sábado, 20 de novembro de 2021

CRÔNICA - O ÔNIBUS

Seu destino geral todos conhecem ou desconfiam. Já o destino de cada um ninguém sabe, exceto aqueles indivíduos que estão devidamente caracterizados. Alguns mudam de rota, outros desistem; não raro alguém desce imediatamente após embarcar, certamente deixou para trás algo importante. Há aqueles cujo intento foi modificado durante o trajeto, influenciados que foram por outros usuários. Mas independente do lugar para onde estejam seguindo, que todos sejam reconhecidos por sua nomenclatura ordinária: eles são passageiros.

Toda essa ênfase com a definição se deve ao fato de que os passageiros desejam dispender o menor tempo possível no interior da grande caixa metálica. Passageiro é um termo direto que reconhece a todos como indivíduos submetidos a um procedimento transitório; que nada acontece no mundo enquanto estiverem ali, no interior do muambado, sendo transportados de um espaço para outro. Ali é onde ocorre o intervalo da vida; nada acontece dentro do coletivo e nunca alguém buscou seus serviços por estar com saudade daquele sacolejo constante, do sobe e desce de gente estranha, de todo tipo de individualidade..., eis o aglomerado humano onde todos estão unidos, mas cada um buscando seu próprio destino.

O ônibus é o neutro em movimento.

O cinema já explorou à exaustão o tema da máquina do tempo. Comumente, trata-se de uma cabine hermética, cujo usuário é transportado para determinado época, inserindo suas coordenadas temporais num painel cheio de botões. Pois bem, agora imagine se um ônibus coletivo não tivesse janelas e as imediações do motorista fossem impedidas aos passageiros, como acontece nas cabines dos aviões comerciais. Ou seja, nestas condições estaríamos presos dentro de uma caixa sem saber o que está acontecendo do lado de fora, e somente reestabeleceríamos o contato com o mundo quando chegasse o momento de desembarcar. Sabe aquela sensação estranha quando saímos de um elevador? De repente, adentramos uma caixa metálica posicionada no térreo de um edifício, então, magicamente essa caixa se abre e sentimos vertigem por conta da repentina visão de uma cidade há quilômetros de profundidade. Saímos de um mundo, aparecemos noutro. Assim deve ser a sensação de se viajar numa máquina do tempo...

Pois um ônibus sem janelas seria como um elevador; usuários conspirariam a possibilidade de que o trajeto não existe; que o ônibus simplesmente se teletransporta de um lugar para o outro. Afinal, o passageiro só conhece o ponto de embarque/desembarque e o interior da máquina. Ninguém sabe como é ou como funciona o poço de um elevador.

Mas as janelas dos ônibus nos permitem o testemunho do trajeto, muitas vezes até proporcionam a apreciação de uma bela paisagem. É através das janelas que sabemos identificar nosso destino, e o instante preciso de puxar a cordinha. Da janela somos todos isentos, observando o mundo continuar sem nós por algum tempo. Vez ou outra, paira a noção de que talvez não seja tão ruim assim estar dentro do ônibus, afinal, do lado de fora está sempre acontecendo um instante de estresse, uma briga no trânsito, um acidente. Abençoado ônibus que nos ofereceu a condição de expectadores da vida ordinária. Quem está dentro do ônibus não tem nada a ver com o mundo lá fora.

Mas e esses passageiros, quem são? De onde aparece tanta gente?

Sei que vai parecer estranha a comparação, mas os humanos são meio como baratas: estão em toda parte, surgem do nada e a gente nunca sabe de onde aquela criatura veio. Talvez Franz Kafka compreendesse o que quero dizer, afinal, o escritor foi ao limite do absurdo em sua comparação do ser humano com um inseto.

Enfim, este distinto e corrosivo ser andante vai surgindo de vários pontos e todos se reúnem em específico local, à margem de uma rua. Todos espremidos na calçada, entediados pela repetição do ato, quase não se falam. Olham para o chão, verificam o celular, fones nos ouvidos, um ou outro comenta sobre o tempo maluco. A espera faz os minutos parecerem horas. Então, irrompe no horizonte o caixote retangular de rodas, que estaciona diante do aglomerado humano e todos desaparecem da calçada.

Encontram-se agora espremidos em seu interior, entediados pela repetição do ato, quase não se falam. Olham para a janela, verificam o celular, fones nos ouvidos, um ou outro fala sobre o tempo maluco, talvez o mesmo sujeito que o fez lá na calçada, há pouco. Por que essas pessoas resolveram sair de suas casas ao mesmo tempo? É tanta gente junta que quase não cabe no ônibus, elas se encolhem para entrar, penduram-se na porta, corpos imprensados, compartilhando calor, suor, fluídos salivares, bactérias..., um verdadeiro enlatado humano.

Gente branca, preta, amarela, marrom, cinza. Vestem todo tipo de indumentária, jeans, malha, moletom, manga longa, manga curta, short, bermuda, saia, vestido, macacão, uniforme, terno e gravata. Mochilas, bolsas, sacolas de supermercado, sacola de loja de utilidades em geral, sacolas plásticas, sacolas de papel, bolsa de viagem, bolsa tiracolo, chapéu, boné, tiara, pregadeira, caneta prendendo os cabelos na cabeça..., cabelos pretos, loiros, ruivos, encaracolados, crespos, compridos, curtos, grisalhos, cabeças sem nenhum cabelo... Dezenas e dezenas de cabeças reunidas.

De repente, um inesperado buraco e as rodas sofrem o impacto, um tranco fugaz e todos os ombros chacoalham ao mesmo tempo. Logo depois, uma freada brusca, e a pressão exercida pela frenagem faz aquelas muitas cabeças reverenciarem em sincronia. Alguém se levanta e sai amassando e sendo amassado por outros corpos, puxa a cordinha. O busão, que estava em movimento, diminui até parar. Lá fora, outro grupo de pessoas juntas na margem da pista. Humanos trocam olhares, descem dois, entram quatro. As portas se fecham com dificuldade, a lata gigante de sardinha dá seta para retomar o percurso. Alguém puxa a cordinha de novo, mas o condutor não tem paciência, ainda tem muito chão pela frente, não há tempo a perder.

Peraê, motor!

O ônibus espera um pouco mais. Alguém está bloqueado no emaranhado de corpos. Ele puxa, estica, aperta, empurra, chuta, pisa e é pisado, busca mais um espacinho, vai lutando por cada centímetro em direção à porta de saída.

Do lado de fora, o outro aglomerado de humanos observa a caixa de metal carregada de gente, e acha aquele cenário natural; aguardam avidamente pela chegada de seu ônibus, todos juntinhos, entediados pela repetição do ato, quase não se falam, olham para aquela caixa parada que não lhes serve, depois voltam a verificar o celular, fones nos ouvidos, alguém comenta sobre o calor infernal..., os de fora invejam a sorte dos de dentro, porque já estão no caminho de seus destinos; os de dentro anseiam a liberdade dos de fora, porque eles respiram ar limpo, possuem distanciamento decente e correm menos riscos de infecções respiratórias. Os de fora têm uma visão do futuro que os esperam ao contemplar os de dentro, enquanto os de dentro reveem o próprio passado recente ao observar os de fora.

Uma mulher audaciosa consegue entrar, ela veio correndo, surgiu não se sabe de onde, exatamente como fazem as baratas. Dá alguns socos na porta do ônibus e então a mesma se abre. Vitoriosa, espreme-se até a roleta, recebe e devolve ofensas com o trocador porque só tinha uma nota de cinquenta e é difícil trocar uma nota de cinquenta. Trocadores odeiam notas de cinquenta, mais até do que as de cem, pois na crise atual, estas são raras. Todos acompanham o bate-boca sem se alterarem, afinal, isso acontece todo dia.

E como num milagre da urbanização, a mulher consegue um lugar para estacionar sua massa orgânica entre o emaranhado de corpos. A expressão de ódio por conta da recente discussão se desfazendo, aos poucos, até virar tédio e ela se transforma em parte do cenário. Então ela olha pela janela, depois verifica o celular, põe os fones de ouvidos, um cara ao lado comenta que esse calorão só pode ser chuva mais tarde...

sábado, 13 de novembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – DESAMPARO

Encontrei este DESAMPARO em promoção num Sebo. A capa com o rosto de uma mulher me soou familiar (meses depois descobri a fonte desta impressão: é que já tinha visto o livro na estante de minha esposa), li a sinopse rapidinho e decidi acrescentá-lo a minha pilha de compras, tipicamente esse é o tipo de aquisição para se conhecer novos autores. E como foi gratificante saber que a autora é portuguesa. Tive certeza de que estava adquirindo coisa boa. A literatura lusitana tem muita gente boa, e Inês Pedrosa apenas surgiu para validar essa opinião.

