terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

RESENHA DE LIVRO – VIVÊNCIAS


Algumas leituras me causam deslocamento, um empurrão nem um pouco sutil para fora do lugar comum, e caio num espaço de reflexão interminável. Isso aconteceu quando tive minha primeira experiência na literatura de Hermann Hesse. O LOBO DA ESTEPE foi uma leitura subversiva ao mesmo tempo imersiva; foi um daqueles livros em que desejo voltar à suas páginas, mas sei que dificilmente isso acontecerá, porque tenho mais leituras por fazer do que tempo disponível. E diante desse cenário insolúvel de anseios improváveis, aguardava pela chance de obter outras obras de Hesse para seguir desbravando seu vasto universo. Não por escolha, mas por acaso, me deparei com este VIVÊNCIAS.

Pois a expectativa de uma leitura abundantemente introspectiva se desfez, o que não foi algo ruim. Surpreendi-me com um texto em primeira pessoa, leve e inteligível, quase uma conversa com o leitor. VIVÊNCIAS é um conjunto de textos cujo olhar independente do autor impera, de relatos triviais que convida o leitor a ler mais uma página. Um estilo bem distinto de sua obra mais famosa e que citei no início, onde o fluxo de consciência permeia todo seu conteúdo.

Aqui temos uma antologia de crônicas de Hesse, reunidas em tempos longínquos de sua vida; experiências pessoais que vão desde a juventude de Hesse até tempos mais maduros, quando o escritor alemão migrou para a Suíça. Um conteúdo de linguagem limpa e lúcida, de destaque para a notória sensibilidade contemplativa do autor.

Algumas crônicas trazem experiências de Hesse, as quais temos maior proximidade com os estímulos e suas conclusões. Há textos os quais cheguei a me familiarizar com a forma dele enxergar ao redor e a si mesmo. Hermann Hesse revela notória lucidez de suas limitações acerca da própria estrutura existencial, principalmente quando lida com mulheres, o escritor não esconde sua natureza introvertida e, ao mesmo tempo, indignada com o fracasso recorrente dessa condição.

Alguns textos possuem um olhar mais externo, de impressões adquiridas apenas pela observação ou pela condição de ouvinte, em que Hesse vai nos contar aquilo que ouviu de outras pessoas que passaram pela sua vida.

A lanterna espiritual do autor parece iluminar lugares lúgubres de sua mente e o que ele registra é exatamente aquilo que sentiu quando vivenciou. A composição é amplamente orgânica, sem nenhum receio de desnudar-se, dizer equívocos ou rir de si mesmo. Encontramo-nos a nós, limitados e imperfeitos seres, em vários pontos da obra.

VIVÊNCIAS foi uma leitura fluida, que apesar de completamente discrepante do modo narrativo destilado no LOBO DA ESTEPE, tratou-se de uma variação agradável; desconhecida faceta que fez com que se elevasse meu interesse em seguir explorando a literatura deste vencedor do Nobel de Literatura. Não sei se este serve como livro de entrada em razão dessa mesma inconsonância, mas vale como leitura pela alta sensibilidade, linguagem coloquial e honesta de Hesse.

NOTA: 8,2

sábado, 8 de janeiro de 2022

RESENHA DE LIVRO – O TIGRE BRANCO

Acho que a experiência de leitor e autonomia de espaço, são elementos que me tornam seletivo em relação aos livros que farei resenhas aqui no blog. Primeiro porque estou cada vez mais livre da neura mental que me obriga a falar sobre todos os livros que leio. Também porque não quero mais falar de livros que não mexem comigo. Para o bem ou para o mal, estou tentando compartilhar minhas impressões apenas das obras que causam, naturalmente, a vontade da falar sobre eles.

Algumas coincidências ocorreram quando da aquisição dessa agradável obra, que ganhou prêmios, prestígio e o cinema de streaming. Vale salientar que eu não fazia ideia de que se tratava de um livro cujo cenário é a Índia, nação a qual já li mais livros do que pretendi, a maioria deles vieram parar em minhas mãos de modo ocasional. Outro estímulo é que encontrei o livro em promoção, olhei rapidamente a sinopse e achei que valeria à pena para fechar a lista de compra. Geralmente demoro a ler novas aquisições, porque sempre tem muita coisa na fila, enquanto continuo comprando livros compulsivamente. Ou seja, quando finalmente resolvi encarar este O TIGRE BRANCO de Aravind Adiga, eis que o filme de mesmo nome desemboca como sucesso no canal de streaming Netflix.

E a leitura se mostrou uma agradável surpresa, até porque antes do início eu já me via com certa desconfiança, a começar pelo título da obra que me parecia estereotipado demais, embora a trama se antecipe e, de forma madura, explicita sua nomenclatura, dificilmente um título como esse me faria tirá-lo da prateleira. Enfim, o primeiro elemento elogiável da leitura já se manifestou no princípio: uma condução simples, fluida e agradável. Em poucos parágrafos o leitor já se vê completamente envolvido pela narrativa em primeira pessoa.

Nascido em região de extrema pobreza da Índia, o personagem narrador da trama nos conta, em forma de cartas que escreve para o excelentíssimo senhor primeiro ministro da China, Wen Jiabao, de viagem marcada para visitar a Índia, sua história de transformação em criatura rara que dá nome ao título da obra. O jovem Balram nada mais é do que um ordinário indiano vitimado pela desigualdade extrema que assola o país. Portanto, suas perspectivas são poucas. Então temos aqui a trajetória de um desprovido e desesperançado até sua evolução à espécie rara, cuja natalidade acontece em proporções quase que milagrosas; o livro quer nos mostrar a árdua forja de um simples homem num tigre branco.

Analogias à parte, a trama quase derrapa no lugar comum do personagem desprovido que, por sua própria astúcia, torna-se bem sucedido. No entanto, Aravind Adiga soube fugir do banal, introduzindo em sua obra um personagem que não carrega a capa de super-herói, muito menos faz uso de meios éticos quando resolve deixar o Tigre sair de dentro de sua insignificância. Veja que o mito do Tigre Branco faz referência a um modo de desenvolvimento como um todo. Ou seja, evolução não significa tornar-se um ser humano moralmente melhor..., evolução é uma palavra neutra.

Outro acerto fica por conta da linguagem textual, que pela estrutura e continuidade orgânica, aproxima o relato daquilo que ele, de fato, se propõe: estamos lendo uma carta informal para o primeiro ministro chines. Há momentos muito bons em que o narrador deixa claro o lugar pouco comum em que cresceu e que justifica sua percepção de mundo; também narra de forma eficiente conceitos distorcidos que se adquire ao longo de uma vida precária em contraste com gente bem sucedida, o veneno do empreendedorismo que exclui o discernimento e insere na mente das pessoas o sentimento de que tudo vale na selva capitalista. O nosso tigre branco destoa como um felino de excelência, mas não mede as consequências para tal.

A realidade precária de um país abandonado e desigual é relatada aqui na voz do personagem; ou seja, pouco se narra sobre os acontecimentos periódicos e quase não se fala da complexidade política de um país como a Índia. Se você é um autor em busca de maior contato com o desfecho sociológico ou a estrutura diversificada da nação indiana, este livro não lhe saciará. Aqui tudo é muito implícito ao olhar do narrador, o que não é ruim, pelo contrário, torna a trama interessante ao mesmo tempo em que foge da exposição situacional. Livros mais abrangentes como SHANTARAM ou O SÁRI VERMELHO são obras melhores acabadas no âmbito cultural e político da Índia.

