domingo, 27 de março de 2022

CONTO - ESTÍMULO

O brilho do metal era hipnótico e persuasivo. A coisa repousava no colo em sono pesado, inofensivo, como se fosse um escorpião sem cauda. Excessivamente alheio, o objeto teve que ser erguido até a cabeça, precisamente um pouco acima da têmpora... Pois tinha que soar perigoso! O cano era quase tão frio quanto o portador daqueles dedos hesitantes; o indicador acariciava levemente o gatilho.

Mas nada acontecia. Nem botes ou picadas..., nenhum disparo.

Faltava algo para o grande momento. Seria estímulo? Então, era o excesso de fraqueza ou ausência de coragem? O objeto pernicioso era devolvido ao colo, enquanto a consciência revirava-se em opiniões, impressões, motivações, contradições.

Era sempre o mesmo cenário: a privacidade do quarto, sentado na cama, próximo da janela, e ficava ali, ouvindo World of Glass, do Tristânia, aguardando a coragem escondida em algum canto dentro de si.

O ato se repetia quase que diariamente. Perdurava até o instante em que se cansava de medir a própria covardia, ou quando se acabavam os argumentos em favor do feito. Então, o objeto adormecido retornava para a gaveta de cabeceira, a música era desligada e o jovem aspirante da finitude, deitava na cama, desligava a luz e tentava dormir.

No entanto, naquela ocasião aconteceu algo inusitado: um expectador surgiu na janela do quarto. Era um homem de meia idade, pele clara, o rosto fino, quase afeminado. Tinha cabelos negros, compridos e lisos, na altura do queixo. Ele fitou o rapaz com curiosidade, como quem admira uma obra de arte indecifrável.

O outro ainda não havia concluído com os rituais, o revolver ainda pairava em seu colo e a música abundava o ambiente. Deparou-se com o sorriso simpático do estranho na janela, que apesar de brando, fora incapaz de impedir o enorme susto.

Mas após algum tempo, aquele sorriso mudou para algo menos inofensivo. De perto parecia travesso e presunçoso.

– Por que você não puxa de uma vez esse gatilho e acaba com isso?

A possibilidade de um instante de insanidade pairou sobre a mente do suicida. Duvidou da existência daquele sujeito na janela. Talvez fosse fruto de sua imaginação, a mente exausta costuma criar cenários por vontade própria, deixando-nos confusos e receosos.

O estranho na janela sustentava o mesmo sorriso e logo notou que não haveria nenhuma resposta, sequer alguma afronta ante sua atrevida presença, sua intimidante pergunta.

– Imagino que lhe falta destreza.

Se é apenas um arquétipo da imaginação, não custa dialogar. O rapaz pausou a música e encarou o sorridente visitante.

– E quem é você? O que quer?

Mesmo demonstrando confiança, os lábios do estranho foram recuando até esconder totalmente os dentes impecavelmente brancos. Disse:

– Sabe, Xavier, eu estive pensando: se a coragem fosse a maior virtude do ser humano, talvez ele próprio já houvesse se dizimado.

O sujeito falava com calma, numa tonalidade quase doce. Parecia um bom homem, tinha um rosto honesto e sereno.

– O que está fazendo na minha janela? E como sabe o meu nome?

O homem fitava o interior do quarto, como se pouco importassem as dúvidas do outro. Parecia mais interessado na bagunça que era abundante no recinto. O típico habitat de um depressivo ou apenas sinal de desleixo?

– Você se chama Xavier de Oliveira – disse o visitante – tem trinta e dois anos, trabalha em um escritório de contabilidade, acredita que essa música será tocada no seu funeral e você sustenta uma inexplicável ânsia por verificar o que acontecerá depois que disparar essa arma virgem contra a própria cabeça..., já parou pra pensar que talvez não aconteça nada?

– Como sabe disso?

– Não disse que sei. Perguntei se você nunca se questionou sobre o nada. Talvez não exista coisa alguma e a morte seja o ponto final.

– Perguntei como sabe tudo isso sobre mim.

– Ah, sobre você... – ele achou graça – Não é o mais misterioso dos homens, não é muito difícil fazer uma leitura de sua vida, caro Xavier.

– Você não fez nenhuma leitura... Foi específico. Como sabe todas essas coisas da minha vida?

Intrigado, Xavier esqueceu do revólver no colo. Que merda de sujeito era aquele na janela? A hipótese de insanidade parecia cada vez mais sedutora.

– O que você gostaria de frasear em sua lápide? – quis saber o estranho.

– Que porcaria de pergunta é essa?

– Então você não planejou nada? Quer tirar a vida sem antes fazer os devidos preparativos? Onde está a carta?

– Carta? – Xavier não conseguia organizar a situação na mente – Do que você está falando?

– Todo suicida deixa uma carta para que as pessoas conheçam suas razões. Alguns mais vaidosos deixam orientações de como as coisas devem ser feitas... – ele olhou para o teto, imersivo – Mas talvez isso seja bobagem. Afinal, ninguém dá a mínima e raramente os caprichos de um suicida egocêntrico são acatados pelas pessoas. Mas eu não posso dizer essas coisas para alguém com uma arma no colo, soaria incentivador.

– Você já as disse.

– É verdade..., peço desculpas.

Estava muito tarde, passava da meia noite, e o homem misterioso aparentava ter todo o tempo do mundo. Xavier buscava entender de modo racional, então resolveu adotar medidas mais drásticas:

– Quer saber de uma coisa, parceiro. Acho que não quero mais atirar na minha cabeça. Eu tô começando a sentir vontade de meter uma bala é nessa sua cara escrota.

– Depois que morrer, que falta você fará, Xavier?

– Não te interessa! – ele apontou a arma na direção do outro – Vaza da minha janela, mano!

– Por que você não experimenta apertar o gatilho, Xavier? Pode ser que após o feito, sua ansiada coragem demore muito e você passe o resto dos seus dias trancafiado numa cela, impossibilitando a execução de seu ilustre desejo... – ele sorriu novamente – Sabe qual é a maior perda que as pessoas sofrem quando vão pra cadeia?

Xavier fitava o estranho diretamente. O revólver rígido apontado na direção dele, embora não houvesse nenhuma intenção pelo disparo. Ele logo soube que não seria dessa forma que o intimidaria.

– As pessoas perdem a autonomia... – respondeu o estranho na janela – E autonomia é o elemento chave do suicida.

A tranquilidade com que falava causava desconforto. Qualquer ser humano em sã consciência ficaria apavorado com um revólver apontado para a cabeça, principalmente se o sujeito não fosse um suicida em potencial, como Xavier pensava ser. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o estranho voltou a falar, ainda com a mesma calma:

– Sabia que o elefante é a única espécie que venera seus mortos?

Silêncio. Xavier baixou o braço, mas manteve-se encarado no estranho. Era um instante quase surreal.

– Eles interrompem a jornada e dedicam alguns minutos de reverência ao esqueleto de outro de sua espécie, quando encontrado no caminho – o sujeito pareceu impressionado com a própria informação que dava – Até mesmo acariciam os ossos..., não é incrível?

– E o ser humano? – apesar do desconforto, Xavier perguntou, como se fosse inevitável.

– O que tem o ser humano?

– O ser humano também homenageia seus mortos.

– Chama isso que vocês fazem de homenagem? – enfim, houve uma gargalhada. Era estranha, desafinada e pareciam múltiplas tonalidades ao mesmo tempo – O rito funeral existe porque o ser humano teme a morte e anseia pela vida eterna. Enterram seus mortos em caixas porque sabem que ele entrará em putrefação rapidamente. E preferem contaminar os lençóis freáticos do que a superfície da terra... Os humanos são todos uns covardes! Eles fogem da morte, acredite no que digo.

O revólver era um calibre trinta e oito, prateado. Comprado novo, jamais havia sido usado. Nem para testar. Xavier olhou para o objeto e então aquilo pareceu algo equivocado. Não sabia mais o significado daquela coisa ou sua funcionalidade.

O estranho na janela parou de rir, lentamente. Enxugou uma lágrima nos olhos, satisfeito. Parecia enternecido com o inesperado encontro.

