagem e suas investigações confusas, até chegarmos ao desfecho que, embora não fora previsível, passou longe de ser brilhante.

A DAMA FANTASMA é um thriller policial com ótima premissa, diálogos funcionais, protagonistas apáticos, situações enfadonhas e um final morno. Tem como ponto alto a narrativa, mas acho que ficou devendo no modo com que algumas circunstâncias foram expostas.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

RESENHA DE LIVRO: A NOITE MAIS ESCURA DO ANO


Confesso que sustentei certa desconfiança quando chegou a vez de ler este A NOITE MAIS ESCURA DO ANO. Sim, pois alguém havia comentado na internet que o livro era religioso demais. E embora o autor Dean Koontz não tenha nenhum pudor em inserir uma veia religiosa em seu trabalho, meu pessimismo foi se desfazendo ao longo da leitura, mesmo que a experiência final é de ter terminado de ler uma obra mediana.

A trama possui personagens relativamente bem construídos. Os diálogos são convincentes e coesos, vez ou outra o leitor encontra sacadas irônicas que nos permite certa proximidade identitária. Amy Redwing é uma mulher com um passado misterioso, que encontrou na função de resgatar Golden Retrievers vítimas de maus tratos, um sentido em sua vida. Ela é ajudada pelo namorado, Brian McCarthy, mesmo que este considere a moça um tanto imprudente e impetuosa. E como só poderia acontecer em enredos dotados de certa profundidade, o velho Brian também possui um passado espreitando ao seu redor.

Uma coisa que gostei muito neste autor é quanto ao seu detalhismo elegante. Dean Koontz sabe construir cenários escritos com tamanha eloquência que acabam grudando na mente do leitor. Outro aspecto que me agradou bastante é a forma como ele discorre sobre uma literatura na qual cães são quase que protagonistas principais, mesmo perante essa dificuldade de narrar seres que não verbalizam, a história se tornou enriquecida pelas situações protagonizadas pelos animais. Os cachorros parecem mesmo cachorros, se é que esta definição tenha algum sentido... Mas acredito que do ponto de vista literário, só mesmo grandes narradores são capazes de dar vida a seres dotados apenas de linguagem corporal ou comunicação limitada.

Mas infelizmente a obra não é dotada somente de aprazimentos. E alguns aspectos incomodaram um pouco. O primeiro deles fica por conta justamente dos cães. E se a você também pareceu estranha a menção sobre o ofício da protagonista ser, de fato, resgatar Golden Retrievers abandonados ou que foram vítimas de maus tratos, eu passei grande parte da leitura procurando entender a lógica de uma organização empenhada em cuidar de uma raça específica, em vez de se ater a cães abandonados de um modo geral.

É claro que a explicação para isso é óbvia: o autor tem elevado fascínio por Golden Retrievers. No entanto, esta especificidade me fez pensar nos personagens como sendo agentes em prol de uma raça peculiar, e que os mesmos passariam batido se cruzassem com um vira-lata abandonado na rua. É uma espécie de limite do altruísmo.

A linguagem religiosa de fato está inserida com certa frequência, como foi observado pelo comentário que li na internet. Mas os caprichos dialogais e os detalhes enriquecidos das situações narrativas ofuscam os conceitos dogmáticos do autor, impedindo que estes incomodem muito. Talvez pior do que a mera inclinação mística de Dean Koontz, seja sua tentativa de construir características claras do que distinguiriam pessoas boas de ruins; o autor procura separar o joio do trigo como se seres humanos fossem constituídos por identidades de fácil percepção; como se a maledicência fosse inerente a certo tipo de pessoa.

A NOITE MAIS ESCURA DO ANO é uma literatura de ampla mescla estrutural. Possui alguns elementos dramáticos, doses de misticismo, sequencias de suspense policial e diálogos concisos e bem elaborados. É uma salada que talvez não agrade a todo tipo de leitor. Além de um desfecho com cara de posfácio, o que achei desnecessário... Mas é uma leitura que não decepciona, é cheia de instantes bem narrados e que deve agradar até aos mais exigentes leitores.

quarta-feira, 15 de março de 2017

CRÔNICA - A PERDA DA GENTILEZA


Quando um entediado demônio perguntou ao próprio diabo por que ele não estava mais preocupado em corromper e desviar a bondade humana, o tinhoso respondeu sem titubeio: “Não é preciso nenhum esforço de minha parte. Os homens já fazem isso bem melhor do que eu”.

