quinta-feira, 13 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – REMÉDIO AMARGO


A temática proposta neste livro é amplamente rica. O universo da indústria farmacêutica é um espaço em que se é possível extrair inúmeros enredos, principalmente por se tratar de uma área científica que oscila entre a necessidade do desenvolvimento de medicamentos eficientes e o enriquecimento ilícito por conta da proliferação dos mesmos.

REMÉDIO AMARGO é engajado dentro dessa premissa: um laboratório renomado está lançando no mercado um novo produto para mulheres grávidas com a promessa de revolucionar a indústria e salvar a companhia da falência. E embora haja entusiasmo por parte dos colaboradores, paira um enorme medo de que se repita o fracasso de um medicamento similar no passado. No meio disso, acompanhamos a escalada da protagonista principal, Célia Jordan, uma mulher determinada que tenta superar o desafio do machismo no mercado de trabalho da década de 60, e usando de sua irrefreável ambição, galgar o topo da cadeia alimentar.

O autor aqui é o aclamado Arthur Hailey, que dispensa apresentações. Neste trabalho, que foi seu último em vida, temos uma trama muito técnica e cheia de intrigas dentro da temática proposta, mas que derrapa em alguns aspectos... Vamos a eles:

Como eu já mencionei, há aqui uma enorme explanação procedimental a cerca dos bastidores da indústria farmacêutica, o que comprova o engajamento do autor em pesquisar o assunto pretendido por sua obra. No entanto, Arthur Hailey parece mais preocupado com especificidades burocráticas e o funcionamento do sistema, do que propriamente em inserir complexidades éticas na conduta de seus personagens, algo que ajudaria a elevar a dúvida de forma constante na cabeça do leitor. A trama até nos mostra a problemática moral do interesse ganancioso na diretoria da indústria, mas o faz de modo superficial, parece algo unilateral que precisa estar ali, mas que não é isso o que deve ser contado.

O autor aparentemente está mais interessado em promover sua personagem principal. Célia é exaltada aqui de um modo insistente que quase fez da moça uma existência improvável; ela é impetuosa, forte, determinada, bela, altiva, perfeita, possui um instinto infalível de antecipar problemas e os coadjuvantes comportam-se de modo a exaltar isso com exagerada reverência e submissão. Arthur Hailey até chega a tentar inserir imperfeições em Célia, mas o faz de modo tímido e logo retoma os louvores inflamados a cerca de sua musa. Célia Jordan é retratada como se fosse uma heroína infalível de desenho animado; uma espécie arquétipo mitológico que o autor entrega de maneira patologicamente apaixonada... Sério, gente, isso cansa demais!

Outra coisa que me incomodou é condução extremamente prolixa. Há cenas aqui que são desnecessárias demais, como reuniões para tratar de assuntos com equipes de publicitários e advogados da companhia; instantes enfadonhos que quase me fizeram desistir da leitura e tornaram o livro assustadoramente extenso.

Os diálogos também não são orgânicos, eles deixam a impressão de que estamos lendo máquinas programadas que conversam entre si, sem a menor naturalidade ou improviso. Há aqui uma escassez enorme de sensibilidade narrativa. Um exemplo disso são as crianças, que quando surgem nos diálogos são artificiais como personagens de uma propaganda de margarina.

REMÉDIO AMARGO é um livro de título instigantes, conduzido por autor renomado e de trama que não soube explorar o extenso universo de seu tema. É um trabalho que passa suas quase quinhentas páginas tentando transformar a protagonista principal numa espécie de bond-girl, esquecendo-se de seus outros personagens que poderiam ter contribuído para elevar a dinâmica da história... Uma pena.

NOTA: 4,1

sábado, 18 de maio de 2019

RESENHA DE LIVRO – A MORTE DE IVAN ILITCH


Pensar sobre a morte nos aproxima de nossa humanidade porque se trata de tema a exigir que olhemos para nós mesmos; a noção de sua proximidade nos afasta daquilo que nos constituía como indivíduos sociais: bens materiais, profissão respeitável, requinte e vaidade. Então, resta apenas o retorno ao que nos é verdadeiro, o frágil e palpável insignificante ser humano; mesmo que isso nos ocorra de modo caótico.

A MORTE DE IVAN ILITCH, primeiro leitura que fiz do aclamado escritor russo Lev Tolstói, causou-me certo desconforto existencial, mais ou menos como tentei expressar na frase que inicia esta resenha. A ideia de inexistência da finitude parece soar como condição para que consigamos viver em paz. No entanto, como somos a única espécie da natureza que sabe que a ampulheta da alma escorre sua areia de modo ininterrupto, procuramos formas de nublar essa certeza, quase que de modo obstinado.

A trama nos coloca perto de um homem (O Ivan do título) que está em busca daquilo que considera essencial: os signos sociais permissivos à dignidade de sua existência. Então nosso herói é acometido de implacável doença e, de repente, se vê a beira da morte. Veja bem: aqui a resenha não está cometendo nenhum spoiler; não apenas o protagonista, como também o leitor sabe, desde o princípio, que Ivan irá morrer. E tal percepção não é o fio condutor do enredo, mas a desconstrução de um homem que, assim como todos os outros mortais, pensa que pode se esconder da finitude.

Sempre que pego um autor clássico o qual ainda não conheço, respiro fundo e busco invocar a máxima concentração possível, já prevendo que estou adentrando em território dificílimo de percorrer. Contudo, em se tratando de Tolstoi isso não aconteceu. O cara escrevia de modo simples e permissivo, como se a verdadeira genialidade da escrita se desenvolva por meio de relatos descomplicados e que nem por isso perdem o viés daquilo que se quer expressar. Fez-me pensar que a linguagem erudita muitas vezes é apenas sinônimo de pedantismo e a intenção vaidosa de tornar ideias pouco claras.

O livro é curtinho; da para chegar ao final antes que a segunda xícara de chá termine. Porém, isso provavelmente não acontecerá porque A MORTE DE IVAN ILITCH é um convite à reflexão; simplesmente não é possível percorrer estas páginas sem fazermos algumas pausas para olharmos com um pouco mais de sensibilidade para a nossa própria existência e o que estamos fazendo com ela.