A trama deste romance contemporâneo gira em torno da personagem Jacinta, mulher nascida em Portugal, porém, veio para o Brasil muito jovem, ela retorna ao país de origem meio século depois para conhecer a genitora da qual foi arrancada muito cedo. Jacinta é como o ponto de origem para explicar muitos outros personagens, todavia, ela segue como figura central, mesmo em capítulos em que pouco dela nos é apresentado, mesmo assim, sua essência permanece circundando toda a leitura.

O reencontro acontece numa pequena aldeia, onde ela se estabelece em definitivo porque precisa cuidar da mãe. Neste ínterim, o livro alterna para outros capítulos em que nos são apresentados novos personagens, alguns mais interessantes do que outros, sendo o mais complexo e meu favorito, Raul, que em determinado instante também se encontra instalado em Portugal para cuidar de sua mãe, Jacinta, exatamente como ela houvera feito antes, num ciclo altruísta no cerne daquela família.

Raul é figura singular, carrega problemas existenciais, tem conflitos familiares com seus irmãos desgarrados, é consciente de suas limitações de uma forma quase lamentável, sente-se fracassado na profissão e no amor. Este personagem, juntamente com Jacinta, são os pontos mais altos da trama.

O livro resvala num segmento introspectivo, quase um fluxo de consciência, mas o mergulho não desce tão fundo em tais reflexões idiossincráticas, ficando mais próximo do verniz; de uma prosa deliciosa, engraçada, triste e muitas vezes carregada de análises conflitantes, de personagens tomados demais dessa natureza humana cheia de inconstâncias.

Mas apesar de instigar, é justamente aqui que o livro resvala num problema.

Muitos personagens inseridos comprometeram aquilo que seria este mergulho mais fundo na leitura da alma humana. Talvez Inês tenha exagerado na dose, despejou demais os tipos diferentes que nos são apresentados, e terminamos por conhecer bem menos do que gostaríamos de cada um deles..., uma pena.

De qualquer forma, é um livro gostoso de se ler, fluído e crível, onde o desamparo do título paira o tempo inteiro ao redor de seus envolvidos, porém, deixou-me com a sensação de que faltou arrancar camadas de seus personagens, o que talvez fosse possível, caso a trama tivesse se concentrado em um ou dois indivíduos. Opinião à parte, esta obra é mais um acréscimo que eleva minha admiração pela literatura portuguesa, Inês Pedrosa é mais uma autora que passarei a procurar avidamente.

NOTA: 7,7

domingo, 10 de outubro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A CURA DE SCHOPENHAUER

Mais um trabalho cuja essência é a psicoterapia, temperada com elementos filosóficos, o que causa certa contradição, afinal, as obras deste escritor costumam trazer nomes de grandes filósofos em seu título. Deveria ser filosofia, com pitadas de psicologia, mas isso não é nenhum problema, apenas uma constatação. Os textos de Irwin D. Yalom geralmente usam como fontes pensadores que se debruçaram sobre a complexidade humana diante da vida..., ou seja, a psicologia sempre bebeu da fonte da filosofia. Para quem gosta, o autor segue fiel a sua literatura que, embora me agrade bastante, não deve causar o mesmo efeito em muita gente. O estilo de Yalom é meio parado, pouca coisa acontece fora das sessões de terapia, e às vezes paira a sensação de que a história não sai do lugar..., e talvez não saia mesmo.

Aqui acompanhamos o psiquiatra Julius Hertzfeld, que após receber o diagnóstico de um melanoma e a breve perspectiva de vida, resolve repensar sua trajetória profissional. E tal reflexão traz de volta a lembrança de Philip Slate, antigo paciente e rara estatística de fracasso de sua carreira. Julius resolve procurar o ex-paciente e então descobre que o mesmo conseguira se curar dos próprios problemas seguindo os ensinamentos do filósofo Arthur Schopenhauer. Mesmo assim, o psiquiatra convence Philip a participar de seu atual grupo de terapia, então temos o cenário de praticamente toda a obra.

Sim, leitor, o livro é basicamente sessões e mais sessões de terapia de grupo, condição que mais incomoda alguns leitores desavisados que se dispuseram a ler este livro de Yalom. Se você gosta desse tipo de cenário: pessoas refletindo sobre suas existências, trocando confissões, acusações, embates acalorados ou não, alguns discernimentos filosóficos e outros nem tanto, esse é o livro para você. Do contrário, nem tente, pois praticamente mais nada de relevante acontece.

Não por acaso, o autor é um homem do universo da psiquiatria, logo, este é o seu cenário predileto (tem mais resenhas dele aqui no blog). O escopo não é produzir romances lineares, mas mostrar-nos as articulações e entraves que permeiam as terapias, no caso aqui, a terapia de grupo. É um estilo peculiar, mas particularmente me agrada, principalmente porque eu jamais fiz terapia. É elucidativo ver como funcionam este lugar onde se pretende tratar as mazelas da mente humana.

Outro ponto positivo, talvez o que de melhor vamos encontrar aqui, é que os capítulos se dividem entre sessões de terapia de grupo com um pouco da vida e trabalho do filósofo que intitula a obra. Confesso que passei a sentir vontade de conhecer melhor a literatura de Schopenhauer, de fato, um filósofo genial.

Há instantes meio desconexos, talvez uma tentativa do autor em sair dos capítulos de sequências de terapias, o que não agrada muito. Os personagens também são pouco explorados, basicamente ficamos sabendo apenas aquilo que eles falam durante as sessões, o que pode ser proposital. Julius é um personagem que agrada por sua experiência e abertura reflexiva, enquanto Philip o considerei enfadonho e superestimado, houve uma tentativa de fazer dele um personagem erudito, portanto, há instantes em que a narrativa parece forçar a barra.

A CURA DE SCHOPENHAUER não é um livro para qualquer leitor. Talvez agrade aos amantes de psicologia, afinal, pouco dá pra se falar da obra fora deste escopo. Os diálogos costumam ser o que de melhor acontece e tendo Schopenhauer como pano de fundo, tornou a experiência ainda mais agradável.

NOTA: 7,3

domingo, 3 de outubro de 2021

RESENHA DE LIVRO – O BIGODE


Esse é um daqueles livros em que não é simples de ser resenhado, porque qualquer apontamento soa inapropriado, além de colocar em risco o mistério em torno da trama.
O BIGODE é o tipo de obra cuja leitura desperta diferentes interpretações, sem que nenhuma delas soe conclusiva.

Diante da impossibilidade e receio de esmiuçar a história, eis a breve trama: Num ato de total precipitação, um homem se olha no espelho demoradamente, não sabendo exatamente o que está procurando em seu rosto. Então, ele resolve romper com o enfado cotidiano raspando o bigode.

Sim, querido leitor, a sinopse é apenas isso. Mas embora soe simplório, esse ato isolado é suficiente para mergulhar o leitor numa intrigante rede psicológica que parece zombar de nossa sanidade ou simplesmente nos causa aquela estranheza de achar que não prestamos atenção em algum ponto específico da leitura.

O personagem quer se libertar, talvez de seu tédio, e o gesto de tirar um bigode parece uma ideia inesperada, porém, aprazível. No entanto, ninguém parece notar o feito; as pessoas mais próximas se comportam como se a tal transformação, ocorrida no banheiro, não houvesse acontecido. Vale, inclusive para a esposa, figura central na trama, que não percebe o rosto desnudo do marido e, portanto, sua figura será elemento de desconfiança por toda a trama.

Acho que já deu por informação, não quero estragar a leitura de ninguém. E claro que compreendo se você que está lendo esta resenha ainda não despertou nenhum interesse em ler esta obra. Pois você tem toda razão, afinal, não é pela trama que você se sentirá instigado a ler, mas pelo estranhamento que se manifestará em sua mente, já no comecinho; o livro não enrola, é pequeno e vai direto ao ponto. Já iniciamos a leitura com o protagonista no banheiro diante do espelho. O resto é apenas uma senoide psicológica, onde tudo ora parece suspeito, ora soa hipotético.

