domingo, 23 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – A MENINA


O título desta obra se torna compreensível apenas quando se lê o subtítulo.  A MENINA é uma designação genérica demais para anunciar qualquer coisa. O rosto da “menina” na capa também revela muito pouco; trata-se de uma completa desconhecida num primeiro momento. Contudo, é no subtítulo, onde se encontra o nome de uma estrela consolidada de Hollywood, que então começa a pairar hipóteses na mente do leitor.

Particularmente eu conhecia pouquíssimo sobre a vida de Roman Polanski, o premiado diretor que, do instante em que passou pela vida da desconhecida jovem que ilustra a capa, a existência anônima da “menina” perdeu todo o confortável aspecto banal que permeia quase todos nós, seres comuns e distantes do estrelato do universo cinematográfico. O problema é que a breve colisão com o ilustre diretor não poderia ter ocorrido de modo mais trágico: a menina do título é a autora Samantha Geimer, a singela adolescente estuprada por Roman Polanski em março de 1977.

Mais de trinta anos depois a vítima, até então desejosa de privacidade e discrição, resolve contar o que houve naquela tarde de fotos na casa do ator Jack Nicholson (vale salientar que Jack não se encontrava em casa). Por décadas este caso dominou as mídias mundiais e atormentou tanto diretor quanto Samantha. E a moça sentiu-se na obrigação de sair das sombras quando, em 2009, Roman Polanski foi detido na Suíça em função de um mandato de prisão expedido décadas atrás.

O que de mais interessante existe neste relato parcialmente biográfico é justamente o olhar feminino sobre o problema do abuso. Samantha relata a problemática de ser uma vítima de estupro e, pior ainda, ter sofrido isso pelas mãos de um homem poderoso do cinema. A vida da autora nunca mais teve sossego, passando a ter que conviver sob a perversa sombra do crime sofrido. O nível de constrangimento tornou-se tão extenso que em determinado momento Samantha chega a alegar que o estupro não foi propriamente a pior coisa que lhe aconteceu, mas a repercussão dos fatos. Distorções inimagináveis tomaram conta do caso e a moça nunca mais teve sossego.

Outro aspecto que vale ser apontado é para o comprometimento com a narrativa mais crível; a autora procura descrever os acontecimentos com imparcialidade impressionante, não somente nos detalhes, mas também nos sentimentos. Samantha Geimer narra o que ocorreu aos treze anos de idade requintando sua história com o inevitável ponto de vista de uma adolescente. Quando ela alcança a maturidade, nota-se no contexto o pertinente ganho de reflexão sobre os acontecimentos; da metade do livro em diante há uma mulher que aprendeu a analisar os fatos com maior propriedade. Isso é tão notório no livro que quase parece se tratar narradoras diferentes em cada tempo.

O ritmo do livro não é cansativo, o que é muito bom quando se está lendo esse tipo de literatura. A linguagem é prosaica, sem nenhuma sofisticação. A diagramação também é limpa, espaçada, o que torna a leitura agradável. Tais características são importantes pontuar porque gêneros semelhantes às biografias costumam cansar quando segue uma linha narrativa mais técnica.

 A MENINA é um livro corajoso e envolvente. Um relato sutil que precisa ser lido, não apenas por aqueles que desejam se aprofundar no polêmico assunto em torno da vida dos envolvidos, mas também para quem anseia por testemunhos de mulheres que precisam lidar com um mundo machista que insiste em puni-las até mesmo quando submetidas às mais horrendas formas de violência. Só temos que agradecer pela coragem dessas mulheres.

NOTA: 7,6

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – NOTURNO EM MANHATTAN


O subgênero romance investigativo, assim como acontece com a maioria dos tipos literários, costuma alcançar leitores variados quando consegue utilizar elementos que não sejam propriamente característicos de sua forma. Isso também ajuda a deixar a trama menos cansativa. Colin Harrison já mostrou que sabe como inserir isso em seus trabalhos, porém o resultado dessa vez foi uma discreta obra intitulada NOTURNO EM MANHATTAN.

Exemplo da boa intuição do autor já se nota no protagonista. Enquanto os suspenses policiais costumam pairar em torno de um investigador ou perito em desvendar crimes, aqui a personagem é um abutre da mídia; um colunista de jornal cujo trabalho é ir à busca de tragédias humanas para desenvolver suas crônicas. Porter Wren, apesar da profissão pouco moral, aparenta ser um sujeito minimamente decente e segue sua vida cotidiana da maneira mais banal possível. Contudo, a passividade que o permeia desaparece no instante em que ele se envolve com Caroline Crowley, viúva de um famoso cineasta. Começa-se um cenário de intrigas, dúvidas e um interminável pisar em solo desconhecido... A vida do jornalista se torna um inferno em tempo recorde.

O autor mantém a mesma pegada prolixa de seus outros trabalhos; Collin Harrison não economiza vocabulário na hora de tecer sua trama, mas a sensação que tive é que neste livro especificamente esta característica funcionou em alguns momentos, mas noutros não.

A narrativa como um todo é agradável mesmo alongando-se em demasia. O autor sabe contar sua história com leveza; ele insere elementos informais, gírias e obscenidades que ajudam a tornar a narrativa mais crível. Também as personagens comportam-se de modo orgânico e inerente, o que agrada bastante. O leitor tem um longo livro pela frente, porém raramente este se torna cansativo.

Mas o problema ocasionado por esta acentuação verbosa acontece no final. Conhecendo outros trabalhos do autor, achei estranha a necessidade em explicar demais os instantes finais. Collin Harrison passa muito tempo narrando o que já foi dito ao longo da trama, esmiúça detalhadamente cada ponto chave da história, como se houvesse uma preocupação com a capacidade de compreensão do leitor. Eu cheguei a pensar que estava diante de um resumo da obra. Talvez isso tenha acontecido pela incapacidade do autor em tornar seu trabalho mais enxuto, pois o livro poderia ter terminado com pelo menos umas cinquenta páginas a menos. Ou seja, a maior virtude de Collin Harrison aqui acabou se tornando um considerável entrave.

