sábado, 2 de novembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – MOINHOS DE VENTO


Quando se fala em George Orwell, dois trabalhos deste monstro da literatura preenchem a mente do interlocutor: 1984 e A Revolução dos Bichos. E obviamente também são estes dois clássicos do cara que eu carrego como meta de leituras futuras. Contudo, foi vasculhando acervos de usados pela internet que encontrei este então bem mais modesto MOINHOS DE VENTO, que por conta da casualidade acabou sendo minha primeira incursão no universo literário de Orwell.

Minha leitura de MOINHOS DE VENTO remeteu-me, de imediato, a aspectos os quais já haviam me alertado sobre o estilo do autor: a contradição do ser humano, o apontamento para o sistema opressor capitalista, e talvez um dedo na ferida sociológica de seu tempo.

A trama conta a história de Gordon Comstock, caricato cidadão inglês de infância pobre, cujo pavor ao sistema capitalista moedor de carne humana lhe remete a paranoias prejudiciais para sua subsistência e o enterra, cada vez mais, no fundo do poço. Gordon veste sua aversão ao regime econômico vigente até a fase adulta, situação que torna quase nula suas perspectivas existenciais.

Perceba que esta breve sinopse já denota o tipo de literatura que o leitor ira se deparar. Pois eis que durante a leitura, outros elementos da narrativa de George Orwell permeiam o tempo inteiro, algumas delas com um sutil teor de protesto. A que mais me chamou a atenção foi precisamente a hipocrisia do ser humano, incutida na personalidade da personagem principal.

Gordon é um homem aparentemente bem instruído, dotado de sagacidade peculiar ao analisar a sociedade que o rodeia, assim como também aspira ao universo da poesia. No entanto, quando prega seu repúdio ao dinheiro, Gordon mais se parece com um sofista, pois se imbui de discurso irreprovável, mas na prática carece o tempo inteiro de recursos econômicos para sustentar suas obvias necessidades; ele quer parecer desprendido da ganância substancial e até classifica o dinheiro como uma espécie de Deus escravocrata. Mas mesmo dentro de uma realidade quase que de mendicância, Gordon segue recusando possibilidades de crescimento econômico, ao mesmo tempo em que vive sugando os escassos recursos de sua irmã.

É uma assertiva narrativa da corrupção dos ideais que o autor tão bem nos entrega. Orwell não se priva de mostrar a frustração e revolta de seu protagonista em pé de igualdade com o comportamento discrepante que reconhece e até aceita as regras consumistas.

Eu diria que um probleminha a ser mencionado é o final, que considerei previsível e me deixou com a sensação de esgotamento, como se tudo o que havia para ser dito aconteceu, deixando a conclusão sem grande acabamento. Mas creio que isso não chegou a incomodar muito.

MOINHOS DE VENTO (até agora não entendi o título em português) é obra de um dos maiores romancistas do século XX. E embora eu ainda não tenha lido seus trabalhos mais notórios, foi evidente verificar seu domínio narrativo. Espero ler mais de Orwell, cujo método literário contribui para iluminar nossas mentes escuras no que concerne a complexidade humana.

NOTA: 7,7

terça-feira, 22 de outubro de 2019

RESENHA DE LIVRO: O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO?


Na literatura deixada por quem sobreviveu ao Holocausto há pouco a ser lido que vá além da análise genérica que não soe repetitivo; quase todos os relatos são parecidos e, apesar de sua conotação extremamente trágica, geralmente seguem a esperada linha testemunhal da crueldade humana. E embora essa constatação possa ser entendida como desdém, eu confesso que só continuo insistindo nesse tipo de conteúdo por querer encontrar um pouco daquilo que não estava escancarado aos olhos; a narrativa que me fascina é a da resiliência silenciosa, aquilo que não foi dito simplesmente porque se esconde nas sombras escuras da alma humana...

Nesse sentido, O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO? é um livro que trouxe uma perspectiva inusitada sobre a tragédia do Holocausto: fez sua análise fria e sentimental do ocorrido sob o ponto de vista não apenas de quem lá esteve, mas também de quem não viveu os dias de treva sob os muros de Auschwitz. A autora Noemi Jaffe é filha de uma sobrevivente do inferno e parte da obra é sua dissecação à cerca do diário de sua mãe, Lili Jaffe, documento que hoje se encontra no Museu do Holocausto de Israel.

Lili tinha dezoito anos quando se tornou prisioneira junto com o resto de sua família, os quais ela só reencontrou o irmão quando do término do conflito. Quando a Cruz Vermelha resgatou e levou Lili para a Suécia, esta resolveu eternizar tudo o que havia sofrido, fazendo uso de sua memória fragilizada, mas ainda fresca em relação à experiência traumática. Essa é a primeira parte da composição desta obra aqui resenhada: o diário de Lili, escrito como se ela estivesse relatando exatamente em conformidade com o ocorrido. Temos aqui a parte genérica da obra, pois se trata de mais um testemunho dos muitos já publicados, mundo afora (é pavoroso, eu sei, mas é apenas outro relato que pouco se distingue de outros tantos).

A segunda parte do livro é o que, de fato, o tornou indispensável: a autora discorre com elevada profundidade e lisura sua pessoal jornada por tentar compreender no que sua mãe foi transformada após a tragédia. Há momentos aqui capazes de suscitar reflexões profundas, como quando Noemi explica a necessidade de sua genitora em crer no destino como uma maneira de se livrar da culpa por ter sobrevivido; ou no capítulo intitulado “mãe”, um dos mais belos textos da obra.