É um raro livro que trata de amargo assunto em que estamos todos nós determinados. E embora a morte paire arrogante em toda sua inevitabilidade, talvez seja exatamente sua presença aquilo que mais nos aproxima do nosso lado mais orgânico; a percepção de que nada importa, somos apenas células insignificantes e irrisórias em busca de significado justamente onde não se pode haver: no desprezível acúmulo substancial de coisas.

NOTA: 8

sábado, 11 de maio de 2019

RESENHA DE LIVRO – HOMENS, MULHERES & FILHOS


Temos aqui um trabalho peculiar, difícil de ser recomendado, digerido ou rotulado. Mas aprovar ou abominar, embora pareça dividir leitores de modo equilibrado, nenhum dos lados pode contestar a faceta cruciante que o escritor Chad Kultgen sustenta, de uma sociedade alienada e confusa, que aparentemente sabe cada vez menos sobre aqueles seres que nela convivem, em essencial, aqueles que nos são mais próximos.

Eis a essência desta decente obra.

A priori a trama sugere algo inofensivo e parece denotar que temos em mãos só outro daqueles livros purpurinados, cujo estilo é o típico “bate e assopra” e acima de tudo, atesta aquilo que os adolescentes adoram ler: que eles são vítimas e estão vivenciando a pior fase de suas vidas...

Só que o buraco é bem mais embaixo. HOMENS, MULHERES & FILHOS traz ao leitor, de forma pungente, as incertezas dos adolescentes sim. Mas não se prende a esta fase unicamente e invade também o universo dos adultos, explicitando com textualidade intimista, sexual e despudorada, que ninguém neste planetinha cheio de gente sabe exatamente como lidar com as próprias mazelas existenciais; exibe-nos famílias pós-modernas, que cometem o equívoco de achar que compreendem a diversidade abundante do ser humano, pelo simples fato de se estar deliberando sobre um membro da família, ou pior, sobre si mesmos.

Talvez o que faltou para tornar este livro memorável fosse uma boa dose de profundidade nos aspectos naturais e psicológicos de cada personagem, mas é impossível não exaltar a coragem com que algumas problemáticas de nossa sociedade atual são atiradas na cara do leitor, como se fosse uma dolorida bofetada.

O livro possui muitos personagens, todos em condições iguais de importância e jogados de uma vez na narrativa. Isso teria sido um problema para o aspecto familiaridade, mas o autor soube conduzir a trama em subcapítulos curtos e com prosas ágeis, o que facilitou na hora de situar cada um deles.

As situações são bem críveis, alguns momentos chegam a incomodar um pouco. Há instantes em que a narrativa parece perder o freio e simplesmente vai contando tudo, de um jeito cru e quase pornográfico. O livro deixa claro que não quer entrar no lado imersivo de seus personagens, e sim, focar apenas em contar sua história.

Os personagens não desagradam nem nos deleitam. Inserem-se, de um lado ao outro, dentro de um cenário cheio de lacunas em que tentam esconder suas facetas: o ímpeto sexual, a competitividade juvenil, a impotência perante o trauma, condutas exóticas ocultas, o medo da sociedade julgadora. A trama não se prende em esmiuçar seus temas, mesmo assim, seguimos lendo pela vontade de saber como essa mistura caótica terminará.

O livro também tem seus probleminhas: algumas narrativas são cansativas, como por exemplo, as partidas da divisão escolar de futebol americano; momentos chatos e desnecessários para o entendimento. Poderiam ter sido resumidos ou cortados.

O desfecho de cada um dos personagens também é previsível demais. No entanto, isso não chega a incomodar porque a condução prosaica é simpática; a gente quer continuar lendo mesmo sabendo o que vai acontecer daqui a pouco.

O final trouxe uma explanação valiosa sobre causa e efeito no desfecho de um dos personagens. É bem neste ponto do livro que a mensagem maior sobre nada ser o que parece diante dos olhos se torna evidente.

HOMENS, MULHERES & FILHOS termina no momento certo; sem descambar para pieguices, nem reviravoltas comoventes... Coloca o inacabado em seu lugar ideal, restando-nos o árduo incômodo de sabermos que nada se encerra propriamente, que tudo é cíclico e que talvez seja essa a magia por trás da complexidade: a possibilidade de aprender a deixar de lado os anseios e vaidades, para quem sabe aprendermos a aceitar o diferente no outro.

NOTA: 7,1

segunda-feira, 29 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – O COMPROMISSO


Um texto quando parece sofisticado demais, muitas vezes deixa-nos com a sensação de que foi escrito por algum esnobe interessado apenas em receber meia dúzia de elogios por saber compor algo difícil de ser compreendido. Esse estilo pedante de linguagem por vezes não passa de literatura irrelevante e esquecível, disfarçada de erudição. E na contramão disso, é maravilhoso quando encontramos um livro que destila uma linguagem que simplesmente quer relatar algo, e que o faz de modo natural, direto... Tão direto que a crueza de seu conteúdo é o viés de seu encanto.

O COMPROMISSO é exatamente isso: uma belíssima aula de narrativa da vida em que você entende cada parágrafo, relatos diretos e imparciais de alguém que meramente quer contar sobre o cotidiano. É precisamente desse modo orgânico que transcorre a leitura de Herta Muller. O acaso nos faz sentar ao lado de uma mulher dentro de um bonde. De modo despretensioso, ela se vira e começa a contar seus relatos como se fosse meramente uma existência acumulada que precisa verbalizar; que precisa externalizar o que paira em sua mente, naquele exato instante em que suas memórias flutuam. Não importa quem é o ouvinte (leitor) que está ao lado dela. Então, essa mulher resiliente revela os pedaços de sua trajetória constrangedora sem pedir licença, sem clamar por sua opinião, sem explicar o que sente.

Após suas confissões espontâneas, essa mulher se levanta do lugar em que estava, despede-se e vai embora, deixando você inteiramente atônito e boquiaberto. Sobram-se apenas ouvinte (leitor) com sua frágil estrutura existencial completamente abalada por aqueles relatos; o ouvinte (leitor) compreende que inevitavelmente passará dias pensando sobre tudo aquilo que ouviu, justamente porque o imaterial era quase palpável.

