segunda-feira, 20 de março de 2023

RESENHA DE LIVRO – O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

O filósofo grego Aristóteles fazia uma distinção que acreditava ser fundamental entre o trabalho do historiador e do poeta. Segundo sua análise, o historiador precisa amparar sua obra pelo compromisso com a verdade, enquanto que o poeta não carecia de nenhum tipo de conformidade com fatos. Contudo, sabendo que historiadores são seres humanos e, portanto, suscetíveis de parcialidade opinativa, fica meio evidente que há alguma relação entre esses dois gêneros, pois talvez seja inevitável criar uma obra histórica sem alguma lacuna imaginária, assim como a ficção bebe na fonte da história com frequência.

A trajetória da família mais conhecida do mundo, sagrada para muitos, foi contada aqui pelo mestre José Saramago, dentro desta já mencionada promiscuidade de gêneros, precisamente para nos entregar um excelente trabalho ficcional. Tal observação precisa ser enfatizada, pois toda a polêmica que este O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO causou, e continua a causar até hoje, é justamente pela falta de sensibilidade crítica de se encarar a obra como deve ser: uma ficção que faz uso de elementos e personagens históricos.

Aqui não será necessário fazer uma sinopse, tendo em mente que a vida e obra de Jesus é imensamente conhecida até por quem não é religioso. Mais proveitoso será fazermos um breve resumo do percurso das personagens, sob o olhar humanista do autor, que para quem não sabe, vale ressaltar que Saramago era ateu.

A trama começa com uma inversão cronológica, então acompanhamos um capítulo introdutório que narra a dramática crucificação, com uma minuciosidade nos detalhes capaz de já prender o leitor. É um preâmbulo fabuloso, riquíssimo e encorpado, a ponto de nos fazer vislumbrar os instantes finais de Cristo; talvez o prefácio mais extraordinário que já li. Então, na interação de Jesus e os dois ladrões crucificados com ele, o autor introduz a versão humana de sua personagem, cujo aspecto mais notório é a imperfeição: “... este que ainda agora louvou o bom ladrão e desprezou o mau, por não compreender que não há nenhuma diferença entre um e outro, ou, se diferença há, não é essa, pois o bem e o mal não existem em si mesmo, cada um deles é somente a ausência do outro”.

Em seguida, tem-se início o livro e somos apresentados à José e Maria, casados, a convivência das famílias naquele tempo, as dificuldades e escassez dos pobres, o patriarcalismo inerente daquela comunidade, a inferioridade conformada das mulheres... O narrador vai mirar em José por um tempo, até chegarmos ao nascimento de Jesus e o triste e inesperado fim de seu pai terreno.

Em Jesus, aqui vemos períodos em que a bíblia não mostra ou não se interessa: a infância e adolescência. E eis que um jovem Jesus parte em peregrinação para desvendar os tormentos que aparentemente herdou do pai, o que o faz viver as experiências necessárias para o moldá-lo como o escolhido de Deus. Nessa aventura, confronta-se com os doutores do templo, conhece um ser intitulado Pastor que o instrui e o instiga a reflexão, apaixona-se por uma mulher que se torna sua companheira, encontra-se com Deus para embates subjetivos, assume o protagonismo como pastor de homens e aceita assim seu destino...

A obra impressiona não apenas no aspecto imersivo, mas também na riqueza de detalhes do cotidiano daquele tempo. Certamente José Saramago dedicou intensos estudos sobre história daquela região e fez uso disso para requintar sua trama. É como se cada frase, cada instante narrado, houvesse minuciosa preocupação com os detalhes da vida na época.

O estilo narrativo é amplamente sedutor, busca incluir o leitor em suas divagações por vários instantes, faz comparações situacionais do tempo relatado com momentos mais recentes da história; Saramago provoca o leitor a fazer pausas para pensar. É como se o narrador estivesse tentando provar para o leitor a verossimilhança de seu relato.

O título da obra pode muito bem ser parte do estilo irônico característico de José Saramago. Afinal, se levarmos em conta os quatro evangelhos canônicos reunidos na bíblia, a condução humanista do autor possui a pretensão de chamar a atenção do leitor para preocupações com grupos excluídos. A ironia incutida por Saramago visa à reflexão sobre ideologias impostas.

A palavra evangelho tem sua origem no grego, que significa “boa nova”. Desse ponto de vista etimológico, a boa nova nesta versão de Saramago do evangelho de Cristo, é a benevolência. O aspecto divino de Jesus aqui é deixado de lado, para ser apresentado ao leitor um homem, nascido como todos os outros, cheio de inconstâncias, dúvidas e culpa; um homem que faz sua travessia existencial de forma hesitosa, mas que por meio das experiências acaba por adquirir senso ético e moral. Em determinado momento, como nos é sabido, a divindade vem ao encontro de Jesus, e então esta personagem humanizada confronta a evidente tirania de Deus sobre os homens, o que em minha opinião foi o ponto mais elevado de toda a trama. Semelhante aos deuses gregos que na literatura tratam os homens como se fossem suas marionetes, aqui a deidade se mostra autoritária, vaidosa e, por isso, é questionada por Jesus, mesmo que este siga com o cumprimento de seu destino de morrer na cruz, como o cervo que se abate em sacrifício. Saramago chega a inverter a fala de Cristo, quando na iminência da morte, olha para o céu e diz: “homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”.

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO é literatura de ficção, impecavelmente desenvolvida para desassossegar. Um romance que se refere a fatos históricos sem querer apresenta-los como verdades, mas que inevitavelmente insere na mente do leitor o desejo de que assim talvez houvesse ocorrido. Um livro que vai além da banal discussão sobre ficção ou fato; este é um precioso volume clássico da literatura que não fala apenas sobre a vida de Jesus, mas acima de tudo, sobre a vida de todos nós seres humanos...

