domingo, 7 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – AS PALAVRAS DE SARAMAGO


Descobri a literatura do escritor português Jose Saramago através de um de seus mais notórios trabalhos: Ensaio Sobre a Cegueira. Obra que dispensa introdução, deu-me a precisa noção do exímio prosaísta que estava diante de minha leitura. Ensaio Sobre a Cegueira é um tapa na cara da hipocrisia social; uma metáfora para algo que há muito se perdera em nossa desgastada convivência: a lucidez.

E um estupendo romancista, autodidata, humanista, íntegro, pacifista, vencedor do Nobel de Literatura, só poderia se tratar de um sujeito cuja biografia vale à pena ser lida. Porém, muito melhor do que as já tão repetitivas biografias, quis apostar neste AS PALAVRAS DE SARAMAGO, um imenso aglomerado de pensamentos e entrevistas fragmentadas que o autor deu ao longo de sua vida, e que nos ajuda a ter uma noção do que é este universo Saramaguiano de modo a não nos cansar com extensas linearidades de sua vida... Biografias enchem o saco justamente porque costumam relatar demasiadamente aquilo que não precisa ser relatado.

Sim, pois como era um racionalista sentencioso e imaginativo, Saramago falava o que pensava de modo simples e direto. Como ele próprio dizia, sustentava um desejo irrefreável de provocar as pessoas, mas sem jamais se anular pela responsabilidade do que dizia. Fica então registrado, mais uma vez, meu apreço por livros que possuem uma proximidade semelhante a biografias, mas que nos entregam um conteúdo melhor e menos enfadonho. AS PALAVRAS DE SARAMAGO reúne o que havia de melhor no mestre português: sua opinião corajosa em diversos assuntos, deixando pequenas introduções em cada tema, que ajuda a conhecer um pouco mais a mente dilatada deste autor (isso para o raro leitor que nunca ouviu falar deste gênio).

Saramago discorre sobre diversos temas. Vai desde Azinhaga, Terra onde nasceu, fala um pouco sobre seu país, sobre ética, Deus, morte, literatura, Prêmio Nobel... Enfim. É um prato cheio para quem deseja pormenorizar assuntos a partir do ponto de vista de um escritor tão talentoso. Meus capítulos favoritos foram Mulher, Pessimismo, Escritor, Religião...

O responsável por trás dessa ótima coletânea em forma de aforismos é o ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera. É um trabalho extenso que certamente careceu de extrema dedicação para ser realizado. Pois o que Fernando nos entregou aqui foi um competente trabalho de curadoria ao passar o pente fino em jornais, revistas, entrevistas diversificadas e outras mídias onde Saramago deixou suas declarações. Aqui há tanto pensamento e análise do escritor homenageado, que pode até soar um pouco cansativo para alguns leitores. Aliás, este é o único e pequeno problema da obra: tem tanta coisa reunida aqui, que hora pode soar repetitivo.

Para quem curte os romances do cara e tiver a ousadia de confrontar o universo polêmico e provocador do mestre, vale muito à pena ter essa pérola em sua estante. Exatamente como o próprio Saramago nos sugere:

“Nós somos muitas coisas, mas somos, sobretudo, a memória que temos de nós mesmos, e o diário, neste sentido, é uma espécie de ajuda à memória”.

NOTA: 8,6

quinta-feira, 21 de março de 2019

RESENHA DE LIVRO – SENHORA DA VINCI


Como de costume, encontrei este livro de forma despretensiosa, enquanto vasculhava um Sebo neste país afora. E muito me interessam os autores que se propõem a escrever sobre mulheres do passado que, jogadas às sombras da nossa história, estiveram à mercê do patriarcalismo. Mesmo sendo estes autores, profissionais que escrevem ficção.

SENHORA DA VINCI é um trabalho que, de cara denota ousadia: narrar a vida de uma personagem quase sem nenhum documento histórico existente e que trouxe ao mundo um dos homens mais importantes da humanidade, Leonardo da Vinci. Restou-me retirar a intrépida obra da prateleira e descobrir se a autora Robin Maxwell foi feliz ao realizar este feito.

E talvez o veredito possível seja: sim e não... Vamos começar pelos acertos:

O livro sabe fazer com que o leitor entenda que aqui estamos viajando através do início do renascimento; período dos mais importantes para o movimento artístico da história. A narração em primeira pessoa faz diversas referências ao longo da trama, sempre mantendo seu ponto de vista pessoal, ou seja, nem um pouco técnico, o que é bom para humanizar os relatos.

Os capítulos finais escaparam do previsível e de sacadas clichês. A autora foi assertiva em deixar a trama seguir sem inserções românticas, estereotipadas, nem ficou tentando causar comoção no leitor, o que é muito bom. Há um capítulo em que acompanhamos uma descrição ótima que acontece sobre uma das pinturas de Leonardo, em que sua mãe posa para ele (não se trata de um fato histórico, mas eu adorei esse momento da trama).

O livro também começa muito bem: não perde o foco no cotidiano modesto de Caterina (a mãe de Leonardo). Ela é uma mulher entusiasmada, que teve a sorte de ser criada por um pai que não limitou a educação da filha só porque ela era uma mulher. O livro fala com coragem do abandono do pai biológico de Leonardo e do preconceito social daquela época. Se algumas situações se trataram de inserções hipotéticas da autora, não importa; o fato é que deu muito certo, a leitura sustenta instante de deliciosa fluidez.

Infelizmente esta desenvoltura funcionou somente até o momento em que o filho ilustre nasce. É aí que começam os problemas da obra.

SENHORA DA VINCI parece não conseguir se livrar da aura brilhante que envolve Leonardo, mesmo não o elevando à condição de personagem principal, ele segue por toda a trama como se fosse um escopo; aquilo que se tem por finalidade. Robin Maxwell acaba tendo dificuldades em manter o carisma de Caterina, tornando-a uma mera expectadora da vida do filho pomposo.