A mulher em questão está justamente indo para O COMPROMISSO. Desse modo, ela toma o bonde outra vez, para mais um interrogatório humilhante às autoridades do regime ditatorial que perdura em seu país, sem saber se volta pra casa ou não; se será finalmente presa e torturada; sem saber como fará para esconder o ódio de seu algoz. Ela cometeu ato impensado de colocar bilhetes nos ternos da fábrica onde trabalhava, oferecendo-se em casamento para alguém que a livrasse da tirania opressora do Estado.

No entanto, mesmo diante da extraordinária e bela narrativa, O COMPROMISSO não é um livro para qualquer leitor. A história não transcorre linear, aqui não existe a preocupação em colóquios objetivos, mas sim, reflexões ásperas, linguagem direta e sóbria... Não há tempo para arrependimentos ou concessões.

A trama vai pra frente e pra trás o tempo todo, pode até causar certa confusão na imersão do leitor. Mas o intuito aqui passa muito longe de conclusões ou respostas; estamos diante de uma vida que aconteceu tanto, que ao término do relato, ficaremos com a sensação de que fomos preenchidos, não pela linearidade começo, meio e fim, mas justamente pela maneira com que o mundo te colocou no caminho dessa mulher e inevitavelmente você se saciou com sua história.

A leitura causa impacto, a continuidade de um choque após outro nos deixa apreensivos, a narração harmoniosamente simples, como quando ela examina os outros passageiros dentro do bonde que observa...

Texto legítimo é texto fácil de entender. Herta Muller transborda delicadeza, dá um show de literatura com seu livro, que de tão cândido, revela-se altamente resplandecente.

NOTA: 9

sábado, 13 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA


Um trio inusitado de investigadores com um objetivo em comum: desvendar o assassinato de uma mulher jovem, eventualmente encontrada por dois membros deste excêntrico trio. Trata-se de dois adolescentes que, ao matar o horário de escola, se embrenham numa mata onde encontram o corpo mutilado de uma bela jovem. Já o terceiro elemento do grupo é um distinto senhor, morador de um asilo e ex-preso político. Aos poucos, o inveterado grupo se reúne para seguir os rastros de uma vítima que esteve intimamente envolvida com personalidades políticas importantes da cidade.

A sinopse parece ser um prato cheio para um auspicioso livro de suspense policial. Contudo, o autor deste nem um pouco trivial SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA, não detém o foco de sua literatura no crime, muito embora este seja o prato principal.

Edney Silvestre é um exímio contador de histórias, principalmente por sua habilidade em despertar empatia do leitor sobre seus personagens. Em todas as obras que li do cara, é fácil encontrar protagonistas distintos em personalidade, críveis em comportamento e bem longe da faceta característica do super-herói que surge para dar conta de todo o mal... Não.
Edney tece sua trama de modo a fazer com que os envolvidos estejam exatamente dentro daquilo que os aproxima do leitor: eles são falhos, limitados, inocentes, indecisos, inconstantes, ou seja, são detentores de problemas semelhantes aos nossos.

É delicioso acompanhar a interação entre os dois adolescentes, Paulo e Eduardo. O entrosamento deles funciona deliciosamente e logo se percebe que, de fato, estamos lendo a ingenuidade mesclada a malicia típica da juventude. Eles resmungam, questionam, esbarram em seus limites reflexivos e não têm nenhum pudor em mudar drasticamente de assunto ou ficar calado quando lhes convém.

Já o terceiro membro do grupo, o velho, pareceu-me o menos interessante. Muito embora ele possua alguns aspectos que o validem como alguém cuja longevidade mostra que tem algo a dizer, este personagem parece ter sido inserido para resolver situações que adolescentes dificilmente conseguiriam ou apenas para servir como inserção de diálogos que façam com que o leitor entenda que se trata de uma história que se passa na década de sessenta. Mas isso não é um problema, nem chega a estragar a condução da obra, fora o fato de que o autor soube dar valorosa importância final a este personagem.

A trama começa muito boa, a narrativa é envolvente, verossímil, deixa-nos perto dos personagens quase o tempo todo. Há momentos em que ela fica um pouco entediante, mas logo retoma o fôlego, principalmente quando estamos acompanhando Paulo e Eduardo. Eu demorei um pouco a enxergar o enredo sob a ótica dos garotos porque quando comecei a leitura, minha expectativa era por uma história mais voltada ao suspense policial. Mas só quando compreendi que SE EU FECHAR OS OLHOS AGORA quer, na verdade, contar uma história de amizade entre dois jovens vivendo num universo caótico e sórdido foi que pude vislumbrar a beleza narrativa.

O final é um delicioso passeio saudosista por parte de um dos personagens. A conclusão também é boa, foge do óbvio, evidencia que a vida continua apesar das injustiças e agruras sociais e deixa espaço para o leitor refletir. Não considero o melhor trabalho de Edney Silvestre, mas é leitura recomendadíssima.

NOTA: 6,9

domingo, 7 de abril de 2019

RESENHA DE LIVRO – AS PALAVRAS DE SARAMAGO


Descobri a literatura do escritor português Jose Saramago através de um de seus mais notórios trabalhos: Ensaio Sobre a Cegueira. Obra que dispensa introdução, deu-me a precisa noção do exímio prosaísta que estava diante de minha leitura. Ensaio Sobre a Cegueira é um tapa na cara da hipocrisia social; uma metáfora para algo que há muito se perdera em nossa desgastada convivência: a lucidez.

E um estupendo romancista, autodidata, humanista, íntegro, pacifista, vencedor do Nobel de Literatura, só poderia se tratar de um sujeito cuja biografia vale à pena ser lida. Porém, muito melhor do que as já tão repetitivas biografias, quis apostar neste AS PALAVRAS DE SARAMAGO, um imenso aglomerado de pensamentos e entrevistas fragmentadas que o autor deu ao longo de sua vida, e que nos ajuda a ter uma noção do que é este universo Saramaguiano de modo a não nos cansar com extensas linearidades de sua vida... Biografias enchem o saco justamente porque costumam relatar demasiadamente aquilo que não precisa ser relatado.

Sim, pois como era um racionalista sentencioso e imaginativo, Saramago falava o que pensava de modo simples e direto. Como ele próprio dizia, sustentava um desejo irrefreável de provocar as pessoas, mas sem jamais se anular pela responsabilidade do que dizia. Fica então registrado, mais uma vez, meu apreço por livros que possuem uma proximidade semelhante a biografias, mas que nos entregam um conteúdo melhor e menos enfadonho. AS PALAVRAS DE SARAMAGO reúne o que havia de melhor no mestre português: sua opinião corajosa em diversos assuntos, deixando pequenas introduções em cada tema, que ajuda a conhecer um pouco mais a mente dilatada deste autor (isso para o raro leitor que nunca ouviu falar deste gênio).

