quinta-feira, 13 de outubro de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUANDO NIETZSCHE CHOROU

Que seja explicitado: aprendi a gostar da literatura de Irvin D. Yalom lendo seus trabalhos menos expressivos; posso até salientar que pouco interesse tinha por esta que é sua obra mais notória, não por envolver um filósofo que aprecio, mas pela consciência dessa fascinação exacerbada ao redor da trama à ponto de alguns educadores oferecerem a obra para compreensão de Friedrich Nietzsche, sugerindo que o conteúdo fosse além de sua pretensão como literatura de entretenimento.

Manifesto que isso é um preconceito de minha parte, pois evitar aquilo que nunca se leu, apesar de se conhecer o autor, é julgar sem antes ter experienciado. Portanto, o livro veio parar em minha estante por acaso, quando o encontrei em promoção durante uma de minhas garimpagens num Sebo.

Outro problema pode estar precisamente na expectativa que criei sobre o autor, o que é meio que um paradoxo perante minha desconfiança, afinal, sei muito bem do potencial de Yalom com sua narrativa que mescla elementos filosóficos, psicológicos e introduz embates instigantes em suas personagens, algo admirável. Ou seja, ao mesmo tempo em que me recusava a ler este livro, também sustentava a confiança de que estava levando para casa outra boa leitura.

Contudo, a desconfiança se fez assertiva, QUANDO NIETZSCHE CHOROU é o livro mais fraquinho que li do autor e, apesar de não ser propriamente um trabalho ruim, considerei-o o menos envolvente dos lidos até hoje na bibliografia de Yalom, e o restante dessa resenha é uma tentativa de expor os elementos que embasam essa opinião.

Quando o famoso médico judeu Josef Breuer recebe a visita de Lou Salomé, uma sedutora mulher russa, o médico é intimado a ajudar a cuidar da delicada saúde de um amigo importante de Lou, um até então pouco expressivo intelectual chamado Friedrich Nietzsche. A mulher faz uma recomendação para que o Dr. Breuer mantenha o pedido em segredo, dada a natureza orgulhosa do paciente. Ou seja, para ajudar Nietzsche, o médico precisará ir ao encontro do filósofo e ajudá-lo sem que o outro perceba essa intenção... Temos o nosso enredo.

À priori, a premissa parece meio descabida ou sem sentido, mas isso não chega a incomodar, pode-se relevar facilmente essa condição narrativa para o encontro entre os dois principais personagens da trama, dr. Breuer e Nietzsche. No entanto, creio que conjunturas mais pertinentes poderiam ser introduzidas nas personagens.

Quanto ao aspecto que mais me incomodou na leitura ocorre desde o instante em que o filósofo cujo nome intitula a obra aparece e perdura por todo o texto: uma exacerbada reverência sobre a figura de Nietzsche ocorre já nos primeiros parágrafos em que ele surge na narrativa. E embora isso talvez fosse apenas uma bajulação introdutória, cujo intento seja enaltecer a figura de Nietzsche, tal condição não decresce, chegando a tornar alguns instantes intragáveis. Primeiro que por tudo o que Nietzsche representa para a filosofia, sua imagem não carece desse tipo de servilismo. E em segundo lugar, esse preciosismo escancarado interfere na maneira com que o enxergamos, tornando-o algo extraordinário demais e, portanto, menos crível.

Vale ainda mencionar para os leitores que ainda não conhecem a obra de Irvim D. Yalom, que em seus textos não há espaço para elementos como suspense, reviravoltas, impactos emocionantes ou agilidade linguística. A literatura desse autor segue sempre uma pegada invariável, cujo ápice fica nos diálogos cheios de elementos psicanalíticos e filosóficos que são estabelecidos entre suas personagens. E dentro desse aspecto há instantes bons aqui, o livro enriquece muito quando o autor deixa de se concentrar na idolatria à Nietzsche, para fazer o que faz melhor: narrar os enfrentamentos existenciais de suas personagens.

QUANDO NIETZSCHE CHOROU é um best-seller que merecidamente tem seu lugar de destaque no universo literário, porém, deixa-se seduzir demais pela personagem central da trama. Reconheço-me como parte da minoria que não considerou a trama tão grandiosa assim, mas sou consciente da existência dos bons elementos narrativos que fizeram de Yalom este consagrado escritor.

NOTA: 6,7

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

CONTO: A COR DE SUAS VÍSCERAS

A cama não será mais aconchegante, pois você não estará sobre ela. Os lençóis, ainda quentes, assemelharão às geleiras de uma montanha... Não consigo desviar o olhar de seu rostinho cândido, afundado no travesseiro. Procuro ficar o máximo de tempo possível dentro do quarto, portas e janelas fechadas, na incessante busca por acumular o seu cheiro e evitar que escape pelas fissuras.

Minha amada, Ivi.

Deixo você sozinha, apenas no instante de ir até a cozinha para buscar o punhal que comprei para a ocasião; uma réplica em metal trabalhado que imita o período mesopotâmico... Pedi que gravasse o seu nome na lâmina reluzente.

Deveria estar impregnado com o seu sangue agora, amor. Eu quero saber a cor dele, do seu interior..., mas, assim como nas noites anteriores, ainda careço de força para cravá-lo em sua carne.

O relógio me apressa. Já passam das onze da noite. Retorno ao quarto e me sento ao seu lado... Como você dorme tranquila! Sossegada como somente alguém que se sente amado poderia dormir.

Passeio com a faca levemente em seu pescoço, a ponta quase lhe riscando a pele. Sigo a silhueta pelo seu entorno e encontro os seios rosados, a respiração ritmada empurrando a ponta da lâmina pra cima e pra baixo.

Seriam os últimos sopros de uma vida?

O que ocorre na mente de alguém que morre enquanto está dormindo?

Confusão pela repentina travessia de planos?

Dor pelo descolamento da alma?

Um imenso e dissimulado nada?

O que ocorre?

Você se mexe, talvez o punhal tenha lhe feito cócegas na pele. O baby-doll é incapaz de cobrir seu corpo apetecível, causando-me excitação. Essa proximidade anula os demais pensamentos. Novamente só o que quero é provar do seu corpo, tomado pelo desejo que acomete a criatura submissa que sou.

O punhal vai parar embaixo da cama. Enfio-me nos lençóis, você acorda e sorri. Outra vez começo a sorver cada centímetro de seu corpo, percorro cada especificidade de sua estrutura, cada orifício me é familiar, cada mancha, cada imperfeição..., minha língua sente a maciez de sua pele e sei que provar desse cálice que nunca me sacia será minha ruina.

Talvez o punhal pertença a mim e não a ela.

Colados, nossos corpos se misturaram num manifesto de suor e urros. Gozamos, juntos... Dessa vez, eu fico na cama e você vai até o banheiro, lindamente nua e saciada.

Quando retorna eu sou outro homem. O distanciamento trouxe de volta meu orgulho ferido; uma voz faz um ultimato dentro da cabeça, quer saber quando vou acabar com isso, mas sou desperto por seu retorno, faz-me uma pergunta a qual não presto atenção.

Não deve ser nada importante, pois você não insiste.

