sábado, 26 de janeiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – QUANDO NOSSO BOTECO FECHA AS PORTAS


Foi preciso elevado esforço para conseguir chegar ao final desta obra de título fraseado, trama sonolenta e personagens apáticos. Sinceramente nem sei explicar quais teriam sido as razões que me despertaram o interesse neste livro, talvez folheando algumas páginas eu tenha gostado de sua essência coloquial... Enfim.

QUANDO O NOSSO BOTECO FECHA AS PORTAS é um trabalho morno para dizer o mínimo, que narra a primeira aparição de um personagem famoso, criado pelo autor Lawrence Block. Eu soube posteriormente que, embora aqui nos deparamos com a primeira história do detetive Matt Scudder, as aventuras mais famosas do personagem já haviam sido publicadas. Portanto, estamos diante de uma história que conta como tudo começou na carreira do herói, logo, os fãs do detetive devem ter gostado da obra.

Matt Scudder é um ex-policial que agora faz trabalhos particulares como detetive e passa a maior parte do tempo perambulando de um boteco para o outro, na irreverente Nova York do final do século XX. A bebedeira constante e que explica o título brega, nos remete à vida de um personagem estereotipado que aparentemente está entregue ao alcoolismo, muito embora isso não seja evidenciado pelo autor. E mesmo sob o efeito dos destilados, o detetive parte ao encontro com casos os quais foi contratado para resolver, transgressões típicas que ocorrem nas grandes metrópoles.

Infelizmente nada aqui funciona muito bem. E desconfio de que uma familiaridade com as aventuras do personagem em outros de seus livros, pudesse contribuir para deixar a trama menos insossa (mas é apenas uma hipótese, pois não li outras histórias dele). Matt é um homem com poucas personalidades que despertem alguma atenção, também não possui nenhuma originalidade. Sua aventura aqui não detém o característico clima desafiador que permeia os livros de cunho investigativo. Os diálogos são maçantes e não há nenhum personagem coadjuvante que ajude a resgatar o leitor dos constantes bocejos.

Vez ou outra podemos nos deparar com alguma situação em que o detetive vai ao encontro de uma pista aparentemente quente, o que faz surgir uma pontinha de esperança em relação à obra. Mas então na página seguinte encontramos Matt outra vez se embebedando num boteco qualquer, quase sempre na companhia de personagens esquecíveis.

E os referidos diálogos informais que supus terem me atraído, de fato estão lá. Contudo, a informalidade não é garantidora de um texto agradável. Se vale como leitura, como eu sempre costumo dizer? Talvez para os fãs da série do detetive Scudder. Mas sinceramente o mercado literário tem coisa boa demais para se ler. Não vale a pena perder tempo com esse volume que tropeçou no caminho entre os temas de investigação clássica e o drama existencial... Uma pena.

NOTA: 2,5

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – A VIAGEM DE ÍRIS


Num primeiro momento retirei este livro de uma esquecida prateleira de livraria porque estava procurando literatura juvenil para presentar uma amiga adolescente. E embora eu não seja muito inclinado a ler romances desse perfil, a sinopse e os primeiros parágrafos chamaram a minha atenção. Acabei por comprar o livro para mim mesmo (isso acontece muito quando estou à procura de um livro para dar de presente).

A VIAGEM DE ÍRIS conta a história de Callum e Iona, pequenos moradores de uma cidadezinha interiorana da Escócia. A amizade dos dois carece de que eles enfrentem algumas diferenças sociais que os distanciam (é neste ponto onde acontecem as situações mais previsíveis). Mas a superação de cada uma delas, somadas a um interesse em comum entre os dois personagens, eleva o valor da amizade e muda completamente a vida de ambos. A história possui outros elementos chaves também, mas não posso dizer pra não cometer spoiler.

A trama é simplista e usa os velhos chavões literários para suscitar comoção no leitor. E embora essa fórmula clichê acabe criando certo desconforto, a autora Gill Lewis narra essa história de amizade entre duas crianças de um modo que acaba agradando justamente por sua pegada singela; o livro sabe que é limitado, mas torna-se bom porque não inventa.

De fato, algumas situações exageram na previsibilidade e deixam evidente que estão inseridas na trama para fazer chorar. Mas a autora não excede; ela não força ao buscar comover e nem tenta ser engraçada nos instantes errados. A narrativa simplesmente deixa acontecer, sem jamais se esquecer de fazer sua lição de casa.

Em alguns momentos, de tanto prever o que estava por vir, chegou a pairar sobre mim a mesma sensação de quando estou assistindo a um episódio da série Chaves: estou cansado de saber o que vai acontecer na próxima cena, mas isso não impede que eu deixe rolar uma gargalhada pela milésima vez...

A forma com que a amizade entre Callum e Iona vai crescendo é até bonitinha, deixa um ar de inocência tanto na narração em primeira pessoa por parte de Callum, quanto no comportamento obstinado com que sua nova amiguinha lida com cada conflito que aparece no caminho. Contudo, mesmo aqui houve espaço para outro probleminha: os personagens soam superficiais e quase nunca dispendem de excessos que ajudaria a distingui-los em personalidades.

Já o final do livro acertou em não descambar para a pieguice. Contou o que precisava ser contado e terminou no momento certo, deixando a mente do leitor aberta para refletir sobre as possibilidades.

A VIAGEM DE ÍRIS não é um livro memorável e não trás nada de inovador. Mas sabe contar uma história sem exageros, optando por seguir com uma literatura leve, quase despretensiosa, que embora nos deixe com a sensação de “mais do mesmo”, consegue agradar pela honestidade narrativa.

NOTA: 6,1

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – CORPOS ELÉTRICOS


Por ser uma pessoa que lê demais, eu tenho o pretensioso hábito de achar que vou adivinhar o rumo de uma trama, já no seu comecinho. Foi essa a impressão que fiquei ao iniciar a leitura desse fabuloso CORPOS ELÉTRICOS: homem é atraído pela beleza exótica e aparência sôfrega de uma mulher dominicana a qual ele se depara dentro do metrô. Este acaso aproxima as duas existências discrepantes; de um lado o executivo bem sucedido, e do outro a imigrante pobre e cheia de problemas. Portanto, quando me deparei com esta temática tão desgastada eu achei ter pescado com precisão o que este livro queria contar.

