domingo, 7 de março de 2021

LIVRO GRÁTIS – A COLETORA DE LÁGRIMAS

Caroline Passim Krushev é o arquétipo de mulher realizada. Casou-se com um advogado bem sucedido, tem um filho lindo e saudável, mora em cobertura de frente para o mar de Camburí, no Espírito Santo. A vida de causar inveja em qualquer indivíduo que almeje ascender na sociedade de consumo a qual estamos inseridos.

Ou seja, o que faltaria na vida desta mulher que conseguiu alçar o topo capitalista sem grandes esforços? Talvez essa pergunta seja respondida a cada página virada deste imprevisível “A COLETORA DE LÁGRIMAS”; a amarga noção de que para pessoas inseridas num mundo de consumos e aparências, lhes falte significado existencial.

Consciente desta precariedade, Caroline vive seus dias enfadonhos procurando empregos online ou indo a entrevistas. Cismou que a obtenção de um trabalho digno lhe proporcionaria vigor; ela queria ser alguém que tivesse o mínimo de importância. No entanto, o marido é inflexível contra a ideia de a esposa trabalhar e sempre usa argumentos pragmáticos que a convençam a desistir de um emprego. Caroline então segue seus dias de princesa moderna, confinada num apartamento sofisticado, esperando que o dia termine, para que ela possa morrer mais um pouco no dia seguinte.

Mas a vida é uma incógnita e costuma sacudir criaturas adormecidas quando menos se espera. É o que acontece com a protagonista, quando recebe uma mensagem anônima pelo correio. Sua vida muda completamente assim que ela consegue traduzir o conteúdo cifrado da mensagem. E o que era aparentemente inofensivo, se mostra um ardiloso presságio de morte: a mensagem deu a moça os precisos dados de quando e onde um acidente fatal aconteceria.

Era apenas a primeira de muitas outras mensagens que seriam entregues à receosa moça, que não sabe exatamente o que fazer com os prenúncios de morte que não cessam de chegar até ela. Só que mesmo assustada e insegura, Caroline, aos poucos, tenta avisar a cada um dos indivíduos enunciados para morrer, o que lhes espera.

Mas o destino é também um lugar incontrolável e arenoso. E conforme Caroline tenta ir ao encontro de pessoas marcadas para morrer, descobre que não consegue ter nenhum domínio das mais distintas situações: como quando é confundida com a amante de um advogado marcado pela mensagem; ou quando encontra uma noiva desenganada e tem-se início um jogo delicado de tentar penetrar em sua mente esmorecida; quando ela vai à busca de uma mulher que inesperadamente parece saber quem ela é..., ou quando um presidiário moribundo começa a lhe relatar o que realmente significa ser uma Coletora de Lágrimas.

Neste ínterim, Caroline vive situações complicadas que lhe fazem compreender que nada funciona como ela espera que vá acontecer; que a hora da morte está em seu conhecimento, mas isso parece, cada vez mais, uma informação irrelevante. Ao mesmo tempo, tal situação suscita o ego na moça, que ironicamente passa a ver o vazio aparentemente invencível de seu ser, sendo escoado pela nova função de levar a mensagem da morte para aqueles que estão assinalados pelo destino.

Caroline se vê dividida. Sabe que a realidade é bem diferente do que acontece em ficções premonitórias, onde mortes espetaculares acontecem sob o olhar do mensageiro e pessoas que irão morrer aceitam de bom grado a notícia funesta que lhes é dada.

Não. Aqui não há lugar para previsibilidades; Caroline encontra, o tempo inteiro, pessoas entediadas com suas rotinas e que obviamente não sabem que irão morrer, cujas situações banais vão se intercalando com a vida de nossa heroína, até o derradeiro desfecho que nada terá de extraordinário. Apenas se trata da finitude que nos acompanha diariamente.

A história é narrada em primeira pessoa, com exceção de pequenas introduções que abrem cada capítulo na terceira pessoa; prefácios em que acompanhamos a visita de Caroline a um presidiário. E o que deveria ser apenas mais uma mensagem da morte a ser entregue, se transforma num diálogo revelador entre Caroline e o preso... Até uma última e impactante confidência, que deixará Caroline em frangalhos.

O autor mostra nesta trama que aqui não há espaço para grandes heróis; tipos que se dotam de conhecimento resoluto assim que algo extraordinário ocorre... Não, nesta obra, apenas a dúvida é o que acomete a personagem. E quando um pouco diferente, ela se vê envaidecida por ser detentora de informações que sequer consegue controlar. E mesmo sendo ajudada por sua vizinha – uma jovem irreverente e descolada, que com todo seu alto estima, tenta colaborar com Caroline – ela se vê incapaz de usar de maneira benéfica, as informações que detém.

A COLETORA DE LÁGRIMAS é uma trama caquética, mas contada de forma moderna.  Com uma condução textual que traz para o leitor a sensação de insegurança constante, em que nada é o que parece ser quando se lida com algo tão obscuro e pernicioso, como a hora da morte da cada ser vivo.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

RESENHA DE LIVRO – TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE

 


Primeiro trabalho que li da escritora Fernanda Young e não, eu não resolvi conhecer a autora após ser atraído pelos noticiários de sua morte. O fato é que já havia lido alguns textos dela em sites, assim como apreciei algumas de suas colocações, um tanto destemidas, que ela dava em entrevistas. Há anos sustentava curiosidade em vasculhar a literatura da Fernanda, mas devido a tantos outros autores que também anseio conhecer, acabava deixando a moça em segundo plano. Pois minha chance veio quando adquiri este TUDO QUE VOCÊ NÃO SOUBE, o qual eu não sei se foi a melhor porta de entrada para o universo da autora, mas o retirei da prateleira, seduzido que fiquei pelo título sugestivo.

Que me perdoem os amantes dessa obra e de sua criadora, mas aviso, de antemão, para que relevem esta resenha, pois não gostei do livro e vou tentar analisar da forma mais imparcial possível.

Aqui não há nada surpreendente no enredo: mulher de meia idade, cuja poeira do passado conturbado parece não ter baixado, pelo menos dentro de sua mente, resolve contar sua história para o pai moribundo. A personagem narra tudo aquilo que o genitor, aparentemente, não sabia, ou é apenas isso que ela ameaça invocar o tempo inteiro... E se ao longo do relato houve algo incrivelmente confessional, sinceramente esta informação me passou despercebida.

A narrativa em primeira pessoa é fundamento de pessoalidade, o que na boca de uma personagem complexa, cuja análise de si é dotada de noção perspicaz sobre a própria existência, certamente nos convida a uma leitura inesquecível, como bem souberam fazer autores como Clarice Lispector, Hermann Hesse, Herta Muller e Dulce Maria Cardoso. Contudo, aqui estamos diante do relato de uma mulher ressentida, que embora se descreva como alguém experiente e que aprendeu muito sobre a vida, trata-se de mera autoafirmação; seu colóquio soa como o de uma adolescente desagradável que considera o mundo um lugar horrível porque o todinho que recebia todas as manhãs, um dia estava frio: a personagem é superficial e previsível, dá muitas voltas e não sai do mesmo lugar; um rancor inesgotável por razões questionáveis, (sem fazer julgamentos sobre as motivações da mesma), a coisa toda parece rasa demais.

O único elemento que me fazia seguir com o livro aberto, era o interesse em desvendar o que sugere o título da obra, ou seja, tudo o que o pai da protagonista não soube. E como já mencionei: ou as grandes revelações escaparam de minha compreensão, ou são elas, de fato, banais ao limite do risível.

O livro também está infestado de sacadas clichês, expressões popularescas e frases prontas, as quais talvez até funcionassem caso a personagem possuísse alma; é por conta dos relatos de alguém que parece viver inconformismos descabidos que tais citações triviais, frequentes na vida cotidiana, tornam-se desinteressantes e desprovidas de substância; não importa se uma frase é clichê, na boca de um personagem complexo, a coisa ganha um lugar de reflexão em nossas mentes.