Então olha o celular na mesa de cabeceira e se lembra de encerrar o nosso breve universo. Não percebe a dor que teu gesto desdenhoso me causa. As pessoas nunca notam o mal que causam à outras, apenas o mal que lhes é causado por outrem.

Finalmente ela replica a pergunta. Estou desolado, o braço esticado na beirada da cama, à procura do punhal.

– Vou te pagar em dinheiro – respondo; e no lugar do punhal, meu outro braço encontra a carteira na cabeceira.

– O que você fez no apartamento? – ela quer saber, enquanto confere o dinheiro na minha frente, pra me humilhar mais um pouco.

Um dia estive em uma loja de artesanatos e pedi ao vendedor para me mostrar um belo punhal que estava na vitrina. Muito gentil, o rapaz me convenceu a adquirir a peça. Eu pedi que ele gravasse o nome de minha amada Ivi na lâmina. Foi então que, olhando nos meus olhos, ele disse:

– É impossível existir apenas um amor... Na vida completa, tem que haver dois amores: o seu e o dela.

O vendedor fez o comentário do nada, mas eu entendi o significado: nosso amor é impossível, pois ele não há em você...

– Não sei... – respondo – não me lembro de ter feito nada.

– Parece diferente desde a última vez que eu vim aqui.

Ela já está completamente vestida, apenas termina de calçar as sandálias de salto, sentada na beirada oposta da cama.

O punhal deve estar muito fundo, bem debaixo, não consigo encontrar, mas já agora uma dúvida paira na minha cabeça.

– Quando posso te ligar de novo, Ivi? – pergunto.

Às vezes as pessoas mentem para nos proteger. Quando eu a chamo pelo nome, você diz que não sabe quem é Ivi, depois ri como quem acha que tudo não passa de uma brincadeira. E vai embora, sem culpa, tampouco responde se posso voltar a ligar.

Quando a porta se fecha reconheço todo o meu equívoco. Foi um acaso, um momento de confusão... Minha Ivi está em algum lugar lá fora, eu sei.

Mas o que faço se me deixo embriagar pela imaginação que instiga o prazer? Quando você morreu, julguei que Deus estava rindo de mim e então eu virei-lhe as costas... Agora o altíssimo me castiga, colocando seu rosto, sua voz, seu jeito de fazer amor e seu sabor no corpo de outras mulheres...


(Texto publicado no Recanto das Letras, no ano de 2009)

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – VÍCIO DOS VÍCIOS – Um estudo sobre a vaidade humana.

O poeta Charles Baudelaire escreveu: “O maior truque já realizado pelo diabo, foi convencer o mundo de que ele não existe”. A afirmação sugere que a sofisticação da maledicência consiste em não aparecer, pois torna sua progressão mais efetiva. Quando não se sabe contra o que se luta, pode-se estar diante de um adversário imbatível. 

Este pensamento talvez seja imensamente pertinente para pensarmos sobre o mal que já era compreendido como pecado capital em tempos remotos. Ou seja, lá no livro do Eclesiastes, define-se a vaidade como totalitária e, portanto, o pecado que gera todos os demais: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade...”, livro do Eclesiastes, 1, 2-11. Se esta for uma hipótese plausível, eu creio que o tema da vaidade não recebeu atenção que deveria ao longo da história do pensamento. Portanto, segue como o diabo citado por Baudelaire, escondido e atuante, principal elemento causador de ódio, ganância, avareza e ausência de empatia com o semelhante.

Ocorre que a vaidade, ainda que entendida como elemento discreto ou mesmo pouco atuante no que se refere aos prejuízos causados, sempre terá sua participação em praticamente tudo o que fazemos na vida. Talvez por esse motivo se trate um mal que, apesar de pouco levado em consideração é supremo, pois elimina toda a noção de virtude do ser humano.

O psiquiatra Flávio Gikovates se propôs a realizar esta breve e, por que não dizer, introdutória reflexão sobre o problema da vaidade. E seus apontamentos, sempre tomando cuidado em manter a linguagem acessiva e pouco técnica, seguem precisamente nesse sentido: pontuar quase como indiscutível a vaidade como o princípio de todos os males que assolam a humanidade. Sim, pois se atualmente o ser humano é o animal predominante da natureza, ser portador de condição tão nefasta como a vaidade, torna-o um ser altamente destrutivo em suas relações com o mundo, em todos os aspectos.

VÍCIO DOS VÍCIOS traça uma linha de raciocínio para ajudar o leitor a verificar a vaidade desde seu surgimento como algo inerente, passando pela transformação em condição nociva por meio da influência de nossa cultura, até chegar ao epicentro do problema, onde sua manifestação é destacada pelo autor como um vício, justificando assim o título pertinente da obra.

Mas então se o tema é tão fundamental, por que quase não se encontram pensadores que se debruçaram sobre a vaidade? Sobre isso Gikovates nos traz um argumento, digamos, plausível: “Saber perguntar sem saber responder gera uma enorme dor; suportar a dúvida é uma das coisas mais sofridas para o nosso mundo interior. A sensação de abandono e de insignificância que resta é, em certo sentido, insuportável”, pág. 11. Portanto, quando se fala em pensadores, estamos lidando com a mais terrível e talvez a menos perceptível forma de vaidade: a vaidade intelectual..., talvez Baudelaire tivesse razão.

Claro que aqui estou apenas fazendo um resumo limitado da obra; não sendo possível aprofundar as razões que validam a vaidade como sendo o pecado fundamental, assim como não será possível detalhar os desvios e fugas das manifestações da soberba. De qualquer forma, vamos passar rapidamente por alguns momentos interessantes do livro, na ordem em que aparecem, começando pelo fundamento:

Na infância, uma manifestação sexual ocorre já no primeiro ano de vida, que explica a natureza auto erótica desse impulso, ou seja, ao se tocar, a criança encontra partes em seu corpo onde o toque lhe causa sensações peculiares. São chamadas zonas erógenas. Trata-se de um desconforto percebido pelo indivíduo como agradável, o que difere de outros desconfortos já percebidos pela criança, mas que causam irritação, como sede, fome, frio, etc...

Como o desconforto sexual é agradável, não deverá causar a tendência para a busca do equilíbrio; seu objetivo é o próprio desequilíbrio; e se o prazer for maior à medida em que o desequilíbrio se estende, a coisa tenderia para uma busca da perpetuação desse estado (...) O fenômeno inicial de excitação se dá sem a intermediação de qualquer outra pessoa. Não existe um objeto de desejo”. pág. 16.

“É só lá pelo 7-8 anos de idade que surgirá o interesse pelas trocas de carícias, ainda que claramente relacionado com fenômenos culturais, com a imitação daquilo que as crianças veem – ou ouvem falar – que interessa aos adultos. Não há nenhuma discriminação de quem seja o parceiro, nem qual o seu sexo. Apenas a vontade de experimentar a sensação de excitação derivada da troca de carícias, nada diferente do que se sente ao se fazer a carícia em si mesmo. O brinquedo agora envolve um parceiro, mas o caráter essencialmente auto erótico persiste”.

Segundo o autor, por volta dos cinco anos em diante, a criança manifesta os primeiros interesses pela exibição, o que parece ser mais frequente em meninos do que em meninas, um prazer de natureza erótica ao exibir o genital. Tal comportamento é curioso dado o fato de que não há fenômeno similar em mamíferos com os quais somo assemelhados.

