sexta-feira, 26 de junho de 2020

RESENHA DE LIVRO – A FACA DE DOIS GUMES


Primeiro trabalho que li do autor Fernando Sabino e o cara já havia conseguido raptar minha atenção em, sei lá, menos de dois parágrafos. O estilo do autor mescla simplicidade narrativa com a agilidade de relatos das personagens de um modo direto, fez-me constatar certa semelhança com um autor que gosto muito: o romancista americano Harlan Coben. E antes do término do primeiro subcapítulo, estava convencido de que diante de minha leitura pairava outro grande nome da nossa literatura.

A FACA DE DOIS GUMES reúne três contos em seu conteúdo, sendo o terceiro aquele que dá título à obra. O autor mescla em seus textos a problemática da violência cotidiana com aspectos imprevisíveis que são característicos do ser humano, como culpa e dúvida. O estilo coloquial nos aproxima da personagem; o fluxo narrativo instiga a virar mais uma página para se descobrir o que está acontecendo; as conclusões situacionais são pouco óbvias e suscitam autoanálise. Aqui as palavras não sugerem; elas apenas exibem situações de forma transparente e são correlatas ao sentimento que se desperta no leitor.

No primeiro conto (e meu favorito) intitulado O BOM LADRÃO, a narrativa é em primeira pessoa, onde a personagem compartilha seus momentos vividos ao lado de Isabel, uma mulher cujos comportamentos derrapam no senso ético e levam o protagonista a duvidar se a escolha daquela mulher para dividir a vida foi assertiva.

No segundo conto, MARTINI SECO, acompanhamos um caso de homicídio ocorrido num bar, em que o réu fora absolvido por falta de provas. A incerteza paira constante por toda a trama, deixando suspenso e a cargo do leitor, o trabalho de interpretar os fatos. Dos três, este me pareceu o conto mais absurdo e, talvez, o menos intenso.

Em A FACA DE DOIS GUMES, um advogado vivendo o auge do tédio matrimonial, descobre que sua esposa está lhe traindo. Sem saber ao certo como lidar com a situação, ele resolve arquitetar um plano para desmascarar a infidelidade do cônjuge, mas o ato irá desencadear sucessivos acontecimentos que irão validar o título da obra.

Fernando Sabino é extremamente eficiente em contar histórias e não constrói narrativas imersivas sobre seus personagens. Aqui estamos diante do situacionismo cru e direto, de cenário que aponta questões sociais de nossa contemporaneidade, mas deixa de lado a reflexão crítica dessas mesmas personagens. Deliberar ficou estritamente sob as dispensas do leitor.

Acho isso maravilhoso!

É possível identificar sentimentos característicos do ser humano, como já citei. Medo, raiva, dúvida, pessimismo, aspectos presentes na vida cotidiana espalham-se por toda a obra. No terceiro conto até encontramos certo fluxo de consciência por parte da personagem principal, Porém, mesmo aqui é como se a dinâmica do texto prevalecesse ante o discernimento da personagem, que no calor de reações impensadas, apenas segue os impulsos daquele momento.

A FACA DE DOIS GUMES é um livro sobre as mazelas da sociedade moderna, que oferece uma estrutura ágil e direta. Exibe textos enxutos e mecanicamente funcionais, cuja linguagem coloquial não permite que o interesse diminua. Há personagens interessantes e outros me pareceram um pouco aleatórios. Finais imprevisíveis e cheios de surpresas. É altamente atrativo para o leitor que deseja conhecer a nossa riquíssima literatura.

NOTA: 7,7

sábado, 6 de junho de 2020

CRÔNICAS: MÁSCARA – MANUAL DO USUÁRIO


Estacionado na fila do caixa, mantendo distanciamento estabelecido pelas normas legais, eu aguardava para pagar minhas compras de fim de semana. Supermercado lotado, somos uma gente empoleirada que em tempos de pandemia, faz do ato de fazer compras a única rota de entretenimento.

Ocasionalmente, olhei para o lado e avistei uma seção estrategicamente posicionada na lateral da fila, onde uma placa em letras reluzentes anunciava: “PROMOÇÃO DE MÁSCARAS”.

Seduzido que fiquei pelo anúncio a me oferecer mais um ótimo negócio, resgatei uma unidade e joguei no carrinho, sem nenhuma ponderação sobre este que se tornou objeto essencial de nossos dias. Afinal, o que há para se verificar numa máscara? Não existem grandes distinções entre elas! Máscaras são feitas para cobrir o rosto, inteira ou parcialmente, então basta que cumpram precisamente sua função e está tudo certo.

Contudo, dias depois quando minha nova aquisição se fez necessária, foi que eu descobri que máscaras não são padronizadas como eu imaginava. Elas possuem particularidades, tamanhos, cores, funções... A minha nova máscara, em específico, não havia elásticos para que eu a prendesse atrás das orelhas. No lugar, tiras de tecido que indicavam que eu deveria amarrá-la na cabeça...

Isso mesmo: amarrar!

Achei aquilo ultrajante! Onde foi parar a praticidade do elástico? O fabricante devia ter colocado instruções de uso (como se alguém lesse instruções de uso) para que o consumidor não fosse surpreendido por tiras no lugar do elástico. Agora eu teria que gastar vários minutos da minha vida ajeitando uma máscara analógica, dar o nó correto e não me esquecer de afrouxar um pouco para não morrer sufocado. Vi-me sentenciado a desenvolver a invejável paciência de um executivo, que em frente ao espelho, faz com zelo e cuidado o nó de sua gravata.

Sim, caros leitores, máscaras são adereços que estão se tornando cada vez mais necessários, mais sofisticados e pomposos. Nosso mercado sempre atento para as carências humanas é especialista na arte de variar. Depois do meu entrave com as tiras da minha nova máscara, passei a observar (porém, não tão de perto por medo de um famigerado vírus) as mais distintas máscaras que hoje tomaram conta de todos os espaços imagináveis.