Enganei-me completamente. O autor Colin Harrison (o cara é o marido de uma autora que gosto demais, a extraordinária Kathleen Harrison) logo nos tira do senso comum, para nos mergulhar numa narrativa que, de modo tangível, nos remete às duras incertezas contidas no ato de se inserir numa vida completamente desconhecida.

A diversidade de mundos sociais é mostrada aqui de forma bem construída e sem a intenção de tomar algum partido. CORPOS ELÉTRICOS é um livro que inicialmente parece dar a impressão de que estamos mergulhando numa espécie de 50 Tons de Cinza. No entanto, o autor sabe fugir desse caminho tolo e previsível. Colin Harrison prefere focar na problemática de um homem bem sucedido, porém, solitário, querendo recuperar perdas passadas e que ainda precisa encarar a turbulência desgastante de grandes fusões que estão para acontecer dentro da milionária companhia em que trabalha. Tudo o que ele menos precisa neste momento é se envolver com uma mulher cuja existência soa perigosamente incerta... E num habitual trajeto de metro, eles se esbarram.

A trama é permeada de reviravoltas, que acontecem de modo lento porque o autor é um pouco prolixo, algo que incomodaria caso a habilidade narrativa lhe escapasse. Seu personagem principal, Jack Whitman é um homem desacreditado e totalmente entediado com sua vida, e ele faz de seu trabalho uma espécie de válvula de escape existencial, canalizando todos os seus esforços na profissão como se isso pudesse afastá-lo do passado trágico.

A moça do metrô, Dolores Salcines é uma hecatombe humana; mulher cujo caos está descrito em seus próprios gestos, ela é uma existência sem perspectiva e parece lutar para fugir de algo. A construção psicológica entre os dois personagens é brilhantemente evolutiva, começa de modo arisco, pouco à vontade, e vai se transformando em algo íntimo, sem bases, mas cheio de expectativas, principalmente por parte dele, situação que inevitavelmente o faz entrar em choque com o passado misterioso da mulher.

A narrativa é intimista, porém não procura tomar partido ou induzir o leitor. Ela simplesmente vai desenrolando a história. Vomita situações na cara do leitor e apenas segue com sua linha ágil e intensa. Colin Harrison nos coloca de tal maneira na pele de Jack Whitman, que vez ou outra um nó de angústia se formou em minha garganta, assim como segurei para não chorar em duas situações. E o final, embora nada previsível, é de uma crueza que quase incômoda, como se o livro estivesse apenas terminando mais um capítulo.

CORPOS ELÉTRICOS é uma obra singular; um delicioso achado que fiz neste 2018 que se encerra. É um trabalho assombrosamente bem escrito, imprevisível e sensacionalmente sedutor.

NOTA: 8,9

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – VELHICE


Finitude, decrepitude, vetustez, ancianidade, longevidade... Talvez o título dessa reflexão tornar-se-ia um tanto politicamente correto, caso eu fizesse uso de um destes termos higienizados. Mas creio que nenhum deles consegue alcançar com a mesma precisão aquilo que o substantivo “velhice” suscita em nossas mente, após o ouvirmos ou lermos.

De maneira quase que inevitável nós repudiamos a velhice como se fosse um mal inescapável; uma punição dada a todo ser que achou que seria esquecido em algum canto pelo tempo. No entanto, eu nunca ouvi falar de alguém que ansiasse pela morte antes de ficar velho. Ninguém quer desembarcar desse mundo sem antes passar pela terceira idade, como se a longevidade fosse uma espécie de atestado de excelência; status de merecimento alcançado apenas por aqueles que superaram as muitas mazelas existenciais.

Velhice implica perda de capacidade motora, debilidade física e, principalmente, queda elevada daquilo que antes eram atributos estéticos. Mas a velhice também é lugar de discernimento, a idade onde há elevação da humildade, a perda considerável da ingenuidade e muitas vezes um ganho enorme na capacidade de fazer melhores escolhas... Portanto, tornar-se velho não é melhor ou pior do que as demais fases da vida. Ser velho é apenas mais uma fase da existência, que igualmente a outros estágios, possui suas vantagens e desvantagens.

Acho ótima a metáfora usada pelo historiador Leandro Karnal em um de seus excelentes Café Filosóficos, quando ele diz que estar num corpo envelhecido é como se tornar um excelente motorista de posse de um carro ultrapassado; agora que a mente adquiriu discernimento para saber o que fazer, não temos mais um corpo vigoroso que corresponda com a noção de ideal. O motorista (a mente) deixou de ser jovem e inconsequente, mas o carro (o corpo) agora é frágil e cheio de limitações. Simplesmente porque a verdade inegável é que não dá para se aprender a viver, para depois viver. Experiência se adquire em conformidade com o movimento... Mas se a velhice não é nada mais do que o último estágio banal de uma vida, porque há tantas pessoas que a temem como se fosse um agouro inevitável?

Talvez porque ao pensarmos na velhice sob a égide da vaidade, cresce dentro de nós o medo de perdermos tudo o que na juventude nos era considerado virtude: beleza física, desempenho sexual, disponibilidade e vigor natural. E embora possa ser facilmente identificado diversos atributos alcançáveis em seu ápice somente na finitude, nenhum deles parece tão atraentes quanto às características da preciosa mocidade.

Ou ainda pior do que o ego pela eterna jovialidade, talvez a velhice corresponda a fase em que o ser humano mais tema por conta de uma fatalidade: a morte. É por termos tanto medo de morrer que talvez a terceira idade nos pareça tão ameaçadora; sabermos que temos menos tempo pela frente do que tempo vivido pode ser uma constatação extremamente macabra.