Em breves passagens também podemos acompanhar a descrição de uma cidade efervescente como Manhattan, sempre focado em seu aspecto mais lúgubre. O autor nos mostra a marginalidade que permeia a cidade, a miséria dos cidadãos esquecidos e que sempre estão ladeando o glamour e requinte das grandes metrópoles. O livro precisava deste elemento sórdido que assertivamente elevou o dinamismo do texto.

NOTURNO EM MANHATTAN é um livro discreto e bem escrito, porém, exageradamente prolixo principalmente no final. Sustenta os elementos narrativos que fazem de Collin Harrison um excelente escritor, mas peca ao tentar retirar do leitor o prazer de analisar seu conteúdo.

NOTA: 7,5

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – COM OS PÉS ATADOS


Quando comecei a compor esta resenha, eu ainda não havia terminado a leitura. Não é uma situação incomum, geralmente anoto observações sobre o que resenhar ao longo da leitura. Além disso, eu já me encontrava nas páginas finais, porém, já sentia que algumas considerações, deste que foi o livro o qual mais esperei para ler em 2019, precisavam ser pontuadas.

Pois eis que a expectativa pode ter sido o maior entrave que ocorreu durante minha leitura deste circunspecto COM OS PÉS ATADOS: o demasiado anseio pelo retorno ao universo da autora Kathryn Harrison. Eu era bem jovem que li O BEIJO (há uma reflexão sobre ele aqui no blog), obra extraordinária que fez com que eu me apaixonasse pelo estilo de sua autora.  Certamente este fato encheu minha análise de emoções, prejudicando a apreciação racional, ainda mais por ter considerado este livro inferior ao que li anteriormente.

No entanto, antecipo que COM OS PÉS ATADOS está longe de ser um livro ruim, embora caibam algumas considerações... Farei uma breve sinopse e depois esmiuçar os problemas:

A trama se passa na China do século XIX e explora, entre os costumes regionais, o asqueroso hábito de esmagar os pés das mulheres para torná-las mais sedutoras aos futuros maridos. Esse ritual maligno de mutilação que visa acentuar a fragilidade feminina é o pano de fundo. May, a personagem principal, viveu esse tempo, mas ela da um jeito de fugir da submissão incutida ao feminino e vai parar em Xangai onde começa vida nova. Como sinopse isso basta para entender o escopo narrativo. Não vou me estender muito para não tornar a resenha extensa demais.

A pouca noção de importância da trama me incomodou desde o início. Várias personagens dividindo as páginas quase que em igualdade com May acabaram por prejudicar a consistência. Achei que esse descuido interferiu numa familiaridade maior entre personagem e leitor.

Veja bem: isso não chega a ser um problema para o ritmo propriamente, mas inevitavelmente retirou de May sua essência. Depois que temos explicada a origem da protagonista, May simplesmente desaparece ou passa a dividir em igualdade o espaço de importância narrativo. Isso prejudicou na empatia, influenciou na compreensão da história e, diante de um texto que não deixa claro qual dos protagonistas é seu centro, todos acabaram descaracterizados.

Há aqui algumas figuras cujos aspectos quase cativam o leitor. Porém, eles são pouco explorados porque a trama muda de foco constantemente. Posso dar dois exemplos disso: o marido de May, que com sua interminável e quase irracional admiração pela esposa, seria um elemento enriquecedor; ou a sobrinha Alice com seu apego inabalável pelos modos impetuosos da tia. Talvez o livro estivesse suficientemente abastecido concentrando seu fio condutor apenas nestas três personagens. Só que Kathryn Harrison não excede o foco em ninguém, quase a ponto de tornar a leitura enfadonha.

A narrativa sensível, minuciosa e irônica que tanto ansiei por encontrar, aconteceu em pouquíssimos momentos. Quando a autora os insere, o texto imediatamente ganha beleza, se torna atrevido, aprimorado, sofisticado... Senti falta dessa característica brilhante da autora:

“Alice não respondera, mas mergulhara a colher no café, transmitindo insulto com o gesto estudado, cuidadoso, silencioso, de mexer a colher, resolutamente evitando – como jamais o fizera – chocar o talher contra a porcelana”.

Outra coisa que incomodou é que há instante em que temos a impressão de que algumas palavras não foram traduzidas devidamente ao contexto, o que não é conclusivo, afinal, eu não sou nenhum perito em tradução. Mas ao longo da leitura percebi algumas palavras inseridas de maneira estranha e incoerente.

Felizmente os capítulos finais retomam o foco na personagem principal, o que proporcionou um ganho imersivo e consolidou May como protagonista. O ato final não chega a surpreender, mas não descamba para a pieguice e termina no momento certo.

COM OS PÉS ATADOS é um livro mediano, cuja criadora parece ter economizado em talento. Mostra uma história de crueldade com as mulheres de um modo íntegro, sem vitimismo e com algum requinte de beleza. E embora minha expectativa elevada tenha influenciado um pouco, vale à pena ser lido.

NOTA: 6,4

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – O SOPRO DE BELIAL


O ser humano é uma espécie peculiar capaz de perpetrar qualquer ato. Basta apenas que ele dê o primeiro passo.

Essa ideia faz-se verídica quando a personagem Karl Mcquorn chega até uma ordinária casa de repouso para idosos, disposto a oferecer seus trabalhos como pintor, no que parece se tratar de uma despretensiosa ação altruísta. Ele rapidamente faz amizade com um dos internos que, vez ou outra, até o ajuda nos afazeres. Durante a jornada de trabalho, ambos aproveitam para conversar e, aos poucos, o novo amigo descobre que o simpático pintor traz consigo um passado trágico e que talvez ele não tenha viajado tão longe apenas para pintar paredes.