O que leva uma criança a ter prazer em se exibir, em ser olhada por outra pessoa? Não creio que possamos explicar nada por hora, mas podemos constatar a coisa com facilidade. Não é improvável que o fenômeno já dependa de variações culturais, onde a exposição dos genitais é coisa já proibida; o prazer resultaria, pois, da própria transgressão. Ou será que o menino se orgulha, outra vez por isso ser valorizado pela cultura, de possuir um pênis, coisa que o coloca em “superioridade” em relação às meninas?” pág. 18.

Flávio Gikovates teve a humildade de alegar que seu estudo não é conclusivo, embora os sinais de sedução na criança sejam evidentes, pode ser que atualmente novos estudos tenham chegado a resultados mais precisos. Afinal, esta obra foi publicada em 1987. Mesmo relativamente antiga, vale a pena a leitura, pois seu conteúdo se mostra bastante atual.

Enfim, conforme a criança cresce sua razão se sofistica, também sua relação com o mundo real e imaginário. E imaginação é, segundo o autor, uma operação psíquica abstrata, capaz de provocar sensações de todo o tipo, mesmo que nada esteja ocorrendo na realidade. A erotização, antes relegada ao contato direto, passa por uma transformação curiosa: a atração se mostra tão eficiente em causar prazer quanto era o toque em zonas erógenas, mesmo que de forma efêmera. De agora em diante, a criança tudo fará para chamar a atenção, nessa busca inerente pelo prazer, porém, agora a coisa evoluiu por conta da influência cultural para a obtenção de um ganho de prazer por meio do exibicionismo..., eis a vaidade estabelecida.

Desse modo, sempre que um indivíduo busca atrair olhares e expressões de interesse de terceiros e isso não ocorrer, dispara a sensação de frustração muito forte, que pode ser interpretada como humilhação. Não é necessário que nos olhem de forma negativa; basta que não nos deem atenção e já nos sentimos humilhados, insignificantes e desinteressantes..., este é um elemento central da vaidade.

Depois de analisar sua origem, Gikovates entra em temas de extrema importância para a compreensão do progresso da vaidade, capítulos específicos, como por exemplo A Vaidade na Puberdade, A vaidade e o Trabalho, A Vaidade e o amor. Estes são alguns dos mais distintos temas que ajudam a mapear a proliferação da vaidade em quase todos os aspectos de nossa condição social e natural.

No capítulo A Vaidade e o sexo, deparamo-nos com a hipótese de elevação da vaidade por conta de nosso ciclo de tensão e atração proporcionado pela fêmea. Geralmente na natureza, as fêmeas exalam cheiros que atraem os machos para a cópula, o que denota a relação do instinto sexual com a reprodução. Já nos seres humanos, o desejo masculino é despertado por meio da visão, e não do olfato. A fêmea quando atraente provoca o desejo por tempo quase que ininterrupto, e não por alguns dias, como geralmente ocorre com as outras espécies.

Todos os homens desejam as mais atraentes. Além do mais, a cópula não interrompe o ciclo do desejo, que é ininterrupto. Com a vida em grupo, se torna absolutamente indispensável algum tipo de regulamentação da função sexual, isto com a finalidade de impedir que os homens briguem o tempo todo; também, ao menos mais recentemente, para garantir a mulher o direito de escolher os seus parceiros”, pág. 106.

Porém, similar ao que ocorre noutras espécies, nos jogos de sedução do ser humano também existe a disputa exibicionista, que fará com que a fêmea faça sua escolha pelo macho que lhe parecer mais atraente. O problema é que aqui se estabelece uma influência muito forte da cultura, o que causa uma distorção de valores, proporcionando a elevação da vaidade, cujo objetivo do macho será sempre o de angariar recursos que o faça parecer ainda mais poderoso. Do mesmo modo, a fêmea seguirá tentando parecer atraente em conformidade com a cultura estabelecida, no intuito de seguir saciando seu vício pela atração.

O último capítulo intitulado A Cura da Vaidade como vício, Gikovates faz um breve resumo e traz algumas ideias de como tornar a vaidade menos nociva. Faz confissão e assume a si mesmo como um homem vaidoso, mas oferece apontamentos pertinentes, porém, um tanto utópicos se levarmos em conta a maneira como nossa sociedade se encontra organizada, de como acabar com o vício da vaidade, e não com a vaidade propriamente, afinal, trata-se de um mal inerente.

Um aspecto que me incomodou é que alguns temas foram pouco explorados. O livro é relativamente curto, possui apenas 155 páginas. Um assunto tão amplo quanto a vaidade mereceria um pouco mais de explanação.

VÍCIO DOS VÍCIOS é um livro cujo tema sempre me atraiu de perto, talvez por eu ser mais um vaidoso incorrigível, este é um assunto que me fascina. A leitura desta obra me causou muitos desconfortos, vi-me em diversos pontos e identifiquei muitos vícios em minha natureza causado pela vaidade. E embora o último capítulo tenha servido de certa forma como um assopro nas muitas feridas, abertas ao longo da leitura, seguirei pouco esperançoso quanto a amenizar os prejuízos causados por este monstro escondido dentro de nós..., mas apesar da dor, essa é uma daquelas leituras mais que obrigatórias.

NOTA: 9,2

terça-feira, 9 de agosto de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUARTO DE DESPEJO

Existem lugares, situações e personagens neste Brasil sofrido que somente a literatura os traz, mesmo que na escassez expansiva de público, para a contemplação desse país como ele realmente é: um lugar de profundas tragédias sociais. Portanto, textos cujas leituras são fortes a ponto de fragilizar o leitor deveriam ser obrigatórios, embora eu tenha certo receio com as obrigações estabelecidas pelas nossas instituições de ensino. E me desculpem aqueles que acreditam que apenas as sofisticações de nossa cultura ou a erudita linguagem deveria ser material de pesquisa por sua evidente contribuição para o enriquecimento social; tratam-se de obras esmeras e que têm seu lugar de importância na projeção da arte brasileira, tão achincalhada ou meramente ignorada pelo nosso povo. Livros como QUARTO DE DESPEJO, possuem um viés de urgência, de chamamento para o que está acontecendo, porque tenho uma enorme desconfiança de que tem muito brasileiro que ainda não sabe o que se passa dentro de nossas fronteiras. E a náusea causada pelo avanço na leitura, deve ser como um elixir que instiga e suscita a indignação..., talvez com isso nós fôssemos um povo mais indignado.

Esta obra talvez seja indispensável neste aspecto.

O mais trágico é que mesmo em nosso tempo atual, o qual nos distanciamos muito do tempo em que a obra foi escrita, na década de 1950, o livro parece mais atual do que nunca, quando nos deparamos com a fome assombrando novamente milhões de brasileiros que vivem em favelas sem o mínimo de dignidade social, gente que enfrenta fila para conseguir um pouco de osso para cozinhar, eis um cenário que deveria ser parte do passado, mas que segue sendo reproduzido em nosso tempo.