Na antiguidade os velhos eram postos na condição de sábios e conselheiros da comunidade, sendo as observações destes velhos portadores de vasta experiência, a possibilidade de aumentar os acertos na hora de se tomar alguma decisão. Contudo, a juventude de nosso tempo, de posse da atual e notável tecnologia, é detentora de qualquer informação ao alcance de um clique... Mas como dizia o sábio filósofo Kant: “Informações servem apenas para ser refutadas”. Ou seja, sabedoria é saber o que se faz com as informações que adquirimos. E pode ser que somente nesta tão temerosa condição da velhice é que alcançaremos tal preciosidade; a sensibilidade intelectiva para discernir e transformar dados em qualidade de vida.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – A PRINCESA VERMELHA


Quando a autora Sofka Zinovieff recebe como inesperada herança um diário de sua avó, ela inicia uma obcecada e reveladora busca pela identidade de sua prestigiosa ascendente. Poder-se-ia imaginar que se trata de mais uma empreitada biográfica sobre extraordinários e corajosos indivíduos que viveram na caótica Europa do século XX, semelhante a tantas outras que permeiam o universo literário. E embora a premissa seja a de contar a história de sua avó, aqui a autora optou por uma narrativa mais documental.

Nesta decente obra Sofka Zinovieff, cujo nome é o mesmo da avó, percorre por um delicado estilo narrativo de contar toda sua experiência enquanto seguia os passos da ilustre ancestral, o que escapa um pouco do teor linear das biografias. Sofka visita pessoas, lugares e memórias e discorre sobre os diálogos trocados, as contradições com o diário que recebeu; relata os pontos importantes do passado de sua linhagem; absorve, de modo imparcial, as distintas opiniões adquiridas ao longo de toda a empreitada.

E justamente a imparcialidade é o ponto forte dessa autora. Ela não altera o que lhe foi relatado, mesmo quando tais explanações entram em contradição com suas teorias; Sofka passa o tempo inteiro fazendo analogias com as escrituras do diário, comparando-as com o testemunho das pessoas íntimas daquele tempo; entra em embate consigo mesma e ora chega a querer desacreditar algum testemunho, digamos, menos decoroso, mas no máximo cogita por alguma hipótese contraditória... Ela sempre reproduz o que viu e o que está no diário.

Outro aspecto que deu um charme a mais ao livro foram alguns aforismos espalhados ao longo de toda a obra; frases que a avó retirava dos livros que lia ou que ela simplesmente gostava. É muito agradável encontrar breves sentenças de teor filosóficas que ajudam a deixar a leitura menos maçante, principalmente porque aqui se trata de um trabalho que se assemelha demais a uma biografia.

Nascida na nobreza de São Petersburgo de 1907, Sofka (a avó) foi uma mulher que teve sua vida completamente transformada com a revolução comunista, depois viveu os tempos de horror da segunda guerra e da guerra fria. Sua família parece sustentar uma linhagem de gente notória pela coragem e determinação. O livro começa exatamente ajudando o leitor a compreender esse fato: os pais de Sofka, que também tiveram uma vida fascinante e cheia de altos e baixos, representam o passado que explica a mulher ousada e inteligente que escreveu o diário, o qual foi dado à neta que passa a o seguir em tempos distintos.

É um livro asseado e honesto, que consegue manter um teor narrativo bem menos entediante do que costuma acontecer com biografias. Achei um pouco extenso, mas perante tantos acontecimentos pertinentes, não sei se a neta autora conseguiria encurtar a obra. Vale a pena pra quem curte biografias e estilos documentais. Também aos interessados em explorar o início da revolução comunista através de um ângulo, digamos, mais factual.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – UM SOPRO DE VIDA


Em minha humilde e leiga opinião, Clarice Lispector é simplesmente a melhor autora da língua portuguesa que conheço. Seu teor existencialista submerge o leitor em profundidades reflexivas de forma quase que inalterável; Clarice é trajeto que deve ser percorrido novamente, pois o reencontro é sempre uma nova aprendizagem. Pelo menos é o que acontece comigo em quase todas as obras que li e reli.

Clarice é leitura que não envelhece; que não segue direção específica, que escapa do mero vislumbre narrativo tradicional para mergulhar nas agruras introspectivas do ser humano... Sem jamais fazer julgamentos ou tomar partidos. Gesto sem fórmulas. Apenas o ato de fazer refletir, ela é autora que dedicou-se a transitar através do intricado e misterioso íntimo humano.

Sua escrita não possui a pretensão de objetividade. De fato, a parte mais sublime de Clarice Lispector é seu próprio poder de submeter-nos à introspecção.

Nunca antes eu havia resenhado algum romance da mestra e posso dar duas razões pelas quais jamais me atrevi a explanar uma de suas obras: primeiro porque Clarice é um fenômeno de nossa literatura. E como tal, seus livros já foram incansavelmente resenhados por gente muito mais habilidosa do que eu. Em segundo lugar, sempre que eu termino de ler um de seus trabalhos, vejo-me com a sensação de que ainda ficaram pedaços esquecidos ao longo da leitura. Como se o livro ainda tivesse algo para me dizer... E quase sempre a releitura só comprova esta suspeita: Clarice é mesmo uma incursão inesgotável.

Isso leva a uma questão pertinente: por que então resolvi resenhar este nada menos que magnífico UM SOPRO DE VIDA?

Talvez pelo instante em que me encontro e o fluxo intenso de consciência despertado em meu ser, fez-me querer, de algum modo, ver ao menos este livro por mim resenhado. No entanto, acho que a principal razão seja o fato de que UM SOPRO DE VIDA foi a última obra escrita por Clarice e publicado apenas postumamente. E hoje, dia dez de dezembro, é o aniversário da autora. Então quis falar um pouco desta obra que, de fato, deixou-me com a sensação de que era Clarice, ela própria, externando-se a cada página que eu virava.

A trama é um embate introspectivo entre criador e criatura. O autor-narrador constrói uma personagem, Ângela Pralini, e com ela discorre, ao longo de toda a obra, diálogos apreensivos de auto reconhecimento, com sofisticadas notas de poesia em prosa. Os dois sustentam colóquios densos, profundos e irrequietos. Ora soam como aforismos, fragmentos isolados. Noutras situações parecem entraves tomados por uma filosofia existencial quase religiosa.