Outro ponto que vale observação é sobre a evolução do personagem. O TIGRE BRANCO conta a história de seu protagonista, mas concentra-se apenas enquanto este não se torna o “produto” acabado; Balram revela sua vida apenas até o instante em que se torna o tigre branco do título. Depois disso, o livro parece apressado em chegar ao término, deixando a impressão de urgência ou incompletude nos instantes finais. Mas embora a história de um indivíduo desprovido de perspectivas seja um elemento infinitamente explorado na literatura, aqui a coisa parece não se concentrar meramente na evolução de um desamparado em empreendedor de sucesso. A trajetória de Balram denota que despudor e indiferença também são elementos fundamentais quando se vive sob o jugo de regras extremas de desigualdade capitalista.

O TIGRE BRANCO foi uma agradável descoberta, alívio literário por conta de sua linguagem simples e instigante, com uma história que, embora nem um pouco original, sabe entreter por meio de recursos narrativos eficientes. Agora que já apreciei o universo do autor Aravind Adiga, vou conferir a versão de sua obra para as telas..., recomendo este agradável livro.

NOTA: 7,5

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – BUFO & SPALLANZANI


O imperador filósofo Marco Aurélio dizia que o escritor não deve deixar passar nenhum dia sem que seja escrito ao menos uma linha. Comecei a fazer resenhas de livro como uma forma de manter o exercício da escrita, principalmente em tempos de pouca inspiração e muito tédio. O intuito nunca foi o de me proclamar um crítico de literatura, mas a exposição de um leitor apaixonado, que na ausência de companhia para falar sobre livros, criou este espaço para se expressar.

Rubem Fonseca é um dos escritores brasileiros que mais li e resenhei aqui no blog, e sabendo que não há mais nada para se dizer sobre sua excelente bibliografia, não tinha nenhuma pretensão em falar sobre este BUFO & SPALLANZANI. Contudo, após o término da leitura, achei que valia à pena dispender alguns parágrafos sobre ele, dado seu conteúdo um pouco diferente dos romances policiais convencionais.

Temos aqui a história de um assassinato, cuja suspeita de autoria cai sobre os ombros do amante da vítima e narrador da trama, Gustavo Flavio. Logo somos apresentados a outro personagem potencialmente suspeito: o marido. Também não demora a surgir uma confissão do crime, que propositalmente soa um tanto leviana e fora de contexto. Porém, apesar do aparente estilo clichê dos romances policiais, o livro não se prende ao mistério do assassinato, optando por uma condução, digamos, descontinuada de progressão, o que até pode incomodar alguns leitores.

O livro é dividido em cinco partes. A primeira parte é mais curta e introdutória, porém, de uma profundidade extraordinária, o livro já me ganhou de cara! Esse capítulo narra a morte da vítima e a relação do narrador com a finada amante. A segunda parte conta sobre os tempos de juventude do narrador. O capítulo é muito bom, a genialidade de Rubem praticamente nos faz esquecer de que estávamos acompanhando o misterioso assassinato. Já a terceira parte o ritmo parece diminuir e a trama fica menos interessante. Relata um refúgio no qual o narrador, que esqueci de mencionar, é escritor de literatura, este resolve passar um tempo dedicado ao desenvolvimento de sua nova obra intitulada Bufo & Spallanzani.

Na quarta parte voltamos aos acontecimentos com o assassinato que principiou a trama. Aqui novas revelações que até soam um pouco óbvias, mas necessárias para que se retome o interesse pelo ocorrido. O livro aqui se renova e ganha fôlego. Então, seguimos para a conclusiva quinta parte, descobrimos um mistério paralelo que se fez durante a terceira parte, e claro, descobrimos o mistério do assassinato central.

BUFO & SPALLANZANI é um livro que parece brincar (ou zombar) com o gênero romance policial. Tem personagens centrais interessantes, algo tão característico de Rubem Fonseca, alguns personagens menos apreciáveis, principalmente no terceiro ato, uma conclusão pouco impactante, mas que não decepciona.

Enfim, esta obra de Rubem, como na maioria de suas outras, é interessante, bem escrita e de personagens instigantes. Não foi minha leitura favorita do mestre Rubem, mas busca fugir do lugar comum dentro do gênero e, claro, por isso, torna-se uma obra singular. Marasmo é algo que simplesmente não existe nas obras de Rubem Fonseca.

NOTA: 7

sábado, 18 de dezembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – INFÂNCIA

Por razões que me escapam, Vidas Secas segue como obra que ainda não alcançou meu caminho de leituras. Graciliano Ramos continua, igualmente a outros gigantes da literatura nacional, uma grandiosidade assombrosa que intimida por seu pedestal alçado pela crítica erudita, mesmo que eu seja consciente de que a leitura de qualquer obra é uma experiência singular e distinta do escopo técnico e, portanto, nem um pouco opinativa. Careceria de mil anos para conhecer tudo de bom que a literatura mundial tem a oferecer; e é lamentável saber que não terei vida para desfrutar de tudo o que anseio ler.

A primeira porta que abri para o universo de Graciliano foi este INFÂNCIA, livro que mistura suas memórias primitivas com um tanto do desenvolvimento artístico do criador, recheado de elementos que denotam um propósito confessional seco, sem nenhuma pretensão ao eufemismo, tão comum nesse tipo de literatura.

INFÂNCIA se trata de uma narrativa das primeiras memórias do autor, construídas em capítulos curtos, com linguagem pouco cândida, mas vernizada por lirismos corteses. E embora a simplicidade do título ou a impressão que se tem de meras memórias de um passado longínquo, temos aqui uma obra que soa melhor como incursão autoanalítica mordaz e nem um pouco misericordiosa, quase um diário. É uma não criança falando da criança que um dia foi, sem a neutralidade da inocência, cujo cenário nordestino de pobreza, miséria e violência são quase palpáveis.

Temos aqui uma reunião de lembranças de tempos remotos misturados à ficção proposital, que como tal, é usada nesta obra talvez para preencher lacunas ou o cacoete característico do escritor fosse inseparável de sua literatura, mesmo quando esta possui uma premissa altamente biográfica.

É curioso a percepção que tive ao ler o relato que o autor fez de suas primeiras impressões com a literatura. Graciliano não se considera uma existência extraordinária, pelo contrário, vê-se como alguém ineficiente e incapacitado, que diferente do que pensa o senso comum, fez da literatura sua maneira de fugir da própria mediocridade. Não está lá implícito no texto, mas Graciliano deixa isso bem claro em muitos momentos. Foi a primeira vez que encontrei esse tipo de manifesto de escassez existencial, pela qual me identifiquei totalmente.

Há momentos em que algumas frases se perdem pela linguagem desusada e característica de uma comunidade. Contudo, mesmo isso não foi empecilho para que eu seguisse adiante com a leitura, até porque o charme da obra bebe da mesma fonte.

INFÂNCIA é um livro forte. Vai falar sobre a percepção de um olhar de menino, que equivocada ou não, denota a intensidade que este período da vida causa em cada um de nós; das violências verbais e físicas, a alienação existencial, falta de estrutura moral, psicológica e também social, um coquetel de traumas que moldará os alicerces de cada ser humano..., eis um livro necessário.

NOTA: 8,2

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR

Em tempos extremos de desesperança por todos os âmbitos existenciais, onde quase não restam lugares de alento em que se possa buscar algum escape, eis que a literatura segue firme em sua função de amainar mentes em trevas. Parece que vivemos tempos de tragédia imutável, a qual nem é prudente dizer que não pode piorar, porque é uma falácia equivocada, cujos últimos dois anos nos ensinaram que, sim, sempre haverá espaço para piorar: uma pandemia interminável, um governo federal deliberadamente escroto, a fome que voltou a ser constante na vida dos brasileiros, violência por todos os lados..., talvez Sartre tivesse razão quando disse que o mundo poderia, sim, sobreviver sem a literatura, mas passaria muito melhor sem o homem.