O SOPRO DE BELIAL é um thriller em que os acontecimentos fluem rápido. A cada página virada, a cada capítulo avançado, novas revelações vão sendo feitas, personagens fundamentais nos são apresentados e todos se encaixam na relevante pertinência do axioma que inicia esta resenha: o homem é capaz de assumir qualquer atitude, tudo depende daquilo que o move.

Aqui nada e nem ninguém está inserido por acaso. Tudo terá um propósito, uma explicação. A condução narrativa nos mantém acompanhando as conversas entre Karl e o Sr. Morris – o interno do asilo. E conforme Karl conta sua história, o leitor é transportado ao passado do personagem, no tempo em que precisou ir morar numa cidadezinha do interior, na casa de sua avó, após a mãe ter sido brutalmente assassinada. E como num macabro quebra-cabeça, tudo vai desembocar em causas que fundamentam as atuais ações do presente.

O enredo é engenhoso, constante e convincente. Não é linear, hora ele está fixo no presente e nos revela os dias de trabalho no asilo onde acontecem as conversas entre Karl e o Sr. Morris. Em outro momento, intercala capítulos que narram o passado difícil vivido na casa de sua ascendente. Por falar na avó, Miranda é uma mulher áspera e enigmática; parece viver alheia à realidade ao mesmo tempo em que aparenta ser o escopo do universo lúgubre que acomete seu misterioso lar. Tal problemática é o que torna complicada a convivência com o neto, assim como o deixa obcecado em querer descobrir os mistérios por trás dos aparentes rituais ocultistas que podem estar acontecendo dentro do quarto da avó.

O enredo deixa propositalmente pontos em aberto para que a cada capítulo avançado um novo mistério ou dúvida preencha a mente do leitor. Até que se chegue ao ponto de já não poder separar o que é alucinação do plano real... E tudo se encaixa precisamente nos capítulos finais, os quais nos revelarão desde os intentos que movem o atormentado protagonista, até o obscuro título da obra.

Um ponto negativo talvez esteja dentro da própria trama. A história explicita de forma clara que existem razões escusas movendo as atitudes do personagem principal, mas não existe a preocupação em pontuar os porquês de o protagonista ter demorado tantos anos para finalmente colocar seus intentos em prática. O livro da um salto cronológico e nos deixa com a sensação de desencaixa entre personagens de gerações distintas. O posfácio até consegue dar alguns esclarecimentos de forma eficiente, mas se calcularmos as idades dos envolvidos na trama, isso acaba gerando uma pequena interrogação em nossas mentes.

O SOPRO DE BELIAL é um suspense peculiar onde tudo e todos possuem uma importância. É conciso em sua narrativa e não deixa o fôlego se perder. Trata-se de um sutil rastro de sangue, mortes e rituais obscuros, ladeando todos os envolvidos, permeando cada parágrafo, até desembocar no angustiante e aterrador ato final.

NOTA: 7,9

INTERESSADOS EM ADQUIRIR A OBRA:
https://www.editoraviseu.com.br/o-sopro-de-belial-prod.html

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA (Vol. 1, 2 e 3)


Para que o nosso povo saia da condição infeliz de crença de nação sem memória é preciso que, antes de qualquer coisa, nós brasileiros aprendamos a respeitar a história do Brasil. Acredito que somente através da consideração profunda e continuada é que poderemos pensar em desenvolver melhorias no âmbito da história, essa disciplina tão desprezada pelos brasileiros.

Foi durante a leitura do volume dois que me ocorreu a ideia de fazer uma única resenha com os três livros dessa série, os quais adquiri numa feira de literatura por um preço irrecusável. Mas somente quando estava terminando de ler o volume três, o qual eu pensava se tratar do último, foi que descobri a existência de um quarto livro, o qual até o fechamento dessa resenha ainda me empenho para adquirir.

Portanto, esta resenha trata apenas dos três primeiros volumes.

HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA é uma viagem de mais de quinhentos anos e que começa lá trás, num Brasil colônia, passando pelo império, até chegarmos à república.  Sob uma ótica menos acadêmica e mais orgânica, o livro apresenta aspectos do nosso povo de forma pouco comum na literatura histórica; leva o leitor para dentro do passado da convivência cotidiana, no lar, como as pessoas se banhavam, como extraíam o sustento, os costumes, a vida social, a relação com a natureza, a forma de fazer comércio, a expansão industrial... Sempre sustentando narrativa testemunhal, de pessoas que naqueles períodos estiveram inseridos.

O primeiro volume, COLÔNIA, a autora investiga as tradições e costumes de nosso antepassado, como alimentação, a maneira como se vestiam, onde e como moravam, o que faziam para se divertir, o trabalho, a família, a sociedade de forma geral, sempre sob a luz da vida cotidiana, o que denota o árduo trabalho de investigação histórica da autora.

O segundo volume, IMPÉRIO, relata um Brasil iniciando sua trajetória autônoma como nação. Acompanhamos figuras importantes como Dom Pedro I, muito jovem e inseguro. Mas Mary Del Priore logo escapa da realeza e desce alguns degraus para encontrar a evolução das famílias comuns, a expansão escravocrata, a separação definitiva entre o que é público do privado, os movimentos separatistas que começaram a tomar conta do país.

O terceiro volume, REPÚBLICA, mergulhamos em diversas crises econômicas e financeiras, a proliferação da bolsa, ascensão das elites, embates políticos que culminaram em mudanças cruciais, a vontade de inserir a cultura europeia em nosso meio, a expansão de novas tecnologias que hoje nos são tão triviais como a geladeira, o rádio e o automóvel. Neste volume poderemos ter uma ideia de como era a vida cotidiana dos nossos avós.