A interação diz muito em poucas palavras. O intuito de Clarice Lispector não é seguir linearidades, mas traçar um diálogo de consciências individuais que insere matéria e alma em plena sintonia... Provocando um incômodo profundo.

UM SOPRO DE VIDA é obra genial que responde à necessidade de se colocar tudo em questão sem repouso admissível; resgatar o leitor de seu horizonte conhecido para então inseri-lo num espaço imediato de desconforto e desafio de si mesmo... Através de sua literatura, Clarice coloca em risco o lugar comum do pensar. E talvez por isso tanta gente desconheça ou não se interesse por lê-la.

E se você ainda não é um caminhante do universo clariciano, vai aqui o meu único conselho: permita-se, humilde e despudoradamente. Exatamente como ela fez ao deixar seu legado literário:

“Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito”. (Um Sopro de Vida – pag. 17).

Feliz aniversário, querida Clarice!!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – MELANCOLIA


Neste atual mundo hedonista, vivemos na obrigação cotidiana de sermos felizes. Mas será mesmo possível que se estabeleça felicidade permanente? Seria a tristeza coisa de gente mal resolvida?

Para avançar ainda mais em tais questões problemáticas, poderíamos supor que muito pior do que a angústia por encontrar contentamento talvez seja a percepção de que a felicidade parece algo superficial; uma constante suspeita de que aquele que é alegre o tempo inteiro certamente não conseguiu enxergar a complexidade do universo ao seu redor.

A fuga da situação de sofrimento na vida cotidiana talvez esteja nos distanciado de um aprendizado aparentemente difícil de ser percebido: a capacidade de discernir sobre um conflito melancólico, ou a impossibilidade de se livrar de certas resistências sociais. Gosto da ideia de que a capacidade de percepção do mundo como ele de fato funciona talvez seja a condição primordial do ser melancólico. Sim, pois a elevação do discernimento elimina toda e qualquer possibilidade de exaltação, ansiedade, expectativa e, claro, de prazer.

Mas se tal constatação for assertiva, então a melancolia seria como uma espécie de sabedoria cruel. E então poderemos atestar o velho axioma que sustenta a ideia de que “a ignorância é mesmo uma bênção”. Porque se o indivíduo melancólico está correto em seu trono de dor, não há razão para querermos angariar conhecimento. Exatamente como pensam os atomistas: que a vida seria apenas um acaso, em que átomos e moléculas pairam aleatoriamente num espaço vazio.

No meu caso posso dizer que vivi uma vida, pelo menos até este presente instante em que escrevo, cujo principal intento foi evitar burocracias, estresses, ambições elevadas e desejos ardorosos. Procurei me esquivar dos abalos existenciais em provento da paz e tranquilidade de meu ser. Isso adentrou-me num amplo e perceptível estado de tédio, caracterizado justamente pela ausência de grandes obstáculos. E o que dizem alguns especialistas é que o tédio nada mais é do que uma fronteira muito estreita para a melancolia.

Contudo, acho que a elevação da lucidez não seja indicativa da perda total dos instantes alegradores no mundo. Portanto, o que talvez ocorra com um ser melancólico seja a sofisticação da felicidade; a redução do prazer que o torna, por sua própria raridade, um instante inesquecível e melhor aproveitado. Afinal de contas:

“Se os homens não tentassem ir além daquilo que suportam, certamente levariam vidas mais alegres” (Demócrito).

sábado, 3 de novembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – A MORTE TAMBÉM FREQUENTA O PARAÍSO


“Et in arcadia ego”, no original que o título fraseado significa, nos é apresentado logo no início desta decente obra de um autor que ainda não conhecia chamado Lev Raphael.

A MORTE TAMBÉM FREQUENTA O PARAÍSO é um romance policial, mas que foge aos costumes e maneirismos do gênero. Aqui encontramos uma mescla de suspense, comédia, novela e drama, não necessariamente nesta ordem, mas entremeados ao longo de suas trezentas páginas.

A trama conta a história de Nick Hoffman, um professor gay que leciona na Universidade Estadual de Michigam, palco do assassinato brutal de um aluno, ocorrido durante uma manifestação dentro das imediações da escola. De cara o leitor simpatiza com este personagem, por seu carisma, simplicidade e lucidez. Nick é o tipo de pessoa agradável em se ter como companhia numa mesa de bar. E sua natureza homossexual funciona muito bem para elevar a credibilidade. Ele se lança na investigação do rapaz morto, mas o faz de forma a compreender sua própria neurose em achar que a morte o persegue.

A junção deste atraente personagem com a narrativa diversificada foi o maior acerto do autor. A trama segue em primeira pessoa, ou seja, acompanhamos o que Nick está vendo, condição que nos remete aos conceitos e análises de alguém que é leigo em investigação. Isso é ótimo para aumentar a empatia com ele e também ajuda a narrativa a fugir dos termos técnicos que costumam chatear este tipo de gênero.

Lev Raphael possui uma pegada textual prolixa e cômica que me fez lembrar Marian Keyes em alguns momentos. E embora essa condução corra o risco de sustentar momentos maçantes, este autor consegue manter uma linha expositiva aprazível na maior parte do texto.

Um aspecto que pode incomodar um pouco é quanto às muitas referências feitas ao longo da história. Tanto narrador quanto personagens coadjuvantes recheiam a narrativa com citações e referências que vão desde o cinema, passam pelo pop e até culinária. Isso é comum quando se trata de um autor que conduz o texto de modo loquaz, mas a frequência exposta aqui me deixou com uma leve sensação de pedantismo.

No geral A MORTE TAMBÉM FREQUENTA O PARAÍSO é um livro simpático, de final nem um pouco arrebatador e amparado por uma trama que me fez dar boas risadas. Certamente farei incursões futuras das outras obras de Lev Raphael.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – GENTILEZA


Quando nos vemos como a última instância definidora da própria ação é que estamos condicionados a sermos gentis ou não. Respeitar a preferência de um idoso na fila do banco não é ser gentil, mas sim, permitir que alguém em desigualdade social obtenha o seu lugar, até porque muitas dessas situações cotidianas são garantidas por lei. Ser gentil de verdade carece da soberania do indivíduo. Ou seja, ajudar um deficiente a subir os degraus do ônibus coletivo num ponto lotado de pessoas pode não ser exatamente gentileza, mas simplesmente o medo da censura coletiva.