Refletindo sobre essa ideia, sinto-me em conflito existencial justamente por conta da exoneração sugerida. Afinal, um mundo sem literatura seria, fatalmente, um lugar sem o homem (a definição homem aqui refere-se ao ser humano em geral. Vivemos tempos em que o óbvio precisa ser explicado, incessantemente). Sim, pois é o homem quem constrói a literatura..., talvez e, somente talvez, o mesmo Sartre estivesse correto, porém, relativamente destoante ao dizer que o inferno são os outros. Porque se isso for uma constante, deve-se também ser levado em consideração o fato de que o paraíso também são os outros.

Os grandes autores da literatura compuseram um verdadeiro éden ao alcance de qualquer um de nós que sustente o mínimo de interesse, disponibilidade substancial relativa ou uma biblioteca decente em sua cidade.

A aniversariante aqui homenageada nos deixou um legado incomensurável!

É impossível para este leitor que vos escreve esquecer do aniversário da nossa querida rainha. Além do fato de estar reverenciando a maior escritora judia desde Franz Kafka, Clarice Lispector nasceu um dia antes do meu aniversário. Portanto, na semana de seu nascimento eu costumo interromper minhas leituras para viver uma semana especial; uma semana de Clarice..., e o poder de sua literatura continua me salvando dos males mundanos.

Esta semana na companhia da senhorita Lispector eu escolhi reler A LEGIÃO ESTRANGEIRA. Deliciosa coletânea de contos que permeia, como é marca registrada da autora, os distúrbios e expectativas existenciais. O ser humano na literatura de Clarice é o objeto profundamente dissecado.

Atente-se, sobremaneira, para o estilo escritural da autora, regido sempre por uma sensibilidade extraordinária, Clarice demonstra através de seus personagens em que medida a tragédia e inconstância se movimentam e podem convergir para imagens de rara beleza e densidade.

A releitura é sempre um novo encontro. A evidente experiência situacional explicitada em cada conto, denota o encaixe preciso; cedo ou tarde o leitor será capturado pela sedução do texto. E geralmente o reencontro com o mesmo texto, transformado que foi o leitor pelo tempo, proporciona um novo prazer; um novo aprendizado..., a literatura de Clarice evolui conforme relemos. Não por acaso alguns críticos sugerem que a literatura de Clarice Lispector é como bruxaria.

Mas tentando evitar o requinte desnecessário, fica aqui apenas minha singela lembrança e recomendação para que você também descubra essa gênia da escrita. Permita-se! Não tenha medo de mergulhar no improvável escuro da alma humana. Logo após o assombro, vem a introspecção..., e por fim, o encantamento!

FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!

sábado, 20 de novembro de 2021

CRÔNICA - O ÔNIBUS

Seu destino geral todos conhecem ou desconfiam. Já o destino de cada um ninguém sabe, exceto aqueles indivíduos que estão devidamente caracterizados. Alguns mudam de rota, outros desistem; não raro alguém desce imediatamente após embarcar, certamente deixou para trás algo importante. Há aqueles cujo intento foi modificado durante o trajeto, influenciados que foram por outros usuários. Mas independente do lugar para onde estejam seguindo, que todos sejam reconhecidos por sua nomenclatura ordinária: eles são passageiros.

Toda essa ênfase com a definição se deve ao fato de que os passageiros desejam dispender o menor tempo possível no interior da grande caixa metálica. Passageiro é um termo direto que reconhece a todos como indivíduos submetidos a um procedimento transitório; que nada acontece no mundo enquanto estiverem ali, no interior do muambado, sendo transportados de um espaço para outro. Ali é onde ocorre o intervalo da vida; nada acontece dentro do coletivo e nunca alguém buscou seus serviços por estar com saudade daquele sacolejo constante, do sobe e desce de gente estranha, de todo tipo de individualidade..., eis o aglomerado humano onde todos estão unidos, mas cada um buscando seu próprio destino.

O ônibus é o neutro em movimento.

O cinema já explorou à exaustão o tema da máquina do tempo. Comumente, trata-se de uma cabine hermética, cujo usuário é transportado para determinado época, inserindo suas coordenadas temporais num painel cheio de botões. Pois bem, agora imagine se um ônibus coletivo não tivesse janelas e as imediações do motorista fossem impedidas aos passageiros, como acontece nas cabines dos aviões comerciais. Ou seja, nestas condições estaríamos presos dentro de uma caixa sem saber o que está acontecendo do lado de fora, e somente reestabeleceríamos o contato com o mundo quando chegasse o momento de desembarcar. Sabe aquela sensação estranha quando saímos de um elevador? De repente, adentramos uma caixa metálica posicionada no térreo de um edifício, então, magicamente essa caixa se abre e sentimos vertigem por conta da repentina visão de uma cidade há quilômetros de profundidade. Saímos de um mundo, aparecemos noutro. Assim deve ser a sensação de se viajar numa máquina do tempo...

Pois um ônibus sem janelas seria como um elevador; usuários conspirariam a possibilidade de que o trajeto não existe; que o ônibus simplesmente se teletransporta de um lugar para o outro. Afinal, o passageiro só conhece o ponto de embarque/desembarque e o interior da máquina. Ninguém sabe como é ou como funciona o poço de um elevador.

Mas as janelas dos ônibus nos permitem o testemunho do trajeto, muitas vezes até proporcionam a apreciação de uma bela paisagem. É através das janelas que sabemos identificar nosso destino, e o instante preciso de puxar a cordinha. Da janela somos todos isentos, observando o mundo continuar sem nós por algum tempo. Vez ou outra, paira a noção de que talvez não seja tão ruim assim estar dentro do ônibus, afinal, do lado de fora está sempre acontecendo um instante de estresse, uma briga no trânsito, um acidente. Abençoado ônibus que nos ofereceu a condição de expectadores da vida ordinária. Quem está dentro do ônibus não tem nada a ver com o mundo lá fora.

Mas e esses passageiros, quem são? De onde aparece tanta gente?

Sei que vai parecer estranha a comparação, mas os humanos são meio como baratas: estão em toda parte, surgem do nada e a gente nunca sabe de onde aquela criatura veio. Talvez Franz Kafka compreendesse o que quero dizer, afinal, o escritor foi ao limite do absurdo em sua comparação do ser humano com um inseto.

Enfim, este distinto e corrosivo ser andante vai surgindo de vários pontos e todos se reúnem em específico local, à margem de uma rua. Todos espremidos na calçada, entediados pela repetição do ato, quase não se falam. Olham para o chão, verificam o celular, fones nos ouvidos, um ou outro comenta sobre o tempo maluco. A espera faz os minutos parecerem horas. Então, irrompe no horizonte o caixote retangular de rodas, que estaciona diante do aglomerado humano e todos desaparecem da calçada.

Encontram-se agora espremidos em seu interior, entediados pela repetição do ato, quase não se falam. Olham para a janela, verificam o celular, fones nos ouvidos, um ou outro fala sobre o tempo maluco, talvez o mesmo sujeito que o fez lá na calçada, há pouco. Por que essas pessoas resolveram sair de suas casas ao mesmo tempo? É tanta gente junta que quase não cabe no ônibus, elas se encolhem para entrar, penduram-se na porta, corpos imprensados, compartilhando calor, suor, fluídos salivares, bactérias..., um verdadeiro enlatado humano.

Gente branca, preta, amarela, marrom, cinza. Vestem todo tipo de indumentária, jeans, malha, moletom, manga longa, manga curta, short, bermuda, saia, vestido, macacão, uniforme, terno e gravata. Mochilas, bolsas, sacolas de supermercado, sacola de loja de utilidades em geral, sacolas plásticas, sacolas de papel, bolsa de viagem, bolsa tiracolo, chapéu, boné, tiara, pregadeira, caneta prendendo os cabelos na cabeça..., cabelos pretos, loiros, ruivos, encaracolados, crespos, compridos, curtos, grisalhos, cabeças sem nenhum cabelo... Dezenas e dezenas de cabeças reunidas.