– O que você quer aqui? – perguntou Xavier, não mais conseguindo esconder o desconforto.

– Quero ver você se matar.

A simplicidade da resposta foi tamanha que soou asquerosa.

– Eu não vou fazer isso..., hoje não.

– Achei que não fosse mesmo – comentou o estranho, o olhar passeou uma vez mais pelo interior do quarto, mas reencontrou o inseguro Xavier, sentado na cama – Você não vai se matar porque não é depressivo, tampouco está doente; não tem uma vida trágica ou mesmo sofreu algum trauma... Não se matará porque sabe que o desconhecido não é uma opção de escolha como fuga desse seu tédio. E embora cada segundo vivido pelos humanos seja um instante inédito, é condição imutável e, portanto, aceita sem questionamento. Mas deliberar por uma possibilidade improvável, como estourar os próprios miolos só pra ver o que acontece depois, seria científico demais até para alguém com inclinações suicidas.

– Tenho coragem de me matar, ok!

– Coragem não é necessário para tal. A falta dela estimula muito mais.

– Por que você não me deixa em paz?

– Quer dizer, na paz de um cadáver? – outra risada – Não farei isso por você. Terá que apertar o gatilho sozinho.

– Vá embora!

– Que tal uma bebida? O álcool pode ajudar a aliviar a tensão.

Desesperadamente, Xavier gritou para que o estranho se calasse, ao mesmo tempo em que voltou a erguer o revólver e, freneticamente, apertou o gatilho sucessivas vezes contra a janela. A inexperiência ou o nervosismo fez com que fechasse os olhos. O barulho dos disparos foi mais perturbador do que imaginava.

Então houve silêncio.

Cheiro de pólvora invadia as narinas, enquanto ele soltava a arma sobre o colchão, como se o próprio objeto o houvesse obrigado a efetuar os disparos. Xavier levantou-se e foi até a janela. Inclinou-se para ver o cadáver de seu desafeto. Porém, não encontrou nada, nem ninguém do lado de fora. Onde deveria haver um corpo perfurado, completamente chamuscado de rubro, havia apenas o quintal vazio e ordinário. O chão estava limpo e imaculado. Nenhum sinal de morte.

Teria sido, de fato, a imaginação de Xavier, que ultrapassara o limite da sanidade, elaborando um diálogo quase palpável com o inexistente? Ou seria fruto de um louco que, ao notar a intenção real dos disparos, correu afoito, tão ligeiro que não foi alvejado? Seria o ocorrido fruto do sobrenatural, cuja manifestação maligna se fez na janela, intencionada em fomentar a perda de mais uma vida? Ou seria um anjo de Deus, que com aquela conversa contraditória, evitou que Xavier disparasse contra a própria cabeça?

Era difícil saber.

Então o amedrontado rapaz fechou a janela com o trinco. Desligou o interruptor e deitou na cama. Sentiu o desconforto por ter se deitado sobre o revólver. Xavier o retirou debaixo de si..., ainda estava quente e cheirava a pólvora. Alucinação ou não, ele finalmente havia criado coragem de apertar o gatilho..., e não sabia se isso era uma evolução boa ou ruim.

***

(Conto Publicado no Recanto das Letras, no ano de 2011)

sábado, 5 de março de 2022

RESENHA DE LIVRO – O FILHO DE MIL HOMENS

O dramaturgo espanhol Jacinto Benavente, salientou que “ninguém aprende a viver pela experiência alheia; a vida seria muito triste se, ao começarmos a viver, já soubéssemos que viveríamos apenas para renovar a dor dos que viveram antes de nós”. Partindo dessa reflexão de Benavente podemos considerar que o ineditismo da vida é fundamento que nos tira do enfado, muito embora a espécie humana, sendo altamente sociável, desenvolve suas experiências através da interatividade com as experiências do semelhante. E a literatura possui alguns títulos pertinentes para pensarmos essa ideia.

Cada vez mais admirador da literatura portuguesa, sempre que tenho a chance, vasculho em livrarias e sebos à procura de escritores lusitanos. E chegou a vez de conhecer Valter Hugo Mãe e sua mesclagem de vivências humanas que compõem este belíssimo O FILHO DE MIL HOMENS.

Novamente o tipo de livro cuja sinopse é insuficiente no sentido de determinar seu conteúdo ou causar interesse imediato: tomado pela mais ardilosa maledicência que invade o ser humano, vazio existencial, o pescador Crisóstomo quer encontrar um filho (veja que não é encontrar o filho, mas encontrar um filho), e por meio disso expurgar sua inadequação permanente. Convencido de que este seria o meio eficaz para eliminar a falta de sentido existencial, o protagonista acredita que um filho vai sanar essa falta. Entremeio, outros personagens logo surgem, em capítulos aparentemente distintos, mas que se trata de outras vidas em busca de preenchimento para o mesmo mal que parece quase inerente ao personagem.

A problemática do anseio de cada um esbarra nos conceitos sociais vigentes, o que impossibilita que a autenticidade individual seja aflorada, restando ressentimentos e dúvidas, então a noção de vazio segue irremediável na vida de todos, porém de forma diferente, revelando cada um deles como individualidades aleatórias e desesperançadas.

O enredo em sua essência é um enfoque da aceitação de quem somos como fundamento para uma vida menos triste. Parece coisa de autoajuda, mas passa longe disso. Valter Hugo Mãe destila os mais distintos personagens e, através de seus conflitos existenciais, a mensagem parece estar lá o tempo inteiro. Sem parecer piegas, aqui os eventos apenas comprovam que a aceitação do lugar onde se está é o fundamento para que vivamos melhor. Não se trata de atributo intrínseco dos envolvidos. Cada personagem narrado nesta bela obra vai encontrar com outro personagem, e o choque de imperfeição deste servirá como encaixe preciso na existência do outro.

Apesar de termos em Crisóstomo como sendo o personagem central, mencionado na sinopse do livro e o capítulo que dá nome a obra é exclusivamente sobre ele, aqui ninguém parece ter demasiado destaque. Todos os personagens dividem espaço de importância democraticamente, o que fez com que a importância de todos fosse notada. Seria um problema caso alguns personagens fossem menos instigantes do que outros, porém, Valter Hugo Mãe soube contornar isso, destilando aspectos distintos na composição de cada um de seus narrados, tornando a todos protagonistas os quais o leitor quer conhecer.

Basicamente todos são necessários por conta da mensagem do livro.

Aqui o sentido da vida está no outro! Essa mensagem permeia quase que toda a obra, assim como é o combustível que os move para longe de suas insignificâncias. Lugar doloroso que carece do convívio para reestabelecer a esperança. E quanto mais inadequado o ser, maior o anseio pela reciprocidade, que geralmente surge em instantes inimagináveis da vida.

O FILHO DE MIL HOMENS é uma obra delicada, de personagens críveis em suas misérias, cuja esperança parece ser o único elemento que jamais morre. Um livro que não adoça as coisas e nos conduz a um lugar de efervescência e espanto, que se situa entre as tragédias e ironias da vida. Sem nenhuma pretensão de ser um mero indicativo de que a felicidade possui uma fórmula, Valter Hugo Mãe, por meio de seus personagens complexos, nos mostra que, onde quer que estejamos, o que nos resta é apenas a vida.

NOTA: 8

sábado, 26 de fevereiro de 2022

RESENHA DE LIVRO – A ELITE DO ATRASO

Por conta do extremismo de direita cada vez mais acentuado, a desigualdade social escancarada e a interminável pandemia do Corona Vírus, a sociedade brasileira vive tempos praticamente inomináveis, tamanha é nossa perplexidade perante o desalento e desesperança do cidadão comum. Violência se tornou medida considerável, a intolerância perdeu a vergonha em se expor, o racismo prolifera e segue cada vez mais indelével, o fantasma da fome está de volta ao país.

Tempos de crise dessa magnitude trazem a oportunidade de se repensar a sociedade, suas raízes, a legitimação de sua história, a desconstrução de ideias que parecem consensual e até incontestáveis. É o que o sociólogo Jessé Souza nos propõe neste conteúdo necessário, que foi revisado recentemente: um ponto de vista fora da caixa; uma reflexão mais enxuta capaz de diagnosticar a bárbara realidade em que nos encontramos.