A percepção posterior da filha (que exatamente narra tudo em terceira pessoa como se não fosse sobre ela mesma) de que nada chegará a lugar algum é uma conclusão acertadíssima. Saber que é impossível obter algum norte sobre o Holocausto ou mesmo a tentativa ineficaz de explorar a alma de sua mãe mostra o quanto a busca pelo conhecimento de determinado assunto acaba gerando ainda mais dúvidas; máxima filosófica que carece de elevada humildade e entrega a derrota que eleva o ser, pois as grandes obras deixadas neste mundo são obras inacabadas, infinitas...

Na terceira e última parte, que de tão curto parece se tratar de um posfácio, temos a análise oriunda de outra geração, a neta de Lili, filha de Noemi Jaffe, que também esteve junto com a mãe em visitação às instalações de Auschwitz e, portanto, forneceu seu olhar ainda mais distante, de quem ouve ou lê relatos sobre o Holocausto como quem acompanha uma produção fictícia, algo muito difícil de acreditar.

O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO? (o belo e inusitado título é devidamente explicado ao longo da obra) não chega a ser um livro fundamental sobre a tragédia de um povo, mas sabe esmiuçar a particularidade de seus narradores com tamanha profundidade; um convite à reflexão sob a luz da intrepidez de mulheres que estiveram submersas em tragédias a partir de pontos diferentes de visão... Altamente recomendado pela riqueza imersiva.

NOTA: 8

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

RESENHA DE LIVRO – AGOSTO


No cenário literário brasileiro há poucos romancistas noir reconhecidos (é curioso, pois se trata de gênero agradável, que mistura mistério e elementos investigativos). E se esta sugestão corresponde mesmo à realidade ou se é apenas meu precário conhecimento dos grandes autores brasileiros, o fato é que Rubem Fonseca nos representa neste cenário como ninguém. Suas obras são tão bem desenvolvidas que parece estarmos lendo literatura noir britânica ou americana; países pioneiros deste gênero.

O mês de AGOSTO leva o título da obra, pois nos remete ao período de 1954 em que feitos históricos de incomensurável importância ocorreram em menos de três semanas daquele mês. O velho Rubem mescla a realidade com a ficção e dessa mistura ele nos entrega esta que a crítica considera a mais ilustre de suas obras.

Aqui temos muitos personagens inseridos de uma só vez, principalmente na primeira metade do livro, o que dificulta a identificação do leitor. Mas com um tantinho de perseverança pode-se distinguir a figura central da trama, o comissário de polícia Mattos, de longe é a personagem mais intrigante da história. Novamente Rubem Fonseca prova ser um sofisticado criador de figuras fascinantes. Mattos é um homem de princípios dentro de uma polícia desmanchada em corrupção; profissional austero e um pouco introvertido, que encara seu trabalho investigativo com incansável zelo, além de sofrer intermináveis apuros, por conta de sua tumultuada vida íntima e nas mãos de uma úlcera.

No aspecto histórico, temos o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda que desencadeia em pressão da oposição que acusa Getúlio Vargas de ser o mandante, os nebulosos e fétidos bastidores políticos, conspirações de golpe de estado, o suicídio do presidente, as manifestações populares que sacudiram a nação. Tudo isso permeia a trama que intercala capítulos os quais se iniciam com as investigações do comissário Mattos à cerca do assassinato de um empresário bem sucedido.

Conforme as investigações avançam, o autor vai amarrando uma deliciosa ambientação de suspense, onde possibilidades distintas pairam na mente do protagonista, enquanto seguem os acontecimentos marcantes daquele inesquecível agosto. Há aqui o leque amplamente aberto para diversas possibilidades.

Um aspecto que me incomodou um pouco foi a constância narrativa em cima dos acontecimentos históricos que praticamente os tiram da condição de pano de fundo, tornando a trama técnica demais e com muita informação que a meu ver não precisavam ser jogadas na trama; poderiam ter sido mencionadas em leves pinceladas. Rubem parece ter se preocupado demais em relatar fatos históricos, como se isso fosse fundamental para sua narrativa (em alguns momentos senti até mesmo certo enfado, coisa rara de se acontecer quando leio este exímio autor). Mas justamente quando a obra retoma o teor investigativo, o gás se renova de imediato, principalmente porque Mattos é uma personagem muito bem ajustada com a trama.

O final tem aquela boa dose fonsequiana que privilegia o desfecho inerente e despudorado. Rubem não relativiza nem conduz sua narrativa em prol do protagonista, apenas deixa tudo rolar do modo mais orgânico possível.

AGOSTO não é meu livro favorito de Rubem Fonseca. Mas é bem escrito, possui personagens cativantes e consegue manter um bom suspense policial por quase toda a trama... Como em toda obra deste autor, este título também vale muito à pena ser lido.

NOTA: 7,9

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA


Atenção para alguns pequenos spoilers nesta resenha que acredito não cheguem a comprometer na leitura. De qualquer modo, aviso de antemão e peço desculpas, mas foi inevitável.

Achei impressionante como as pessoas descrevem esse livro como sendo uma homenagem definitiva ao amor verdadeiro. E embora eu não tenha a pretensão de contestar opinião de ninguém, penso que minha leitura deste O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA causou-me perspectiva um pouco discrepante, ou no mínimo, uma visão singular e um tanto inconclusiva, é claro.

A literatura é uma construção artística dúbia. Acredito que muitos autores nem chegam a desenvolver seus trabalhos com essa pretensão. Mas a mente do criador rege um ponto de vista que pode ser difícil de ser fidelizado na linguagem escrita, assim como também costuma diferir da compreensão de quem lê. Ou seja, não há veredito definitivo em literatura, mesmo que a fonte desta análise venha do próprio autor. E embora este possa soar como um ponto de vista túrbido, eu acredito ser a maior virtude da arte escrita: a de causar diferentes percepções, justamente porque o analista faz uso de sua bagagem de vida para absorver o universo que o rodeia.