Máscaras de variadas cores, tamanhos, gêneros, de composição variada, de estampas combinando com o estilo do cliente, com bordado de marcas famosas para aqueles que gostam de ostentar, transparentes para que não se perca a leitura labial, máscaras de tricô, e até com a opção do seu time do coração! Ah, e já estão chegando, para delírio coletivo, as invejáveis máscaras com aroma de frutas.

A máscara agora é você, cidadão brasileiro! Ela nos representa de tal forma, que atualmente estamos olhando para máscaras e comparando, fazendo avaliações mentais. Outro dia, passei por uma moça na rua e pensei comigo: puxa como ela ficou bem com aquela máscara. Minha esposa recebe ocasionalmente um catálogo variado de modelos e, vaidosa que é, passa horas experimentando para ver qual a que melhor combina com ela.

Recentemente uma vendedora, sabendo de minhas preferências musicais, ofereceu-me uma máscara de “caveirinhas”. Ela comentou, entendedora que era do mercado de máscaras, que aquele modelo era “a minha cara”. Também recebi anúncios lustrosos oferendo a mais inovadora das alternativas: máscaras 3D.

Mas que porra seria uma máscara 3D?

Diante dessa minha antiquada percepção da atualidade, uma colega do trabalho veio em meu socorro e explicou, em detalhes, o que era uma máscara 3D. Durante sua apresentação até tirou da bolsa a sua 3D, novinha, comprada naquela mesma semana.

Sim senhor! E a partir de agora nós, respeitáveis consumidores, respiramos, literalmente, nossas máscaras! Portanto, neste mundo de rostos semicobertos, escolhas serão feitas no uso das verificações adequadas aos tempos de rostos cobertos: você tem aquela com elástico? Quais são as opções de cores? Esse estilo combina com jeans? Você trabalha com modelos 3D? Eu queria daquela cavadinha para não ficar pegando no meu olho...

Mas não importa qual seja a sua preferência. Melhor fazer uso da mais cafona e desproporcional das máscaras, do que sair na rua de cara limpa à mercê de um certo corona.

domingo, 24 de maio de 2020

RESENHA DE LIVRO – O CONSTRUTOR DE PONTES


O poeta João Cabral de Melo Neto usava a gaveta de sua escrivaninha como se fosse uma espécie de cápsula, em que ele enterrava seus rascunhos para tirá-los, tempos depois, quando a releitura identificaria se aqueles eram bons poemas ou não. O escritor australiano Markus Zusak (autor do aclamado A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS) deixou seus leitores esperando um novo trabalho por trezes anos. Se esse foi o tempo de produção ou se rascunhos ficaram enterrados em gavetas por anos, não sabemos. O fato é que no ano de 2018 ele finalmente tirou de sua cápsula este aguardado O CONSTRUTOR DE PONTES.

Pessoalmente eu diria que não sustentei tanta expectativa assim quanto a novos projetos do autor (atualmente ando conhecendo muita coisa boa, aqui mesmo, em páginas tupiniquins), muito embora eu confesse que fiquei satisfeito ao ver este lançamento nas prateleiras. São poucos os escritores que posso dizer que gostei de todas as obras que nasceram de sua mente, e o “papai” da roubadora de livros é um deles.

Então vamos falar da obra:

O CONSTRUTOR DE PONTES conta a história de cinco irmãos cheios de peculiaridades e que vivem sozinhos num lar desolado e em desconstrução. Após o ressurgimento do patriarca que os abandonou, o quarto irmão, Clay, resolve atender um inusitado pedido do velho e parte em busca de uma empreitada que, de certa forma, transformará a vida de todos na família.

A trama aqui é narrada em primeira pessoa. O irmão mais velho, Matthew, sentado à mesa da cozinha, digita suas memórias e conta a história, que é focada no já mencionado quarto irmão. Clay é a figura central dos acontecimentos e o escopo narrativo se mantém nele, afinal, seu ato imprevisto de acatar o pedido do pai é como o punhal que reabre feridas mal cicatrizadas. No entanto, já surge aqui uma decisão do autor que considerei equivocada, mas pode não ser um problema para outros leitores... Eu explico:

Ocorre que a pessoalidade do narrador, por se tratar do irmão mais velho da família, parece ter resultado numa certa escassez de imparcialidade; Matthew é uma personagem que não cativa porque sua credibilidade esbarra no sentimentalismo, como se em vários momentos ele quisesse invocar comoção em lugares onde isso não existe. Outro entrave é que Matthew sustenta aspectos destrutivos semelhantes aos de seus irmãos e sua visão de mundo se torna limitada, porque ele é parte de um todo fragmentado, cuja crueza enfraquece a literalidade poética. Sei que parecem argumentos ranzinzas, mas diferente do que houve no livro passado, em que Markus Zusak acerta em cheio ao escolher a morte como sua narradora, aqui o contador da história se tornou vítima de seu próprio olhar equivocado.

Os cinco irmãos da família Dunbar também parecem terem sofrido certa redução de seu autor. De um modo geral, todos eles são grosseiros e selvagens em alguma medida, seja expondo seus modos rudimentares com agressividade ou com introversão, mas sempre agindo como se não soubessem o que fazer ou como fazer. Nenhum problema, afinal, incerteza é uma característica notória do ser humano. Contudo, para quem já conhece as demais obras de Markus Zusak, talvez note certa familiaridade entre outras personagens de sua bibliografia. Atrevo-me a dizer que com exceção de Ed Kenedy (do livro EU SOU O MENSAGEIRO), que é um sujeito pessimista, inerte e sensível, todos os demais protagonistas são parecidos em essência: eles são deslocados em seus universos, brutais quando não sabem como agir, vivem a efervescência da adolescência intransigente e quase sempre são hesitantes. Até Liesel Meminger (do livro A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS), mesmo sendo uma personagem feminina, também sustenta características semelhantes aos demais. Ou seja, a família Dunbar inserida aqui soa como mais do mesmo. É como ler os mesmos personagens em histórias diferentes.