Saramago discorre sobre diversos temas. Vai desde Azinhaga, Terra onde nasceu, fala um pouco sobre seu país, sobre ética, Deus, morte, literatura, Prêmio Nobel... Enfim. É um prato cheio para quem deseja pormenorizar assuntos a partir do ponto de vista de um escritor tão talentoso. Meus capítulos favoritos foram Mulher, Pessimismo, Escritor, Religião...

O responsável por trás dessa ótima coletânea em forma de aforismos é o ensaísta espanhol Fernando Gómez Aguilera. É um trabalho extenso que certamente careceu de extrema dedicação para ser realizado. Pois o que Fernando nos entregou aqui foi um competente trabalho de curadoria ao passar o pente fino em jornais, revistas, entrevistas diversificadas e outras mídias onde Saramago deixou suas declarações. Aqui há tanto pensamento e análise do escritor homenageado, que pode até soar um pouco cansativo para alguns leitores. Aliás, este é o único e pequeno problema da obra: tem tanta coisa reunida aqui, que hora pode soar repetitivo.

Para quem curte os romances do cara e tiver a ousadia de confrontar o universo polêmico e provocador do mestre, vale muito à pena ter essa pérola em sua estante. Exatamente como o próprio Saramago nos sugere:

“Nós somos muitas coisas, mas somos, sobretudo, a memória que temos de nós mesmos, e o diário, neste sentido, é uma espécie de ajuda à memória”.

NOTA: 8,6

quinta-feira, 21 de março de 2019

RESENHA DE LIVRO – SENHORA DA VINCI


Como de costume, encontrei este livro de forma despretensiosa, enquanto vasculhava um Sebo neste país afora. E muito me interessam os autores que se propõem a escrever sobre mulheres do passado que, jogadas às sombras da nossa história, estiveram à mercê do patriarcalismo. Mesmo sendo estes autores, profissionais que escrevem ficção.

SENHORA DA VINCI é um trabalho que, de cara denota ousadia: narrar a vida de uma personagem quase sem nenhum documento histórico existente e que trouxe ao mundo um dos homens mais importantes da humanidade, Leonardo da Vinci. Restou-me retirar a intrépida obra da prateleira e descobrir se a autora Robin Maxwell foi feliz ao realizar este feito.

E talvez o veredito possível seja: sim e não... Vamos começar pelos acertos:

O livro sabe fazer com que o leitor entenda que aqui estamos viajando através do início do renascimento; período dos mais importantes para o movimento artístico da história. A narração em primeira pessoa faz diversas referências ao longo da trama, sempre mantendo seu ponto de vista pessoal, ou seja, nem um pouco técnico, o que é bom para humanizar os relatos.

Os capítulos finais escaparam do previsível e de sacadas clichês. A autora foi assertiva em deixar a trama seguir sem inserções românticas, estereotipadas, nem ficou tentando causar comoção no leitor, o que é muito bom. Há um capítulo em que acompanhamos uma descrição ótima que acontece sobre uma das pinturas de Leonardo, em que sua mãe posa para ele (não se trata de um fato histórico, mas eu adorei esse momento da trama).

O livro também começa muito bem: não perde o foco no cotidiano modesto de Caterina (a mãe de Leonardo). Ela é uma mulher entusiasmada, que teve a sorte de ser criada por um pai que não limitou a educação da filha só porque ela era uma mulher. O livro fala com coragem do abandono do pai biológico de Leonardo e do preconceito social daquela época. Se algumas situações se trataram de inserções hipotéticas da autora, não importa; o fato é que deu muito certo, a leitura sustenta instante de deliciosa fluidez.

Infelizmente esta desenvoltura funcionou somente até o momento em que o filho ilustre nasce. É aí que começam os problemas da obra.

SENHORA DA VINCI parece não conseguir se livrar da aura brilhante que envolve Leonardo, mesmo não o elevando à condição de personagem principal, ele segue por toda a trama como se fosse um escopo; aquilo que se tem por finalidade. Robin Maxwell acaba tendo dificuldades em manter o carisma de Caterina, tornando-a uma mera expectadora da vida do filho pomposo.

Mesmo nos instantes em que Leonardo da Vinci sequer aparece, sua mãe (que como já mencionei, é a narradora da história), se comporta de forma diminuta, quase submissa. Nos instantes em que ela fala de Leonardo, ou até de outras figuras ilustres de seu tempo, a narrativa se torna sôfrega, algo quase servil. Caterina os descreve como se fossem deuses impávidos e perfeitos... Um comportamento patético e desnecessário que quase me fez abandonar a leitura.

Incomodou-me também a persistência em se narrar alguns dos feitos de Leonardo. Como se isso fosse obrigatório para o desenrolar da história. Veja bem: o caso é que não estamos falando aqui de um livro sobre Leonardo da Vinci, mas de sua mãe. Portanto, verificar demais a obra do filho elevou o senso de desvalia da personagem principal; reduziu-a à condição de mera coadjuvante.

Infelizmente também não é muito difícil nos depararmos com erros gramaticais e descuidos de revisão, mas isso não chega a incomodar tanto.

SENHORA DA VINCI é um livro que falhou por não saber escapar do glamour em torno do filho famoso daquela que deveria ser a verdadeira personagem principal. Funciona quando a autora se concentra na história, mas no contexto geral, temos aqui apenas mais um romance pouco aproveitado, tanto no sentido ficcional quanto histórico.

NOTA: 5,2

segunda-feira, 11 de março de 2019

RESENHA DE LIVRO – UM DIA


Meu interesse nesta obra tão consumida e comentada pelos leitores brasileiros se deveu à mera rendição: depois de tantos elogios e declarações inflamadas de devoção a este volume (inclusive de críticos que se levam a sério), de várias comparações com livros que gostei; de ouvir que a trama era insinuante como raramente se encontra na literatura moderna; concluí que este trabalho de David Nicholls só poderia se tratar de leitura peculiar e indispensável...

Mas calma lá, porque a coisa não é assim, tão impecável.