As personagens desenvolvidas nesta obra são demasiadas humanas. As descrições sentimentais dos envolvidos na patologia do amor (e aqui uso o termo patologia no sentido de desequilíbrio), de fato remetem a ações intensas e obstinações quase irracionais. E no lugar de refletirmos melhor sobre o absurdo decorrente do sentimento descrito, nós a elevamos à condição de esplendor; a pureza de se amar o outro. Isso talvez seja fruto da infindável busca de significado existencial que tanto nos acomete.

Gabriel Garcia Marques desenvolve suas três personagens principais sem retirar uma gota de suas contradições. Fermina Daza é uma mulher impetuosa e ao mesmo tempo não ultrapassa o limite imposto pelo patriarcalismo de seu tempo e às vezes até parece endossar essa realidade. Quando o amor lhe é negado ela simplesmente faz o que de fato seria o mais sensato para a maioria de nós: conforma-se a uma estabilidade conjugal, tornando imperativo o sentimento pragmático.

Juvenal Urbino é o arquétipo que melhor nos fará compreender a terceira personagem da trama que ainda não mencionei. Ele é um homem aparentemente impoluto, cuja profissão próspera e sua elevada estatura social fazem dele um partido cobiçado pelas damas da região em que vive. E como costumeiramente acontece com os seres humanos, o desejo de Juvenal se manifesta justamente pela donzela indiferente; a mulher que o ignora e até o menospreza. Desejo escapadiço cuja natureza o torna permanente... Até que sua conquista finalmente se torne manifesta, então está decretado o fim do interesse; o mais notório amor platônico possível.

Finalmente chegamos em Florentino Ariza, que diferente de Juvenal Urbino, não conseguiu ver seu desejo realizado e isso fez com que ele levasse sua obsessão ao limite do absurdo. É na personagem de Florentino que mais se transparece o arquétipo do amor perfeito, simplesmente porque sua impotência perante seu sentimento nos causa comoção. Mas o que notei aqui foi o exemplo do desejo não realizado, fato que fez de Florentino um incansável buscador da utopia daquilo que ele acredita saber do que se trata: o amor em sua mais perfeita manifestação.

Mas se analisarmos sem o viés do romantismo, como me pareceu a condução narrativa, poderemos compreender que Juvenal Urbino e Florentino Ariza simbolizam dois extremos que nos ajudam a identificar a complexidade do amor, que aqui é refletida sob a ironia da cólera, o que faz todo o sentido. A primeira personagem sendo o conquistador que ao ver seu intento realizado, percebe sua existência retornar à condição totalitária do tédio, até que retorne a patologia do amor por outra mulher. Já a segunda personagem é a figura do derrotado, que do alto de sua impotência, torna-se o poeta nostálgico, onde a impossibilidade do amor é justamente o que faz de seu sonho algo tão esplendido e cálido.

Florentino amou várias vezes ao longo de sua vida. Encontrou plenitude em muitas de suas aventuras e isso é retratado de maneira evidente quando ele alcança a velhice, porque somente no ganho de experiência de vida é que ele percebe a riqueza contida nas relações que encontrou pelo caminho; no instante em que chora escondido no banheiro por uma mulher que pensou não amar, chegando inclusive a estranhar o próprio pranto. Aliás, é precisamente sua condição de velho o que valida ainda mais sua percepção de amor imaculado por Fermina, pois exatamente a transformação física do casal, a perda da vaidade e a noção de autonomia o que os remete a pura e simples ternura, que talvez até seja permanente pela pouca vida que lhes restam.

Gabriel Garcia Marques é um autor não muito fácil de ler. Não pela linguagem complexa ou métodos truncados, mas por sua condução narrativa direta e irrefreável. O autor joga tudo de vez, vai contando sem dar trégua para o leitor respirar, algumas vezes precisei voltar alguns parágrafos por achar que havia me perdido. Confesso que essa continuidade sem freio me assustou no começo, mas aos poucos me acostumei ao modo imediato e prolixo da obra.

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA definitivamente é um livro romântico. Mas trata do amor de um modo orgânico como jamais li antes. E claro que meu ponto de vista sobre a obra é absolutamente meu, o que novamente reforço: é essa condição singular de nossa percepção de leitores imperfeitos o que torna a literatura algo tão especial.

NOTA: 7,5

terça-feira, 10 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIVA


Algumas vezes é preciso um pouco de perseverança e flexibilidade para se compreender e, por conseguinte, gostar de um autor. Clássicos do século XIX costumam carecer de elevada sensatez, pois é fatal que se entenda que tudo naquela narrativa pressupõe aspectos e valores de um determinado tempo.

DIVA é a primeira obra que li de José de Alencar e, diferente de outros clássicos do XIX, a linguagem empregada aqui me enterneceu de imediato, algo que normalmente não acontece tão depressa comigo, daí a observação no início desta resenha.

A trama aqui é simplória; por meio de uma carta, a personagem Augusto revela para seu amigo Paulo, as mazelas e embates que afligiu sua relação afetiva com Emília; moça de personalidade demasiadamente forte.

Sob a caneta (sob a pena?) de um autor clichê, remeteríamos DIVA a um romance café com leite, banal, de reviravoltas trágicas para causar comoção. Contudo, José de Alencar sabe utilizar uma linguagem elegante e refinada, que privilegia o escopo narrativo, onde autenticidade e esmero textual é o que mais chama atenção.