Juro que me esforcei para entender a protagonista. Porém, quando se está diante de explanação tão infestada de rancor, é difícil conferir credibilidade à narrativa. Por exemplo, quando a personagem anuncia que não vai fazer algo, é precisamente o que ela faz (inconstância é um elemento ótimo, mas não pareceu ser o caso aqui); quando ela garante não ter determinada personalidade, é exatamente como se comporta; cita aspectos de erudição do modo mais tolo e vil possível. Traços de sociopatia? Poderia até ser, mas a condução é recheada de sentimentalismo barato, tornando nossas hipóteses improváveis; a narradora demonstra sua superação existencial por meio de conquistas sociais ou materiais. Senti-me como se estivesse diante de uma garota emburrada porque a vida não foi como ela queria que fosse... Não, definitivamente a personagem aqui não é detentora de alguma disfunção cerebral (isso talvez até elevasse o potencial narrativo), na verdade ela é apenas uma chata mesmo!

TUDO O QUE VOCÊ NÃO SOUBE é um livro cujo enredo não apresenta nada, que dá voltas ininterruptas sem sair do lugar e tem uma protagonista que quase me causou náuseas. Não tive ideia do escopo da obra ou o que ela quis me contar. Igualmente ao pai da personagem, eu continuo a desconhecer tudo o que ela alega que ele não sabe..., contudo, como literatura de entretenimento pode até funcionar, desde que você tenha idade semelhante ao  discernimento da protagonista: algo em torno de dez anos.

NOTA: 3,3

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

RESENHA DE LIVRO – GONZOS E PARAFUSOS

Há algum tempo que venho sustentando a hipótese de que o tédio tem sido tão presente em meus dias, que até mesmo o gosto pela leitura fora prejudicado. Cheguei a me convencer de que a situação é grave, pois pela primeira vez na minha vida, ler se tornou uma atividade enfadonha... No entanto, existe sempre a possibilidade desse sentimento desaparecer quando chega a vez de colocar as mãos em obras distintas, como foi o caso deste GONZOS E PARAFUSOS.

Este belo trabalho da escritora Paula Parisot acalentou a amofinação que permeava em meu ser. Ou pelo menos serviu para mostrar que o tédio não afetou minha leitura propriamente, mas ocasionou uma diminuição da tolerância em relação a alguns títulos que eu estava lendo.

GONZOS E PARAFUSOS é um desses livros que parece não contar nada objetivo, mas seu charme se encontrar justamente no fluxo de consciência. Ambientação, destino, situações, tudo parece secundário. O esplendor fica bem ali, no âmago da personagem Isabela e em seu olhar multifacetado da realidade.

E por falar em tédio, esse talvez seja o lugar comum em Isabela. Psicanalista, a jovem passa a vida em busca de sentido, de encaixe, e tal busca algumas vezes pode chegar aos extremos, levando a jovem até mesmo tentar o suicídio. Aqui não existe uma sinopse específica a ser feita, somente o que pode ser sintetizado é o olhar da personagem sobre a própria loucura. E apesar de nos deparar com instantes depressivos e até polêmicos, é uma delícia este convite de investigar o mundo através da percepção da protagonista.

Isabela é profunda! Investiga sua própria natureza por meio de comparações com o passado e as pessoas que nele estiveram inseridas. Confunde-se com os muitos sentimentos aflorados em si, como é comum na inconstância do ser humano. Isabela analisa de fora pra dentro, talvez por um excesso de racionalidade que se confunde com insanidade, a personagem é alheia ao julgamento, ela simplesmente relata, de modo impreciso, até mesmo quando menciona e anseia a mulher no quadro do artista Klint (capa da obra).

Mesmo em suas citações de Freud que poderiam ser compreendidos como clichês, a própria Isabela se antecipa e reconhece a veracidade deste lugar comum, porém, deixa escapar que citar o psicanalista nunca é demais, o que nos leva a concordar. Vê-se vencida pelo pensamento banal e sabe que não precisaria do mesmo, muito embora alguns jargões pareçam inescapáveis.

Tive a sensação de que era o acúmulo de racionalidade o fundamento da loucura na personagem. Salvo pelo tédio eternizado nas páginas deste livro, a tragédia do meu semelhante, quando erigido em literatura, faz com que eu me encontre lendo bem devagar. Por ato involuntário, freio minhas leituras quando estou envolvido pelo livro.

Há instantes em que o relato parece tão crível, que ocorreu-me estar lendo palavras da própria Paula Parisot, como se estivesse lendo o diário da autora. Sei que existe muito dos autores em seus personagens, sejam em aspectos temporários ou personalidade fixa, mas algumas vezes a coisa parece indistinguível; a semelhança entre autora e protagonista aqui soou-me muito elevado, embora este possa ser um inofensivo equívoco de minha parte.

Não sei exatamente explicar em quais pontos, mas achei o estilo narrativo de Paula Parisot um pouco parecido com o meu próprio. Claro que careço adquirir o charme descritivo da autora, mas foi inevitável algumas comparações.

GONZOS E PARAFUSOS é uma extraordinária viagem através da ambiguidade humana. Não gosto de usar a palavra loucura para não acabar fisgado pelo chavão, mas exatamente como Isabela menciona: “às vezes é inevitável escapar do lugar comum...”, o fato é que a loucura da personagem é o epicentro dessa deliciosa trama. Com um começo que não é o começo, um meio sem meio e o final que não termina, Paula Parisot foi o melhor remédio contra meu tédio atual, e saber o quanto sofro do mesmo mal que sua personagem me causou certo acalento e cumplicidade... Isabela é, em pé de igualdade com Violeta, personagem do estupendo livro OS MEUS SENTIMENTOS, o ser humano mais intenso que li no encerrado ano de 2020.

NOTA: 9

sábado, 30 de janeiro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A IRMÃ DE FREUD

A hipótese de que Freud, ao escapar da invasão nazista, teria deixado suas irmãs para trás, é um tema sedutor demais para ser deixado de lado pelo cenário literário. Sempre foi assim: as pessoas querem saber da conduta de figuras centrais da história da humanidade e Freud foi um dos pensadores mais importantes do século XX.

Se o pai da psicanálise foi responsável ou não, isso talvez jamais seja descoberto. O único fato que se sabe é que Freud fugiu de Vienna quando a cidade foi ocupada pelo regime opressivo de Hitler, sem levar as irmãs que acabaram mortas em campos de concentração. Apenas isso. Se foi um ato de negligência, se havia possibilidade de levá-las (o que soa provável, afinal, na lista de nomes que Freud foi autorizado a incluir estão o médico e sua família, duas assistentes, a cunhada e até o cachorro), são detalhes inconclusivos. Ou seja, as irmãs dele não conseguiram fugir por descaso ou não havia nada a ser feito? A situação era favorável? Por que esse homem optou por levar até a família do médico, mas esqueceu de seu próprio sangue?

Este momento turvo na vida de Freud foi o escopo que despertou o interesse do escritor GOCE SMILEVISKI pela vida do famoso psicanalista. Ou simplesmente o faro pela oportunidade de se contar uma boa história, afinal, o cenário parecia promissor: um escândalo dessa magnitude seria uma mancha irreparável na vida do grande Freud. Caberia ao pretenso contador da história a habilidade de aproximar ao máximo a hipótese da realidade. Se Smileviski conseguiu realizar esse feito, eu levantarei aqui algumas dúvidas. Contudo, o cara levou o Prêmio da União Europeia para Literatura. Portanto, falemos um pouco da obra:

A IRMÃ DE FREUD é narrado pela mulher abandonada do título. Adolfine é a protagonista cujo olhar acompanhamos ao longo das 334 páginas de uma trama que se inicia de modo decisivo, pois estamos diante das irmãs indo encontrar Freud para cobrarem uma explicação que justifique elas não estarem incluídas na lista feita pelo irmão. Imagina-se que aqui estaremos diante de um embate difícil entre familiares, de enfrentamento fortes, acusações, ressentimentos, a mágoa nublando o discernimento dos esquecidos. Mas isso quase não acontece, as irmãs se comportam de modo insípido e submisso, sem nenhum sinal de pânico ou desequilíbrio. Enquanto Freud se comporta de modo alheio a tudo, uma figura quase apática.