Aqui temos um romance dos tempos atuais que conta a história de dois amantes os quais seus eventos primordiais ocorrem no dia 15 de julho (ou eles se absorvem em devaneios nesta data). Portanto, a premissa é fazer com que acompanhemos tudo o que aconteceu na vida desde maçante casal, num resumo que se passa sempre no dia 15 de julho de cada ano.

A pegada é bem novelesca e o autor, já nas primeiras páginas, evidencia que sua literatura não tem a premissa de chegar a lugar algum (isso não é algo propriamente ruim, pois a falta de linearidade costuma funcionar perfeitamente bem nas mãos de alguns autores que sabem trabalhar com narrativas randômicas). UM DIA é um livro morno e cansativo, que te obriga a atravessar longa e árdua leitura que o conduzirá até um desfecho igualmente insípido e apagado, cujo único prazer é a noção de termos finalmente chegado ao seu término.

Vale salientar que a narrativa não é de todo ruim; o autor, embora demasiado prolixo, sabe sugerir ao leitor aquilo que se propõe a contar. Os diálogos também são críveis e, vez ou outra, até provocam alguma graça. No entanto, seu aspecto água com açúcar, repetitivo e alienado a personagens que não cativam, suscita demais o enfado porque nada acontece em momento algum. E o leitor segue acompanhando com aquela impressão de que logo ali na frente algo se encaixará com o que foi lido e tornará relevante todas as centenas de frivolidades que fomos obrigados a engolir.

Mas não. Nada acontece em quase momento algum. Os capítulos são esquecíveis, quase todos os dias 15 de julho poderiam ser resumidos em muito menos relatos banais. A trama leva os personagens às mais distintas situações existenciais, talvez no intuito de explicar os resultados e escolhas de cada equação de suas vidas. Só que tudo isso teria funcionado melhor se a narrativa fosse mais sucinta. A maioria dos capítulos está lá para absolutamente nada. Eu poderia ter ocasionalmente pulado alguns capítulos que o ato em nada teria interferido na compreensão do texto ou em seu desfecho final.

Já os dois protagonistas, Dexter e Emma, são apáticos e não possuem elementos que os identifique com a construção do romance. A única condição que parece os tornar apaixonados um pelo outro é a conveniência, pois qualquer outra existência que aparece na vida de cada um deles é propositalmente pior do que a enfadonha realidade que os cerca. Emma é uma mulher cheia de baixa-estima, principalmente em relação à cisma de encontrar um namorado e tenta encobrir seu espírito de porco bancando a descolada. Enquanto Dexter é um vaidoso metido a pegador, que ostenta sua jovialidade e um emprego como apresentador, condições que fazem com que olhe para o resto do planeta de cima para baixo. Cheio de infantilismo, ele logo se deixa submeter aos vícios em etílicos e entorpecentes, situação que o torna ainda mais insuportável.

O final tenta forçar a barra para causar comoção, típico de comédias românticas de sessão da tarde. Mas obviamente o abalo é previsível e clichê. Não faz do ato final algo que desperte um mínimo de reflexão no leitor.

UM DIA é um romance esquecível, de protagonistas que não combinam em nada, de uma trama que se arrasta em banalidades e marasmos que certamente servirá de soporífero ao leitor. Na mesma pegada novelesca, eu recomendaria os bons livros de Marian Keyes, que embora tenham tramas bem corriqueiras e até previsíveis, ao menos em se tratando dessa autora as gargalhadas estarão garantidas.

NOTA: 3,8

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – AMIGA DO DIABO


Penso que romances policiais carecem de personagens charmosos e atraentes, muito mais do que noutros gêneros literários, porque o clima geralmente pesado ou técnico demais precisa ser condensado com elementos que ajudem a trazer um pouco de desenvoltura à trama. O inspetor Alan Banks é, de fato, uma personagem que exala carisma, algo que pode ser facilmente notado já nas primeiras páginas deste decente AMIGA DO DIABO. Tanto que o livro chegou até a receber elogios do mestre Stephen King, condição que certamente eleva o personagem a ser digno de alçar o apogeu dos ilustres detetives de literatura noir... Será?

Não por acaso, o que tem de melhor neste livro é exatamente os bons diálogos entre personagens, é o que mais desperta o prazer da leitura. E esta presença agradável não carece apenas dos dois protagonistas principais, Alan Banks e Annie Cabbot, mas praticamente todos os colóquios estão recheados de imprevisibilidade, condutas singulares, sacadas inteligentes e boa dose de humor. A humanização interativa agrada bastante e nem é preciso ter lido alguma das aventuras anteriores do detetive; pode até soar estranho começar a leitura sem elementos que nos apresentem os personagens, como acontece neste livro, mas a empatia logo sobressai esta suposta limitação e o leitor se vê absorto numa imersão de situações que mesclam imprevisibilidade e distinção entre os envolvidos.

Na trama, dois assassinatos paralelos colocam o departamento de investigação a todo vapor; uma bela jovem é encontrada morta em um labirinto de pátios e becos escuros de uma região de periferia, enquanto a quilômetros dali uma mulher tetraplégica é degolada no alto de um penhasco. Inicia-se então uma tortuosa e obscura jornada investigativa para dar conta de ambos os casos. E alguma familiaridade pode haver entre eles.

Infelizmente é neste ponto que o livro acaba deixando um pouco a desejar. O enredo é, por completo, infestado de interrogatórios com suspeitos, possíveis envolvidos, testemunhas e afins, compromete a evolução textual deixando-a extensa demais. Mas calma, o livro não é ruim, principalmente e graças aos bons diálogos. Portanto, se você é daquele leitor que ama intermináveis inquéritos investigativos, detetives sondando a tudo e a todos, eis que você terá um prato cheio em mãos. Contudo, se você espera um pouco mais de ação, perseguições alucinantes, violência desenfreada, talvez este título o deixe um pouco entediado, enquanto espera por alguma fagulha ao longo de suas quase quinhentas páginas.

O livro explora muito pouco alguns dos personagens secundários que são por demais interessantes. Eu, particularmente gostaria de ter acompanhado um pouco mais de perto a detetive Winsome, uma moça que desde o primeiro instante em que surge na trama, deixa evidente que é uma mulher de muitas camadas. Contudo, acho que este foi o pequeno deslize cometido pelo autor Peter Robinson: ele foca demais no tema investigação e por consequência sobra pouco espaço para explorar os protagonistas secundários. Um infeliz desperdício.