QUARTO DO DESPEJO é o diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus, que relata seu sofrido dia a dia de acordar para ir buscar o sustento para os filhos, sem nenhuma garantia de que será conseguido. Solteira, mãe de três crianças, Carolina é uma representante dessas pessoas que são categoricamente ignoradas pelo Estado e pelo resto da sociedade; gente indigente, cujo retrato de desesperança está contido em cada dia narrado pela autora.

Carolina Maria de Jesus viveu seu tempo de miséria e desespero na favela do Canindé. Apesar das incertezas e do completo distanciamento dos meios culturais que a óbvia condição precária lhe proporcionava, ela era apaixonada por livros, amava ler e usava o hábito de escrever em seus diários, que foram reunidos nesta obra, como válvula de escape para suportar o sofrimento e a dor que permeia os dias de quem vive em condições subumanas.

Há instantes na leitura em que a tristeza de não ter o que comer se torna tão intensa, que o leitor passa a torcer por Carolina, e cada novo dia em que ela consegue algo para alimentar os filhos e a si mesma, nos soa como um alívio..., então vem o dia seguinte, e a luta para sobreviver recomeça. E ficamos desesperançados, quase sentindo as agruras vividas por Carolina para conseguir alguma coisa para levar para casa no final do dia, seja um alimento achado no lixo, algum item básico comprado com o que se conseguiu com a venda do papel, ou alguma migalha oferecida por alguém... A tristeza permeia a leitura quase que o tempo inteiro. A palavra fome aparece ao longo da obra com uma frequência irritante!

Um aspecto que vale a pena ser apontado é que os editores da obra optaram por manter a linguagem original, manteve-se os erros de escrita e de gramática, que segundo os editores, teve como intuito invadir o menos possível e manter a fidelidade linguística da obra.

QUARTO DE DESPEJO é um diário que narra os dias trágicos de quem vive na parte ignorada e obscura do Brasil. Mesmo hoje, o livro continua atual, não o relato de algo que ficou passado. Porque em nossa sociedade capitalista, desigual que acumula recursos para uma minoria quase irrisória, ainda existem muitas Carolinas por aí, morando em barracos podres e catando lixo e papel para sustentar os filhos.

NOTA: 8,2

quinta-feira, 14 de julho de 2022

RESENHA DE LIVRO – INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA

Se o Brasil fosse a centralidade geopolítica do mundo, provavelmente as prateleiras das livrarias pelos arredores do globo estariam infestadas de obras no estilo deste INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA; um trabalho desapegado de estereótipos do gênero intestigativo, cuja personagem narrador é um sujeito tão cheio de imprecisões, a pontos de nos fazer pensar no quanto esse cara não tem nenhuma familiaridade com o ofício da investigação policial.

Joaquim Nogueira, o autor dessa obra singular, é delegado aposentado. Ou seja, detentor de ponto de vista, digamos, menos enviesado sobre o universo da investigação, em particular daqui do Brasil, o que é bom porque sua experiência certamente contribuiu para deixar a obra um pouco mais crível.

INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA conta a história de Venício, policial que é tomado por um irrefreável desejo de justiça, após saber do assassinato de um amigo de profissão. Ele se prontifica, procura seus superiores e insiste em receber a responsabilidade pela investigação do caso. Então parte, no escuro, meio sem saber aonde ir, conversando com diferentes figuras do cenário paulistano da década de 80.

Com uma sinopse dessa, poderíamos imaginar um livro infestado de intrigas, suspeitos, direções incertas, suspense, reviravoltas, o típico recheio investigativo com o qual estamos habituados..., mas não é o que ocorre aqui. Definitivamente não estamos lendo um livro de Agatha Christie.

O Autor nos conduz por uma narrativa moderada, quase insípida, que vagarosamente vai nos mostrando os cenários cotidianos de um investigador de polícia, algo nada glamoroso e, muitas vezes, até enfadonho face as incertezas e repetições de atos e pessoas. Mas creio que seja este o elemento forte do universo análogo criado por Joaquim Nogueira.

Como mencionei no início, livros de romance policial costumam ser recheados de maneirismos, uma espécie de roupagem obrigatória, as quais estamos tão acostumados que ao nos depararmos com um livro como INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA, imediatamente desperta o estranhamento na mente do leitor, tamanho é o nível de verossimilhança com o que há de mais banal em qualquer profissão imaginável, mesmo sendo ela aparentemente estimulante, como a literatura predominante nos faz crer que seja a de um investigador de polícia.

Venício não é o profissional extraordinário, nem chega a ser sedutor..., na verdade, nosso personagem é um sujeito discreto, quase rudimentar. Chama pra si a responsabilidade pela investigação de um crime e sequer sabe por onde começar, tudo motivado por uma amizade de pouquíssimo tempo que estabeleceu com a vítima.

Mas ao mesmo tempo ele é obstinado e irredutível. O tipo que não larga o osso quando cisma com alguma coisa. E entra de cabeça num cenário cheio de pessoas igualmente parecidas com ele mesmo: todo o tipo de gente que, apesar de suas contradições, são suspeitos tão descaracterizados quanto ele próprio. E apesar de soar como um problema, eu considerei este o ponto alto da trama. É legal conhecer os bastidores do submundo do crime como ele realmente parece ser; aqui não há personagens surpreendentes; o que há são pessoas vivendo suas vidas em meio a transgressões e inconstâncias... O mundo como ele realmente é.

É pertinente que seja feita essa observação porque há leitores que podem ser pegos desprevenidos. Joaquim Nogueira não escreve como Harlan Coben, cujas tramas causam estupefação à cada página virada. Mas este ilustre escritor brasuca nos entrega um romance com o estilo impreciso e cheio de complicações, como deve ser o mundo dos investigadores inseridos num país extravagante como o nosso Brasil, lugar onde certamente James Bond, mesmo com todo aquele seu charme e aparato tecnológico, não saberia exatamente o que fazer ou por onde começar.

NOTA: 7,5

sábado, 2 de julho de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUASE NOITE

Terceira obra que degusto dessa escritora americana, cujo tema é pesado, instigante e arenoso. Nos dois livros anteriores, Sorte e Uma vida Interrompida, Alice Sebold discorre suas tramas sob a égide do estupro, o primeiro deles, inclusive, é autobiográfico. Dessa vez, o tema é o matricídio, que além de se tratar de um tópico difícil por si, também faz paralelo com outro assunto que considero importante e interminável: relações humanas.

Infelizmente QUASE NOITE, apesar de entregar uma narrativa em primeira pessoa corajosa e sem muito circunlóquio, economizou em introspecção na personagem principal, deixando a leitura ser nada mais que um relato oco, alguns momentos até correndo sério risco de soar manipulador. Sabe quando o autor tenta explicitar no texto aquilo que você deve pensar sobre o que está lendo, sem deixar espaço para a livre análise? Há instantes em que tive essa impressão.

Perdoe-me se crio uma impressão ruim com este suposto início negativo de resenha. QUASE NOITE não é um livro ruim, apesar de ser o mais fraquinho da autora e de sustentar alguns probleminhas técnicos. Alice Sebold é uma escritora de bons atributos narrativos, sabe desenvolver histórias fluidas, não teme assuntos espinhosos e até consegue nos causar empatia com suas personagens (pelo menos isso aconteceu nas duas obras anteriores). A condução aqui é direta, já inicia dando um soco na cara do leitor e habilmente rouba a nossa atenção.

