sábado, 15 de agosto de 2020

RESENHA DE LIVRO - MENTIRAS NO DIVÃ


Sempre que um autor emplaca sucesso estrondoso, a publicidade garante que seus trabalhos posteriores ostentem a referência de tal glória no alto da capa, assim como expõe seu nome em letras gigantescas, que sobressaem o próprio título do livro, a ponto de confundir o consumidor desavisado, que não sabe qual é o nome daquele volume na prateleira. Sim, porque MENTIRAS NO DIVÃ significa muito pouco para o universo do marketing, mas Irvin D. Yalom já virou marca de sucesso há muito tempo, quando o cara lançou no mercado sua cria mais ilustre intitulada QUANDO NIETZSCHE CHOROU.

Portanto, na capa de MENTIRAS NO DIVÃ, o título parece insignificante e está bem abaixo o destacado nome do autor. E como represento esse leitor desleixado e completamente fora de moda, só tive conhecimento dos acertos milionários de Yalom quando meu exemplar deste livro aqui resenhado, já estava em minha prateleira... Sorte minha porque costumo desconfiar de autores que se tornaram “modinha”, e várias vezes essa desconfiança se confirma em ivro ruim. Se este aqui é mais um caso de ignorância que se mostrou como uma bênção, eu não saberia dizer. O fato é que MENTIRAS NO DIVÃ é um livro muito bom, embora caibam observações importantes... Vamos a elas:

A trama não tem nada de extraordinário ou inovador e o título já escancara o conteúdo: ficção que textualiza o universo das terapias e levanta questões sobre ética e a complexa natureza do ser humano. Aqui iremos ficar bem pertinho de três terapeutas e seus pacientes, num cenário reduzido que me fez pensar em peças teatrais onde um único ambiente é narrado: o consultório terapêutico. Basicamente é no cerne do divã o local onde se passarão as 448 páginas que o leitor terá pela frente.

Seymour Trotter representa o terapeuta veterano cuja sociedade lhe atirou todas as pedras por manter relações com uma paciente. Ernest Lash talvez seja a personagem que mais recebe atenção ao longo da trama, ainda em busca de confiança na profissão, ele será o pêndulo entre a moral e o profissionalismo dentro da narrativa. Por fim, temos o ambicioso Dr. Marshal, que justamente por sua natureza cobiçosa, se mete em problemas enormes, também diretamente ligados à moral e a ética.

Apesar de longo, o livro é bem escrito, repleto de detalhes, diálogos elaborados com o devido cuidado para que este tenha a fidelidade de um consultório; é fácil perceber que estamos diante de paciente e terapeuta. E exatamente por se tratar de um autor prolixo, o livro esbarra em instantes enfadonhos, quase desnecessários, mas é preciso perseverança na leitura, pois há momentos aqui que precisam ser narrados (embora talvez pudessem ser resumidos) para que se compreendam as motivações que movem determinada personagem.

A trama não é o forte da obra. Se você gosta de instantes reveladores, momentos de reviravoltas e confrontos narrativos, esqueça! Yalom fideliza o divã e fica dentro dele por quase toda a narrativa, demora-se para esmiuçar as motivações dos personagens e não parece interessado em fazer o leitor delirar. É um texto que requer uma dose de mansidão para encontrar seu brilho. A mim não incomoda esse tipo de literatura, embora confesse ter ficado com aquela “areia nos olhos” em alguns instantes.

 Outro aspecto que vale à pena ser mencionado é que o autor centraliza sua narrativa nas personagens; há aqui uma preocupação em detalhes pessoais, explicar o que se passa na mente de cada envolvido. Yalom quer nos apresentar seus protagonistas e não está muito preocupado em narrar cenários, tempo ou instantes... É outro ponto que aprecio bastante. O autor não fica dando voltas desnecessárias, o que é comum em narradores palavrosos. Mas justamente parece manter uma preocupação em distinguir pensamentos das personagens e nos fazer entender seu modo de pensar.

Também gostei do modo com que fui levado a odiar determinada personagem, para mais à frente me ver aprendendo a compreender suas motivações e até criei alguma empatia por ela.

MENTIRAS NO DIVÃ é um excelente livro, em especial para quem curte o universo das terapias. Exagera na construção da pessoalidade de seus personagens, mas exatamente isso que parece dar sono em leitores que curtem textos ágeis, é o elemento precioso para quem aprecia literatura centrada na complexidade da natureza humana.

NOTA: 7,3

sexta-feira, 31 de julho de 2020

CONTO: PRANTO SECRETO



Um choro forte. Era isso o que acontecia dentro daquele banheiro fechado... Sim, era intenso o choro, sofrido, de puberdade que teme demais todas as coisas, por incompreensão. No entanto, era um desespero mudo, o grito inaudível de tais lágrimas.

Desde muito cedo o menino, que chorava por desconhecer os modos como a vida funciona, já sabia como chorar sem emitir sons. A dor emersa, expressada na cara molhada de gotas salgadas, as têmporas vermelhas, riscadas de veias inchadas... E o grito saía da boca desesperada, mas sem emitir nenhum ruído; eis a habilidade extraordinária do silêncio, desenvolvida pelo menino que, por não saber como fazer para explicar tamanha dor, desenvolveu aquele choro quieto.

E após o interminável momento de urros comedidos, ele lavava o rosto na água fria da pia, respirava devagar até que a vermelhidão facial desaparecesse, abria a porta do banheiro e voltava para o quarto.

Era tarde da noite.

Alguém passou por ele, veloz e impaciente... A vez de o irmão usar o banheiro, que passou pelo menino, esbravejou pela demora e trancou a porta do tão ambicionado recinto. Carregava revistas em sua mão, cujo conteúdo transformaria completamente a função do banheiro: de antro do sofrimento para abrigo do prazer.

A casa reinava em silêncio. Talvez fosse o instante em que as coisas realmente aconteciam.

A mãe já havia se retirado. A porta do quarto, austera e fechada, parecia impor a restrição definitiva, assim como autorizava para que tanto os transgressores da concupiscência quanto os prantos secretos pudessem acontecer... A mãe costumava fazer muito isso, se retirar de tudo... Do mundo. Certamente não havia pranto porque ela não sabia fazê-lo em silêncio tão bem quanto o menino.