NOTA: **10**

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

RESENHA DE LIVRO – FAHRENHEIT 451

Falar de um mundo onde os livros foram extintos da humanidade por meio de um projeto estatal de destituição social, imediatamente atraiu meu interesse, assim como a vontade de deixar alguns parágrafos aqui sobre o assunto. Na sociedade imaginada pelo escritor norte americano Ray Bradbury, os livros são considerados uma ameaça; uma plataforma que deve ser destruída em prol da manutenção da ignorância coletiva. Neste FAHRENHEIT 451 o ser humano está inserido numa organização social avançada tecnologicamente e de imbecilização generalizada, tornada massa de manobra incapaz de senso crítico..., e infelizmente a semelhança com nossa realidade atual, por enquanto menos trágica do que no livro, facilmente será notada pelo leitor.

A personagem principal da trama é o bombeiro Guy Montag, cuja função da instituição foi invertida; aqui os bombeiros não mais zelam pela segurança da sociedade, mas fazem o trabalho de invadir e queimar livros que são encontrados nas casas de alguns transgressores, como uma espécie de polícia fiscalizadora. Porém, a rotina do bombeiro é quebrada quando ele conhece sua nova vizinha, Clarisse McClellan, moça completamente distinta do modelo padrão alienado, ambos estabelecem alguns poucos diálogos, mas que são suficientes para atormentar a mente de Guy, tornando-o um crítico de seu próprio labor.

O autor prefere seguir uma linha narrativa totalmente pessoal, passamos toda a leitura vislumbrando apenas aquilo que Guy enxerga do mundo. Não há aqui explanações sobre como aquela constituição social se fez, nem as complexidades ocasionadas por um mundo de gente vivendo feito zumbis. Bradbury opta por uma visão menos didática, faz com que aprendamos sobre seu universo através do que está ocorrendo com suas personagens, quase uma leitura em primeira pessoa.

Conforme interage com a vizinha, Guy percebe a discrepância relacional existente na interação com Clarisse e quando está com sua esposa, por exemplo. O bombeiro vislumbra o modo desprendido, interessado, questionador e autêntico da vizinha, enquanto a esposa é o arquétipo perfeito do resto da sociedade: uma mulher superficial e insossa, cuja existência é inteiramente voltada para o entretenimento tecnológico.

O filósofo Ortega y Gasset escreveu: “vivemos num tempo de chantagem universal, que toma duas formas complementares de escárnio: a chantagem da violência e a chantagem do entretenimento. Uma e outra servem sempre para a mesma coisa: manter o homem simples longe do centro dos acontecimentos”. A chantagem do entretenimento citada pelo pensador é o principal elemento usado na alienação coletiva aqui; por meio das muitas distrações tecnológicas os cidadãos deixaram de ser criaturas reflexivas, não mais notam o ambiente no qual estão inseridos..., perderam as características que lhes eram mais naturais: empatia, gentileza e socialização. Então, quando a chantagem do entretenimento deixa de funcionar, entra a chantagem da violência e a ordem das coisas se restabelece... Eis a maior semelhança com o nosso mundo atual.

Logo ao iniciar a leitura, percebe-se que o universo distópico criado pelo autor já está internalizado na sociedade; a proliferação de uma humanidade alienada se mostra irredutível e o trabalho dos bombeiros como rotina, sendo eles os responsáveis por expurgar os resquícios que ficaram soltos após a massificação da ignorância. As lacunas devem ser fechadas para que o sistema de mediocridade e cegueira se mantenha intacto. Quem são os arquitetos desse sistema? Ray Bradbury não nos conta, embora a ambientação narrativa faça o trabalho de fornecer ao leitor um vislumbre do que aconteceu com a sociedade.

Outros autores também se aventuraram a narrar esse tipo de contenção da humanidade. Saramago com seu Ensaio Sobre a Cegueira nos mostra uma sociedade cuja cegueira vai muito além da ausência da visão, mas aponta os prejuízos causados pela falta de um olhar crítico sobre a sociedade e da necessidade de zelo daqueles que podem ver. George Orwell, com uma trama mais parecida com a de Bradbury, nos entregou 1984 e seu olhar distópico de um mundo tomado pelo totalitarismo nos moldes fascistas. Temos também Aldous Huxley com o aclamado Admirável Mundo Novo e uma sociedade futurista, cujos habitantes são condicionados biológica e psicologicamente a viverem em harmonia com as leis sociais estabelecidas. O que difere a obra de Bradbury de todas as demais citadas é que aqui não há a preocupação em esmiuçar as origens daquela organização social, nem fazer reflexões acerca das problemáticas ocasionada pela mesma. No universo de FAHRENHEIT 451 o leitor é atirado sem nenhuma cerimônia e vamos aprendendo sobre aquela sociedade através das experiências e diálogos de suas personagens. Particularmente, este modo de condução não me incomodou, mas pode desagradar alguns leitores.

Mais me incomodou foi a escassa presença da personagem Clarisse, que encanta logo que aparece, mas é rapidamente retirada da trama. Também achei pouco aproveitado o comandante dos bombeiros Beatty, figura visivelmente estereotipada do vilão casca dura e ao mesmo tempo intelectualizado; ambas as personagens poderiam ter sido melhor aproveitados.

FAHRENHEIT 451 é um livro inteligente, de leitura descomplicada, cuja trama de fácil compreensão nos remete ao universo pessimista de Ray Bradbury para nos fazer compreender, entre muitas lições, sobre a importância dos livros, que mesmo num mundo moderno onde a tecnologia seduz e nos rouba atenção, ainda é a maior fonte de sustentação de conhecimento.

NOTA: 7,4

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

CRÔNICA - DEDO NA GARGANTA

O escritor Caio Fernando Abreu escreveu: “Para mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta”.

Quando penso nessa ideia, a qual concordo plenamente, trago à tona ponderações sobre todo meu conteúdo nestes quase vinte anos parcialmente dedicados a escrever. Quais destes textos realmente emergiram de uma erupção interior, tal qual um vômito, pois estavam entalados na garganta e precisavam sair, como numa terapia solitária, somente eu e a tela em branco? E quais foram os textos escritos sem nenhuma ânsia, aqueles que nasceram simplesmente de um amontoado de palavras desalmadas, cujo único intento é elevar o ego deste moroso aprendiz?