A leitura é leve no início, quase despretensiosa. Mas a medida em que somos conduzidos ao estranhamento que é constante no personagem principal, a leitura vai ganhando ares, digamos, mais tenso, até mesmo perturbador. O autor, que eu não conhecia, o francês Emmanuel Carrère, soube desenvolver uma narrativa que num primeiro momento parece jocosa, mas que logo se torna insana, desconfortável, faz-nos duvidar até mesmo de nossa leitura (como já mencionei, há momentos em que achei que tivesse pulado algum parágrafo sem perceber).

Genial? Até certo ponto funcionou, mas chegou um momento em que comecei a me aborrecer. Não deu tempo de desdenhar a trama, porque como também já mencionei, o livro é curto, direto e de leitura ligeira. Fosse um autor prolixo talvez o prazer tivesse sido comprometido.

Outra coisa que me incomodou foi algumas ações e conduções do protagonista, mas não posso entrar em detalhes, apenas achei que ficou um pouco chatinho, Mas é apenas uma opinião estética.

O BIGODE é um livro cujo aspecto soa despretensioso, até seu título não anuncia muito. Mas é incômodo e não nos deixa parar de ler. Não chega a ser um suspense assustador, assim como não é uma comédia de humor negro, nem mesmo um terror psicológico. É um trabalho difícil de se definir, de se classificar e mais ainda, difícil de chegar a uma conclusão sobre o que de fato está acontecendo com seu protagonista..., Apesar de tudo, creio que deva ser lido para que você construa sua opinião.

NOTA: 7,1

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

A segunda guerra mundial foi talvez o evento mais trágico e determinante da história moderna da humanidade; seus efeitos atingiram o globo inteiro, suas consequências até hoje se fazem sentir.

Nesta obra aqui resenhada, o historiador Martin Gilbert optou pela premissa de narrar esse tempo de trevas como num resumo (sim, um resumo de 976 páginas, mas em se tratando de segunda guerra mundial, é espaço precário demais para tanta ocorrência); fez uma espécie de diário de guerra, em que o relato precisa ser breve para que não se perca o foco nos principais tempos e acontecimentos do conflito. Desse modo, tudo aqui será relatado de maneira fugaz, eu diria que estamos diante de um livro de entrada, para aqueles que desejam iniciar uma leitura sobre os eventos.

O conflito, que começa em setembro de 1939 e termina em agosto de 1945, foi estudado a exaustão por muita gente boa. Atualmente há material quase que infinito para o público interessado, desde livros, revistas, documentários, filmes, enciclopédias, museus, memoriais... A história da grande guerra está eternizada por distintas formas, algumas mais eficientes outras nem tanto. E este A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL de Martin Gilbert, é mais um trabalho que, embora audacioso na proposta de contar uma história tão grande, esbarra em alguns probleminhas..., vamos a eles:

O primeiro incomodo que senti e perdurou por quase que toda a leitura foi a parcialidade escancarada em muitos momentos da obra. O autor parece excessivamente preocupado em exaltar os aliados (países encabeçados por Estados Unidos, Inglaterra e Canadá), assim como execrar as nações que compuseram o eixo (Alemanha, Itália e Japão). Num primeiro momento, isso até soa como caminho óbvio, mas com o avanço na leitura isso incomoda porque a condução narrativa quer nos fazer engolir que nesta guerra houve apenas dois lados: monstros asquerosos e inumanos numa extremidade, querubins benevolentes na outra.

 O jornalista Nelson Garrone afirma que não existe imparcialidade no jornalismo, ideia que, num primeiro momento, parece ir na contramão do que o senso comum gostaria que fosse. Primeiro porque, segundo Garrone, é tecnicamente impossível ser imparcial pela complexidade incutida no desenvolvimento jornalístico; também não dá pra mostrar “os dois lados” de um escopo jornalístico porque é muito provável que não existam apenas dois, mas muitos lados. Para Garrone, alegar de que existe apenas dois lados é um modo de politizar o debate. Outro relato importante é o do historiador Leandro Karnal, que compartilha dessa opinião quando alega que “neutro” é coisa de sabão de coco; segundo ele, toda opinião tem um lado, uma origem, uma classe social e um ponto de vista.

Martin Gilbert é de nacionalidade britânica, elevado à condição de cavaleiro da coroa, o que explicaria em parte seu apreço irremediável pelas forças aliadas. Também é preciso que seja feita a seguinte observação: talvez a segunda guerra mundial seja um exemplo de raro conflito em que não é difícil identificar os mocinhos e os vilões. Mas é no mínimo irresponsável determinar que, num cenário de milhões envolvidos, metade era composta por bárbaros descerebrados e a outra metade por arautos da ética e da boa conduta (sim, o nazismo foi uma política bizarra e condenável. Mas isso não fundamenta a ideia de que todo o povo alemão era genocida. Muito menos que os soldados no front eram compostos por animais sanguinários).

Há instantes em que fica explicitado a “passada de pano” que o historiador deu perante a conduta dos exércitos aliados, como quando ele tenta justificar como legítimo os bombardeiros que devastaram a cidade alemã de Dresden e a capital japonesa, Tokio. Martin Gilbert também faz uma narrativa um tanto imprecisa ao alegar a necessidade de uso das duas bombas atômicas, despejadas pelo exército americano em Hiroshima e Nagasaki; uma atitude claramente genocida, mas que no livro é descrita como necessária.

Há aqui um sentimento de superioridade por parte dos exércitos aliados, algo que também pode ser encontrado em vários momentos da leitura, e incomoda bastante. Um exemplo é o exposto diário do presidente americano Harry Truman, onde fica claro o sentimento de superioridade e arrogância dos americanos:

“... A arma (referindo-se à bomba atômica) deverá ser usada contra o Japão entre a presente data de 10 de agosto, contra objetivos militares, soldados e marinheiros, não contra mulheres e crianças. Ainda que os japoneses sejam selvagens, impiedosos, implacáveis e fanáticos, nós, como promotores do bem-estar comum da humanidade, não podemos lançar essa bomba terrível contra a antiga capital nem contra a nova”.

As duas bombas mataram mais de duzentas mil pessoas.

A parte estética está bem servida. O livro conta com fotos de alguns eventos curiosos ou fundamentais, também há mapas geográficos, cujo intento é delimitar as reviravoltas demarcadas por regiões ao longo do conflito.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL é um livro que considero de entrada, faz menções de data importantes sem se aprofundar muito. Talvez seja interessante sua leitura fazendo uso da análise em outras fontes, quando forem citadas na obra. Há eloquência admiração pelo lado dos aliados e total desprezo pelas nações do eixo, mas como disse Nelson Garrone: “todo jornalismo é parcial...”, leitura fácil e ágil. Recomendado aos iniciantes.

NOTA: 6

sábado, 28 de agosto de 2021

RESENHA DE LIVRO – COMO MORREM OS POBRES E OUTROS ENSAIOS

É difícil elaborar uma resenha minimamente decente de qualquer uma das obras de George Orwell, primeiro porque a enormidade do escritor já causa intimidação imediata. Outro entrave é que sabemos que gente muito boa já esmiuçou a literatura do cara; intelectuais altamente sensíveis souberam analisar seus textos com profundidade. O que um bosta, feito eu, pensa que está fazendo com essa meia dúzia de parágrafos rasos?

Eu tenho explicação: é que tudo o que escrevo aqui no blog, tem mais serventia para mim mesmo do que a qualquer outra pessoa. Minhas resenhas não possuem a pretensão de mapear um trabalho literário, mas registrar algumas de minhas impressões à cerca da leitura, que após alguns anos, certamente não me lembrarei..., sim, eu costumo retornar para as resenhas quando me esqueço do que senti ao ler determinado livro. E como releituras são incomuns em minha rotina (porque eu tenho muita coisa pra ler e o ritmo do tempo parece ter perdido o freio), ler minhas resenhas costuma resgatar alguns insights da obra.

George Orwell é detentor de um elemento que só fui descobrir nesta segunda incursão que fiz em seu universo: o cara é genial pela simplicidade com que se expressa. Partidário da escrita rudimentar, Orwell é especialista em linguagem acessível, coisa que ele defende num dos capítulos destes ensaios, o que o torna sublime é o grande pecado da maioria dos grandes intelectuais: a singeleza.

Os textos aqui reunidos impressionam pela crueza e atualidade. O autor tece um estilo incomum de intelectualidade honesta que agrada demais e faz parecer que a coisa foi desenvolvida para algum tabloide contemporâneo, e que Orwell está por aí, destilando suas críticas sobre o mundo de hoje (é fabuloso verificar o quanto suas opiniões parecem extraídas de um período ainda em curso).