O impulso humano em se parecer maior desperta a comparação e atiça a disputa. Esta comparação sucede-se até virar vício e daí surge a vaidade, que depois se transformar em inveja. Então nesse ponto já se perdeu a possibilidade de harmonia e a capacidade de discernimento... Sim, senhor diabo, não precisamos de você para nos destruir.

Recentemente comecei a tirar carteira de habilitação. Foi um presente da minha namorada, ao constatar que jamais farei isso por vontade própria. Nunca tive interesse por veículos automotores, embora aprecie algumas de suas praticidades. Mas foi durante uma das aulas de legislação, que comecei a entender as razões por trás desta minha particular aversão ao trânsito: o ódio generalizado que este ambiente desencadeia. E eu só soube disso porque um medo incontrolável aflorou em meu ser, no instante em que o professor exibiu um vídeo que documentava a violência no trânsito. Não a violência causada pelos trágicos acidentes, mas a violência orquestrada pela cólera aflorada nas pessoas que precisam dividir espaço tão escasso, onde caixas motorizadas tentam subjugar umas as outras.

Literalmente é uma guerra diária.

Outro exemplo notório da proliferação do ódio é a internet. E embora se trate de um espaço estrutural infinitamente maior, a internet tem se mostrado um antro de intolerância desenfreada. Por toda a Web se propagam vídeos de ataques a ideias, conceitos ou qualquer veiculação que instigue alguma forma de contradição; comentários odiosos cheios de preconceitos; ofensas sem nenhuma restrição; o desrespeito subjugando a ética da convivência... Talvez porque através de uma tela de computador nos tornamos infinitamente mais corajosos em expor o nosso inconformismo frente ao que nos é diferente. Ou simplesmente porque através da internet criamos avatares que camuflam e escondem nossa verdadeira face.

Vivemos numa sociedade de ininterrupta competição, como se todos os seres humanos ao redor fossem adversários em potencial. Não podemos baixar a guarda em nenhum momento porque o descanso é sinal de fraqueza; escolher por uma vida de menos obtenções ou apenas ter o suficiente é atitude de gente submissa. Somos uma sociedade inserida numa panela de pressão, prestes a explodir...

Ver toda essa intolerância às vezes desperta sentimento semelhante ao ocasionado pelo vídeo promovido pelo instrutor de trânsito: suscita o medo em meu ser... Medo das pessoas. E mesmo confessando este medo, eu sei que também faço parte deste universo maledicente. Aliás, o medo é um poderoso combustível para alimentar o ódio.

O desencadeamento da cólera humana só poderia resultar (entre cenários por nós já tão conhecidos de violências urbanas e guerras) num lugar áspero de desconfiança e ressentimento, onde a gentileza deixou de ser parte de nossa constituição.

Sobre um vetusto dito popular que infelizmente parece equivocado de que “gentileza gera gentileza”, paira sobre minha cabeça algo discrepante. Eu só consigo notar nesta teoria aparentemente ingênua, mais da maldade humana. A ideia de que uma ação cortês sucederá noutra, parte do pressuposto de que até mesmo as ações altruístas do ser humano não passam de barganha coletiva. Faremos algo gentil esperando sempre que algo semelhante nos seja devolvido. Não há espaço para a intenção despretensiosa. E quando essa gentileza dissimulada não acontece, nós aprendemos rapidamente a manifestar o ressentimento na forma de revide.

Procurando fugir do isolamento, as pessoas desenvolveram seus métodos de convivência baseados em modelos sociais de grupos, geralmente identificados por renda, religião ou futebol, pela melanina ou simplesmente por forma física. Grupos que se odeiam mutuamente, mas que talvez convivessem em maior harmonia, desde que cada um permanecesse no seu quadrado. No entanto, grupos sociais são pequenas esferas de uma infinita floresta suburbana, na qual tais grupos se dispersam para disputar espaço, seja na escola, nas estradas, no ambiente de trabalho, no supermercado, na fila do banco, na praça pública. Indivíduos pertencentes a distintos grupos, que se veem difundidos, pois precisam resolver questões cotidianas, acabam fazendo a leitura do outro como sendo uma realidade que tenta subjugar a sua própria, desencadeando um egoísmo que gera faíscas pérfidas de desconfiança.