Somos uma sociedade tão rudimentar que para que algo incomum como a gentileza possa acontecer, é preciso que antes ela tenha um arquétipo; um rosto. E que este rosto nos pareça simpático, ou nos comportaremos da forma que nos é mais costumeira: seremos rudes.

Em nosso universo imediatista e egocêntrico, a gentileza se tornou um gesto de subversão e de resistência. Uma árdua luta contra um coletivo opressor que nos obriga a sermos rudes e insensíveis. E quando insistimos em aplicar a utopia da gentileza, então terminamos com uma desconfortável sensação de estarmos sendo trouxas; de que todos estão nos passando para trás.

A indelicadeza, sentido contrário do ato gentil, pode ser notada em quase todos os âmbitos da sociedade, e o trânsito, lugar de disputa acirrada de muitos carros em poucas ruas para se andar, pode ser tomado como um notório exemplo de espaço tomado quase que totalmente por gente truculenta. A gentileza entre os motoristas em geral é quase uma quimera.

O respeito pelo semelhante, ou a falta do mesmo, talvez seja o defeito menos visível em nossa convivência. Outro dia, ao parar no posto para calibrar os pneus do meu carro, dois rapazes chegaram numa motocicleta e perguntaram, com caras de aflição, se eu iria calibrar os quatro pneus. Eu avisei que, além dos quatros pneus, o estepe também precisaria ser calibrado. Diante do olhar decepcionado dos rapazes, já cogitando subirem na moto para procurar outro posto, eu cedi minha vez e deixei que eles calibrassem primeiro. Mas aqui vale uma pergunta: será que eu teria dado o meu lugar de bom grado, caso eu estivesse atrasado para algum compromisso? Ou se em minha intolerância eu os considerasse como sendo dois folgados que precisam aprender a esperar pela sua vez como todo mundo?

Afinal de contas, parece que cada vez mais precisamos de leis que nos obriguem a sermos gentis. E foi sustentando esse pensamento que consegui a incrível façanha de concluir que estava vivenciando um episódio dificílimo para se aplicar a gentileza: eram rapazes saudáveis, jovens, prontos para ir a alguma festa e possivelmente tinham todo o tempo do mundo para esperar. Ou seja, eu estava de posse de deliberar pela gentileza sem nenhuma instância legal que me obrigasse a fazer isso.

Acredito que a convivência em sociedade acontecerá muito melhor se adicionarmos óleo em suas engrenagens. E esse raro óleo chama-se gentileza. Os dois rapazes me agradeceram pelo gesto cortês e talvez tenham seguido viagem com a impressão, mesmo que momentânea, de que a humanidade ainda tem salvação. Só espero que eles tenham passado a gentileza recebida adiante, para que esta se torne um hábito coletivo, até todos nós sermos respingado por esta tão desejada corrente do bem.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

RESENHA DE LIVRO – CARREGANDO O ELEFANTE


Talvez esta seja uma de minhas resenhas mais pessoais e menos técnicas feitas recentemente. Portanto, se estiver procurando sugestão a fim de saber se você deve ou não ler este CARREGANDO O ELEFANTE, receio que tudo o que estiver escrito aqui não lhe servirá como indicativo.

Começo fazendo esta observação por uma razão que considero crucial: embora não tenha gostado muito do livro, estou convencido de que este é um conteúdo de inserção eficientemente básica àqueles que estejam procurando um ponto de partida para entender a nossa ardilosa e dissimulada política atual.

CARREGANDO O ELEFANTE é um livro cujo conteúdo expõe de modo simplificado as razões pelas quais o Brasil não consegue sair do lamaçal fétido e vergonhoso o qual os nossos governantes nos atolaram. Aqui podemos encontrar os princípios básicos da problemática econômica e social, as agruras de um sistema centralizador, o nosso atual Estado insondável e os privilégios faraônicos que gozam os nossos governantes. Atrevo-me a dizer que o conteúdo é tão trivial que poderia ser usado até como ferramenta inicial para os estudantes que estão ingressando no ensino médio (lugar que infelizmente ainda se encontra completamente obscuro se pensarmos em política e economia).

Portanto, os autores Alexandre Ostrowiecki e Renato Feder aparentemente fizeram este trabalho numa tentativa nobre de alcançar o leitor leigo que ainda olha para os costumeiros autores que escrevem sobre política como se eles fossem alienígenas incompreensíveis. Eis então o motivo que me leva a crer que este livro não deve jamais ser desprezado: toda e qualquer tentativa de reverberar e expandir a mente propositalmente obscurecida da maioria dos brasileiros será sempre uma proposta bem-vinda.

Outro aspecto positivo é que os autores disponibilizaram a versão e-book gratuitamente no site deles, o Ranking Político. Aliás, eu considero este site ferramenta ainda melhor e mais eficaz até do que o livro. Nele se pode avaliar, num ranking de pontos pensado pelos organizadores do site, a eficiência de cada parlamentar eleito em nosso atual congresso.

Mas como resenhista eu preciso salientar que nem tudo são acertos. O livro apresenta alguns problemas estruturais e conceituais. A diagramação é feia, mas em se tratando de um conteúdo gratuitamente disponibilizado, isto não chega a ser um problema (eu li em formato e-book). Bem mais incômodos são os muitos erros gramaticais ao longo de toda a obra.

Já em relação ao conceito, sabemos que não se trata propriamente de erro, mas sim de discordância. Por toda a narrativa os autores explicitam de forma contundente que a privatização seria incontestável solução para o país. E opiniões à parte, sobre, isso o que incomoda é que eles apenas apontam a referida direção, mas não aprofundam em argumentos. E embora saibamos que de fato alguns aspectos sociais não fazem sentido continuar sendo mantidos sobre responsabilidade estatal, é preciso cautela para outros, cuja sugestão de privatizar carece de maior discernimento.