COMO MORREM OS POBRES E OUTROS ENSAIOS reúne relatos e reflexões do autor sobre vários assuntos e impressões extraídas na prática por esse importante nome da literatura mundial. E concorde ou não com Orwell, uma coisa precisa ser levada em consideração: o cara vivenciou aquilo que escreveu. Foi soldado, lavrador, presidiário, morador de rua, soldado, jornalista e, claro, escritor.

Alguns ensaios são comoventes pelas memórias vívidas, outros entram na parcialidade política e há alguns textos mais analíticos que exploram o desenvolvimento de literatura, praticamente tudo relatado de modo a escapar da linguagem técnica. Aqui quase tudo é exibido de forma íntegra e vistosa. Muitas vezes até parece uma sutil tentativa em fazer o leitor acreditar que ele também pode desenvolver algo digno de um verdadeiro pensador.

Suas crenças, preferências e até mesmo seus preconceitos estão expostos aqui de maneira simplificada e fidedigna, sem nenhum receio de dizer o que se pensa; Orwell é um homem antes de ser escritor..., e isso está explicitamente narrado em cada parágrafo deste livro (imagino que em toda sua obra).

“A Covardia Intelectual é o pior inimigo” é o meu capítulo favorito, talvez porque o autor discorra sobre os maneirismos da literatura, liberdade de imprensa e outros assuntos relacionados ao universo dos livros. E como não poderia ser diferente, é óbvio que um livro que se propõe a falar de diversos assuntos, acaba fazendo com que alguns temas sejam apreciados e outros nem tanto.

COMO MORREM OS POBRES E OUTROS ENSAIOS é um livro para ser relido muitas vezes (às vezes me deprimo com minhas próprias sugestões), pela atualidade do conteúdo, pela aula grátis que exibe o quanto a linguagem simples pode ser extraordinária, e claro, porque é George Orwell..., o nome no alto da página já garante o conteúdo.

NOTA: 8,3

domingo, 22 de agosto de 2021

HOMENAGEM - CENTENÁRIO DE COLATINA


Certa vez, escutei um visitante de outro Estado comentar que Colatina é uma cidade vertical, referindo-se aos muitos morros onde se sustentam grande parte dos bairros do município. Teria sido um comentário despretensioso, mas notei certo tom de escárnio naquelas palavras. Então, fiz o que somente um cidadão colatinense sabe fazer nessas horas: defendi nossa querida Princesa do Norte.

Sempre se enxerga algo de baixo pra cima quando se está em reverência”, foi o que disse em resposta, ao que ele não entendeu de imediato. Mas o escopo que gostaria de atentar aqui é para o instinto natural de todo cidadão colatinense: essa obrigação inerente de correr em defesa de nossa cidade, como se ela fosse algo sagrado; precioso demais para ser menosprezado por gente que não é daqui e, portanto, desconhece a magia. O colatinense até faz lá suas críticas e reclamações de Colatina, talvez por achar que sua condição de filho legitima o argumento. Porém, instintivamente algo azedo desperta em seu ser, sempre que alguém de outro lugar diz algo ofensivo sobre nossa singela cidade.

Quem me conhece salientaria que não sou natural da cidade e, portanto, não saberia como expressar sentimentos genuínos sobre a cidade. Contudo, vim com minha família muito cedo e, ainda jovem, já me sentia acometido pelo mesmo sentimento daqueles que nasceram nestas terras: a sensação de filho acolhido, que não se conforma com ofensas direcionadas à nossa mãe querida. Não por acaso Colatina foi batizada por nome feminino; pois como genitora que ampara seus filhos, estes mesmos zelam e a elevam à condição de natureza sagrada.

Antes de ser finalmente adotado por este solo amoroso, eu olhava para Colatina com certa desconfiança. A cidade, em minhas impressões de garoto, era um misto de mistério arcaico e vigor contemporâneo. O antigo parecia fundir-se ao novo como se fosse um encaixe preciso que jamais vi noutro lugar; a simplicidade dos moradores, a naturalidade na maneira de interagir, a convivência diária encarada de modo recíproco; em Colatina as pessoas discutem os problemas da cidade com seriedade e em qualquer canto, nos bares, nas igrejas, nos pontos de ônibus, nas filas dos supermercados..., agem como se fossem pequenas células de um enorme corpo em constante desenvolvimento. Querem criar, fazer! O colatinense se sente peça de uma máquina, onde cada pecinha é vital para o bom funcionamento. Sim, Colatina é como um grande mecanismo evolutivo, cujo suor do seu povo lutador lubrifica suas articulações.

Confesso que muitas vezes me senti como o estranho no ninho, pelos olhares de desconfiança sobre minha inexpressiva presença. Não que eu tivesse uma aparência nociva, mas talvez os colatinenses apenas quisessem se certificar de que eu não seria uma possibilidade de abalo da serenidade coletiva... Sim, os colatinenses são cabreiros demais.

Demorou para que eu me sentisse em casa. Foi preciso que saísse da cidade, como disse o escritor José Saramago “é preciso sair da ilha para ver a ilha”. E ao retornar de uma viagem longa, adentrar as imediações de Colatina causou em meu ser, pela primeira vez na vida, aquela sensação de estar chegando num lugar em que sou parte. Sabe quando você chega em casa, cansado, tira os sapatos e afunda no sofá? É mais ou menos como me sinto quando estou chegando de algum lugar, atravesso a pequena Baunilha e logo avisto a imponência da segunda ponte cortando o nosso Rio Doce.

Por falar em Rio Doce, notou como nós, os colatinenses, gostamos de reivindicá-lo como nosso rio? Pois é; isso meio que é parte da gente daqui, sabe..., o Rio Doce possui um total de 888 km de percurso, sua bacia corta exatos 228 municípios, e o colatinense continua com o velho e disparatado hábito de dizer que esse gigante é nosso. Vez ou outra, o Rio se enfurece, invade a cidade e parece querer reclamar de volta um tanto de suas margens estreitadas pelo desenvolvimento urbano..., mas se quer minha humilde opinião, acho que Colatina é terna demais e até o imponente Rio Doce, não contentando-se em apenas percorrer passivamente, adentra as imediações da cidade, implorando por um abraço.

Cristo também é daqui, sabia? Com seus braços abertos, é a máxima representação da mãe Colatina. Ok, o Rio de Janeiro pode até ter o Cristo mais famoso. Mas aquele lá me parece simbólico demais, inalcançável demais... O Cristo aqui é acessível e simpático e exala a mesma ternura da cidade.

Colatina é simples de se entender; é leitura desobstruída, é silêncio visual agradável, é cheirinho de janta recém-preparada. Colatina tem alma, é mais que perceptível; sua essência está em todos os lugares. Colatina é aconchegante, é afável, permissiva e exala calor..., nossa! E como faz calor!

Mas talvez seja esse calor excessivo o preço a se pagar por termos o segundo pôr do Sol mais lindo do mundo. Um segredo: isso é uma enorme falsa humidade do colatinense. Porque ninguém sabe onde fica o primeiro pôr do Sol mais lindo do mundo, pode sair pela cidade perguntando a qualquer um. De modo que isso faz do nosso pôr do Sol, o mais esplendoroso de todos!

E não ouse contrariar o colatinense. Tenho dito!

sábado, 21 de agosto de 2021

CRÔNICA – JUSTIFICATIVA PARA MIM MESMO

Foi no dia 28 de maio minha última postagem aqui no blog. E embora isso não pareça tanto tempo, esse foi o maior período em que fiquei sem postar nada.

Foi uma fase difícil? Bom, estamos no meio de uma pandemia o que já torna válida essa hipótese. Mas também estou em tempos de muito trabalho em casa e fora, de transformações estruturais as quais interferiram na vida literária de um modo geral. E interferir significa interromper mesmo. A única coisa que tentei manter sempre em dia foi a leitura.

Tratou-se de uma pausa necessária, eu fiz escolhas, precisava ajudar na recomposição do lar, minha esposa careceu de mim e tentei ser menos escritor e mais um alicerce com o qual ela pudesse contar nessa hora difícil. Claro, a pandemia também colaborou muito elevando o tédio e o desinteresse em produzir..., mas isso não conta como explicação.

Mas enfim, explicação para o que?

Não é a primeira vez em que entraves ocorrem, e infelizmente não será a última. Porém, ao longo desses dez anos de existência do blog eu sempre tentei manter ao menos uma ou duas postagens por mês. Jamais havia ficado mais de trinta dias sem postar nada.