A trama se passa numa pequena cidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, em que um crime inesperado interrompe a rotina maçante daquela comunidade. De imediato, a confissão da personagem, Helen Knightly, de ter assassinado a própria mãe, desconcerta o leitor e oferece a tonalidade pungente que vai perdurar por toda a leitura, quase como se estivéssemos lendo com alguma coisa entalada na garganta.

Por 48 horas vivenciando os acontecimentos posteriores ao crime, sempre sob a ótica de Helen, temos uma narrativa enriquecida pelo relato dos instantes mais marcantes na vida da protagonista, confissões de suas relações de amor e ódio com os familiares, com destaque para a experiência vivida ao lado de sua genitora. O livro mescla relatos presentes dos instantes confusos e inéditos de Helen, com lembranças do passado dela e que fazem este paralelo, cujo intento deliberado parece ser o de fazer o leitor compreender as motivações da personagem, eis o entrave mencionado no início da resenha.

Alguns momentos essa alternância entre passado e presente criou um pouco de confusão; não raro precisava voltar alguns parágrafos na leitura para conseguir me situar.

Outro impasse ocorre quando a personagem relembra instantes do passado, porque ela simplesmente relata e apenas isso. Nenhum problema quanto ao método, o intuito pode ser ajudar o leitor a compreender aquela existência que nos conta sua história. O caso é que a mera descrição de tempos passados, como acontece aqui, soou como se a autora estivesse tentando justificar o crime cometido pela personagem. Sem elementos que validem suas memórias, como sensibilidade ou imersão, os relatos de Helen parecem uma tentativa de convencer o leitor da insignificância de seu crime; como quem alega que isso poderia ser a atitude de qualquer um de nós. Senti-me como se fosse o jurado de um tribunal que acompanha a oratória do réu desesperado.

Muitos escritores se utilizam dessa ferramenta para elevar a identificação com a personagem. O relato pode ser despretensioso, introspectivo ou até mesmo aqueles instantes de devaneios, os quais detalhes muito sutis são narrados e funcionam por agregar alma ao narrador, criando uma aproximação maior com a lisura do ser humano. Infelizmente isso não ocorre com a personagem de Alice Sebold. Temos a aproximação com o instante em que o desespero de um ser humano o leva a tomar decisões ruins, mas talvez não fosse necessário tentar endossar tais ações.

De qualquer forma, QUASE NOITE é um livro, digamos, encruado e corajoso. Mantenedor da ótima narrativa fluida, que já se tornou marca de Alice Sebold, cujos temas centrais causam desconforto e desestabilizam.

NOTA: 6,4

quinta-feira, 16 de junho de 2022

RESENHA DE LIVRO – O HOMEM DUPLICADO

Penso que a genialidade na literatura do igualmente extraordinário escritor José Saramago, é a de inserir e depois analisar o absurdo na vida cotidiana. O enfado e a melancolia são elementos básicos de seus personagens principais, quando algo excepcionalmente improvável lhes ocorre. O paradoxo narrado aqui é o da reprodução sistemática da individualidade, ou da descoberta alarmante da mesma, que nesta obra remete ao extremo, por isso o absurdo.

O protagonista desta cativante narrativa encontra distração de seu cotidiano maçante quando, ao acatar as insistentes recomendações de um colega para que assista a um filme, descobre que há no elenco cinematográfico, sujeito espantosamente idêntico a si mesmo. Começa-se, então, um jogo crescente de descobrir tudo sobre seu suposto clone. Temos enredado o absurdo dentro do cenário banal.

Tertuliano Máximo Afonso, nossa personagem, percebe o óbvio: que o filme lhe fora indicado justamente porque ele, entre aspas, literalmente atuava no elenco. Afinal, alguém que jamais trocara conhecimento sobre filmes, quando resolve fazer, deve ser por algo incomum visto no mesmo. Seu duplicado está na tela, se parece tanto fisicamente quanto na voz, algo como se olhar diante do espelho E Tertuliano, inevitavelmente, se converte num homem obcecado por compreender e descobrir a respeito de sua cópia viva.

O elemento extraordinário é permanente, sempre sob o ponto de vista do narrador, que parece ganhar entusiasmo conforme aprende que a vida reserva mistérios surpreendentes, como a existência de iguais. A questão da singularidade se perde, porém, nada nos é entregue diretamente, apenas estamos a acompanhar um homem que faz do inusitado tormento, seu novo escopo de vida.

O livro não traz como desembaraço a descoberta do clone. Tertuliano vai ao seu encontro (nenhum spoiler, isso é amplamente secundário), os dois interagem, ocorre a inevitável estupefação bilateral, então pensamentos lhes invadem as mentes; a interação neste momento da obra deixa lacunas soltas, Saramago nos faz acompanhar instantes do suposto clone, o ator do filme. Acompanhamos o que ele pensa sobre o caso, sua mulher intrigada (ela faz uma das melhores análises de toda a narrativa), tanto que reencontros se mostram inevitáveis.

A trama volta para Tertuliano, que relativamente aceitou o fato inusitado de sua cópia idêntica, logo se vê provocado pela mesma, que o procura, agora tão instigado pela inusitada situação, quanto antes Tertuliano se encontrava.

É aqui que se encontra algumas sutis diferenças; o professor de história Tertuliano, apesar de se mostrar intrigado, logo retrocede ao seu lugar comum: o enfado da vida. Contudo, seu clone, que é um ator pouco expressivo de cinema, imbui-se de semelhante desassossego, e passar a procurar seu duplicado, pela igual justificação.

No entanto, Saramago vai nos mostrar que a mesma motivação inicial em ambos os semelhantes, não se sustentam e diferentes aspectos exercem as motivações posteriores de cada protagonista.

Tertuliano quer aprender sobre seu igual, mas parece meramente um ato de genuína curiosidade. Enquanto seu clone, profissional do cinema, casado e aparentemente se tratar de alguém que subsiste sem conflitos existenciais, em determinado ponto da trama, apresenta-se ainda mais estupefato com a descoberta de outro seu, ou na pior das hipóteses, resolve desfrutar de algum benefício desse fato.

Com seu outro isso não ocorre.

Tertuliano Máximo Afonso tem seu nome reproduzido à exaustão, talvez porque seria a única singularidade existencial que lhe restara, ou simplesmente por odiar a única coisa no mundo que constatou não ser duplicada, mas que não teria sido por sua inadequação e repugnância. Aquilo que mais odeia é justamente o que jamais se reproduz no mundo. 

O HOMEM DUPLICADO é uma obra densa e imprevisível, de tema já explorado pela literatura, mas com uma condução um tanto moderna. José Saramago é um eficiente contador de história, que sabe fazer a mente do leitor reproduzir as mesmas questões que certamente pairavam em sua própria, quando resolveu nos contar sobre sua visão da perda da individualidade em seu estado mais extremo.

NOTA: 8,7

domingo, 29 de maio de 2022

CONTO - A ÚLTIMA BATALHA


“A canção do aço eleva-se em conformidade com o vigor dos metais em choque..., no derradeiro instante da luta, a espada de Imann destilava notas ininterruptas, como quem acredita somente na linguagem do conflito...”