E aquele homem estranho, outra vez adormecido na cozinha, luz apagada, um prato de arroz com feijão sobre a mesa, frio e intocado... Aquele mesmo ronco, de fera desditosa, de outras noites.

De longe o menino observava a fera desfalecida e, igualmente ao cenário de sempre, o cheiro lhe era familiar... Cheiro de destilado azedo e mal digerido.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

RESENHA DE LIVRO – ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS


Existem obras que são difíceis de serem classificadas. Não que essa necessidade seja inexorável, mas quando a proposta de seu espaço é fazer uma breve análise do livro, torna-se contributivo informar ao leitor o que ele encontrará através das pretendidas páginas.

Pois eis que estou diante de um trabalho que se encaixa precisamente dentro dessa problemática. Passei algum tempo vasculhando a internet até concluir que o autor, Juarez Guedes Cruz é um talento desconhecido do já minguado grupo de internautas leitores. Portanto, não encontrei ninguém que pudesse me auxiliar a respeito do que exatamente este ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS quer tematizar.

A conclusão mais próxima que cheguei foi exatamente a mesma que a livraria onde o adquiri: a obra estava timidamente soterrada numa enorme prateleira de autores contistas. Acontece que caso eu assim o definisse, leitores familiarizados com Aluísio Azevedo ou Rubem Fonseca talvez discordassem, porque aqui há pouca similaridade com o gênero. A pegada aqui é mais suscetível aos estímulos sensoriais do que leitores de contos estão acostumados. Mesmo assim, a própria editora da obra precisa de um lugar comum, então o rotula como “contos Brasileiros”.

Mas deixemos a roupagem do livro de lado, e falemos um pouco de seu conteúdo:

ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS é um livro de contos que conversa com o leitor de modo a fazer com que os espaços de reflexões aconteçam através do desprendimento de pontos de vista pessoais e da mistura de diferentes narrativas adquiridas ao longo de nossa experiência como leitores. É um redirecionamento sem direção, que talvez agrade leitores de Clarice Lispector (autora que também se arriscou pelo universo dos contos), como foi o meu caso.

E o que exatamente eu quero dizer com isso?

Significa que aqui estamos sim, diante de um livro de pequenos contos, de leitura fácil e progressiva, que difere um pouco sua essência contista ao elevar a imersão, tornando obrigatório uma pausa entre cada conto e, gradativamente, a coisa vai dialogando diretamente com o leitor dentro dos assuntos propostos. A velha necessidade humana de expressar sua subjetividade por meio da linguagem escrita, aqui é infalível.

Livro é pequeno, cento e dez páginas que podem, facilmente, serem devoradas numa única tarde, na companhia de uma xícara de chá ou uma taça de vinho. Ao término de cada conto surge, quase que de imediato, o silêncio necessário à reflexão (aconteceu comigo pelo menos uma meia dúzia de vezes).

O conteúdo é também charmoso, tem estilo próprio e faz pensar sobre coisas que não temos o hábito de nos preocuparmos. Não farei exposição sobre os referidos contos, porque eles são diferentes em aspectos e, obviamente, há os favoritos e outros que não impactam tanto... Ok, só para não parecer que estou sendo genérico eu deixo registrado meu apreço ao conto PROJETO PARMÊNIDES, uma deliciosa viagem em que acompanhamos as intempéries vividas pelo personagem narrador, que num futuro altamente científico, faz um clone da mulher amada no interminável anseio da necessidade humana em superar a morte.

ANTES QUE OS ESPELHOS SE TORNEM OPACOS é um livro singular, de contos que não se parecem contos e talvez não interesse aos leitores que buscam textos, digamos, mais objetivos. Mas acima de tudo, temos aqui um escancarado convite à reflexão verbal, textual, dimensional e sensível.

NOTA: 7

sexta-feira, 26 de junho de 2020

RESENHA DE LIVRO – A FACA DE DOIS GUMES


Primeiro trabalho que li do autor Fernando Sabino e o cara já havia conseguido raptar minha atenção em, sei lá, menos de dois parágrafos. O estilo do autor mescla simplicidade narrativa com a agilidade de relatos das personagens de um modo direto, fez-me constatar certa semelhança com um autor que gosto muito: o romancista americano Harlan Coben. E antes do término do primeiro subcapítulo, estava convencido de que diante de minha leitura pairava outro grande nome da nossa literatura.

A FACA DE DOIS GUMES reúne três contos em seu conteúdo, sendo o terceiro aquele que dá título à obra. O autor mescla em seus textos a problemática da violência cotidiana com aspectos imprevisíveis que são característicos do ser humano, como culpa e dúvida. O estilo coloquial nos aproxima da personagem; o fluxo narrativo instiga a virar mais uma página para se descobrir o que está acontecendo; as conclusões situacionais são pouco óbvias e suscitam autoanálise. Aqui as palavras não sugerem; elas apenas exibem situações de forma transparente e são correlatas ao sentimento que se desperta no leitor.

No primeiro conto (e meu favorito) intitulado O BOM LADRÃO, a narrativa é em primeira pessoa, onde a personagem compartilha seus momentos vividos ao lado de Isabel, uma mulher cujos comportamentos derrapam no senso ético e levam o protagonista a duvidar se a escolha daquela mulher para dividir a vida foi assertiva.

No segundo conto, MARTINI SECO, acompanhamos um caso de homicídio ocorrido num bar, em que o réu fora absolvido por falta de provas. A incerteza paira constante por toda a trama, deixando suspenso e a cargo do leitor, o trabalho de interpretar os fatos. Dos três, este me pareceu o conto mais absurdo e, talvez, o menos intenso.

Em A FACA DE DOIS GUMES, um advogado vivendo o auge do tédio matrimonial, descobre que sua esposa está lhe traindo. Sem saber ao certo como lidar com a situação, ele resolve arquitetar um plano para desmascarar a infidelidade do cônjuge, mas o ato irá desencadear sucessivos acontecimentos que irão validar o título da obra.