A Emília do autor é, de fato, uma mulher impossível. Extremamente vaidosa, de um pudor exagerado quase como um TOC e de insensibilidade que beira o cruel, ela é o perfeito arquétipo de ser indomável e algumas vezes parece se deleitar por ser assim. Confesso que a odiei desde o início da leitura, mas percorrendo a algumas opiniões femininas pela internet, alguém sugeriu que este meu desconforto com a personagem é puro orgulho de macho. Enfim, talvez seja mesmo isso e, se realmente se tratar de orgulho, o livro acertou novamente, pois Emília me irritou por diversos momentos da trama...

Já Augusto, o desenganado narrador, soou-me como um verdadeiro banana. Provavelmente por achar que ele devia ter dado à sua amada as devidas lições oriundas do mesmo orgulho que me fez detestar Emília, por vezes eu me peguei esbravejando o comportamento irresoluto de Augusto, algo que sempre acontecia quando ele estava diante da incomparável beleza de sua musa. E ao término da leitura, vi-me envergonhado por julgar Augusto ao vê-lo se submeter aos caprichos de sua amada... Mas qual homem nunca o fez, perante os encantos da beleza de uma mulher?

DIVA é um romance charmoso, cuja linguagem é o que mais me chamou a atenção. Uma trama simples, porém, narrada na medida certa. O livro é curto, o que não permite que se torne cansativo, justamente porque o autor mantém seu foco exclusivamente no romance, exatamente como é uma carta confessional de um homem apaixonado.

E após esta deliciosa incursão, já estou providenciando outros títulos de José de Alencar, pois o que os comentários dizem pela internet é que DIVA é o mais singelo de seus trabalhos. Se os leitores online estiverem certos, essa é uma ótima notícia, afinal, é sempre bom começar a ler um grande autor por seus trabalhos menos expressivos, pois desse modo, a cereja ficará para o final.

NOTA: 7,9

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

RESENHA DE LIVRO – COM CLARICE


Autores que deixaram um legado literário extraordinário despertam um inevitável interesse nos leitores em conhecer um pouco melhor sobre como funcionava suas mentes sublimes, e Clarice Lispector faz parte desse restrito grupo de gênios que enriqueceram o mundo com inesquecíveis obras-primas.

COM CLARICE é uma obra singular cujo propósito é nos permitir exatamente isso: a possibilidade de darmos mais um passinho em direção ao universo de nossa rainha. Trata-se não somente de um livro sobre Clarice, mas um aglomerado de documentos, análises técnicas de alguns de seus trabalhos e opiniões de gente que conviveu muito perto dela.
Portanto, para os viciados no universo clariciano, como é o meu caso, eis aqui uma obra indispensável e atualmente não muito fácil de encontrar (a minha edição eu achei por acaso num Sebo na cidade de Uberlândia, uma sorte).

Autora plural, Clarice sempre se despiu de conceitos lineares para ir fundo nas agruras da alma humana. Sua literatura de prosa investe muito além dos sentidos e, sobretudo, atiça o pensamento do leitor. Talvez esta seja a autora que melhor me insere na condição de insatisfeito; que me faz querer pensar para além da superfície.

Minha inserção ao universo de Clarice se deu por suas crônicas, caminho que considero ótimo como porta de entrada, pela leveza e praticidade linguística. E desde quando passei a explorar sua literatura, principalmente ao inserir-me nos romances, uma certeza sempre esteve incutida ao longo das leituras: a obra de Clarice Lispector é inesgotável e evolutiva; inesgotável porque nunca se consegue alcançar saciedade; e evolutiva porque nosso discernimento costuma transitar por diferentes formas interpretativas a cada releitura.

E esta opinião parece ser comungada pelos autores desta crítica literária COM CLARICE: o constante sentimento de universo inexplorado e progressivo. Affonso Romano de Sant’anna e Marina Colassanti reuniram aqui parte do legado manancial e intelectual de Clarice, num gesto fragmentado de admiradores que conseguiram nos aproximar um pouco mais da icônica autora.

O livro divide-se em três partes, sendo que a primeira leva o título da obra e talvez seja o momento mais delicioso da leitura: dois textos em que os autores e amigos de Clarice rememoram alguns instantes passados ao lado da escritora. A segunda parte chama-se De Marina para Clarice, em que a narradora nos trás um conto e uma crônica carinhosa de teor clariciano. Finalmente temos a terceira parte, De Affonso para Clarice, momento da leitura em que o autor segue na árdua empreitada de analisar alguns dos trabalhos de Clarice (esta é a parte mais técnica e, por isso, pode incomodar um pouco), e encerra-se com algumas crônicas divertidas e pertinentes.

Há ainda um apêndice em que acompanhamos uma entrevista que Clarice forneceu para os dois autores, realizada no Museu de Imagem e Som do Rio de Janeiro em 1976.
Por essa razão COM CLARICE é uma obra singular e necessária para quem é fã. Uma viagem analítica e apaixonada de amigos que se encantaram e se intrigaram por essa mulher extraordinária; que igualmente a nós, singelos leitores, buscam preencher incessantemente suas constantes insuficiências existenciais.

NOTA: 8,5

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

RESENHA DE LIVRO – MALONE MORRE


Se você costuma usar resenhas de livros como orientação e sugestão de leitura, creio que esta não lhe servirá de nada. Menos ainda atente-se à pessoalidade da nota inserida ao término da mesma. Sim, pois talvez eu tenha cometido o equívoco venial de começar a ler Samuel Beckett por este MALONE MORRE. Trata-se aqui de uma obra subjetiva e multifacetada, que embora eu aprecie bastante o estilo, esta me foi uma leitura demasiado esgotante.