Medida de tempo não é comparado ao período, propriamente, porque isso não significa nada, mas a alienação daquilo que era importante quando estabeleci que iria parar de escrever em espaços de internet dedicados a escritores amadores, e focaria meu trabalho em espaço autônomo no qual visitaria quem se interessasse pelo conteúdo, em vez de gente buscando seduzir por meio de visitas vazias, situação que ocorre a todo instante em redes sociais feitas para escritores.

Meu blog sempre foi como um alívio pessoal; um lugar só meu em que posso expressar minhas opiniões nem um pouco técnicas e transgressoras para além de minha precária capacidade de análise literária. Aqui eu relato os meus achismos levianos, o que senti enquanto lia, as particularidades nem um pouco versadas sobre as impressões que tive de alguma leitura recente. Tanto é assim, que há muito não resenho livros que não despertaram a vontade de falar dele. No começo desse espaço, algumas resenhas foram contempladas pela mera vaidade em mostrar para os visitantes que eu era leitor de valores intelectuais consagrados. Hoje consegui me livrar dessa futilidade neurótica; resenho somente aquilo que sinto vontade de relatar.

O Dimensão Reluzente se tornou um espaço de independência; maior liberdade do que essa é difícil existir, de ser autônomo das amarras externas e também internas. No meu cantinho posso ser ousado ou tímido; posso ser prolixo ou sucinto; posso ser cordato ou ranzinza..., aqui no meu blog eu posso ser.

Então eu reitero a pergunta: toda essa explicação é para que? Permita-me, uma vez mais, ser esse falso profundo e falar sobre a escrita.

Foi Rainer Maria Rilke quem disse que “se fomos capazes de viver sem escrever, é melhor que o façamos”. Entendo que ele estava se referindo à uma necessidade inerente de se produzir conteúdo escrito; escrever para algumas pessoas é uma necessidade de externar-se; colocar no papel (tela) sentimentos, impressões, rancores, amores, mágoas, solidões... E apesar de que algumas vezes me sinto assim, ansioso de vontade de ligar o notebook e abrir o editor de texto, isso não me ocorre o tempo inteiro. Mas compreendo Rilke e sei que a vida seria menos agradável se por algum motivo eu não pudesse mais escrever.

No entanto, acho que vai muito além disso. Talvez num mundo capitalista onde só existe espaço para competição, a escrita seja o único espaço onde posso deixar de ser coadjuvante e me tornar o diretor; abandonar o lugar de criatura para assumir o lugar de criador. Aqui eu vou em busca de lugares impossíveis que jamais serão alcançados, mesmo assim, continuar buscando. Sensação de liberdade maior eu desconheço.

E não tem nada a ver com ser lido. Porque não funciona assim. Quem escreve esperando retorno de um público específico, anda de mãos dadas com a mediocridade. Isso não quer dizer que escrever de modo despretensioso seja garantidor de um texto acabado enxuto e belo..., não! Também seria hipocrisia de minha parte afirmar que não me importo, que receber o reconhecimento por algo escrito seja desprezível. Mas o grande trabalho não nasce da necessidade de retorno externo, e sim da manifestação de uma subjetividade intrínseca; a expressão da sensibilidade do autor, que é diferente em cada um e invariável em sua essência de querer ser eterna.

A literatura é a arte de produzir eternamente por meio de versos e prosas; um polimento que não tem fim, mas que com o tempo e a prática, torna-se cada vez mais reluzente.

Enfim, essa é a justificativa para mim mesmo. E se você leu este texto até aqui, acabou de se deparar com um pedacinho do meu inferno, a minha angústia infinita. Escrevo para não ser lido, mas gostaria de ser. Não mereço o tempo de leitura de ninguém, mas adoraria ser causa de seu tempo gasto. Não quero a glória, mas se ela vier como consequência vai ser demais! De tempos em tempos continuarei aparecendo e sumindo, a vida é mesmo uma senoide doida..., e é por isso que nos apegamos tanto a ela.

Sim, senhor Rilke, eu consigo viver sem escrever. Mas esse negócio é tão legal, que não da vontade de parar. E vez ou outra a gente para, só para sentir novamente aquele gostinho adocicado da vontade se acumulando dentro de nós.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

RESENHA DE LIVRO – A MENINA DE CÁ

Passeando através da vastidão da literatura nacional, deparo-me com este agradável volume, cujo título parafraseia um conto de Guimarães Rosa. A Menina de Cá, compilação de contos do escritor e vencedor do prêmio Jabuti Carlos Nascimento Silva, é uma leitura que norteia o olhar feminino.

A singularidade narrativa do escopo feminino é intensa em quase todos os contos deste volume. Diversificados em essência, eles agradam em proporções distintas, o autor é muito bom em variar. Livros de contos, quando escritos por autores que detém visão multifacetada, faz com que a experiência da leitura seja um agradável passeio pelo imprevisível, o que pode não agradar os leitores mais conservadores e que curtem aquele escopo narrativo característico que lhes agrade.

Eu, particularmente, gosto de me deparar com o diferente, muito embora confesse que, inevitavelmente, isso torne o prazer da leitura oscilante, o que não significa que o livro seja pior do que aqueles que seguem uma única linha narrativa. No caso deste A MENINA DE CÁ, alguns contos me fizeram desacelerar (quem conhece minhas resenhas, sabe o que isso significa), outros perderam-me como leitor. No entanto, o conjunto da obra aqui é um livro de contos agradável, direto e lúcido.

Dois contos valem destaque, pois os considerei o ponto alto da coletânea: Contraponto no Samba, curiosamente um dos poucos textos cujo o olhar em terceira pessoa, permeia o personagem masculino, porém, segue com a força dominante proporcionada pela presença feminina; a personagem Leila desestrutura os intentos do namorado que arquiteta um plano para passar o feriado de carnaval longe da amada. O outro conto é o que dá nome ao livro; A Menina de Cá é uma deliciosa leitura que faz referência ao conto famoso de Guimarães Rosa.

Dois aspectos me incomodaram em alguns momentos: o autor segue uma narrativa que, apesar de polida, não consegue se desprender de certo viés higienizado que fez transparecer o receio de adentrar impressões mais críveis do ser humano. Outro probleminha, este menos perceptível, é que alguns contos pareciam textos fragmentados, onde algo do anterior me pareceu dar sequência ao próximo, como se eu estivesse lendo um livro que fora arrancado algumas páginas.

A MENINA DE CÁ é uma obra aprazível, de contos distintos e um autor que acertou em cheio em nos colocar perto de mulheres tão sedutoras. Derrapa um pouco na sobriedade linguística, mas isso não chega a prejudicar a leitura.

NOTA: 6,5

sábado, 22 de maio de 2021

RESENHA DE LIVRO – QUADRONDO

 

Coragem talvez seja o elemento essencial para que possamos desapegar de uma existência materialmente suprida, porém, sem sentido, para ingressarmos numa mudança radical, cujas transformações atinjam o cerne do ser humano, tornando sua vida cheia de significado e sentido.

Esse é o tema central deste trabalho discreto do ótimo escritor DOMINGOS PELLEGRINI: a coragem de mudar para encontrar importância. Nossa sociedade moderna doutrina seus inseridos num perigoso esquema de conquistas por status e coisas, numa engrenagem ininterrupta que afasta o ser humano daquilo que lhe é mais necessário: a autenticidade de sua natureza.

Sebastião Terra é um professor experiente e escritor promissor, devidamente inserido no universo acadêmico, mas que, apesar de a vida remar no sentido da prosperidade (pelo menos do ponto de vista social), ele se vê cada vez mais entediado com os horizontes alcançados e o universo que o cerca. Então, enche-se do elemento o qual mencionei nesta resenha: coragem, e parte para uma ilha remota, cuja população parece incrivelmente primitiva, para começar a vida do zero. E como ele redescobre essa vida!

Já no início dessa mudança, Sebastião encontra o amor, precisamente como tal sentimento nasce, de modo inesperado e pelo ser improvável, que instigará nosso protagonista a lidar com suas inflexões descabidas e se livrar de conceitos estabelecidos, caso queira gozar desse romance. O lugar também é o convite ao desenvolvimento como ser humano; da precariedade de uma comunidade a qual deseja fazer parte, Sebastião precisa arregaçar as mangas, colocar-se na condição de voluntário, sair de sua zona de conforto intelectual e teórica, para entrar na existência vivida de movimento, cujas ações é o que, de fato, realiza sua alma adormecida há tempos.