“E embora haja o instante de cessar, o orgulho sempre será um maestro mais atento do que a própria morte...”.


Vilarejo de Hittin, século doze.

Um par de olhos se abriu no inferno. Enfim, um relapso de vida, ou quase isso, porque em lugares os quais se parecem com necrópoles a céu aberto, a desarmonia faz o ato parecer efêmero.

Imann estava desnorteado, exposto, deitado sobre o lençol cadavérico, olhando para os corvos, que voavam em círculos no firmamento. Cogitou as possibilidades de sua situação, talvez porque só restasse isso a fazer, levando-se em conta o corpo exaurido. Havia dores em lugares específicos, não sabia identificar com exatidão..., mas o ódio, elemento central de sua trajetória como guerreiro, este havia desaparecido. Ele percebera a mente infestar-se de memórias, carregar-se de lembranças..., não sabia o que era essa sobriedade excêntrica.

As lembranças eram como intrusos em sua mente, o conduziam à força até certos instantes que passaram despercebidos por Imann, como se fossem os caprichos de um cenário banal.

Diante dos olhos, transpassando as aves negras no céu, a infância..., viu o quintal onde brincava com o cavalo do avô. A crina eriçada, o cheiro de suor e pelo selvagem, o primeiro tombo...

Então as memórias deram um salto e ele viu o início da fase adulta, quando havia feito um juramento junto aos templários. Imann pôde novamente apreciar o sabor da integração junto à ordem, e então, a adrenalina de pisar pela primeira vez no campo de batalha.

Em seguida, sua viagem nostálgica levou-o de encontro ao amargo gosto da traição, quando líderes religiosos nos quais ele havia jurado proteger com sua espada, com a vida se assim fosse, voltaram-se contra Imann e os demais cavaleiros...

Memórias..., memórias.

O bravo guerreiro, quis dar um basta na projeção mental, e com dificuldade se sentou. Meio corpo esticado ao solo não combinava com sua trajetória gloriosa. E nesse momento, ele contemplou o inferno pela primeira vez. Era uma infinita extensão de morte por todos os lados..., até onde a visão alcançava. Corpos de homens mutilados de toda forma imaginável, por variados instrumentos cortantes, corpos queimados, corpos atravessados por flechas que haviam salpicado o céu. Uma bandeira da ordem dos templários estava atirada na lama, manchada com o sangue daqueles que ousaram protegê-la.

Meio corpo já era mais do que os demais no horizonte... Imann pensou ser o único remanescente, mas a constatação não o fez se sentir melhor, pois seus camaradas também eram parte do carpete funesto. Ele reconheceu cada rosto sem vida de seus companheiros, cujas partes eram disputadas por animais carniceiros. 

O guerreiro pensou na possibilidade de ter dado a ordem para que fossem de encontro a inevitável morte, talvez ele tivesse hesitado e, por conta disso, ainda respirava... Contudo, a visão da morte daqueles que ele próprio admirou em silêncio por toda a vida, fora demais para sua alma. Não era da natureza de Imann abster-se da batalha, geralmente ele tomava a dianteira e era seguido pelos demais. 

O guerreiro não conseguia ordenar os pensamentos, não conseguia se expressar..., beligerante mudo! Não insistiu, porque o velho ódio, que sempre o impulsionava, havia lhe deixado, assim como seus companheiros. Havia cortes e dilacerações, e a dor o levava de volta aos pensamentos. 

Não era bom em ruminar. Tinha maior proximidade com ações;

O esforço fora imenso, até que Imann ficasse de pé;

Agora poderia vislumbrar melhor o oceano de corpos;

Os corvos e chacais aproveitavam o infinito banquete;

Pais, filhos, maridos, amigos, irmãos, vizinhos, todos tombados; 

Há poucos metros de onde Imann estava, ele avistou sua espada; a mais fiel companheira. Instrumento estático, abandonado, longe dos punhos ágeis de seu mestre, que quando juntos, formavam uma unidade perfeita de matar. 

A visão do objeto o motivou. Passos cambaleantes com o propósito de socorrer aquilo que considerava sua infalível protetora. Porém, fora interrompido por uma situação ainda mais urgente, a qual Imann não poderia passar despercebido: 

Ele reconheceu o corpo de Drax, o melhor e mais antigo amigo. Estava atirado sobre outro corpo, e uma enorme lança atravessava ambos os homens. Sobre eles havia um larápio que tentava retirar um amuleto do pescoço de Drax. O amuleto que fora presente de Imann para o amigo. 

Finalmente houve um familiar sinal de fúria, enrijecendo os músculos do guerreiro. Ele partiu apressado em direção do ocorrido, intencionado a esgoelar o vagabundo larápio. 

Pensava estar prestes a praticar o elemento surpresa, uma vez que o gatuno não havia percebido sua aproximação. Suas duas mãos esticadas como garras de um falcão, desceram firmes até o pescoço do rapaz e o transpassaram, como se ele não existisse. Imann espatifou-se no chão do outro lado. O vagabundo terminou de retirar o amuleto, e saiu andando, tranquilamente, em busca de outros objetos de valor, sem sequer notar a presença furiosa do guerreiro caído. 

– Devolva o cordão dele, desgraçado!!!!! – gritou Imann, novamente derrotado ao solo. O homem seguiu seu caminho, ignorando-o, como se não ouvisse. 

Aturdido, Imann não compreendera o que havia se passado. Ele simplesmente atravessara o corpo do vigarista, como se ele fosse um fantasma. 

Novamente de pé, involuntariamente ele olhou para trás, para o percurso que havia feito. Então, um arrepio terrível lhe envolveu os poros da pele. Imann estarreceu! Estava olhando agora, para o local onde esteve deitado. Incrédulo, vislumbrava seu próprio corpo, que permanecia estirado no mesmo lugar, imóvel, e sem vida... 

"O que está acontecendo comigo?" 

Nesse momento, um sujeito surgiu de algum lugar incerto, ereto, atravessava o mar de corpos. Caminhava na direção do guerreiro, de forma tranquila, como se estivesse passeando por um jardim de flores. Era um homem alto, de pele alva como a neve, tinha cabelos longos e encaracolados. Ele usava um manto dourado que ofuscava os olhos de quem olhasse. 

– Saudações, bravo Imann! – disse o homem ao se aproximar – finalmente é chegada a tua hora.

– Quem é você? – perguntou o guerreiro, ainda assustado com a situação inexplicável.

– Sei que deves estar com a mente perturbada, uma vez que és um homem que só acredita no julgamento do aço. 

Imann não disse nada em resposta. A consciência parecia afirmar-lhe exatamente o que os olhos testemunhavam. E como tudo em sua vida só era entregue mediante a luta, estava disposto a travar uma batalha contra a própria sanidade. 

– Vá embora daqui! Desapareça!

– Não tenhas medo de mim, bravo Imann.

– Deixe-me!!!

– Eu vim livrá-lo das chamas do inferno. Por favor, permita que eu o salve. Eu já vi o inferno uma vez, grande guerreiro. E não desejo que homem algum também o veja...

– Quem é você?

– Eu me chamo Ariel. Sou o zelador dos mortos, o coletor de almas perdidas. A tua se perdeu após a sangrenta batalha. – o estranho fez uma pausa. Observou uma repentina mudança no céu, e este começou a escurecer. Dezenas de vultos alados intrometeram-se ao redor deles.