O livro também é um pouco longo; há capítulos soltos aqui que considerei descartáveis e tornou alguns instantes enfadonhos. Muitas personagens para terem sua trajetória narrada também colaboraram para aumentar o tamanho. Mas como sempre digo: o tamanho do livro não é um problema, propriamente. Porém, é preciso ter cuidado para que o receio de cortar partes não torne a história cansativa. Pelo menos a diagramação é limpa e bem organizada, o que ajuda na hora de encarar longos textos.

Mas não são somente problemas estruturais que preenchem este livro:

A boa linguagem coloquial de Zusak continua afiada; é impressionante como este escritor consegue tornar seus diálogos tão fiéis às conversas entre pessoas reais. Trejeitos, manias, hesitação, irreverência, emoção, aspectos críveis se espalham por toda a narrativa.

Também é gostoso reencontrar as pausas em parágrafos curtos, às vezes de apenas uma linha, que se sucede em diversos momentos e nos ensina a vislumbrar intensidade na história em instantes fugazes. É como se o leitor fosse convidado a refletir sobre um momento ordinário e que passaria despercebido, mas que se tornou belo justamente porque nos foi mostrado em pouquíssimas palavras. São pequenos focos de cenário, quebrados para te mostrar um pedacinho de cada vez... Acho esse método altamente imersivo.

Tentando não cometer nenhum spoiler, vale ainda ressaltar que a ponte incutida no título da obra vai além da estrutura física; a ponte aqui funciona como uma metáfora. Porque pontes são, basicamente, conexões entre pontos distintos. Na obra de Zusak, a ponte funciona como a religação entre personagens cujas relações passadas resultaram em rompimentos. E o fato de a empreitada de Clay ser a reconstrução de uma ponte que se rompeu, deu-nos então a direção para a mensagem que a história queria apontar.

Sei que esta resenha ficou um pouco maior do que costumeiramente faço, mas é que considerei fundamental esmiuçar alguns pontos do livro para que se justifique meu parecer quanto a considerar este trabalho mediano.

O CONSTRUTOR DE PONTES é um livro sobre perdas, sobre descoberta de identidades e a inconstância do ser humano perante o ineditismo da vida. Usa em favor próprio uma peculiar narrativa sensível, mas derrapa ao propor um contador de história que não transmite credibilidade por insistir em tentar extrair ao menos uma lágrima do leitor.

NOTA: 7

sábado, 9 de maio de 2020

RESENHA DE LIVRO – A IMORTALIDADE


Considerei difícil classificar ou resenhar este livro, porque no instante em que sua trama causa determinada impressão, logo esta é desconstruída mais adiante. E isso não significa nenhum estorvo, mas sim, uma inusitada condução narrativa, que segundo as palavras do próprio Milan Kundera: “a única razão de um romance é dizer o que somente o romance pode dizer”.

Ao que parece, o autor se viu descontente com a adaptação de uma de suas obras mais aclamada, A Insustentável leveza do Ser. Sendo assim, Kundera quis desenvolver um livro que fosse nada menos que um texto impossível de ser adaptado.

A IMORTALIDADE é um livro um pouco complexo, mas não por ter uma linguagem difícil ou sofisticada, pelo contrário, Milan Kundera escreve de forma acessível. O problema é que o autor narra perspectivas distintas para mostrar um mesmo tema; esmiúça aspectos de diferentes personagens em tempos distintos inseridos na obra. Condensa tudo para chegar ao escopo que intitula a obra: a imortalidade que habita em cada um de nós.

A narrativa intromete-se pouco no que tange aproximar a pessoalidade do autor – que no caso aqui é também a personagem que narra a história, ou pelo menos houve a tentativa de confundir o leitor com tal sugestão – Milan Kundera simplesmente discorre sobre quem somos do ponto de vista situacional dentro da vida de cada um de seus narrados, deixando por conta do leitor qualquer forma de julgamento. Contudo, sacralizando a máxima desejante enraizada no ser humano desde que o mundo é mundo: o anseio de ser inesquecível.

Num universo atemporal, a trama divide seu espaço de importância entre diversas personagens; Agnes é a protagonista que desperta no autor a inspiração para a narrativa, um breve gesto e está criado o encanto que faz o criador querer contar uma história. Dispersando os universos, deparamo-nos com o famoso escritor Goethe envolto numa relação tempestuosa com a jovem e bela Bettina; temos Laura, a irmã de Agnes, mulher depressiva cuja mente vive desenvolvendo meios de tirar a própria vida; ainda há passagens em que acompanhamos a aparição de personagens ilustres como Beethoven, Napoleão Bonaparte e até diálogos entre o já citado Goethe e Ernest Hemingway.

O livro não é linear, seus capítulos pareceram-me independentes, não sendo necessário que sejam lidos na ordem em que estão inseridos. Os diálogos são caprichados e merecem o devido cuidado do leitor para frear em certos instantes. Do contrário, corre-se o risco de que seu conteúdo filosófico seja perdido.

Esse método de capítulos individuais e diversos personagens dividindo o espaço do livro pode ter seu lado bom no aspecto de discorrer determinado tema sob situações e ações distintas. No entanto, há o inevitável problema com algumas partes que são mais agradáveis do que outras, assim como podemos considerar personagens carismáticos e outros nem tanto. Quando nosso favorito desaparece por muito tempo das páginas, consequentemente o livro perde em prestígio.

 A IMORTALIDADE é um livro sofisticado como um todo. Incerto quanto ao público alvo, mas apreciadíssimo pela maioria das opiniões que encontrei pela internet, seja de leitores comuns ou de críticos literários. O tipo de obra que precisa de tempo para ser digerida, que carece releituras, de conteúdo inesgotável e acessível, mas que pode incomodar leitores desavisados que desconhecem o estilo singular de seu autor.