Para se chegar à compreensão da famigerada elite do tema de sua obra, Jessé percorre três aspectos centrais ao longo deste A ELITE DO ATRASO: nossa enraizada escravidão; a luta de classes por privilégios e distinções presente na política do Brasil moderno; estes dois chegando ao profundo diagnóstico do momento atual do país. Eis o convite a singularidade analítica do autor; o tipo de conteúdo que tenho buscado recentemente, pelo meu anseio de tentar compreender a tragédia na qual estamos inseridos.

Jessé Souza inicia seu trabalho analisando as bases do poder social legitimado, cuja chave de acesso à tal consagração está no pensamento intelectual; e desse ponto de vista, logo conclui-se dois nomes imprescindíveis de influência do pensamento coletivo: o historiador Sergio Buarque de Holanda e o sociólogo Raymundo Faoro. Segundo o autor, estes intelectuais difundiram como nenhum outro a forte propagação da ideia de culturalismo e patrimonialismo incutidas em suas respectivas obras referenciais: “As Raízes do Brasil” e “Os Donos do Poder”, determinando assim o arquétipo específico no pensamento coletivo. Trata-se de um horizonte de definição dos pressupostos para qualquer tipo de conhecimento. Tais obras trouxeram à tona os malefícios que a propagação dos paradigmas do patrimonialismo e culturalismo racista incutidos na sociedade brasileira como um todo. Isso fica explicitado em “Raízes do Brasil”, quando o autor reforça o viralatismo do brasileiro, ou seja, a ideia de que nosso povo, por ser conhecido pela sua afetividade e informalidade, tenderia a práticas corruptas. “Normalmente todas as pessoas são influenciadas pelo paradigma na qual estão inseridas e ninguém, em condições normais, pensa além de seu tempo”, (pág. 15). A escassez de interpretação dominante é apontada e intensificada de modo contundente:

Por conta disso, quem controla a produção das ideias dominantes controla o mundo. E também por isso, as ideias dominantes são sempre produto das elites dominantes. É necessário, para quem domina e quer continuar dominando, se apropriar da produção de ideias para interpretar e justificar tudo o que acontece de acordo com seus interesses”. (pág. 26).

O golpe de 2013 fundamentou o agravamento da desigualdade social, políticas públicas de desconcentração de renda foram adotadas pelos governos de esquerda, fazendo com que as classes mais pobres galgassem melhores condições sociais; tiveram poder de compra e acesso à educação superior (universidades). Isso despertou rancor e indignação das elites brasileiras (exemplo das incursões das domésticas na CLT e o acesso das classes menos favorecidas em ambientes tomados como exclusivos das elites, como aeroportos). Jessé elucida:

O ódio ao pobre hoje em dia é a continuação do ódio devotado ao escravo de antes. Quando as classes médias indignadas saíram às ruas a partir de junho de 2013, não foi, certamente, pela corrupção do PT, já que os revoltados ficaram em casa quando a corrupção dos partidos da elite veio à tona. Por que a corrupção do PT provocou tano ódio e a corrupção de partidos elitistas é encarada com tanta naturalidade? É que o ódio ao PT, na realidade, foi o ódio devotado ao único partido que diminuiu as distâncias sociais entre as classes no Brasil moderno” (pág. 70).

Segundo o autor, o principal foco do patrimonialismo é tornar invisível a privatização do público pelas elites, deixando o Estado como espantalho; mero bode expiatório que camufla o real assalto aos recursos públicos, tornando o caminho livre para o mercado, verdadeiro agente de rapina da sociedade. Nas palavras de Jessé:

Na verdade, o Estado é privatizado em todo lugar, e a noção de patrimonialismo apenas esconde mais esse fato fundamental, possibilitando uma dupla invisibilização: dos interesses privados que realmente dominam o Estado e do rebaixamento geral dos brasileiros, que passam a tratar não apenas os estrangeiros, mas os interesses estrangeiros, como superiores e produto de uma moralidade superior” (pág. 145).

A economista Maria Lúcia Fattorelli, líder da associação Auditoria da Dívida Cidadã, aponta para o que seria o maior entrave em nossa economia e alienação de recursos: a dívida pública brasileira; chaga que consome mais de 38,27% do PIB nacional e, “curiosamente”, passa despercebido pela grande mídia. Este, que considero a principal problemática que atravanca nosso crescimento, também recebe o olhar do autor:

A taxa de juros reais no Brasil é a maior do mundo para remunerar precisamente o 1% mais rico que, no nosso caso, deixa literalmente de pagar impostos. O orçamento estatal, agora pago pela classe média e pelos pobres em sua maior parte, deixa de ser usado em serviços essenciais para pagar de volta aos ricos, por meio da “dívida pública”, o que eles deveriam ter pago como todos os outros cidadãos. Os ricos não só não pagam o que deveriam, como ficam ainda mais ricos porque cobram uma sobretaxa, que é a maior do mundo no caso brasileiro, pelo dinheiro que emprestam e que deveriam ter pago como imposto” (pág. 173).

Eu poderia seguir destacando partes do livro que são elucidativas de suas ideias e temas, mas isso estenderia ainda mais esta já alongada resenha. Vou apenas exibir uma última citação para reforçar a importância da obra e, posteriormente, elencar o único ponto que me incomodou ao longo da leitura:

... grande corrupção brasileira está localizada no Banco Central e é gerenciada por pessoas com doutorado em Chicago, onde aprenderam todas as manhas para transferir o resultado do trabalho coletivo para as mãos de uma meia dúzia. Uma “dívida pública” que não é nem “dívida”, posto que sem contraprestação à sociedade, nem “pública”, posto que cheia de falcatruas privadas, daí que jamais auditada e de conteúdo secreto, assegura o controle do orçamento público pago pelos pobres e pela classe média. Juros extorsivos, onze vezes maiores que os praticados num país de juros médio como a França, garantem uma forma de apropriação da riqueza coletiva de modo opaco e invisível para a população endividada e achacada pelo rentismo” (pág.  238).

Um ponto que me incomodou um pouco foi a forma com que o livro releva as responsabilidades do PT. Qualquer brasileiro que não seja fanático sabe que foi o governo de Lula que fez acordos com gente torpe, como Eduardo Cunha (ele recebeu o sistema Furnas para fazer o que sabia melhor: roubar); que segundo a Secretaria do Tesouro Nacional, enquanto o petista esteve no poder, foi transferido para os barões do sistema financeiro, via juros bancários, mais de 4 trilhões de reais. De fato, foi o PT o governo que implantou importantes sistemas de inclusão dos mais pobres, mas foi também o PT que fez pactos com todo tipo de canalha numa tentativa de se perpetuar no poder.

Enfim, A ELITE DO ATRASO é amplamente rico em discernimento e traz uma diferente perspectiva de nossa tragédia, bem distante do lugar comum ao qual estamos acostumados. É um trabalho que faz questão de destacar que a herança escravocrata ainda é o maior retrocesso da nossa sociedade e não se acovarda ao definir culpados (por exemplo a mídia brasileira) pela tragédia que nos levou a eleição de figuras deploráveis, como a de Jair Bolsonaro em 2018..., um livro fundamental!

NOTA: 8,5

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

RESENHA DE LIVRO – VIVÊNCIAS


Algumas leituras me causam deslocamento, um empurrão nem um pouco sutil para fora do lugar comum, e caio num espaço de reflexão interminável. Isso aconteceu quando tive minha primeira experiência na literatura de Hermann Hesse. O LOBO DA ESTEPE foi uma leitura subversiva ao mesmo tempo imersiva; foi um daqueles livros em que desejo voltar à suas páginas, mas sei que dificilmente isso acontecerá, porque tenho mais leituras por fazer do que tempo disponível. E diante desse cenário insolúvel de anseios improváveis, aguardava pela chance de obter outras obras de Hesse para seguir desbravando seu vasto universo. Não por escolha, mas por acaso, me deparei com este VIVÊNCIAS.

