quarta-feira, 9 de novembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – FAZES-ME FALTA

O nosso gênio Machado de Assis narra em sua obra Ressurreição, que somente a natureza seria capaz de exibir um sarcasmo amplamente benévolo e anódino ao misturar espinhos e rosas. Pois é exatamente disso que se trata este FAZES-ME FALTA, outro livraço da escritora portuguesa Inês Pedrosa, precisamente da sutileza do sarcasmo incutido no amor.

Conheci a literatura de Inês Pedrosa por acaso; vi um de seus livros na estante de minha ex-mulher. Eu retirei da prateleira, olhei capa, virei para ver a contracapa, e este me pareceu desinteressante (O livro era Desamparo, tem resenha sobre esse episódio aqui no blog). Contudo, a leitura se mostrou um inesperável deleite de poesia em prosa. Desde então não parei mais de procurar pelos livros de mais essa exímia representante da belíssima literatura lusitana.

Resumidamente temos aqui a história de um homem e uma mulher que viveram uma relação de discrepantes sentimentos e que estão a refletir sobre como isso ocorreu (e ainda ocorre) em suas existências. O livro é exposto em forma de cartas (no sentido epistolar, não de cartas propriamente ditas) no qual os dois amantes, um deles já falecido, sequenciam seus monólogos instigantes e nostálgicos num retrato fidedigno do luto, da dor e, ao mesmo tempo, da beleza humana. A “falta” que intitula a obra vai além da mera ausência física de um dos dois, precisamente remete à noção de perda de nós mesmos, enquanto almas que antes não se reconheciam como perdidas.

A delicadeza linguística da autora é o que de mais instigante temos na obra; Inês Pedrosa tece uma literatura assertivamente ordinária, porque são duas existências em confissões íntimas, e precisamente ela envolve por sua forma simples. Faz com que nos apaixonemos pelas personagens, rapidamente, para dentro de uma imersão que torna inevitável não refletirmos sobre a perda de quem amamos, pois como mencionei, uma das personagens faz suas reflexões postumamente. Desse modo, paira constante um sentimento de vazio e de arrependimento, como se algumas coisas na vida deixaram de ser vividas ou que simplesmente uma vida se perdeu cedo demais... enfim.

Há momentos belíssimos que se tornam ainda mais marcantes pela linguagem afável e verossímil da autora, cheias de atos involuntários e inexplicáveis. Como quando a personagem liga para o número do ser amado, apenas para escutar sua voz gravada na secretária eletrônica, uma vez que este morreu e há o receio na outra de esquecer como era sua voz... Até o dia em que ele liga e não há mais nenhuma voz do outro lado, fazendo com que a familiaridade finalmente se perca, vencida pelo distanciamento irredutível da morte.

Um aspecto interessante ocorre nas diferenças de sentimentos e constatações feitas ao longo da narrativa. Por exemplo, a personagem masculina transparece um bocado de culpa por tudo aquilo que supostamente teria se recusado a desfrutar com sua amada por puro capricho, assim como há momentos em que este deixa nítido alguma insegurança afetiva de sua parte. Já a personagem feminina, e minha favorita, apesar de jovem, é astuta, segura e audaz; expressa seu desapego de convenções sociais e expressa o destemor daquilo que viu como verniz do anseio de um relacionamento onde o amor romântico despe-se, dando lugar ao amor de amizade.

FAZES-ME FALTA é uma obra relativamente pequena em tamanho, mas profunda em sentimento. Faz um paralelo extremamente eficiente entre um homem e uma mulher que, distanciados pela implacabilidade da finitude, resolvem trazer à tona o que há de mais palpável em suas almas melancólicas e arrependidas.

NOTA: 8,5

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

CRÔNICA - NÃO FARÁ DIFERENÇA ALGUMA, POIS JÁ PERDEMOS!

Não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Recentemente, encontrava-me preso num estressante engarrafamento no centro da cidade onde moro, quando um homem de meia idade surgiu em minha janela com um sorriso encabulado no rosto. Baixei o vidro e, sem cerimônias, ele foi me perguntando seu eu estava interessado em comprar um saquinho de pururucas que sua esposa havia feito. Agradeci e disse que não tinha interesse. Minha única vontade era que aquela fila infernal progredisse e eu pudesse ir pra casa. Ainda sorrindo desconfortavelmente, o homem perguntou se eu não poderia ajudá-lo com algum dinheiro... Friamente falei que não tinha. Notei os olhos dele ficando rasos quando seguia para o carro de trás e eu fechava o vidro, completamente indiferente.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Outro dia, estava dentro de um ônibus lotado, a caminho de casa. Era começo de noite, havia muito congestionamento e atrasos nos coletivos, cujo espaço interno era disputado por trabalhadores e estudantes. No trajeto, o ônibus parou para que uma mulher grávida embarcasse, apesar da superlotação e mesmo sob o risco de alguém atingir sua barriga, que já se encontrava bem saliente. Após alguns minutos ela se convenceu de que ninguém lhe cederia um lugar para se sentar, e simplesmente se espremeu entre os passageiros que estavam em pé e foi se sentar na escada do ônibus.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Como faço todos os dias nos horários de almoço, fui até a praça do centro da cidade para ler um pouco e, de imediato, encontrei um assento na sombra, o que não é muito simples de se conseguir. Pensando na enorme sorte, corri para me apossar do banquinho, foi quando notei o motivo pela qual ninguém havia sentado ali; é que o banquinho estava todo respingado de sangue seco. Mesmo com certo asco, tentei me encolher no canto do assento, até que encontrasse outro lugar para ler, foi quando escutei dos taxistas que trabalham naquele ponto, que na noite anterior um sujeito sem teto havia sido linchado até a morte por outros moradores de rua, exatamente naquele banquinho.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Nesta mesma praça, todos os dias cumprimento um homem muito velho cuja idade avançada o faz caminhar de forma lenta e sôfrega, porém, mesmo naquela altura de sua vida ainda precisa vender picolés puxando um carrinho, as mãos tremendo ao conduzir seu instrumento de escravização. Sempre que ele passa por perto de uma lixeira verifica seu interior à procura de latas de alumínio para vender..., um idoso que facilmente deve ter mais de 70 anos e ainda precisa sair de casa para ganhar o sustento, sob o sol impiedoso de Colatina.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Um enorme gato branco apareceu na minha rua se arrastando e golfando, dando sinais de que estava ferido ou envenenado. Encolheu-se num canto da calçada, incapacitado de seguir caminho devido a dor que certamente sentia. Neste momento, surgiu um cidadão pela rua, alto e saudável, caminhando de forma objetiva. Ao avistar o gato ele não precisou cogitar o que via, tratou de aplicar no animal um chute que o atirou a considerável distância. O homem seguiu seu caminho cantarolando descontraidamente, e o gato, ainda mais encurvado, voltou a se arrastar, na tentativa de se proteger de alguma forma.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Li recentemente o caso de uma mulher que foi espancada até a morte pelo marido, bem na frente dos dois filhos pequenos. O cara se entregou e foi levado para a delegacia, mas liberado no dia seguinte, pois alegou que estava muito abalado emocionalmente, por isso cometera o assassinato. Ele recebeu o direito de aguardar pelo julgamento em casa.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Conversei recentemente com um conhecido que está há quase um ano procurando emprego, vivendo de pequenos bicos para sustentar a família. Comentei pateticamente que estava mesmo muito difícil encontrar trabalho e ele concordou exibindo um sorriso cansado. A verdade que não precisava ser dita, pois ele já sabia, é que ninguém aceita empregar um homem negro, de pouca escolaridade e que já cumpriu pena por roubo.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Testemunhei um acidente de trânsito, em que uma senhora pilotando uma moto, bateu na traseira de um carro, próximo a uma faixa de pedestre. A mulher fora arremessada para o canteiro no meio fio e, por sorte, sofreu apenas alguns arranhões na perna. O motorista do carro, um rapaz jovem e estressado, saiu pela porta e, no lugar de prestar algum socorro à senhora caída no meio fio, sacou o celular e foi tirar fotos de um pequeno amassado que o impacto deixou na lataria do carro. Alguns transeuntes que passavam socorreram a mulher, colocaram ela num banquinho, deram-lhe um pouco de água. Ela parecia desnorteada, mesmo assim o dono do veículo amassado foi até onde ela estava para gritar algumas ofensas e dizer que ela teria que arcar com as despesas...