Mesmo nos instantes em que Leonardo da Vinci sequer aparece, sua mãe (que como já mencionei, é a narradora da história), se comporta de forma diminuta, quase submissa. Nos instantes em que ela fala de Leonardo, ou até de outras figuras ilustres de seu tempo, a narrativa se torna sôfrega, algo quase servil. Caterina os descreve como se fossem deuses impávidos e perfeitos... Um comportamento patético e desnecessário que quase me fez abandonar a leitura.

Incomodou-me também a persistência em se narrar alguns dos feitos de Leonardo. Como se isso fosse obrigatório para o desenrolar da história. Veja bem: o caso é que não estamos falando aqui de um livro sobre Leonardo da Vinci, mas de sua mãe. Portanto, verificar demais a obra do filho elevou o senso de desvalia da personagem principal; reduziu-a à condição de mera coadjuvante.

Infelizmente também não é muito difícil nos depararmos com erros gramaticais e descuidos de revisão, mas isso não chega a incomodar tanto.

SENHORA DA VINCI é um livro que falhou por não saber escapar do glamour em torno do filho famoso daquela que deveria ser a verdadeira personagem principal. Funciona quando a autora se concentra na história, mas no contexto geral, temos aqui apenas mais um romance pouco aproveitado, tanto no sentido ficcional quanto histórico.

NOTA: 5,2

segunda-feira, 11 de março de 2019

RESENHA DE LIVRO – UM DIA


Meu interesse nesta obra tão consumida e comentada pelos leitores brasileiros se deveu à mera rendição: depois de tantos elogios e declarações inflamadas de devoção a este volume (inclusive de críticos que se levam a sério), de várias comparações com livros que gostei; de ouvir que a trama era insinuante como raramente se encontra na literatura moderna; concluí que este trabalho de David Nicholls só poderia se tratar de leitura peculiar e indispensável...

Mas calma lá, porque a coisa não é assim, tão impecável.

Aqui temos um romance dos tempos atuais que conta a história de dois amantes os quais seus eventos primordiais ocorrem no dia 15 de julho (ou eles se absorvem em devaneios nesta data). Portanto, a premissa é fazer com que acompanhemos tudo o que aconteceu na vida desde maçante casal, num resumo que se passa sempre no dia 15 de julho de cada ano.

A pegada é bem novelesca e o autor, já nas primeiras páginas, evidencia que sua literatura não tem a premissa de chegar a lugar algum (isso não é algo propriamente ruim, pois a falta de linearidade costuma funcionar perfeitamente bem nas mãos de alguns autores que sabem trabalhar com narrativas randômicas). UM DIA é um livro morno e cansativo, que te obriga a atravessar longa e árdua leitura que o conduzirá até um desfecho igualmente insípido e apagado, cujo único prazer é a noção de termos finalmente chegado ao seu término.

Vale salientar que a narrativa não é de todo ruim; o autor, embora demasiado prolixo, sabe sugerir ao leitor aquilo que se propõe a contar. Os diálogos também são críveis e, vez ou outra, até provocam alguma graça. No entanto, seu aspecto água com açúcar, repetitivo e alienado a personagens que não cativam, suscita demais o enfado porque nada acontece em momento algum. E o leitor segue acompanhando com aquela impressão de que logo ali na frente algo se encaixará com o que foi lido e tornará relevante todas as centenas de frivolidades que fomos obrigados a engolir.

Mas não. Nada acontece em quase momento algum. Os capítulos são esquecíveis, quase todos os dias 15 de julho poderiam ser resumidos em muito menos relatos banais. A trama leva os personagens às mais distintas situações existenciais, talvez no intuito de explicar os resultados e escolhas de cada equação de suas vidas. Só que tudo isso teria funcionado melhor se a narrativa fosse mais sucinta. A maioria dos capítulos está lá para absolutamente nada. Eu poderia ter ocasionalmente pulado alguns capítulos que o ato em nada teria interferido na compreensão do texto ou em seu desfecho final.

Já os dois protagonistas, Dexter e Emma, são apáticos e não possuem elementos que os identifique com a construção do romance. A única condição que parece os tornar apaixonados um pelo outro é a conveniência, pois qualquer outra existência que aparece na vida de cada um deles é propositalmente pior do que a enfadonha realidade que os cerca. Emma é uma mulher cheia de baixa-estima, principalmente em relação à cisma de encontrar um namorado e tenta encobrir seu espírito de porco bancando a descolada. Enquanto Dexter é um vaidoso metido a pegador, que ostenta sua jovialidade e um emprego como apresentador, condições que fazem com que olhe para o resto do planeta de cima para baixo. Cheio de infantilismo, ele logo se deixa submeter aos vícios em etílicos e entorpecentes, situação que o torna ainda mais insuportável.

O final tenta forçar a barra para causar comoção, típico de comédias românticas de sessão da tarde. Mas obviamente o abalo é previsível e clichê. Não faz do ato final algo que desperte um mínimo de reflexão no leitor.

UM DIA é um romance esquecível, de protagonistas que não combinam em nada, de uma trama que se arrasta em banalidades e marasmos que certamente servirá de soporífero ao leitor. Na mesma pegada novelesca, eu recomendaria os bons livros de Marian Keyes, que embora tenham tramas bem corriqueiras e até previsíveis, ao menos em se tratando dessa autora as gargalhadas estarão garantidas.

NOTA: 3,8

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – AMIGA DO DIABO


Penso que romances policiais carecem de personagens charmosos e atraentes, muito mais do que noutros gêneros literários, porque o clima geralmente pesado ou técnico demais precisa ser condensado com elementos que ajudem a trazer um pouco de desenvoltura à trama. O inspetor Alan Banks é, de fato, uma personagem que exala carisma, algo que pode ser facilmente notado já nas primeiras páginas deste decente AMIGA DO DIABO. Tanto que o livro chegou até a receber elogios do mestre Stephen King, condição que certamente eleva o personagem a ser digno de alçar o apogeu dos ilustres detetives de literatura noir... Será?