Por fim, eu reforço que este livro vale muito como conteúdo inicial para leitores que querem uma primeira proximidade com a literatura de política. Contudo, para os especialistas neste tema (obviamente não me incluo neste grupo, por isso quis ler a obra) o livro não detém os aparatos científicos que ajudam a refletir com maior propriedade a nossa tão complexa política brasileira.

sábado, 29 de setembro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – FRACASSO


Nossa sociedade moderna privilegia e exalta quase que de modo obcecado a ideia de sucesso, o que nos faz querê-lo com a mesma obstinação que este dogma ressoa desde sempre. Ter sucesso todos os dias deve ser condição de vida boa e elevá-lo a se ter menos hoje do que teremos amanhã é obrigação do homem bem sucedido.

Afinal, a obtenção de sucesso nos é identitário do resultado de esforços, satisfaz por conta do reconhecimento externo de alguma virtude ou conquista por nós alcançados. Sucesso enobrece e nos faz querer continuar crescendo.

No entanto, apesar de ninguém o desejar e muito menos se sentir satisfeito quando de sua chegada, é talvez inegável que o fracasso eleve muito mais o ser humano do que o sucesso. É um pensamento conclusivo? Logicamente não, assim como nenhum outro deste quadro. Mas é pertinente para pensarmos se o fracasso de fato nos humaniza mais do que o sucesso. Porque embora pareça absurdo, o fracasso é talvez o ponto em que estamos mais inclinados a reconhecer a nossa falta de humildade, a perceber em quais aspectos estamos errando, e também a levar em consideração a inevitável contingência.

Enquanto isso, a progressão do sucesso pode elevar a vaidade, alterar nossa percepção de cuidados, nos deixar relapsos quanto à noção do esforço. Conquistas sucessivas e constantes podem nos dar a impressão de que somos maravilhosos e irreprováveis. E embora isso também não seja regra incontestável, algumas vezes um pouquinho de fracasso é bom para nos fornecer humildade.

É claro que a sucessão de fracassos também pode ter efeitos nocivos por nos deixar completamente desmotivados, derrubar toda a nossa estima, frustrar-nos a ponto de não querermos seguir por determinadas escolhas ou até mesmos nos fazer pendurar de vez as chuteiras.

Lucidez e discernimento perante este mal, porque é sim um mal estar no fracasso. Contudo, insucesso nos será útil no sentido de enxergarmos na derrota alguns conselhos sobre como lidar desse ponto em diante, trazer-nos a noção de nosso tamanho e até nos livrar da perigosa noção de achar que devemos ter sucesso ininterrupto.

Porque muito embora todos nós queiramos e trabalhemos em prol do sucesso, seja ele profissional, familiar, afetivo, social, sabemos bem que cada entrave com o qual esbarrarmos ao longo de nossa jornada, deveria ser interpretado como um estágio à reflexão. Estes intervalos são momentâneos e logo se abrem num sujeito ainda mais observador de si mesmo, mais cauteloso e, acima de tudo, menos iludido com a oratória moderna de que sucesso precisa ser estabelecido de modo sistemático e indefectível.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – O RETRATO DE DORIAN GRAY


Normalmente não me sinto à vontade em fazer resenhas dos clássicos que leio, por dois motivos: muitas vezes não detenho a sutileza que a obra merece ao ser lida; e também porque acho que seja desnecessário resenhar algo que já foi amplamente analisado por gente muito mais capacitada do que eu.

Mas resolvi abrir uma exceção para esta magnífica obra de Oscar Wilde, pelo simples fato de seu conteúdo ser tão atual aos nossos tempos. O RETRATO DE DORIAN GRAY é uma obra que nos remete à reflexão daquilo que nos é mais constante e infalível: a vaidade humana. O Dorian construído magistralmente por Wilde é o arquétipo perfeito do desejo pela juventude eterna.

Após ter sua imagem pintada num quadro, nosso herói lamenta profundamente a triste realidade de saber que, mesmo com o passar do tempo, a obra de arte permanecerá em eterno esplendor de sua beleza, enquanto Dorian obviamente envelhecerá como o limitado mortal que é. Desse ponto em diante, um pacto inesperado e misterioso tem início e o retrato passa a absorver a ação do tempo e miséria substancial de seu retratado. Dorian permanece jovem e belo, enquanto sua imagem no quadro envelhece sistematicamente.

O autor magistralmente cria um personagem notável em toda sua juventude ingênua e superficialidade aflorada. Dorian Gray fascina pela beleza, mas não é profundo ou sedutor, embora ambicione também o intelecto. O detentor do fascínio na obra fica com Lorde Henry, meu personagem favorito e principal influência na construção de um Dorian tomado pelo ego.

Henry é reflexivo, erudito, possui aspectos misteriosos e quase sempre é capaz de convencer com seus conceitos impudicos. Ele consegue ser genial e irritante ao mesmo tempo, justamente por fazer convencer através de seu sofismo; possui o verdadeiro charme e elegância de um lorde, mas inveja arduamente a beleza de Dorian, assim como também lamenta a perda de sua juventude.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1890 e, ao que parece, os editores temiam que a história fosse indecente demais. Quando se lê a edição de nosso tempo é difícil pensar que este fora considerado indecoroso. Não há nada de grave, além da temática contumaz do apreço humano pela juventude. Mas Oscar Wilde chegou a ter problemas por conta desta obra que a crítica da época a considerou obscena e imoral. Um ano depois, o autor fez uma extensão do texto e o publicou como romance, inserindo um ótimo prefácio aforístico sobre a impecabilidade da arte.

A versão da obra que eu li corresponde a publicada por Nicholas Frankel no ano de 2011 e que é baseada no datiloscrito de Oscar Wilde que permaneceu inédito por mais de 120 anos. As versões anteriores tiveram suas publicações atenuadas em diversas referências consideradas impróprias para a época. A tradução para o português é de Jorio Dauster e ficou enxutinha e atual.