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Tudo isso que contei aconteceu em menos de duas semanas, na cidade de Colatina, no norte do Espírito Santo, onde moro. Lugar que sempre foi considerado relativamente pacato e bom de se viver... Tais acontecimentos devem ser evidências incontestáveis de nossa derrota como sociedade!

Pois não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo... Todos nós já perdemos!

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUANDO NIETZSCHE CHOROU

Que seja explicitado: aprendi a gostar da literatura de Irvin D. Yalom lendo seus trabalhos menos expressivos; posso até salientar que pouco interesse tinha por esta que é sua obra mais notória, não por envolver um filósofo que aprecio, mas pela consciência dessa fascinação exacerbada ao redor da trama à ponto de alguns educadores oferecerem a obra para compreensão de Friedrich Nietzsche, sugerindo que o conteúdo fosse além de sua pretensão como literatura de entretenimento.

Manifesto que isso é um preconceito de minha parte, pois evitar aquilo que nunca se leu, apesar de se conhecer o autor, é julgar sem antes ter experienciado. Portanto, o livro veio parar em minha estante por acaso, quando o encontrei em promoção durante uma de minhas garimpagens num Sebo.

Outro problema pode estar precisamente na expectativa que criei sobre o autor, o que é meio que um paradoxo perante minha desconfiança, afinal, sei muito bem do potencial de Yalom com sua narrativa que mescla elementos filosóficos, psicológicos e introduz embates instigantes em suas personagens, algo admirável. Ou seja, ao mesmo tempo em que me recusava a ler este livro, também sustentava a confiança de que estava levando para casa outra boa leitura.

Contudo, a desconfiança se fez assertiva, QUANDO NIETZSCHE CHOROU é o livro mais fraquinho que li do autor e, apesar de não ser propriamente um trabalho ruim, considerei-o o menos envolvente dos lidos até hoje na bibliografia de Yalom, e o restante dessa resenha é uma tentativa de expor os elementos que embasam essa opinião.

Quando o famoso médico judeu Josef Breuer recebe a visita de Lou Salomé, uma sedutora mulher russa, o médico é intimado a ajudar a cuidar da delicada saúde de um amigo importante de Lou, um até então pouco expressivo intelectual chamado Friedrich Nietzsche. A mulher faz uma recomendação para que o Dr. Breuer mantenha o pedido em segredo, dada a natureza orgulhosa do paciente. Ou seja, para ajudar Nietzsche, o médico precisará ir ao encontro do filósofo e ajudá-lo sem que o outro perceba essa intenção... Temos o nosso enredo.

À priori, a premissa parece meio descabida ou sem sentido, mas isso não chega a incomodar, pode-se relevar facilmente essa condição narrativa para o encontro entre os dois principais personagens da trama, dr. Breuer e Nietzsche. No entanto, creio que conjunturas mais pertinentes poderiam ser introduzidas nas personagens.

Quanto ao aspecto que mais me incomodou na leitura ocorre desde o instante em que o filósofo cujo nome intitula a obra aparece e perdura por todo o texto: uma exacerbada reverência sobre a figura de Nietzsche ocorre já nos primeiros parágrafos em que ele surge na narrativa. E embora isso talvez fosse apenas uma bajulação introdutória, cujo intento seja enaltecer a figura de Nietzsche, tal condição não decresce, chegando a tornar alguns instantes intragáveis. Primeiro que por tudo o que Nietzsche representa para a filosofia, sua imagem não carece desse tipo de servilismo. E em segundo lugar, esse preciosismo escancarado interfere na maneira com que o enxergamos, tornando-o algo extraordinário demais e, portanto, menos crível.

Vale ainda mencionar para os leitores que ainda não conhecem a obra de Irvim D. Yalom, que em seus textos não há espaço para elementos como suspense, reviravoltas, impactos emocionantes ou agilidade linguística. A literatura desse autor segue sempre uma pegada invariável, cujo ápice fica nos diálogos cheios de elementos psicanalíticos e filosóficos que são estabelecidos entre suas personagens. E dentro desse aspecto há instantes bons aqui, o livro enriquece muito quando o autor deixa de se concentrar na idolatria à Nietzsche, para fazer o que faz melhor: narrar os enfrentamentos existenciais de suas personagens.

QUANDO NIETZSCHE CHOROU é um best-seller que merecidamente tem seu lugar de destaque no universo literário, porém, deixa-se seduzir demais pela personagem central da trama. Reconheço-me como parte da minoria que não considerou a trama tão grandiosa assim, mas sou consciente da existência dos bons elementos narrativos que fizeram de Yalom este consagrado escritor.

NOTA: 6,7

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

CONTO: A COR DE SUAS VÍSCERAS

A cama não será mais aconchegante, pois você não estará sobre ela. Os lençóis, ainda quentes, assemelharão às geleiras de uma montanha... Não consigo desviar o olhar de seu rostinho cândido, afundado no travesseiro. Procuro ficar o máximo de tempo possível dentro do quarto, portas e janelas fechadas, na incessante busca por acumular o seu cheiro e evitar que escape pelas fissuras.

Minha amada, Ivi.

Deixo você sozinha, apenas no instante de ir até a cozinha para buscar o punhal que comprei para a ocasião; uma réplica em metal trabalhado que imita o período mesopotâmico... Pedi que gravasse o seu nome na lâmina reluzente.