Fernando Sabino é extremamente eficiente em contar histórias e não constrói narrativas imersivas sobre seus personagens. Aqui estamos diante do situacionismo cru e direto, de cenário que aponta questões sociais de nossa contemporaneidade, mas deixa de lado a reflexão crítica dessas mesmas personagens. Deliberar ficou estritamente sob as dispensas do leitor.

Acho isso maravilhoso!

É possível identificar sentimentos característicos do ser humano, como já citei. Medo, raiva, dúvida, pessimismo, aspectos presentes na vida cotidiana espalham-se por toda a obra. No terceiro conto até encontramos certo fluxo de consciência por parte da personagem principal, Porém, mesmo aqui é como se a dinâmica do texto prevalecesse ante o discernimento da personagem, que no calor de reações impensadas, apenas segue os impulsos daquele momento.

A FACA DE DOIS GUMES é um livro sobre as mazelas da sociedade moderna, que oferece uma estrutura ágil e direta. Exibe textos enxutos e mecanicamente funcionais, cuja linguagem coloquial não permite que o interesse diminua. Há personagens interessantes e outros me pareceram um pouco aleatórios. Finais imprevisíveis e cheios de surpresas. É altamente atrativo para o leitor que deseja conhecer a nossa riquíssima literatura.

NOTA: 7,7

sábado, 6 de junho de 2020

CRÔNICAS: MÁSCARA – MANUAL DO USUÁRIO


Estacionado na fila do caixa, mantendo distanciamento estabelecido pelas normas legais, eu aguardava para pagar minhas compras de fim de semana. Supermercado lotado, somos uma gente empoleirada que em tempos de pandemia, faz do ato de fazer compras a única rota de entretenimento.

Ocasionalmente, olhei para o lado e avistei uma seção estrategicamente posicionada na lateral da fila, onde uma placa em letras reluzentes anunciava: “PROMOÇÃO DE MÁSCARAS”.

Seduzido que fiquei pelo anúncio a me oferecer mais um ótimo negócio, resgatei uma unidade e joguei no carrinho, sem nenhuma ponderação sobre este que se tornou objeto essencial de nossos dias. Afinal, o que há para se verificar numa máscara? Não existem grandes distinções entre elas! Máscaras são feitas para cobrir o rosto, inteira ou parcialmente, então basta que cumpram precisamente sua função e está tudo certo.

Contudo, dias depois quando minha nova aquisição se fez necessária, foi que eu descobri que máscaras não são padronizadas como eu imaginava. Elas possuem particularidades, tamanhos, cores, funções... A minha nova máscara, em específico, não havia elásticos para que eu a prendesse atrás das orelhas. No lugar, tiras de tecido que indicavam que eu deveria amarrá-la na cabeça...

Isso mesmo: amarrar!

Achei aquilo ultrajante! Onde foi parar a praticidade do elástico? O fabricante devia ter colocado instruções de uso (como se alguém lesse instruções de uso) para que o consumidor não fosse surpreendido por tiras no lugar do elástico. Agora eu teria que gastar vários minutos da minha vida ajeitando uma máscara analógica, dar o nó correto e não me esquecer de afrouxar um pouco para não morrer sufocado. Vi-me sentenciado a desenvolver a invejável paciência de um executivo, que em frente ao espelho, faz com zelo e cuidado o nó de sua gravata.

Sim, caros leitores, máscaras são adereços que estão se tornando cada vez mais necessários, mais sofisticados e pomposos. Nosso mercado sempre atento para as carências humanas é especialista na arte de variar. Depois do meu entrave com as tiras da minha nova máscara, passei a observar (porém, não tão de perto por medo de um famigerado vírus) as mais distintas máscaras que hoje tomaram conta de todos os espaços imagináveis.

Máscaras de variadas cores, tamanhos, gêneros, de composição variada, de estampas combinando com o estilo do cliente, com bordado de marcas famosas para aqueles que gostam de ostentar, transparentes para que não se perca a leitura labial, máscaras de tricô, e até com a opção do seu time do coração! Ah, e já estão chegando, para delírio coletivo, as invejáveis máscaras com aroma de frutas.

A máscara agora é você, cidadão brasileiro! Ela nos representa de tal forma, que atualmente estamos olhando para máscaras e comparando, fazendo avaliações mentais. Outro dia, passei por uma moça na rua e pensei comigo: puxa como ela ficou bem com aquela máscara. Minha esposa recebe ocasionalmente um catálogo variado de modelos e, vaidosa que é, passa horas experimentando para ver qual a que melhor combina com ela.

Recentemente uma vendedora, sabendo de minhas preferências musicais, ofereceu-me uma máscara de “caveirinhas”. Ela comentou, entendedora que era do mercado de máscaras, que aquele modelo era “a minha cara”. Também recebi anúncios lustrosos oferendo a mais inovadora das alternativas: máscaras 3D.

Mas que porra seria uma máscara 3D?

Diante dessa minha antiquada percepção da atualidade, uma colega do trabalho veio em meu socorro e explicou, em detalhes, o que era uma máscara 3D. Durante sua apresentação até tirou da bolsa a sua 3D, novinha, comprada naquela mesma semana.

Sim senhor! E a partir de agora nós, respeitáveis consumidores, respiramos, literalmente, nossas máscaras! Portanto, neste mundo de rostos semicobertos, escolhas serão feitas no uso das verificações adequadas aos tempos de rostos cobertos: você tem aquela com elástico? Quais são as opções de cores? Esse estilo combina com jeans? Você trabalha com modelos 3D? Eu queria daquela cavadinha para não ficar pegando no meu olho...

Mas não importa qual seja a sua preferência. Melhor fazer uso da mais cafona e desproporcional das máscaras, do que sair na rua de cara limpa à mercê de um certo corona.

domingo, 24 de maio de 2020

RESENHA DE LIVRO – O CONSTRUTOR DE PONTES


O poeta João Cabral de Melo Neto usava a gaveta de sua escrivaninha como se fosse uma espécie de cápsula, em que ele enterrava seus rascunhos para tirá-los, tempos depois, quando a releitura identificaria se aqueles eram bons poemas ou não. O escritor australiano Markus Zusak (autor do aclamado A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS) deixou seus leitores esperando um novo trabalho por trezes anos. Se esse foi o tempo de produção ou se rascunhos ficaram enterrados em gavetas por anos, não sabemos. O fato é que no ano de 2018 ele finalmente tirou de sua cápsula este aguardado O CONSTRUTOR DE PONTES.