De repente, um inesperado buraco e as rodas sofrem o impacto, um tranco fugaz e todos os ombros chacoalham ao mesmo tempo. Logo depois, uma freada brusca, e a pressão exercida pela frenagem faz aquelas muitas cabeças reverenciarem em sincronia. Alguém se levanta e sai amassando e sendo amassado por outros corpos, puxa a cordinha. O busão, que estava em movimento, diminui até parar. Lá fora, outro grupo de pessoas juntas na margem da pista. Humanos trocam olhares, descem dois, entram quatro. As portas se fecham com dificuldade, a lata gigante de sardinha dá seta para retomar o percurso. Alguém puxa a cordinha de novo, mas o condutor não tem paciência, ainda tem muito chão pela frente, não há tempo a perder.

Peraê, motor!

O ônibus espera um pouco mais. Alguém está bloqueado no emaranhado de corpos. Ele puxa, estica, aperta, empurra, chuta, pisa e é pisado, busca mais um espacinho, vai lutando por cada centímetro em direção à porta de saída.

Do lado de fora, o outro aglomerado de humanos observa a caixa de metal carregada de gente, e acha aquele cenário natural; aguardam avidamente pela chegada de seu ônibus, todos juntinhos, entediados pela repetição do ato, quase não se falam, olham para aquela caixa parada que não lhes serve, depois voltam a verificar o celular, fones nos ouvidos, alguém comenta sobre o calor infernal..., os de fora invejam a sorte dos de dentro, porque já estão no caminho de seus destinos; os de dentro anseiam a liberdade dos de fora, porque eles respiram ar limpo, possuem distanciamento decente e correm menos riscos de infecções respiratórias. Os de fora têm uma visão do futuro que os esperam ao contemplar os de dentro, enquanto os de dentro reveem o próprio passado recente ao observar os de fora.

Uma mulher audaciosa consegue entrar, ela veio correndo, surgiu não se sabe de onde, exatamente como fazem as baratas. Dá alguns socos na porta do ônibus e então a mesma se abre. Vitoriosa, espreme-se até a roleta, recebe e devolve ofensas com o trocador porque só tinha uma nota de cinquenta e é difícil trocar uma nota de cinquenta. Trocadores odeiam notas de cinquenta, mais até do que as de cem, pois na crise atual, estas são raras. Todos acompanham o bate-boca sem se alterarem, afinal, isso acontece todo dia.

E como num milagre da urbanização, a mulher consegue um lugar para estacionar sua massa orgânica entre o emaranhado de corpos. A expressão de ódio por conta da recente discussão se desfazendo, aos poucos, até virar tédio e ela se transforma em parte do cenário. Então ela olha pela janela, depois verifica o celular, põe os fones de ouvidos, um cara ao lado comenta que esse calorão só pode ser chuva mais tarde...

sábado, 13 de novembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – DESAMPARO

Encontrei este DESAMPARO em promoção num Sebo. A capa com o rosto de uma mulher me soou familiar (meses depois descobri a fonte desta impressão: é que já tinha visto o livro na estante de minha esposa), li a sinopse rapidinho e decidi acrescentá-lo a minha pilha de compras, tipicamente esse é o tipo de aquisição para se conhecer novos autores. E como foi gratificante saber que a autora é portuguesa. Tive certeza de que estava adquirindo coisa boa. A literatura lusitana tem muita gente boa, e Inês Pedrosa apenas surgiu para validar essa opinião.

A trama deste romance contemporâneo gira em torno da personagem Jacinta, mulher nascida em Portugal, porém, veio para o Brasil muito jovem, ela retorna ao país de origem meio século depois para conhecer a genitora da qual foi arrancada muito cedo. Jacinta é como o ponto de origem para explicar muitos outros personagens, todavia, ela segue como figura central, mesmo em capítulos em que pouco dela nos é apresentado, mesmo assim, sua essência permanece circundando toda a leitura.

O reencontro acontece numa pequena aldeia, onde ela se estabelece em definitivo porque precisa cuidar da mãe. Neste ínterim, o livro alterna para outros capítulos em que nos são apresentados novos personagens, alguns mais interessantes do que outros, sendo o mais complexo e meu favorito, Raul, que em determinado instante também se encontra instalado em Portugal para cuidar de sua mãe, Jacinta, exatamente como ela houvera feito antes, num ciclo altruísta no cerne daquela família.

Raul é figura singular, carrega problemas existenciais, tem conflitos familiares com seus irmãos desgarrados, é consciente de suas limitações de uma forma quase lamentável, sente-se fracassado na profissão e no amor. Este personagem, juntamente com Jacinta, são os pontos mais altos da trama.

O livro resvala num segmento introspectivo, quase um fluxo de consciência, mas o mergulho não desce tão fundo em tais reflexões idiossincráticas, ficando mais próximo do verniz; de uma prosa deliciosa, engraçada, triste e muitas vezes carregada de análises conflitantes, de personagens tomados demais dessa natureza humana cheia de inconstâncias.

Mas apesar de instigar, é justamente aqui que o livro resvala num problema.

Muitos personagens inseridos comprometeram aquilo que seria este mergulho mais fundo na leitura da alma humana. Talvez Inês tenha exagerado na dose, despejou demais os tipos diferentes que nos são apresentados, e terminamos por conhecer bem menos do que gostaríamos de cada um deles..., uma pena.

De qualquer forma, é um livro gostoso de se ler, fluído e crível, onde o desamparo do título paira o tempo inteiro ao redor de seus envolvidos, porém, deixou-me com a sensação de que faltou arrancar camadas de seus personagens, o que talvez fosse possível, caso a trama tivesse se concentrado em um ou dois indivíduos. Opinião à parte, esta obra é mais um acréscimo que eleva minha admiração pela literatura portuguesa, Inês Pedrosa é mais uma autora que passarei a procurar avidamente.

NOTA: 7,7

domingo, 10 de outubro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A CURA DE SCHOPENHAUER

Mais um trabalho cuja essência é a psicoterapia, temperada com elementos filosóficos, o que causa certa contradição, afinal, as obras deste escritor costumam trazer nomes de grandes filósofos em seu título. Deveria ser filosofia, com pitadas de psicologia, mas isso não é nenhum problema, apenas uma constatação. Os textos de Irwin D. Yalom geralmente usam como fontes pensadores que se debruçaram sobre a complexidade humana diante da vida..., ou seja, a psicologia sempre bebeu da fonte da filosofia. Para quem gosta, o autor segue fiel a sua literatura que, embora me agrade bastante, não deve causar o mesmo efeito em muita gente. O estilo de Yalom é meio parado, pouca coisa acontece fora das sessões de terapia, e às vezes paira a sensação de que a história não sai do lugar..., e talvez não saia mesmo.

Aqui acompanhamos o psiquiatra Julius Hertzfeld, que após receber o diagnóstico de um melanoma e a breve perspectiva de vida, resolve repensar sua trajetória profissional. E tal reflexão traz de volta a lembrança de Philip Slate, antigo paciente e rara estatística de fracasso de sua carreira. Julius resolve procurar o ex-paciente e então descobre que o mesmo conseguira se curar dos próprios problemas seguindo os ensinamentos do filósofo Arthur Schopenhauer. Mesmo assim, o psiquiatra convence Philip a participar de seu atual grupo de terapia, então temos o cenário de praticamente toda a obra.