Aos meus olhos, este livro só poderia ser um clássico por se tratar de uma narrativa contínua em teor e premissa; um conteúdo perfeito de construção sutil da vaidade de um jovem rapaz, que igualmente ao mito de Narciso, faz de sua beleza estética o objeto primordial de idolatria. Perfeito!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIAS DA NOITE


A sinopse desta obra promete narrativa com ares das 1001 Noites e uma linguagem repleta de poesia. O autor nasceu em Damasco, cenário de toda a trama, contudo, cresceu na Alemanha onde se dedicou a literatura e atualmente é membro da Academia de Belas-Artes da Baviera.

Bom, diante de referências excepcionais como estas, é difícil pensar que iremos nos enganar quanto ao bom conteúdo da obra. No entanto, se as referências árabes estão de fato permeando a história e o autor detém consagração já sendo traduzido para várias línguas, devo dizer que este HISTÓRIAS DA NOITE, quando atingiu instantes elevados, não passou de uma leitura morna, prolixa, sem nenhuma poesia e creio que 1001 noites era um temor imaginário de que esse seria o tempo que eu levaria para chegar ao término da leitura.

Que me desculpem os leitores que gostaram da obra, mas por maior que fosse minha paciência e boa vontade, houve um instante, já perto do capítulo final, que eu ansiava, quase implorava pelo final da maçante trajetória de um cocheiro de Damasco chamado Salim.

Considerado pelo povo local o melhor contador de histórias da região, o velho Salim se encontra em apuros quando, ao ver-se inserido em situação tão utopista quanto os causos que sempre contou, é acometido por uma mudez incurável. Então sete de seus amigos (o autor sustenta certa obsessão com o número sete) resolvem fazer de tudo para devolver a voz à Salim e, como deve acontecer numa boa premissa de fantasia, eles resolvem fazer isso contando histórias “maravilhosas” que magicamente destravarão a língua do amigo.

Desse modo, o leitor é levado a acompanhar sete histórias cheias de misticismo, mitologia regional e incursões fabulosas contadas pelos personagens. Daí se explica o título da obra.

O aclamado autor, Rafik Schami, quase consegue engatar um bom texto logo no início, quando nos entrega um conto decente narrado pelo amigo de Salim que inicia a proposta de ajuda (veja que aqui os contos são narrados pelos personagens sem que estes estejam na primeira pessoa); trata-se de uma história encorpada e cheia de fantasias legais, as quais até nos permite relevar o teor um pouco cansativo da narrativa. Contudo, os demais personagens contistas são chatos, previsíveis e beiram o insuportável quando tentam ser engraçados, salvo apenas o amigo conhecido como “O Imigrante” que por ter vivido noutro país, faz uma breve, porém agradável comparação entre as diferenças culturais entre os Estados Unidos e a Síria.

Não chega a ser uma obra de todo ruim. HISTÓRIAS DA NOITE consegue funcionar em alguns instantes em que expõe sua literatura fantástica. Só que é uma pena o fato de que em sua maior parte o texto é maçante e nos deixa com a sensação de que o autor é inseguro em sua premissa; ele não sabe o que quer contar e, por consequência disso, seus personagens contistas herdam esta mesma dificuldade.

sábado, 4 de agosto de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – DESEJO


Quando eu era bem jovem, lá no início da adolescência, escutava meus prazerosos rocks em fitas cassetes, muitas delas gravadas de programação de rádio com direito até aquelas malditas vinhetas que o locutor insistia em soltar antes do término da canção. Depois vieram os dvds e aí a coisa ficou bem mais agradável; não havia mais vinhetas horríveis, músicas quebradas, eu agora poderia comprar meus discos favoritos, mas como a grana era sempre curta, eu mandava gravar e ficava tudo ótimo... Então, eis que surgiu a internet, e com ela vieram vídeos, as mídias em MP3, os recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados... Atualmente, tenho um vasto acervo de música cuja maior notoriedade é mostrar o quanto continuo desejando acumular rock, e cada vez mais insatisfeito ou deprimido por pensar que está me faltando algo...

Ou seja, minha antiga precariedade que se resumia em algumas fitas K7 gravadas sem nenhuma qualidade notória, foi substituída por arquivos de alta qualidade, vídeos em HD, shows com áudio que fidelizam a precisão das guitarras, e eu continuo querendo mais.

Os budistas têm razão quando dizem que desejar incessantemente traz um grande problema: impede que eu note a beleza do lugar em que me encontro.

O desejo irrefreável nos torna infeliz. Porque dentro dessa perspectiva interminável do querer, eu deixo de apreciar o que está ao meu alcance, torna meu olhar inclinado a ver apenas o pior de cada situação, por melhor que ela tenha se transformado em relação há outros tempos, exatamente como ocorreu com a evolução das mídias de rock que eu tanto amo.

É claro que a ausência total de desejo, ou seja, uma pessoa que não cobiça absolutamente nada está fadada a passar a vida inteira estagnada num lugar perigoso conhecido como zona de conforto; pessoas desprovidas de desejo não avançam, não realizam nada...

Portanto, se sempre haverá algo a se desejar, se sabemos de nossa eterna insatisfação com tudo, então o problema não está em querer algo, mas como quase costumeiramente ocorre, somos nós o grande empecilho de nós mesmo, simplesmente pela falta de equilíbrio.

Precisamos nos livrar da ânsia por consumir de forma desenfreada e irracional, pois somente desse modo conseguiremos adentrar na apreciação daquilo que temos, sejam virtudes, conquistas ou bens materiais. Pois como advertia o filósofo Nietzsche: “Em última análise, ama-se o nosso desejo, e não o objeto desejado”. Tomara que consigamos superar isso.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

RESENHA DE LIVRO – UMA MULHER EM BERLIM


As guerras não são apenas o resultado fatal da ganância de um povo. Conflitos bélicos significam a hecatombe máxima orquestrada por tiranos idealistas que de algum modo chegaram ao poder deste mesmo povo. E como resultado quase que inescapável testemunha-se a miséria total de nações devastadas por ideais sempre, mesquinhos, ilógicos e desumanos.