Deveria estar impregnado com o seu sangue agora, amor. Eu quero saber a cor dele, do seu interior..., mas, assim como nas noites anteriores, ainda careço de força para cravá-lo em sua carne.

O relógio me apressa. Já passam das onze da noite. Retorno ao quarto e me sento ao seu lado... Como você dorme tranquila! Sossegada como somente alguém que se sente amado poderia dormir.

Passeio com a faca levemente em seu pescoço, a ponta quase lhe riscando a pele. Sigo a silhueta pelo seu entorno e encontro os seios rosados, a respiração ritmada empurrando a ponta da lâmina pra cima e pra baixo.

Seriam os últimos sopros de uma vida?

O que ocorre na mente de alguém que morre enquanto está dormindo?

Confusão pela repentina travessia de planos?

Dor pelo descolamento da alma?

Um imenso e dissimulado nada?

O que ocorre?

Você se mexe, talvez o punhal tenha lhe feito cócegas na pele. O baby-doll é incapaz de cobrir seu corpo apetecível, causando-me excitação. Essa proximidade anula os demais pensamentos. Novamente só o que quero é provar do seu corpo, tomado pelo desejo que acomete a criatura submissa que sou.

O punhal vai parar embaixo da cama. Enfio-me nos lençóis, você acorda e sorri. Outra vez começo a sorver cada centímetro de seu corpo, percorro cada especificidade de sua estrutura, cada orifício me é familiar, cada mancha, cada imperfeição..., minha língua sente a maciez de sua pele e sei que provar desse cálice que nunca me sacia será minha ruina.

Talvez o punhal pertença a mim e não a ela.

Colados, nossos corpos se misturaram num manifesto de suor e urros. Gozamos, juntos... Dessa vez, eu fico na cama e você vai até o banheiro, lindamente nua e saciada.

Quando retorna eu sou outro homem. O distanciamento trouxe de volta meu orgulho ferido; uma voz faz um ultimato dentro da cabeça, quer saber quando vou acabar com isso, mas sou desperto por seu retorno, faz-me uma pergunta a qual não presto atenção.

Não deve ser nada importante, pois você não insiste.

Então olha o celular na mesa de cabeceira e se lembra de encerrar o nosso breve universo. Não percebe a dor que teu gesto desdenhoso me causa. As pessoas nunca notam o mal que causam à outras, apenas o mal que lhes é causado por outrem.

Finalmente ela replica a pergunta. Estou desolado, o braço esticado na beirada da cama, à procura do punhal.

– Vou te pagar em dinheiro – respondo; e no lugar do punhal, meu outro braço encontra a carteira na cabeceira.

– O que você fez no apartamento? – ela quer saber, enquanto confere o dinheiro na minha frente, pra me humilhar mais um pouco.

Um dia estive em uma loja de artesanatos e pedi ao vendedor para me mostrar um belo punhal que estava na vitrina. Muito gentil, o rapaz me convenceu a adquirir a peça. Eu pedi que ele gravasse o nome de minha amada Ivi na lâmina. Foi então que, olhando nos meus olhos, ele disse:

– É impossível existir apenas um amor... Na vida completa, tem que haver dois amores: o seu e o dela.

O vendedor fez o comentário do nada, mas eu entendi o significado: nosso amor é impossível, pois ele não há em você...

– Não sei... – respondo – não me lembro de ter feito nada.

– Parece diferente desde a última vez que eu vim aqui.

Ela já está completamente vestida, apenas termina de calçar as sandálias de salto, sentada na beirada oposta da cama.

O punhal deve estar muito fundo, bem debaixo, não consigo encontrar, mas já agora uma dúvida paira na minha cabeça.

– Quando posso te ligar de novo, Ivi? – pergunto.

Às vezes as pessoas mentem para nos proteger. Quando eu a chamo pelo nome, você diz que não sabe quem é Ivi, depois ri como quem acha que tudo não passa de uma brincadeira. E vai embora, sem culpa, tampouco responde se posso voltar a ligar.

Quando a porta se fecha reconheço todo o meu equívoco. Foi um acaso, um momento de confusão... Minha Ivi está em algum lugar lá fora, eu sei.

Mas o que faço se me deixo embriagar pela imaginação que instiga o prazer? Quando você morreu, julguei que Deus estava rindo de mim e então eu virei-lhe as costas... Agora o altíssimo me castiga, colocando seu rosto, sua voz, seu jeito de fazer amor e seu sabor no corpo de outras mulheres...


(Texto publicado no Recanto das Letras, no ano de 2009)

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – VÍCIO DOS VÍCIOS – Um estudo sobre a vaidade humana.

O poeta Charles Baudelaire escreveu: “O maior truque já realizado pelo diabo, foi convencer o mundo de que ele não existe”. A afirmação sugere que a sofisticação da maledicência consiste em não aparecer, pois torna sua progressão mais efetiva. Quando não se sabe contra o que se luta, pode-se estar diante de um adversário imbatível. 

Este pensamento talvez seja imensamente pertinente para pensarmos sobre o mal que já era compreendido como pecado capital em tempos remotos. Ou seja, lá no livro do Eclesiastes, define-se a vaidade como totalitária e, portanto, o pecado que gera todos os demais: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade...”, livro do Eclesiastes, 1, 2-11. Se esta for uma hipótese plausível, eu creio que o tema da vaidade não recebeu atenção que deveria ao longo da história do pensamento. Portanto, segue como o diabo citado por Baudelaire, escondido e atuante, principal elemento causador de ódio, ganância, avareza e ausência de empatia com o semelhante.

Ocorre que a vaidade, ainda que entendida como elemento discreto ou mesmo pouco atuante no que se refere aos prejuízos causados, sempre terá sua participação em praticamente tudo o que fazemos na vida. Talvez por esse motivo se trate um mal que, apesar de pouco levado em consideração é supremo, pois elimina toda a noção de virtude do ser humano.

O psiquiatra Flávio Gikovates se propôs a realizar esta breve e, por que não dizer, introdutória reflexão sobre o problema da vaidade. E seus apontamentos, sempre tomando cuidado em manter a linguagem acessiva e pouco técnica, seguem precisamente nesse sentido: pontuar quase como indiscutível a vaidade como o princípio de todos os males que assolam a humanidade. Sim, pois se atualmente o ser humano é o animal predominante da natureza, ser portador de condição tão nefasta como a vaidade, torna-o um ser altamente destrutivo em suas relações com o mundo, em todos os aspectos.

VÍCIO DOS VÍCIOS traça uma linha de raciocínio para ajudar o leitor a verificar a vaidade desde seu surgimento como algo inerente, passando pela transformação em condição nociva por meio da influência de nossa cultura, até chegar ao epicentro do problema, onde sua manifestação é destacada pelo autor como um vício, justificando assim o título pertinente da obra.