Fora do contexto a afirmação do Caio talvez soe confusa; compreender a analogia de se escrever com o ato de introduzir o dedo na goela, parece um pouco abstrato. Na carta composta para um amigo, o escritor ressalta que escrever é o ato de sangrar, machucar por dentro, deixar sair toda loucura interior. E de modo semelhante, para mim, a referência é absolutamente elucidativa e ilumina sombras, tal como a luz do sol: escrever é botar pra fora toda a angústia presa dentro da gente, e o que sairá talvez seja inominável e muitas vezes pode causar desconforto, desespero, angústia ou mesmo incompreensão. Mas apesar do sentimento ao contemplar o resultado da criação de qualquer coisa, é fatal que ela saiu de dentro! Fragmento estranho, como a gosma escarrada, ao relento, que agora precisa ser trabalhada incessantemente, até se tornar, ao menos, algo plausível..., porém, não necessariamente aceitável.

Concluí que raramente isso acontece comigo. Meus trabalhos quase nada tem de visceral, além do intento honesto de expressar alguma opinião, embora quase sempre inconclusiva. Meus textos são esquecíveis porque sou imensamente racional e ponderado. Raramente permito que a angústia assuma a ponta dos dedos no teclado, porque sou covarde demais para suportar aquilo que sairá após o dedo indicador invadir a boca e tocar a faringe; tenho medo desse conteúdo entalado, então sigo empurrando com goles violentos de cerveja, o nó na garganta, para que ele retorne às profundezas nem um pouco seguras de meu ser.

Ainda na carta escrita para José Márcio Penido, Caio revela aquilo que considera como sendo a única motivação justificável para a escrita, num conselho ao amigo sobre como seguir produzindo neste universo pungente de criar. O dedo na garganta não é condição para o alívio, mas o requisito necessário. Sem isso, a construção literária é vazia e desinteressante. Portanto, isso fez com que eu me perguntasse:

O quão suportável é o vazio desinteressante do que escrevo?

Se é assim como disse o escritor, então porque continuar escrevendo? Por que insistir em algo que compreendo como sendo apenas um monte de parágrafos idiotas que não dizem nada além do óbvio? Talvez eu esteja sendo um pouco severo comigo mesmo, afinal, gosto de escrever e me sinto bem quando o faço, embora confesse que tenho feito cada vez menos, o desprendimento me fazendo crer que estou me distanciando de meu ser, ou numa conclusão, digamos, mais atual: estou me rendendo ao pragmatismo social.

Não é fácil regurgitar o que está entalado na garganta e talvez somente os grandes escritores da nossa história conseguiram realizar tamanha proeza. Contudo, acho que já escrevi o bastante para aceitar que a frivolidade é como a saliva que antecede o grande ato; que talvez a repetição insistente faça com que definitivamente o dedo alcance a profundidade ideal, e então despejarei algo verdadeiramente digno de ser lido.

O sociólogo Zygmunt Bauman resumiu o ato de escrever como algo quase inerente de sua natureza. Ele diz: “parece que sou incapaz de pensar sem escrever. Suponho que antes que escritor, sou leitor: há toda uma série de retalhos, fragmentos e pedaços de ideias que lutam por nascer, cujos fantasmagóricos espectros (aterradores, inclusive) rodopiam, se amontoam, condensam e dissipam uma e outra vez, e que apenas ao serem captados e capturados por nossos olhos, podemos imobilizar, fixar e limitar dentro dos contornos. E devem ser escritos um atrás do outro para que a ideia – arredondada para caber nos mínimos toleráveis – nasça finalmente, ou para que, caso contrário, seja abortada ou – se já chegou morta nesse mundo – enterrada para sempre”.

No filme A Esposa, do diretor Björn Runge, acompanhamos a história de um escritor que, ao ganhar o Nobel de literatura, precisa lidar com os ressentimentos do passado, papel belamente interpretado pelo ator Jonathan Pryce, que vive o instante em que deveria ser o ápice da glória literária, mas precisa confrontar com a mediocridade da própria existência ao encarar a verdade de seu sucesso, escondido na figura da esposa do título, interpretada pela maravilhosa Glenn Close. Uma belíssima obra que denota os efeitos do ostracismo, de um homem que foi beneficiado por um mundo essencialmente machista..., o filme revela de forma crua, que enquanto ele cuidava da prole e executava as tarefas banais do cotidiano, o dedo na goela estava ocorrendo no seu escritório, pela esposa, e os méritos e benefícios ficavam com ele, que assinava todas as obras.

Um filme que mexe, principalmente, mas não somente, com quem se arrisca a mergulhar neste incerto labor de desenvolver a linguagem escrita.

Certa vez, alguém me perguntou como se faz para ganhar dinheiro escrevendo. A primeira coisa que me ocorreu perante tal questionamento, foi a completa hesitação; afinal de contas, eu nunca ganhei dinheiro escrevendo, no máximo recuperei parte do valor investido. Ou seja, como posso ensinar aquilo que não sei como deve ser feito? Além do mais, receio que não seja esse o intuito de quem escreve... Enfim, respondi ao meu esperançoso interlocutor, que se a intenção dele era ganhar dinheiro, que existem outras maneiras mais eficazes de se fazer isso; aconselhei que não gastasse seu precioso tempo desenvolvendo uma habilidade que não é garantidora de retorno substancial, tampouco simbólica; que a escrita é quase como uma maldição: é inescapável para alguns, e amplamente opressiva com todos os seus poucos fiéis; que talvez você até aprenda a enganar e encontrar a medida de consumo preferencial dos leitores modernos, o que parcialmente seria uma conquista, mas jamais levará o nome de escritor, no máximo, um bom contador de estórias.