A genialidade da autora se torna clara quando da comparação com qualquer livro de história do Brasil endossado pelo MEC que é usado nas escolas. O conteúdo histórico apresentado em sala de aula costuma ser técnico demais, deixando a leitura cansativa e enfadonha. Mary Del Priore foge desse tipo de condução, faz uso de uma linguagem coloquial, insere toda sua longa pesquisa de modo simples e acessível; trata do nosso passado de uma maneira que não poderia ser definida de outra forma: a autora retrata o Brasil com o dedicado amor de historiadora.

Além da extraordinária narrativa, a obra é também belíssima visualmente, trazendo uma enriquecida coleção de imagens históricas, principalmente no terceiro volume em que o acesso ao conteúdo visual era mais amplo.

HISTÓRIA DA GENTE BRASILEIRA é uma coleção riquíssima sobre a história do nosso povo. Um inestimável préstimo à alma do Brasil, que infelizmente é desconhecido e ignorado por praticamente todo brasileiro, que por desleixo ou escassez de conhecimento, perde a chance de aprender sobre a nossa história de uma forma acessível, agradável e, por que não dizer, apaixonante.

NOTA: *10*

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – GOETHE E BARRABÁS


O título contendo dois nomes de considerável importância, escritor e personagem bíblica, impulsiona o leitor e enche-o de curiosidade a respeito do conteúdo. Goethe, pensador e escritor alemão do século XVII, criador do personagem icônico Fausto, dividindo espaço com Barrabás, figura bíblica que foi um dos extremos do primeiro plebiscito que se tem notícias, terminou por receber a liberdade, enquanto o filho de Deus foi parar na cruz.
Quando me deparei com o título deste livro, retirei-o com vontade de entender sua premissa. E embora a sinopse não dissesse muita coisa, e o meu minguado conhecimento de literatura deixou escapar o nome de Deonísio da Silva, eu quis levar para casa e descobrir do que se tratava.

Foi um achado prazeroso.

A pegada irônica do autor recheia sua obra com personagens ilustre da literatura ou canônicas, percorre os preâmbulos nebulosos da mente insegura do ser humano e desagua num universo cheio de metáforas cujo pano de fundo é o escopo do Fausto de Goethe: a vontade inerente do homem a alcançar desejos inalcançáveis, e para isso fazer uma barganha com o diabo.

Na trama, nem um pouco previsível, Barrabás encontra na pureza de Salomé a chance de viverem juntos uma bela história de amor. E entremeio aos cativantes personagens que surgem em tempos não lineares, o questionamento máximo aqui sugerido: como ser feliz sem ter que vender a alma ao diabo?

E falando em personagens, quase todos são por demais interessantes. Desde a avó descolada, o padre que nega sua religiosidade no leito de morte, até um estimado animal de estimação, praticamente todos aqui cativam o leitor a ponto de me fazer achar que alguns foram pouco explorados.

Os diálogos são o que de mais charmoso se encontra aqui; o olhar sobre cada tema abordado; a introdução dos capítulos as quais se notam as metáforas fazendo amálgamas de mundo velhos com o atual; a originalidade reflexiva em cada opinião... O texto não se acanha e vai desenvolvendo temas, lançando reflexão na mente do leitor.

A obra parece fazer analogias o tempo inteiro (ou eu terei que fazer releituras para absorver melhor a mensagem incutida), algumas metáforas se inserem seguidamente, como mencionei anteriormente, e nos deparamos com uma história gostosa de ser lida; de pessoas admiráveis e cheias de incertezas.

O capítulo final pareceu o menos atraente. Talvez o percurso agradável da leitura tenha me tornado um pouco exigente em relação ao seu término, mas fiquei com uma leve sensação de que faltou um pouco mais do charme destilado por todos os cantos. De qualquer forma, o nome de Deonísio da Silva, este ilustre desconhecido, já está anotado para que eu procure por mais de seus trabalhos.

GOETHE E BARRABÁS é um livro diferente e que vale à pena ser lido. Diverte, provoca e destila um charme narrativo não muito fácil de encontrar por aí. Poderia ter explorado melhor algumas personagens, mas talvez essa observação seja oriunda da leve frustração por considerar a obra tão enriquecida e ao mesmo tempo tão curtinha...

NOTA: 8,1

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA


Livros que abordam temas complexos de um modo fácil e sustentando linguagem coloquial, deveriam ser obrigatórios em nossas escolas. Não é a primeira vez em que expresso essa opinião, mas é que ela retorna à minha mente sempre que leio uma obra com tais características.

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA escapa dos termos técnicos, dispensa a linguagem acadêmica e entrega seu conteúdo de modo a parecer uma conversa descontraída entre amigos num bar. Ou seja, os elementos aqui são fundamentais para quem deseja se inserir em assuntos herméticos.

Num primeiro momento a condução informal da obra pode soar um pouco displicente, como se o autor estivesse lidando com economia de forma leviana. Mas o truque é encarar o livro como porta de entrada para o assunto proposto. E exatamente isso que o autor faz: uma crítica ao pensamento raso e automático que está incutido na mente da maioria dos brasileiros. Colocar uma interrogação sobre aquilo que parece obvio na truncada economia desse país é um convite do autor para que se acione o pensamento crítico tomando esse livro como ponto de partida para leituras mais abrangentes.

Alguns temas levantados aqui parecem superados num primeiro momento, como, por exemplo, o pensamento do trabalhador brasileiro que considera o patrão um ser maléfico e que deve ser vigiado em rédeas curtas pelo estado, que neste mesmo pensamento equivocado, enxerga nossa legislação trabalhista como um mecanismo divino a proteger os pobres e indefesos trabalhadores. A inclinação libertária e direitista do autor talvez incomode possíveis leitores extremistas de esquerda, o que não é o meu caso. Raramente me desassossego com algum tema, pois me considero um leitor curioso demais para me render a rótulos restritivos.