Pessoalmente eu diria que não sustentei tanta expectativa assim quanto a novos projetos do autor (atualmente ando conhecendo muita coisa boa, aqui mesmo, em páginas tupiniquins), muito embora eu confesse que fiquei satisfeito ao ver este lançamento nas prateleiras. São poucos os escritores que posso dizer que gostei de todas as obras que nasceram de sua mente, e o “papai” da roubadora de livros é um deles.

Então vamos falar da obra:

O CONSTRUTOR DE PONTES conta a história de cinco irmãos cheios de peculiaridades e que vivem sozinhos num lar desolado e em desconstrução. Após o ressurgimento do patriarca que os abandonou, o quarto irmão, Clay, resolve atender um inusitado pedido do velho e parte em busca de uma empreitada que, de certa forma, transformará a vida de todos na família.

A trama aqui é narrada em primeira pessoa. O irmão mais velho, Matthew, sentado à mesa da cozinha, digita suas memórias e conta a história, que é focada no já mencionado quarto irmão. Clay é a figura central dos acontecimentos e o escopo narrativo se mantém nele, afinal, seu ato imprevisto de acatar o pedido do pai é como o punhal que reabre feridas mal cicatrizadas. No entanto, já surge aqui uma decisão do autor que considerei equivocada, mas pode não ser um problema para outros leitores... Eu explico:

Ocorre que a pessoalidade do narrador, por se tratar do irmão mais velho da família, parece ter resultado numa certa escassez de imparcialidade; Matthew é uma personagem que não cativa porque sua credibilidade esbarra no sentimentalismo, como se em vários momentos ele quisesse invocar comoção em lugares onde isso não existe. Outro entrave é que Matthew sustenta aspectos destrutivos semelhantes aos de seus irmãos e sua visão de mundo se torna limitada, porque ele é parte de um todo fragmentado, cuja crueza enfraquece a literalidade poética. Sei que parecem argumentos ranzinzas, mas diferente do que houve no livro passado, em que Markus Zusak acerta em cheio ao escolher a morte como sua narradora, aqui o contador da história se tornou vítima de seu próprio olhar equivocado.

Os cinco irmãos da família Dunbar também parecem terem sofrido certa redução de seu autor. De um modo geral, todos eles são grosseiros e selvagens em alguma medida, seja expondo seus modos rudimentares com agressividade ou com introversão, mas sempre agindo como se não soubessem o que fazer ou como fazer. Nenhum problema, afinal, incerteza é uma característica notória do ser humano. Contudo, para quem já conhece as demais obras de Markus Zusak, talvez note certa familiaridade entre outras personagens de sua bibliografia. Atrevo-me a dizer que com exceção de Ed Kenedy (do livro EU SOU O MENSAGEIRO), que é um sujeito pessimista, inerte e sensível, todos os demais protagonistas são parecidos em essência: eles são deslocados em seus universos, brutais quando não sabem como agir, vivem a efervescência da adolescência intransigente e quase sempre são hesitantes. Até Liesel Meminger (do livro A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS), mesmo sendo uma personagem feminina, também sustenta características semelhantes aos demais. Ou seja, a família Dunbar inserida aqui soa como mais do mesmo. É como ler os mesmos personagens em histórias diferentes.

O livro também é um pouco longo; há capítulos soltos aqui que considerei descartáveis e tornou alguns instantes enfadonhos. Muitas personagens para terem sua trajetória narrada também colaboraram para aumentar o tamanho. Mas como sempre digo: o tamanho do livro não é um problema, propriamente. Porém, é preciso ter cuidado para que o receio de cortar partes não torne a história cansativa. Pelo menos a diagramação é limpa e bem organizada, o que ajuda na hora de encarar longos textos.

Mas não são somente problemas estruturais que preenchem este livro:

A boa linguagem coloquial de Zusak continua afiada; é impressionante como este escritor consegue tornar seus diálogos tão fiéis às conversas entre pessoas reais. Trejeitos, manias, hesitação, irreverência, emoção, aspectos críveis se espalham por toda a narrativa.

Também é gostoso reencontrar as pausas em parágrafos curtos, às vezes de apenas uma linha, que se sucede em diversos momentos e nos ensina a vislumbrar intensidade na história em instantes fugazes. É como se o leitor fosse convidado a refletir sobre um momento ordinário e que passaria despercebido, mas que se tornou belo justamente porque nos foi mostrado em pouquíssimas palavras. São pequenos focos de cenário, quebrados para te mostrar um pedacinho de cada vez... Acho esse método altamente imersivo.

Tentando não cometer nenhum spoiler, vale ainda ressaltar que a ponte incutida no título da obra vai além da estrutura física; a ponte aqui funciona como uma metáfora. Porque pontes são, basicamente, conexões entre pontos distintos. Na obra de Zusak, a ponte funciona como a religação entre personagens cujas relações passadas resultaram em rompimentos. E o fato de a empreitada de Clay ser a reconstrução de uma ponte que se rompeu, deu-nos então a direção para a mensagem que a história queria apontar.

Sei que esta resenha ficou um pouco maior do que costumeiramente faço, mas é que considerei fundamental esmiuçar alguns pontos do livro para que se justifique meu parecer quanto a considerar este trabalho mediano.

O CONSTRUTOR DE PONTES é um livro sobre perdas, sobre descoberta de identidades e a inconstância do ser humano perante o ineditismo da vida. Usa em favor próprio uma peculiar narrativa sensível, mas derrapa ao propor um contador de história que não transmite credibilidade por insistir em tentar extrair ao menos uma lágrima do leitor.

NOTA: 7

sábado, 9 de maio de 2020

RESENHA DE LIVRO – A IMORTALIDADE


Considerei difícil classificar ou resenhar este livro, porque no instante em que sua trama causa determinada impressão, logo esta é desconstruída mais adiante. E isso não significa nenhum estorvo, mas sim, uma inusitada condução narrativa, que segundo as palavras do próprio Milan Kundera: “a única razão de um romance é dizer o que somente o romance pode dizer”.