Sim, leitor, o livro é basicamente sessões e mais sessões de terapia de grupo, condição que mais incomoda alguns leitores desavisados que se dispuseram a ler este livro de Yalom. Se você gosta desse tipo de cenário: pessoas refletindo sobre suas existências, trocando confissões, acusações, embates acalorados ou não, alguns discernimentos filosóficos e outros nem tanto, esse é o livro para você. Do contrário, nem tente, pois praticamente mais nada de relevante acontece.

Não por acaso, o autor é um homem do universo da psiquiatria, logo, este é o seu cenário predileto (tem mais resenhas dele aqui no blog). O escopo não é produzir romances lineares, mas mostrar-nos as articulações e entraves que permeiam as terapias, no caso aqui, a terapia de grupo. É um estilo peculiar, mas particularmente me agrada, principalmente porque eu jamais fiz terapia. É elucidativo ver como funcionam este lugar onde se pretende tratar as mazelas da mente humana.

Outro ponto positivo, talvez o que de melhor vamos encontrar aqui, é que os capítulos se dividem entre sessões de terapia de grupo com um pouco da vida e trabalho do filósofo que intitula a obra. Confesso que passei a sentir vontade de conhecer melhor a literatura de Schopenhauer, de fato, um filósofo genial.

Há instantes meio desconexos, talvez uma tentativa do autor em sair dos capítulos de sequências de terapias, o que não agrada muito. Os personagens também são pouco explorados, basicamente ficamos sabendo apenas aquilo que eles falam durante as sessões, o que pode ser proposital. Julius é um personagem que agrada por sua experiência e abertura reflexiva, enquanto Philip o considerei enfadonho e superestimado, houve uma tentativa de fazer dele um personagem erudito, portanto, há instantes em que a narrativa parece forçar a barra.

A CURA DE SCHOPENHAUER não é um livro para qualquer leitor. Talvez agrade aos amantes de psicologia, afinal, pouco dá pra se falar da obra fora deste escopo. Os diálogos costumam ser o que de melhor acontece e tendo Schopenhauer como pano de fundo, tornou a experiência ainda mais agradável.

NOTA: 7,3

domingo, 3 de outubro de 2021

RESENHA DE LIVRO – O BIGODE


Esse é um daqueles livros em que não é simples de ser resenhado, porque qualquer apontamento soa inapropriado, além de colocar em risco o mistério em torno da trama.
O BIGODE é o tipo de obra cuja leitura desperta diferentes interpretações, sem que nenhuma delas soe conclusiva.

Diante da impossibilidade e receio de esmiuçar a história, eis a breve trama: Num ato de total precipitação, um homem se olha no espelho demoradamente, não sabendo exatamente o que está procurando em seu rosto. Então, ele resolve romper com o enfado cotidiano raspando o bigode.

Sim, querido leitor, a sinopse é apenas isso. Mas embora soe simplório, esse ato isolado é suficiente para mergulhar o leitor numa intrigante rede psicológica que parece zombar de nossa sanidade ou simplesmente nos causa aquela estranheza de achar que não prestamos atenção em algum ponto específico da leitura.

O personagem quer se libertar, talvez de seu tédio, e o gesto de tirar um bigode parece uma ideia inesperada, porém, aprazível. No entanto, ninguém parece notar o feito; as pessoas mais próximas se comportam como se a tal transformação, ocorrida no banheiro, não houvesse acontecido. Vale, inclusive para a esposa, figura central na trama, que não percebe o rosto desnudo do marido e, portanto, sua figura será elemento de desconfiança por toda a trama.

Acho que já deu por informação, não quero estragar a leitura de ninguém. E claro que compreendo se você que está lendo esta resenha ainda não despertou nenhum interesse em ler esta obra. Pois você tem toda razão, afinal, não é pela trama que você se sentirá instigado a ler, mas pelo estranhamento que se manifestará em sua mente, já no comecinho; o livro não enrola, é pequeno e vai direto ao ponto. Já iniciamos a leitura com o protagonista no banheiro diante do espelho. O resto é apenas uma senoide psicológica, onde tudo ora parece suspeito, ora soa hipotético.

A leitura é leve no início, quase despretensiosa. Mas a medida em que somos conduzidos ao estranhamento que é constante no personagem principal, a leitura vai ganhando ares, digamos, mais tenso, até mesmo perturbador. O autor, que eu não conhecia, o francês Emmanuel Carrère, soube desenvolver uma narrativa que num primeiro momento parece jocosa, mas que logo se torna insana, desconfortável, faz-nos duvidar até mesmo de nossa leitura (como já mencionei, há momentos em que achei que tivesse pulado algum parágrafo sem perceber).

Genial? Até certo ponto funcionou, mas chegou um momento em que comecei a me aborrecer. Não deu tempo de desdenhar a trama, porque como também já mencionei, o livro é curto, direto e de leitura ligeira. Fosse um autor prolixo talvez o prazer tivesse sido comprometido.

Outra coisa que me incomodou foi algumas ações e conduções do protagonista, mas não posso entrar em detalhes, apenas achei que ficou um pouco chatinho, Mas é apenas uma opinião estética.

O BIGODE é um livro cujo aspecto soa despretensioso, até seu título não anuncia muito. Mas é incômodo e não nos deixa parar de ler. Não chega a ser um suspense assustador, assim como não é uma comédia de humor negro, nem mesmo um terror psicológico. É um trabalho difícil de se definir, de se classificar e mais ainda, difícil de chegar a uma conclusão sobre o que de fato está acontecendo com seu protagonista..., Apesar de tudo, creio que deva ser lido para que você construa sua opinião.

NOTA: 7,1

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

A segunda guerra mundial foi talvez o evento mais trágico e determinante da história moderna da humanidade; seus efeitos atingiram o globo inteiro, suas consequências até hoje se fazem sentir.

Nesta obra aqui resenhada, o historiador Martin Gilbert optou pela premissa de narrar esse tempo de trevas como num resumo (sim, um resumo de 976 páginas, mas em se tratando de segunda guerra mundial, é espaço precário demais para tanta ocorrência); fez uma espécie de diário de guerra, em que o relato precisa ser breve para que não se perca o foco nos principais tempos e acontecimentos do conflito. Desse modo, tudo aqui será relatado de maneira fugaz, eu diria que estamos diante de um livro de entrada, para aqueles que desejam iniciar uma leitura sobre os eventos.

O conflito, que começa em setembro de 1939 e termina em agosto de 1945, foi estudado a exaustão por muita gente boa. Atualmente há material quase que infinito para o público interessado, desde livros, revistas, documentários, filmes, enciclopédias, museus, memoriais... A história da grande guerra está eternizada por distintas formas, algumas mais eficientes outras nem tanto. E este A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL de Martin Gilbert, é mais um trabalho que, embora audacioso na proposta de contar uma história tão grande, esbarra em alguns probleminhas..., vamos a eles:

O primeiro incomodo que senti e perdurou por quase que toda a leitura foi a parcialidade escancarada em muitos momentos da obra. O autor parece excessivamente preocupado em exaltar os aliados (países encabeçados por Estados Unidos, Inglaterra e Canadá), assim como execrar as nações que compuseram o eixo (Alemanha, Itália e Japão). Num primeiro momento, isso até soa como caminho óbvio, mas com o avanço na leitura isso incomoda porque a condução narrativa quer nos fazer engolir que nesta guerra houve apenas dois lados: monstros asquerosos e inumanos numa extremidade, querubins benevolentes na outra.

 O jornalista Nelson Garrone afirma que não existe imparcialidade no jornalismo, ideia que, num primeiro momento, parece ir na contramão do que o senso comum gostaria que fosse. Primeiro porque, segundo Garrone, é tecnicamente impossível ser imparcial pela complexidade incutida no desenvolvimento jornalístico; também não dá pra mostrar “os dois lados” de um escopo jornalístico porque é muito provável que não existam apenas dois, mas muitos lados. Para Garrone, alegar de que existe apenas dois lados é um modo de politizar o debate. Outro relato importante é o do historiador Leandro Karnal, que compartilha dessa opinião quando alega que “neutro” é coisa de sabão de coco; segundo ele, toda opinião tem um lado, uma origem, uma classe social e um ponto de vista.