Não por acaso, o que tem de melhor neste livro é exatamente os bons diálogos entre personagens, é o que mais desperta o prazer da leitura. E esta presença agradável não carece apenas dos dois protagonistas principais, Alan Banks e Annie Cabbot, mas praticamente todos os colóquios estão recheados de imprevisibilidade, condutas singulares, sacadas inteligentes e boa dose de humor. A humanização interativa agrada bastante e nem é preciso ter lido alguma das aventuras anteriores do detetive; pode até soar estranho começar a leitura sem elementos que nos apresentem os personagens, como acontece neste livro, mas a empatia logo sobressai esta suposta limitação e o leitor se vê absorto numa imersão de situações que mesclam imprevisibilidade e distinção entre os envolvidos.

Na trama, dois assassinatos paralelos colocam o departamento de investigação a todo vapor; uma bela jovem é encontrada morta em um labirinto de pátios e becos escuros de uma região de periferia, enquanto a quilômetros dali uma mulher tetraplégica é degolada no alto de um penhasco. Inicia-se então uma tortuosa e obscura jornada investigativa para dar conta de ambos os casos. E alguma familiaridade pode haver entre eles.

Infelizmente é neste ponto que o livro acaba deixando um pouco a desejar. O enredo é, por completo, infestado de interrogatórios com suspeitos, possíveis envolvidos, testemunhas e afins, compromete a evolução textual deixando-a extensa demais. Mas calma, o livro não é ruim, principalmente e graças aos bons diálogos. Portanto, se você é daquele leitor que ama intermináveis inquéritos investigativos, detetives sondando a tudo e a todos, eis que você terá um prato cheio em mãos. Contudo, se você espera um pouco mais de ação, perseguições alucinantes, violência desenfreada, talvez este título o deixe um pouco entediado, enquanto espera por alguma fagulha ao longo de suas quase quinhentas páginas.

O livro explora muito pouco alguns dos personagens secundários que são por demais interessantes. Eu, particularmente gostaria de ter acompanhado um pouco mais de perto a detetive Winsome, uma moça que desde o primeiro instante em que surge na trama, deixa evidente que é uma mulher de muitas camadas. Contudo, acho que este foi o pequeno deslize cometido pelo autor Peter Robinson: ele foca demais no tema investigação e por consequência sobra pouco espaço para explorar os protagonistas secundários. Um infeliz desperdício.

De qualquer forma, fica anotada a indicação do titio Stephen: AMIGA DO DIABO é um baita romance policial, cuja leitura é fluida e instigante. Merece ser lido.

NOTA: 6,9

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

RESENHA DE LIVRO: BILE NEGRA


A premissa desta obra é até muito boa: através do olhar depressivo de seu personagem, Bile Negra tenta trazer à tona a complexidade existencial do ser humano. A trama segue envolta da história de Iago, um jovem que vivencia extremos de seu próprio vazio após se mudar para a cidade grande.

O clima é conduzido como se fosse uma narrativa terapêutica, o personagem principal expõe seus conflitos e emoções de forma crua e direta. Relatos que exploram o lado complexo e sombrio do homem, e no meio do caos, nós acompanhamos também outros personagem que vivem crises semelhantes. Tudo aqui parece ser de fato um documentário factual sobre pacientes que fazem terapia.

Pois é justamente neste aspecto que o livro acaba derrapando, ou melhor, exagerando um pouco.

Bile Negra foi escrita por um médico especializado em psiquiatria. Alexandre Loch conhece muito bem o terreno em que está pisando, sabe documentar de modo preciso a angústia inerente das pessoas. Mas lhe escapa uma pegada mais crônica e menos documental, exatamente o brilho que faltou para que sua obra progredisse do modo menos informativo e mais literal; a sedução lhe escapou por quase todo o texto.

Quando estamos acompanhando os relatos de Iago, quase podemos vislumbrar uma esplendorosa narrativa. Porém, o autor sai do personagem para forçar a barra com relatos contínuos de outros personagens que também foram acometidos pela obscura depressão. Isso não teria sido um problema, caso a obra seguisse por uma linha semelhante às dores desnudadas de modo informal e humanista, como acontece quando estamos diante dos relatos de Iago, mas Alexandre Loch opta por uma pegada mais informativa e técnica, deixando uma sensação de que estamos lendo um dossiê ou uma reportagem de jornal.

Mesmo assim, Bile Negra consegue ter vigor; em muitos instantes convida o leitor à reflexão pessoal e deliberar sobre os próprios entraves de sua existência. Só o que incomodou foi justamente a perceptível indecisão do autor, que pareceu não saber se queria entregar um romance dramático ou se uma sessão de terapia destinada à pacientes depressivos.

O último capítulo denominado “Libertação” parece expor de fato essa premissa: a narrativa da jornada do herói, que atravessa os estágios em formato de “U”, ascensão, queda e finalmente a reabilitação de si mesmo. Um claro intento da epopeia motivacional, quase uma autoajuda.

Bile negra é um livro bem intencionado e sabe como descortinar as mazelas do ser humano. A obra trabalha de modo eficaz no sentido do testemunho cru dos angustiados pela complexidade do viver. Mas faltou uma dose de profundidade narrativa, careceu de um pouco mais de sensibilidade pessoal em sua prosa, o que deixaria sua condução mais introspectiva, como tão bem o fazem autores como Clarice Lispector. E através do olhar melancólico do personagem, mergulharíamos sem volta na ausência da perseverança existencial.

NOTA: 5,2

sábado, 26 de janeiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – QUANDO NOSSO BOTECO FECHA AS PORTAS


Foi preciso elevado esforço para conseguir chegar ao final desta obra de título fraseado, trama sonolenta e personagens apáticos. Sinceramente nem sei explicar quais teriam sido as razões que me despertaram o interesse neste livro, talvez folheando algumas páginas eu tenha gostado de sua essência coloquial... Enfim.

QUANDO O NOSSO BOTECO FECHA AS PORTAS é um trabalho morno para dizer o mínimo, que narra a primeira aparição de um personagem famoso, criado pelo autor Lawrence Block. Eu soube posteriormente que, embora aqui nos deparamos com a primeira história do detetive Matt Scudder, as aventuras mais famosas do personagem já haviam sido publicadas. Portanto, estamos diante de uma história que conta como tudo começou na carreira do herói, logo, os fãs do detetive devem ter gostado da obra.