Mas então se o tema é tão fundamental, por que quase não se encontram pensadores que se debruçaram sobre a vaidade? Sobre isso Gikovates nos traz um argumento, digamos, plausível: “Saber perguntar sem saber responder gera uma enorme dor; suportar a dúvida é uma das coisas mais sofridas para o nosso mundo interior. A sensação de abandono e de insignificância que resta é, em certo sentido, insuportável”, pág. 11. Portanto, quando se fala em pensadores, estamos lidando com a mais terrível e talvez a menos perceptível forma de vaidade: a vaidade intelectual..., talvez Baudelaire tivesse razão.

Claro que aqui estou apenas fazendo um resumo limitado da obra; não sendo possível aprofundar as razões que validam a vaidade como sendo o pecado fundamental, assim como não será possível detalhar os desvios e fugas das manifestações da soberba. De qualquer forma, vamos passar rapidamente por alguns momentos interessantes do livro, na ordem em que aparecem, começando pelo fundamento:

Na infância, uma manifestação sexual ocorre já no primeiro ano de vida, que explica a natureza auto erótica desse impulso, ou seja, ao se tocar, a criança encontra partes em seu corpo onde o toque lhe causa sensações peculiares. São chamadas zonas erógenas. Trata-se de um desconforto percebido pelo indivíduo como agradável, o que difere de outros desconfortos já percebidos pela criança, mas que causam irritação, como sede, fome, frio, etc...

Como o desconforto sexual é agradável, não deverá causar a tendência para a busca do equilíbrio; seu objetivo é o próprio desequilíbrio; e se o prazer for maior à medida em que o desequilíbrio se estende, a coisa tenderia para uma busca da perpetuação desse estado (...) O fenômeno inicial de excitação se dá sem a intermediação de qualquer outra pessoa. Não existe um objeto de desejo”. pág. 16.

“É só lá pelo 7-8 anos de idade que surgirá o interesse pelas trocas de carícias, ainda que claramente relacionado com fenômenos culturais, com a imitação daquilo que as crianças veem – ou ouvem falar – que interessa aos adultos. Não há nenhuma discriminação de quem seja o parceiro, nem qual o seu sexo. Apenas a vontade de experimentar a sensação de excitação derivada da troca de carícias, nada diferente do que se sente ao se fazer a carícia em si mesmo. O brinquedo agora envolve um parceiro, mas o caráter essencialmente auto erótico persiste”.

Segundo o autor, por volta dos cinco anos em diante, a criança manifesta os primeiros interesses pela exibição, o que parece ser mais frequente em meninos do que em meninas, um prazer de natureza erótica ao exibir o genital. Tal comportamento é curioso dado o fato de que não há fenômeno similar em mamíferos com os quais somo assemelhados.

O que leva uma criança a ter prazer em se exibir, em ser olhada por outra pessoa? Não creio que possamos explicar nada por hora, mas podemos constatar a coisa com facilidade. Não é improvável que o fenômeno já dependa de variações culturais, onde a exposição dos genitais é coisa já proibida; o prazer resultaria, pois, da própria transgressão. Ou será que o menino se orgulha, outra vez por isso ser valorizado pela cultura, de possuir um pênis, coisa que o coloca em “superioridade” em relação às meninas?” pág. 18.

Flávio Gikovates teve a humildade de alegar que seu estudo não é conclusivo, embora os sinais de sedução na criança sejam evidentes, pode ser que atualmente novos estudos tenham chegado a resultados mais precisos. Afinal, esta obra foi publicada em 1987. Mesmo relativamente antiga, vale a pena a leitura, pois seu conteúdo se mostra bastante atual.

Enfim, conforme a criança cresce sua razão se sofistica, também sua relação com o mundo real e imaginário. E imaginação é, segundo o autor, uma operação psíquica abstrata, capaz de provocar sensações de todo o tipo, mesmo que nada esteja ocorrendo na realidade. A erotização, antes relegada ao contato direto, passa por uma transformação curiosa: a atração se mostra tão eficiente em causar prazer quanto era o toque em zonas erógenas, mesmo que de forma efêmera. De agora em diante, a criança tudo fará para chamar a atenção, nessa busca inerente pelo prazer, porém, agora a coisa evoluiu por conta da influência cultural para a obtenção de um ganho de prazer por meio do exibicionismo..., eis a vaidade estabelecida.

Desse modo, sempre que um indivíduo busca atrair olhares e expressões de interesse de terceiros e isso não ocorrer, dispara a sensação de frustração muito forte, que pode ser interpretada como humilhação. Não é necessário que nos olhem de forma negativa; basta que não nos deem atenção e já nos sentimos humilhados, insignificantes e desinteressantes..., este é um elemento central da vaidade.

Depois de analisar sua origem, Gikovates entra em temas de extrema importância para a compreensão do progresso da vaidade, capítulos específicos, como por exemplo A Vaidade na Puberdade, A vaidade e o Trabalho, A Vaidade e o amor. Estes são alguns dos mais distintos temas que ajudam a mapear a proliferação da vaidade em quase todos os aspectos de nossa condição social e natural.

No capítulo A Vaidade e o sexo, deparamo-nos com a hipótese de elevação da vaidade por conta de nosso ciclo de tensão e atração proporcionado pela fêmea. Geralmente na natureza, as fêmeas exalam cheiros que atraem os machos para a cópula, o que denota a relação do instinto sexual com a reprodução. Já nos seres humanos, o desejo masculino é despertado por meio da visão, e não do olfato. A fêmea quando atraente provoca o desejo por tempo quase que ininterrupto, e não por alguns dias, como geralmente ocorre com as outras espécies.

Todos os homens desejam as mais atraentes. Além do mais, a cópula não interrompe o ciclo do desejo, que é ininterrupto. Com a vida em grupo, se torna absolutamente indispensável algum tipo de regulamentação da função sexual, isto com a finalidade de impedir que os homens briguem o tempo todo; também, ao menos mais recentemente, para garantir a mulher o direito de escolher os seus parceiros”, pág. 106.

Porém, similar ao que ocorre noutras espécies, nos jogos de sedução do ser humano também existe a disputa exibicionista, que fará com que a fêmea faça sua escolha pelo macho que lhe parecer mais atraente. O problema é que aqui se estabelece uma influência muito forte da cultura, o que causa uma distorção de valores, proporcionando a elevação da vaidade, cujo objetivo do macho será sempre o de angariar recursos que o faça parecer ainda mais poderoso. Do mesmo modo, a fêmea seguirá tentando parecer atraente em conformidade com a cultura estabelecida, no intuito de seguir saciando seu vício pela atração.

O último capítulo intitulado A Cura da Vaidade como vício, Gikovates faz um breve resumo e traz algumas ideias de como tornar a vaidade menos nociva. Faz confissão e assume a si mesmo como um homem vaidoso, mas oferece apontamentos pertinentes, porém, um tanto utópicos se levarmos em conta a maneira como nossa sociedade se encontra organizada, de como acabar com o vício da vaidade, e não com a vaidade propriamente, afinal, trata-se de um mal inerente.