Martin Gilbert é de nacionalidade britânica, elevado à condição de cavaleiro da coroa, o que explicaria em parte seu apreço irremediável pelas forças aliadas. Também é preciso que seja feita a seguinte observação: talvez a segunda guerra mundial seja um exemplo de raro conflito em que não é difícil identificar os mocinhos e os vilões. Mas é no mínimo irresponsável determinar que, num cenário de milhões envolvidos, metade era composta por bárbaros descerebrados e a outra metade por arautos da ética e da boa conduta (sim, o nazismo foi uma política bizarra e condenável. Mas isso não fundamenta a ideia de que todo o povo alemão era genocida. Muito menos que os soldados no front eram compostos por animais sanguinários).

Há instantes em que fica explicitado a “passada de pano” que o historiador deu perante a conduta dos exércitos aliados, como quando ele tenta justificar como legítimo os bombardeiros que devastaram a cidade alemã de Dresden e a capital japonesa, Tokio. Martin Gilbert também faz uma narrativa um tanto imprecisa ao alegar a necessidade de uso das duas bombas atômicas, despejadas pelo exército americano em Hiroshima e Nagasaki; uma atitude claramente genocida, mas que no livro é descrita como necessária.

Há aqui um sentimento de superioridade por parte dos exércitos aliados, algo que também pode ser encontrado em vários momentos da leitura, e incomoda bastante. Um exemplo é o exposto diário do presidente americano Harry Truman, onde fica claro o sentimento de superioridade e arrogância dos americanos:

“... A arma (referindo-se à bomba atômica) deverá ser usada contra o Japão entre a presente data de 10 de agosto, contra objetivos militares, soldados e marinheiros, não contra mulheres e crianças. Ainda que os japoneses sejam selvagens, impiedosos, implacáveis e fanáticos, nós, como promotores do bem-estar comum da humanidade, não podemos lançar essa bomba terrível contra a antiga capital nem contra a nova”.

As duas bombas mataram mais de duzentas mil pessoas.

A parte estética está bem servida. O livro conta com fotos de alguns eventos curiosos ou fundamentais, também há mapas geográficos, cujo intento é delimitar as reviravoltas demarcadas por regiões ao longo do conflito.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL é um livro que considero de entrada, faz menções de data importantes sem se aprofundar muito. Talvez seja interessante sua leitura fazendo uso da análise em outras fontes, quando forem citadas na obra. Há eloquência admiração pelo lado dos aliados e total desprezo pelas nações do eixo, mas como disse Nelson Garrone: “todo jornalismo é parcial...”, leitura fácil e ágil. Recomendado aos iniciantes.

NOTA: 6

sábado, 28 de agosto de 2021

RESENHA DE LIVRO – COMO MORREM OS POBRES E OUTROS ENSAIOS

É difícil elaborar uma resenha minimamente decente de qualquer uma das obras de George Orwell, primeiro porque a enormidade do escritor já causa intimidação imediata. Outro entrave é que sabemos que gente muito boa já esmiuçou a literatura do cara; intelectuais altamente sensíveis souberam analisar seus textos com profundidade. O que um bosta, feito eu, pensa que está fazendo com essa meia dúzia de parágrafos rasos?

Eu tenho explicação: é que tudo o que escrevo aqui no blog, tem mais serventia para mim mesmo do que a qualquer outra pessoa. Minhas resenhas não possuem a pretensão de mapear um trabalho literário, mas registrar algumas de minhas impressões à cerca da leitura, que após alguns anos, certamente não me lembrarei..., sim, eu costumo retornar para as resenhas quando me esqueço do que senti ao ler determinado livro. E como releituras são incomuns em minha rotina (porque eu tenho muita coisa pra ler e o ritmo do tempo parece ter perdido o freio), ler minhas resenhas costuma resgatar alguns insights da obra.

George Orwell é detentor de um elemento que só fui descobrir nesta segunda incursão que fiz em seu universo: o cara é genial pela simplicidade com que se expressa. Partidário da escrita rudimentar, Orwell é especialista em linguagem acessível, coisa que ele defende num dos capítulos destes ensaios, o que o torna sublime é o grande pecado da maioria dos grandes intelectuais: a singeleza.

Os textos aqui reunidos impressionam pela crueza e atualidade. O autor tece um estilo incomum de intelectualidade honesta que agrada demais e faz parecer que a coisa foi desenvolvida para algum tabloide contemporâneo, e que Orwell está por aí, destilando suas críticas sobre o mundo de hoje (é fabuloso verificar o quanto suas opiniões parecem extraídas de um período ainda em curso).

COMO MORREM OS POBRES E OUTROS ENSAIOS reúne relatos e reflexões do autor sobre vários assuntos e impressões extraídas na prática por esse importante nome da literatura mundial. E concorde ou não com Orwell, uma coisa precisa ser levada em consideração: o cara vivenciou aquilo que escreveu. Foi soldado, lavrador, presidiário, morador de rua, soldado, jornalista e, claro, escritor.

Alguns ensaios são comoventes pelas memórias vívidas, outros entram na parcialidade política e há alguns textos mais analíticos que exploram o desenvolvimento de literatura, praticamente tudo relatado de modo a escapar da linguagem técnica. Aqui quase tudo é exibido de forma íntegra e vistosa. Muitas vezes até parece uma sutil tentativa em fazer o leitor acreditar que ele também pode desenvolver algo digno de um verdadeiro pensador.

Suas crenças, preferências e até mesmo seus preconceitos estão expostos aqui de maneira simplificada e fidedigna, sem nenhum receio de dizer o que se pensa; Orwell é um homem antes de ser escritor..., e isso está explicitamente narrado em cada parágrafo deste livro (imagino que em toda sua obra).

“A Covardia Intelectual é o pior inimigo” é o meu capítulo favorito, talvez porque o autor discorra sobre os maneirismos da literatura, liberdade de imprensa e outros assuntos relacionados ao universo dos livros. E como não poderia ser diferente, é óbvio que um livro que se propõe a falar de diversos assuntos, acaba fazendo com que alguns temas sejam apreciados e outros nem tanto.

COMO MORREM OS POBRES E OUTROS ENSAIOS é um livro para ser relido muitas vezes (às vezes me deprimo com minhas próprias sugestões), pela atualidade do conteúdo, pela aula grátis que exibe o quanto a linguagem simples pode ser extraordinária, e claro, porque é George Orwell..., o nome no alto da página já garante o conteúdo.

NOTA: 8,3

domingo, 22 de agosto de 2021

HOMENAGEM - CENTENÁRIO DE COLATINA


Certa vez, escutei um visitante de outro Estado comentar que Colatina é uma cidade vertical, referindo-se aos muitos morros onde se sustentam grande parte dos bairros do município. Teria sido um comentário despretensioso, mas notei certo tom de escárnio naquelas palavras. Então, fiz o que somente um cidadão colatinense sabe fazer nessas horas: defendi nossa querida Princesa do Norte.

Sempre se enxerga algo de baixo pra cima quando se está em reverência”, foi o que disse em resposta, ao que ele não entendeu de imediato. Mas o escopo que gostaria de atentar aqui é para o instinto natural de todo cidadão colatinense: essa obrigação inerente de correr em defesa de nossa cidade, como se ela fosse algo sagrado; precioso demais para ser menosprezado por gente que não é daqui e, portanto, desconhece a magia. O colatinense até faz lá suas críticas e reclamações de Colatina, talvez por achar que sua condição de filho legitima o argumento. Porém, instintivamente algo azedo desperta em seu ser, sempre que alguém de outro lugar diz algo ofensivo sobre nossa singela cidade.