O livro é dividido em duas partes; a primeira nos mostra um pouco da vida do professor entediado; que demonstra o enfado e percebe a alienação coletiva de uma sociedade que lhe soa cada vez mais estranha. Divorciado, sem grande perspectiva, o personagem se enxerga apenas como mais um intelectual medíocre, cujo único propósito que o faz seguir em frente é uma teoria filosófica que é um misto de curiosidade e escarnio. Sebastião quer compreender sua teoria, contudo, ele conclui que no lugar onde está não conseguirá adquirir conteúdo.

A segunda parte conta a transformação; um mundo novo e tomado de desafios inéditos e primitivos, os quais o protagonista entra de cabeça, vai desatando os nós e, conforme avança, torna-se parte desse novo universo. O mais truncado deles é justamente o novo relacionamento afetivo, mas infelizmente achei que o autor explorou pouco esse aspecto.

A narração prolixa incomodou um pouco, principalmente no final. O personagem, que é quem nos conta a história, possui um ponto de vista documental demais e pouco imersivo. Há momentos em que se estende muito para contar algo simples ou desnecessário, e a conclusão da obra é um pouco cansativa, dadas as muitas voltas que a trama segue.

QUADRONDO é um livro simpático, que tem como potencial a narrativa, que é marca de seu criador, mas talvez pudesse ter enxugado alguns instantes enfadonhos. Caberia uma exploração um pouco maior dos sentimentos de seu personagem principal, porém, isso não chega a estragar a obra como entretenimento.

NOTA: 7,1

sábado, 17 de abril de 2021

CRÔNICA: SANIDADE COMO EXCEÇÃO

O Ministério da Saúde recomenda (Ministério da Saúde, o que é isso?): a dose ideal de harmonia diária consiste no ato de estabelecer uma boa conversa com alguma pessoa lúcida.

O problema que costumeiramente ocorre é que essa tal lucidez não é muito fácil de se encontrar atualmente e, em geral, ocorre das mais inusitadas formas. Portanto, nem sempre estamos com o radar atento para diferenciar diamante de bijuteria. Falta-nos lucidez?

Ao me deparar com um aviso de tentativa de entrega, procurei pelo agende dos Correios, cujo tradicional veículo amarelo se encontrava estacionado em frente ao escritório onde trabalho, de modo que mostrei a ele o comunicado deixado na caixa de correspondências. Foi um ato certeiro, pois minha encomenda ainda se encontrava em sua posse.

Por medidas de segurança o funcionário pediu documento de identificação e, perante a impossibilidade de verificar meu rosto parcialmente coberto pela máscara (nossa indispensável indumentária nesses tempos de pandemia), pediu que eu a tirasse para comparar com a foto no documento. Nenhum problema! Baixei o sufocante adereço e ele pode constatar que, de fato, eu era mesmo o sujeito na foto em sua mão.

– Sabe, tem gente que vira o bicho quando eu peço para retirar a máscara – comentou ele, enquanto me indicava o local onde deveria assinar. Recusar-se a retirar a máscara nestes tempos de negacionismo seria quase como um ato subversivo, mas obviamente não era essa a razão da zanga coletiva a qual o entregador se referia.

– Eu viraria o bicho, caso você entregasse minha encomenda para alguém que não fosse eu – redargui, quase que automaticamente, vendo a obviedade do ato – Por que todo esse receio das pessoas em cumprir normas de segurança?

– Sei lá... – disse ele, pensativo, e coçou seu queixo igualmente encoberto – Acho que o brasileiro não sabe lidar com a desconfiança, mesmo sabendo que somos um povo excessivamente desconfiado.

Meu interminável preconceito achou aquela resposta sofisticada demais para vir de um entregador de correspondências. Por sorte, o assunto era desconfiança, e eu sou o sujeito mais desconfiado de meus próprios conceitos, principalmente aqueles que são estabelecidos de modo automático..., afinal, pessoas lúcidas podem estar por toda parte e em qualquer lugar. Sabedoria não é coisa exclusiva de guru. Sabedoria é coisa de ser humano, e o ser humano é que nem barata: pode ser encontrado em todo canto.

– Talvez não seja uma questão de nacionalidade – falei, em defesas de nós, cismados brasileiros – Desconfiança faz parte da natureza humana.

– Só posso falar pelos brasileiros... – reforçou o entregador – e nós desconfiamos demais porque bem sabemos que quando não estamos sob forte vigilância, enfiamos os dois pés na jaca.

A metáfora da jaca me fez pensar sobre a última vez em que entrei de sola no fruto desprotegido. Não me ocorreu nenhuma lembrança terrível... Seria essa escassez de “aventura” a explicação para o meu tédio recente? Percebi que só de pensar em transgredir, meu corpo já sentiu aquele frio na barriga, típico de quem rompe sistemas em nome da individualidade. A gente vive a tanto tempo acorrentado que atualmente enfiar o pé na jaca já nem é por mero desejo pela fruta, mas a busca inerente pela fuga das amarras.

– Você costuma ser assim? – minha incapacidade argumentativa fez com que eu transferisse a pergunta para o entregador. Mas não cessava de repeti-la, mentalmente, a mim mesmo – Tipo, se comportar de forma imoral quando tem a chance?

– Muitas vezes... – respondeu ele, sem sequer corar o rosto ou refletir a respeito – Mas a questão não é essa.

– E qual seria?

– A pergunta é: Por que nós consideramos mais fácil conviver com a normatização da imoralidade?

Uau! Perguntas com o poder de despertar reflexão são raras. Eu teria salientado que ele está na profissão errada, ou ao menos convidado aquele sujeito intrigado com a natureza humana para um café, onde poderíamos seguir com aquela introspectiva prosa. Mas o cara parecia aflito com tantas entregas para fazer em curto prazo. Porém, antes deixar que escapasse, quis dar-lhe algo simplório, que não deixasse transparecer minha completa incapacidade em resolver o encalombado dilema:

– Farinha pouca, meu pirão primeiro... é o que todos dizem, certo?

– Pode ser... Só que tem gente por aí com o pirão prontinho e mesmo assim não abre mão de ser antiético em momento algum. Parece que esperteza virou sinônimo de força, enquanto honestidade é coisa de gente fraca.

O cara dos Correios foi embora com os braços abarrotados de caixas endereçadas. E eu permaneci ali, parado, ao lado do veículo amarelo, a mente também amarela e revirada, sustentando uma única certeza: a de que eu não fazia ideia da razão de sermos tão idiotas na convivência diária uns com os outros.

Seríamos todos essencialmente cruéis? É saudável viver nosso cotidiano sob a insígnia da competitividade continuada? O mundo está mais apertado ou nós estamos mais espaçosos? Confiança é um comportamento inadequado? Tornamo-nos elos inseparáveis de uma extensa corrente do mal?

O aclamado escritor americano Mark Twain lança ainda mais incerteza sobre esse assunto. Ele diz: “De que adianta aprender a fazer o certo, quando é problemático fazer o certo, não é difícil fazer o errado, e o salário é o mesmo?”.

Apesar de parecer insinuar por meio de uma questão, o escritor sugere que pensemos sobre a problemática situacional, que a nós parece óbvio: somos constantemente tentados a fazer algo errado em benefício próprio. Principalmente após aquela breve análise mental, cujo veredito quase sempre define como inofensivo e irrelevante, nosso ato transgressor. E assim, seguimos com esse ciclo vicioso de ruir com a convivência social, discretamente e aos poucos, como fazem os vírus nocivos ao invadir um novo hospedeiro.

Às vezes penso exatamente igual a antropóloga Lilia Schwarcz: sou pessimista no atacado e otimista no varejo. E na contra mão da inevitável descrença no ser humano, desconfio de que a imoralidade, embora desproporcional, é mais barulhenta do que extensa, portanto, soa como presença constante. Já a gentileza é tímida e sutil; de circunstâncias difundidas e, por isso, quase imperceptível. O gentil não fala de sua gentileza, enquanto o canalha adora narrar suas transgressões e geralmente recebe aplausos por elas.

Mas se trata de apenas dúvidas intermináveis, que talvez amanhã eu tenha sorte de encontra outra dose de lucidez que me ajude a pensar sobre a complexidade da vida... Afinal, tem gente incrível por aí, perdidos no meio do caos, entregando nossa correspondência, dirigindo carros, enfurnados em escritórios fóbicos, limpando a sujeira coletiva, se divertindo em bares, escrevendo alguma bobagem, fazendo cálculos complexos, caminhando pelo calçadão, cuidando de algo ou de alguém... A boa e velha magia do ineditismo do mundo.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

RESENHA DE LIVRO – SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO

 

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.