Um aspecto que me incomodou é que alguns temas foram pouco explorados. O livro é relativamente curto, possui apenas 155 páginas. Um assunto tão amplo quanto a vaidade mereceria um pouco mais de explanação.

VÍCIO DOS VÍCIOS é um livro cujo tema sempre me atraiu de perto, talvez por eu ser mais um vaidoso incorrigível, este é um assunto que me fascina. A leitura desta obra me causou muitos desconfortos, vi-me em diversos pontos e identifiquei muitos vícios em minha natureza causado pela vaidade. E embora o último capítulo tenha servido de certa forma como um assopro nas muitas feridas, abertas ao longo da leitura, seguirei pouco esperançoso quanto a amenizar os prejuízos causados por este monstro escondido dentro de nós..., mas apesar da dor, essa é uma daquelas leituras mais que obrigatórias.

NOTA: 9,2

terça-feira, 9 de agosto de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUARTO DE DESPEJO

Existem lugares, situações e personagens neste Brasil sofrido que somente a literatura os traz, mesmo que na escassez expansiva de público, para a contemplação desse país como ele realmente é: um lugar de profundas tragédias sociais. Portanto, textos cujas leituras são fortes a ponto de fragilizar o leitor deveriam ser obrigatórios, embora eu tenha certo receio com as obrigações estabelecidas pelas nossas instituições de ensino. E me desculpem aqueles que acreditam que apenas as sofisticações de nossa cultura ou a erudita linguagem deveria ser material de pesquisa por sua evidente contribuição para o enriquecimento social; tratam-se de obras esmeras e que têm seu lugar de importância na projeção da arte brasileira, tão achincalhada ou meramente ignorada pelo nosso povo. Livros como QUARTO DE DESPEJO, possuem um viés de urgência, de chamamento para o que está acontecendo, porque tenho uma enorme desconfiança de que tem muito brasileiro que ainda não sabe o que se passa dentro de nossas fronteiras. E a náusea causada pelo avanço na leitura, deve ser como um elixir que instiga e suscita a indignação..., talvez com isso nós fôssemos um povo mais indignado.

Esta obra talvez seja indispensável neste aspecto.

O mais trágico é que mesmo em nosso tempo atual, o qual nos distanciamos muito do tempo em que a obra foi escrita, na década de 1950, o livro parece mais atual do que nunca, quando nos deparamos com a fome assombrando novamente milhões de brasileiros que vivem em favelas sem o mínimo de dignidade social, gente que enfrenta fila para conseguir um pouco de osso para cozinhar, eis um cenário que deveria ser parte do passado, mas que segue sendo reproduzido em nosso tempo.

QUARTO DO DESPEJO é o diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus, que relata seu sofrido dia a dia de acordar para ir buscar o sustento para os filhos, sem nenhuma garantia de que será conseguido. Solteira, mãe de três crianças, Carolina é uma representante dessas pessoas que são categoricamente ignoradas pelo Estado e pelo resto da sociedade; gente indigente, cujo retrato de desesperança está contido em cada dia narrado pela autora.

Carolina Maria de Jesus viveu seu tempo de miséria e desespero na favela do Canindé. Apesar das incertezas e do completo distanciamento dos meios culturais que a óbvia condição precária lhe proporcionava, ela era apaixonada por livros, amava ler e usava o hábito de escrever em seus diários, que foram reunidos nesta obra, como válvula de escape para suportar o sofrimento e a dor que permeia os dias de quem vive em condições subumanas.

Há instantes na leitura em que a tristeza de não ter o que comer se torna tão intensa, que o leitor passa a torcer por Carolina, e cada novo dia em que ela consegue algo para alimentar os filhos e a si mesma, nos soa como um alívio..., então vem o dia seguinte, e a luta para sobreviver recomeça. E ficamos desesperançados, quase sentindo as agruras vividas por Carolina para conseguir alguma coisa para levar para casa no final do dia, seja um alimento achado no lixo, algum item básico comprado com o que se conseguiu com a venda do papel, ou alguma migalha oferecida por alguém... A tristeza permeia a leitura quase que o tempo inteiro. A palavra fome aparece ao longo da obra com uma frequência irritante!

Um aspecto que vale a pena ser apontado é que os editores da obra optaram por manter a linguagem original, manteve-se os erros de escrita e de gramática, que segundo os editores, teve como intuito invadir o menos possível e manter a fidelidade linguística da obra.

QUARTO DE DESPEJO é um diário que narra os dias trágicos de quem vive na parte ignorada e obscura do Brasil. Mesmo hoje, o livro continua atual, não o relato de algo que ficou passado. Porque em nossa sociedade capitalista, desigual que acumula recursos para uma minoria quase irrisória, ainda existem muitas Carolinas por aí, morando em barracos podres e catando lixo e papel para sustentar os filhos.

NOTA: 8,2

quinta-feira, 14 de julho de 2022

RESENHA DE LIVRO – INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA

Se o Brasil fosse a centralidade geopolítica do mundo, provavelmente as prateleiras das livrarias pelos arredores do globo estariam infestadas de obras no estilo deste INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA; um trabalho desapegado de estereótipos do gênero intestigativo, cuja personagem narrador é um sujeito tão cheio de imprecisões, a pontos de nos fazer pensar no quanto esse cara não tem nenhuma familiaridade com o ofício da investigação policial.

Joaquim Nogueira, o autor dessa obra singular, é delegado aposentado. Ou seja, detentor de ponto de vista, digamos, menos enviesado sobre o universo da investigação, em particular daqui do Brasil, o que é bom porque sua experiência certamente contribuiu para deixar a obra um pouco mais crível.

INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA conta a história de Venício, policial que é tomado por um irrefreável desejo de justiça, após saber do assassinato de um amigo de profissão. Ele se prontifica, procura seus superiores e insiste em receber a responsabilidade pela investigação do caso. Então parte, no escuro, meio sem saber aonde ir, conversando com diferentes figuras do cenário paulistano da década de 80.

Com uma sinopse dessa, poderíamos imaginar um livro infestado de intrigas, suspeitos, direções incertas, suspense, reviravoltas, o típico recheio investigativo com o qual estamos habituados..., mas não é o que ocorre aqui. Definitivamente não estamos lendo um livro de Agatha Christie.

O Autor nos conduz por uma narrativa moderada, quase insípida, que vagarosamente vai nos mostrando os cenários cotidianos de um investigador de polícia, algo nada glamoroso e, muitas vezes, até enfadonho face as incertezas e repetições de atos e pessoas. Mas creio que seja este o elemento forte do universo análogo criado por Joaquim Nogueira.

Como mencionei no início, livros de romance policial costumam ser recheados de maneirismos, uma espécie de roupagem obrigatória, as quais estamos tão acostumados que ao nos depararmos com um livro como INFORMAÇÕES SOBRE A VÍTIMA, imediatamente desperta o estranhamento na mente do leitor, tamanho é o nível de verossimilhança com o que há de mais banal em qualquer profissão imaginável, mesmo sendo ela aparentemente estimulante, como a literatura predominante nos faz crer que seja a de um investigador de polícia.