E não, isto que acabou de ser relatado aqui, da forma mais tosca possível, não foi o entalo desentalado. Meu dedo continua bem distante da garganta e o nó retornando ao interior, com tragadas incansáveis de álcool, efeito contrário ao que aconteceu com os goles que Edgar Alan Poe ingeriu e então vomitou seu esplêndido O Corvo. Nem de longe quero me comparar a este gênio da literatura, é apenas uma tentativa de desencorajar aqueles que enxergam na escrita, uma alternativa de sucesso nestas incertas trilhas do nosso sistema capitalista.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

RESENHA DE LIVRO – O XANGÔ DE BAKER STREET

Pode-se dizer que Jô Soares era um polímata; o cara foi ator, humorista, apresentador, dramaturgo, diretor de teatro, músico, artista plástico e, o que em especial nos interessa aqui, escritor (ocupação que eu ainda sustentava algum ceticismo, pois a única obra que havia lido do nosso eterno gordo foi As Esganadas, que tem resenha aqui no blog e não achei lá grande coisa). Portanto, quando adquiri este O XANGÔ DE BAKER STREET, foi meio que uma segunda chance de viajar no universo de Jô Soares, mas com aquela má vontade típica de quem desconfia de gente que se envolve em coisas demais e acaba pecando pela falta de foco.

E para vergonha deste preconceituoso leitor que vos escreve, também para deleite do mesmo, nunca estive tão errado. Sim, eu já sabia que esta é a obra mais famosa do Jô, então era esperado que a leitura fosse aprazível. Só que nem sempre isso ocorre, há livros que são o ápice de determinados autores, porém, a gente ama aquele livrinho menos notório de sua bibliografia..., eis a magia da leitura: uma experiência distinta e pessoal para cada um (esse fenômeno já aconteceu com vários escritores que li). Mas no caso deste O XANGÔ DE BAKE STREET, é com prazer que reafirmo o que a grande maioria dos leitores já sabiam: é um ótimo romance policial!

Na trama, o Rio de Janeiro do século XIX recebe a visita do ilustre detetive Sherlock Holmes e seu fiel companheiro John Watson, para desvendar o sumiço de um precioso violino Stradivarius, que foi presente de vossa majestade, o próprio imperador Pedro II, para a baronesa Maria Luísa Catarina de Albuquerque. Nesse ínterim, a famosa personagem de Arthur Conan Doyle é requisitada pelas autoridades brazucas para também dar sua contribuição na investigação de assassinatos em série que vem acontecendo na capital do Brasil.

Colocadas as circunstâncias, temos a nossa história. Jô Soares faz de sua narrativa uma mescla equilibrada de humor e suspense, algo incomum e talvez até contraditório para um romance policial, mas que o autor soube dosar bem estes recursos permitindo que a trama seguisse intrigante e ao mesmo tempo cômica.

Outro elemento que funcionou muito bem, foi a inserção de características peculiares nas personagens, mesmo em se tratando de Sherlock Holmes, figura altamente conhecida da literatura mundial. Alguns desses aspectos funcionaram muito bem e deixaram o famoso detetive um pouco mais autêntico. Não vou entrar em detalhes para não estragar a surpresa de quem ainda não leu, mas digamos que o Sherlock do Jô Soares possui os elementos que precisava para então ser um autêntico detetive do ponto de vista do nosso querido gordo. Ainda não tive o prazer de ler as aventuras de Sherlock sob o ponto de vista da infalibilidade investigativa proporcionada por seu criador escocês, mas o Sherlock Holmes do Jô Soares, mais autoconfiante e menos eficiente, foi uma agradável surpresa.

Outro aspecto positivo fica por conta dos diálogos da época, as formalidades na convivência burguesa, os detalhes de cenários e lugares famosos, personalidades reais e fictícias, tudo cuidadosamente elaborado para criar imersão na leitura. Aqui o autor abre seu arsenal de sátiras, ironias, o já mencionado humor e o suspense encarregando-se de mudar drasticamente o tom da narrativa quando o misterioso assassino está em cena.

Se houve um item que me causou breve incômodo é com a tonalidade prolixa e sem muita objetividade da trama. Quase, porque o autor soube contornar, ou quase nos fazer ignorar isso, com uma narrativa fluida e leve, alternando de forma eficiente os instantes de humor e suspenses. De qualquer forma, o livro como um topo poderia ser um pouco mais curto, há momentos aqui completamente desnecessários.

O XANGÔ DE BAKER STREET é uma leitura aprazível, de personagens assertivamente bem desenvolvidos, charme descritivo, humor e uma condução um pouco extensa. Imagino como se sentiria o autor de Sherlock Holmes, se tivesse a chance de ler esta versão menos formosa de sua personagem mais famosa. Nem posso imaginar o que Doyle consideraria (aquele bigodão dele me faz pensar que não iria aprovar o Holmes do Jô), mas cá entre nós, eu gostei muito!

NOTA: 8,5

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

RESENHA DE LIVRO - A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

George Orwell foi, ao mesmo tempo, um crítico de governos totalitaristas os quais testemunhou em seu tempo, e um visionário do atual tempo em que estamos. E especificamente neste ano de 2022, um brasileiro lúcido diria que o escritor é mais do que um visionário; de fato, quem acompanha a realidade da atual política, onde nos defrontamos com a fragilidade das democracias no mundo, testemunhamos a intolerância coletiva cada vez mais centralizada em suas bolhas e a proliferação massiva de desinformação... Bem, talvez este singelo brasileiro se sentisse como mais um bicho pertencente a Fazenda do Solar.

Reitero que não costumo escrever sobre livros clássicos aqui no blog, e estava convicto de que não resenharia este A REVOLUÇÃO DOS BICHOS, afinal, quase tudo o que poderia ser pensado sobre este livro já o foi..., e por gente altamente qualificada. Mas a vontade de falar sobre esta excelente obra se deve ao crítico momento em que estamos vivendo neste ano. Pois a descrição do nascimento da barbárie está devidamente retratada aqui e foi como se eu estivesse lendo um agourento presságio.

Ao construir esta ficção distópica, George Orwell tinha por intenção criticar em específico o regime ditatorial estalinista (o livro foi publicado pela primeira vez no ano de 1945, quando o ditador russo Joseph Stalin estava no poder), cuja barbárie oprimiu o povo russo até o ano de 1953. O autor fez de seu conto uma sátira que explica de modo impressionantemente didático, como políticas extremistas surgem e se proliferam até alcançarem o poder máximo de um povo.