NOTA: 7,8

segunda-feira, 27 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – HERANÇA DE MARIA


Certa feita, durante uma visita à minha querida mãe, ela me contou uma coisa que permaneceu suspensa em minha mente por toda a leitura que, posteriormente viria a fazer deste HERANÇA DE MARIA, obra de Domingos Pellegrini: mamãe disse que Maria era nome de mulher que sofre; que toda a Maria que pisou neste mundo, veio para sofrer.

Contudo, diferente da minha Maria, a Maria que intitula este comovente romance parece se orgulhar de seu nome, até nos momentos em que as coisas não foram como ela planejara. A Maria dentro dessas páginas engole seco, suspira fundo, e continua anunciando para todos os desafios que se apresentam diante de si: “Ou não sou Maria ou resolverei logo essa situação”.

Orgulhosa de seu nome a Maria narrada neste livro mostrou-me que essas mulheres Marias são seres comuns, embora distintas em sentimentos: a minha mãe Maria é humilde em reconhecer a dor incutida em seu registro; a Maria de Domingos é uma mulher austera e destemida, que sabe de seus limites e por isso os esconde com orgulho. Mas por fim, entende que é excepcional como todas as outras, ou do contrário, não seria Maria.

Este livro é, antes de qualquer outra definição, uma emocionante homenagem de um filho que amou e odiou sua mãe em diferentes etapas da vida. No entanto, independente do sentimento, aqui encontramos entre ficção e realidade, a história de uma mulher cuja presença audaciosa deixou marcas em sua alma para toda vida. Então, eis que ele, autor narrador, começa a contar a história de sua genitora voraz, agora irreparavelmente encamada, sob os cuidados de um filho que não sabe quanto tempo ela ainda vegetará daquela forma triste. Intercalando capítulos que vão ao passado de sua família e retornam ao presente, no quarto de casa, onde sua Maria espera pela providência divina.

O ponto mais alto da obra fica por conta da honestidade do autor que parece, de fato, relatar situações intensas de sua vida, de forma muito crua. A intimidade expressada aqui é tocante, profunda, mas não chega a suscitar comoção. Domingos Pellegrini parece externar lugares profundos de sua alma. Em momento algum ele economiza em descrever sua mãe, seja para criticar ou para enaltecer; nenhum dos extremos exerce função narrativa. O que encontramos aqui são apenas os fatos sendo expostos através das páginas da maneira mais crível possível.

Em termo de relato é um livro vigoroso, por isso a dúvida enorme dentro de minha percepção quanto ao que é fato e o que é ficção. Muito cru e essencial, parece colocar seus personagens como realmente foram, excluindo do leitor qualquer chance de suspeita, muito embora sempre haja elementos irreais adicionados por quem desenvolve literatura.

Dois pontos considerei como sendo ápices da beleza na trama: o capítulo em que nos é apresentada a história do canivete, e o capítulo sobre Olguinha que me emocionou bastante a ponto de me fazer ser grato por ter descoberto esse livro.

Talvez a obra incomode os leitores que não curtem esse tipo de narrativa prolixa, sem mocinhos ou vilões, mas altamente sensível e crua, que eleva a proximidade com o que existe de mais humano em nós. Alguns momentos em que são relatados os tempos de conflitos entre ditadura e grupos revolucionários podem incomodar os que não curtem política, mesmo que aqui tenhamos um olhar em primeira pessoa.

Em suma, pode ser que gerações mais jovens pouco se identifiquem com esta obra, embora isso não seja conclusivo. Mas as gerações intermediárias e as mais velhas, principalmente aquelas que tiveram uma Maria em suas vidas, certamente se sentirão representados e se emocionarão quando encontrarem similaridade com suas próprias vivências... Quem vive ou viveu perto de uma dessas incomparáveis Marias, vai saber exatamente do que estou falando.

NOTA: 8,1

quarta-feira, 15 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – SÁBADOS INQUIETOS


Apesar de ser um homem que respira literatura, não foi através de um livro que conheci o escritor José Castello. Eu estava em casa assistindo a uma das muitas palestras que tanto aprecio sobre Clarice Lispector, ao reparar numa delas, um simplório senhor, com pernas cruzadas e olhar atento, que fazia comentários pertinentes e nos momentos certos, sinal inequívoco de lucidez. Era um dos mediadores. Dias depois voltei a ver o nome daquele senhor estampado na capa de um livro que encontrei por acaso num Sebo (é sempre por acaso que descubro boa literatura). Então, associei as possibilidades: um sujeito simpático, consciente e culto; uma seleção de crônicas de sua autoria... Deve se tratar de coisa boa.

Mas de que modo poderia eu resenhar o resenhista? Se após me deleitar com textos amplamente analíticos e charmosos, minhas palavras certamente sofrerão o inevitável efeito da comparação e, por consequência, a constatação de que sou um insípido leitor que se utiliza deste espaço de maneira irresponsável, afinal, falta-me o olhar aguçado e a sutileza crítica de um experiente exegeta como José Castello.

SÁBADOS INQUIETOS é uma coletânea das cem melhores crônicas de Castello, publicadas entre janeiro de 2007 e março de 2012 no jornal O Globo, aos sábados. E embora prefira se autodenominar como apenas um leitor comum, é evidente, já nos primeiros parágrafos de leitura, que estamos diante de um narrador sofisticado, analítico, mas ao mesmo tempo sensível; alguém que de fato esmiuçou cada obra examinada.

As crônicas são gostosas, cheias de referências do universo literário, recheadas de belas citações e aforismos de autores. Muitas vezes nos deparamos com elementos da vida do escritor alvo, curiosidades sobre sua vida ou sua obra, uma passagem interessante daquele livro criticado. Ou seja, José Castello é um engajado estudioso da literatura, o que torna a leitura de suas crônicas um exercício prazeroso. São textos indicativos que nos deixam com vontade de ler as obras referenciadas. Eu mesmo anotei pelo menos meia dúzia de obras que desconhecia, mas que minha vontade de ler fora despertada pela leitura deste amplo catálogo.