Essa frase de George Santayana, deveria soar para a nação brasileira como um alerta para o que está acontecendo em nosso país, e talvez sobre a égide desse prenúncio agourento, não permitirmos que lideranças populistas tentem reinventar o passado do Brasil, transformando atos hediondos, irresponsáveis e traumáticos de nossa história em razoabilidade patriótica. Apossar-se da memória de um povo é submeter este mesmo povo à um eterno retorno de desgraças.

A grande premissa por trás dessa excelente obra da antropóloga Lilia Schwarcz, é trazer à tona temas aparentemente escondidos ou disfarçados da sociedade brasileira, justamente para que o público leigo reflita sobre nossos problemas com o enfoque no cerne da enfermidade, sem se deixar seduzir por caminhos fáceis e soluções milagrosas. A autora aqui nos convida a uma verdadeira terapia social.

Não me excluo desse meio que precisa desenvolver melhor o pensar e, portanto, antecipei a leitura desse livro por conta do atual momento em que estamos vivendo; um cenário onde a sociedade brasileira parece fadada a um futuro desesperançoso. SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO é uma obra pra ser lida agora, por todos nós, quase em caráter de urgência.

Sim, precisamente o livro é premente, pois sua premissa é tentar explicar, de um modo introdutório, quais foram as mazelas que resultaram na ascensão dessa nova direita extremamente autoritária e populista. Mas então seria o autoritarismo, incutido no título da obra, algo exclusivo de uma parcela de nossa sociedade? Em outras palavras, o viés extremista é aspecto exclusivo desse pensamento direitista?

É o que Lilia Schwarcz através de uma linguagem simples e acessível procura nos mostrar: o autoritarismo brasileiro não é elemento de determinado grupo, ou de meia dúzia de pessoas sem caráter. Não. O autoritarismo é resultado de um país que ainda se sustenta em bases apodrecidas dos tempos de colonialismo, onde imperava um sistema latifundiário patriarcal, escravocrata e misógino, onde a figura central, que alimenta e carece da continuidade expressiva de desigualdade social, era e ainda é a figura do “mito”, do salvador da pátria.

A concentração de poder, dentro da instância pública, tornou nosso sistema político inchado, refém de um clientelismo quase que inerente e que nunca deixou de existir. Os entraves desse “jeitinho brasileiro” de ser, é apenas uma das muitas práticas que se repetem ainda em tempos atuais, de um povo que ainda sofre as consequências de um sistema escravocrata, cuja estrutura latifundiária expansiva reduz à um punhado as riquezas da nação.  

É um livro, sobretudo, que trata da permanência do nosso passado. Somos um povo explicitamente movidos pelo ressentimento por termos sidos colonizados, de termos mandonismos localizados, nossos governantes são formados ainda por coronelismo, ou seja, famílias que eram donas do poder nos tempos de Brasil colônia e a coisa parece seguir do mesmo modo; somos regidos por um sentimento patriarcal que nos soa normativo, mas que nos induz a acreditar em heróis de terno e gravata.

Alguns livros precisam ser indicados, não pelo mero prazer da leitura (aliás, muitos são laboriosos), mas pela obrigação que temos de elevar o conhecimento em prol de um mundo melhor. SOBRE O AUTORITARISMO BRASILEIRO é esse modelo de livro, pois me parece um tapa na cara de nossa hipocrisia. Chega de empurrar para debaixo do tapete a nossa sujeira de cinco séculos! Não dá mais para continuar ignorando este modelo de democracia dissimulada, cuja sordidez está tão enraizada, que consequências ainda mais graves estarão a nos esperar, se não abrirmos de uma vez nossos olhos turvos.

NOTA: 8

sábado, 27 de março de 2021

CRÔNICA: AMPULHETA

O café esfriou na caneca.

Café frio costuma ser indício de produtividade, pois quando se está focado no trabalho, a gente se esquece de degustar a preciosa bebida, enquanto ainda está quente. Mas a verdade não é exatamente essa. A produtividade é zero e eu apenas observo a tela do computador...

Outra vez vou até a cozinha e me desfaço do café no ralo da pia. Sirvo-me de um pouco mais da garrafa, que desce quentinho e esfumaçado. De volta para o escritório, pois tenho muito trabalho a fazer. Meus pés descalços atravessam o corredor, posso sentir o frio do piso que me faz imaginar o dono de quiosque num litoral paradisíaco do Nordeste. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra, você deve estar pensando. Eu explico: é que igualmente a mim, o dono do quiosque também ostenta o privilégio de poder trabalhar descalço. E acredite no que digo: isso é a coisa mais deliciosa do mundo! Pés libertos da mordaça do couro, recebendo constante frescor do mármore ou a massagem da areia morna, é sofisticação pela qual o resto da humanidade que não faz parte desse restrito grupo, anseia e trabalha incessantemente para conseguir alguns dias assim: descalço sobre o mármore ou a areia.

Contudo, sei que não é prudente associar situações favoráveis à um labor invejável; com a expansão da comunicação entre povos do mundo inteiro, sei que está cheio de relatos de gente que se considera infeliz, mesmo tendo a carteira registrada no paraíso.

Ouvi dizer que primeiro se é feliz para depois ter sucesso. Mas o que ocorre no imaginário das pessoas é precisamente o contrário.

Outro dia li o relato de um morador do Hawaii que dizia que sua vida era um inferno. Ele era corretor de imóveis, trabalhava quatorze horas por dia, havia perdido a infância dos filhos, divorciado, precisava atender clientes até nos finais de semana e, por mais bizarro que pudesse parecer, o cara não pisava numa praia há mais de oito anos.

Testemunho semelhante foi o de um sujeito que queria morrer quando ouvia alguém o acusar de ter o melhor emprego do mundo. As pessoas costumam fazer muito isso: suscitar o remorso nos indivíduos inseridos naquilo que consideram como os melhores postos do mercado... Enfim, o cara era massagista, passava mais de quinze horas do seu dia passeando com os dedos besuntados de géis e óleos aromáticos, nos mais diferentes e apetecíveis corpos femininos. E o infeliz dizia que não aguentava mais isso; que seus braços viviam cheios de câimbras, os pulsos doíam ininterruptamente, ele não tinha tempo nem para almoçar, tamanho era a procura pelos seus serviços... Ou seja, suas clientes estavam sob seus cuidados para relaxar e aliviar as tensões. Ninguém procura um massagista para fazer sexo! “Trepar com o massagista é coisa de filme pornográfico de gosto duvidoso”, desabafava o indignado trabalhador... Aliás, sobre sexo, ele ainda alegou que não sabia o que era isso há quase um ano.

De volta ao computador, eu continuo a pensar no emprego dos outros, mas não tenho o disparate de invejar ninguém. Também não me atrevo a dizer que o meu trabalho é o melhor do mundo, embora este me possibilite alguns privilégios, como ficar descalço.

Diante de mim, o eterno anseio humano por controle me faz lembrar da hora.

Ao lado da tela vejo a areia terminar de escorrer. Três horas haviam se passado sem que eu conseguisse escrever sequer uma linha. Seguro o pequeno invólucro de vidro e o viro de ponta-cabeça. Mais três horas de areia escorrerão preguiçosamente e me farão confirmar a vida rendendo-se à procrastinação.

Estalos os nós dos dedos, torço o pescoço e este também estala. Encho os pulmões de ar e uma formiga passeia sobre o teclado. Inacreditável como toda forma de existência consegue roubar minha atenção... Eu espero até que a transeunte termine sua jornada através de letras, então os dedos tocam as teclas, acho que agora conseguirei produzir alguma coisa.

É quando ouço os badalos do sino da igreja.

Onze estocadas e cada uma delas compõem uma orquestra acusatória... Pra-zo! Pra-zo! Pra-zo! Estou praticamente no fim da manhã e não houve progresso nenhum de minha parte. Areia escorrendo, sino tocando... E conforme a ressonância do sino diminui, o ventilador de teto, com suas pás indolentes, volta a ser a frequência absoluta no recinto... Não vai rolar nada, eu sei que não!

Pego a caneca de café e vou pra janela.