De qualquer forma, fica anotada a indicação do titio Stephen: AMIGA DO DIABO é um baita romance policial, cuja leitura é fluida e instigante. Merece ser lido.

NOTA: 6,9

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

RESENHA DE LIVRO: BILE NEGRA


A premissa desta obra é até muito boa: através do olhar depressivo de seu personagem, Bile Negra tenta trazer à tona a complexidade existencial do ser humano. A trama segue envolta da história de Iago, um jovem que vivencia extremos de seu próprio vazio após se mudar para a cidade grande.

O clima é conduzido como se fosse uma narrativa terapêutica, o personagem principal expõe seus conflitos e emoções de forma crua e direta. Relatos que exploram o lado complexo e sombrio do homem, e no meio do caos, nós acompanhamos também outros personagem que vivem crises semelhantes. Tudo aqui parece ser de fato um documentário factual sobre pacientes que fazem terapia.

Pois é justamente neste aspecto que o livro acaba derrapando, ou melhor, exagerando um pouco.

Bile Negra foi escrita por um médico especializado em psiquiatria. Alexandre Loch conhece muito bem o terreno em que está pisando, sabe documentar de modo preciso a angústia inerente das pessoas. Mas lhe escapa uma pegada mais crônica e menos documental, exatamente o brilho que faltou para que sua obra progredisse do modo menos informativo e mais literal; a sedução lhe escapou por quase todo o texto.

Quando estamos acompanhando os relatos de Iago, quase podemos vislumbrar uma esplendorosa narrativa. Porém, o autor sai do personagem para forçar a barra com relatos contínuos de outros personagens que também foram acometidos pela obscura depressão. Isso não teria sido um problema, caso a obra seguisse por uma linha semelhante às dores desnudadas de modo informal e humanista, como acontece quando estamos diante dos relatos de Iago, mas Alexandre Loch opta por uma pegada mais informativa e técnica, deixando uma sensação de que estamos lendo um dossiê ou uma reportagem de jornal.

Mesmo assim, Bile Negra consegue ter vigor; em muitos instantes convida o leitor à reflexão pessoal e deliberar sobre os próprios entraves de sua existência. Só o que incomodou foi justamente a perceptível indecisão do autor, que pareceu não saber se queria entregar um romance dramático ou se uma sessão de terapia destinada à pacientes depressivos.

O último capítulo denominado “Libertação” parece expor de fato essa premissa: a narrativa da jornada do herói, que atravessa os estágios em formato de “U”, ascensão, queda e finalmente a reabilitação de si mesmo. Um claro intento da epopeia motivacional, quase uma autoajuda.

Bile negra é um livro bem intencionado e sabe como descortinar as mazelas do ser humano. A obra trabalha de modo eficaz no sentido do testemunho cru dos angustiados pela complexidade do viver. Mas faltou uma dose de profundidade narrativa, careceu de um pouco mais de sensibilidade pessoal em sua prosa, o que deixaria sua condução mais introspectiva, como tão bem o fazem autores como Clarice Lispector. E através do olhar melancólico do personagem, mergulharíamos sem volta na ausência da perseverança existencial.

NOTA: 5,2

sábado, 26 de janeiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – QUANDO NOSSO BOTECO FECHA AS PORTAS


Foi preciso elevado esforço para conseguir chegar ao final desta obra de título fraseado, trama sonolenta e personagens apáticos. Sinceramente nem sei explicar quais teriam sido as razões que me despertaram o interesse neste livro, talvez folheando algumas páginas eu tenha gostado de sua essência coloquial... Enfim.

QUANDO O NOSSO BOTECO FECHA AS PORTAS é um trabalho morno para dizer o mínimo, que narra a primeira aparição de um personagem famoso, criado pelo autor Lawrence Block. Eu soube posteriormente que, embora aqui nos deparamos com a primeira história do detetive Matt Scudder, as aventuras mais famosas do personagem já haviam sido publicadas. Portanto, estamos diante de uma história que conta como tudo começou na carreira do herói, logo, os fãs do detetive devem ter gostado da obra.

Matt Scudder é um ex-policial que agora faz trabalhos particulares como detetive e passa a maior parte do tempo perambulando de um boteco para o outro, na irreverente Nova York do final do século XX. A bebedeira constante e que explica o título brega, nos remete à vida de um personagem estereotipado que aparentemente está entregue ao alcoolismo, muito embora isso não seja evidenciado pelo autor. E mesmo sob o efeito dos destilados, o detetive parte ao encontro com casos os quais foi contratado para resolver, transgressões típicas que ocorrem nas grandes metrópoles.

Infelizmente nada aqui funciona muito bem. E desconfio de que uma familiaridade com as aventuras do personagem em outros de seus livros, pudesse contribuir para deixar a trama menos insossa (mas é apenas uma hipótese, pois não li outras histórias dele). Matt é um homem com poucas personalidades que despertem alguma atenção, também não possui nenhuma originalidade. Sua aventura aqui não detém o característico clima desafiador que permeia os livros de cunho investigativo. Os diálogos são maçantes e não há nenhum personagem coadjuvante que ajude a resgatar o leitor dos constantes bocejos.

Vez ou outra podemos nos deparar com alguma situação em que o detetive vai ao encontro de uma pista aparentemente quente, o que faz surgir uma pontinha de esperança em relação à obra. Mas então na página seguinte encontramos Matt outra vez se embebedando num boteco qualquer, quase sempre na companhia de personagens esquecíveis.

E os referidos diálogos informais que supus terem me atraído, de fato estão lá. Contudo, a informalidade não é garantidora de um texto agradável. Se vale como leitura, como eu sempre costumo dizer? Talvez para os fãs da série do detetive Scudder. Mas sinceramente o mercado literário tem coisa boa demais para se ler. Não vale a pena perder tempo com esse volume que tropeçou no caminho entre os temas de investigação clássica e o drama existencial... Uma pena.

NOTA: 2,5

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

RESENHA DE LIVRO – A VIAGEM DE ÍRIS


Num primeiro momento retirei este livro de uma esquecida prateleira de livraria porque estava procurando literatura juvenil para presentar uma amiga adolescente. E embora eu não seja muito inclinado a ler romances desse perfil, a sinopse e os primeiros parágrafos chamaram a minha atenção. Acabei por comprar o livro para mim mesmo (isso acontece muito quando estou à procura de um livro para dar de presente).