Mesmo assim, o livro começa aceitável. Adolfine narra situações de medo generalizado e muita insegurança em relação aos dias vindouros, até o instante em que ela vai parar no campo de concentração de Terezin. A personagem remete-nos ao seu olhar e apenas isso. O leitor acompanha o caos por meio do que Adolfine nos conta, elevando a credibilidade do texto a ponto de parecer um diário.

Outro aspecto positivo na trama é que GOCE SMILEVSKI não permite que o texto sucumba à sombra sedutora do irmão famoso, concentrando-se apenas em Adolfine (acredite, é muito comum autores se deixarem seduzir por figuras heroicas quando a proposta era narrar a história de um personagem paralelo do mesmo). Goce não permite que a majestade de Freud ofusque sua protagonista.

Contudo, a obra comporta alguns probleminhas. O primeiro deles está na própria narradora. Adolfine perde um pouco em autenticidade porque sendo ela irmã, portanto, alguém muito íntima de Freud, seu relato soa indiferente e algumas vezes até descabido. Não há embates ou conflitos de opiniões, nem mesmo quando Adolfine está imersa em pensamentos. A irmã apenas vai narrando tudo, como se fosse uma figura neutra.

O autor também parece ter se acovardado em sua condução. Apesar do tema central polêmico, Goce evita inserir elementos questionáveis ou comportamentos contraditórios em seus personagens. Freud, por exemplo, é retratado aqui como um homem monótono, quase blasé. E no lugar de aproximar sua história das inconstâncias existenciais dos envolvidos, o autor passa todo o tempo tentando justificar a existência sofrida e alienada de Adolfine. A chance de termos um relato mais orgânico, mesmo sendo ele fictício, se perde quando Adolfine é retratada como o estereótipo medíocre de personagem cujo sofrimento de vida explica-se no âmbito da obviedade.

A IRMÃ DE FREUD é talvez um exemplo de livro que não soube explorar melhor o grande tema que possuía em sua espinha dorsal. Possui momentos bons, principalmente no começo, mas acaba derrapando na veemência em registrar apenas os motivos que fizeram de sua protagonista, alguém tão infeliz.

NOTA: 6,2

sábado, 23 de janeiro de 2021

CONTO - A MÁSCARA DA VERDADE

 

Há muito tempo, quando homens ainda eram seres honrados a ponto de que lhes fosse permitido estabelecer interações com o divino, eis que um Deus pagão presenteou estimado rei por toda sua equidade, dando ao homem a Máscara de Aravín, um item singular que tinha o poder de revelar qualquer verdade desejada, bastando apenas que seu portador a colocasse no rosto. Havia somente um único requisito: uma vez usada, a máscara perderia seu efeito.

Sabendo da preciosidade a qual tornara-se possuidor, o rei guardou zelosamente a Máscara de Aravín para somente usá-la quando fosse, de fato, por uma causa extremamente importante.

Por muitas vezes o rei se viu tentado a descobrir verdades, como quando esteve em guerra contra outros reinos e ansiava por descobrir quais eram os planos do inimigo. Porém, sempre que buscava a máscara para utilizar seu poder de descobrir a verdade, pairava em sua mente o receio de que no futuro, urgência maior poderia surgir e ele já não contaria com o poder extraordinário da máscara. Afinal, aquela imposição de que, uma vez usada, a máscara perderia seu poder, inundava a mente do rei de incertezas quanto a hora certa de utilizar.

Então o tempo passou e quando o rei se deu conta, estava velho, acamado e enfermo, perto do fim de sua vida monárquica. Não havia mais nenhuma certeza a qual ele quisesse saber; a morte estava perto demais para que restasse algum anseio sobre um mundo no qual em breve ele não faria mais parte. O rei mandou chamar seu filho, sucessor do trono, e a ele deu a Máscara de Aravín.

“Use-a com sabedoria, meu filho”, orientou o rei “porque a máscara só lhe dará uma chance de descobrir a verdade”.

O herdeiro assumiu o trono e manteve o presente divino seguro. Considerava-se um homem estrategista e sensato. Ele saberia o momento certo de usar o item mágico. E de fato, o jovem rei resistiu aos maiores ímpetos, como suspeitas de traições entre seus generais, curas para enfermidades horrendas... Nem mesmo uma crise paranoica, sobre rumores de que sua amada esposa estivesse lhe traindo, foi capaz de fazer com que o rei retirasse a máscara de sua arca secreta e a aproximasse do rosto. Quando diante do objeto sublime, o rei sempre hesitava, temendo que uma catástrofe futura acometesse seu reino e ele já não pudesse mais contar com a revelação da verdade.

E assim, a Máscara de Aravín foi transferida para os sucessores do trono, sem que nenhum deles encontrasse o instante crucial em que devesse ser usada. Até chegarmos à idade média, em que reinos foram desfeitos e a máscara foi parar em um museu da região norte da Europa. Aberto a visitação, a inigualável peça deixou de ser vista como instrumento de descoberta da verdade, para ser encarada como mero objeto de antiguidade. Pessoas contavam sobre a surpreendente história da Máscara de Aravín e seu poder de conceber a verdade, como se fosse apenas um mito alegórico.

Então a idade moderna chegou e, com ela, as duas grandes guerras mundiais. A devastação do período fez com que a máscara se perdesse em escombros, também houveram rumores dizendo que ela fora extraviada e vendida no mercado negro. Permaneceu desaparecida até os anos atuais, quando um jovem turista passeando pela Ásia encontrou a máscara numa singela loja de antiquários. Achou-a bela e comprou por valor simbólico, sem saber de sua história fantástica. Antes de sair da loja, o rapaz perguntou ao vendedor sobre o endereço de um teatro específico. Sem dar muita importância, o vendedor disse desconhecer o local.

Percorrendo ruas, o turista seguiu seu passeio despretensioso, ciente de que, cedo ou tarde, encontraria o referido teatro. E sentado numa praça, acometeu-se de ato jocoso e colocou a Máscara de Aravín no rosto para fazer uma self e mandar para sua namorada.

Naquele instante, sentado no meio da praça, a face coberta pelo instrumento divino, algo se iluminou na mente do rapaz. Então ele se levantou e foi em direção ao seu intento, sem entender como foi que, milagrosamente, se via conhecedor do caminho até o teatro que ansiava conhecer.  

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

RESENHA DE LIVRO – OS MEUS SENTIMENTOS


De todas as minhas manias de leitor, uma delas sustento um carinho especial: quando aprecio a leitura, acabo por desacelerar naturalmente. Não sei se por medo do término do prazer ou por introspecção. O fato é que o livro que encanta é sempre degustado lentamente por este leitor que vos escreve. E a obra aqui resenhada esteve diariamente comigo ao longo das últimas três semanas, numa leitura vagarosa e cheia de pausas para reflexões.

Cada vez mais apaixonado pela literatura portuguesa, conheci o trabalho de Dulce Maria Cardoso através de sua primeira obra CAMPO DE SANGUE (tem resenha aqui no blog). Comecei um pouco desconfiado, tive dificuldades para me familiarizar com expressões linguísticas usadas em Portugal, enfim, precisei de algumas páginas para descobrir essa peculiar escritora. Mas a cada página virada eu desacelerava, desacelerava... Até quase parar, tão deliciosa que foi a experiência.

OS MEUS SENTIMENTOS é a obra cujo conteúdo replica todo o brilhantismo narrativo que Dulce Maria já havia destilado em sua estreia. Este trabalho se eleva um pouco mais pela extensão, por explorar com maior profundidade a consciência da personagem que nos conta sua história, e o faz de ponta cabeça, o corpo avantajado preso ao cinto de segurança, enquanto ela observa os cacos que restaram do para-brisa e uma gota de chuva que se recusa a desprender da ponta do vidro. O impacto chocante foi o gatilho que submeteu pensamentos a serem revistos de forma diligente, porém, sem mascarar os excessos ou omitir as percepções adquiridas ao longo da vida da personagem, até chegar ali... No ponto crucial da fatalidade que despertou a autoanálise.