Pois a expectativa de uma leitura abundantemente introspectiva se desfez, o que não foi algo ruim. Surpreendi-me com um texto em primeira pessoa, leve e inteligível, quase uma conversa com o leitor. VIVÊNCIAS é um conjunto de textos cujo olhar independente do autor impera, de relatos triviais que convida o leitor a ler mais uma página. Um estilo bem distinto de sua obra mais famosa e que citei no início, onde o fluxo de consciência permeia todo seu conteúdo.

Aqui temos uma antologia de crônicas de Hesse, reunidas em tempos longínquos de sua vida; experiências pessoais que vão desde a juventude de Hesse até tempos mais maduros, quando o escritor alemão migrou para a Suíça. Um conteúdo de linguagem limpa e lúcida, de destaque para a notória sensibilidade contemplativa do autor.

Algumas crônicas trazem experiências de Hesse, as quais temos maior proximidade com os estímulos e suas conclusões. Há textos os quais cheguei a me familiarizar com a forma dele enxergar ao redor e a si mesmo. Hermann Hesse revela notória lucidez de suas limitações acerca da própria estrutura existencial, principalmente quando lida com mulheres, o escritor não esconde sua natureza introvertida e, ao mesmo tempo, indignada com o fracasso recorrente dessa condição.

Alguns textos possuem um olhar mais externo, de impressões adquiridas apenas pela observação ou pela condição de ouvinte, em que Hesse vai nos contar aquilo que ouviu de outras pessoas que passaram pela sua vida.

A lanterna espiritual do autor parece iluminar lugares lúgubres de sua mente e o que ele registra é exatamente aquilo que sentiu quando vivenciou. A composição é amplamente orgânica, sem nenhum receio de desnudar-se, dizer equívocos ou rir de si mesmo. Encontramo-nos a nós, limitados e imperfeitos seres, em vários pontos da obra.

VIVÊNCIAS foi uma leitura fluida, que apesar de completamente discrepante do modo narrativo destilado no LOBO DA ESTEPE, tratou-se de uma variação agradável; desconhecida faceta que fez com que se elevasse meu interesse em seguir explorando a literatura deste vencedor do Nobel de Literatura. Não sei se este serve como livro de entrada em razão dessa mesma inconsonância, mas vale como leitura pela alta sensibilidade, linguagem coloquial e honesta de Hesse.

NOTA: 8,2

sábado, 8 de janeiro de 2022

RESENHA DE LIVRO – O TIGRE BRANCO

Acho que a experiência de leitor e autonomia de espaço, são elementos que me tornam seletivo em relação aos livros que farei resenhas aqui no blog. Primeiro porque estou cada vez mais livre da neura mental que me obriga a falar sobre todos os livros que leio. Também porque não quero mais falar de livros que não mexem comigo. Para o bem ou para o mal, estou tentando compartilhar minhas impressões apenas das obras que causam, naturalmente, a vontade da falar sobre eles.

Algumas coincidências ocorreram quando da aquisição dessa agradável obra, que ganhou prêmios, prestígio e o cinema de streaming. Vale salientar que eu não fazia ideia de que se tratava de um livro cujo cenário é a Índia, nação a qual já li mais livros do que pretendi, a maioria deles vieram parar em minhas mãos de modo ocasional. Outro estímulo é que encontrei o livro em promoção, olhei rapidamente a sinopse e achei que valeria à pena para fechar a lista de compra. Geralmente demoro a ler novas aquisições, porque sempre tem muita coisa na fila, enquanto continuo comprando livros compulsivamente. Ou seja, quando finalmente resolvi encarar este O TIGRE BRANCO de Aravind Adiga, eis que o filme de mesmo nome desemboca como sucesso no canal de streaming Netflix.

E a leitura se mostrou uma agradável surpresa, até porque antes do início eu já me via com certa desconfiança, a começar pelo título da obra que me parecia estereotipado demais, embora a trama se antecipe e, de forma madura, explicita sua nomenclatura, dificilmente um título como esse me faria tirá-lo da prateleira. Enfim, o primeiro elemento elogiável da leitura já se manifestou no princípio: uma condução simples, fluida e agradável. Em poucos parágrafos o leitor já se vê completamente envolvido pela narrativa em primeira pessoa.

Nascido em região de extrema pobreza da Índia, o personagem narrador da trama nos conta, em forma de cartas que escreve para o excelentíssimo senhor primeiro ministro da China, Wen Jiabao, de viagem marcada para visitar a Índia, sua história de transformação em criatura rara que dá nome ao título da obra. O jovem Balram nada mais é do que um ordinário indiano vitimado pela desigualdade extrema que assola o país. Portanto, suas perspectivas são poucas. Então temos aqui a trajetória de um desprovido e desesperançado até sua evolução à espécie rara, cuja natalidade acontece em proporções quase que milagrosas; o livro quer nos mostrar a árdua forja de um simples homem num tigre branco.

Analogias à parte, a trama quase derrapa no lugar comum do personagem desprovido que, por sua própria astúcia, torna-se bem sucedido. No entanto, Aravind Adiga soube fugir do banal, introduzindo em sua obra um personagem que não carrega a capa de super-herói, muito menos faz uso de meios éticos quando resolve deixar o Tigre sair de dentro de sua insignificância. Veja que o mito do Tigre Branco faz referência a um modo de desenvolvimento como um todo. Ou seja, evolução não significa tornar-se um ser humano moralmente melhor..., evolução é uma palavra neutra.

Outro acerto fica por conta da linguagem textual, que pela estrutura e continuidade orgânica, aproxima o relato daquilo que ele, de fato, se propõe: estamos lendo uma carta informal para o primeiro ministro chines. Há momentos muito bons em que o narrador deixa claro o lugar pouco comum em que cresceu e que justifica sua percepção de mundo; também narra de forma eficiente conceitos distorcidos que se adquire ao longo de uma vida precária em contraste com gente bem sucedida, o veneno do empreendedorismo que exclui o discernimento e insere na mente das pessoas o sentimento de que tudo vale na selva capitalista. O nosso tigre branco destoa como um felino de excelência, mas não mede as consequências para tal.

A realidade precária de um país abandonado e desigual é relatada aqui na voz do personagem; ou seja, pouco se narra sobre os acontecimentos periódicos e quase não se fala da complexidade política de um país como a Índia. Se você é um autor em busca de maior contato com o desfecho sociológico ou a estrutura diversificada da nação indiana, este livro não lhe saciará. Aqui tudo é muito implícito ao olhar do narrador, o que não é ruim, pelo contrário, torna a trama interessante ao mesmo tempo em que foge da exposição situacional. Livros mais abrangentes como SHANTARAM ou O SÁRI VERMELHO são obras melhores acabadas no âmbito cultural e político da Índia.

Outro ponto que vale observação é sobre a evolução do personagem. O TIGRE BRANCO conta a história de seu protagonista, mas concentra-se apenas enquanto este não se torna o “produto” acabado; Balram revela sua vida apenas até o instante em que se torna o tigre branco do título. Depois disso, o livro parece apressado em chegar ao término, deixando a impressão de urgência ou incompletude nos instantes finais. Mas embora a história de um indivíduo desprovido de perspectivas seja um elemento infinitamente explorado na literatura, aqui a coisa parece não se concentrar meramente na evolução de um desamparado em empreendedor de sucesso. A trajetória de Balram denota que despudor e indiferença também são elementos fundamentais quando se vive sob o jugo de regras extremas de desigualdade capitalista.

O TIGRE BRANCO foi uma agradável descoberta, alívio literário por conta de sua linguagem simples e instigante, com uma história que, embora nem um pouco original, sabe entreter por meio de recursos narrativos eficientes. Agora que já apreciei o universo do autor Aravind Adiga, vou conferir a versão de sua obra para as telas..., recomendo este agradável livro.

NOTA: 7,5

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – BUFO & SPALLANZANI


O imperador filósofo Marco Aurélio dizia que o escritor não deve deixar passar nenhum dia sem que seja escrito ao menos uma linha. Comecei a fazer resenhas de livro como uma forma de manter o exercício da escrita, principalmente em tempos de pouca inspiração e muito tédio. O intuito nunca foi o de me proclamar um crítico de literatura, mas a exposição de um leitor apaixonado, que na ausência de companhia para falar sobre livros, criou este espaço para se expressar.