A VIAGEM DE ÍRIS conta a história de Callum e Iona, pequenos moradores de uma cidadezinha interiorana da Escócia. A amizade dos dois carece de que eles enfrentem algumas diferenças sociais que os distanciam (é neste ponto onde acontecem as situações mais previsíveis). Mas a superação de cada uma delas, somadas a um interesse em comum entre os dois personagens, eleva o valor da amizade e muda completamente a vida de ambos. A história possui outros elementos chaves também, mas não posso dizer pra não cometer spoiler.

A trama é simplista e usa os velhos chavões literários para suscitar comoção no leitor. E embora essa fórmula clichê acabe criando certo desconforto, a autora Gill Lewis narra essa história de amizade entre duas crianças de um modo que acaba agradando justamente por sua pegada singela; o livro sabe que é limitado, mas torna-se bom porque não inventa.

De fato, algumas situações exageram na previsibilidade e deixam evidente que estão inseridas na trama para fazer chorar. Mas a autora não excede; ela não força ao buscar comover e nem tenta ser engraçada nos instantes errados. A narrativa simplesmente deixa acontecer, sem jamais se esquecer de fazer sua lição de casa.

Em alguns momentos, de tanto prever o que estava por vir, chegou a pairar sobre mim a mesma sensação de quando estou assistindo a um episódio da série Chaves: estou cansado de saber o que vai acontecer na próxima cena, mas isso não impede que eu deixe rolar uma gargalhada pela milésima vez...

A forma com que a amizade entre Callum e Iona vai crescendo é até bonitinha, deixa um ar de inocência tanto na narração em primeira pessoa por parte de Callum, quanto no comportamento obstinado com que sua nova amiguinha lida com cada conflito que aparece no caminho. Contudo, mesmo aqui houve espaço para outro probleminha: os personagens soam superficiais e quase nunca dispendem de excessos que ajudaria a distingui-los em personalidades.

Já o final do livro acertou em não descambar para a pieguice. Contou o que precisava ser contado e terminou no momento certo, deixando a mente do leitor aberta para refletir sobre as possibilidades.

A VIAGEM DE ÍRIS não é um livro memorável e não trás nada de inovador. Mas sabe contar uma história sem exageros, optando por seguir com uma literatura leve, quase despretensiosa, que embora nos deixe com a sensação de “mais do mesmo”, consegue agradar pela honestidade narrativa.

NOTA: 6,1

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – CORPOS ELÉTRICOS


Por ser uma pessoa que lê demais, eu tenho o pretensioso hábito de achar que vou adivinhar o rumo de uma trama, já no seu comecinho. Foi essa a impressão que fiquei ao iniciar a leitura desse fabuloso CORPOS ELÉTRICOS: homem é atraído pela beleza exótica e aparência sôfrega de uma mulher dominicana a qual ele se depara dentro do metrô. Este acaso aproxima as duas existências discrepantes; de um lado o executivo bem sucedido, e do outro a imigrante pobre e cheia de problemas. Portanto, quando me deparei com esta temática tão desgastada eu achei ter pescado com precisão o que este livro queria contar.

Enganei-me completamente. O autor Colin Harrison (o cara é o marido de uma autora que gosto demais, a extraordinária Kathleen Harrison) logo nos tira do senso comum, para nos mergulhar numa narrativa que, de modo tangível, nos remete às duras incertezas contidas no ato de se inserir numa vida completamente desconhecida.

A diversidade de mundos sociais é mostrada aqui de forma bem construída e sem a intenção de tomar algum partido. CORPOS ELÉTRICOS é um livro que inicialmente parece dar a impressão de que estamos mergulhando numa espécie de 50 Tons de Cinza. No entanto, o autor sabe fugir desse caminho tolo e previsível. Colin Harrison prefere focar na problemática de um homem bem sucedido, porém, solitário, querendo recuperar perdas passadas e que ainda precisa encarar a turbulência desgastante de grandes fusões que estão para acontecer dentro da milionária companhia em que trabalha. Tudo o que ele menos precisa neste momento é se envolver com uma mulher cuja existência soa perigosamente incerta... E num habitual trajeto de metro, eles se esbarram.

A trama é permeada de reviravoltas, que acontecem de modo lento porque o autor é um pouco prolixo, algo que incomodaria caso a habilidade narrativa lhe escapasse. Seu personagem principal, Jack Whitman é um homem desacreditado e totalmente entediado com sua vida, e ele faz de seu trabalho uma espécie de válvula de escape existencial, canalizando todos os seus esforços na profissão como se isso pudesse afastá-lo do passado trágico.

A moça do metrô, Dolores Salcines é uma hecatombe humana; mulher cujo caos está descrito em seus próprios gestos, ela é uma existência sem perspectiva e parece lutar para fugir de algo. A construção psicológica entre os dois personagens é brilhantemente evolutiva, começa de modo arisco, pouco à vontade, e vai se transformando em algo íntimo, sem bases, mas cheio de expectativas, principalmente por parte dele, situação que inevitavelmente o faz entrar em choque com o passado misterioso da mulher.

A narrativa é intimista, porém não procura tomar partido ou induzir o leitor. Ela simplesmente vai desenrolando a história. Vomita situações na cara do leitor e apenas segue com sua linha ágil e intensa. Colin Harrison nos coloca de tal maneira na pele de Jack Whitman, que vez ou outra um nó de angústia se formou em minha garganta, assim como segurei para não chorar em duas situações. E o final, embora nada previsível, é de uma crueza que quase incômoda, como se o livro estivesse apenas terminando mais um capítulo.

CORPOS ELÉTRICOS é uma obra singular; um delicioso achado que fiz neste 2018 que se encerra. É um trabalho assombrosamente bem escrito, imprevisível e sensacionalmente sedutor.

NOTA: 8,9

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A ENCRENCA EM SETE PARÁGRAFOS – VELHICE


Finitude, decrepitude, vetustez, ancianidade, longevidade... Talvez o título dessa reflexão tornar-se-ia um tanto politicamente correto, caso eu fizesse uso de um destes termos higienizados. Mas creio que nenhum deles consegue alcançar com a mesma precisão aquilo que o substantivo “velhice” suscita em nossas mente, após o ouvirmos ou lermos.