Ao que parece, o autor se viu descontente com a adaptação de uma de suas obras mais aclamada, A Insustentável leveza do Ser. Sendo assim, Kundera quis desenvolver um livro que fosse nada menos que um texto impossível de ser adaptado.

A IMORTALIDADE é um livro um pouco complexo, mas não por ter uma linguagem difícil ou sofisticada, pelo contrário, Milan Kundera escreve de forma acessível. O problema é que o autor narra perspectivas distintas para mostrar um mesmo tema; esmiúça aspectos de diferentes personagens em tempos distintos inseridos na obra. Condensa tudo para chegar ao escopo que intitula a obra: a imortalidade que habita em cada um de nós.

A narrativa intromete-se pouco no que tange aproximar a pessoalidade do autor – que no caso aqui é também a personagem que narra a história, ou pelo menos houve a tentativa de confundir o leitor com tal sugestão – Milan Kundera simplesmente discorre sobre quem somos do ponto de vista situacional dentro da vida de cada um de seus narrados, deixando por conta do leitor qualquer forma de julgamento. Contudo, sacralizando a máxima desejante enraizada no ser humano desde que o mundo é mundo: o anseio de ser inesquecível.

Num universo atemporal, a trama divide seu espaço de importância entre diversas personagens; Agnes é a protagonista que desperta no autor a inspiração para a narrativa, um breve gesto e está criado o encanto que faz o criador querer contar uma história. Dispersando os universos, deparamo-nos com o famoso escritor Goethe envolto numa relação tempestuosa com a jovem e bela Bettina; temos Laura, a irmã de Agnes, mulher depressiva cuja mente vive desenvolvendo meios de tirar a própria vida; ainda há passagens em que acompanhamos a aparição de personagens ilustres como Beethoven, Napoleão Bonaparte e até diálogos entre o já citado Goethe e Ernest Hemingway.

O livro não é linear, seus capítulos pareceram-me independentes, não sendo necessário que sejam lidos na ordem em que estão inseridos. Os diálogos são caprichados e merecem o devido cuidado do leitor para frear em certos instantes. Do contrário, corre-se o risco de que seu conteúdo filosófico seja perdido.

Esse método de capítulos individuais e diversos personagens dividindo o espaço do livro pode ter seu lado bom no aspecto de discorrer determinado tema sob situações e ações distintas. No entanto, há o inevitável problema com algumas partes que são mais agradáveis do que outras, assim como podemos considerar personagens carismáticos e outros nem tanto. Quando nosso favorito desaparece por muito tempo das páginas, consequentemente o livro perde em prestígio.

 A IMORTALIDADE é um livro sofisticado como um todo. Incerto quanto ao público alvo, mas apreciadíssimo pela maioria das opiniões que encontrei pela internet, seja de leitores comuns ou de críticos literários. O tipo de obra que precisa de tempo para ser digerida, que carece releituras, de conteúdo inesgotável e acessível, mas que pode incomodar leitores desavisados que desconhecem o estilo singular de seu autor.

NOTA: 7,8

segunda-feira, 27 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – HERANÇA DE MARIA


Certa feita, durante uma visita à minha querida mãe, ela me contou uma coisa que permaneceu suspensa em minha mente por toda a leitura que, posteriormente viria a fazer deste HERANÇA DE MARIA, obra de Domingos Pellegrini: mamãe disse que Maria era nome de mulher que sofre; que toda a Maria que pisou neste mundo, veio para sofrer.

Contudo, diferente da minha Maria, a Maria que intitula este comovente romance parece se orgulhar de seu nome, até nos momentos em que as coisas não foram como ela planejara. A Maria dentro dessas páginas engole seco, suspira fundo, e continua anunciando para todos os desafios que se apresentam diante de si: “Ou não sou Maria ou resolverei logo essa situação”.

Orgulhosa de seu nome a Maria narrada neste livro mostrou-me que essas mulheres Marias são seres comuns, embora distintas em sentimentos: a minha mãe Maria é humilde em reconhecer a dor incutida em seu registro; a Maria de Domingos é uma mulher austera e destemida, que sabe de seus limites e por isso os esconde com orgulho. Mas por fim, entende que é excepcional como todas as outras, ou do contrário, não seria Maria.

Este livro é, antes de qualquer outra definição, uma emocionante homenagem de um filho que amou e odiou sua mãe em diferentes etapas da vida. No entanto, independente do sentimento, aqui encontramos entre ficção e realidade, a história de uma mulher cuja presença audaciosa deixou marcas em sua alma para toda vida. Então, eis que ele, autor narrador, começa a contar a história de sua genitora voraz, agora irreparavelmente encamada, sob os cuidados de um filho que não sabe quanto tempo ela ainda vegetará daquela forma triste. Intercalando capítulos que vão ao passado de sua família e retornam ao presente, no quarto de casa, onde sua Maria espera pela providência divina.

O ponto mais alto da obra fica por conta da honestidade do autor que parece, de fato, relatar situações intensas de sua vida, de forma muito crua. A intimidade expressada aqui é tocante, profunda, mas não chega a suscitar comoção. Domingos Pellegrini parece externar lugares profundos de sua alma. Em momento algum ele economiza em descrever sua mãe, seja para criticar ou para enaltecer; nenhum dos extremos exerce função narrativa. O que encontramos aqui são apenas os fatos sendo expostos através das páginas da maneira mais crível possível.

Em termo de relato é um livro vigoroso, por isso a dúvida enorme dentro de minha percepção quanto ao que é fato e o que é ficção. Muito cru e essencial, parece colocar seus personagens como realmente foram, excluindo do leitor qualquer chance de suspeita, muito embora sempre haja elementos irreais adicionados por quem desenvolve literatura.

Dois pontos considerei como sendo ápices da beleza na trama: o capítulo em que nos é apresentada a história do canivete, e o capítulo sobre Olguinha que me emocionou bastante a ponto de me fazer ser grato por ter descoberto esse livro.