Então semelhantes desconhecem-se, tornam a convivência dispersa por meio da indiferença: um lugar no ônibus que não é concedido; um desconto obsequioso que é negado a um carecido; um objeto ignorado que caiu no chão; uma fila furada na cara dura; uma cortesia sumariamente negada; ouvidos fechados ao que está fora da bolha.

Pra piorar, um elemento aprofundou ainda mais a desconfiança coletiva. E se não era possível que houvesse gentileza por meio da boa vontade, então devíamos encarar um inimigo em comum para que odiemos de mãos dadas. Este inimigo se chamaria “Governo”. Mas nem mesmo a asquerosa corja dos políticos foi capaz de nos unir ao redor de um objetivo comum...

O Governo que causaria aproximação com o semelhante, por meio de sua veia opressora, organizou-se em políticas partidárias que só elevou a polarização das bolhas em conceitos de direita e esquerda.

O grande Tácito, na Roma clássica, dizia que “os homens apressam-se mais em retribuir um dano do que um benefício”. Parece-me atual, pois enquanto estamos a acompanhar o porco gordo do capitalismo minando nossas conquistas, bravejamos uns com os outros e viramos as costas para aquele sujeito que votou no candidato X. E no meio do apocalipse diário fazemos da incivilidade o nosso maior hábito.

Ao ler um texto que me pareceu utópico de um psicólogo pacifista, ele disse que a gentileza anda de mãos dadas com a educação. E embora esta ideia pareça um tanto pertinente, percebo que mesmo um verbo tão próspero quanto educar, parece estar se perdendo em conceitos contraditórios. Houve um relativismo na forma com que ensinamos a cortesia. Afinal de contas, nem todo mundo merece amabilidade e demonstrar isso o tempo inteiro se tornou sinal claro de fraqueza.

Porque o Sistema exige que você seja forte;

Porque o seu grupo social admira sua valentia;

Porque se frear com seus compromissos será ultrapassado por seu vizinho;

Porque o sucesso é a linha de chegada dos corajosos.

Gentileza virou coisa de indivíduo incapaz. Sim, pois somente quando se está acuado ou enfraquecido é que olhamos para o lado e lá estão as ameaças. É quando a nossa impotência se eleva a patamares degradantes que dissimulamos e assumimos uma postura cortês; pechinchamos em busca de apaziguar as relações; largamos o osso apenas quando não temos mais dentes para continuar mordendo. No entanto, só o que queremos é galgar topos maiores, e quando o semelhante se mostrar um obstáculo, este será tratado como tal.

Fomos ensinados que gentileza inferioriza, enfraquece e demanda humildade, algo que não sabemos mais o que significa. Melhor é ser odioso e insensível porque nos deixa com a aparência de espertos e soberanos. Num mundo de desafetos é vantajoso parecermos inabaláveis para que ninguém pense em fazer xixi na nossa horta.

Então, o mesmo psicólogo cita em seu dócil texto que o maior exemplo da gentileza humana está nas situações de grandes catástrofes; que é nos momentos de maior dor que o ser humano demonstra seu altruísmo e que, segundo o texto, este ato é intrínseco de nossa espécie.

Sim, eu comungo desta ideia. E sem pensar nós estamos lá, enfiando nossas caras na lama para retirar alguém que foi soterrado num desastre. Não sei se isto é atitude de nossa natureza, mas se for verdade, então eu estarei ainda mais convencido de que estamos assassinando até mesmo a generosidade da nossa essência, em detrimento de obtenções superficiais ou de vantagens efêmeras, enquanto caminhamos rumo ao mais profundo umbral de nossa alma; a maldade difundida numa ética do avesso, de convivência relativa e dissimulada...

sábado, 11 de março de 2017

RESENHA DE LIVRO – PEQUENA ABELHA


Minha segunda incursão numa obra de Chris Cleave serviu para confirmar o que eu já suspeitava: ele é mesmo um excelente contador de histórias contemporâneas. Desde que li Ouro, obra menos notória do cara (vide resenha aqui no blog), fiquei maravilhado com a precisa condução narrativa e ótimos personagens. E neste PEQUENA ABELHA a elevada dose criativa se repete.

Este é o livro mais famoso de Chris Cleave e, de fato, merece todo o prestígio. Mas confesso que gostei mais de Ouro. E embora aqui o preciosismo literário do autor também seja fascinante, eu achei que em certa altura da trama, esta acaba dando relativa amornada. No entanto, mesmo que esta leve queda seja sentida, a obra como um todo permanece formidável.