Matt Scudder é um ex-policial que agora faz trabalhos particulares como detetive e passa a maior parte do tempo perambulando de um boteco para o outro, na irreverente Nova York do final do século XX. A bebedeira constante e que explica o título brega, nos remete à vida de um personagem estereotipado que aparentemente está entregue ao alcoolismo, muito embora isso não seja evidenciado pelo autor. E mesmo sob o efeito dos destilados, o detetive parte ao encontro com casos os quais foi contratado para resolver, transgressões típicas que ocorrem nas grandes metrópoles.

Infelizmente nada aqui funciona muito bem. E desconfio de que uma familiaridade com as aventuras do personagem em outros de seus livros, pudesse contribuir para deixar a trama menos insossa (mas é apenas uma hipótese, pois não li outras histórias dele). Matt é um homem com poucas personalidades que despertem alguma atenção, também não possui nenhuma originalidade. Sua aventura aqui não detém o característico clima desafiador que permeia os livros de cunho investigativo. Os diálogos são maçantes e não há nenhum personagem coadjuvante que ajude a resgatar o leitor dos constantes bocejos.

Vez ou outra podemos nos deparar com alguma situação em que o detetive vai ao encontro de uma pista aparentemente quente, o que faz surgir uma pontinha de esperança em relação à obra. Mas então na página seguinte encontramos Matt outra vez se embebedando num boteco qualquer, quase sempre na companhia de personagens esquecíveis.

E os referidos diálogos informais que supus terem me atraído, de fato estão lá. Contudo, a informalidade não é garantidora de um texto agradável. Se vale como leitura, como eu sempre costumo dizer? Talvez para os fãs da série do detetive Scudder. Mas sinceramente o mercado literário tem coisa boa demais para se ler. Não vale a pena perder tempo com esse volume que tropeçou no caminho entre os temas de investigação clássica e o drama existencial... Uma pena.

NOTA: 2,5

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – A VIAGEM DE ÍRIS


Num primeiro momento retirei este livro de uma esquecida prateleira de livraria porque estava procurando literatura juvenil para presentar uma amiga adolescente. E embora eu não seja muito inclinado a ler romances desse perfil, a sinopse e os primeiros parágrafos chamaram a minha atenção. Acabei por comprar o livro para mim mesmo (isso acontece muito quando estou à procura de um livro para dar de presente).

A VIAGEM DE ÍRIS conta a história de Callum e Iona, pequenos moradores de uma cidadezinha interiorana da Escócia. A amizade dos dois carece de que eles enfrentem algumas diferenças sociais que os distanciam (é neste ponto onde acontecem as situações mais previsíveis). Mas a superação de cada uma delas, somadas a um interesse em comum entre os dois personagens, eleva o valor da amizade e muda completamente a vida de ambos. A história possui outros elementos chaves também, mas não posso dizer pra não cometer spoiler.

A trama é simplista e usa os velhos chavões literários para suscitar comoção no leitor. E embora essa fórmula clichê acabe criando certo desconforto, a autora Gill Lewis narra essa história de amizade entre duas crianças de um modo que acaba agradando justamente por sua pegada singela; o livro sabe que é limitado, mas torna-se bom porque não inventa.

De fato, algumas situações exageram na previsibilidade e deixam evidente que estão inseridas na trama para fazer chorar. Mas a autora não excede; ela não força ao buscar comover e nem tenta ser engraçada nos instantes errados. A narrativa simplesmente deixa acontecer, sem jamais se esquecer de fazer sua lição de casa.

Em alguns momentos, de tanto prever o que estava por vir, chegou a pairar sobre mim a mesma sensação de quando estou assistindo a um episódio da série Chaves: estou cansado de saber o que vai acontecer na próxima cena, mas isso não impede que eu deixe rolar uma gargalhada pela milésima vez...

A forma com que a amizade entre Callum e Iona vai crescendo é até bonitinha, deixa um ar de inocência tanto na narração em primeira pessoa por parte de Callum, quanto no comportamento obstinado com que sua nova amiguinha lida com cada conflito que aparece no caminho. Contudo, mesmo aqui houve espaço para outro probleminha: os personagens soam superficiais e quase nunca dispendem de excessos que ajudaria a distingui-los em personalidades.

Já o final do livro acertou em não descambar para a pieguice. Contou o que precisava ser contado e terminou no momento certo, deixando a mente do leitor aberta para refletir sobre as possibilidades.

A VIAGEM DE ÍRIS não é um livro memorável e não trás nada de inovador. Mas sabe contar uma história sem exageros, optando por seguir com uma literatura leve, quase despretensiosa, que embora nos deixe com a sensação de “mais do mesmo”, consegue agradar pela honestidade narrativa.

NOTA: 6,1

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – CORPOS ELÉTRICOS


Por ser uma pessoa que lê demais, eu tenho o pretensioso hábito de achar que vou adivinhar o rumo de uma trama, já no seu comecinho. Foi essa a impressão que fiquei ao iniciar a leitura desse fabuloso CORPOS ELÉTRICOS: homem é atraído pela beleza exótica e aparência sôfrega de uma mulher dominicana a qual ele se depara dentro do metrô. Este acaso aproxima as duas existências discrepantes; de um lado o executivo bem sucedido, e do outro a imigrante pobre e cheia de problemas. Portanto, quando me deparei com esta temática tão desgastada eu achei ter pescado com precisão o que este livro queria contar.

Enganei-me completamente. O autor Colin Harrison (o cara é o marido de uma autora que gosto demais, a extraordinária Kathleen Harrison) logo nos tira do senso comum, para nos mergulhar numa narrativa que, de modo tangível, nos remete às duras incertezas contidas no ato de se inserir numa vida completamente desconhecida.