Rubem Fonseca é um dos escritores brasileiros que mais li e resenhei aqui no blog, e sabendo que não há mais nada para se dizer sobre sua excelente bibliografia, não tinha nenhuma pretensão em falar sobre este BUFO & SPALLANZANI. Contudo, após o término da leitura, achei que valia à pena dispender alguns parágrafos sobre ele, dado seu conteúdo um pouco diferente dos romances policiais convencionais.

Temos aqui a história de um assassinato, cuja suspeita de autoria cai sobre os ombros do amante da vítima e narrador da trama, Gustavo Flavio. Logo somos apresentados a outro personagem potencialmente suspeito: o marido. Também não demora a surgir uma confissão do crime, que propositalmente soa um tanto leviana e fora de contexto. Porém, apesar do aparente estilo clichê dos romances policiais, o livro não se prende ao mistério do assassinato, optando por uma condução, digamos, descontinuada de progressão, o que até pode incomodar alguns leitores.

O livro é dividido em cinco partes. A primeira parte é mais curta e introdutória, porém, de uma profundidade extraordinária, o livro já me ganhou de cara! Esse capítulo narra a morte da vítima e a relação do narrador com a finada amante. A segunda parte conta sobre os tempos de juventude do narrador. O capítulo é muito bom, a genialidade de Rubem praticamente nos faz esquecer de que estávamos acompanhando o misterioso assassinato. Já a terceira parte o ritmo parece diminuir e a trama fica menos interessante. Relata um refúgio no qual o narrador, que esqueci de mencionar, é escritor de literatura, este resolve passar um tempo dedicado ao desenvolvimento de sua nova obra intitulada Bufo & Spallanzani.

Na quarta parte voltamos aos acontecimentos com o assassinato que principiou a trama. Aqui novas revelações que até soam um pouco óbvias, mas necessárias para que se retome o interesse pelo ocorrido. O livro aqui se renova e ganha fôlego. Então, seguimos para a conclusiva quinta parte, descobrimos um mistério paralelo que se fez durante a terceira parte, e claro, descobrimos o mistério do assassinato central.

BUFO & SPALLANZANI é um livro que parece brincar (ou zombar) com o gênero romance policial. Tem personagens centrais interessantes, algo tão característico de Rubem Fonseca, alguns personagens menos apreciáveis, principalmente no terceiro ato, uma conclusão pouco impactante, mas que não decepciona.

Enfim, esta obra de Rubem, como na maioria de suas outras, é interessante, bem escrita e de personagens instigantes. Não foi minha leitura favorita do mestre Rubem, mas busca fugir do lugar comum dentro do gênero e, claro, por isso, torna-se uma obra singular. Marasmo é algo que simplesmente não existe nas obras de Rubem Fonseca.

NOTA: 7

sábado, 18 de dezembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – INFÂNCIA

Por razões que me escapam, Vidas Secas segue como obra que ainda não alcançou meu caminho de leituras. Graciliano Ramos continua, igualmente a outros gigantes da literatura nacional, uma grandiosidade assombrosa que intimida por seu pedestal alçado pela crítica erudita, mesmo que eu seja consciente de que a leitura de qualquer obra é uma experiência singular e distinta do escopo técnico e, portanto, nem um pouco opinativa. Careceria de mil anos para conhecer tudo de bom que a literatura mundial tem a oferecer; e é lamentável saber que não terei vida para desfrutar de tudo o que anseio ler.

A primeira porta que abri para o universo de Graciliano foi este INFÂNCIA, livro que mistura suas memórias primitivas com um tanto do desenvolvimento artístico do criador, recheado de elementos que denotam um propósito confessional seco, sem nenhuma pretensão ao eufemismo, tão comum nesse tipo de literatura.

INFÂNCIA se trata de uma narrativa das primeiras memórias do autor, construídas em capítulos curtos, com linguagem pouco cândida, mas vernizada por lirismos corteses. E embora a simplicidade do título ou a impressão que se tem de meras memórias de um passado longínquo, temos aqui uma obra que soa melhor como incursão autoanalítica mordaz e nem um pouco misericordiosa, quase um diário. É uma não criança falando da criança que um dia foi, sem a neutralidade da inocência, cujo cenário nordestino de pobreza, miséria e violência são quase palpáveis.

Temos aqui uma reunião de lembranças de tempos remotos misturados à ficção proposital, que como tal, é usada nesta obra talvez para preencher lacunas ou o cacoete característico do escritor fosse inseparável de sua literatura, mesmo quando esta possui uma premissa altamente biográfica.

É curioso a percepção que tive ao ler o relato que o autor fez de suas primeiras impressões com a literatura. Graciliano não se considera uma existência extraordinária, pelo contrário, vê-se como alguém ineficiente e incapacitado, que diferente do que pensa o senso comum, fez da literatura sua maneira de fugir da própria mediocridade. Não está lá implícito no texto, mas Graciliano deixa isso bem claro em muitos momentos. Foi a primeira vez que encontrei esse tipo de manifesto de escassez existencial, pela qual me identifiquei totalmente.

Há momentos em que algumas frases se perdem pela linguagem desusada e característica de uma comunidade. Contudo, mesmo isso não foi empecilho para que eu seguisse adiante com a leitura, até porque o charme da obra bebe da mesma fonte.

INFÂNCIA é um livro forte. Vai falar sobre a percepção de um olhar de menino, que equivocada ou não, denota a intensidade que este período da vida causa em cada um de nós; das violências verbais e físicas, a alienação existencial, falta de estrutura moral, psicológica e também social, um coquetel de traumas que moldará os alicerces de cada ser humano..., eis um livro necessário.

NOTA: 8,2

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

ANIVERSÁRIO DE CLARICE LISPECTOR

Em tempos extremos de desesperança por todos os âmbitos existenciais, onde quase não restam lugares de alento em que se possa buscar algum escape, eis que a literatura segue firme em sua função de amainar mentes em trevas. Parece que vivemos tempos de tragédia imutável, a qual nem é prudente dizer que não pode piorar, porque é uma falácia equivocada, cujos últimos dois anos nos ensinaram que, sim, sempre haverá espaço para piorar: uma pandemia interminável, um governo federal deliberadamente escroto, a fome que voltou a ser constante na vida dos brasileiros, violência por todos os lados..., talvez Sartre tivesse razão quando disse que o mundo poderia, sim, sobreviver sem a literatura, mas passaria muito melhor sem o homem.

Refletindo sobre essa ideia, sinto-me em conflito existencial justamente por conta da exoneração sugerida. Afinal, um mundo sem literatura seria, fatalmente, um lugar sem o homem (a definição homem aqui refere-se ao ser humano em geral. Vivemos tempos em que o óbvio precisa ser explicado, incessantemente). Sim, pois é o homem quem constrói a literatura..., talvez e, somente talvez, o mesmo Sartre estivesse correto, porém, relativamente destoante ao dizer que o inferno são os outros. Porque se isso for uma constante, deve-se também ser levado em consideração o fato de que o paraíso também são os outros.

Os grandes autores da literatura compuseram um verdadeiro éden ao alcance de qualquer um de nós que sustente o mínimo de interesse, disponibilidade substancial relativa ou uma biblioteca decente em sua cidade.

A aniversariante aqui homenageada nos deixou um legado incomensurável!

É impossível para este leitor que vos escreve esquecer do aniversário da nossa querida rainha. Além do fato de estar reverenciando a maior escritora judia desde Franz Kafka, Clarice Lispector nasceu um dia antes do meu aniversário. Portanto, na semana de seu nascimento eu costumo interromper minhas leituras para viver uma semana especial; uma semana de Clarice..., e o poder de sua literatura continua me salvando dos males mundanos.

Esta semana na companhia da senhorita Lispector eu escolhi reler A LEGIÃO ESTRANGEIRA. Deliciosa coletânea de contos que permeia, como é marca registrada da autora, os distúrbios e expectativas existenciais. O ser humano na literatura de Clarice é o objeto profundamente dissecado.

Atente-se, sobremaneira, para o estilo escritural da autora, regido sempre por uma sensibilidade extraordinária, Clarice demonstra através de seus personagens em que medida a tragédia e inconstância se movimentam e podem convergir para imagens de rara beleza e densidade.