A trama é narrada pela personagem do título; um homem velho, moribundo, aparentemente debilitado e preso a uma cama de um confinamento que pode ser um hospital, manicômio ou similar. O cara possui apenas sua visão limitada do quarto, uma janela com restrita permissão visual, alguns poucos pertences os quais ele usa um lápis para escrever sobre aleatoriedades e, acima de tudo, suas infindáveis incertezas.

Malone não sabe onde se encontra, muito menos sabe dizer qualquer coisa sobre si mesmo com plena convicção. Externaliza seus pensamentos de maneira desordenada e é exatamente isso o que resume a leitura de seus relatos: desordem e mais desordem. Encontrar instantes de coerência ou permissividade aqui é algo incerto, talvez impossível. Samuel Beckett mantém a linguagem hermética por toda a trama, não nos fornecendo nada e encerrando de forma igualmente enigmática.

Por toda a leitura eu tentei alcançar o escopo psicológico do narrador, um homem claramente desprendido de qualquer forma de absolutismo, condição geralmente compreendida por aqueles que se encontram em situações similares a da personagem: o flerte progressivo e determinante da finitude.

Seus relatos começam com certa lógica, mas logo descaem para o absurdo. Quando descreve lugares, pode-se intuir tanto como uma visão distorcida do ambiente como uma mera metáfora. É notório como praticamente tudo e todos são sofríveis, personagens em limites extremos, insanos, feios, excluídos. Outras vezes somos remetidos aos arquétipos propositais do narrador, ou suas lembranças nebulosas e pouco confiáveis, ou estamos mesmo diante da tentativa de se narrar a miséria do ponto de vista de um miserável do modo mais cru que já li na vida.

Por vezes eu tive que fazer pausas por imaginar que havia perdido o foco da atenção. Relia, muitas vezes, páginas inteiras já lidas e a desordem perdurava imponente na minha cabeça. Contudo, durante toda a leitura havia um elemento que jamais se afastava de mim: a noção da indigência do ser. Seja a indigência do próprio narrador, de suas desafortunadas personagens ou de nós leitores, determinados a seguir acompanhando com nossa precária falta de percepção do que nos é mais acessível: a condição da penúria.

Seja lá o que Samuel Beckett quer nos passar com seu MALONE MORRE, a mensagem incutida na obra certamente me escapou. O fato é que em nenhum momento a trama segura na mão do leitor; é como se ela nos dissesse: terás que percorrer sozinho o vale dos indigentes. E faltou-me maturidade para tal.

MALONE MORRE é uma leitura complexa e inclemente que até mesmo a gramática parece querer nos confundir. Não é inacessível, mas carece sobriedade e desprendimento. Difícil de ser recomendada por seu teor sugestivo e impossível de ser resenhada... Enfim, esqueça a minha nota de rodapé.

NOTA: 5,8

segunda-feira, 22 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIA D


Fazendo uso de uma pitada de exagero, é preciso certo cuidado com atrofias na hora de ler esta pesada obra. O volume de conhecimento aqui reunido é gigantesco, e isso pode ser constatado no peso físico do livro (tratam-se de indispensáveis 715 páginas). Segurá-lo aberto por horas de leitura pode se tornar uma desconfortável experiência.

Mas a imersão narrativa, mesclada a uma expansão de detalhes compensam qualquer desafio na hora de encarar a robustez física; DIA D talvez possa ser considerado o trabalho definitivo sobre o maior desembarque de tropas da história militar. E esta opinião não é minha, vem de alguns historiadores e especialistas da Segunda Guerra Mundial.

Temos aqui um trabalho minucioso cuja narrativa se inicia no desembarque dos aliados no litoral da Normandia, em 06 de Junho de 1944, rumo à libertação da França que estava sob o jugo do terceiro Reich. E diferente dos demais trabalhos sobre esse importante período da grande guerra, DIA D é amplamente enriquecido por detalhes dos combates que muitas vezes escapam dos historiadores; um olhar quase em primeira pessoa.

O nível de imparcialidade do autor impressiona. Antony Beevor tece a narrativa na precisa fidelidade de sua pesquisa, e o que carece de levantamentos hipotéticos, ele os sugere em concordância com documentos oriundos de diferentes fontes. O intento jornalístico e a vontade de contar exatamente o que houve é formidável, o autor não puxa sardinha para nenhum lado, apenas analisa suas fontes e entrega um dos textos mais verossímeis que já li sobre a Segunda Guerra Mundial.

Embora a obra se preocupe em relevar alguns termos técnicos, nomes e datas, o brilho fica por conta do aspecto humano de todos os envolvidos: o inabalável empenho das tropas aliadas; o medo generalizado de não saber o que está à espera no país ocupado; a luta desesperada dos alemães em notória minoria; a tragédia da destruição que sempre desaba sobre os civis que lá se encontravam.

Sim, DIA D deve ser considerado um livro indispensável para quem se interessa pelo tema. Contudo, cabem aqui algumas observações:

É preciso certo conhecimento, mesmo que não muito aprofundado, sobre a Segunda Guerra, pois o autor se concentra nos bastidores dos acontecimentos, sem fazer nenhuma apresentação. Os grandes generais, as divisões de destaques, os termos técnicos recheiam a obra por todo o instante sem fazer nenhuma referência (há apenas um glossário de siglas e fontes no final da obra), o que é perfeitamente compreensivo, haja vista que o livro narra um pequeno período da grande guerra que se passa já em tempos finais. Leitores introdutórios devem começar por obras mais genéricas antes de entrar em narrativas específicas.