As lembranças da protagonista narradora vão moldando sua existência e iluminam lugares pouco explorados de seu interior; existência que fora drasticamente interrompida naquele tempo presente, cruel e imprevisto. Há instantes em que o cinismo descrito se mistura com a autopiedade, o que eleva as inconstâncias, mas sempre sobressaindo algo próximo a desesperança e o sentimento de inadequação da mulher chamada Violeta.

Coberta por um véu de sarcasmo que nem sempre soa proposital, a personagem replica as definições que as experiências, nem sempre evolutivas que viveu com outros seres humanos, lhe deram de forma quase impertinente, como se as vozes vociferantes não mais interferissem em sua estrutura. Desse modo, a mulher que tem nome de flor e que também é uma cor, a monstrenga, a aberração, vai externando seus pensamentos e lembranças, com uma crueza tão ímpar capaz de causar diferentes sentimentos no leitor.

Violeta não nos deixa respirar; incita o tempo inteiro uma aproximação, mostra seu incômodo que logo se transformará em nosso incomodo. Emoções como ódio se tornam palpáveis. E a partir desse instante, estamos presos a pensamentos até então impensados; travessias por fronteiras desconhecidas; submersos nessa hecatombe de consciência, o destino do leitor parece misturar-se ao da narradora... Um misto de lirismo e crueza, que por inserir-nos, exclui qualquer possibilidade de julgamento.

Trata-se de uma exegese cuja discrepância pode ser percebida como fundamento; é delicada e vigorosa, sutil e abundante, doce e azeda... Tão variável como somente pode ser a alma do ser humano. Portanto, eu fico a me perguntar se era Dulce Maria Cardoso a externar sua própria alma, ou se eram almas que usaram a autora para exprimir suas fragilidades e imprecisões... Se é que temos alma de fato.

Vale observar que essa autora não possui um estilo simples e que agrade a diferentes tipos de leitores. Talvez desagrade aos que apreciam fluidez narrativa ou climas instigantes que prenda a leitura por meio da expectativa. Essencialmente temos a imersão sem direção específica, que esmiúça muito os detalhes para fazer refletir.

Através de sua literatura, Dulce Maria Cardoso nos retira de zonas sombrias e escuras, onde nós pouco vemos e quase nada sentimos. Então, a autora nos remete a uma elevação perceptiva que somente a literatura é capaz de oferecer. Imbuídos dessa percepção, enxergamos o impossível: riscos ocasionais, objetos camuflados, gestos involuntários, coisas perdidas, sensações escapadiças. As obras dessa portuguesa genial desarranja nossa medíocre convicção; passamos daquele ponto crítico no qual a maior parte da cegueira coletiva se encerra, como se o universo fosse feito de margens alcançáveis. Então Dulce nos faz mergulhar mais profundo, porque depois de um abismo sabe-se que haverá outro, e mais outro... Sua literatura é uma viagem sem lugar seguro, então você despenca.

E como eu despenquei!

OS MEUS SENTIMENTOS foi o livro que deixei para ler no final desse ano, porque era a obra que mais desejava ler. Sim, eis outra mania de leitor que costumo me permitir: deixar o melhor para o final, como quando se deixa a carne no prato para ser degustada no finzinho. Prolongar a expectativa é um gostoso jeito de esperar pelo melhor livro. Nem sempre dá certo, vez ou outra a espera se torna maior do que a própria leitura. Felizmente esse não foi o caso, e termino 2020 embevecido de prazer, entorpecido pela beleza trágica de Dulce Maria, que sabe como arrancar camadas de seus personagens de modo a nos mostrar as vísceras que, a cada pedaço tirado se apresenta ainda mais imprecisa, imperfeita, e por isso mesmo, amplamente humana.

2020 foi um ano de boas leituras, ótimas descobertas, alguns livros nem tão bons assim, mas no geral, tive mais prazer do que enfado. Oportuno momento esse, cujo isolamento da pandemia serviu para incrementar os horários de leitura. Quero agora desenvolver um novo habito de leitor apaixonado: o de revisitar os livros amados, talvez um desafio menos simples de ser alcançados, pois diante desse universo tão vasto que é a literatura, quase não sobra tempo para releituras... Porém eu sei que, cedo ou tarde, acabo retornando aos grandes mestres, para reler ou para descobrir mais de suas obras. E Dulce Maria Cardoso está indiscutivelmente inserida neste seleto grupo.

NOTA: *10*

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

RESENHA DE LIVRO – INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO

O escritor Roa Bastos dizia que “um livro só existe na cabeça do leitor”. Ou seja, toda essa aglomeração de palavras somente toma forma quanto se insere na imaginação daquele que a lê. Mas e quando a mente se encontra prejudicada por enfados da vida cotidiana, que a impossibilita do mergulho necessário que a literatura carece? Pois bem, estou em tempos de ausência de interesse nas coisas, principalmente por conta desse tédio constante e crescente que vem me acometendo nos últimos meses, o que anda prejudicando as leituras que fiz neste período...

Desse modo, a não absorção da leitura está prejudicando as analises que faço e, portanto, estou pensando em parar com as resenhas por um tempo.

Senti a pertinência desse desabafo pela imensa dificuldade que tive em analisar este livro, cuja autoria é de um dos meus escritores favoritos. E quando se está diante de algo sabidamente aprazível e, mesmo assim, o esforço para seguir com a leitura é titânico, deve ser porque talvez seja o momento de fazer uma pausa.

Se você leu até aqui, peço que desconfie de todas as impressões que se seguirão. Aliás, é bastante saudável que se mantenha certo olhar desconfiado para qualquer desocupado, que por falta do que fazer, resolve gastar seu tempo metendo o bedelho no trabalho dos outros, como é o caso deste transgressor que vos escreve.

A literatura é uma plataforma multifacetada cujo olhar oblíquo pode até não dar conta do mundo, mas é o meio de produção cultural que mais alcança os lugares escuros e desabitados da sociedade. Neste INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO, o mestre Carlos Heitor Cony nos convida a conhecer um seminarista que escolhe o caminho do sacerdócio por pura estética, por considerar “bonito ser padre”, nas palavras do próprio protagonista.

João Falcão decide por vontade própria deixar a casa dos pais aos onze anos de idade e seguir para o seminário, alheio a qualquer predileção eclesiástica ou inclinação celibatária, mas apenas como um jovem inteiramente convicto de sua noção, digamos, ausente do instinto da servidão. João usa um diário de capa verde como confessionário, e é precisamente esse diário da personagem o relato de jornada de consagração a Deus que iremos acompanhar.

O tema central deste livro é a apostasia. A personagem João Falcão se encontra imerso no universo complexo da religião e as incertezas de suas escolhas entrarão em choque com os conceitos, sejam estes palatáveis ou não, estabelecidos dentro desses espaços institucionalizados.

O livro é bem escrito, como não poderia ser diferente em se tratando de Cony. João Falcão é um sujeito esclarecido, detentor de uma mente questionadora que coloca as coisas em perspectiva, analisa os fatos de um modo amplo, para além da obviedade conceitual. Há relatos imersivos, outros engraçados, há aqui uma sensibilidade tão eloquente inserida na narrativa que não vejo alternativa senão fazer uma inevitável releitura, talvez quando minha mente estiver de volta aos eixos normais.

INFORMAÇÃO AO CRUCIFICADO é um livro singular cuja temática, puramente, já é elemento instigante o bastante. Tem uma personagem carismática que causa empatia imediata, um olhar crônico agradável e os aspectos narrativos tão apreciados de um dos maiores escritores da nossa língua.

NOTA: 8,1

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

CENTENÁRIO DE CLARICE LISPECTOR


Ontem precisei resolver alguns assuntos no centro da cidade, e como sempre faço, levo comigo um livro para me ajudar a suportar filas e salas de espera. As pessoas em geral se entretêm com seus modernos smartphones, mas eu gosto mesmo é de aproveitar estes espaços de tempo para ler.