A releitura é sempre um novo encontro. A evidente experiência situacional explicitada em cada conto, denota o encaixe preciso; cedo ou tarde o leitor será capturado pela sedução do texto. E geralmente o reencontro com o mesmo texto, transformado que foi o leitor pelo tempo, proporciona um novo prazer; um novo aprendizado..., a literatura de Clarice evolui conforme relemos. Não por acaso alguns críticos sugerem que a literatura de Clarice Lispector é como bruxaria.

Mas tentando evitar o requinte desnecessário, fica aqui apenas minha singela lembrança e recomendação para que você também descubra essa gênia da escrita. Permita-se! Não tenha medo de mergulhar no improvável escuro da alma humana. Logo após o assombro, vem a introspecção..., e por fim, o encantamento!

FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!

sábado, 20 de novembro de 2021

CRÔNICA - O ÔNIBUS

Seu destino geral todos conhecem ou desconfiam. Já o destino de cada um ninguém sabe, exceto aqueles indivíduos que estão devidamente caracterizados. Alguns mudam de rota, outros desistem; não raro alguém desce imediatamente após embarcar, certamente deixou para trás algo importante. Há aqueles cujo intento foi modificado durante o trajeto, influenciados que foram por outros usuários. Mas independente do lugar para onde estejam seguindo, que todos sejam reconhecidos por sua nomenclatura ordinária: eles são passageiros.

Toda essa ênfase com a definição se deve ao fato de que os passageiros desejam dispender o menor tempo possível no interior da grande caixa metálica. Passageiro é um termo direto que reconhece a todos como indivíduos submetidos a um procedimento transitório; que nada acontece no mundo enquanto estiverem ali, no interior do muambado, sendo transportados de um espaço para outro. Ali é onde ocorre o intervalo da vida; nada acontece dentro do coletivo e nunca alguém buscou seus serviços por estar com saudade daquele sacolejo constante, do sobe e desce de gente estranha, de todo tipo de individualidade..., eis o aglomerado humano onde todos estão unidos, mas cada um buscando seu próprio destino.

O ônibus é o neutro em movimento.

O cinema já explorou à exaustão o tema da máquina do tempo. Comumente, trata-se de uma cabine hermética, cujo usuário é transportado para determinado época, inserindo suas coordenadas temporais num painel cheio de botões. Pois bem, agora imagine se um ônibus coletivo não tivesse janelas e as imediações do motorista fossem impedidas aos passageiros, como acontece nas cabines dos aviões comerciais. Ou seja, nestas condições estaríamos presos dentro de uma caixa sem saber o que está acontecendo do lado de fora, e somente reestabeleceríamos o contato com o mundo quando chegasse o momento de desembarcar. Sabe aquela sensação estranha quando saímos de um elevador? De repente, adentramos uma caixa metálica posicionada no térreo de um edifício, então, magicamente essa caixa se abre e sentimos vertigem por conta da repentina visão de uma cidade há quilômetros de profundidade. Saímos de um mundo, aparecemos noutro. Assim deve ser a sensação de se viajar numa máquina do tempo...

Pois um ônibus sem janelas seria como um elevador; usuários conspirariam a possibilidade de que o trajeto não existe; que o ônibus simplesmente se teletransporta de um lugar para o outro. Afinal, o passageiro só conhece o ponto de embarque/desembarque e o interior da máquina. Ninguém sabe como é ou como funciona o poço de um elevador.

Mas as janelas dos ônibus nos permitem o testemunho do trajeto, muitas vezes até proporcionam a apreciação de uma bela paisagem. É através das janelas que sabemos identificar nosso destino, e o instante preciso de puxar a cordinha. Da janela somos todos isentos, observando o mundo continuar sem nós por algum tempo. Vez ou outra, paira a noção de que talvez não seja tão ruim assim estar dentro do ônibus, afinal, do lado de fora está sempre acontecendo um instante de estresse, uma briga no trânsito, um acidente. Abençoado ônibus que nos ofereceu a condição de expectadores da vida ordinária. Quem está dentro do ônibus não tem nada a ver com o mundo lá fora.

Mas e esses passageiros, quem são? De onde aparece tanta gente?

Sei que vai parecer estranha a comparação, mas os humanos são meio como baratas: estão em toda parte, surgem do nada e a gente nunca sabe de onde aquela criatura veio. Talvez Franz Kafka compreendesse o que quero dizer, afinal, o escritor foi ao limite do absurdo em sua comparação do ser humano com um inseto.

Enfim, este distinto e corrosivo ser andante vai surgindo de vários pontos e todos se reúnem em específico local, à margem de uma rua. Todos espremidos na calçada, entediados pela repetição do ato, quase não se falam. Olham para o chão, verificam o celular, fones nos ouvidos, um ou outro comenta sobre o tempo maluco. A espera faz os minutos parecerem horas. Então, irrompe no horizonte o caixote retangular de rodas, que estaciona diante do aglomerado humano e todos desaparecem da calçada.

Encontram-se agora espremidos em seu interior, entediados pela repetição do ato, quase não se falam. Olham para a janela, verificam o celular, fones nos ouvidos, um ou outro fala sobre o tempo maluco, talvez o mesmo sujeito que o fez lá na calçada, há pouco. Por que essas pessoas resolveram sair de suas casas ao mesmo tempo? É tanta gente junta que quase não cabe no ônibus, elas se encolhem para entrar, penduram-se na porta, corpos imprensados, compartilhando calor, suor, fluídos salivares, bactérias..., um verdadeiro enlatado humano.

Gente branca, preta, amarela, marrom, cinza. Vestem todo tipo de indumentária, jeans, malha, moletom, manga longa, manga curta, short, bermuda, saia, vestido, macacão, uniforme, terno e gravata. Mochilas, bolsas, sacolas de supermercado, sacola de loja de utilidades em geral, sacolas plásticas, sacolas de papel, bolsa de viagem, bolsa tiracolo, chapéu, boné, tiara, pregadeira, caneta prendendo os cabelos na cabeça..., cabelos pretos, loiros, ruivos, encaracolados, crespos, compridos, curtos, grisalhos, cabeças sem nenhum cabelo... Dezenas e dezenas de cabeças reunidas.

De repente, um inesperado buraco e as rodas sofrem o impacto, um tranco fugaz e todos os ombros chacoalham ao mesmo tempo. Logo depois, uma freada brusca, e a pressão exercida pela frenagem faz aquelas muitas cabeças reverenciarem em sincronia. Alguém se levanta e sai amassando e sendo amassado por outros corpos, puxa a cordinha. O busão, que estava em movimento, diminui até parar. Lá fora, outro grupo de pessoas juntas na margem da pista. Humanos trocam olhares, descem dois, entram quatro. As portas se fecham com dificuldade, a lata gigante de sardinha dá seta para retomar o percurso. Alguém puxa a cordinha de novo, mas o condutor não tem paciência, ainda tem muito chão pela frente, não há tempo a perder.

Peraê, motor!

O ônibus espera um pouco mais. Alguém está bloqueado no emaranhado de corpos. Ele puxa, estica, aperta, empurra, chuta, pisa e é pisado, busca mais um espacinho, vai lutando por cada centímetro em direção à porta de saída.

Do lado de fora, o outro aglomerado de humanos observa a caixa de metal carregada de gente, e acha aquele cenário natural; aguardam avidamente pela chegada de seu ônibus, todos juntinhos, entediados pela repetição do ato, quase não se falam, olham para aquela caixa parada que não lhes serve, depois voltam a verificar o celular, fones nos ouvidos, alguém comenta sobre o calor infernal..., os de fora invejam a sorte dos de dentro, porque já estão no caminho de seus destinos; os de dentro anseiam a liberdade dos de fora, porque eles respiram ar limpo, possuem distanciamento decente e correm menos riscos de infecções respiratórias. Os de fora têm uma visão do futuro que os esperam ao contemplar os de dentro, enquanto os de dentro reveem o próprio passado recente ao observar os de fora.