Outro aspecto singular do livro foi a maneira com que Antony Beevor procura esmiuçar e compreender a mente dos generais de ambos os lados. Minha leitura deste DIA D tornou-me ainda mais admirador do marechal de campo alemão Erwin Rommel. Outras obras e documentários que pude acompanhar sempre o descreveram como um exímio estrategista e líder articulado. Neste volume tais conceitos são ainda mais acentuados, mostrando que, de fato, Rommel era um homem de elevada inteligência militar e principalmente sobriedade ímpar ao deixar de lado o orgulho e aprender com os próprios erros (condição raramente relatada pelos especialistas que pesquisaram o corpo de liderança do Terceiro Reich). Possivelmente as coisas poderiam ter sido menos trágicas para os alemães, caso o vaidoso Hitler tivesse dado ouvidos ao discernimento dos bons generais que tinha no comando de seu exército.

Não sei se em todas as edições estão iguais (a minha é da editora Record, lançada no ano de 2010), mas esta ainda vem com um bônus maravilhoso: muitas fotos do conflitos, imagens de personagens importantes e diversos mapas que nos ajudam a entender a problemática geográfica.

DIA D é um trabalho estupendo cuja imparcialidade e imersão narrativa nos ajuda a compreender que, embora tenha sido uma operação fundamental, o dia D foi um conflito arduamente vivido por ambos os lados, onde erros e acertos são descritos com a honestidade de um autor que soube mostrar aquilo que são os embates militares de nossa história.

NOTA: 9,5

terça-feira, 9 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O LOBO DA ESTEPE


Se as mazelas da solidão humana podem ser narradas de algum modo, sem deixar que se escape o equilíbrio entre o desencaixe existencial e a vontade de potência, eu creio ainda não ter lido nenhum autor que o soube esmiuçar isso melhor do que Hermann Hesse.

O LOBO DA ESTEPE é a autoproclamação da personagem que, solitário em sua essência, define-se como tal. Um ser humano em crise, só que provido de lucidez necessária para compreender sua natureza animalesca e desarmônica, tão honesto que quase o remete ao indizível.

Eis diante de nossas mãos a possibilidade de ler poesia em prosa, de teor angustiante no que tange a complexidade humana, mas acima de tudo, tragicamente enriquecida e bela.
Harry Haller é um homem entediado e a primeira parte do livro traz esse sentimento de modo quase indigesto ao leitor. Há neste ponto da narrativa um segmento confessional, auto analítico, de linguagem penitente que costuma causar certo enfado. Mas é proposital, o autor precisa mostrar quem é seu protagonista, ou seja, trata-se aqui de um caminho inescapável ao leitor.

Depois disso, a trama ganha vigor; Harry despe-se em sua dualidade, homem e lobo, então passamos a acompanhar seus confrontos antagônicos quase que insolúveis de alguém cujos preceitos burgueses o desagradam, mas que não consegue se livrar desse mal. A personagem demonstra seu asco social ao mesmo tempo em que se compreende como o arauto da mediocridade.

Sei que esta resenha soa um pouco hermética, mas o caminho é esse mesmo. A beleza de O LOBO DA ESTEPE não está na linearidade, portanto, não cabe fazer uma sinopse aqui. Até porque isso seria desnecessário pelo fato de que estamos falando de um clássico da literatura.

O livro retrata a necessidade de autoconhecimento, do caminho sem volta que é tentar compreender a si mesmo e que, embora mais árduo do que a felicidade obtida através da mera ignorância, Harry precisa angariar meios de escapar de sua cilada existencial para finalmente usufruir dos verdadeiros prazeres da vida, que numa definição epicurista, seria propriamente o prazer por meio daquilo que é mais simples.

O LOBO DA ESTEPE é um livro memorável por sua mensagem. Hermann Hesse espatifa sua personagem para, em seguida, juntar seus cacos enquanto nos cortamos em pequenas pontas. As referências em Mozart, no Teatro Mágico, na analogia do próprio nome do autor com as personagens, tudo aqui possui uma correlação, porém, nem um pouco conclusivo, o autor deixa tudo para a mera reflexão do leitor, o que é maravilhoso. E o faz sem se esquecer de sua observação pessoal, feita já no posfácio, em que Hermann Hesse sugere com humildade invejável, o que sua literatura criou na mente dos leitores da época e a verdadeira mensagem que gostaria de ter lhes passado... Eis uma obra atemporal, que como várias outras, jamais se esgotará em significado.

NOTA: 8,1

quarta-feira, 3 de julho de 2019

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIAS DA MEIA NOITE


Já que o próprio mestre Machado de Assis sugere o lado despretensioso de sua obra ao dizer que são “escritos apenas ao correr da pena”, achei que caberia uma breve explanação sobre este insigne HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE, visto que não costumo resenhar grandes clássicos.

Para se ler o mestre nos tempos de hoje é preciso que seja levado em consideração dois aspectos: 1) Machado de Assis é um homem do seu tempo, ou seja, reeditar a linguagem para tornar sua literatura mais acessível certamente aviltaria a essência da linguagem, a qual eu considero fundamental. Adotar o dialeto desusado como desculpa para não ler grandes autores do passado soa-me como falta de gosto pelo esforço... Isso é preguiça mesmo! 2) nunca se deixe enganar pelo teor muitas vezes indiferente adotado pelo autor (sua condução narrativa, vez ou outra, dá-nos a impressão de que o texto não quer chegar a lugar algum). Sempre há por trás da literatura Machadiana uma premissa irônica e sagaz, que descortina a problemática social daquela época.

Feitas as observações, vamos falar do livro:

HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE é uma compilação de contos que foram publicados originalmente num jornal que circulou no período de 1863 até 1878. Os seis contos que aqui se encontram reunidos, naquele tempo eram destinados às leitoras, público que ainda estava em ascensão.