Tratava-se de nova incursão, porque anteontem havia terminado uma leitura fenomenal (cuja resenha estará aqui em breve), então trazia comigo um livro fresquinho e inédito para ler. Contudo, os afazeres fluíram rápidos e não tive tempo de conferir nem a contracapa. Quando cheguei em casa, no fim da tarde, foi que dei falta do meu companheiro. Ato raro: havia perdido meu livro em algum dos muitos lugares que estive ao longo do dia. Deixei-o em algum canto e até agora não sei onde. Espero que tenha sido encontrado por alguém que goste de ler ou alguém que, através dessa descoberta, adquira o gosto pela leitura.

Como eu estava pra começar uma nova leitura e sabendo que hoje, dez de dezembro de 2020, é o dia do centenário de Clarice Lispector, resolvi desfrutar esta data especial “perto” da rainha, em vez de pegar outro livro não lido na estante. Desse modo, trouxe comigo obras da autora para fazer releituras e, por conta delas, despertou-me a vontade de prestar-lhe esta singela homenagem.

E pensei comigo: se fosse anteontem e tivesse perdido a belíssima obra da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso que eu estava terminando de ler, eu teria surtado! Sairia feito um maluco refazendo todos os percursos em que estive até encontrar o livro (com enorme esperança porque perder livros nesse país não costuma ser um problema insolúvel, afinal, ninguém se interessa por um livro esquecido). Do mesmo modo, caso o infortúnio tivesse ocorrido hoje e eu perdesse algum dos meus livros de Clarice, o desespero seria igualmente inevitável. Concluí que foi sorte ter perdido aquele livro ontem, obra que talvez fosse muito boa de ler, mas que desconhecia e acho que é melhor permanecer assim, nesta zona consoladora do desconhecido. Porque perder um livro inédito é infinitamente menos terrível do que perder um livro que amo... E eu amo toda a obra de Clarice Lispector.

Bom, comecei meu dia de Clarice com uma releitura da entrevista que ela concedeu para Afonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti. O mais notório nestes bate-papos é o quanto Clarice era uma pessoa espontânea; dizia o que pensava, destilava constatações inusitadas, não escondia sua condição emocional para parecer correta. O tipo de ser humano que nunca se sabe o que acontecerá durante uma proza, e é precisamente este ineditismo, aparentemente assustador, que nos possibilita resvalar a beleza de sua alma.

Como quando ela conta que certa feita recebeu uma carta da universidade de Boston pedindo detalhes de sua vida. Ela não respondeu e alegou que não o fez por preguiça de escrever cartas. Mas após mostrar o pedido formal da universidade para um amigo, este se mostrou entusiasmado, então ela disse: “Responde a carta por mim. Diz o que você quiser e fala que estou de acordo”. Pois num belo dia, Clarice recebe em sua casa um diploma de Boston. Havia sido considerada como fazendo parte da biblioteca da universidade... Ela confessou que nem sabe onde está esse negócio.

Outra narração divertida foi quando ela conta que uma esperança (aquele grilo verdinho) entrou pela janela de sua casa e pousou na parede. Clarice teria se livrado do bicho, mas o filho a interrompeu, dizendo que aquela criaturinha trazia esperança consigo e era preciso deixa-lo à vontade. Contudo, o grilo acabou preso por uma teia de aranha e eu não me lembro se morreu ou se escapou e foi embora. O fato é que diante do ocorrido, Clarice chamou a empregada e disse categórica: “você nunca mais atrapalhe o curso da esperança dentro dessa casa, entendeu?”. Fico a imaginar a cara da empregada, sem entender o que ela quis dizer com aquilo, afinal, se haviam teias espalhadas pelas paredes, certamente Clarice deduziu que a culpa pelos infortúnios da esperança, era da empregada que não estava fazendo seu serviço direito. Mas o sermão da patroa deve ter soado filosófico demais para ser entendido.

Detalhe marcante na obra de Clarice Lispector é a forte ligação que ela continua mantendo com nós, leitores, algo quase metafísico. Sua influência em nossa vida é muito forte, como se a leitura dos seus textos transformasse nossa consciência em definitivo, sem retorno ao que era. O mais recente biografo dela, Benjamin Moser, alertou: o conteúdo da obra de Clarice Lispector é uma espécie de bruxaria.

Mas talvez esse encantamento progressivo seja mais bem explicado pela própria rainha, que em frase simples, revela a genialidade por trás da criação de sua literatura:

“Não se faz uma frase. A frase nasce...”.

FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!

terça-feira, 24 de novembro de 2020

RESENHA DE LIVRO –O ÚLTIMO MINUTO


A literatura é a arte que alcança indivíduos solitários, aqueles que se abstraem, isoladamente, na experiência secreta da leitura. E é precisamente a natureza soturna da personagem principal deste O ÚLTIMO MINUTO, o elemento que o faz querer contar sua história: uma espécie de descarrego do acúmulo de vida guardada no âmago de sua existência isolada.

O autor Marcelo Backes aqui conta a história de João, O Vermelho, ex-treinador de futebol, cujas lembranças de vida parecem inadiavelmente suspensas em sua mente, o que o faz relatar sua trajetória à um missionário. Desse modo, seguimos de perto acompanhando a elocução do narrador personagem.

De uma vida cosmopolita, João descende de russos, foi criado no sul do Brasil, buscou empreender na Europa, voltou ao Brasil como treinador de futebol, profissão que também desempenhou na Suíça. Um sujeito que foi do interior patriarcal para a cidade grande virulenta, é cheio das impressões descabidas que o faz contar sua história de modo a sempre adiar o desfecho final, talvez por um desejo íntimo de que não cesse o diálogo.

O futebol como alegoria da vida como ela é, suscita a curiosidade do leitor em avançar na leitura porque a representatividade mundana narrada entre as quatro linhas, parece tornar a complexidade social, digamos, menos complexa. Uma pena que este escopo aconteça tão poucas vezes durante a trama. Pelo menos foi essa impressão que tive.

Marcelo Backes consegue criar empatia no leitor, apesar do olhar equivocado de seu personagem. É que justamente por conta da opinião limitada de João, que alguns de seus pontos de vista acabam por se parecer com o nosso.

A problemática da não aceitação da personagem, que é conservadora por essência, em lidar com as mudanças sociais modernas é exposta aqui de forma contundente. João é um homem tradicionalista e bitolado. E como tipicamente ocorre com esse tipo de redução existencial, ele tece sua análise descabida sobre o mundo por quase toda a obra.

A característica que se faz notória na personagem de João é a nostalgia. Encarcerado, ele verbaliza sobre sua vida de modo apaixonado; demora a entregar o que seu interlocutor quer saber porque denota entusiasmo no exercício de retorno ao passado; quer que saibamos de todo o trajeto vivido, talvez como forma de justificativa para sua transgressão maior, ou simplesmente por sua incansável projeção com tempos que não retornam mais. Enfim, seguimos com a leitura porque ansiamos em saber como ele foi parar na cadeia.

A diagramação do livro me incomodou um pouco. Parágrafos longos deixaram a análise do narrador um pouco cansativa. Há instantes em que a leitura desacelera, se torna arrastada, que só não se converteram em algo maçante porque o livro é relativamente pequeno.

O ÚLTIMO MINUTO é como uma senóide, há instantes muito bons, quase sempre quando a personagem faz suas analogias futebolísticas, e outros momentos um pouco menos prazerosos, cujo entusiasmo cai significativamente, mas descamba num final que não decepciona. Trata-se de uma síntese da personagem sobre a própria vida, portanto, um olhar cheio de equívocos e carregado de conceitos contraditórios, que carece um tanto de imparcialidade do leitor.

NOTA: 5,9

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

RESENHA DE LIVRO – O CASAMENTO


“Pela torpeza das cenas descritas e linguagem indecorosa em que está vazado”, foi esse o argumento publicado em portaria pelo regime militar no ano de 1966 como justificativa para a proibição deste O CASAMENTO, único romance do dramaturgo Nelson Rodrigues. Pois eis que neste distante 2020 ainda se pode encontrar comentários pela internet assustadoramente semelhantes, de gente limpinha, cujo argumento de indignação parece emanar de um conflito interno.