– Não temos muito tempo, Imann. Eles estão vindo buscá-lo. 

Dessa vez, o guerreiro nada disse, mergulhado no próprio orgulho. Ele levou as mãos à cabeça. As palavras do outro faziam com que as neblinas que escureciam sua mente, dissipassem como numa ventania feroz. Foi quando conseguiu resgatar as lembranças de seus últimos instantes de vida. O exato momento em que o inimigo triunfara sobre ele. 

As incessantes trocas de golpes;

O choque de dois aços perfurantes emitindo faíscas;

Músculos enrijecidos a segurar o instrumento decisivo;

Imann versus o doutrinador de templários;

Em volta deles, a batalha estava no seu auge;

Os guerreiros sob a chuva forte que parcialmente os cegavam;

Um embate que só terminaria com a morte de um deles;

Então o adversário de Imann esquivou-se de um golpe mortal;

A espada do guerreiro jamais havia falhado;

Passou por cima do corpo do inimigo abaixado;

Ele contra atacou com determinação e firmeza;

E a espada adversária, atravessou o peito de Imann.

Depois disso, houve escuridão... 

– Imann!! Imann!! 

O guerreiro abriu os olhos. O anjo estava parado em sua frente, o sacudia os ombros, numa insistente busca em ser ouvido: 

– Rápido, Imann! Os demônios querem levá-lo!

– Demônios? – perguntou Imann, resgatando a consciência.

– Sim, Imann. E se não vier comigo, terá que ir com eles.

– Onde estão todos?

– Não importa agora, Imann. Vamos sair daqui!! 

O firmamento estava tomado por uma tonalidade lúgubre. Os vultos se aproximavam de Imann. Um deles saiu das sombras, e foi até Ariel: 

– Deixe-o, querubim. Você não pode interferir no livre arbítrio.

– Afaste-se, imundo! Essa alma não lhe pertence.

– Ele se decidiu, Ariel. Não quer ir com você... 

O guerreiro estava cabisbaixo, como se pouco importasse aquela disputa por sua alma. Seu olhar apontado na direção do vazio. Não conseguia desfocar da derrota; inconformado com a realidade. Percebeu que era inevitável. E mesmo agora, depois de tudo acabado, a vergonha pela queda lhe trouxera mágoa, fúria e um desejo enorme de autodestruição. 

– Por favor, não se entregue, Imann. – implorou o anjo.

O guerreiro caiu de joelhos;

Os enviados de Lúcifer envolveram sua alma;

Ariel nada pôde fazer;

Não houve nenhuma resistência;

Imann punia-se com a abstenção. 

Ariel retornaria sem a alma do Guerreiro. O azul do céu voltou a normalidade, as nuvens brancas reapareceram. O anjo estava atônito, sem saber qual seria a verdadeira razão pela qual outra alma, por mais perturbada que fosse, negligenciara sua súplica. 

Jamais alguém havia sido inconsequente a ponto de recusar tal oferta de salvação. 

A verdade era que anjos não conheciam a vaidade humana.

Assim como o bravo Imann jamais havia conhecido a derrota...

***

(Conto postado no site Recanto das Letras, no ano de 2012).

quinta-feira, 26 de maio de 2022

RESENHA DE LIVRO – A DAMA DA SOLIDÃO

Livro de estreia da escritora Paula Parisot, este discreto A DAMA DA SOLIDÃO é um livro de contos que, ao mesmo tempo em que agrada pela forma simples de sua narrativa, também desagrada pelo mesmo motivo. Eis o problema de se iniciar um escritor pelo seu melhor trabalho. Eu explico: é que GONZOS E PARAFUSOS, primeiro trabalho de Parisot que li, é uma obra infinitamente melhor acabada, textualmente mais rica, a autora está nitidamente mais segura e absolutamente imersiva (tem análise dele aqui no blog), o que infelizmente fez com que minha expectativa para esta obra resenhada aumentasse muito.

São vinte e um contos, relativamente curtos, cuja pegada despretensiosa é convidativa, a fluidez e desembaraço na linguagem tornam a leitura ágil, não há muito entrave técnico, tampouco conteúdo reflexivo, apenas os relatos externo em cada texto, assemelhando-se a um diário ou carta. O elemento experimental também é evidente, é notório por meio de aspectos linguísticos um tanto distintos e pouco explorado, que a autora estava buscando descobrir sua forma.

A visão contemporânea dentro dos textos agrada, detalhes casuais narrados pelos personagens, alguns dilemas da sociedade moderna, inconstâncias, o gesto cômico, falas afetadas, a mistura de assuntos, toda essa desordem substancial pode desagradar alguns leitores, mas eu até que gosto desse conteúdo carregado, dessa desobrigação textual.

Os contos distinguem-se em essência. Á priori, pensei se tratar de um compilado de contos eróticos, mas os temas variam conforme avançamos na leitura, ora acompanhamos aventuras sexuais, passamos por algumas histórias cujas temáticas soam clichês, então, eis que nos deparamos com um conto sobre um catador de latas, feliz em seu trabalho de juntar latinhas na noite de réveillon.

Os textos também terminam de modo súbito, e vez ou outra, até inconclusos. Nenhum problema quanto a isso, mas sei que há leitores que se incomodam com essa ausência de desenlace. É que alguns contos parecem recortes soltos de algo maior, deixando-nos com uma sensação de insaciedade... Reforço que não vejo problema, mas vale o aviso sobre esse aspecto.

Incomodou-me a falta de ousadia quando, por exemplo, estamos diante de um conto de conotação erótica. Achei algumas situações narradas um tanto higienizadas demais, o que comprometeu na credibilidade do personagem. Apesar do elemento simples na construção do texto ser um acréscimo, a autora perde o leitor quando se abstém de relatar com um pouco mais de despudor.

A DAMA DA SOLIDÃO é um livro que agrada pela simplicidade, tem uma belíssima capa, porém, seu conteúdo não faz justiça ao talento da autora. Paula Parisot evoluiu muito sua escrita, algo notório quando se lê outros de seus trabalhos. Mesmo assim, vale à pena aos amantes de contos, pois esta declarada discípula de Rubem Fonseca, por meio dessa compilação das nossas vivências corriqueiras, iniciou sua trajetória como mais uma promissora escritora da nossa literatura.

NOTA: 6,5

sábado, 7 de maio de 2022

RESENHA DE LIVRO – TERRA VERMELHA

No clássico romance O Cortiço (tem resenha aqui no blog), o autor Aluízio Azevedo, metaforicamente transforma o cenário de sua obra, ou seja, o próprio cortiço do título, em seu personagem principal. Nele, estância é como um todo substancial e os demais protagonistas, que vão surgindo ao longo da trama, são como as células que mantém este organismo vivo. Neste trabalho estupendo de Domingos Pellegrini, intitulado Terra Vermelha, ocorre semelhante alegoria de dar vida ao lugar. Contudo, um pouco mais amplo do que ocorre no clássico de Azevedo, aqui a Terra Vermelha permeia todos os espaços, quase ao ponto de o leitor sair meio empoeirado de rubro, após terminar a leitura. E embora a referência geográfica que intitula este trabalho não esteja personificada na essência da trama, como acontece em O Cortiço, seria incompleto narrar a história de seus protagonistas, José e Tiana, sem o relato do surgimento desta ilustre região, que atualmente recebe o nome de Londrina.