Na trama, um levante ocorre na singela Fazenda do Solar onde os animais se reuniram sob a convocação de alguns porcos, para depor o regime dos humanos, pois se viam convencidos de que a tirania da espécie dominante era o grande problema de suas limitadas vidas e que o mundo ideal que todo animal sonha depende do esforço coletivo em sobrepor o regime dos homens. Revolução feita, os animais assumem a fazenda e começa-se, então, um novo regime político, cujas funções são distribuídas conforme cada espécie, cabendo aos porcos o encargo de ser a parte legislativa desse novo processo.

Dentro do implantado Estado da bicharada, é instaurado símbolos identitário dessa liberdade arduamente conquistada: bandeira, hino, mandamentos, bordões, e o mais importante: uma proliferação massiva do medo coletivo, porque os inimigos (no caso aqui os homens e um porco considerado traidor do novo regime), espreitam constantemente e podem retornar a qualquer momento para reimplantar a escravidão coletiva.

Só que houve um paradoxo nisso: conforme o tempo vai passando, os animais, que antes criticavam o método escravista que lhes era imposto, passam a trabalhar cada vez mais; os símbolos foram se modificando de modo a perderem seus caráteres inclusivos; a liberdade sendo tolhida discretamente; os mandamentos trocados por instruções totalitárias e o medo seguiu como o elemento central para que a opressão sobre a fazendinha se mantivesse crescente em prol de interesses escusos.

Enquanto os animais trabalhavam de forma incansável sob a ideia de união que lhes soasse equitativo, os porcos cada vez mais se estabeleciam no comando e suas ações eram cada vez menos claras e incompreensíveis. E ao menor sinal de desconfiança de algum animal, sempre surgia um porta voz do “governo” trazendo justificativas insustentáveis e o constante reforço para a necessidade de união dos animais em prol de não permitirem que o mal retorne.

Soa familiar, amigo brasileiro?

Orwell criou uma sátira genial porque é cheia de elementos sórdidos incutidos na política e que ainda ressoam na contemporaneidade, ao mesmo tempo em que usa bichinhos que nos são familiares dentro de uma linguagem que é quase lúdica. A premissa de mostrar de modo simples a ascensão do fascismo em todos os seus elementos nocivos, operando de dentro de um sistema implantado, sem que nada seja percebido, instigando um sentimento de patriotismo banal no qual se estabelece a tirania de um grupo sobre outros ou minorias, desencadeando uma desigualdade violenta.

Resolvi resenhar este livro, porque é precisamente tudo o que está acontecendo no nosso país: o governo atual tem aspirações fascistas e segue a cartilha do absolutismo, que já têm seus símbolos erguidos: camisas amarelas, geralmente da seleção brasileira, frases prontas de fácil memorização e apelo nacional (Brasil acima de tudo e Deus acima de todos), grupos conservadores quase sempre religiosos, bordões geralmente de mal gosto e extremo nacionalismo, e principalmente, a proliferação do medo constante ao alegar que, ou é este governo ou o comunismo nos devorará, tendo o partido dos trabalhadores como o principal correligionário de um suposto inferno que nos espreita constantemente... Ou seja, talvez estejamos vivenciando o nascimento de mais um regime autoritário e extremista, exatamente como aconteceu na singela fazendinha do Solar.

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS é mais uma obra genial de George Orwell, porém absurdamente contemporânea, e quanto a isto devo salientar que é uma pena... Livro imprescindível para o leitor que deseja conhecer a mácula do autoritarismo de modo franco e descomplicado.

NOTA: 8,2

terça-feira, 13 de dezembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – CEM ANOS DE SOLIDÃO

Quem acompanha as resenhas aqui do blog sabe que não sou muito inclinado a resenhar os clássicos da literatura. E embora o livro alvo desta reflexão seja daqueles gigantes, tão aclamado que até quem não tem o hábito de ler já ouviu falar, eu resolvi registrar alguns parágrafos, pois minha leitura da obra se mostrou um misto de prazer, nostalgia, comoção e algum enfado.

A sinopse meio que não instiga, pelo menos foi essa a impressão que tive quando precisei fazer uma sinopse verbal para uma colega de trabalho, curiosa sobre do que se tratava o livro: basicamente acompanhamos a história de sete gerações da família Buendía, cujos membros parecem destinados a viver alguma forma de solidão por todas as suas vidas, e então passar adiante essa dor essencial. Sim, pois “os filhos herdam as loucuras dos pais”, nas palavras do próprio autor e nobel de literatura Gabriel Garcia Marques. Concomitantemente à trajetória da família Buendía está o nascimento da fictícia cidade de Macondo, onde se passa todo o romance e palco de situações que misturam o real e o místico; Macondo quase chega a sustentar o mesmo teor transcendental que ocorre com o cortiço, no livro de mesmo nome do escritor Aluísio Azevedo; aqui diferindo apenas pela narrativa situacional que não desvia a atenção das personagens. Mesmo assim, Macondo paira constante por toda a obra, como um ilustre coadjuvante.

Gabriel Garcia Marques é um escritor prolixo, quase uma metralhadora de palavras. Seus textos são diretos, mudam de foco despudoradamente e raramente se utiliza de recursos para descansar a leitura. Isso pode pegar de surpresa os desavisados, o que não foi o meu caso. Portanto, esta observação é válida, principalmente neste CEM ANOS DE SOLIDÃO, pois como estamos diante de muitas personagens, o estilo do autor pode causar um pouco de confusão. Mas para ajudar com isso a edição que li da editora Record traz uma árvore genealógica dos Buendía, já no início da leitura, o que facilita bastante com este entrave.

Talvez o grande sucesso dessa obra, sem mencionar o evidente talento desse autor em narrar grandes histórias, se deve ao fato de que CEM ANOS DE SOLIDÃO é uma narrativa centrada em personagens marginalizados que sofrem as opressões de regiões colonizadas, deixando a evidente identificação com a essência latino-americana do autor. Com sua mística Macondo, Gabriel Garcia Marques mostrou o lado sofrido e trágico da América Latina de um modo que talvez nenhum outro escritor conseguiu fazê-lo até hoje.