Leandro Narlock é jornalista e foi repórter da revista Veja. Também foi editor da Superinteressante e Aventura na História. Portanto, o teor jornalístico é notável por todo conteúdo deste volume, assim como também a devida inserção de suas fontes estão expostas para quem quiser se aprofundar ou verificar a autenticidade do que está sendo dito (mesmo que algumas dessas fontes sejam parciais, pelo menos elas estão aqui para serem contempladas).

Eu até poderia considerar a escassez de profundidade na maioria dos temas (tive esse mesmo incômodo ao ler o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, escrito pelo Luiz Felipe Pondé), mas acredito que não é essa a premissa em nenhum dos volumes da série Politicamente Incorreto. A contradição é levantada aqui como pontapé inicial, o que nos leva a pensar um pouco no escopo do título, ao usar o termo “guia”. Não dá pra dizer que estamos diante de um guia, pois falta aqui a mecânica instrutiva que compõe um livro que sirva como manual de instrução de verdade.

GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA não chega a ser um livro indispensável, mas vale como porta de entrada para quem deseja entender um pouco os entraves de nossa economia. De linguagem descomplicada, também pode agradar aos leitores que, embora gostem de ler sobre economia, não desejam se tornar doutores sobre o tema.

NOTA: 7,6

sábado, 30 de novembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – O CORTIÇO


São as raras exceções que confirmam uma regra. Se o espaço de convivência é definidor (ou pelo menos influenciador) da moral, então eis que qualquer caso esporádico apenas demonstra o quanto a precariedade de um “cortiço”, em geral, comporta seres humanos inescrupulosos que por conta da escassez precisam lutar como selvagens por seu lugar ao sol.

O Cortiço é uma obra advinda da metade do século XIX que analisa o convívio humano de um modo, digamos, cientifico, quase empírico. Desse ponto de vista, o comportamento de suas personagens seria fruto do meio em que estes se encontram, advindos de uma exposição contundente que parece conferir à trama um escopo de denúncia das injustiças sociais daquele tempo.

A veracidade analítica expressada aqui poderia até ser compreendida como documento histórico ou sociológico, justamente por mostrar de maneira abrangente o surgimento da classe trabalhadora mais humilde.

A trama nos remete à João Romão logo no comecinho e parece seguir com esta personagem como principal. Mas de um ponto de vista alegórico a impressão é de que todos viventes narrados são apenas células da autêntica personagem: o próprio cortiço; jamais li um livro cujo título se encaixe tão adequadamente.

O fio narrativo permeia a ascensão social de João, típico indivíduo advindo do meio proletário e através do capitalismo inescrupuloso se torna rico. João é importante porque é o criador do cortiço; lugar que se torna laboratório de convivência para as mais distintas personalidades sociais. Contudo, o seguimento distancia-se de seu protagonista, proporcionando um olhar maior e mais amplo, possibilitando-nos o testemunho da vida no cortiço como um todo; a obra entende que João Romão tem sua função, mas sabe mesclar seu desenvolvimento juntamente com o do lugar que intitula a história.

O estilo linguístico de Aluísio Azevedo não é excessivo e nem minimalista, narra na dose certa lugares, aspectos, sentimentos. Trata de modo equilibrado seus protagonistas e por essa razão considerei o cortiço como sendo a personagem essencial; todos os envolvidos na trama têm seu nível de importância e o autor não perde ninguém pelo caminho. A harmonia narrativa estabelecida aqui é simplesmente genial.

O Cortiço demora um pouco pra funcionar; requer um tanto de perseverança do leitor, principalmente nos primeiros capítulos nos quais são jogadas quase todas as personagens de uma só vez. Mas com paciência na leitura o livro logo te prende e não larga mais.

A edição que li foi reformulada pela editora Ediouros e o resultado agrada bastante; a linguagem foi revigorada, mas sem deixar que se percam os aspectos vocábulos daquele tempo, isso ajuda a tornar a leitura acessível sem comprometer sua essência.

O Cortiço é outro belo volume de nossa literatura que talvez tenha sido usado de forma errada por nossa pedagogia, pois a ação de obrigar alunos a lerem obras como essa, muitas vezes pode produzir o efeito contrário do esperado: fazer com que o jovem se afaste de nossa riquíssima literatura. Autores como Aluísio Azevedo, Machado de Assis, Clarice Lispector, não devem ser limitados apenas ao escopo didático, mas acima de tudo, a proximidade com o que há de melhor na literatura desses gênios: o vislumbre inebriante de sua riqueza narrativa.

NOTA: 8,3

sábado, 2 de novembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – MOINHOS DE VENTO


Quando se fala em George Orwell, dois trabalhos deste monstro da literatura preenchem a mente do interlocutor: 1984 e A Revolução dos Bichos. E obviamente também são estes dois clássicos do cara que eu carrego como meta de leituras futuras. Contudo, foi vasculhando acervos de usados pela internet que encontrei este então bem mais modesto MOINHOS DE VENTO, que por conta da casualidade acabou sendo minha primeira incursão no universo literário de Orwell.

Minha leitura de MOINHOS DE VENTO remeteu-me, de imediato, a aspectos os quais já haviam me alertado sobre o estilo do autor: a contradição do ser humano, o apontamento para o sistema opressor capitalista, e talvez um dedo na ferida sociológica de seu tempo.

A trama conta a história de Gordon Comstock, caricato cidadão inglês de infância pobre, cujo pavor ao sistema capitalista moedor de carne humana lhe remete a paranoias prejudiciais para sua subsistência e o enterra, cada vez mais, no fundo do poço. Gordon veste sua aversão ao regime econômico vigente até a fase adulta, situação que torna quase nula suas perspectivas existenciais.

Perceba que esta breve sinopse já denota o tipo de literatura que o leitor ira se deparar. Pois eis que durante a leitura, outros elementos da narrativa de George Orwell permeiam o tempo inteiro, algumas delas com um sutil teor de protesto. A que mais me chamou a atenção foi precisamente a hipocrisia do ser humano, incutida na personalidade da personagem principal.