Talvez a obra incomode os leitores que não curtem esse tipo de narrativa prolixa, sem mocinhos ou vilões, mas altamente sensível e crua, que eleva a proximidade com o que existe de mais humano em nós. Alguns momentos em que são relatados os tempos de conflitos entre ditadura e grupos revolucionários podem incomodar os que não curtem política, mesmo que aqui tenhamos um olhar em primeira pessoa.

Em suma, pode ser que gerações mais jovens pouco se identifiquem com esta obra, embora isso não seja conclusivo. Mas as gerações intermediárias e as mais velhas, principalmente aquelas que tiveram uma Maria em suas vidas, certamente se sentirão representados e se emocionarão quando encontrarem similaridade com suas próprias vivências... Quem vive ou viveu perto de uma dessas incomparáveis Marias, vai saber exatamente do que estou falando.

NOTA: 8,1

quarta-feira, 15 de abril de 2020

RESENHA DE LIVRO – SÁBADOS INQUIETOS


Apesar de ser um homem que respira literatura, não foi através de um livro que conheci o escritor José Castello. Eu estava em casa assistindo a uma das muitas palestras que tanto aprecio sobre Clarice Lispector, ao reparar numa delas, um simplório senhor, com pernas cruzadas e olhar atento, que fazia comentários pertinentes e nos momentos certos, sinal inequívoco de lucidez. Era um dos mediadores. Dias depois voltei a ver o nome daquele senhor estampado na capa de um livro que encontrei por acaso num Sebo (é sempre por acaso que descubro boa literatura). Então, associei as possibilidades: um sujeito simpático, consciente e culto; uma seleção de crônicas de sua autoria... Deve se tratar de coisa boa.

Mas de que modo poderia eu resenhar o resenhista? Se após me deleitar com textos amplamente analíticos e charmosos, minhas palavras certamente sofrerão o inevitável efeito da comparação e, por consequência, a constatação de que sou um insípido leitor que se utiliza deste espaço de maneira irresponsável, afinal, falta-me o olhar aguçado e a sutileza crítica de um experiente exegeta como José Castello.

SÁBADOS INQUIETOS é uma coletânea das cem melhores crônicas de Castello, publicadas entre janeiro de 2007 e março de 2012 no jornal O Globo, aos sábados. E embora prefira se autodenominar como apenas um leitor comum, é evidente, já nos primeiros parágrafos de leitura, que estamos diante de um narrador sofisticado, analítico, mas ao mesmo tempo sensível; alguém que de fato esmiuçou cada obra examinada.

As crônicas são gostosas, cheias de referências do universo literário, recheadas de belas citações e aforismos de autores. Muitas vezes nos deparamos com elementos da vida do escritor alvo, curiosidades sobre sua vida ou sua obra, uma passagem interessante daquele livro criticado. Ou seja, José Castello é um engajado estudioso da literatura, o que torna a leitura de suas crônicas um exercício prazeroso. São textos indicativos que nos deixam com vontade de ler as obras referenciadas. Eu mesmo anotei pelo menos meia dúzia de obras que desconhecia, mas que minha vontade de ler fora despertada pela leitura deste amplo catálogo.

Para os leitores que não apreciam poesias, vale ressaltar que o autor é um confesso amante do gênero, portanto, grande parte das citações e autores incutidos em SÁBADOS INQUIETOS é acerca de nomes da poesia, consagrados ou não. Há diversos autores de prosa também, eu particularmente comungo da preferência de Castello por Clarice Lispector, mas é evidente que os escritores de poesias são amplamente mais citados nesta coletânea.

SÁBADOS INQUIETOS é um livro para se ler devagar, para que não se deixe perder as muitas referências charmosas e dicas preciosas. Vale muito como instrumento de pesquisa em diversidade literária, mas não somente, o livro destila seu charme o tempo inteiro, deixando um ar de leveza que distancia de outros trabalhos sistemáticos de críticos que odeiam ser enxergados como deveriam ser: os mais apaixonados e humildes leitores do universo dos livros.

NOTA: 7,7

quinta-feira, 26 de março de 2020

RESENHA DE LIVRO – O NEGÓCIO DOS LIVROS – Como as grandes corporações decidem o que você lê


O escritor tcheco Franz Kafka afirmou que “um livro tem que ser como um machado para o mar congelado dentro de nós”. Quando reflito sobre isso, imagino que um bom livro precisa desbravar a fronteira da ignorância; aquecer o discernimento e expandir o saber “o mar” congelado do leitor.

É difícil pensar em como estou me sentindo após o término da leitura desse O NEGÓCIO DOS LIVROS. O título, quando somado ao subtítulo, parece explicitar com clareza o tema que será abordado: revelar a influência do corporativismo sobre o que estamos lendo, universo geralmente distante da ética e da coerência em suas relações. No entanto, terminei a leitura sem compreender exatamente que caminho o autor quis percorrer. Ou pensando sobre as palavras de Kafka: este livro não foi capaz de quebrar o gelo de minha ignorância sobre o assunto.

Não estou me sentindo enganado, propriamente, nem acho que o título fora meramente uma jogada de marketing (o título da obra em inglês é o mesmo). Por outro lado, o conteúdo parece não ter saciado minha fome de conhecer os bastidores do mundo editorial, mas apenas inclinou-se levemente sobre algo que imagino que todo mundo já saiba: igualmente a qualquer outro mercado, o negócio dos livros também foi engolido pelo capitalismo e seu escopo singular não é outro senão o lucro.

 O autor André Schiffrin foi um respeitado editor nas décadas de sessenta e setenta, cujo universo particular girou em torno do mercado livreiro. Logo, pensa-se que um senhor calejado e imbuído de tanta experiência certamente possui muita história para contar sobre os bastidores desse mercado. Cria-se a impressão de que o cara vai fornecer luz nas trevas do cenário literário.

Mas não é exatamente isso o que acontece. O autor começa o livro fazendo um resumo do início de sua carreira, fala da ascensão e de como se tornou uma referência neste mercado. Em seguida, Schiffrin nos conta sobre o surgimento e o fim da Pantheon, empresa fundada por seu pai juntamente com alguns sócios no início da década de 1940. Então, passeamos por esse tema entremeando nomes de figuras que passaram pela empresa, as transformações que a solidificaram, os focos editoriais que a tornaram referência, etc.