“Livro nojento, que não acrescenta nada e somente busca chocar por meio de personagens incestuosos, preconceituosos e hipócritas”, este é um dos muitos comentários que encontrei em breve vasculha por sites de literatura. Mesmo após 54 anos, acho que ainda perdura um conservadorismo endêmico na sociedade, que sente desconforto ao se deparar com as complexidades da natureza humana.

Nelson Rodrigues tece uma literatura ausente de qualquer charme narrativo, apresenta seus personagens de modo imediato, pouco cerimonioso, os diálogos assemelham-se à uma metralhadora circunstancial, oferecendo ao leitor um aglomerado de “pessoas” e não “personagens”, cujo aspecto que causa rubor em puritanos é precisamente a maior virtude da obra: o dever de consciência com o lado crível de nossa existência.

Seria absolutamente compreensivo encontrar gente que desgostou da obra por aspectos literários, ou seja, desaprovação por questões de preferência de estilo. Mas a grande maioria de leitores que ainda hoje apedreja este brilhante trabalho, o despreza por considerar o conteúdo machista, preconceituoso ou por considerar o autor levianamente polêmico.

Ao que parece, os assuntos considerados tabus não agridem diretamente a sociedade, mas sim o desconforto quando se está diante de uma narrativa que mostra gente comum, destilando comportamento inadequado. Encontrar atitudes nocivas naquele que é identificado como vilão nos é aceitável, contudo, o dito “cidadão de bem” quando dotado de comportamento perverso costuma gerar asco social. E a grande sacada deste livro é dizer o indizível, porque a natureza confusa do ser humana, cheia de contradições que costumam chocar, jamais deve sair da instância sensorial.

A trama gira em torno de Sabino, empresário bem sucedido que vive com a família no Rio de Janeiro. Como sugere o título, a personagem está às vésperas do casamento de sua filha mais nova. Tipicamente num tom de fofoca, Sabino recebe uma revelação que o deixa transtornado, desencadeando em eventos que irão envolver outras pessoas.

O texto de Nelson é ágil e direto, sem muita preocupação com a estética, apenas segue narrando os eventos, entremeados com muitos diálogos e as inconstâncias dos protagonistas, porém, sem entrar em complexidades psicológicas, o autor concentra-se apenas em contar a história.

O romance como um todo pode ser entendido como uma crítica eloquente sobre a hipocrisia da sociedade, em especial, a famigerada classe média. E embora sabemos que a literatura rodrigueana costuma soar provocativa, os elementos que enriquecem a obra pairam na habilidade do autor em contar sua história. Nelson Rodrigues usa de uma sagacidade capaz de suscitar diferentes tipos de emoções no leitor. Quase que imediatamente ao começo da leitura, nos vemos tomado por uma ânsia irrefreável por saber mais um pouco sobre os eventos. É um livro que flui com facilidade incomparável e o estilo simplista do autor acentua esse aspecto.

Algo gostoso de se encontrar está em algumas gírias da sociedade daquela década de sessenta; o recato estabelecido e diretamente associado aos bons costumes que conferem o perfil do cidadão de bem. Então Nelson Rodrigues faz cortinas sociais caírem sucessivamente, enquanto suas personagens se esforçam para manter as aparências como de praxe. Há momentos em que a discrepância entre natureza e comportamento aprendido é mostrado de modo surpreendente. Não importa o que foi feito da vida, cedo ou tarde, o animal humano vem à tona.

O choque com a realidade muitas vezes soa como um soco na cara. Outras vezes nos faz dar boas risadas. O escopo da literatura rodrigueana insinua-se na mente do leitor, não apenas para mostrar a vida como ela é, mas acima de tudo, narrar uma história que de tão crível, parece deter aspectos documentais.

O CASAMENTO é um livro desses que me faz perguntar o porque de eu ter demorado tanto para descobrir. Não soa mais tão ousado, mas pelo que pude constatar em minhas pesquisas, ainda tem muita gente que se incomoda com o desnudar da natureza humana. Eis aqui uma obra estupenda, destemida e profundamente instigante.

NOTA: *10*

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

RESENHA DE LIVRO – DEPRESSÕES


Existem certos livros cujo conteúdo pode suscitar mal-estar e, por essa razão, talvez não devam ser lidos por leitores que atravessam fases difíceis de suas vidas. A depressão do título dessa obra não remete propriamente à doença psiquiátrica (ou não apenas a ela), mas ao clima de constante opressão. E o desconforto paira constante através das páginas dessa compilação de contos da vencedora do Nobel de Literatura Herta Muller.

A escritora nascida na Romênia vivia numa pequena comunidade rural em que predominava a cultura alemã que era alvo de perseguição do regime comunista que dominava o país. Provavelmente é desse cenário de escassez extrema que surge a inspiração para a prosa franca e eloquente de Muller.

DEPRESSÕES é uma reunião de contos insalubres por excelência. A essência narrativa desse livro percorre por ambientes impregnados de imundices das mais variadas espécies, desde a sujeira física até a psicológica. O olhar das personagens denota com clareza os limites de sua realidade, a precariedade que quase sempre evolui para cenários trágicos de violência... Violência de todos para com todos, entre categorias sociais distintas e que permeiam o cotidiano, compondo a dramaticidade coletiva do cenário.

O livro divide-se em quinze contos, porém o texto que fornece seu título ocupa mais da metade do volume e é aqui o lugar onde encontramos a sutil constituição literária da tragédia humana que faz de Herta uma escritora notável. Sugiro que o leitor faça sua incursão com calma, para que não se perca nenhum detalhe da sordidez social explicitada aqui.

A personagem narradora transfere sua insuficiência para fora das páginas com tamanha eloquência, deixando na leitura uma sensação de desesperança constante. Qualquer escapismo do caos parece mero fingimento, como se a ruina fosse uma máxima inevitável para humanos inseridos naquele ambiente. O cenário rural precário, cujo clima opressivo em que a protagonista está inserida é quase palpável e, justamente por isso, desperta certa solidariedade no leitor. A menina não vive, mas, apenas sobrevive neste lugar de aviltamento da dignidade.

O olhar em primeira pessoa torna o conteúdo ainda mais enervante. Sem nenhuma análise sofisticada sobre tragédias resultantes dos regimes ditatoriais, aqui é somente o universo dos desassistidos a conjuntura que viabiliza o desconforto no leitor. É a maravilhosa mágica da arte literária de inserir-nos no terror existencial para nos fazer sentir exatamente as mesmas agonias que as pessoas que nele estão inseridas.

Alguns críticos dizem que este escopo caótico de Herta Muller possui particularidades semelhantes às de Samuel Beckett, porém, o escritor irlandês ainda não conseguiu me atar em sua literatura de modo tão irreparável quanto o fez Muller.

Além de Depressões, os demais contos são curtos e alguns mantém o mesmo aroma pútrido. Muitos parecem breves trechos retirados de algo maior, o que pode causar alguma confusão em leitores que apreciam objetividade linguística. Depressões é, de longe, o conto que sobressai os demais e aponta o lirismo estético que deu a autora o Nobel de literatura em 2009. E precisamente por ser este conto tão extraordinário que acabou ofuscando os demais.

DEPRESSÕES é um livro para se ler com sobriedade, imparcialidade e, acima de tudo, coragem. Um eco incômodo da tragédia humana que parece espreitar em algum canto, à espera do momento certo de nos dar o bote. Em tempos de extremismos aparentemente superados e que parecem ressurgir sutilmente em sociedades mundo afora, a literatura de Herta nos soa cada vez mais atual.

NOTA: 8

sábado, 3 de outubro de 2020

RESENHA DE LIVRO – MARINA


Eis aqui outro livro altamente aclamado, recomendado e lido, cujo conteúdo parece questionável, ou no mínimo, fugiu de minha compreensão. A experiência desta leitura me fez recordar alguns filmes confusos e indeterminados, que se repetem a exaustão nas sessões da tarde semanais.