Para os leitores que não apreciam poesias, vale ressaltar que o autor é um confesso amante do gênero, portanto, grande parte das citações e autores incutidos em SÁBADOS INQUIETOS é acerca de nomes da poesia, consagrados ou não. Há diversos autores de prosa também, eu particularmente comungo da preferência de Castello por Clarice Lispector, mas é evidente que os escritores de poesias são amplamente mais citados nesta coletânea.

SÁBADOS INQUIETOS é um livro para se ler devagar, para que não se deixe perder as muitas referências charmosas e dicas preciosas. Vale muito como instrumento de pesquisa em diversidade literária, mas não somente, o livro destila seu charme o tempo inteiro, deixando um ar de leveza que distancia de outros trabalhos sistemáticos de críticos que odeiam ser enxergados como deveriam ser: os mais apaixonados e humildes leitores do universo dos livros.

NOTA: 7,7

quinta-feira, 26 de março de 2020

RESENHA DE LIVRO – O NEGÓCIO DOS LIVROS – Como as grandes corporações decidem o que você lê


O escritor tcheco Franz Kafka afirmou que “um livro tem que ser como um machado para o mar congelado dentro de nós”. Quando reflito sobre isso, imagino que um bom livro precisa desbravar a fronteira da ignorância; aquecer o discernimento e expandir o saber “o mar” congelado do leitor.

É difícil pensar em como estou me sentindo após o término da leitura desse O NEGÓCIO DOS LIVROS. O título, quando somado ao subtítulo, parece explicitar com clareza o tema que será abordado: revelar a influência do corporativismo sobre o que estamos lendo, universo geralmente distante da ética e da coerência em suas relações. No entanto, terminei a leitura sem compreender exatamente que caminho o autor quis percorrer. Ou pensando sobre as palavras de Kafka: este livro não foi capaz de quebrar o gelo de minha ignorância sobre o assunto.

Não estou me sentindo enganado, propriamente, nem acho que o título fora meramente uma jogada de marketing (o título da obra em inglês é o mesmo). Por outro lado, o conteúdo parece não ter saciado minha fome de conhecer os bastidores do mundo editorial, mas apenas inclinou-se levemente sobre algo que imagino que todo mundo já saiba: igualmente a qualquer outro mercado, o negócio dos livros também foi engolido pelo capitalismo e seu escopo singular não é outro senão o lucro.

 O autor André Schiffrin foi um respeitado editor nas décadas de sessenta e setenta, cujo universo particular girou em torno do mercado livreiro. Logo, pensa-se que um senhor calejado e imbuído de tanta experiência certamente possui muita história para contar sobre os bastidores desse mercado. Cria-se a impressão de que o cara vai fornecer luz nas trevas do cenário literário.

Mas não é exatamente isso o que acontece. O autor começa o livro fazendo um resumo do início de sua carreira, fala da ascensão e de como se tornou uma referência neste mercado. Em seguida, Schiffrin nos conta sobre o surgimento e o fim da Pantheon, empresa fundada por seu pai juntamente com alguns sócios no início da década de 1940. Então, passeamos por esse tema entremeando nomes de figuras que passaram pela empresa, as transformações que a solidificaram, os focos editoriais que a tornaram referência, etc.

Depois disso, a obra se concentra nas diversas fusões que aconteceram no mercado dos livros ao longo dos anos e que culminaram numa hegemonia absoluta de alguns poucos empresários, onde 95% do mercado pertencem a cinco grupos empresariais.

Os índices de cada capítulo pareciam insignificantes demais, logo a narrativa voltava seu foco aos muitos relatos de companhias gigantes engolindo tudo pela frente. Confesso que em certos momentos o autor parecia até um pouco nostálgico, tamanho era a quantidade de referências e nomes que pareciam fazer sentido unicamente a ele.

Também senti falta de uma figura essencial neste universo dos livros: o escritor. Aqui temos praticamente nada sobre esta peculiar personagem e sua ligação com as editoras. Há ainda um capítulo dedicado a falar sobre censura, mas também é feito de modo generalizado e quase não cita nomes ou traz referências.

Apesar disso, o livro é bem escrito, não é muito longo, o que não permitiu que termos técnicos tornasse a leitura cansativa; apontou para o perigo dos monopólios e fez um delicioso encerramento em que o autor fala da importância desta plataforma chamada livro.

O NEGÓCIO DOS LIVROS é uma obra sobre a experiência de um editor que um dia foi poderoso. Revela sua ascensão e queda e dedica um capítulo exclusivo para exaltar seu novo projeto sem fins lucrativos, o que elevou ainda mais a pessoalidade do conteúdo. Não foi exatamente uma leitura desperdiçada, mas talvez faltou um pouco mais de coragem por parte do autor em revelar os reais entraves desse universo, conforme sua experiência. Ou quem sabe, um pouco mais de teor investigativo que nos ajudasse a vislumbrar este mercado cada vez mais ambicioso, sem um ponto de vista tão genérico e simplista.

NOTA: 5,6

segunda-feira, 16 de março de 2020

RESENHA DE LIVRO – VAGALUMES & PARASITAS


Ser prolixo na literatura é ser detentor de um aspecto que carece de muito mais eficiência do que seu oposto, ou seja, um escritor sucinto. E embora a capacidade de desenvolver uma ideia em poucas palavras seja virtude notável, criar textos longos requer a habilidade de ir além da mera narrativa situacional... Exige profundidade reflexiva.

O método da escritora norte-americana Cynthia Ozick é o que podemos chamar de abundância textual. Porém, como acabei de mencionar, o excesso precisa de prudência incessante para não permitir que a narrativa se torne cansativa.