Depois disso, a obra se concentra nas diversas fusões que aconteceram no mercado dos livros ao longo dos anos e que culminaram numa hegemonia absoluta de alguns poucos empresários, onde 95% do mercado pertencem a cinco grupos empresariais.

Os índices de cada capítulo pareciam insignificantes demais, logo a narrativa voltava seu foco aos muitos relatos de companhias gigantes engolindo tudo pela frente. Confesso que em certos momentos o autor parecia até um pouco nostálgico, tamanho era a quantidade de referências e nomes que pareciam fazer sentido unicamente a ele.

Também senti falta de uma figura essencial neste universo dos livros: o escritor. Aqui temos praticamente nada sobre esta peculiar personagem e sua ligação com as editoras. Há ainda um capítulo dedicado a falar sobre censura, mas também é feito de modo generalizado e quase não cita nomes ou traz referências.

Apesar disso, o livro é bem escrito, não é muito longo, o que não permitiu que termos técnicos tornasse a leitura cansativa; apontou para o perigo dos monopólios e fez um delicioso encerramento em que o autor fala da importância desta plataforma chamada livro.

O NEGÓCIO DOS LIVROS é uma obra sobre a experiência de um editor que um dia foi poderoso. Revela sua ascensão e queda e dedica um capítulo exclusivo para exaltar seu novo projeto sem fins lucrativos, o que elevou ainda mais a pessoalidade do conteúdo. Não foi exatamente uma leitura desperdiçada, mas talvez faltou um pouco mais de coragem por parte do autor em revelar os reais entraves desse universo, conforme sua experiência. Ou quem sabe, um pouco mais de teor investigativo que nos ajudasse a vislumbrar este mercado cada vez mais ambicioso, sem um ponto de vista tão genérico e simplista.

NOTA: 5,6

segunda-feira, 16 de março de 2020

RESENHA DE LIVRO – VAGALUMES & PARASITAS


Ser prolixo na literatura é ser detentor de um aspecto que carece de muito mais eficiência do que seu oposto, ou seja, um escritor sucinto. E embora a capacidade de desenvolver uma ideia em poucas palavras seja virtude notável, criar textos longos requer a habilidade de ir além da mera narrativa situacional... Exige profundidade reflexiva.

O método da escritora norte-americana Cynthia Ozick é o que podemos chamar de abundância textual. Porém, como acabei de mencionar, o excesso precisa de prudência incessante para não permitir que a narrativa se torne cansativa.

VAGALUMES & PARASITAS é um parcial exemplo desse problema; uma obra decente e bem escrita, mas que perde a chance de ser excepcional por conta do seu excessivo tamanho. Atravessar suas quatrocentas e cinquenta páginas não é tarefa das mais simples. Não pelo tamanho propriamente, a extensão não é sinônimo de fiasco. Mas porque há instantes enfadonhos que suscitam o desgaste no leitor.

A trama, ambientada na década de 30, é narrada em primeira pessoa, onde acompanhamos o olhar atento de Rose Meadows, uma jovem órfã que anseia por se esquecer de seu pai problemático. Após uma breve temporada vivendo com um primo, ela é contratada para trabalhar na casa de uma inusitada família de alemães que fugiram do caldeirão prestes a explodir que era a Europa desse período. E ao se instalar no interior da família Mitwisser descobrimos através da narrativa meticulosa de Rose o aglomerado de pessoas deslocadas e confusas que agora ela precisa dividir o mesmo teto.

Os aspectos de cada uma das personagens remetem-nos ao estranhamento de pessoas que não sabem como viver num lugar diferente. O Novo Mundo desconcerta a todos e isso logo nos é evidenciado. Rose precisa ser resiliente para sobreviver aos membros da família que estão desconexos e impotentes. A estrangeirice dessas pessoas é um desafio imenso para ela, que analisa o cotidiano como se fosse uma vigia incansável dos Mitwisser, quase como se ela própria não fizesse parte da história... Eis o lado excessivo da autora.

Num primeiro momento, a meticulosidade prosaica de Rose agrada e ajuda a criar empatia no leitor. Porém, após algumas centenas de páginas, isso começa a ficar entediante porque só o que a personagem faz é narrar. Raramente ela expressa alguma emoção ou discernimento sobre o que vê. Há momentos em que é até fácil se esquecer de que a narradora é parte da trama.

Porém, quando começava a surgir em mim vontade de abandonar a leitura, eis que uma das personagens, que havia ficado pra trás, reaparece na história e vi meu minguado ânimo se renovar. Esse ressurgimento foi a salvação do que eu estava prevendo como um final chato e fastidioso por vir. E além de o ato final ter sido completamente diferente do que pairava em minha intuição, devo dizer que o melhor do livro esteve guardado para os últimos capítulos. Houve então enfrentamentos instigantes, diálogos inteligentes e reviravoltas convincentes. Fiquei com a impressão de que Cynthia Ozick se acovardou um pouco e preferiu concluir sem nenhuma ousadia. Contudo, a autora não usou o caminho mais simples e o livro terminou de modo decente e inesperado.

VAGALUMES & PARASITAS é um livro para quem gosta de narrativas alongadas e minuciosas, sem nenhuma imersão. Usa uma linguagem simples que agrada, possui personagens curiosos, mas se estende de forma excessiva. Teria sido uma obra genial se cortasse ao menos um terço de sua desafiante jornada até a deleitável conclusão.

NOTA: 6,1

domingo, 23 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – A MENINA


O título desta obra se torna compreensível apenas quando se lê o subtítulo.  A MENINA é uma designação genérica demais para anunciar qualquer coisa. O rosto da “menina” na capa também revela muito pouco; trata-se de uma completa desconhecida num primeiro momento. Contudo, é no subtítulo, onde se encontra o nome de uma estrela consolidada de Hollywood, que então começa a pairar hipóteses na mente do leitor.