A diversidade de mundos sociais é mostrada aqui de forma bem construída e sem a intenção de tomar algum partido. CORPOS ELÉTRICOS é um livro que inicialmente parece dar a impressão de que estamos mergulhando numa espécie de 50 Tons de Cinza. No entanto, o autor sabe fugir desse caminho tolo e previsível. Colin Harrison prefere focar na problemática de um homem bem sucedido, porém, solitário, querendo recuperar perdas passadas e que ainda precisa encarar a turbulência desgastante de grandes fusões que estão para acontecer dentro da milionária companhia em que trabalha. Tudo o que ele menos precisa neste momento é se envolver com uma mulher cuja existência soa perigosamente incerta... E num habitual trajeto de metro, eles se esbarram.

A trama é permeada de reviravoltas, que acontecem de modo lento porque o autor é um pouco prolixo, algo que incomodaria caso a habilidade narrativa lhe escapasse. Seu personagem principal, Jack Whitman é um homem desacreditado e totalmente entediado com sua vida, e ele faz de seu trabalho uma espécie de válvula de escape existencial, canalizando todos os seus esforços na profissão como se isso pudesse afastá-lo do passado trágico.

A moça do metrô, Dolores Salcines é uma hecatombe humana; mulher cujo caos está descrito em seus próprios gestos, ela é uma existência sem perspectiva e parece lutar para fugir de algo. A construção psicológica entre os dois personagens é brilhantemente evolutiva, começa de modo arisco, pouco à vontade, e vai se transformando em algo íntimo, sem bases, mas cheio de expectativas, principalmente por parte dele, situação que inevitavelmente o faz entrar em choque com o passado misterioso da mulher.

A narrativa é intimista, porém não procura tomar partido ou induzir o leitor. Ela simplesmente vai desenrolando a história. Vomita situações na cara do leitor e apenas segue com sua linha ágil e intensa. Colin Harrison nos coloca de tal maneira na pele de Jack Whitman, que vez ou outra um nó de angústia se formou em minha garganta, assim como segurei para não chorar em duas situações. E o final, embora nada previsível, é de uma crueza que quase incômoda, como se o livro estivesse apenas terminando mais um capítulo.

CORPOS ELÉTRICOS é uma obra singular; um delicioso achado que fiz neste 2018 que se encerra. É um trabalho assombrosamente bem escrito, imprevisível e sensacionalmente sedutor.

NOTA: 8,9

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – VELHICE


Finitude, decrepitude, vetustez, ancianidade, longevidade... Talvez o título dessa reflexão tornar-se-ia um tanto politicamente correto, caso eu fizesse uso de um destes termos higienizados. Mas creio que nenhum deles consegue alcançar com a mesma precisão aquilo que o substantivo “velhice” suscita em nossas mente, após o ouvirmos ou lermos.

De maneira quase que inevitável nós repudiamos a velhice como se fosse um mal inescapável; uma punição dada a todo ser que achou que seria esquecido em algum canto pelo tempo. No entanto, eu nunca ouvi falar de alguém que ansiasse pela morte antes de ficar velho. Ninguém quer desembarcar desse mundo sem antes passar pela terceira idade, como se a longevidade fosse uma espécie de atestado de excelência; status de merecimento alcançado apenas por aqueles que superaram as muitas mazelas existenciais.

Velhice implica perda de capacidade motora, debilidade física e, principalmente, queda elevada daquilo que antes eram atributos estéticos. Mas a velhice também é lugar de discernimento, a idade onde há elevação da humildade, a perda considerável da ingenuidade e muitas vezes um ganho enorme na capacidade de fazer melhores escolhas... Portanto, tornar-se velho não é melhor ou pior do que as demais fases da vida. Ser velho é apenas mais uma fase da existência, que igualmente a outros estágios, possui suas vantagens e desvantagens.

Acho ótima a metáfora usada pelo historiador Leandro Karnal em um de seus excelentes Café Filosóficos, quando ele diz que estar num corpo envelhecido é como se tornar um excelente motorista de posse de um carro ultrapassado; agora que a mente adquiriu discernimento para saber o que fazer, não temos mais um corpo vigoroso que corresponda com a noção de ideal. O motorista (a mente) deixou de ser jovem e inconsequente, mas o carro (o corpo) agora é frágil e cheio de limitações. Simplesmente porque a verdade inegável é que não dá para se aprender a viver, para depois viver. Experiência se adquire em conformidade com o movimento... Mas se a velhice não é nada mais do que o último estágio banal de uma vida, porque há tantas pessoas que a temem como se fosse um agouro inevitável?

Talvez porque ao pensarmos na velhice sob a égide da vaidade, cresce dentro de nós o medo de perdermos tudo o que na juventude nos era considerado virtude: beleza física, desempenho sexual, disponibilidade e vigor natural. E embora possa ser facilmente identificado diversos atributos alcançáveis em seu ápice somente na finitude, nenhum deles parece tão atraentes quanto às características da preciosa mocidade.

Ou ainda pior do que o ego pela eterna jovialidade, talvez a velhice corresponda a fase em que o ser humano mais tema por conta de uma fatalidade: a morte. É por termos tanto medo de morrer que talvez a terceira idade nos pareça tão ameaçadora; sabermos que temos menos tempo pela frente do que tempo vivido pode ser uma constatação extremamente macabra.

Na antiguidade os velhos eram postos na condição de sábios e conselheiros da comunidade, sendo as observações destes velhos portadores de vasta experiência, a possibilidade de aumentar os acertos na hora de se tomar alguma decisão. Contudo, a juventude de nosso tempo, de posse da atual e notável tecnologia, é detentora de qualquer informação ao alcance de um clique... Mas como dizia o sábio filósofo Kant: “Informações servem apenas para ser refutadas”. Ou seja, sabedoria é saber o que se faz com as informações que adquirimos. E pode ser que somente nesta tão temerosa condição da velhice é que alcançaremos tal preciosidade; a sensibilidade intelectiva para discernir e transformar dados em qualidade de vida.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – A PRINCESA VERMELHA


Quando a autora Sofka Zinovieff recebe como inesperada herança um diário de sua avó, ela inicia uma obcecada e reveladora busca pela identidade de sua prestigiosa ascendente. Poder-se-ia imaginar que se trata de mais uma empreitada biográfica sobre extraordinários e corajosos indivíduos que viveram na caótica Europa do século XX, semelhante a tantas outras que permeiam o universo literário. E embora a premissa seja a de contar a história de sua avó, aqui a autora optou por uma narrativa mais documental.