Venício não é o profissional extraordinário, nem chega a ser sedutor..., na verdade, nosso personagem é um sujeito discreto, quase rudimentar. Chama pra si a responsabilidade pela investigação de um crime e sequer sabe por onde começar, tudo motivado por uma amizade de pouquíssimo tempo que estabeleceu com a vítima.

Mas ao mesmo tempo ele é obstinado e irredutível. O tipo que não larga o osso quando cisma com alguma coisa. E entra de cabeça num cenário cheio de pessoas igualmente parecidas com ele mesmo: todo o tipo de gente que, apesar de suas contradições, são suspeitos tão descaracterizados quanto ele próprio. E apesar de soar como um problema, eu considerei este o ponto alto da trama. É legal conhecer os bastidores do submundo do crime como ele realmente parece ser; aqui não há personagens surpreendentes; o que há são pessoas vivendo suas vidas em meio a transgressões e inconstâncias... O mundo como ele realmente é.

É pertinente que seja feita essa observação porque há leitores que podem ser pegos desprevenidos. Joaquim Nogueira não escreve como Harlan Coben, cujas tramas causam estupefação à cada página virada. Mas este ilustre escritor brasuca nos entrega um romance com o estilo impreciso e cheio de complicações, como deve ser o mundo dos investigadores inseridos num país extravagante como o nosso Brasil, lugar onde certamente James Bond, mesmo com todo aquele seu charme e aparato tecnológico, não saberia exatamente o que fazer ou por onde começar.

NOTA: 7,5

sábado, 2 de julho de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUASE NOITE

Terceira obra que degusto dessa escritora americana, cujo tema é pesado, instigante e arenoso. Nos dois livros anteriores, Sorte e Uma vida Interrompida, Alice Sebold discorre suas tramas sob a égide do estupro, o primeiro deles, inclusive, é autobiográfico. Dessa vez, o tema é o matricídio, que além de se tratar de um tópico difícil por si, também faz paralelo com outro assunto que considero importante e interminável: relações humanas.

Infelizmente QUASE NOITE, apesar de entregar uma narrativa em primeira pessoa corajosa e sem muito circunlóquio, economizou em introspecção na personagem principal, deixando a leitura ser nada mais que um relato oco, alguns momentos até correndo sério risco de soar manipulador. Sabe quando o autor tenta explicitar no texto aquilo que você deve pensar sobre o que está lendo, sem deixar espaço para a livre análise? Há instantes em que tive essa impressão.

Perdoe-me se crio uma impressão ruim com este suposto início negativo de resenha. QUASE NOITE não é um livro ruim, apesar de ser o mais fraquinho da autora e de sustentar alguns probleminhas técnicos. Alice Sebold é uma escritora de bons atributos narrativos, sabe desenvolver histórias fluidas, não teme assuntos espinhosos e até consegue nos causar empatia com suas personagens (pelo menos isso aconteceu nas duas obras anteriores). A condução aqui é direta, já inicia dando um soco na cara do leitor e habilmente rouba a nossa atenção.

A trama se passa numa pequena cidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, em que um crime inesperado interrompe a rotina maçante daquela comunidade. De imediato, a confissão da personagem, Helen Knightly, de ter assassinado a própria mãe, desconcerta o leitor e oferece a tonalidade pungente que vai perdurar por toda a leitura, quase como se estivéssemos lendo com alguma coisa entalada na garganta.

Por 48 horas vivenciando os acontecimentos posteriores ao crime, sempre sob a ótica de Helen, temos uma narrativa enriquecida pelo relato dos instantes mais marcantes na vida da protagonista, confissões de suas relações de amor e ódio com os familiares, com destaque para a experiência vivida ao lado de sua genitora. O livro mescla relatos presentes dos instantes confusos e inéditos de Helen, com lembranças do passado dela e que fazem este paralelo, cujo intento deliberado parece ser o de fazer o leitor compreender as motivações da personagem, eis o entrave mencionado no início da resenha.

Alguns momentos essa alternância entre passado e presente criou um pouco de confusão; não raro precisava voltar alguns parágrafos na leitura para conseguir me situar.

Outro impasse ocorre quando a personagem relembra instantes do passado, porque ela simplesmente relata e apenas isso. Nenhum problema quanto ao método, o intuito pode ser ajudar o leitor a compreender aquela existência que nos conta sua história. O caso é que a mera descrição de tempos passados, como acontece aqui, soou como se a autora estivesse tentando justificar o crime cometido pela personagem. Sem elementos que validem suas memórias, como sensibilidade ou imersão, os relatos de Helen parecem uma tentativa de convencer o leitor da insignificância de seu crime; como quem alega que isso poderia ser a atitude de qualquer um de nós. Senti-me como se fosse o jurado de um tribunal que acompanha a oratória do réu desesperado.

Muitos escritores se utilizam dessa ferramenta para elevar a identificação com a personagem. O relato pode ser despretensioso, introspectivo ou até mesmo aqueles instantes de devaneios, os quais detalhes muito sutis são narrados e funcionam por agregar alma ao narrador, criando uma aproximação maior com a lisura do ser humano. Infelizmente isso não ocorre com a personagem de Alice Sebold. Temos a aproximação com o instante em que o desespero de um ser humano o leva a tomar decisões ruins, mas talvez não fosse necessário tentar endossar tais ações.

De qualquer forma, QUASE NOITE é um livro, digamos, encruado e corajoso. Mantenedor da ótima narrativa fluida, que já se tornou marca de Alice Sebold, cujos temas centrais causam desconforto e desestabilizam.

NOTA: 6,4

quinta-feira, 16 de junho de 2022

RESENHA DE LIVRO – O HOMEM DUPLICADO

Penso que a genialidade na literatura do igualmente extraordinário escritor José Saramago, é a de inserir e depois analisar o absurdo na vida cotidiana. O enfado e a melancolia são elementos básicos de seus personagens principais, quando algo excepcionalmente improvável lhes ocorre. O paradoxo narrado aqui é o da reprodução sistemática da individualidade, ou da descoberta alarmante da mesma, que nesta obra remete ao extremo, por isso o absurdo.

O protagonista desta cativante narrativa encontra distração de seu cotidiano maçante quando, ao acatar as insistentes recomendações de um colega para que assista a um filme, descobre que há no elenco cinematográfico, sujeito espantosamente idêntico a si mesmo. Começa-se, então, um jogo crescente de descobrir tudo sobre seu suposto clone. Temos enredado o absurdo dentro do cenário banal.

Tertuliano Máximo Afonso, nossa personagem, percebe o óbvio: que o filme lhe fora indicado justamente porque ele, entre aspas, literalmente atuava no elenco. Afinal, alguém que jamais trocara conhecimento sobre filmes, quando resolve fazer, deve ser por algo incomum visto no mesmo. Seu duplicado está na tela, se parece tanto fisicamente quanto na voz, algo como se olhar diante do espelho E Tertuliano, inevitavelmente, se converte num homem obcecado por compreender e descobrir a respeito de sua cópia viva.