Uma mulher audaciosa consegue entrar, ela veio correndo, surgiu não se sabe de onde, exatamente como fazem as baratas. Dá alguns socos na porta do ônibus e então a mesma se abre. Vitoriosa, espreme-se até a roleta, recebe e devolve ofensas com o trocador porque só tinha uma nota de cinquenta e é difícil trocar uma nota de cinquenta. Trocadores odeiam notas de cinquenta, mais até do que as de cem, pois na crise atual, estas são raras. Todos acompanham o bate-boca sem se alterarem, afinal, isso acontece todo dia.

E como num milagre da urbanização, a mulher consegue um lugar para estacionar sua massa orgânica entre o emaranhado de corpos. A expressão de ódio por conta da recente discussão se desfazendo, aos poucos, até virar tédio e ela se transforma em parte do cenário. Então ela olha pela janela, depois verifica o celular, põe os fones de ouvidos, um cara ao lado comenta que esse calorão só pode ser chuva mais tarde...

sábado, 13 de novembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – DESAMPARO

Encontrei este DESAMPARO em promoção num Sebo. A capa com o rosto de uma mulher me soou familiar (meses depois descobri a fonte desta impressão: é que já tinha visto o livro na estante de minha esposa), li a sinopse rapidinho e decidi acrescentá-lo a minha pilha de compras, tipicamente esse é o tipo de aquisição para se conhecer novos autores. E como foi gratificante saber que a autora é portuguesa. Tive certeza de que estava adquirindo coisa boa. A literatura lusitana tem muita gente boa, e Inês Pedrosa apenas surgiu para validar essa opinião.

A trama deste romance contemporâneo gira em torno da personagem Jacinta, mulher nascida em Portugal, porém, veio para o Brasil muito jovem, ela retorna ao país de origem meio século depois para conhecer a genitora da qual foi arrancada muito cedo. Jacinta é como o ponto de origem para explicar muitos outros personagens, todavia, ela segue como figura central, mesmo em capítulos em que pouco dela nos é apresentado, mesmo assim, sua essência permanece circundando toda a leitura.

O reencontro acontece numa pequena aldeia, onde ela se estabelece em definitivo porque precisa cuidar da mãe. Neste ínterim, o livro alterna para outros capítulos em que nos são apresentados novos personagens, alguns mais interessantes do que outros, sendo o mais complexo e meu favorito, Raul, que em determinado instante também se encontra instalado em Portugal para cuidar de sua mãe, Jacinta, exatamente como ela houvera feito antes, num ciclo altruísta no cerne daquela família.

Raul é figura singular, carrega problemas existenciais, tem conflitos familiares com seus irmãos desgarrados, é consciente de suas limitações de uma forma quase lamentável, sente-se fracassado na profissão e no amor. Este personagem, juntamente com Jacinta, são os pontos mais altos da trama.

O livro resvala num segmento introspectivo, quase um fluxo de consciência, mas o mergulho não desce tão fundo em tais reflexões idiossincráticas, ficando mais próximo do verniz; de uma prosa deliciosa, engraçada, triste e muitas vezes carregada de análises conflitantes, de personagens tomados demais dessa natureza humana cheia de inconstâncias.

Mas apesar de instigar, é justamente aqui que o livro resvala num problema.

Muitos personagens inseridos comprometeram aquilo que seria este mergulho mais fundo na leitura da alma humana. Talvez Inês tenha exagerado na dose, despejou demais os tipos diferentes que nos são apresentados, e terminamos por conhecer bem menos do que gostaríamos de cada um deles..., uma pena.

De qualquer forma, é um livro gostoso de se ler, fluído e crível, onde o desamparo do título paira o tempo inteiro ao redor de seus envolvidos, porém, deixou-me com a sensação de que faltou arrancar camadas de seus personagens, o que talvez fosse possível, caso a trama tivesse se concentrado em um ou dois indivíduos. Opinião à parte, esta obra é mais um acréscimo que eleva minha admiração pela literatura portuguesa, Inês Pedrosa é mais uma autora que passarei a procurar avidamente.

NOTA: 7,7

domingo, 10 de outubro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A CURA DE SCHOPENHAUER

Mais um trabalho cuja essência é a psicoterapia, temperada com elementos filosóficos, o que causa certa contradição, afinal, as obras deste escritor costumam trazer nomes de grandes filósofos em seu título. Deveria ser filosofia, com pitadas de psicologia, mas isso não é nenhum problema, apenas uma constatação. Os textos de Irwin D. Yalom geralmente usam como fontes pensadores que se debruçaram sobre a complexidade humana diante da vida..., ou seja, a psicologia sempre bebeu da fonte da filosofia. Para quem gosta, o autor segue fiel a sua literatura que, embora me agrade bastante, não deve causar o mesmo efeito em muita gente. O estilo de Yalom é meio parado, pouca coisa acontece fora das sessões de terapia, e às vezes paira a sensação de que a história não sai do lugar..., e talvez não saia mesmo.

Aqui acompanhamos o psiquiatra Julius Hertzfeld, que após receber o diagnóstico de um melanoma e a breve perspectiva de vida, resolve repensar sua trajetória profissional. E tal reflexão traz de volta a lembrança de Philip Slate, antigo paciente e rara estatística de fracasso de sua carreira. Julius resolve procurar o ex-paciente e então descobre que o mesmo conseguira se curar dos próprios problemas seguindo os ensinamentos do filósofo Arthur Schopenhauer. Mesmo assim, o psiquiatra convence Philip a participar de seu atual grupo de terapia, então temos o cenário de praticamente toda a obra.

Sim, leitor, o livro é basicamente sessões e mais sessões de terapia de grupo, condição que mais incomoda alguns leitores desavisados que se dispuseram a ler este livro de Yalom. Se você gosta desse tipo de cenário: pessoas refletindo sobre suas existências, trocando confissões, acusações, embates acalorados ou não, alguns discernimentos filosóficos e outros nem tanto, esse é o livro para você. Do contrário, nem tente, pois praticamente mais nada de relevante acontece.

Não por acaso, o autor é um homem do universo da psiquiatria, logo, este é o seu cenário predileto (tem mais resenhas dele aqui no blog). O escopo não é produzir romances lineares, mas mostrar-nos as articulações e entraves que permeiam as terapias, no caso aqui, a terapia de grupo. É um estilo peculiar, mas particularmente me agrada, principalmente porque eu jamais fiz terapia. É elucidativo ver como funcionam este lugar onde se pretende tratar as mazelas da mente humana.

Outro ponto positivo, talvez o que de melhor vamos encontrar aqui, é que os capítulos se dividem entre sessões de terapia de grupo com um pouco da vida e trabalho do filósofo que intitula a obra. Confesso que passei a sentir vontade de conhecer melhor a literatura de Schopenhauer, de fato, um filósofo genial.

Há instantes meio desconexos, talvez uma tentativa do autor em sair dos capítulos de sequências de terapias, o que não agrada muito. Os personagens também são pouco explorados, basicamente ficamos sabendo apenas aquilo que eles falam durante as sessões, o que pode ser proposital. Julius é um personagem que agrada por sua experiência e abertura reflexiva, enquanto Philip o considerei enfadonho e superestimado, houve uma tentativa de fazer dele um personagem erudito, portanto, há instantes em que a narrativa parece forçar a barra.

A CURA DE SCHOPENHAUER não é um livro para qualquer leitor. Talvez agrade aos amantes de psicologia, afinal, pouco dá pra se falar da obra fora deste escopo. Os diálogos costumam ser o que de melhor acontece e tendo Schopenhauer como pano de fundo, tornou a experiência ainda mais agradável.

NOTA: 7,3

domingo, 3 de outubro de 2021

RESENHA DE LIVRO – O BIGODE


Esse é um daqueles livros em que não é simples de ser resenhado, porque qualquer apontamento soa inapropriado, além de colocar em risco o mistério em torno da trama.
O BIGODE é o tipo de obra cuja leitura desperta diferentes interpretações, sem que nenhuma delas soe conclusiva.

Diante da impossibilidade e receio de esmiuçar a história, eis a breve trama: Num ato de total precipitação, um homem se olha no espelho demoradamente, não sabendo exatamente o que está procurando em seu rosto. Então, ele resolve romper com o enfado cotidiano raspando o bigode.