Nesta decente obra Sofka Zinovieff, cujo nome é o mesmo da avó, percorre por um delicado estilo narrativo de contar toda sua experiência enquanto seguia os passos da ilustre ancestral, o que escapa um pouco do teor linear das biografias. Sofka visita pessoas, lugares e memórias e discorre sobre os diálogos trocados, as contradições com o diário que recebeu; relata os pontos importantes do passado de sua linhagem; absorve, de modo imparcial, as distintas opiniões adquiridas ao longo de toda a empreitada.

E justamente a imparcialidade é o ponto forte dessa autora. Ela não altera o que lhe foi relatado, mesmo quando tais explanações entram em contradição com suas teorias; Sofka passa o tempo inteiro fazendo analogias com as escrituras do diário, comparando-as com o testemunho das pessoas íntimas daquele tempo; entra em embate consigo mesma e ora chega a querer desacreditar algum testemunho, digamos, menos decoroso, mas no máximo cogita por alguma hipótese contraditória... Ela sempre reproduz o que viu e o que está no diário.

Outro aspecto que deu um charme a mais ao livro foram alguns aforismos espalhados ao longo de toda a obra; frases que a avó retirava dos livros que lia ou que ela simplesmente gostava. É muito agradável encontrar breves sentenças de teor filosóficas que ajudam a deixar a leitura menos maçante, principalmente porque aqui se trata de um trabalho que se assemelha demais a uma biografia.

Nascida na nobreza de São Petersburgo de 1907, Sofka (a avó) foi uma mulher que teve sua vida completamente transformada com a revolução comunista, depois viveu os tempos de horror da segunda guerra e da guerra fria. Sua família parece sustentar uma linhagem de gente notória pela coragem e determinação. O livro começa exatamente ajudando o leitor a compreender esse fato: os pais de Sofka, que também tiveram uma vida fascinante e cheia de altos e baixos, representam o passado que explica a mulher ousada e inteligente que escreveu o diário, o qual foi dado à neta que passa a o seguir em tempos distintos.

É um livro asseado e honesto, que consegue manter um teor narrativo bem menos entediante do que costuma acontecer com biografias. Achei um pouco extenso, mas perante tantos acontecimentos pertinentes, não sei se a neta autora conseguiria encurtar a obra. Vale a pena pra quem curte biografias e estilos documentais. Também aos interessados em explorar o início da revolução comunista através de um ângulo, digamos, mais factual.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – UM SOPRO DE VIDA


Em minha humilde e leiga opinião, Clarice Lispector é simplesmente a melhor autora da língua portuguesa que conheço. Seu teor existencialista submerge o leitor em profundidades reflexivas de forma quase que inalterável; Clarice é trajeto que deve ser percorrido novamente, pois o reencontro é sempre uma nova aprendizagem. Pelo menos é o que acontece comigo em quase todas as obras que li e reli.

Clarice é leitura que não envelhece; que não segue direção específica, que escapa do mero vislumbre narrativo tradicional para mergulhar nas agruras introspectivas do ser humano... Sem jamais fazer julgamentos ou tomar partidos. Gesto sem fórmulas. Apenas o ato de fazer refletir, ela é autora que dedicou-se a transitar através do intricado e misterioso íntimo humano.

Sua escrita não possui a pretensão de objetividade. De fato, a parte mais sublime de Clarice Lispector é seu próprio poder de submeter-nos à introspecção.

Nunca antes eu havia resenhado algum romance da mestra e posso dar duas razões pelas quais jamais me atrevi a explanar uma de suas obras: primeiro porque Clarice é um fenômeno de nossa literatura. E como tal, seus livros já foram incansavelmente resenhados por gente muito mais habilidosa do que eu. Em segundo lugar, sempre que eu termino de ler um de seus trabalhos, vejo-me com a sensação de que ainda ficaram pedaços esquecidos ao longo da leitura. Como se o livro ainda tivesse algo para me dizer... E quase sempre a releitura só comprova esta suspeita: Clarice é mesmo uma incursão inesgotável.

Isso leva a uma questão pertinente: por que então resolvi resenhar este nada menos que magnífico UM SOPRO DE VIDA?

Talvez pelo instante em que me encontro e o fluxo intenso de consciência despertado em meu ser, fez-me querer, de algum modo, ver ao menos este livro por mim resenhado. No entanto, acho que a principal razão seja o fato de que UM SOPRO DE VIDA foi a última obra escrita por Clarice e publicado apenas postumamente. E hoje, dia dez de dezembro, é o aniversário da autora. Então quis falar um pouco desta obra que, de fato, deixou-me com a sensação de que era Clarice, ela própria, externando-se a cada página que eu virava.

A trama é um embate introspectivo entre criador e criatura. O autor-narrador constrói uma personagem, Ângela Pralini, e com ela discorre, ao longo de toda a obra, diálogos apreensivos de auto reconhecimento, com sofisticadas notas de poesia em prosa. Os dois sustentam colóquios densos, profundos e irrequietos. Ora soam como aforismos, fragmentos isolados. Noutras situações parecem entraves tomados por uma filosofia existencial quase religiosa.

A interação diz muito em poucas palavras. O intuito de Clarice Lispector não é seguir linearidades, mas traçar um diálogo de consciências individuais que insere matéria e alma em plena sintonia... Provocando um incômodo profundo.

UM SOPRO DE VIDA é obra genial que responde à necessidade de se colocar tudo em questão sem repouso admissível; resgatar o leitor de seu horizonte conhecido para então inseri-lo num espaço imediato de desconforto e desafio de si mesmo... Através de sua literatura, Clarice coloca em risco o lugar comum do pensar. E talvez por isso tanta gente desconheça ou não se interesse por lê-la.