A narrativa segue na terceira pessoa, onde acompanhamos desde os primeiros membros da família, em cada geração particular, atentando-se para os requintes evolutivos da cidade e dos costumes. O autor tece sua história de forma imediata, e quando nos damos conta já se passou mais uma geração e estamos acompanhando um novo Buendía.

Fantasia e realidade também se misturam em todo momento, tão mesclados que fica difícil saber em quais instantes estamos diante de uma situação real ou imaginária vivida pelas personagens. Às vezes me perguntava se determinada situação era possível mesmo ou se estava acompanhando um relato alegórico cujo intento é mostrar algo subjetivo. Gabriel Garcia usa de maneira eficiente uma escrita cheia de promiscuidade linguística, talvez no intuito de tornar-se um pouco mais digerível toda a crueza e selvageria que permeia a sociedade daquele lugar.

Particularmente, eu fiz pausas para entender alguns instantes, principalmente por conta da já mencionada inserção de muitas personagens dentro de uma narrativa que pouco descansa. Alguns gostamos mais, outros nos afeiçoamos menos, aspecto absolutamente normal quando se está a ler um livro tão amplo de personagens; eis aqui mais um destaque deste extraordinário escritor: sua capacidade de desenvolver personagens altamente críveis, tornando os relatos próximo de uma pegada documental. Mesmo assim, houve instantes em que foi inevitável algum enfado na leitura, o livro ora se mostra um pouco truncado.

CEM ANOS DE SOLIDÃO é uma obra densa, de fácil linguagem, prolixa como já é marca de seu autor, e cheia de simbolismos, personagens amplamente humanos, tudo dentro de uma narrativa poderosa, dura e ampara cem anos de muita proximidade com a tragédia que tanto nos é característica.

NOTA: 8,8

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – FAZES-ME FALTA

O nosso gênio Machado de Assis narra em sua obra Ressurreição, que somente a natureza seria capaz de exibir um sarcasmo amplamente benévolo e anódino ao misturar espinhos e rosas. Pois é exatamente disso que se trata este FAZES-ME FALTA, outro livraço da escritora portuguesa Inês Pedrosa, precisamente da sutileza do sarcasmo incutido no amor.

Conheci a literatura de Inês Pedrosa por acaso; vi um de seus livros na estante de minha ex-mulher. Eu retirei da prateleira, olhei capa, virei para ver a contracapa, e este me pareceu desinteressante (O livro era Desamparo, tem resenha sobre esse episódio aqui no blog). Contudo, a leitura se mostrou um inesperável deleite de poesia em prosa. Desde então não parei mais de procurar pelos livros de mais essa exímia representante da belíssima literatura lusitana.

Resumidamente temos aqui a história de um homem e uma mulher que viveram uma relação de discrepantes sentimentos e que estão a refletir sobre como isso ocorreu (e ainda ocorre) em suas existências. O livro é exposto em forma de cartas (no sentido epistolar, não de cartas propriamente ditas) no qual os dois amantes, um deles já falecido, sequenciam seus monólogos instigantes e nostálgicos num retrato fidedigno do luto, da dor e, ao mesmo tempo, da beleza humana. A “falta” que intitula a obra vai além da mera ausência física de um dos dois, precisamente remete à noção de perda de nós mesmos, enquanto almas que antes não se reconheciam como perdidas.

A delicadeza linguística da autora é o que de mais instigante temos na obra; Inês Pedrosa tece uma literatura assertivamente ordinária, porque são duas existências em confissões íntimas, e precisamente ela envolve por sua forma simples. Faz com que nos apaixonemos pelas personagens, rapidamente, para dentro de uma imersão que torna inevitável não refletirmos sobre a perda de quem amamos, pois como mencionei, uma das personagens faz suas reflexões postumamente. Desse modo, paira constante um sentimento de vazio e de arrependimento, como se algumas coisas na vida deixaram de ser vividas ou que simplesmente uma vida se perdeu cedo demais... enfim.

Há momentos belíssimos que se tornam ainda mais marcantes pela linguagem afável e verossímil da autora, cheias de atos involuntários e inexplicáveis. Como quando a personagem liga para o número do ser amado, apenas para escutar sua voz gravada na secretária eletrônica, uma vez que este morreu e há o receio na outra de esquecer como era sua voz... Até o dia em que ele liga e não há mais nenhuma voz do outro lado, fazendo com que a familiaridade finalmente se perca, vencida pelo distanciamento irredutível da morte.

Um aspecto interessante ocorre nas diferenças de sentimentos e constatações feitas ao longo da narrativa. Por exemplo, a personagem masculina transparece um bocado de culpa por tudo aquilo que supostamente teria se recusado a desfrutar com sua amada por puro capricho, assim como há momentos em que este deixa nítido alguma insegurança afetiva de sua parte. Já a personagem feminina, e minha favorita, apesar de jovem, é astuta, segura e audaz; expressa seu desapego de convenções sociais e expressa o destemor daquilo que viu como verniz do anseio de um relacionamento onde o amor romântico despe-se, dando lugar ao amor de amizade.

FAZES-ME FALTA é uma obra relativamente pequena em tamanho, mas profunda em sentimento. Faz um paralelo extremamente eficiente entre um homem e uma mulher que, distanciados pela implacabilidade da finitude, resolvem trazer à tona o que há de mais palpável em suas almas melancólicas e arrependidas.

NOTA: 8,5

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

CRÔNICA - NÃO FARÁ DIFERENÇA ALGUMA, POIS JÁ PERDEMOS!