Gordon é um homem aparentemente bem instruído, dotado de sagacidade peculiar ao analisar a sociedade que o rodeia, assim como também aspira ao universo da poesia. No entanto, quando prega seu repúdio ao dinheiro, Gordon mais se parece com um sofista, pois se imbui de discurso irreprovável, mas na prática carece o tempo inteiro de recursos econômicos para sustentar suas obvias necessidades; ele quer parecer desprendido da ganância substancial e até classifica o dinheiro como uma espécie de Deus escravocrata. Mas mesmo dentro de uma realidade quase que de mendicância, Gordon segue recusando possibilidades de crescimento econômico, ao mesmo tempo em que vive sugando os escassos recursos de sua irmã.

É uma assertiva narrativa da corrupção dos ideais que o autor tão bem nos entrega. Orwell não se priva de mostrar a frustração e revolta de seu protagonista em pé de igualdade com o comportamento discrepante que reconhece e até aceita as regras consumistas.

Eu diria que um probleminha a ser mencionado é o final, que considerei previsível e me deixou com a sensação de esgotamento, como se tudo o que havia para ser dito aconteceu, deixando a conclusão sem grande acabamento. Mas creio que isso não chegou a incomodar muito.

MOINHOS DE VENTO (até agora não entendi o título em português) é obra de um dos maiores romancistas do século XX. E embora eu ainda não tenha lido seus trabalhos mais notórios, foi evidente verificar seu domínio narrativo. Espero ler mais de Orwell, cujo método literário contribui para iluminar nossas mentes escuras no que concerne a complexidade humana.

NOTA: 7,7

terça-feira, 22 de outubro de 2019

RESENHA DE LIVRO: O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO?


Na literatura deixada por quem sobreviveu ao Holocausto há pouco a ser lido que vá além da análise genérica que não soe repetitivo; quase todos os relatos são parecidos e, apesar de sua conotação extremamente trágica, geralmente seguem a esperada linha testemunhal da crueldade humana. E embora essa constatação possa ser entendida como desdém, eu confesso que só continuo insistindo nesse tipo de conteúdo por querer encontrar um pouco daquilo que não estava escancarado aos olhos; a narrativa que me fascina é a da resiliência silenciosa, aquilo que não foi dito simplesmente porque se esconde nas sombras escuras da alma humana...

Nesse sentido, O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO? é um livro que trouxe uma perspectiva inusitada sobre a tragédia do Holocausto: fez sua análise fria e sentimental do ocorrido sob o ponto de vista não apenas de quem lá esteve, mas também de quem não viveu os dias de treva sob os muros de Auschwitz. A autora Noemi Jaffe é filha de uma sobrevivente do inferno e parte da obra é sua dissecação à cerca do diário de sua mãe, Lili Jaffe, documento que hoje se encontra no Museu do Holocausto de Israel.

Lili tinha dezoito anos quando se tornou prisioneira junto com o resto de sua família, os quais ela só reencontrou o irmão quando do término do conflito. Quando a Cruz Vermelha resgatou e levou Lili para a Suécia, esta resolveu eternizar tudo o que havia sofrido, fazendo uso de sua memória fragilizada, mas ainda fresca em relação à experiência traumática. Essa é a primeira parte da composição desta obra aqui resenhada: o diário de Lili, escrito como se ela estivesse relatando exatamente em conformidade com o ocorrido. Temos aqui a parte genérica da obra, pois se trata de mais um testemunho dos muitos já publicados, mundo afora (é pavoroso, eu sei, mas é apenas outro relato que pouco se distingue de outros tantos).

A segunda parte do livro é o que, de fato, o tornou indispensável: a autora discorre com elevada profundidade e lisura sua pessoal jornada por tentar compreender no que sua mãe foi transformada após a tragédia. Há momentos aqui capazes de suscitar reflexões profundas, como quando Noemi explica a necessidade de sua genitora em crer no destino como uma maneira de se livrar da culpa por ter sobrevivido; ou no capítulo intitulado “mãe”, um dos mais belos textos da obra.

A percepção posterior da filha (que exatamente narra tudo em terceira pessoa como se não fosse sobre ela mesma) de que nada chegará a lugar algum é uma conclusão acertadíssima. Saber que é impossível obter algum norte sobre o Holocausto ou mesmo a tentativa ineficaz de explorar a alma de sua mãe mostra o quanto a busca pelo conhecimento de determinado assunto acaba gerando ainda mais dúvidas; máxima filosófica que carece de elevada humildade e entrega a derrota que eleva o ser, pois as grandes obras deixadas neste mundo são obras inacabadas, infinitas...

Na terceira e última parte, que de tão curto parece se tratar de um posfácio, temos a análise oriunda de outra geração, a neta de Lili, filha de Noemi Jaffe, que também esteve junto com a mãe em visitação às instalações de Auschwitz e, portanto, forneceu seu olhar ainda mais distante, de quem ouve ou lê relatos sobre o Holocausto como quem acompanha uma produção fictícia, algo muito difícil de acreditar.

O QUE OS CEGOS ESTÃO SONHANDO? (o belo e inusitado título é devidamente explicado ao longo da obra) não chega a ser um livro fundamental sobre a tragédia de um povo, mas sabe esmiuçar a particularidade de seus narradores com tamanha profundidade; um convite à reflexão sob a luz da intrepidez de mulheres que estiveram submersas em tragédias a partir de pontos diferentes de visão... Altamente recomendado pela riqueza imersiva.