De maneira quase que inevitável nós repudiamos a velhice como se fosse um mal inescapável; uma punição dada a todo ser que achou que seria esquecido em algum canto pelo tempo. No entanto, eu nunca ouvi falar de alguém que ansiasse pela morte antes de ficar velho. Ninguém quer desembarcar desse mundo sem antes passar pela terceira idade, como se a longevidade fosse uma espécie de atestado de excelência; status de merecimento alcançado apenas por aqueles que superaram as muitas mazelas existenciais.

Velhice implica perda de capacidade motora, debilidade física e, principalmente, queda elevada daquilo que antes eram atributos estéticos. Mas a velhice também é lugar de discernimento, a idade onde há elevação da humildade, a perda considerável da ingenuidade e muitas vezes um ganho enorme na capacidade de fazer melhores escolhas... Portanto, tornar-se velho não é melhor ou pior do que as demais fases da vida. Ser velho é apenas mais uma fase da existência, que igualmente a outros estágios, possui suas vantagens e desvantagens.

Acho ótima a metáfora usada pelo historiador Leandro Karnal em um de seus excelentes Café Filosóficos, quando ele diz que estar num corpo envelhecido é como se tornar um excelente motorista de posse de um carro ultrapassado; agora que a mente adquiriu discernimento para saber o que fazer, não temos mais um corpo vigoroso que corresponda com a noção de ideal. O motorista (a mente) deixou de ser jovem e inconsequente, mas o carro (o corpo) agora é frágil e cheio de limitações. Simplesmente porque a verdade inegável é que não dá para se aprender a viver, para depois viver. Experiência se adquire em conformidade com o movimento... Mas se a velhice não é nada mais do que o último estágio banal de uma vida, porque há tantas pessoas que a temem como se fosse um agouro inevitável?

Talvez porque ao pensarmos na velhice sob a égide da vaidade, cresce dentro de nós o medo de perdermos tudo o que na juventude nos era considerado virtude: beleza física, desempenho sexual, disponibilidade e vigor natural. E embora possa ser facilmente identificado diversos atributos alcançáveis em seu ápice somente na finitude, nenhum deles parece tão atraentes quanto às características da preciosa mocidade.

Ou ainda pior do que o ego pela eterna jovialidade, talvez a velhice corresponda a fase em que o ser humano mais tema por conta de uma fatalidade: a morte. É por termos tanto medo de morrer que talvez a terceira idade nos pareça tão ameaçadora; sabermos que temos menos tempo pela frente do que tempo vivido pode ser uma constatação extremamente macabra.

Na antiguidade os velhos eram postos na condição de sábios e conselheiros da comunidade, sendo as observações destes velhos portadores de vasta experiência, a possibilidade de aumentar os acertos na hora de se tomar alguma decisão. Contudo, a juventude de nosso tempo, de posse da atual e notável tecnologia, é detentora de qualquer informação ao alcance de um clique... Mas como dizia o sábio filósofo Kant: “Informações servem apenas para ser refutadas”. Ou seja, sabedoria é saber o que se faz com as informações que adquirimos. E pode ser que somente nesta tão temerosa condição da velhice é que alcançaremos tal preciosidade; a sensibilidade intelectiva para discernir e transformar dados em qualidade de vida.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

RESENHA DE LIVRO – A PRINCESA VERMELHA


Quando a autora Sofka Zinovieff recebe como inesperada herança um diário de sua avó, ela inicia uma obcecada e reveladora busca pela identidade de sua prestigiosa ascendente. Poder-se-ia imaginar que se trata de mais uma empreitada biográfica sobre extraordinários e corajosos indivíduos que viveram na caótica Europa do século XX, semelhante a tantas outras que permeiam o universo literário. E embora a premissa seja a de contar a história de sua avó, aqui a autora optou por uma narrativa mais documental.

Nesta decente obra Sofka Zinovieff, cujo nome é o mesmo da avó, percorre por um delicado estilo narrativo de contar toda sua experiência enquanto seguia os passos da ilustre ancestral, o que escapa um pouco do teor linear das biografias. Sofka visita pessoas, lugares e memórias e discorre sobre os diálogos trocados, as contradições com o diário que recebeu; relata os pontos importantes do passado de sua linhagem; absorve, de modo imparcial, as distintas opiniões adquiridas ao longo de toda a empreitada.

E justamente a imparcialidade é o ponto forte dessa autora. Ela não altera o que lhe foi relatado, mesmo quando tais explanações entram em contradição com suas teorias; Sofka passa o tempo inteiro fazendo analogias com as escrituras do diário, comparando-as com o testemunho das pessoas íntimas daquele tempo; entra em embate consigo mesma e ora chega a querer desacreditar algum testemunho, digamos, menos decoroso, mas no máximo cogita por alguma hipótese contraditória... Ela sempre reproduz o que viu e o que está no diário.

Outro aspecto que deu um charme a mais ao livro foram alguns aforismos espalhados ao longo de toda a obra; frases que a avó retirava dos livros que lia ou que ela simplesmente gostava. É muito agradável encontrar breves sentenças de teor filosóficas que ajudam a deixar a leitura menos maçante, principalmente porque aqui se trata de um trabalho que se assemelha demais a uma biografia.

Nascida na nobreza de São Petersburgo de 1907, Sofka (a avó) foi uma mulher que teve sua vida completamente transformada com a revolução comunista, depois viveu os tempos de horror da segunda guerra e da guerra fria. Sua família parece sustentar uma linhagem de gente notória pela coragem e determinação. O livro começa exatamente ajudando o leitor a compreender esse fato: os pais de Sofka, que também tiveram uma vida fascinante e cheia de altos e baixos, representam o passado que explica a mulher ousada e inteligente que escreveu o diário, o qual foi dado à neta que passa a o seguir em tempos distintos.

É um livro asseado e honesto, que consegue manter um teor narrativo bem menos entediante do que costuma acontecer com biografias. Achei um pouco extenso, mas perante tantos acontecimentos pertinentes, não sei se a neta autora conseguiria encurtar a obra. Vale a pena pra quem curte biografias e estilos documentais. Também aos interessados em explorar o início da revolução comunista através de um ângulo, digamos, mais factual.