Particularmente eu conhecia pouquíssimo sobre a vida de Roman Polanski, o premiado diretor que, do instante em que passou pela vida da desconhecida jovem que ilustra a capa, a existência anônima da “menina” perdeu todo o confortável aspecto banal que permeia quase todos nós, seres comuns e distantes do estrelato do universo cinematográfico. O problema é que a breve colisão com o ilustre diretor não poderia ter ocorrido de modo mais trágico: a menina do título é a autora Samantha Geimer, a singela adolescente estuprada por Roman Polanski em março de 1977.

Mais de trinta anos depois a vítima, até então desejosa de privacidade e discrição, resolve contar o que houve naquela tarde de fotos na casa do ator Jack Nicholson (vale salientar que Jack não se encontrava em casa). Por décadas este caso dominou as mídias mundiais e atormentou tanto diretor quanto Samantha. E a moça sentiu-se na obrigação de sair das sombras quando, em 2009, Roman Polanski foi detido na Suíça em função de um mandato de prisão expedido décadas atrás.

O que de mais interessante existe neste relato parcialmente biográfico é justamente o olhar feminino sobre o problema do abuso. Samantha relata a problemática de ser uma vítima de estupro e, pior ainda, ter sofrido isso pelas mãos de um homem poderoso do cinema. A vida da autora nunca mais teve sossego, passando a ter que conviver sob a perversa sombra do crime sofrido. O nível de constrangimento tornou-se tão extenso que em determinado momento Samantha chega a alegar que o estupro não foi propriamente a pior coisa que lhe aconteceu, mas a repercussão dos fatos. Distorções inimagináveis tomaram conta do caso e a moça nunca mais teve sossego.

Outro aspecto que vale ser apontado é para o comprometimento com a narrativa mais crível; a autora procura descrever os acontecimentos com imparcialidade impressionante, não somente nos detalhes, mas também nos sentimentos. Samantha Geimer narra o que ocorreu aos treze anos de idade requintando sua história com o inevitável ponto de vista de uma adolescente. Quando ela alcança a maturidade, nota-se no contexto o pertinente ganho de reflexão sobre os acontecimentos; da metade do livro em diante há uma mulher que aprendeu a analisar os fatos com maior propriedade. Isso é tão notório no livro que quase parece se tratar narradoras diferentes em cada tempo.

O ritmo do livro não é cansativo, o que é muito bom quando se está lendo esse tipo de literatura. A linguagem é prosaica, sem nenhuma sofisticação. A diagramação também é limpa, espaçada, o que torna a leitura agradável. Tais características são importantes pontuar porque gêneros semelhantes às biografias costumam cansar quando segue uma linha narrativa mais técnica.

 A MENINA é um livro corajoso e envolvente. Um relato sutil que precisa ser lido, não apenas por aqueles que desejam se aprofundar no polêmico assunto em torno da vida dos envolvidos, mas também para quem anseia por testemunhos de mulheres que precisam lidar com um mundo machista que insiste em puni-las até mesmo quando submetidas às mais horrendas formas de violência. Só temos que agradecer pela coragem dessas mulheres.

NOTA: 7,6

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

RESENHA DE LIVRO – NOTURNO EM MANHATTAN


O subgênero romance investigativo, assim como acontece com a maioria dos tipos literários, costuma alcançar leitores variados quando consegue utilizar elementos que não sejam propriamente característicos de sua forma. Isso também ajuda a deixar a trama menos cansativa. Colin Harrison já mostrou que sabe como inserir isso em seus trabalhos, porém o resultado dessa vez foi uma discreta obra intitulada NOTURNO EM MANHATTAN.

Exemplo da boa intuição do autor já se nota no protagonista. Enquanto os suspenses policiais costumam pairar em torno de um investigador ou perito em desvendar crimes, aqui a personagem é um abutre da mídia; um colunista de jornal cujo trabalho é ir à busca de tragédias humanas para desenvolver suas crônicas. Porter Wren, apesar da profissão pouco moral, aparenta ser um sujeito minimamente decente e segue sua vida cotidiana da maneira mais banal possível. Contudo, a passividade que o permeia desaparece no instante em que ele se envolve com Caroline Crowley, viúva de um famoso cineasta. Começa-se um cenário de intrigas, dúvidas e um interminável pisar em solo desconhecido... A vida do jornalista se torna um inferno em tempo recorde.

O autor mantém a mesma pegada prolixa de seus outros trabalhos; Collin Harrison não economiza vocabulário na hora de tecer sua trama, mas a sensação que tive é que neste livro especificamente esta característica funcionou em alguns momentos, mas noutros não.

A narrativa como um todo é agradável mesmo alongando-se em demasia. O autor sabe contar sua história com leveza; ele insere elementos informais, gírias e obscenidades que ajudam a tornar a narrativa mais crível. Também as personagens comportam-se de modo orgânico e inerente, o que agrada bastante. O leitor tem um longo livro pela frente, porém raramente este se torna cansativo.

Mas o problema ocasionado por esta acentuação verbosa acontece no final. Conhecendo outros trabalhos do autor, achei estranha a necessidade em explicar demais os instantes finais. Collin Harrison passa muito tempo narrando o que já foi dito ao longo da trama, esmiúça detalhadamente cada ponto chave da história, como se houvesse uma preocupação com a capacidade de compreensão do leitor. Eu cheguei a pensar que estava diante de um resumo da obra. Talvez isso tenha acontecido pela incapacidade do autor em tornar seu trabalho mais enxuto, pois o livro poderia ter terminado com pelo menos umas cinquenta páginas a menos. Ou seja, a maior virtude de Collin Harrison aqui acabou se tornando um considerável entrave.

Em breves passagens também podemos acompanhar a descrição de uma cidade efervescente como Manhattan, sempre focado em seu aspecto mais lúgubre. O autor nos mostra a marginalidade que permeia a cidade, a miséria dos cidadãos esquecidos e que sempre estão ladeando o glamour e requinte das grandes metrópoles. O livro precisava deste elemento sórdido que assertivamente elevou o dinamismo do texto.

NOTURNO EM MANHATTAN é um livro discreto e bem escrito, porém, exageradamente prolixo principalmente no final. Sustenta os elementos narrativos que fazem de Collin Harrison um excelente escritor, mas peca ao tentar retirar do leitor o prazer de analisar seu conteúdo.

NOTA: 7,5