NOTA: 8

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

RESENHA DE LIVRO – AGOSTO


No cenário literário brasileiro há poucos romancistas noir reconhecidos (é curioso, pois se trata de gênero agradável, que mistura mistério e elementos investigativos). E se esta sugestão corresponde mesmo à realidade ou se é apenas meu precário conhecimento dos grandes autores brasileiros, o fato é que Rubem Fonseca nos representa neste cenário como ninguém. Suas obras são tão bem desenvolvidas que parece estarmos lendo literatura noir britânica ou americana; países pioneiros deste gênero.

O mês de AGOSTO leva o título da obra, pois nos remete ao período de 1954 em que feitos históricos de incomensurável importância ocorreram em menos de três semanas daquele mês. O velho Rubem mescla a realidade com a ficção e dessa mistura ele nos entrega esta que a crítica considera a mais ilustre de suas obras.

Aqui temos muitos personagens inseridos de uma só vez, principalmente na primeira metade do livro, o que dificulta a identificação do leitor. Mas com um tantinho de perseverança pode-se distinguir a figura central da trama, o comissário de polícia Mattos, de longe é a personagem mais intrigante da história. Novamente Rubem Fonseca prova ser um sofisticado criador de figuras fascinantes. Mattos é um homem de princípios dentro de uma polícia desmanchada em corrupção; profissional austero e um pouco introvertido, que encara seu trabalho investigativo com incansável zelo, além de sofrer intermináveis apuros, por conta de sua tumultuada vida íntima e nas mãos de uma úlcera.

No aspecto histórico, temos o atentado contra o jornalista Carlos Lacerda que desencadeia em pressão da oposição que acusa Getúlio Vargas de ser o mandante, os nebulosos e fétidos bastidores políticos, conspirações de golpe de estado, o suicídio do presidente, as manifestações populares que sacudiram a nação. Tudo isso permeia a trama que intercala capítulos os quais se iniciam com as investigações do comissário Mattos à cerca do assassinato de um empresário bem sucedido.

Conforme as investigações avançam, o autor vai amarrando uma deliciosa ambientação de suspense, onde possibilidades distintas pairam na mente do protagonista, enquanto seguem os acontecimentos marcantes daquele inesquecível agosto. Há aqui o leque amplamente aberto para diversas possibilidades.

Um aspecto que me incomodou um pouco foi a constância narrativa em cima dos acontecimentos históricos que praticamente os tiram da condição de pano de fundo, tornando a trama técnica demais e com muita informação que a meu ver não precisavam ser jogadas na trama; poderiam ter sido mencionadas em leves pinceladas. Rubem parece ter se preocupado demais em relatar fatos históricos, como se isso fosse fundamental para sua narrativa (em alguns momentos senti até mesmo certo enfado, coisa rara de se acontecer quando leio este exímio autor). Mas justamente quando a obra retoma o teor investigativo, o gás se renova de imediato, principalmente porque Mattos é uma personagem muito bem ajustada com a trama.

O final tem aquela boa dose fonsequiana que privilegia o desfecho inerente e despudorado. Rubem não relativiza nem conduz sua narrativa em prol do protagonista, apenas deixa tudo rolar do modo mais orgânico possível.

AGOSTO não é meu livro favorito de Rubem Fonseca. Mas é bem escrito, possui personagens cativantes e consegue manter um bom suspense policial por quase toda a trama... Como em toda obra deste autor, este título também vale muito à pena ser lido.

NOTA: 7,9

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA


Atenção para alguns pequenos spoilers nesta resenha que acredito não cheguem a comprometer na leitura. De qualquer modo, aviso de antemão e peço desculpas, mas foi inevitável.

Achei impressionante como as pessoas descrevem esse livro como sendo uma homenagem definitiva ao amor verdadeiro. E embora eu não tenha a pretensão de contestar opinião de ninguém, penso que minha leitura deste O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA causou-me perspectiva um pouco discrepante, ou no mínimo, uma visão singular e um tanto inconclusiva, é claro.

A literatura é uma construção artística dúbia. Acredito que muitos autores nem chegam a desenvolver seus trabalhos com essa pretensão. Mas a mente do criador rege um ponto de vista que pode ser difícil de ser fidelizado na linguagem escrita, assim como também costuma diferir da compreensão de quem lê. Ou seja, não há veredito definitivo em literatura, mesmo que a fonte desta análise venha do próprio autor. E embora este possa soar como um ponto de vista túrbido, eu acredito ser a maior virtude da arte escrita: a de causar diferentes percepções, justamente porque o analista faz uso de sua bagagem de vida para absorver o universo que o rodeia.

As personagens desenvolvidas nesta obra são demasiadas humanas. As descrições sentimentais dos envolvidos na patologia do amor (e aqui uso o termo patologia no sentido de desequilíbrio), de fato remetem a ações intensas e obstinações quase irracionais. E no lugar de refletirmos melhor sobre o absurdo decorrente do sentimento descrito, nós a elevamos à condição de esplendor; a pureza de se amar o outro. Isso talvez seja fruto da infindável busca de significado existencial que tanto nos acomete.

Gabriel Garcia Marques desenvolve suas três personagens principais sem retirar uma gota de suas contradições. Fermina Daza é uma mulher impetuosa e ao mesmo tempo não ultrapassa o limite imposto pelo patriarcalismo de seu tempo e às vezes até parece endossar essa realidade. Quando o amor lhe é negado ela simplesmente faz o que de fato seria o mais sensato para a maioria de nós: conforma-se a uma estabilidade conjugal, tornando imperativo o sentimento pragmático.

Juvenal Urbino é o arquétipo que melhor nos fará compreender a terceira personagem da trama que ainda não mencionei. Ele é um homem aparentemente impoluto, cuja profissão próspera e sua elevada estatura social fazem dele um partido cobiçado pelas damas da região em que vive. E como costumeiramente acontece com os seres humanos, o desejo de Juvenal se manifesta justamente pela donzela indiferente; a mulher que o ignora e até o menospreza. Desejo escapadiço cuja natureza o torna permanente... Até que sua conquista finalmente se torne manifesta, então está decretado o fim do interesse; o mais notório amor platônico possível.