E se você ainda não é um caminhante do universo clariciano, vai aqui o meu único conselho: permita-se, humilde e despudoradamente. Exatamente como ela fez ao deixar seu legado literário:

“Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito”. (Um Sopro de Vida – pag. 17).

Feliz aniversário, querida Clarice!!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – MELANCOLIA


Neste atual mundo hedonista, vivemos na obrigação cotidiana de sermos felizes. Mas será mesmo possível que se estabeleça felicidade permanente? Seria a tristeza coisa de gente mal resolvida?

Para avançar ainda mais em tais questões problemáticas, poderíamos supor que muito pior do que a angústia por encontrar contentamento talvez seja a percepção de que a felicidade parece algo superficial; uma constante suspeita de que aquele que é alegre o tempo inteiro certamente não conseguiu enxergar a complexidade do universo ao seu redor.

A fuga da situação de sofrimento na vida cotidiana talvez esteja nos distanciado de um aprendizado aparentemente difícil de ser percebido: a capacidade de discernir sobre um conflito melancólico, ou a impossibilidade de se livrar de certas resistências sociais. Gosto da ideia de que a capacidade de percepção do mundo como ele de fato funciona talvez seja a condição primordial do ser melancólico. Sim, pois a elevação do discernimento elimina toda e qualquer possibilidade de exaltação, ansiedade, expectativa e, claro, de prazer.

Mas se tal constatação for assertiva, então a melancolia seria como uma espécie de sabedoria cruel. E então poderemos atestar o velho axioma que sustenta a ideia de que “a ignorância é mesmo uma bênção”. Porque se o indivíduo melancólico está correto em seu trono de dor, não há razão para querermos angariar conhecimento. Exatamente como pensam os atomistas: que a vida seria apenas um acaso, em que átomos e moléculas pairam aleatoriamente num espaço vazio.

No meu caso posso dizer que vivi uma vida, pelo menos até este presente instante em que escrevo, cujo principal intento foi evitar burocracias, estresses, ambições elevadas e desejos ardorosos. Procurei me esquivar dos abalos existenciais em provento da paz e tranquilidade de meu ser. Isso adentrou-me num amplo e perceptível estado de tédio, caracterizado justamente pela ausência de grandes obstáculos. E o que dizem alguns especialistas é que o tédio nada mais é do que uma fronteira muito estreita para a melancolia.

Contudo, acho que a elevação da lucidez não seja indicativa da perda total dos instantes alegradores no mundo. Portanto, o que talvez ocorra com um ser melancólico seja a sofisticação da felicidade; a redução do prazer que o torna, por sua própria raridade, um instante inesquecível e melhor aproveitado. Afinal de contas:

“Se os homens não tentassem ir além daquilo que suportam, certamente levariam vidas mais alegres” (Demócrito).

sábado, 3 de novembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – A MORTE TAMBÉM FREQUENTA O PARAÍSO


“Et in arcadia ego”, no original que o título fraseado significa, nos é apresentado logo no início desta decente obra de um autor que ainda não conhecia chamado Lev Raphael.

A MORTE TAMBÉM FREQUENTA O PARAÍSO é um romance policial, mas que foge aos costumes e maneirismos do gênero. Aqui encontramos uma mescla de suspense, comédia, novela e drama, não necessariamente nesta ordem, mas entremeados ao longo de suas trezentas páginas.

A trama conta a história de Nick Hoffman, um professor gay que leciona na Universidade Estadual de Michigam, palco do assassinato brutal de um aluno, ocorrido durante uma manifestação dentro das imediações da escola. De cara o leitor simpatiza com este personagem, por seu carisma, simplicidade e lucidez. Nick é o tipo de pessoa agradável em se ter como companhia numa mesa de bar. E sua natureza homossexual funciona muito bem para elevar a credibilidade. Ele se lança na investigação do rapaz morto, mas o faz de forma a compreender sua própria neurose em achar que a morte o persegue.

A junção deste atraente personagem com a narrativa diversificada foi o maior acerto do autor. A trama segue em primeira pessoa, ou seja, acompanhamos o que Nick está vendo, condição que nos remete aos conceitos e análises de alguém que é leigo em investigação. Isso é ótimo para aumentar a empatia com ele e também ajuda a narrativa a fugir dos termos técnicos que costumam chatear este tipo de gênero.

Lev Raphael possui uma pegada textual prolixa e cômica que me fez lembrar Marian Keyes em alguns momentos. E embora essa condução corra o risco de sustentar momentos maçantes, este autor consegue manter uma linha expositiva aprazível na maior parte do texto.

Um aspecto que pode incomodar um pouco é quanto às muitas referências feitas ao longo da história. Tanto narrador quanto personagens coadjuvantes recheiam a narrativa com citações e referências que vão desde o cinema, passam pelo pop e até culinária. Isso é comum quando se trata de um autor que conduz o texto de modo loquaz, mas a frequência exposta aqui me deixou com uma leve sensação de pedantismo.

No geral A MORTE TAMBÉM FREQUENTA O PARAÍSO é um livro simpático, de final nem um pouco arrebatador e amparado por uma trama que me fez dar boas risadas. Certamente farei incursões futuras das outras obras de Lev Raphael.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – GENTILEZA


Quando nos vemos como a última instância definidora da própria ação é que estamos condicionados a sermos gentis ou não. Respeitar a preferência de um idoso na fila do banco não é ser gentil, mas sim, permitir que alguém em desigualdade social obtenha o seu lugar, até porque muitas dessas situações cotidianas são garantidas por lei. Ser gentil de verdade carece da soberania do indivíduo. Ou seja, ajudar um deficiente a subir os degraus do ônibus coletivo num ponto lotado de pessoas pode não ser exatamente gentileza, mas simplesmente o medo da censura coletiva.

Somos uma sociedade tão rudimentar que para que algo incomum como a gentileza possa acontecer, é preciso que antes ela tenha um arquétipo; um rosto. E que este rosto nos pareça simpático, ou nos comportaremos da forma que nos é mais costumeira: seremos rudes.