Quem me conhece salientaria que não sou natural da cidade e, portanto, não saberia como expressar sentimentos genuínos sobre a cidade. Contudo, vim com minha família muito cedo e, ainda jovem, já me sentia acometido pelo mesmo sentimento daqueles que nasceram nestas terras: a sensação de filho acolhido, que não se conforma com ofensas direcionadas à nossa mãe querida. Não por acaso Colatina foi batizada por nome feminino; pois como genitora que ampara seus filhos, estes mesmos zelam e a elevam à condição de natureza sagrada.

Antes de ser finalmente adotado por este solo amoroso, eu olhava para Colatina com certa desconfiança. A cidade, em minhas impressões de garoto, era um misto de mistério arcaico e vigor contemporâneo. O antigo parecia fundir-se ao novo como se fosse um encaixe preciso que jamais vi noutro lugar; a simplicidade dos moradores, a naturalidade na maneira de interagir, a convivência diária encarada de modo recíproco; em Colatina as pessoas discutem os problemas da cidade com seriedade e em qualquer canto, nos bares, nas igrejas, nos pontos de ônibus, nas filas dos supermercados..., agem como se fossem pequenas células de um enorme corpo em constante desenvolvimento. Querem criar, fazer! O colatinense se sente peça de uma máquina, onde cada pecinha é vital para o bom funcionamento. Sim, Colatina é como um grande mecanismo evolutivo, cujo suor do seu povo lutador lubrifica suas articulações.

Confesso que muitas vezes me senti como o estranho no ninho, pelos olhares de desconfiança sobre minha inexpressiva presença. Não que eu tivesse uma aparência nociva, mas talvez os colatinenses apenas quisessem se certificar de que eu não seria uma possibilidade de abalo da serenidade coletiva... Sim, os colatinenses são cabreiros demais.

Demorou para que eu me sentisse em casa. Foi preciso que saísse da cidade, como disse o escritor José Saramago “é preciso sair da ilha para ver a ilha”. E ao retornar de uma viagem longa, adentrar as imediações de Colatina causou em meu ser, pela primeira vez na vida, aquela sensação de estar chegando num lugar em que sou parte. Sabe quando você chega em casa, cansado, tira os sapatos e afunda no sofá? É mais ou menos como me sinto quando estou chegando de algum lugar, atravesso a pequena Baunilha e logo avisto a imponência da segunda ponte cortando o nosso Rio Doce.

Por falar em Rio Doce, notou como nós, os colatinenses, gostamos de reivindicá-lo como nosso rio? Pois é; isso meio que é parte da gente daqui, sabe..., o Rio Doce possui um total de 888 km de percurso, sua bacia corta exatos 228 municípios, e o colatinense continua com o velho e disparatado hábito de dizer que esse gigante é nosso. Vez ou outra, o Rio se enfurece, invade a cidade e parece querer reclamar de volta um tanto de suas margens estreitadas pelo desenvolvimento urbano..., mas se quer minha humilde opinião, acho que Colatina é terna demais e até o imponente Rio Doce, não contentando-se em apenas percorrer passivamente, adentra as imediações da cidade, implorando por um abraço.

Cristo também é daqui, sabia? Com seus braços abertos, é a máxima representação da mãe Colatina. Ok, o Rio de Janeiro pode até ter o Cristo mais famoso. Mas aquele lá me parece simbólico demais, inalcançável demais... O Cristo aqui é acessível e simpático e exala a mesma ternura da cidade.

Colatina é simples de se entender; é leitura desobstruída, é silêncio visual agradável, é cheirinho de janta recém-preparada. Colatina tem alma, é mais que perceptível; sua essência está em todos os lugares. Colatina é aconchegante, é afável, permissiva e exala calor..., nossa! E como faz calor!

Mas talvez seja esse calor excessivo o preço a se pagar por termos o segundo pôr do Sol mais lindo do mundo. Um segredo: isso é uma enorme falsa humidade do colatinense. Porque ninguém sabe onde fica o primeiro pôr do Sol mais lindo do mundo, pode sair pela cidade perguntando a qualquer um. De modo que isso faz do nosso pôr do Sol, o mais esplendoroso de todos!

E não ouse contrariar o colatinense. Tenho dito!

sábado, 21 de agosto de 2021

CRÔNICA – JUSTIFICATIVA PARA MIM MESMO

Foi no dia 28 de maio minha última postagem aqui no blog. E embora isso não pareça tanto tempo, esse foi o maior período em que fiquei sem postar nada.

Foi uma fase difícil? Bom, estamos no meio de uma pandemia o que já torna válida essa hipótese. Mas também estou em tempos de muito trabalho em casa e fora, de transformações estruturais as quais interferiram na vida literária de um modo geral. E interferir significa interromper mesmo. A única coisa que tentei manter sempre em dia foi a leitura.

Tratou-se de uma pausa necessária, eu fiz escolhas, precisava ajudar na recomposição do lar, minha esposa careceu de mim e tentei ser menos escritor e mais um alicerce com o qual ela pudesse contar nessa hora difícil. Claro, a pandemia também colaborou muito elevando o tédio e o desinteresse em produzir..., mas isso não conta como explicação.

Mas enfim, explicação para o que?

Não é a primeira vez em que entraves ocorrem, e infelizmente não será a última. Porém, ao longo desses dez anos de existência do blog eu sempre tentei manter ao menos uma ou duas postagens por mês. Jamais havia ficado mais de trinta dias sem postar nada.

Medida de tempo não é comparado ao período, propriamente, porque isso não significa nada, mas a alienação daquilo que era importante quando estabeleci que iria parar de escrever em espaços de internet dedicados a escritores amadores, e focaria meu trabalho em espaço autônomo no qual visitaria quem se interessasse pelo conteúdo, em vez de gente buscando seduzir por meio de visitas vazias, situação que ocorre a todo instante em redes sociais feitas para escritores.

Meu blog sempre foi como um alívio pessoal; um lugar só meu em que posso expressar minhas opiniões nem um pouco técnicas e transgressoras para além de minha precária capacidade de análise literária. Aqui eu relato os meus achismos levianos, o que senti enquanto lia, as particularidades nem um pouco versadas sobre as impressões que tive de alguma leitura recente. Tanto é assim, que há muito não resenho livros que não despertaram a vontade de falar dele. No começo desse espaço, algumas resenhas foram contempladas pela mera vaidade em mostrar para os visitantes que eu era leitor de valores intelectuais consagrados. Hoje consegui me livrar dessa futilidade neurótica; resenho somente aquilo que sinto vontade de relatar.

O Dimensão Reluzente se tornou um espaço de independência; maior liberdade do que essa é difícil existir, de ser autônomo das amarras externas e também internas. No meu cantinho posso ser ousado ou tímido; posso ser prolixo ou sucinto; posso ser cordato ou ranzinza..., aqui no meu blog eu posso ser.

Então eu reitero a pergunta: toda essa explicação é para que? Permita-me, uma vez mais, ser esse falso profundo e falar sobre a escrita.

Foi Rainer Maria Rilke quem disse que “se fomos capazes de viver sem escrever, é melhor que o façamos”. Entendo que ele estava se referindo à uma necessidade inerente de se produzir conteúdo escrito; escrever para algumas pessoas é uma necessidade de externar-se; colocar no papel (tela) sentimentos, impressões, rancores, amores, mágoas, solidões... E apesar de que algumas vezes me sinto assim, ansioso de vontade de ligar o notebook e abrir o editor de texto, isso não me ocorre o tempo inteiro. Mas compreendo Rilke e sei que a vida seria menos agradável se por algum motivo eu não pudesse mais escrever.