Sob um olhar menos imersivo, o livro pode soar meio raso, de contos sem grande relevância. Mas de um ponto de vista mais analítico, a narrativa reunida nesta obra se revela um pouco mais sutil, e apresenta o típico cenário social de um tempo em que vaidade e ganancia pairavam constantes nos costumes, principalmente da famigerada burguesia (ué, mas será que mudou alguma coisa atualmente?).

Caso seja assertivo este último parêntese que fiz, eu poderia sugerir que Machado de Assis segue tão atual quanto em seu longínquo século XIX. Portanto, não se deve subestimar este trabalho que, embora pareça menos sofisticado, aborda temas fundamentais como preconceito e cobiça.

Faço menção aqui ao conto “O Relógio de Ouro”, sobre um marido que encontra no quarto do casal, desconhecido relógio que coloca em sua mente dúvidas quanto a fidelidade da esposa. O final é deliciosamente revelador.

HISTÓRIAS DA MEIA-NOITE (o título também denota ironia) é uma obra que pode servir como porta de entrada para aqueles que desejam começar a ler Machado de Assis. São contos enriquecidos pelo característico charme do mestre, segmentados por narrativa ágil e sutil. Merecem a atenção do leitor brasileiro.

NOTA: 7,7

terça-feira, 25 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O VENTRE


Penso que ler seja o delicioso encontro ente dois universos distintos: a personalidade inserida pelo autor e o choque com a existência frenética daquele que lê. Cada frase consumida, cada parágrafo avançado, possui aspectos distintos para cada um de nós, e a releitura denota a evolução daquilo que, embora seja considerada uma plataforma fechada em sua estrutura, esta jamais se esgotará.

O VENTRE é um trabalho estupendo que deve ser degustado devagar, porque a personagem quer exibir a discrepância de ventres indesejados; quer relatar a continuidade da solidão irrevelável que somente aqueles que, assim como ela, também se originaram de ventres equivocados. Uma solidão profunda, arrasadora, que inevitavelmente nos remete à nossa própria solidão de leitores.

A racionalidade incutida em José Severo, o protagonista e narrador deste não menos que genial romance do mestre Carlos Heitor Cony, soa como sabedoria com requintes de crueldades, porém, sem lugar para autocomiseração. José Severo reconhece sua natureza deslocada, mas o encara de modo lúcido e ausente de qualquer percepção de merecimento pelo sofrimento vivido.

O sentimento de inadequação de Severo é percebido já nas primeiras páginas. Contudo, sem o clamor por piedade, o narrador apenas segue contando sua mera condição de algo a se tolerar; sua percepção daquilo que lhe foi fornecido como família parece-nos algo quase implacável. O bastardo protagonista simplesmente se conforma com sua condição de despossuído; uma mãe que se esforça por ignorá-lo, um pai que o percebe como uma ameaça, e o irmão que é notado como se fosse o algoz e que se encaixa perfeitamente ao outros membros da casa.

E no meio desse descolamento existencial, ainda há a paixão irrefreável por Helena, o afeto que será sua noção de impotência condicional, depois o escopo de disputa. Então tornar-se-á a mulher proibida e, finalmente, outro ventre equivocado.

Carlos Heitor Cony é um mestre na arte de se fazer suavizar pela leitura; seus textos inserem-se na mente do leitor e misturam-se à própria memória. É praticamente impossível não se ver relembrando coisas do nosso passado. E não existe volta, uma vez invocados os afetos, a leitura se fragmenta de intervalos necessários. Há aqui uma complacência fundamental pela personagem, depois o desejo de querer ser este personagem e, por fim, descobrirmo-nos sendo este personagem.

Em O Ventre predomina no leitor o anseio pelo conhecimento adquirido através da condição de inadequação; a sabedoria oriunda de um mundo que nos nega tudo. Acredito que todos nós já nos sentimos desajustado em algum momento. De algum modo, todos um dia já nos sentimos ventres indesejáveis.

De um ponto de vista mais pessoal, considerei a voz narrativa tão preenchida de sensibilidade que as situações se parecem quase lembranças, um tom quase autobiográfico, mas logicamente, sem sê-lo. E o silêncio necessário que citei há pouco, deve-se ser invocado em qualquer leitura, mas em especial, nesta deliciosa obra. Pois é dessa forma que se alcança o verdadeiro seguimento até o imaginado ventre, que indesejado ou não, é o lugar de silêncio por excelência... Dimensão que favorece o único ruído permitido quando se está a ler obra tão deliciosa: a inquietação do próprio ser.

NOTA: 9,1

quinta-feira, 20 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – O ÓCIO CRIATIVO


“O homem que trabalha perde um tempo precioso”.
(proverbio espanhol)

Quem trabalha demais quase não tem tempo para ganhar dinheiro
(dito popular)

Estas duas máximas, contraditórias numa sociedade que idolatra o trabalho, resumem a ideia por trás deste atual e decente volume reflexivo. O ÓCIO CRIATIVO propõe analisar de modo provocativo a sociedade pós-industrial que condena e desvaloriza a criatividade e o tempo livre.

Mesmo em pleno avanço sociológico, a quebra de diversos entraves sociais não acontece facilmente. Alguns temas ainda continuam soando-nos como sagrados; sendo o trabalho um destes. O tabu é abordado sob a perspectiva com que o sociólogo italiano, Domenico De Masi, sugere: o desprendimento do período industrial que adestrou o ser humano ao labor de modo irracional e desnecessário.

A obra foi construída em diálogos. Trata-se de um bate-papo, uma entrevista que De Masi concedeu à Maria Serena Palieri. Ou seja, a temática do ócio aqui será analisada de maneira informal e descontraída, o que deixa a leitura bem mais fluida.