VAGALUMES & PARASITAS é um parcial exemplo desse problema; uma obra decente e bem escrita, mas que perde a chance de ser excepcional por conta do seu excessivo tamanho. Atravessar suas quatrocentas e cinquenta páginas não é tarefa das mais simples. Não pelo tamanho propriamente, a extensão não é sinônimo de fiasco. Mas porque há instantes enfadonhos que suscitam o desgaste no leitor.

A trama, ambientada na década de 30, é narrada em primeira pessoa, onde acompanhamos o olhar atento de Rose Meadows, uma jovem órfã que anseia por se esquecer de seu pai problemático. Após uma breve temporada vivendo com um primo, ela é contratada para trabalhar na casa de uma inusitada família de alemães que fugiram do caldeirão prestes a explodir que era a Europa desse período. E ao se instalar no interior da família Mitwisser descobrimos através da narrativa meticulosa de Rose o aglomerado de pessoas deslocadas e confusas que agora ela precisa dividir o mesmo teto.

Os aspectos de cada uma das personagens remetem-nos ao estranhamento de pessoas que não sabem como viver num lugar diferente. O Novo Mundo desconcerta a todos e isso logo nos é evidenciado. Rose precisa ser resiliente para sobreviver aos membros da família que estão desconexos e impotentes. A estrangeirice dessas pessoas é um desafio imenso para ela, que analisa o cotidiano como se fosse uma vigia incansável dos Mitwisser, quase como se ela própria não fizesse parte da história... Eis o lado excessivo da autora.

Num primeiro momento, a meticulosidade prosaica de Rose agrada e ajuda a criar empatia no leitor. Porém, após algumas centenas de páginas, isso começa a ficar entediante porque só o que a personagem faz é narrar. Raramente ela expressa alguma emoção ou discernimento sobre o que vê. Há momentos em que é até fácil se esquecer de que a narradora é parte da trama.

Porém, quando começava a surgir em mim vontade de abandonar a leitura, eis que uma das personagens, que havia ficado pra trás, reaparece na história e vi meu minguado ânimo se renovar. Esse ressurgimento foi a salvação do que eu estava prevendo como um final chato e fastidioso por vir. E além de o ato final ter sido completamente diferente do que pairava em minha intuição, devo dizer que o melhor do livro esteve guardado para os últimos capítulos. Houve então enfrentamentos instigantes, diálogos inteligentes e reviravoltas convincentes. Fiquei com a impressão de que Cynthia Ozick se acovardou um pouco e preferiu concluir sem nenhuma ousadia. Contudo, a autora não usou o caminho mais simples e o livro terminou de modo decente e inesperado.

VAGALUMES & PARASITAS é um livro para quem gosta de narrativas alongadas e minuciosas, sem nenhuma imersão. Usa uma linguagem simples que agrada, possui personagens curiosos, mas se estende de forma excessiva. Teria sido uma obra genial se cortasse ao menos um terço de sua desafiante jornada até a deleitável conclusão.

NOTA: 6,1

domingo, 23 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – A MENINA


O título desta obra se torna compreensível apenas quando se lê o subtítulo.  A MENINA é uma designação genérica demais para anunciar qualquer coisa. O rosto da “menina” na capa também revela muito pouco; trata-se de uma completa desconhecida num primeiro momento. Contudo, é no subtítulo, onde se encontra o nome de uma estrela consolidada de Hollywood, que então começa a pairar hipóteses na mente do leitor.

Particularmente eu conhecia pouquíssimo sobre a vida de Roman Polanski, o premiado diretor que, do instante em que passou pela vida da desconhecida jovem que ilustra a capa, a existência anônima da “menina” perdeu todo o confortável aspecto banal que permeia quase todos nós, seres comuns e distantes do estrelato do universo cinematográfico. O problema é que a breve colisão com o ilustre diretor não poderia ter ocorrido de modo mais trágico: a menina do título é a autora Samantha Geimer, a singela adolescente estuprada por Roman Polanski em março de 1977.

Mais de trinta anos depois a vítima, até então desejosa de privacidade e discrição, resolve contar o que houve naquela tarde de fotos na casa do ator Jack Nicholson (vale salientar que Jack não se encontrava em casa). Por décadas este caso dominou as mídias mundiais e atormentou tanto diretor quanto Samantha. E a moça sentiu-se na obrigação de sair das sombras quando, em 2009, Roman Polanski foi detido na Suíça em função de um mandato de prisão expedido décadas atrás.

O que de mais interessante existe neste relato parcialmente biográfico é justamente o olhar feminino sobre o problema do abuso. Samantha relata a problemática de ser uma vítima de estupro e, pior ainda, ter sofrido isso pelas mãos de um homem poderoso do cinema. A vida da autora nunca mais teve sossego, passando a ter que conviver sob a perversa sombra do crime sofrido. O nível de constrangimento tornou-se tão extenso que em determinado momento Samantha chega a alegar que o estupro não foi propriamente a pior coisa que lhe aconteceu, mas a repercussão dos fatos. Distorções inimagináveis tomaram conta do caso e a moça nunca mais teve sossego.

Outro aspecto que vale ser apontado é para o comprometimento com a narrativa mais crível; a autora procura descrever os acontecimentos com imparcialidade impressionante, não somente nos detalhes, mas também nos sentimentos. Samantha Geimer narra o que ocorreu aos treze anos de idade requintando sua história com o inevitável ponto de vista de uma adolescente. Quando ela alcança a maturidade, nota-se no contexto o pertinente ganho de reflexão sobre os acontecimentos; da metade do livro em diante há uma mulher que aprendeu a analisar os fatos com maior propriedade. Isso é tão notório no livro que quase parece se tratar narradoras diferentes em cada tempo.

O ritmo do livro não é cansativo, o que é muito bom quando se está lendo esse tipo de literatura. A linguagem é prosaica, sem nenhuma sofisticação. A diagramação também é limpa, espaçada, o que torna a leitura agradável. Tais características são importantes pontuar porque gêneros semelhantes às biografias costumam cansar quando segue uma linha narrativa mais técnica.