Esta definição propositalmente totalitária tem por intuito demonstrar o quanto penso ser injustificável a violência entre nações. E embora possam ter existido exceções ao longo da história da humanidade (não consigo pensar em nenhum caso no momento), talvez a natureza caótica dos homens pudesse ser consideravelmente amainada se antes de levantar armas, eles pudessem ler os relatos de pessoas comuns que vivenciaram a desgraça de perto.

UMA MULHER EM BERLIM possui exatamente esse poder: o de fragilizar o leitor a ponto de fazer com que a noção de ganância e vaidade humana paire constante na superfície de sua mente; faz-nos sentir o asco perante a maledicência desnudada dos homens.

Trata-se do diário catastrófico de uma berlinense que relatou seus dias de trevas, entre as datas de 20 de abril até 22 de junho de 1945, a indescritível miséria de se viver numa cidade devastada pela guerra. As precárias condições em que pessoas (principalmente mulheres e crianças) precisam lidar diariamente causa vergonha porque estamos vendo de muito perto o resultado da ganância humana, a falta de compaixão e o despotismo impiedoso de invasores sobre invadidos.

É fácil compreender porque a autora optou por se manter anônima: ao longo de todo o diário se repete ininterruptamente realidades como: estupros coletivos, fome constante, prostituição como meio de sobrevivência. É uma narrativa fria, minuciosa, porém, triste e pesada; que conta os dias difíceis enfrentados pelas mulheres que estiveram em Berlin no final da guerra quando o exército soviético tomou conta da capital alemã.

Embora o teor seja pessoal como geralmente acontece nos diários, creio que este livro sustente um viés documental de fundamental importância, pois relata de maneira despudorada o sofrimento de mulheres alemãs que se viram encurraladas numa cidade ausente de seus homens que foram mandados para morrer no front de batalha, à mercê da crueldade do exército inimigo. E como ainda existem poucas vozes femininas testemunhando guerras, UMA MULHER EM BERLIM deve ser preservado por ser um relato muito forte da perda na dignidade feminina em nome da sobrevivência.

A autora se mostra dotada de elevada erudição; chega até a fazer citações filosóficas, reflete sobre a complexidade humana e sabe conduzir uma narrativa que, embora triste e crua, flui coesa e bem escrita. Mas admirável mesmo é sua coragem e sanidade em documentar, mesmo perante tempos cruéis que levam o ser humano a vivenciar seus próprios limites.

Se esta é uma obra de difícil digestão, certamente que sim. Mas testemunhos peculiares da guerra como este precisam ser difundidos e conhecidos pela posteridade. Para que ao menos a barbárie humana seja confrontada em pé de igualdade com algo quase utópico quanto o altruísmo.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – MISOGINIA


Certa feita estava eu numa delicatessen tomando cerveja sofisticada demais para o meu mirrado orçamento (eu só estava lá a convite do meu chefe, aliás, creio ter sido esta a primeira vez em que entrei nesta loja), quando surgiu no meio dos lustrosos clientes da classe média, uma cena que me chamou a atenção.

Havia surgido um assunto em que um dos clientes defendia a tese de que para ser um bom vendedor de cerveja é preciso antes que se goste de cerveja. Veja que o assunto havia começado porque o atendente que procurava nos oferecer as distintas marcas importadas era uma mulher que alegou inocentemente não gostar de beber.

Tentei timidamente argumentar que discordava; que um comerciante de quadros não carece de ser um Botticelli para se tornar um exímio vendedor. Logicamente, o sujeito não gostou nem um pouco da minha réplica dizendo que meu exemplo não era válido. Então, o cara elevou sua empáfia e salientou que era um ótimo vendedor de carros porque é também um apreciador dos possantes que vende. Em seguida veio o ápice de sua prepotência: ele andou até o balcão onde se encontrava a pobre atendente, segurou em seu queixo e soltou a seguinte pérola: “é claro que um rosto bonito como este ajuda muito no atendimento. Mas se quiser vender cerveja, primeiro você precisa gostar”.

Perceba que essa história vem permeada de alguns detalhes que talvez aconteça diariamente sem que notemos: o cliente se mostrou desconfortável por receber sugestões de cerveja de uma mulher e tal situação lhe pareceu inaceitável quando ela confessou que não bebia. Em seguida, o malquisto foi até ela e fez o comentário sobre sua aparência estética, coisa que não teria acontecido se o vendedor da loja fosse um homem que não bebe... Mas eis que ali naquela loja que vende coisas de homens, se encontrava uma atendente mulher, e o cliente machista olhou-a de cima pra baixo com o característico patriarcalismo típico dos homens.

A misoginia é talvez o preconceito mais antigo de que se têm notícias. Podemos constatar essa ideia se analisarmos as escrituras de religiões milenares, principalmente as monoteístas. E mesmo se buscarmos aforismos de pensadores brilhantes da humanidade, não é difícil encontrar a repulsa excessiva contra as mulheres. Poderia citar alguns como Nietzsche, Schopenhauer, Erasmo de Roterdã e toda a filosofia grega...

O episódio que mencionei na loja de cervejas talvez não tivesse ocorrido caso o arrogante cliente tivesse discernimento de seu ato; Talvez até já existam homens se envergonhando ao identificar em suas ações a misoginia... Talvez. Mas a verdade é que este tipo de preconceito continua tão forte culturalmente que ele acontece o tempo todo e de forma quase natural.

Mas basta irmos buscar dados estatísticos ou cognitivos para que a falácia machista caia por terra. As corretoras de Seguros de automóveis já aprenderam esta lição. E propositalmente uso esta referência para cutucar um pouco mais o cliente da delicatessen. Sim, pois as agências de seguros há muito já oferecem consideráveis descontos para clientes mulheres porque estatisticamente elas praticamente não se metem em acidente, numa proporção de dez ocorrências com homens para uma com mulheres. Ué, e aquele papo de que “mulher no volante é igual a perigo constante”? Tenhamos cautela, principalmente porque para um preconceituoso existir, é preciso que algo na vítima concorde com ela.