MARINA se passa na Barcelona da década de 80; adolescente que vive num internato conhece, numa de suas fugidas para perambular através das artérias da cidade, uma garota aparentemente cheia de mistérios, que vive num casarão sorumbático com seu pai. Estabelecida a nova amizade, os dois são atraídos para acontecimentos que desencadeiam uma história, digamos, cheia de surpresas imprevistas.

Num primeiro momento, parece que estamos diante de um livro impactante, inusitado e bem escrito. A narrativa é aberta, mostrando o personagem principal sendo encontrado numa estação ferroviária, após dias de desaparecido. Óscar Drai parece confuso, desencontrado, alguém que acabou de escapar do inferno... Some a este início sedutor o fato de que o autor Carlos Ruiz Zafón carrega em seu currículo alguns títulos que o elevaram ao status de talento incontestável. Também temos uma capa belíssima e aforismos genéricos espalhados por diversos instantes da narrativa, cuja serventia é a de mera ornamentação.

Apesar de sustentar um texto limpo e acessível, o autor desenvolve a história optando por percorrer um caminho frívolo. Por exemplo, a condução narrativa se preocupa excessivamente com detalhes do cenário, tempo e lugar, deixando de lado os personagens que entram de cabeça numa aventura cheia de perigos sem a menor preocupação ou imersão reflexiva, como se eles fossem acostumados a colocar suas vidas em risco.

Por falar em personagens, estes também não servem como elementos para cativar o leitor. Óscar e Marina são pouco carismáticos e precisam demais dos aparentes mistérios que envolve suas vidas ou as consequências de decisões tomadas, para atrair algum interesse de nós. Talvez por conta dessa mesma narrativa excessivamente preocupada com o ambiente foi que se perdeu a essência de seus protagonistas. Estamos diante um livro de mistério, mas a leitura se torna maçante em diversos instantes.

Quando defronte aos perigos da aventura elaborada por Zafón, eis que algum personagem lança uma frase de efeito ou o subcapítulo se encerra dentro de um momento aparentemente crítico. Então, na página seguinte seguimos com a mesma receita de aforismos prontos e alguma expectativa pelo perigo eminente, quase sempre remetendo Óscar à mais um passo para desvendar o grandioso mistério, sendo que quase tudo é entregue facilmente, nenhum personagem secundário que surge para explicar algum ponto se mostra desconfiado ou receoso. Tudo é revelado automaticamente, deixando pairar uma sensação de urgência na condução narrativa. E a Marina do título também faz pouco, não possui peso na trama e surge no capítulo final para protagonizar um extenso e cansativo desfecho.

A grande maioria dos leitores manifestaram opiniões positivas sobre este livro pela internet, o que não é de causar estranheza. MARINA não chega a ser desprezível como leitura, busca manter-se alinhado ao mistério que, instigante ou não, deu-me a impressão de que o autor está convencido de ter entregado exatamente aquilo que prometeu.

MARINA é um livro infanto juvenil, pelo menos do meu ponto de vista. Não trouxe nada de inovador, seu personagem Óscar carrega o arquétipo de herói higienizado que atrapalha sua credibilidade e a Marina do título é incapaz até mesmo de justificar seu nome como destaque. Talvez mais do que a semelhança por um filminho previsível de uma tarde semanal, este livro tenha o viés de um autor apaixonado pela própria escrita.

NOTA: 4,2

sábado, 19 de setembro de 2020

CRÔNICA - O NÃO LUGAR DA ALEGRIA

Certa vez tive minha inveja atiçada ao assistir o depoimento de uma escritora renomada que relatava, com excessivo entusiasmo, sobre a melhor sensação do mundo que foi segurar seu primeiro livro em mãos. Disse que não importava se este havia sido publicado ou não, se era inovador ou repetitivo, se havia custado caro ou gerado despesas... Os meios não justificam os fins! De acordo com o testemunho daquela autora, segurar o primeiro livro era como receber um filho nos braços.

Aquele efusivo relato jamais deixou meus pensamentos. E com o orgulho atrofiado, imaginava-me segurando minha cria nos braços, com olhos rasos e a certeza de uma concepção finalmente concretizada, anos após anos de extenuante trabalho (quem escreve longos textos sabe do que estou falando). Ter meu livro finalmente entre meus dedos seria o ápice da alegria!

Pois eis que este futuro tão ansiado finalmente chegou em 2019.

Na capa da obra uma mão buscando alcançar a maçaneta. Mal sabia eu que seria a reprodução idêntica de minha própria mão quando avançou dedos embevecidos de encontro à obra recém-chegada, retirada da embalagem ordinária dos serviços postais. Era o primeiro encontro entre obreiro e sua obra, criador e criatura, pai e o aguardado filho...

Confesso que ainda não delirei desvairadamente ou derramei lágrimas. Reproduziu-se, pelo menos até o instante em que escrevo esta inofensiva confissão, apenas um enternecimento acanhado, típico da timidez, a costumeira impressão de que a “ficha ainda não caiu”. Mas na certeza de que, seja o que me espera o futuro sempre irrevelável, não importa... Meu filhote de celulose está ao alcance das mãos, descansando na estante que é seu berço. E eu estou imensamente satisfeito!

Psicólogos costumam dizer que o estado evolutivo de perda da ansiedade nos remete a uma condição de serenidade da mente, mas que é inevitável a perda da euforia em níveis iguais. Ou seja, quando se alcança um equilíbrio mental, tanto o desânimo quanto o entusiasmo deixam de existir. É como se o pêndulo emocional houvesse travado no centro do painel.

Vez ou outra minha esposa surge cheia de alegria para me contar uma boa notícia. E quase sempre percebo a queda de seu entusiasmo quando ela nota que não reproduzo a mesma empolgação. Mas é claro que me sinto bem com a boa nova, principalmente nos atuais tempos de trevas em que nossa sociedade brasileira vive. No entanto, sei que ela esperava um pouco mais de retorno, pelo mesmo motivo: se são trevas o que compõe o nosso meio, boas notícias deveriam ser amplamente saudadas para que vida se torne suportável.

Às vezes penso que de tanto trabalhar meu psicológico por medo de sofrer, acabei encontrando sofrimento no encontro com a coisa parada, morna. Efeito colateral da perda da aflição foi a inevitável queda da satisfação... Como se meu mundo houvesse se tornado nulo.

Sim, tudo isso soa como uma análise tola, afinal, existe tanta gente no mundo desesperada por encontrar uma cura para a ansiedade aparentemente indestrutível. Ou o oposto, que é gente que se emociona até em inauguração de supermercado. Meu ser parece ter conseguido encontrar o equilíbrio ideal que muita gente anseia e o faz por meio de medicação ou entorpecentes.

Pois este deveria ser conteúdo de regozijo por eu ter encontrado o núcleo do ciclone, enquanto a grande maioria continua descabelada e rodopiando ao meu redor... mas e quem disse que equilíbrio é o lugar onde está a alegria?

Felicidade é a maior quimera dos homens.

O prazer não deve estar nas coisas, nem em lugares, menos ainda em posições. Essa coisa inominável que nos faz querer que determinado instante, por ser tão gostoso, dure um pouco mais, talvez seja simplesmente um estado de espírito atento, que permanece vigilante à espera desses instantes escapadiços os quais achamos que a vida vale à pena ser vivida.

sábado, 5 de setembro de 2020

RESENHA DE LIVRO – A FORTALEZA DOS VENCIDOS


Nei Leandro de Castro
ficou conhecido pelo pseudônimo Neil de Castro, quando escrevia para o Pasquin, na década de sessenta. Embora tenha trilhado a literatura de poesia, foi como romancista que conheci seu trabalho. E dessa experiência, foi por muito pouco que vislumbrei estar diante de uma literatura genial, não fosse um único, porém, determinante equívoco...