O elemento extraordinário é permanente, sempre sob o ponto de vista do narrador, que parece ganhar entusiasmo conforme aprende que a vida reserva mistérios surpreendentes, como a existência de iguais. A questão da singularidade se perde, porém, nada nos é entregue diretamente, apenas estamos a acompanhar um homem que faz do inusitado tormento, seu novo escopo de vida.

O livro não traz como desembaraço a descoberta do clone. Tertuliano vai ao seu encontro (nenhum spoiler, isso é amplamente secundário), os dois interagem, ocorre a inevitável estupefação bilateral, então pensamentos lhes invadem as mentes; a interação neste momento da obra deixa lacunas soltas, Saramago nos faz acompanhar instantes do suposto clone, o ator do filme. Acompanhamos o que ele pensa sobre o caso, sua mulher intrigada (ela faz uma das melhores análises de toda a narrativa), tanto que reencontros se mostram inevitáveis.

A trama volta para Tertuliano, que relativamente aceitou o fato inusitado de sua cópia idêntica, logo se vê provocado pela mesma, que o procura, agora tão instigado pela inusitada situação, quanto antes Tertuliano se encontrava.

É aqui que se encontra algumas sutis diferenças; o professor de história Tertuliano, apesar de se mostrar intrigado, logo retrocede ao seu lugar comum: o enfado da vida. Contudo, seu clone, que é um ator pouco expressivo de cinema, imbui-se de semelhante desassossego, e passar a procurar seu duplicado, pela igual justificação.

No entanto, Saramago vai nos mostrar que a mesma motivação inicial em ambos os semelhantes, não se sustentam e diferentes aspectos exercem as motivações posteriores de cada protagonista.

Tertuliano quer aprender sobre seu igual, mas parece meramente um ato de genuína curiosidade. Enquanto seu clone, profissional do cinema, casado e aparentemente se tratar de alguém que subsiste sem conflitos existenciais, em determinado ponto da trama, apresenta-se ainda mais estupefato com a descoberta de outro seu, ou na pior das hipóteses, resolve desfrutar de algum benefício desse fato.

Com seu outro isso não ocorre.

Tertuliano Máximo Afonso tem seu nome reproduzido à exaustão, talvez porque seria a única singularidade existencial que lhe restara, ou simplesmente por odiar a única coisa no mundo que constatou não ser duplicada, mas que não teria sido por sua inadequação e repugnância. Aquilo que mais odeia é justamente o que jamais se reproduz no mundo. 

O HOMEM DUPLICADO é uma obra densa e imprevisível, de tema já explorado pela literatura, mas com uma condução um tanto moderna. José Saramago é um eficiente contador de história, que sabe fazer a mente do leitor reproduzir as mesmas questões que certamente pairavam em sua própria, quando resolveu nos contar sobre sua visão da perda da individualidade em seu estado mais extremo.

NOTA: 8,7

domingo, 29 de maio de 2022

CONTO - A ÚLTIMA BATALHA


“A canção do aço eleva-se em conformidade com o vigor dos metais em choque..., no derradeiro instante da luta, a espada de Imann destilava notas ininterruptas, como quem acredita somente na linguagem do conflito...”

“E embora haja o instante de cessar, o orgulho sempre será um maestro mais atento do que a própria morte...”.


Vilarejo de Hittin, século doze.

Um par de olhos se abriu no inferno. Enfim, um relapso de vida, ou quase isso, porque em lugares os quais se parecem com necrópoles a céu aberto, a desarmonia faz o ato parecer efêmero.

Imann estava desnorteado, exposto, deitado sobre o lençol cadavérico, olhando para os corvos, que voavam em círculos no firmamento. Cogitou as possibilidades de sua situação, talvez porque só restasse isso a fazer, levando-se em conta o corpo exaurido. Havia dores em lugares específicos, não sabia identificar com exatidão..., mas o ódio, elemento central de sua trajetória como guerreiro, este havia desaparecido. Ele percebera a mente infestar-se de memórias, carregar-se de lembranças..., não sabia o que era essa sobriedade excêntrica.

As lembranças eram como intrusos em sua mente, o conduziam à força até certos instantes que passaram despercebidos por Imann, como se fossem os caprichos de um cenário banal.

Diante dos olhos, transpassando as aves negras no céu, a infância..., viu o quintal onde brincava com o cavalo do avô. A crina eriçada, o cheiro de suor e pelo selvagem, o primeiro tombo...

Então as memórias deram um salto e ele viu o início da fase adulta, quando havia feito um juramento junto aos templários. Imann pôde novamente apreciar o sabor da integração junto à ordem, e então, a adrenalina de pisar pela primeira vez no campo de batalha.

Em seguida, sua viagem nostálgica levou-o de encontro ao amargo gosto da traição, quando líderes religiosos nos quais ele havia jurado proteger com sua espada, com a vida se assim fosse, voltaram-se contra Imann e os demais cavaleiros...

Memórias..., memórias.

O bravo guerreiro, quis dar um basta na projeção mental, e com dificuldade se sentou. Meio corpo esticado ao solo não combinava com sua trajetória gloriosa. E nesse momento, ele contemplou o inferno pela primeira vez. Era uma infinita extensão de morte por todos os lados..., até onde a visão alcançava. Corpos de homens mutilados de toda forma imaginável, por variados instrumentos cortantes, corpos queimados, corpos atravessados por flechas que haviam salpicado o céu. Uma bandeira da ordem dos templários estava atirada na lama, manchada com o sangue daqueles que ousaram protegê-la.

Meio corpo já era mais do que os demais no horizonte... Imann pensou ser o único remanescente, mas a constatação não o fez se sentir melhor, pois seus camaradas também eram parte do carpete funesto. Ele reconheceu cada rosto sem vida de seus companheiros, cujas partes eram disputadas por animais carniceiros. 

O guerreiro pensou na possibilidade de ter dado a ordem para que fossem de encontro a inevitável morte, talvez ele tivesse hesitado e, por conta disso, ainda respirava... Contudo, a visão da morte daqueles que ele próprio admirou em silêncio por toda a vida, fora demais para sua alma. Não era da natureza de Imann abster-se da batalha, geralmente ele tomava a dianteira e era seguido pelos demais. 

O guerreiro não conseguia ordenar os pensamentos, não conseguia se expressar..., beligerante mudo! Não insistiu, porque o velho ódio, que sempre o impulsionava, havia lhe deixado, assim como seus companheiros. Havia cortes e dilacerações, e a dor o levava de volta aos pensamentos. 