Em nosso universo imediatista e egocêntrico, a gentileza se tornou um gesto de subversão e de resistência. Uma árdua luta contra um coletivo opressor que nos obriga a sermos rudes e insensíveis. E quando insistimos em aplicar a utopia da gentileza, então terminamos com uma desconfortável sensação de estarmos sendo trouxas; de que todos estão nos passando para trás.

A indelicadeza, sentido contrário do ato gentil, pode ser notada em quase todos os âmbitos da sociedade, e o trânsito, lugar de disputa acirrada de muitos carros em poucas ruas para se andar, pode ser tomado como um notório exemplo de espaço tomado quase que totalmente por gente truculenta. A gentileza entre os motoristas em geral é quase uma quimera.

O respeito pelo semelhante, ou a falta do mesmo, talvez seja o defeito menos visível em nossa convivência. Outro dia, ao parar no posto para calibrar os pneus do meu carro, dois rapazes chegaram numa motocicleta e perguntaram, com caras de aflição, se eu iria calibrar os quatro pneus. Eu avisei que, além dos quatros pneus, o estepe também precisaria ser calibrado. Diante do olhar decepcionado dos rapazes, já cogitando subirem na moto para procurar outro posto, eu cedi minha vez e deixei que eles calibrassem primeiro. Mas aqui vale uma pergunta: será que eu teria dado o meu lugar de bom grado, caso eu estivesse atrasado para algum compromisso? Ou se em minha intolerância eu os considerasse como sendo dois folgados que precisam aprender a esperar pela sua vez como todo mundo?

Afinal de contas, parece que cada vez mais precisamos de leis que nos obriguem a sermos gentis. E foi sustentando esse pensamento que consegui a incrível façanha de concluir que estava vivenciando um episódio dificílimo para se aplicar a gentileza: eram rapazes saudáveis, jovens, prontos para ir a alguma festa e possivelmente tinham todo o tempo do mundo para esperar. Ou seja, eu estava de posse de deliberar pela gentileza sem nenhuma instância legal que me obrigasse a fazer isso.

Acredito que a convivência em sociedade acontecerá muito melhor se adicionarmos óleo em suas engrenagens. E esse raro óleo chama-se gentileza. Os dois rapazes me agradeceram pelo gesto cortês e talvez tenham seguido viagem com a impressão, mesmo que momentânea, de que a humanidade ainda tem salvação. Só espero que eles tenham passado a gentileza recebida adiante, para que esta se torne um hábito coletivo, até todos nós sermos respingado por esta tão desejada corrente do bem.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

RESENHA DE LIVRO – CARREGANDO O ELEFANTE


Talvez esta seja uma de minhas resenhas mais pessoais e menos técnicas feitas recentemente. Portanto, se estiver procurando sugestão a fim de saber se você deve ou não ler este CARREGANDO O ELEFANTE, receio que tudo o que estiver escrito aqui não lhe servirá como indicativo.

Começo fazendo esta observação por uma razão que considero crucial: embora não tenha gostado muito do livro, estou convencido de que este é um conteúdo de inserção eficientemente básica àqueles que estejam procurando um ponto de partida para entender a nossa ardilosa e dissimulada política atual.

CARREGANDO O ELEFANTE é um livro cujo conteúdo expõe de modo simplificado as razões pelas quais o Brasil não consegue sair do lamaçal fétido e vergonhoso o qual os nossos governantes nos atolaram. Aqui podemos encontrar os princípios básicos da problemática econômica e social, as agruras de um sistema centralizador, o nosso atual Estado insondável e os privilégios faraônicos que gozam os nossos governantes. Atrevo-me a dizer que o conteúdo é tão trivial que poderia ser usado até como ferramenta inicial para os estudantes que estão ingressando no ensino médio (lugar que infelizmente ainda se encontra completamente obscuro se pensarmos em política e economia).

Portanto, os autores Alexandre Ostrowiecki e Renato Feder aparentemente fizeram este trabalho numa tentativa nobre de alcançar o leitor leigo que ainda olha para os costumeiros autores que escrevem sobre política como se eles fossem alienígenas incompreensíveis. Eis então o motivo que me leva a crer que este livro não deve jamais ser desprezado: toda e qualquer tentativa de reverberar e expandir a mente propositalmente obscurecida da maioria dos brasileiros será sempre uma proposta bem-vinda.

Outro aspecto positivo é que os autores disponibilizaram a versão e-book gratuitamente no site deles, o Ranking Político. Aliás, eu considero este site ferramenta ainda melhor e mais eficaz até do que o livro. Nele se pode avaliar, num ranking de pontos pensado pelos organizadores do site, a eficiência de cada parlamentar eleito em nosso atual congresso.

Mas como resenhista eu preciso salientar que nem tudo são acertos. O livro apresenta alguns problemas estruturais e conceituais. A diagramação é feia, mas em se tratando de um conteúdo gratuitamente disponibilizado, isto não chega a ser um problema (eu li em formato e-book). Bem mais incômodos são os muitos erros gramaticais ao longo de toda a obra.

Já em relação ao conceito, sabemos que não se trata propriamente de erro, mas sim de discordância. Por toda a narrativa os autores explicitam de forma contundente que a privatização seria incontestável solução para o país. E opiniões à parte, sobre, isso o que incomoda é que eles apenas apontam a referida direção, mas não aprofundam em argumentos. E embora saibamos que de fato alguns aspectos sociais não fazem sentido continuar sendo mantidos sobre responsabilidade estatal, é preciso cautela para outros, cuja sugestão de privatizar carece de maior discernimento.

Por fim, eu reforço que este livro vale muito como conteúdo inicial para leitores que querem uma primeira proximidade com a literatura de política. Contudo, para os especialistas neste tema (obviamente não me incluo neste grupo, por isso quis ler a obra) o livro não detém os aparatos científicos que ajudam a refletir com maior propriedade a nossa tão complexa política brasileira.