Nesta trama Domingos Pellegrini (que rapidamente está se tornando um dos autores mais resenhados do blog) narra o progresso de seus personagens simultaneamente. A Terra vermelha já estava lá, ilesa e singular; e seus desbravadores, José e Sebastiana, já eram existências banais em algum canto da imensidão de possibilidades mundanas. Então eles se encontram, primeiro José e Sebastiana, depois os dois descobrem a Terra, e então passamos a acompanhar a evolução dos três protagonistas.

Na década de 30, José e Tiana formam um casal de colonos que, juntamente a outros desbravadores, irão povoar essa terra misteriosa e intensa que futuramente será batizada de Londrina. A trajetória é requintada pela narrativa prosaica e prolixa deste autor, que faz uma composição de romance histórico e biográfico, cuja minúcia e originalidade tornam a experiência da leitura algo crível, a sensibilidade aos detalhes na vida de seus narrados, juntamente à descrição do nascimento de uma região notória do Paraná, deixa tudo tão eloquente que há momentos em que parece estarmos diante de um texto verídico..., tal mescla faz deste livro um volume singular.

TERRA VERMELHA é uma trama dentro de outra trama. Começa com um José desafortunado, num leito de hospital, lânguido, o crepúsculo a velar-lhe. Enquanto isso, os filhos, basicamente indiferentes, apenas aguardam, alguns sem esconder o enfado ante o destino do pai que parece inevitável. É precisamente esta espera o conteúdo da obra; é nesta espera de sete dias e sete noites, que então alguns deles irão rememorar os feitos e as aventuras de seus genitores.

A conjuntura revela pouco dos filhos, e parece ser proposital, apenas denuncia o atual instante, ali, no hospital a velar o pai. Podemos verificar conflito entre eles, a amofinação, o desconforto, a desconfiança, a insignificância do ato, até mesmo a avareza condicionada pelo moribundo, cujas diárias de internação custam muito caro. Porém, a proza entre eles é o convite à história de José e Tiana, os genitores da família que desbravaram a terra vermelha, e o leitor entra de cabeça na vida dos Pellerinis. Em alguns instantes ficamos tão submersos que subcapítulos se mostram necessários para nos resgatar de volta ao presente, na sala de hospital, onde José segue diante da ampulheta da morte a derramar os últimos grãos e os filhos esperando pelo fim, como abutres ansiando o último sopro. Tais instantes soam como intervalos da narrativa; ou seja, uma trama dentro da trama; quase como um corte providencial, um espaço dedicado aos patrocinadores, enquanto vamos até a geladeira nos recompor com um copo d’água.

TERRA VERMELHA e uma obra estupenda! Certamente muitos leitores irão se familiarizar com a brasilidade de José e Tiana; gente que viveu num tempo diferente, que exigia maior austeridade e pouca vaidade; gente que viu cidades começarem do zero, que tiveram o contato direto com a natureza a ser desbravada..., sendo eles mesmo, os primeiros cidadãos, tão identificados com essa mesma natureza austera, selvagem e rubra.

NOTA: 8,4

sábado, 23 de abril de 2022

RESENHA DE LIVRO – A CAMAREIRA

A solidão é a máxima condição humana, talvez aquilo que nos seja essencial e, portanto, o maior de nossos temores. Há quem diga que tudo o que fazemos na vida, visa o intuito de escapar desse monstro assustador. E dependendo do quanto se mergulha neste vácuo existencial, perdemo-nos, muitas vezes, de forma irreversível.

A CAMAREIRA, romance impressionante de Markus Orths, aproxima-nos de um exemplo de existência que não sabe como lidar com o próprio isolamento e, portanto, deixa-se seguir seus dias entre fetiches, manias e aleatoriedades. A protagonista se perde em seus nadas. Exercendo a profissão que dá nome ao título, a camareira se tornou uma expectadora da vida dos outros, talvez como método de fuga de seu próprio vazio.

Remete-se a isso quando consegue este novo emprego, como camareira de hotel. Lynn Zapatek agora faz de seu novo labor, um modo de alimentar os espaços vazios de sua existência. Condição que se pode perceber no afinco com que desempenha sua função, no zelo excessivo pela limpeza, na neurose de continuar limpando o que já se encontra limpo, no desânimo em ter que retornar ao apartamento onde mora, pois sabe que o monstro que a consome a espera lá..., a solidão reina em todo lugar, mesmo onde há aglomerados de gente.

Quando não está no trabalho, Lynn apenas observa o mundo ao redor, seu olhar sempre voltado para as frivolidades do cotidiano, causa deleite no leitor, tamanha é a inserção que se tem aos detalhes da narrativa. Contudo, devo acrescentar que é uma constatação triste, o testemunho da implacabilidade da solidão dói, principalmente para o leitor que já se viu em condição semelhante e, portanto, compadece da personagem em toda essa incomunicabilidade que atravessa almas. Sei exatamente como Lynn se sente a ponto de compreender algumas de suas ações impulsivas, como procurar um documento na busca de identificar à si mesma, após passar horas na frente do espelho; seguir alguém na rua; colocar um filme para assistir e dar mais atenção a detalhes triviais do que o enfoque da trama; entrar debaixo da cama de um hóspede e ficar lá, como ouvinte oculta da intimidade alheia.

Este último, a mais nova fuga de Lynn. Então, todas as terças-feiras ela se esconde debaixo da cama do apartamento 304, onde um homem está hospedado. Naquele lugar velado, ela ouve sons, o bater na porta, pernas passeando pelo recinto, resmungos, gemidos, a tv ligada, conversas, o ronco cansado do homem, o urro de um orgasmo..., Lynn faz da vida de outras pessoas sua válvula de escape.

A dicotomia da solidão consiste por um lado, na consciência de si mesmo; por outro, no desejo incessante de sair de si. Ambos são extremamente assustadores e isso nos é apresentado através do cotidiano da personagem, confusa e insegura quanto ao que fazer com o reconhecimento de aspectos seus, e os espaços vazios de sua vida. Há um instante na trama em que um personagem surge e começa uma breve relação com Lynn. E o desfecho dessa relação me foi amplamente comovente, apesar de banal, quase fui às lágrimas, tamanha identificação que tive com a situação.

O livro é curto e de linguagem ágil, fluida e simples. Desses que se pode ler numa única tarde fria, na companhia de uma xícara de chá. Markus Orths se mostrou um eficiente narrador da vida cotidiana através das impressões de seus personagens. Uma deliciosa, porém, curta viagem..., senti falta de um pouco de fluxo de consciência narrativa. Mas essa ausência em nada diminuiu o prazer da leitura.

A CAMAREIRA é uma belíssima obra. Possui uma linguagem fácil que ajuda o leitor a acompanhar as ações da personagem, faz-nos enxergar com seus olhos. Markus Orths realiza uma profunda radiografia dessa nosso método contemporâneo de vida, pautado na solidão absoluta e na busca ininterrupta por se livrar dela.

NOTA: 9,1