Sim, querido leitor, a sinopse é apenas isso. Mas embora soe simplório, esse ato isolado é suficiente para mergulhar o leitor numa intrigante rede psicológica que parece zombar de nossa sanidade ou simplesmente nos causa aquela estranheza de achar que não prestamos atenção em algum ponto específico da leitura.

O personagem quer se libertar, talvez de seu tédio, e o gesto de tirar um bigode parece uma ideia inesperada, porém, aprazível. No entanto, ninguém parece notar o feito; as pessoas mais próximas se comportam como se a tal transformação, ocorrida no banheiro, não houvesse acontecido. Vale, inclusive para a esposa, figura central na trama, que não percebe o rosto desnudo do marido e, portanto, sua figura será elemento de desconfiança por toda a trama.

Acho que já deu por informação, não quero estragar a leitura de ninguém. E claro que compreendo se você que está lendo esta resenha ainda não despertou nenhum interesse em ler esta obra. Pois você tem toda razão, afinal, não é pela trama que você se sentirá instigado a ler, mas pelo estranhamento que se manifestará em sua mente, já no comecinho; o livro não enrola, é pequeno e vai direto ao ponto. Já iniciamos a leitura com o protagonista no banheiro diante do espelho. O resto é apenas uma senoide psicológica, onde tudo ora parece suspeito, ora soa hipotético.

A leitura é leve no início, quase despretensiosa. Mas a medida em que somos conduzidos ao estranhamento que é constante no personagem principal, a leitura vai ganhando ares, digamos, mais tenso, até mesmo perturbador. O autor, que eu não conhecia, o francês Emmanuel Carrère, soube desenvolver uma narrativa que num primeiro momento parece jocosa, mas que logo se torna insana, desconfortável, faz-nos duvidar até mesmo de nossa leitura (como já mencionei, há momentos em que achei que tivesse pulado algum parágrafo sem perceber).

Genial? Até certo ponto funcionou, mas chegou um momento em que comecei a me aborrecer. Não deu tempo de desdenhar a trama, porque como também já mencionei, o livro é curto, direto e de leitura ligeira. Fosse um autor prolixo talvez o prazer tivesse sido comprometido.

Outra coisa que me incomodou foi algumas ações e conduções do protagonista, mas não posso entrar em detalhes, apenas achei que ficou um pouco chatinho, Mas é apenas uma opinião estética.

O BIGODE é um livro cujo aspecto soa despretensioso, até seu título não anuncia muito. Mas é incômodo e não nos deixa parar de ler. Não chega a ser um suspense assustador, assim como não é uma comédia de humor negro, nem mesmo um terror psicológico. É um trabalho difícil de se definir, de se classificar e mais ainda, difícil de chegar a uma conclusão sobre o que de fato está acontecendo com seu protagonista..., Apesar de tudo, creio que deva ser lido para que você construa sua opinião.

NOTA: 7,1

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

RESENHA DE LIVRO – A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

A segunda guerra mundial foi talvez o evento mais trágico e determinante da história moderna da humanidade; seus efeitos atingiram o globo inteiro, suas consequências até hoje se fazem sentir.

Nesta obra aqui resenhada, o historiador Martin Gilbert optou pela premissa de narrar esse tempo de trevas como num resumo (sim, um resumo de 976 páginas, mas em se tratando de segunda guerra mundial, é espaço precário demais para tanta ocorrência); fez uma espécie de diário de guerra, em que o relato precisa ser breve para que não se perca o foco nos principais tempos e acontecimentos do conflito. Desse modo, tudo aqui será relatado de maneira fugaz, eu diria que estamos diante de um livro de entrada, para aqueles que desejam iniciar uma leitura sobre os eventos.

O conflito, que começa em setembro de 1939 e termina em agosto de 1945, foi estudado a exaustão por muita gente boa. Atualmente há material quase que infinito para o público interessado, desde livros, revistas, documentários, filmes, enciclopédias, museus, memoriais... A história da grande guerra está eternizada por distintas formas, algumas mais eficientes outras nem tanto. E este A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL de Martin Gilbert, é mais um trabalho que, embora audacioso na proposta de contar uma história tão grande, esbarra em alguns probleminhas..., vamos a eles:

O primeiro incomodo que senti e perdurou por quase que toda a leitura foi a parcialidade escancarada em muitos momentos da obra. O autor parece excessivamente preocupado em exaltar os aliados (países encabeçados por Estados Unidos, Inglaterra e Canadá), assim como execrar as nações que compuseram o eixo (Alemanha, Itália e Japão). Num primeiro momento, isso até soa como caminho óbvio, mas com o avanço na leitura isso incomoda porque a condução narrativa quer nos fazer engolir que nesta guerra houve apenas dois lados: monstros asquerosos e inumanos numa extremidade, querubins benevolentes na outra.

 O jornalista Nelson Garrone afirma que não existe imparcialidade no jornalismo, ideia que, num primeiro momento, parece ir na contramão do que o senso comum gostaria que fosse. Primeiro porque, segundo Garrone, é tecnicamente impossível ser imparcial pela complexidade incutida no desenvolvimento jornalístico; também não dá pra mostrar “os dois lados” de um escopo jornalístico porque é muito provável que não existam apenas dois, mas muitos lados. Para Garrone, alegar de que existe apenas dois lados é um modo de politizar o debate. Outro relato importante é o do historiador Leandro Karnal, que compartilha dessa opinião quando alega que “neutro” é coisa de sabão de coco; segundo ele, toda opinião tem um lado, uma origem, uma classe social e um ponto de vista.

Martin Gilbert é de nacionalidade britânica, elevado à condição de cavaleiro da coroa, o que explicaria em parte seu apreço irremediável pelas forças aliadas. Também é preciso que seja feita a seguinte observação: talvez a segunda guerra mundial seja um exemplo de raro conflito em que não é difícil identificar os mocinhos e os vilões. Mas é no mínimo irresponsável determinar que, num cenário de milhões envolvidos, metade era composta por bárbaros descerebrados e a outra metade por arautos da ética e da boa conduta (sim, o nazismo foi uma política bizarra e condenável. Mas isso não fundamenta a ideia de que todo o povo alemão era genocida. Muito menos que os soldados no front eram compostos por animais sanguinários).

Há instantes em que fica explicitado a “passada de pano” que o historiador deu perante a conduta dos exércitos aliados, como quando ele tenta justificar como legítimo os bombardeiros que devastaram a cidade alemã de Dresden e a capital japonesa, Tokio. Martin Gilbert também faz uma narrativa um tanto imprecisa ao alegar a necessidade de uso das duas bombas atômicas, despejadas pelo exército americano em Hiroshima e Nagasaki; uma atitude claramente genocida, mas que no livro é descrita como necessária.

Há aqui um sentimento de superioridade por parte dos exércitos aliados, algo que também pode ser encontrado em vários momentos da leitura, e incomoda bastante. Um exemplo é o exposto diário do presidente americano Harry Truman, onde fica claro o sentimento de superioridade e arrogância dos americanos:

“... A arma (referindo-se à bomba atômica) deverá ser usada contra o Japão entre a presente data de 10 de agosto, contra objetivos militares, soldados e marinheiros, não contra mulheres e crianças. Ainda que os japoneses sejam selvagens, impiedosos, implacáveis e fanáticos, nós, como promotores do bem-estar comum da humanidade, não podemos lançar essa bomba terrível contra a antiga capital nem contra a nova”.

As duas bombas mataram mais de duzentas mil pessoas.

A parte estética está bem servida. O livro conta com fotos de alguns eventos curiosos ou fundamentais, também há mapas geográficos, cujo intento é delimitar as reviravoltas demarcadas por regiões ao longo do conflito.

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL é um livro que considero de entrada, faz menções de data importantes sem se aprofundar muito. Talvez seja interessante sua leitura fazendo uso da análise em outras fontes, quando forem citadas na obra. Há eloquência admiração pelo lado dos aliados e total desprezo pelas nações do eixo, mas como disse Nelson Garrone: “todo jornalismo é parcial...”, leitura fácil e ágil. Recomendado aos iniciantes.

NOTA: 6