 A MENINA é um livro corajoso e envolvente. Um relato sutil que precisa ser lido, não apenas por aqueles que desejam se aprofundar no polêmico assunto em torno da vida dos envolvidos, mas também para quem anseia por testemunhos de mulheres que precisam lidar com um mundo machista que insiste em puni-las até mesmo quando submetidas às mais horrendas formas de violência. Só temos que agradecer pela coragem dessas mulheres.

NOTA: 7,6

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – NOTURNO EM MANHATTAN


O subgênero romance investigativo, assim como acontece com a maioria dos tipos literários, costuma alcançar leitores variados quando consegue utilizar elementos que não sejam propriamente característicos de sua forma. Isso também ajuda a deixar a trama menos cansativa. Colin Harrison já mostrou que sabe como inserir isso em seus trabalhos, porém o resultado dessa vez foi uma discreta obra intitulada NOTURNO EM MANHATTAN.

Exemplo da boa intuição do autor já se nota no protagonista. Enquanto os suspenses policiais costumam pairar em torno de um investigador ou perito em desvendar crimes, aqui a personagem é um abutre da mídia; um colunista de jornal cujo trabalho é ir à busca de tragédias humanas para desenvolver suas crônicas. Porter Wren, apesar da profissão pouco moral, aparenta ser um sujeito minimamente decente e segue sua vida cotidiana da maneira mais banal possível. Contudo, a passividade que o permeia desaparece no instante em que ele se envolve com Caroline Crowley, viúva de um famoso cineasta. Começa-se um cenário de intrigas, dúvidas e um interminável pisar em solo desconhecido... A vida do jornalista se torna um inferno em tempo recorde.

O autor mantém a mesma pegada prolixa de seus outros trabalhos; Collin Harrison não economiza vocabulário na hora de tecer sua trama, mas a sensação que tive é que neste livro especificamente esta característica funcionou em alguns momentos, mas noutros não.

A narrativa como um todo é agradável mesmo alongando-se em demasia. O autor sabe contar sua história com leveza; ele insere elementos informais, gírias e obscenidades que ajudam a tornar a narrativa mais crível. Também as personagens comportam-se de modo orgânico e inerente, o que agrada bastante. O leitor tem um longo livro pela frente, porém raramente este se torna cansativo.

Mas o problema ocasionado por esta acentuação verbosa acontece no final. Conhecendo outros trabalhos do autor, achei estranha a necessidade em explicar demais os instantes finais. Collin Harrison passa muito tempo narrando o que já foi dito ao longo da trama, esmiúça detalhadamente cada ponto chave da história, como se houvesse uma preocupação com a capacidade de compreensão do leitor. Eu cheguei a pensar que estava diante de um resumo da obra. Talvez isso tenha acontecido pela incapacidade do autor em tornar seu trabalho mais enxuto, pois o livro poderia ter terminado com pelo menos umas cinquenta páginas a menos. Ou seja, a maior virtude de Collin Harrison aqui acabou se tornando um considerável entrave.

Em breves passagens também podemos acompanhar a descrição de uma cidade efervescente como Manhattan, sempre focado em seu aspecto mais lúgubre. O autor nos mostra a marginalidade que permeia a cidade, a miséria dos cidadãos esquecidos e que sempre estão ladeando o glamour e requinte das grandes metrópoles. O livro precisava deste elemento sórdido que assertivamente elevou o dinamismo do texto.

NOTURNO EM MANHATTAN é um livro discreto e bem escrito, porém, exageradamente prolixo principalmente no final. Sustenta os elementos narrativos que fazem de Collin Harrison um excelente escritor, mas peca ao tentar retirar do leitor o prazer de analisar seu conteúdo.

NOTA: 7,5

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – COM OS PÉS ATADOS


Quando comecei a compor esta resenha, eu ainda não havia terminado a leitura. Não é uma situação incomum, geralmente anoto observações sobre o que resenhar ao longo da leitura. Além disso, eu já me encontrava nas páginas finais, porém, já sentia que algumas considerações, deste que foi o livro o qual mais esperei para ler em 2019, precisavam ser pontuadas.

Pois eis que a expectativa pode ter sido o maior entrave que ocorreu durante minha leitura deste circunspecto COM OS PÉS ATADOS: o demasiado anseio pelo retorno ao universo da autora Kathryn Harrison. Eu era bem jovem que li O BEIJO (há uma reflexão sobre ele aqui no blog), obra extraordinária que fez com que eu me apaixonasse pelo estilo de sua autora.  Certamente este fato encheu minha análise de emoções, prejudicando a apreciação racional, ainda mais por ter considerado este livro inferior ao que li anteriormente.

No entanto, antecipo que COM OS PÉS ATADOS está longe de ser um livro ruim, embora caibam algumas considerações... Farei uma breve sinopse e depois esmiuçar os problemas:

A trama se passa na China do século XIX e explora, entre os costumes regionais, o asqueroso hábito de esmagar os pés das mulheres para torná-las mais sedutoras aos futuros maridos. Esse ritual maligno de mutilação que visa acentuar a fragilidade feminina é o pano de fundo. May, a personagem principal, viveu esse tempo, mas ela da um jeito de fugir da submissão incutida ao feminino e vai parar em Xangai onde começa vida nova. Como sinopse isso basta para entender o escopo narrativo. Não vou me estender muito para não tornar a resenha extensa demais.

A pouca noção de importância da trama me incomodou desde o início. Várias personagens dividindo as páginas quase que em igualdade com May acabaram por prejudicar a consistência. Achei que esse descuido interferiu numa familiaridade maior entre personagem e leitor.