No entanto, acho que vai muito além disso. Talvez num mundo capitalista onde só existe espaço para competição, a escrita seja o único espaço onde posso deixar de ser coadjuvante e me tornar o diretor; abandonar o lugar de criatura para assumir o lugar de criador. Aqui eu vou em busca de lugares impossíveis que jamais serão alcançados, mesmo assim, continuar buscando. Sensação de liberdade maior eu desconheço.

E não tem nada a ver com ser lido. Porque não funciona assim. Quem escreve esperando retorno de um público específico, anda de mãos dadas com a mediocridade. Isso não quer dizer que escrever de modo despretensioso seja garantidor de um texto acabado enxuto e belo..., não! Também seria hipocrisia de minha parte afirmar que não me importo, que receber o reconhecimento por algo escrito seja desprezível. Mas o grande trabalho não nasce da necessidade de retorno externo, e sim da manifestação de uma subjetividade intrínseca; a expressão da sensibilidade do autor, que é diferente em cada um e invariável em sua essência de querer ser eterna.

A literatura é a arte de produzir eternamente por meio de versos e prosas; um polimento que não tem fim, mas que com o tempo e a prática, torna-se cada vez mais reluzente.

Enfim, essa é a justificativa para mim mesmo. E se você leu este texto até aqui, acabou de se deparar com um pedacinho do meu inferno, a minha angústia infinita. Escrevo para não ser lido, mas gostaria de ser. Não mereço o tempo de leitura de ninguém, mas adoraria ser causa de seu tempo gasto. Não quero a glória, mas se ela vier como consequência vai ser demais! De tempos em tempos continuarei aparecendo e sumindo, a vida é mesmo uma senoide doida..., e é por isso que nos apegamos tanto a ela.

Sim, senhor Rilke, eu consigo viver sem escrever. Mas esse negócio é tão legal, que não da vontade de parar. E vez ou outra a gente para, só para sentir novamente aquele gostinho adocicado da vontade se acumulando dentro de nós.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

RESENHA DE LIVRO – A MENINA DE CÁ

Passeando através da vastidão da literatura nacional, deparo-me com este agradável volume, cujo título parafraseia um conto de Guimarães Rosa. A Menina de Cá, compilação de contos do escritor e vencedor do prêmio Jabuti Carlos Nascimento Silva, é uma leitura que norteia o olhar feminino.

A singularidade narrativa do escopo feminino é intensa em quase todos os contos deste volume. Diversificados em essência, eles agradam em proporções distintas, o autor é muito bom em variar. Livros de contos, quando escritos por autores que detém visão multifacetada, faz com que a experiência da leitura seja um agradável passeio pelo imprevisível, o que pode não agradar os leitores mais conservadores e que curtem aquele escopo narrativo característico que lhes agrade.

Eu, particularmente, gosto de me deparar com o diferente, muito embora confesse que, inevitavelmente, isso torne o prazer da leitura oscilante, o que não significa que o livro seja pior do que aqueles que seguem uma única linha narrativa. No caso deste A MENINA DE CÁ, alguns contos me fizeram desacelerar (quem conhece minhas resenhas, sabe o que isso significa), outros perderam-me como leitor. No entanto, o conjunto da obra aqui é um livro de contos agradável, direto e lúcido.

Dois contos valem destaque, pois os considerei o ponto alto da coletânea: Contraponto no Samba, curiosamente um dos poucos textos cujo o olhar em terceira pessoa, permeia o personagem masculino, porém, segue com a força dominante proporcionada pela presença feminina; a personagem Leila desestrutura os intentos do namorado que arquiteta um plano para passar o feriado de carnaval longe da amada. O outro conto é o que dá nome ao livro; A Menina de Cá é uma deliciosa leitura que faz referência ao conto famoso de Guimarães Rosa.

Dois aspectos me incomodaram em alguns momentos: o autor segue uma narrativa que, apesar de polida, não consegue se desprender de certo viés higienizado que fez transparecer o receio de adentrar impressões mais críveis do ser humano. Outro probleminha, este menos perceptível, é que alguns contos pareciam textos fragmentados, onde algo do anterior me pareceu dar sequência ao próximo, como se eu estivesse lendo um livro que fora arrancado algumas páginas.

A MENINA DE CÁ é uma obra aprazível, de contos distintos e um autor que acertou em cheio em nos colocar perto de mulheres tão sedutoras. Derrapa um pouco na sobriedade linguística, mas isso não chega a prejudicar a leitura.

NOTA: 6,5

sábado, 22 de maio de 2021

RESENHA DE LIVRO – QUADRONDO

 

Coragem talvez seja o elemento essencial para que possamos desapegar de uma existência materialmente suprida, porém, sem sentido, para ingressarmos numa mudança radical, cujas transformações atinjam o cerne do ser humano, tornando sua vida cheia de significado e sentido.

Esse é o tema central deste trabalho discreto do ótimo escritor DOMINGOS PELLEGRINI: a coragem de mudar para encontrar importância. Nossa sociedade moderna doutrina seus inseridos num perigoso esquema de conquistas por status e coisas, numa engrenagem ininterrupta que afasta o ser humano daquilo que lhe é mais necessário: a autenticidade de sua natureza.

Sebastião Terra é um professor experiente e escritor promissor, devidamente inserido no universo acadêmico, mas que, apesar de a vida remar no sentido da prosperidade (pelo menos do ponto de vista social), ele se vê cada vez mais entediado com os horizontes alcançados e o universo que o cerca. Então, enche-se do elemento o qual mencionei nesta resenha: coragem, e parte para uma ilha remota, cuja população parece incrivelmente primitiva, para começar a vida do zero. E como ele redescobre essa vida!

Já no início dessa mudança, Sebastião encontra o amor, precisamente como tal sentimento nasce, de modo inesperado e pelo ser improvável, que instigará nosso protagonista a lidar com suas inflexões descabidas e se livrar de conceitos estabelecidos, caso queira gozar desse romance. O lugar também é o convite ao desenvolvimento como ser humano; da precariedade de uma comunidade a qual deseja fazer parte, Sebastião precisa arregaçar as mangas, colocar-se na condição de voluntário, sair de sua zona de conforto intelectual e teórica, para entrar na existência vivida de movimento, cujas ações é o que, de fato, realiza sua alma adormecida há tempos.

O livro é dividido em duas partes; a primeira nos mostra um pouco da vida do professor entediado; que demonstra o enfado e percebe a alienação coletiva de uma sociedade que lhe soa cada vez mais estranha. Divorciado, sem grande perspectiva, o personagem se enxerga apenas como mais um intelectual medíocre, cujo único propósito que o faz seguir em frente é uma teoria filosófica que é um misto de curiosidade e escarnio. Sebastião quer compreender sua teoria, contudo, ele conclui que no lugar onde está não conseguirá adquirir conteúdo.

A segunda parte conta a transformação; um mundo novo e tomado de desafios inéditos e primitivos, os quais o protagonista entra de cabeça, vai desatando os nós e, conforme avança, torna-se parte desse novo universo. O mais truncado deles é justamente o novo relacionamento afetivo, mas infelizmente achei que o autor explorou pouco esse aspecto.

A narração prolixa incomodou um pouco, principalmente no final. O personagem, que é quem nos conta a história, possui um ponto de vista documental demais e pouco imersivo. Há momentos em que se estende muito para contar algo simples ou desnecessário, e a conclusão da obra é um pouco cansativa, dadas as muitas voltas que a trama segue.

QUADRONDO é um livro simpático, que tem como potencial a narrativa, que é marca de seu criador, mas talvez pudesse ter enxugado alguns instantes enfadonhos. Caberia uma exploração um pouco maior dos sentimentos de seu personagem principal, porém, isso não chega a estragar a obra como entretenimento.

NOTA: 7,1