Não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Recentemente, encontrava-me preso num estressante engarrafamento no centro da cidade onde moro, quando um homem de meia idade surgiu em minha janela com um sorriso encabulado no rosto. Baixei o vidro e, sem cerimônias, ele foi me perguntando seu eu estava interessado em comprar um saquinho de pururucas que sua esposa havia feito. Agradeci e disse que não tinha interesse. Minha única vontade era que aquela fila infernal progredisse e eu pudesse ir pra casa. Ainda sorrindo desconfortavelmente, o homem perguntou se eu não poderia ajudá-lo com algum dinheiro... Friamente falei que não tinha. Notei os olhos dele ficando rasos quando seguia para o carro de trás e eu fechava o vidro, completamente indiferente.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Outro dia, estava dentro de um ônibus lotado, a caminho de casa. Era começo de noite, havia muito congestionamento e atrasos nos coletivos, cujo espaço interno era disputado por trabalhadores e estudantes. No trajeto, o ônibus parou para que uma mulher grávida embarcasse, apesar da superlotação e mesmo sob o risco de alguém atingir sua barriga, que já se encontrava bem saliente. Após alguns minutos ela se convenceu de que ninguém lhe cederia um lugar para se sentar, e simplesmente se espremeu entre os passageiros que estavam em pé e foi se sentar na escada do ônibus.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Como faço todos os dias nos horários de almoço, fui até a praça do centro da cidade para ler um pouco e, de imediato, encontrei um assento na sombra, o que não é muito simples de se conseguir. Pensando na enorme sorte, corri para me apossar do banquinho, foi quando notei o motivo pela qual ninguém havia sentado ali; é que o banquinho estava todo respingado de sangue seco. Mesmo com certo asco, tentei me encolher no canto do assento, até que encontrasse outro lugar para ler, foi quando escutei dos taxistas que trabalham naquele ponto, que na noite anterior um sujeito sem teto havia sido linchado até a morte por outros moradores de rua, exatamente naquele banquinho.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Nesta mesma praça, todos os dias cumprimento um homem muito velho cuja idade avançada o faz caminhar de forma lenta e sôfrega, porém, mesmo naquela altura de sua vida ainda precisa vender picolés puxando um carrinho, as mãos tremendo ao conduzir seu instrumento de escravização. Sempre que ele passa por perto de uma lixeira verifica seu interior à procura de latas de alumínio para vender..., um idoso que facilmente deve ter mais de 70 anos e ainda precisa sair de casa para ganhar o sustento, sob o sol impiedoso de Colatina.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Um enorme gato branco apareceu na minha rua se arrastando e golfando, dando sinais de que estava ferido ou envenenado. Encolheu-se num canto da calçada, incapacitado de seguir caminho devido a dor que certamente sentia. Neste momento, surgiu um cidadão pela rua, alto e saudável, caminhando de forma objetiva. Ao avistar o gato ele não precisou cogitar o que via, tratou de aplicar no animal um chute que o atirou a considerável distância. O homem seguiu seu caminho cantarolando descontraidamente, e o gato, ainda mais encurvado, voltou a se arrastar, na tentativa de se proteger de alguma forma.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Li recentemente o caso de uma mulher que foi espancada até a morte pelo marido, bem na frente dos dois filhos pequenos. O cara se entregou e foi levado para a delegacia, mas liberado no dia seguinte, pois alegou que estava muito abalado emocionalmente, por isso cometera o assassinato. Ele recebeu o direito de aguardar pelo julgamento em casa.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Conversei recentemente com um conhecido que está há quase um ano procurando emprego, vivendo de pequenos bicos para sustentar a família. Comentei pateticamente que estava mesmo muito difícil encontrar trabalho e ele concordou exibindo um sorriso cansado. A verdade que não precisava ser dita, pois ele já sabia, é que ninguém aceita empregar um homem negro, de pouca escolaridade e que já cumpriu pena por roubo.

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Testemunhei um acidente de trânsito, em que uma senhora pilotando uma moto, bateu na traseira de um carro, próximo a uma faixa de pedestre. A mulher fora arremessada para o canteiro no meio fio e, por sorte, sofreu apenas alguns arranhões na perna. O motorista do carro, um rapaz jovem e estressado, saiu pela porta e, no lugar de prestar algum socorro à senhora caída no meio fio, sacou o celular e foi tirar fotos de um pequeno amassado que o impacto deixou na lataria do carro. Alguns transeuntes que passavam socorreram a mulher, colocaram ela num banquinho, deram-lhe um pouco de água. Ela parecia desnorteada, mesmo assim o dono do veículo amassado foi até onde ela estava para gritar algumas ofensas e dizer que ela teria que arcar com as despesas...

Por isso não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo..., pois nós já perdemos!

Tudo isso que contei aconteceu em menos de duas semanas, na cidade de Colatina, no norte do Espírito Santo, onde moro. Lugar que sempre foi considerado relativamente pacato e bom de se viver... Tais acontecimentos devem ser evidências incontestáveis de nossa derrota como sociedade!

Pois não fará a menor diferença o número que apertarmos na urna eletrônica, próximo domingo... Todos nós já perdemos!

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUANDO NIETZSCHE CHOROU

Que seja explicitado: aprendi a gostar da literatura de Irvin D. Yalom lendo seus trabalhos menos expressivos; posso até salientar que pouco interesse tinha por esta que é sua obra mais notória, não por envolver um filósofo que aprecio, mas pela consciência dessa fascinação exacerbada ao redor da trama à ponto de alguns educadores oferecerem a obra para compreensão de Friedrich Nietzsche, sugerindo que o conteúdo fosse além de sua pretensão como literatura de entretenimento.

Manifesto que isso é um preconceito de minha parte, pois evitar aquilo que nunca se leu, apesar de se conhecer o autor, é julgar sem antes ter experienciado. Portanto, o livro veio parar em minha estante por acaso, quando o encontrei em promoção durante uma de minhas garimpagens num Sebo.

Outro problema pode estar precisamente na expectativa que criei sobre o autor, o que é meio que um paradoxo perante minha desconfiança, afinal, sei muito bem do potencial de Yalom com sua narrativa que mescla elementos filosóficos, psicológicos e introduz embates instigantes em suas personagens, algo admirável. Ou seja, ao mesmo tempo em que me recusava a ler este livro, também sustentava a confiança de que estava levando para casa outra boa leitura.

Contudo, a desconfiança se fez assertiva, QUANDO NIETZSCHE CHOROU é o livro mais fraquinho que li do autor e, apesar de não ser propriamente um trabalho ruim, considerei-o o menos envolvente dos lidos até hoje na bibliografia de Yalom, e o restante dessa resenha é uma tentativa de expor os elementos que embasam essa opinião.