Finalmente chegamos em Florentino Ariza, que diferente de Juvenal Urbino, não conseguiu ver seu desejo realizado e isso fez com que ele levasse sua obsessão ao limite do absurdo. É na personagem de Florentino que mais se transparece o arquétipo do amor perfeito, simplesmente porque sua impotência perante seu sentimento nos causa comoção. Mas o que notei aqui foi o exemplo do desejo não realizado, fato que fez de Florentino um incansável buscador da utopia daquilo que ele acredita saber do que se trata: o amor em sua mais perfeita manifestação.

Mas se analisarmos sem o viés do romantismo, como me pareceu a condução narrativa, poderemos compreender que Juvenal Urbino e Florentino Ariza simbolizam dois extremos que nos ajudam a identificar a complexidade do amor, que aqui é refletida sob a ironia da cólera, o que faz todo o sentido. A primeira personagem sendo o conquistador que ao ver seu intento realizado, percebe sua existência retornar à condição totalitária do tédio, até que retorne a patologia do amor por outra mulher. Já a segunda personagem é a figura do derrotado, que do alto de sua impotência, torna-se o poeta nostálgico, onde a impossibilidade do amor é justamente o que faz de seu sonho algo tão esplendido e cálido.

Florentino amou várias vezes ao longo de sua vida. Encontrou plenitude em muitas de suas aventuras e isso é retratado de maneira evidente quando ele alcança a velhice, porque somente no ganho de experiência de vida é que ele percebe a riqueza contida nas relações que encontrou pelo caminho; no instante em que chora escondido no banheiro por uma mulher que pensou não amar, chegando inclusive a estranhar o próprio pranto. Aliás, é precisamente sua condição de velho o que valida ainda mais sua percepção de amor imaculado por Fermina, pois exatamente a transformação física do casal, a perda da vaidade e a noção de autonomia o que os remete a pura e simples ternura, que talvez até seja permanente pela pouca vida que lhes restam.

Gabriel Garcia Marques é um autor não muito fácil de ler. Não pela linguagem complexa ou métodos truncados, mas por sua condução narrativa direta e irrefreável. O autor joga tudo de vez, vai contando sem dar trégua para o leitor respirar, algumas vezes precisei voltar alguns parágrafos por achar que havia me perdido. Confesso que essa continuidade sem freio me assustou no começo, mas aos poucos me acostumei ao modo imediato e prolixo da obra.

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA definitivamente é um livro romântico. Mas trata do amor de um modo orgânico como jamais li antes. E claro que meu ponto de vista sobre a obra é absolutamente meu, o que novamente reforço: é essa condição singular de nossa percepção de leitores imperfeitos o que torna a literatura algo tão especial.

NOTA: 7,5

terça-feira, 10 de setembro de 2019

RESENHA DE LIVRO – DIVA


Algumas vezes é preciso um pouco de perseverança e flexibilidade para se compreender e, por conseguinte, gostar de um autor. Clássicos do século XIX costumam carecer de elevada sensatez, pois é fatal que se entenda que tudo naquela narrativa pressupõe aspectos e valores de um determinado tempo.

DIVA é a primeira obra que li de José de Alencar e, diferente de outros clássicos do XIX, a linguagem empregada aqui me enterneceu de imediato, algo que normalmente não acontece tão depressa comigo, daí a observação no início desta resenha.

A trama aqui é simplória; por meio de uma carta, a personagem Augusto revela para seu amigo Paulo, as mazelas e embates que afligiu sua relação afetiva com Emília; moça de personalidade demasiadamente forte.

Sob a caneta (sob a pena?) de um autor clichê, remeteríamos DIVA a um romance café com leite, banal, de reviravoltas trágicas para causar comoção. Contudo, José de Alencar sabe utilizar uma linguagem elegante e refinada, que privilegia o escopo narrativo, onde autenticidade e esmero textual é o que mais chama atenção.

A Emília do autor é, de fato, uma mulher impossível. Extremamente vaidosa, de um pudor exagerado quase como um TOC e de insensibilidade que beira o cruel, ela é o perfeito arquétipo de ser indomável e algumas vezes parece se deleitar por ser assim. Confesso que a odiei desde o início da leitura, mas percorrendo a algumas opiniões femininas pela internet, alguém sugeriu que este meu desconforto com a personagem é puro orgulho de macho. Enfim, talvez seja mesmo isso e, se realmente se tratar de orgulho, o livro acertou novamente, pois Emília me irritou por diversos momentos da trama...

Já Augusto, o desenganado narrador, soou-me como um verdadeiro banana. Provavelmente por achar que ele devia ter dado à sua amada as devidas lições oriundas do mesmo orgulho que me fez detestar Emília, por vezes eu me peguei esbravejando o comportamento irresoluto de Augusto, algo que sempre acontecia quando ele estava diante da incomparável beleza de sua musa. E ao término da leitura, vi-me envergonhado por julgar Augusto ao vê-lo se submeter aos caprichos de sua amada... Mas qual homem nunca o fez, perante os encantos da beleza de uma mulher?

DIVA é um romance charmoso, cuja linguagem é o que mais me chamou a atenção. Uma trama simples, porém, narrada na medida certa. O livro é curto, o que não permite que se torne cansativo, justamente porque o autor mantém seu foco exclusivamente no romance, exatamente como é uma carta confessional de um homem apaixonado.

E após esta deliciosa incursão, já estou providenciando outros títulos de José de Alencar, pois o que os comentários dizem pela internet é que DIVA é o mais singelo de seus trabalhos. Se os leitores online estiverem certos, essa é uma ótima notícia, afinal, é sempre bom começar a ler um grande autor por seus trabalhos menos expressivos, pois desse modo, a cereja ficará para o final.

NOTA: 7,9