Não era bom em ruminar. Tinha maior proximidade com ações;

O esforço fora imenso, até que Imann ficasse de pé;

Agora poderia vislumbrar melhor o oceano de corpos;

Os corvos e chacais aproveitavam o infinito banquete;

Pais, filhos, maridos, amigos, irmãos, vizinhos, todos tombados; 

Há poucos metros de onde Imann estava, ele avistou sua espada; a mais fiel companheira. Instrumento estático, abandonado, longe dos punhos ágeis de seu mestre, que quando juntos, formavam uma unidade perfeita de matar. 

A visão do objeto o motivou. Passos cambaleantes com o propósito de socorrer aquilo que considerava sua infalível protetora. Porém, fora interrompido por uma situação ainda mais urgente, a qual Imann não poderia passar despercebido: 

Ele reconheceu o corpo de Drax, o melhor e mais antigo amigo. Estava atirado sobre outro corpo, e uma enorme lança atravessava ambos os homens. Sobre eles havia um larápio que tentava retirar um amuleto do pescoço de Drax. O amuleto que fora presente de Imann para o amigo. 

Finalmente houve um familiar sinal de fúria, enrijecendo os músculos do guerreiro. Ele partiu apressado em direção do ocorrido, intencionado a esgoelar o vagabundo larápio. 

Pensava estar prestes a praticar o elemento surpresa, uma vez que o gatuno não havia percebido sua aproximação. Suas duas mãos esticadas como garras de um falcão, desceram firmes até o pescoço do rapaz e o transpassaram, como se ele não existisse. Imann espatifou-se no chão do outro lado. O vagabundo terminou de retirar o amuleto, e saiu andando, tranquilamente, em busca de outros objetos de valor, sem sequer notar a presença furiosa do guerreiro caído. 

– Devolva o cordão dele, desgraçado!!!!! – gritou Imann, novamente derrotado ao solo. O homem seguiu seu caminho, ignorando-o, como se não ouvisse. 

Aturdido, Imann não compreendera o que havia se passado. Ele simplesmente atravessara o corpo do vigarista, como se ele fosse um fantasma. 

Novamente de pé, involuntariamente ele olhou para trás, para o percurso que havia feito. Então, um arrepio terrível lhe envolveu os poros da pele. Imann estarreceu! Estava olhando agora, para o local onde esteve deitado. Incrédulo, vislumbrava seu próprio corpo, que permanecia estirado no mesmo lugar, imóvel, e sem vida... 

"O que está acontecendo comigo?" 

Nesse momento, um sujeito surgiu de algum lugar incerto, ereto, atravessava o mar de corpos. Caminhava na direção do guerreiro, de forma tranquila, como se estivesse passeando por um jardim de flores. Era um homem alto, de pele alva como a neve, tinha cabelos longos e encaracolados. Ele usava um manto dourado que ofuscava os olhos de quem olhasse. 

– Saudações, bravo Imann! – disse o homem ao se aproximar – finalmente é chegada a tua hora.

– Quem é você? – perguntou o guerreiro, ainda assustado com a situação inexplicável.

– Sei que deves estar com a mente perturbada, uma vez que és um homem que só acredita no julgamento do aço. 

Imann não disse nada em resposta. A consciência parecia afirmar-lhe exatamente o que os olhos testemunhavam. E como tudo em sua vida só era entregue mediante a luta, estava disposto a travar uma batalha contra a própria sanidade. 

– Vá embora daqui! Desapareça!

– Não tenhas medo de mim, bravo Imann.

– Deixe-me!!!

– Eu vim livrá-lo das chamas do inferno. Por favor, permita que eu o salve. Eu já vi o inferno uma vez, grande guerreiro. E não desejo que homem algum também o veja...

– Quem é você?

– Eu me chamo Ariel. Sou o zelador dos mortos, o coletor de almas perdidas. A tua se perdeu após a sangrenta batalha. – o estranho fez uma pausa. Observou uma repentina mudança no céu, e este começou a escurecer. Dezenas de vultos alados intrometeram-se ao redor deles.

– Não temos muito tempo, Imann. Eles estão vindo buscá-lo. 

Dessa vez, o guerreiro nada disse, mergulhado no próprio orgulho. Ele levou as mãos à cabeça. As palavras do outro faziam com que as neblinas que escureciam sua mente, dissipassem como numa ventania feroz. Foi quando conseguiu resgatar as lembranças de seus últimos instantes de vida. O exato momento em que o inimigo triunfara sobre ele. 

As incessantes trocas de golpes;

O choque de dois aços perfurantes emitindo faíscas;

Músculos enrijecidos a segurar o instrumento decisivo;

Imann versus o doutrinador de templários;

Em volta deles, a batalha estava no seu auge;

Os guerreiros sob a chuva forte que parcialmente os cegavam;

Um embate que só terminaria com a morte de um deles;

Então o adversário de Imann esquivou-se de um golpe mortal;

A espada do guerreiro jamais havia falhado;

Passou por cima do corpo do inimigo abaixado;

Ele contra atacou com determinação e firmeza;

E a espada adversária, atravessou o peito de Imann.

Depois disso, houve escuridão... 

– Imann!! Imann!! 

O guerreiro abriu os olhos. O anjo estava parado em sua frente, o sacudia os ombros, numa insistente busca em ser ouvido: 

– Rápido, Imann! Os demônios querem levá-lo!

– Demônios? – perguntou Imann, resgatando a consciência.

– Sim, Imann. E se não vier comigo, terá que ir com eles.

– Onde estão todos?

– Não importa agora, Imann. Vamos sair daqui!! 

O firmamento estava tomado por uma tonalidade lúgubre. Os vultos se aproximavam de Imann. Um deles saiu das sombras, e foi até Ariel: 

– Deixe-o, querubim. Você não pode interferir no livre arbítrio.

– Afaste-se, imundo! Essa alma não lhe pertence.

– Ele se decidiu, Ariel. Não quer ir com você... 

O guerreiro estava cabisbaixo, como se pouco importasse aquela disputa por sua alma. Seu olhar apontado na direção do vazio. Não conseguia desfocar da derrota; inconformado com a realidade. Percebeu que era inevitável. E mesmo agora, depois de tudo acabado, a vergonha pela queda lhe trouxera mágoa, fúria e um desejo enorme de autodestruição. 

– Por favor, não se entregue, Imann. – implorou o anjo.

O guerreiro caiu de joelhos;

Os enviados de Lúcifer envolveram sua alma;

Ariel nada pôde fazer;

Não houve nenhuma resistência;

Imann punia-se com a abstenção. 

Ariel retornaria sem a alma do Guerreiro. O azul do céu voltou a normalidade, as nuvens brancas reapareceram. O anjo estava atônito, sem saber qual seria a verdadeira razão pela qual outra alma, por mais perturbada que fosse, negligenciara sua súplica. 

Jamais alguém havia sido inconsequente a ponto de recusar tal oferta de salvação. 

A verdade era que anjos não conheciam a vaidade humana.

Assim como o bravo Imann jamais havia conhecido a derrota...

***

(Conto postado no site Recanto das Letras, no ano de 2012).