A trama conta a historia de uma garota refugiada da Nigeria que tentou entrar clandestinamente na Inglaterra, mas acabou indo parar numa casa de detenção de refugiados. Alternadamente também acompanhamos a trajetória de Sarah, uma editora de classe média que apesar do sucesso profissional, leva uma vida infeliz. Logo no início da história algumas revelações já começam a entremear as duas protagonistas principais. Portanto, não dá pra falar muito sobre a trama pra não cometer nenhuma gafe. Só o que posso adiantar é que Chris Cleave constrói um enredo arrebatador e cheio de revelações, onde ninguém é impoluto ou irreprovável.

Narrado em primeira pessoa, cada capítulo possui uma protagonista como contista, sendo que meus capítulos favoritos são os narrados pela heroína que dá título à obra. Abelhinha é um doce de garota e seu ponto de vista comparativo, ao falar diretamente com o leitor sobre as diferenças e semelhanças de seu país com a Inglaterra são geniais.

Pois é quando estamos acompanhando o dia-dia de Sarah que achei que o ritmo da história acabou perdendo um pouco de brilho. Mas creio que mesmo este ato fora proposital, afinal, a personagem denota traços depressivos, o que acaba respingando na leitura.

Os personagens secundários também possuem características distintas e interessantes, mas mesmo sobre estes detalhes não poderei falar muito, pois posso acabar revelando detalhes que tirariam a graça de quem ainda vai ler. Um único sujeito que dá pra falar é do Batman; o pequeno filho de Sarah que é fascinado pelo herói dos quadrinhos. O moleque vive enfiado em fantasias do morcegão e passeia pela sua infância à procura de malfeitores para derrotar.

PEQUENA ABELHA é uma obra estupenda! É delicada, de personagens bem construídos e enredo coeso. E dentre as muitas mensagens que o livro propositalmente passa ao leitor, a que mais gostei é quanto da fragilidade humana poder interferir no meio em que ele está inserido; que ações desencadeiam em intermináveis efeitos imprevisíveis, neste mundo onde não existe heroísmo fundamentado, apenas seres humanos falhos tentando sobreviver ao caos da melhor forma possível.

quinta-feira, 2 de março de 2017

RESENHA DE LIVRO: SECREÇÕES, EXCREÇÕES E DESATINOS


Genialidade narrativa é condição afiançada nos contos do mestre Rubem Fonseca. E embora esta não seja a melhor compilação deste autor, podemos encontrar um pouco da textualidade eloquente que se tornou marca registrada e fez deste contista um dos maiores escritores do nosso país. Tirar o velho Rubem das prateleiras é ato garantidor de se estar levando pra casa um livro extraordinário, ou no mínimo desconcertante.

Mas para o caso de você ser um leitor que ainda não conhece o universo Fonsequiano, creio que este SECREÇÕES, EXCREÇÕES E DESATINOS não venha à ser o livro ideal para se iniciar este grande autor, justamente porque aqui as coisas tendem a ser menos extraordinárias e mais desconcertantes.

Narrados em primeira pessoa, praticamente todos os contos dessa obra possuem uma pegada coloquial que discorre situações de difícil abordagem, principalmente do ponto de vista literário. O Grande Rubem pega o leitor pelo braço e o conduz a uma viagem através dos resíduos fétidos não utilizáveis do corpo humano. E para suportar esta ordinária leitura é preciso uma dose cavalar de desatino, como sugere o título.

Faço esta observação porque apesar de ser outro bom trabalho do autor, este me parece um pouco ácido, o que pode comprometer a análise do leitor de primeira viagem; aqueles que ainda não conhecem o cunho enxuto e erudito de Fonseca.

Mas é do cara que estamos falando, portanto, o brilhantismo fica por conta da sincronia entre Rubem e leitor. E talvez para que esta coletânea seja bem digerida, é preciso que se tenha certa imparcialidade frente à sua premissa ousada e indecorosa... Porque algumas artes carecem de um olhar passivo e sensato para que sua beleza seja reluzida.

Um grande volume para se ter na estante. Principalmente para os leitores já íntimos da genialidade de Rubem Fonseca, ou aos ousados que procuram obras que estejam muito longe da zona de conforto e da mesmice literária.