A premissa de uma sociedade majoritariamente estabelecida no ócio, livrando-se finalmente das agruras do expediente exacerbado e sem sentido, parece-nos um lugar belo de se viver na teoria, mas que na prática infelizmente ainda não faz parte do pensamento medieval da classe trabalhadora. Ter um emprego de 44 horas semanais ainda é sinônimo de dignidade e definidora de bom cidadão. E embora todos nós trabalhadores possamos ser dignos e éticos, o atestado para tal parece carecer de uma carteira assinada.

O intento do autor neste ótimo diálogo não é o de incitar o trabalho como um adversário do homem pós-moderno, mas estimular a reflexão sobre os males que a obsessão com a labuta vem causando na humanidade; segundo De Masi é uma enorme contradição que empresas ainda contratem pessoas medíocres e fúteis, simplesmente por seu caráter manipulável; que a criatividade não pode ser exercida em espaço despótico, onde a repetição sem sentido prolifera constante; que a burocratização é um mal progressivo que impede a autonomia inventiva e gera desníveis salariais.

É sabido que este tipo de assunto parece-nos paradoxal neste mundo onde o desemprego prolifera mesmo nas grandes e desenvolvidas metrópoles. Contudo, o autor não se comporta como um utópico apaixonado; de fato, suas ideias invocam o tema do desemprego de modo atual, denotando as mazelas oriundas do sistema capitalista que parece investir demais em ferramentas tecnológicas e de menos no material humano, que segundo De Masi, é o único detentor da possibilidade de criatividade na natureza. Esquecer-se do desenvolvimento humano para se concentrar em máquinas é o que tem gerado crises econômicas e desempregos em proporções astronômicas.

Domenico De Masi é um árduo defensor da economia criativa; espaços que possam unir o trabalho, prazer e criatividade. Menos autoritarismo por parte das instituições públicas e privadas é o que pode proporcionar o livre pensar criativo, que segundo o autor, trata-se de um futuro inevitável; ainda distante do pensamento consumista da civilização, mas ainda assim, inevitável.

NOTA: 8,4

quinta-feira, 13 de junho de 2019

RESENHA DE LIVRO – REMÉDIO AMARGO


A temática proposta neste livro é amplamente rica. O universo da indústria farmacêutica é um espaço em que se é possível extrair inúmeros enredos, principalmente por se tratar de uma área científica que oscila entre a necessidade do desenvolvimento de medicamentos eficientes e o enriquecimento ilícito por conta da proliferação dos mesmos.

REMÉDIO AMARGO é engajado dentro dessa premissa: um laboratório renomado está lançando no mercado um novo produto para mulheres grávidas com a promessa de revolucionar a indústria e salvar a companhia da falência. E embora haja entusiasmo por parte dos colaboradores, paira um enorme medo de que se repita o fracasso de um medicamento similar no passado. No meio disso, acompanhamos a escalada da protagonista principal, Célia Jordan, uma mulher determinada que tenta superar o desafio do machismo no mercado de trabalho da década de 60, e usando de sua irrefreável ambição, galgar o topo da cadeia alimentar.

O autor aqui é o aclamado Arthur Hailey, que dispensa apresentações. Neste trabalho, que foi seu último em vida, temos uma trama muito técnica e cheia de intrigas dentro da temática proposta, mas que derrapa em alguns aspectos... Vamos a eles:

Como eu já mencionei, há aqui uma enorme explanação procedimental a cerca dos bastidores da indústria farmacêutica, o que comprova o engajamento do autor em pesquisar o assunto pretendido por sua obra. No entanto, Arthur Hailey parece mais preocupado com especificidades burocráticas e o funcionamento do sistema, do que propriamente em inserir complexidades éticas na conduta de seus personagens, algo que ajudaria a elevar a dúvida de forma constante na cabeça do leitor. A trama até nos mostra a problemática moral do interesse ganancioso na diretoria da indústria, mas o faz de modo superficial, parece algo unilateral que precisa estar ali, mas que não é isso o que deve ser contado.

O autor aparentemente está mais interessado em promover sua personagem principal. Célia é exaltada aqui de um modo insistente que quase fez da moça uma existência improvável; ela é impetuosa, forte, determinada, bela, altiva, perfeita, possui um instinto infalível de antecipar problemas e os coadjuvantes comportam-se de modo a exaltar isso com exagerada reverência e submissão. Arthur Hailey até chega a tentar inserir imperfeições em Célia, mas o faz de modo tímido e logo retoma os louvores inflamados a cerca de sua musa. Célia Jordan é retratada como se fosse uma heroína infalível de desenho animado; uma espécie arquétipo mitológico que o autor entrega de maneira patologicamente apaixonada... Sério, gente, isso cansa demais!

Outra coisa que me incomodou é condução extremamente prolixa. Há cenas aqui que são desnecessárias demais, como reuniões para tratar de assuntos com equipes de publicitários e advogados da companhia; instantes enfadonhos que quase me fizeram desistir da leitura e tornaram o livro assustadoramente extenso.

Os diálogos também não são orgânicos, eles deixam a impressão de que estamos lendo máquinas programadas que conversam entre si, sem a menor naturalidade ou improviso. Há aqui uma escassez enorme de sensibilidade narrativa. Um exemplo disso são as crianças, que quando surgem nos diálogos são artificiais como personagens de uma propaganda de margarina.

REMÉDIO AMARGO é um livro de título instigantes, conduzido por autor renomado e de trama que não soube explorar o extenso universo de seu tema. É um trabalho que passa suas quase quinhentas páginas tentando transformar a protagonista principal numa espécie de bond-girl, esquecendo-se de seus outros personagens que poderiam ter contribuído para elevar a dinâmica da história... Uma pena.

NOTA: 4,1