Veja bem: isso não chega a ser um problema para o ritmo propriamente, mas inevitavelmente retirou de May sua essência. Depois que temos explicada a origem da protagonista, May simplesmente desaparece ou passa a dividir em igualdade o espaço de importância narrativo. Isso prejudicou na empatia, influenciou na compreensão da história e, diante de um texto que não deixa claro qual dos protagonistas é seu centro, todos acabaram descaracterizados.

Há aqui algumas figuras cujos aspectos quase cativam o leitor. Porém, eles são pouco explorados porque a trama muda de foco constantemente. Posso dar dois exemplos disso: o marido de May, que com sua interminável e quase irracional admiração pela esposa, seria um elemento enriquecedor; ou a sobrinha Alice com seu apego inabalável pelos modos impetuosos da tia. Talvez o livro estivesse suficientemente abastecido concentrando seu fio condutor apenas nestas três personagens. Só que Kathryn Harrison não excede o foco em ninguém, quase a ponto de tornar a leitura enfadonha.

A narrativa sensível, minuciosa e irônica que tanto ansiei por encontrar, aconteceu em pouquíssimos momentos. Quando a autora os insere, o texto imediatamente ganha beleza, se torna atrevido, aprimorado, sofisticado... Senti falta dessa característica brilhante da autora:

“Alice não respondera, mas mergulhara a colher no café, transmitindo insulto com o gesto estudado, cuidadoso, silencioso, de mexer a colher, resolutamente evitando – como jamais o fizera – chocar o talher contra a porcelana”.

Outra coisa que incomodou é que há instante em que temos a impressão de que algumas palavras não foram traduzidas devidamente ao contexto, o que não é conclusivo, afinal, eu não sou nenhum perito em tradução. Mas ao longo da leitura percebi algumas palavras inseridas de maneira estranha e incoerente.

Felizmente os capítulos finais retomam o foco na personagem principal, o que proporcionou um ganho imersivo e consolidou May como protagonista. O ato final não chega a surpreender, mas não descamba para a pieguice e termina no momento certo.

COM OS PÉS ATADOS é um livro mediano, cuja criadora parece ter economizado em talento. Mostra uma história de crueldade com as mulheres de um modo íntegro, sem vitimismo e com algum requinte de beleza. E embora minha expectativa elevada tenha influenciado um pouco, vale à pena ser lido.

NOTA: 6,4

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – O SOPRO DE BELIAL


O ser humano é uma espécie peculiar capaz de perpetrar qualquer ato. Basta apenas que ele dê o primeiro passo.

Essa ideia faz-se verídica quando a personagem Karl Mcquorn chega até uma ordinária casa de repouso para idosos, disposto a oferecer seus trabalhos como pintor, no que parece se tratar de uma despretensiosa ação altruísta. Ele rapidamente faz amizade com um dos internos que, vez ou outra, até o ajuda nos afazeres. Durante a jornada de trabalho, ambos aproveitam para conversar e, aos poucos, o novo amigo descobre que o simpático pintor traz consigo um passado trágico e que talvez ele não tenha viajado tão longe apenas para pintar paredes.

O SOPRO DE BELIAL é um thriller em que os acontecimentos fluem rápido. A cada página virada, a cada capítulo avançado, novas revelações vão sendo feitas, personagens fundamentais nos são apresentados e todos se encaixam na relevante pertinência do axioma que inicia esta resenha: o homem é capaz de assumir qualquer atitude, tudo depende daquilo que o move.

Aqui nada e nem ninguém está inserido por acaso. Tudo terá um propósito, uma explicação. A condução narrativa nos mantém acompanhando as conversas entre Karl e o Sr. Morris – o interno do asilo. E conforme Karl conta sua história, o leitor é transportado ao passado do personagem, no tempo em que precisou ir morar numa cidadezinha do interior, na casa de sua avó, após a mãe ter sido brutalmente assassinada. E como num macabro quebra-cabeça, tudo vai desembocar em causas que fundamentam as atuais ações do presente.

O enredo é engenhoso, constante e convincente. Não é linear, hora ele está fixo no presente e nos revela os dias de trabalho no asilo onde acontecem as conversas entre Karl e o Sr. Morris. Em outro momento, intercala capítulos que narram o passado difícil vivido na casa de sua ascendente. Por falar na avó, Miranda é uma mulher áspera e enigmática; parece viver alheia à realidade ao mesmo tempo em que aparenta ser o escopo do universo lúgubre que acomete seu misterioso lar. Tal problemática é o que torna complicada a convivência com o neto, assim como o deixa obcecado em querer descobrir os mistérios por trás dos aparentes rituais ocultistas que podem estar acontecendo dentro do quarto da avó.

O enredo deixa propositalmente pontos em aberto para que a cada capítulo avançado um novo mistério ou dúvida preencha a mente do leitor. Até que se chegue ao ponto de já não poder separar o que é alucinação do plano real... E tudo se encaixa precisamente nos capítulos finais, os quais nos revelarão desde os intentos que movem o atormentado protagonista, até o obscuro título da obra.

Um ponto negativo talvez esteja dentro da própria trama. A história explicita de forma clara que existem razões escusas movendo as atitudes do personagem principal, mas não existe a preocupação em pontuar os porquês de o protagonista ter demorado tantos anos para finalmente colocar seus intentos em prática. O livro da um salto cronológico e nos deixa com a sensação de desencaixa entre personagens de gerações distintas. O posfácio até consegue dar alguns esclarecimentos de forma eficiente, mas se calcularmos as idades dos envolvidos na trama, isso acaba gerando uma pequena interrogação em nossas mentes.

O SOPRO DE BELIAL é um suspense peculiar onde tudo e todos possuem uma importância. É conciso em sua narrativa e não deixa o fôlego se perder. Trata-se de um sutil rastro de sangue, mortes e rituais obscuros, ladeando todos os envolvidos, permeando cada parágrafo, até desembocar no angustiante e aterrador ato final.

NOTA: 7,9

INTERESSADOS EM ADQUIRIR A OBRA:
https://www.editoraviseu.com.br/o-sopro-de-belial-prod.html