Obviamente o internauta poderia expressar a seguinte questão: e quem este resenhista pensa que é, para se considerar definidor daquilo que é genial ou não? Em minha defesa eu preciso salientar que qualquer análise sobre qualquer coisa, carece da apreciação pessoal; a coragem de dizer o que se pensar de modo sincero e decoroso. Do contrário, uma crítica se tornaria meramente técnica, robótica. Aquele que se propõe a resenhar, seja por profissão ou lazer, precisa ter a hombridade de dissecar os aspectos do objeto analisado, para que o resultado final dessa empreitada seja o de informar sem ofender; relatar a experiência vivida sem humilhar ou depreciar o trabalho de ninguém... Sem isso, uma resenha serve meramente para ostentar erudição.

Considerei importante fazer essa ressalva, porque concluí neste A FORTALEZA DOS VENCIDOS um livro que só não foi brilhante por conta de um final imaterial e que, embora cabível pela trama, desagradou-me por sua discrepância de teor narrativo... O livro me perdeu nos instantes finais.

Aqui acompanhamos a história de dois personagens emblemáticos: Marionália e Esmeraldino representam com perfeição os dilemas sociais dos brasileiros de uma época conturbada, desde suas influências, personalidades e até mesmo seus nomes. O autor insere personagens tipicamente enraizados nos costumes desse povo, e tal inserção é comumente encontrado nos clássicos da literatura.

Perante as intempéries da vida, as duas personagens estabelecem um relacionamento conflituoso, cujo desfecho se deu em vidas que seguiram por caminhos opostos. E longe um do outro, Esmeraldino e Marionália nos contam, por meio de suas memórias, um pouco da existência que os condicionou à um casamento malogrado.

O que mais me impressionou ao longo de minha leitura, foi o modo visceral com que somos inseridos no universo caótico de Marionália, e poético de Esmeraldino. Ambos são personagens altamente interessantes de forma diferente: Marionália é escrachada, impetuosa e agressiva. Esmeraldino é engajado, terno e nostálgico. Os dois foram esculpidos sob a égide do erro e acerto, sofreram as agruras de uma sociedade complexa e indiferente com seus inseridos. E a empatia aqui é tão grande, que por todo o tempo conseguimos compreender a forma com que cada um deles age dentro de seu universo. O mundo transmuda sempre, muitas vezes de modo trágico e definitivo. Nei Leandro de Castro nos deixa o tempo todo muito perto dessa metamorfose em seus personagens, isso retira do leitor o julgamento equivocado, do mesmo modo em que nos faz pensar que poderíamos muito bem agirmos como Marionália ou Esmeraldino.

A linguagem do livro é deliciosa e fácil, por vários instantes nos deparamos com os trejeitos e costumes regionais nordestinos. Incomodou alguns momentos em que a narrativa não descansa, deixando algumas reflexões um pouco emboladas. Talvez faltasse alguns parágrafos, daqueles que convidam o leitor a uma pausa necessária para que se deixe fluir através do pensamento. Por se tratar de uma trama psicológica, acho que seria interessante um cuidado maior com as mensagens imersivas, para que elas não sequenciem de modo mesclado com partes meramente informais do texto.

 Bom, e o final da trama, que como disse no início da resenha, foi meio que verificar uma queda drástica do meu encanto pela leitura. Deparamo-nos com as consequências da loucura de um dos personagens, então entramos numa espécie de tribunal místico. Não é possível relatar muito sobre o que acontece para não estragar a leitura de ninguém, mas o livro perdeu seu encanto por escolher um caminho, digamos, desconexo com o segmento apresentado até aquele ponto. Foi como se a conclusão houvesse sido escrita por outro autor.

A FORTALEZA DOS VENCIDOS é um livro agradável, bem escrito, de personagens cativantes e que representam a existência imprevisível do ser humano. Teve uma conclusão que não gostei, mas talvez agrade a outros leitores... Enfim, vale à pena conhecer mais esta obra de nossa literatura.

NOTA: 7,4

sábado, 15 de agosto de 2020

RESENHA DE LIVRO - MENTIRAS NO DIVÃ


Sempre que um autor emplaca sucesso estrondoso, a publicidade garante que seus trabalhos posteriores ostentem a referência de tal glória no alto da capa, assim como expõe seu nome em letras gigantescas, que sobressaem o próprio título do livro, a ponto de confundir o consumidor desavisado, que não sabe qual é o nome daquele volume na prateleira. Sim, porque MENTIRAS NO DIVÃ significa muito pouco para o universo do marketing, mas Irvin D. Yalom já virou marca de sucesso há muito tempo, quando o cara lançou no mercado sua cria mais ilustre intitulada QUANDO NIETZSCHE CHOROU.

Portanto, na capa de MENTIRAS NO DIVÃ, o título parece insignificante e está bem abaixo o destacado nome do autor. E como represento esse leitor desleixado e completamente fora de moda, só tive conhecimento dos acertos milionários de Yalom quando meu exemplar deste livro aqui resenhado, já estava em minha prateleira... Sorte minha porque costumo desconfiar de autores que se tornaram “modinha”, e várias vezes essa desconfiança se confirma em ivro ruim. Se este aqui é mais um caso de ignorância que se mostrou como uma bênção, eu não saberia dizer. O fato é que MENTIRAS NO DIVÃ é um livro muito bom, embora caibam observações importantes... Vamos a elas:

A trama não tem nada de extraordinário ou inovador e o título já escancara o conteúdo: ficção que textualiza o universo das terapias e levanta questões sobre ética e a complexa natureza do ser humano. Aqui iremos ficar bem pertinho de três terapeutas e seus pacientes, num cenário reduzido que me fez pensar em peças teatrais onde um único ambiente é narrado: o consultório terapêutico. Basicamente é no cerne do divã o local onde se passarão as 448 páginas que o leitor terá pela frente.

Seymour Trotter representa o terapeuta veterano cuja sociedade lhe atirou todas as pedras por manter relações com uma paciente. Ernest Lash talvez seja a personagem que mais recebe atenção ao longo da trama, ainda em busca de confiança na profissão, ele será o pêndulo entre a moral e o profissionalismo dentro da narrativa. Por fim, temos o ambicioso Dr. Marshal, que justamente por sua natureza cobiçosa, se mete em problemas enormes, também diretamente ligados à moral e a ética.

Apesar de longo, o livro é bem escrito, repleto de detalhes, diálogos elaborados com o devido cuidado para que este tenha a fidelidade de um consultório; é fácil perceber que estamos diante de paciente e terapeuta. E exatamente por se tratar de um autor prolixo, o livro esbarra em instantes enfadonhos, quase desnecessários, mas é preciso perseverança na leitura, pois há momentos aqui que precisam ser narrados (embora talvez pudessem ser resumidos) para que se compreendam as motivações que movem determinada personagem.

A trama não é o forte da obra. Se você gosta de instantes reveladores, momentos de reviravoltas e confrontos narrativos, esqueça! Yalom fideliza o divã e fica dentro dele por quase toda a narrativa, demora-se para esmiuçar as motivações dos personagens e não parece interessado em fazer o leitor delirar. É um texto que requer uma dose de mansidão para encontrar seu brilho. A mim não incomoda esse tipo de literatura, embora confesse ter ficado com aquela “areia nos olhos” em alguns instantes.

 Outro aspecto que vale à pena ser mencionado é que o autor centraliza sua narrativa nas personagens; há aqui uma preocupação em detalhes pessoais, explicar o que se passa na mente de cada envolvido. Yalom quer nos apresentar seus protagonistas e não está muito preocupado em narrar cenários, tempo ou instantes... É outro ponto que aprecio bastante. O autor não fica dando voltas desnecessárias, o que é comum em narradores palavrosos. Mas justamente parece manter uma preocupação em distinguir pensamentos das personagens e nos fazer entender seu modo de pensar.

Também gostei do modo com que fui levado a odiar determinada personagem, para mais à frente me ver aprendendo a compreender suas motivações e até criei alguma empatia por ela.

MENTIRAS NO DIVÃ é um excelente livro, em especial para quem curte o universo das terapias. Exagera na construção da pessoalidade de seus personagens, mas exatamente isso que parece dar sono em leitores que curtem textos ágeis, é o elemento precioso para quem aprecia literatura centrada na complexidade da natureza humana.

NOTA: 7,3