Céu claro, muito sol e pouca sombra. Do outro lado da rua há um terreno baldio, onde um homem mal encarado despeja entulhos com um carrinho de mão. Menos de um ano e ali era apenas uma extensão quadrangular tomada por mato rasteiro e alguns pés de mamona. Então, num belo dia, alguém teve a ideia de se desfazer de algumas sobras de materiais de construção, porque sairia mais barato se livrar do problema num terreno baldio do que contratando o serviço de coleta de entulho. Passado alguns dias e outro cidadão resolveu fazer o mesmo, afinal, se o vizinho pode, ele também pode; e depois um serralheiro concluiu que ninguém iria notar se ele desfizesse do amontoado de pó de serra que se acumulava em sua oficina, e também uma dona de casa que não sabia mais o que fazer com o fogão velho... Atualmente a prefeitura precisa mandar, quando o acúmulo da imundice alcança proporções vexaminosas, um trator e uma caçamba pra limpar o terreno... Porque o ser humano é assim: precisa apenas que alguém inicie a imoralidade que já existe dentro de sua natureza e, desse modo, fica justificada a execução do ato imoral de todos.

No centro da gigantesca pilha de lixo, há um mastro imponente e tão enraizado ao cenário, que se tornara completamente ignorado por todos. Na ponta do mastro a placa feita de papelão com os dizeres “proibido jogar lixo”, servia de poleiro para os únicos visitantes que pareciam se divertir naquele lugar: urubus que vez ou outra apareciam para reivindicar algum ensopado que ficou tempo demais fora da geladeira ou alguma criação que, desmerecedora de um funeral adequado, tinha seus restos descartados no terreno baldio.

O homem do carrinho de mão deu meia volta e, enquanto retornava ao ponto de origem dos entulhos, olhou-me com o orgulho de um genuíno cidadão de bem, pagador de impostos e exemplo de boa conduta. Cumprimentou-me e seguiu seu caminho cantarolando alguma canção sertaneja.

Às vezes suspeito de que o mundo é apenas o que a visão alcança. Como se eu fosse um expectador de teatro, no qual a vida acontece enquanto algo está no palco. Quando os atores saem de cena, eles são devolvidos para dentro de uma caixa cheia de outros personagens, objetos e cenários. Então o diretor de cena escolhe outro boneco para entrar no palco, porque o show não pode parar...

Mas quem seria esse diretor de cena? Um alienígena super dotado? Seria Deus? Por que ele insiste com essa arte dramática e sonolenta, onde nada relatável acontece? Definitivamente, o mundo é um lugar muito mais ordinário do que a imaginação humana gostaria que fosse.

Caneca vazia, minhas pernas reclamam, pois se cansaram de sustentar meu tronco obeso. Viro-me e olho para dentro do quarto. Lá está a areia que escorre sem cessar. Metade do vidro e eu a ignoro completamente. Cotovelos! Escorados, sustentam parte do meu peso e colaboram com as pernas cansadas. Quero ficar mais um pouco assistindo o teatro da vida.

Percebo que mais alguém acompanha a frivolidade mundana. Minha vizinha, Judite, parecendo ainda mais entediada do que eu, cotovelos igualmente apoiados no parapeito, ela fuma um cigarro e espera para ver o que o diretor de cena vai fazer agora. Então entra no próximo ato um cachorro magro de doença, verificando cada canto do terreno baldio com seu focinho hiperativo. Seu faro infalível o conduz até algumas sacolas, as quais ele rasga e retira restos de alimentos e os engole com fúria... Antes de seguir caminho, ele se encurva, bem no centro do palco e capricha numa cagada bege e cremosa.

Judite amassa a guimba no parapeito e desaparece da janela. Testemunhar um cachorro resolvendo suas necessidades fisiológicas foi demais pra ela. De fato, o diretor de cena parece ter um péssimo gosto para artes. Ou isso, ou a coisa é surpreendentemente orgânica que até Judite considerou fazer um cocozinho.

Ela é mãe de duas meninas adolescentes. Trabalha fazendo faxina para sustentar a casa e vende salgado frito nos fins de semana para complementar o orçamento. Cada uma das gurias é filha de um sujeito diferente. Ambos foram embora e, ao que parece, Judite se cansou de procurar por um companheiro e pendurou a chuteira... Eu nunca vi nenhum dos cabras, só escuto os resmungos da Judite quando ela está a varrer a calçada e coincide com minha tarefa de pendurar as roupas no varal.

Teve uma vez em que ela me convidou para o aniversário de uma das meninas, acho que foi a mais nova. Era festinha de treze anos, a casa ficou empesteada de moleques, teve bolo, refrigerante e os salgados fritos que a Judite faz... Eu e ela éramos os únicos adultos a nos refugiar na cozinha, tomando vodca com Coca-Cola, escorados na lateral da pia encardida.

Entre uma conversa e outra, Judite perguntou se eu gostaria de levá-la à um motel. Minha expressão de surpresa fez com que ela providenciasse uma explicação: disse que ali na casa dela não dava pra fazer amor por causa das filhas.

Achei o convite inesperado e fiquei sem reação. Não estávamos altos, pelo menos eu não estava e percebi que ela beberica vagarosamente. À menos que estivesse bebendo antes do início da festa, Judite não estava de fogo. Também nunca tinha cantado minha vizinha nem nada, sequer falávamos sobre assuntos íntimos, o respeito era tão acentuado em nossas interações, que mais se parecia com uma conversa entre um eunuco e uma assexuada.

Sorvi um pouco mais do meu copo, não sabendo pra onde olhar, mas me ensinaram que nessas horas jamais se deve olhar para o chão, porque é sinal de clausura. Então eu olhava para todos os lados e pra cima, procurando me situar no imediatismo da situação... Terminei dizendo que toparia, mais por não saber o que responder do que entusiasmo.

Outro aspecto curioso é que não havia nenhuma sensualidade no clima, ali naquela cozinha cheia de vasilhas sujas, cheiro de banha queimada, glacê e anilina. Apenas dois adultos diante de uma trivialidade descabida: o sexo é um elemento quebradiço que precisa ser conduzido de modo concupiscente desde sua proposta até o ato final, tudo em nome do prazer. Mas quando levei essa ideia para um papo de bar com um colega, ele não hesitou em dizer que sexo é algo superestimado pelas pessoas.

Talvez meu colega e Judite pensem de maneira semelhante: por que gastar tempo e sofisticação em algo cuja obviedade parece soar mais eficiente? Se há duas pessoas solteiras, avizinhadas pela circunstância, nada mais natural que elas façam sexo; tão natural quanto macacos bonobos que dividem a mesma árvore.

Finalmente olhei para Judite e, pela primeira vez, tentei enxergar em sua existência, aquilo que jamais houvera me ocorrido: algo a ser desejado, embora eu imaginasse que isso também não fizesse muita diferença, dado o pragmatismo do convite feito há pouco.

Mas era necessário, pois há muito tempo que eu perdera a confiança numa ereção garantida.

Assim como eu, o tempo havia exigido muito dela; um cansaço intenso em seus modos, rugas por toda parte de sua epiderme oleosa, a flacidez cujas vestimentas folgadas já não conseguiam esconder. Judite sempre olhava através de meia pálpebra e quase não sorria, talvez pela consciência de seus dentes amarelados por conta dos longos anos como fumante ativa..., mas talvez o segredo para seguir com essa concepção orgânica de vida estivesse naquele seu jeito de olhar o mundo pela metade. Do contrário, Judite notaria a protuberância de meu abdômen, ou o enfado nas minhas feições. Se abrisse mais os olhos, veria minha barba mal feita e a verruga roxa no pescoço. Uma análise mais apurada de minha pessoa, faria com que notasse a sudorese excessiva, o sedentarismo progressivo e concluiria que um motel comigo seria uma péssima ideia.

Pode ser que ainda mais sugestivo do que a coincidência de dois vizinhos solteiros, seja a precariedade evidente nestes mesmos solteiros; seres que já não cabem na fantasia libidinosa de ninguém, então se identificam em sua escassez e fazem sexo por mera conveniência.

Lá fora o show da vida seguia com sua exibição enfadonha, uma criança corria com uma pipa, tentando fazer o objeto levantar voo. A caneca vazia e as pernas doloridas me convenceram a voltar ao computador. Outra vez os badalos de sino... Pra-zo!, pra-zo!

A areia escorrendo pelo funil do vidro, ritmada pelo sino ao longe, parecia descer com mais vigor agora, como se minha percepção do tempo anunciasse o que espera a todos nós: a finitude! E essa noção faz com que a areia escoe mais rápido.

Ampulheta deve ter sido a primeira pretensão humana de quantificar o tempo.