Quando o famoso médico judeu Josef Breuer recebe a visita de Lou Salomé, uma sedutora mulher russa, o médico é intimado a ajudar a cuidar da delicada saúde de um amigo importante de Lou, um até então pouco expressivo intelectual chamado Friedrich Nietzsche. A mulher faz uma recomendação para que o Dr. Breuer mantenha o pedido em segredo, dada a natureza orgulhosa do paciente. Ou seja, para ajudar Nietzsche, o médico precisará ir ao encontro do filósofo e ajudá-lo sem que o outro perceba essa intenção... Temos o nosso enredo.

À priori, a premissa parece meio descabida ou sem sentido, mas isso não chega a incomodar, pode-se relevar facilmente essa condição narrativa para o encontro entre os dois principais personagens da trama, dr. Breuer e Nietzsche. No entanto, creio que conjunturas mais pertinentes poderiam ser introduzidas nas personagens.

Quanto ao aspecto que mais me incomodou na leitura ocorre desde o instante em que o filósofo cujo nome intitula a obra aparece e perdura por todo o texto: uma exacerbada reverência sobre a figura de Nietzsche ocorre já nos primeiros parágrafos em que ele surge na narrativa. E embora isso talvez fosse apenas uma bajulação introdutória, cujo intento seja enaltecer a figura de Nietzsche, tal condição não decresce, chegando a tornar alguns instantes intragáveis. Primeiro que por tudo o que Nietzsche representa para a filosofia, sua imagem não carece desse tipo de servilismo. E em segundo lugar, esse preciosismo escancarado interfere na maneira com que o enxergamos, tornando-o algo extraordinário demais e, portanto, menos crível.

Vale ainda mencionar para os leitores que ainda não conhecem a obra de Irvim D. Yalom, que em seus textos não há espaço para elementos como suspense, reviravoltas, impactos emocionantes ou agilidade linguística. A literatura desse autor segue sempre uma pegada invariável, cujo ápice fica nos diálogos cheios de elementos psicanalíticos e filosóficos que são estabelecidos entre suas personagens. E dentro desse aspecto há instantes bons aqui, o livro enriquece muito quando o autor deixa de se concentrar na idolatria à Nietzsche, para fazer o que faz melhor: narrar os enfrentamentos existenciais de suas personagens.

QUANDO NIETZSCHE CHOROU é um best-seller que merecidamente tem seu lugar de destaque no universo literário, porém, deixa-se seduzir demais pela personagem central da trama. Reconheço-me como parte da minoria que não considerou a trama tão grandiosa assim, mas sou consciente da existência dos bons elementos narrativos que fizeram de Yalom este consagrado escritor.

NOTA: 6,7

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

CONTO: A COR DE SUAS VÍSCERAS

A cama não será mais aconchegante, pois você não estará sobre ela. Os lençóis, ainda quentes, assemelharão às geleiras de uma montanha... Não consigo desviar o olhar de seu rostinho cândido, afundado no travesseiro. Procuro ficar o máximo de tempo possível dentro do quarto, portas e janelas fechadas, na incessante busca por acumular o seu cheiro e evitar que escape pelas fissuras.

Minha amada, Ivi.

Deixo você sozinha, apenas no instante de ir até a cozinha para buscar o punhal que comprei para a ocasião; uma réplica em metal trabalhado que imita o período mesopotâmico... Pedi que gravasse o seu nome na lâmina reluzente.

Deveria estar impregnado com o seu sangue agora, amor. Eu quero saber a cor dele, do seu interior..., mas, assim como nas noites anteriores, ainda careço de força para cravá-lo em sua carne.

O relógio me apressa. Já passam das onze da noite. Retorno ao quarto e me sento ao seu lado... Como você dorme tranquila! Sossegada como somente alguém que se sente amado poderia dormir.

Passeio com a faca levemente em seu pescoço, a ponta quase lhe riscando a pele. Sigo a silhueta pelo seu entorno e encontro os seios rosados, a respiração ritmada empurrando a ponta da lâmina pra cima e pra baixo.

Seriam os últimos sopros de uma vida?

O que ocorre na mente de alguém que morre enquanto está dormindo?

Confusão pela repentina travessia de planos?

Dor pelo descolamento da alma?

Um imenso e dissimulado nada?

O que ocorre?

Você se mexe, talvez o punhal tenha lhe feito cócegas na pele. O baby-doll é incapaz de cobrir seu corpo apetecível, causando-me excitação. Essa proximidade anula os demais pensamentos. Novamente só o que quero é provar do seu corpo, tomado pelo desejo que acomete a criatura submissa que sou.

O punhal vai parar embaixo da cama. Enfio-me nos lençóis, você acorda e sorri. Outra vez começo a sorver cada centímetro de seu corpo, percorro cada especificidade de sua estrutura, cada orifício me é familiar, cada mancha, cada imperfeição..., minha língua sente a maciez de sua pele e sei que provar desse cálice que nunca me sacia será minha ruina.

Talvez o punhal pertença a mim e não a ela.

Colados, nossos corpos se misturaram num manifesto de suor e urros. Gozamos, juntos... Dessa vez, eu fico na cama e você vai até o banheiro, lindamente nua e saciada.

Quando retorna eu sou outro homem. O distanciamento trouxe de volta meu orgulho ferido; uma voz faz um ultimato dentro da cabeça, quer saber quando vou acabar com isso, mas sou desperto por seu retorno, faz-me uma pergunta a qual não presto atenção.

Não deve ser nada importante, pois você não insiste.

Então olha o celular na mesa de cabeceira e se lembra de encerrar o nosso breve universo. Não percebe a dor que teu gesto desdenhoso me causa. As pessoas nunca notam o mal que causam à outras, apenas o mal que lhes é causado por outrem.

Finalmente ela replica a pergunta. Estou desolado, o braço esticado na beirada da cama, à procura do punhal.

– Vou te pagar em dinheiro – respondo; e no lugar do punhal, meu outro braço encontra a carteira na cabeceira.

– O que você fez no apartamento? – ela quer saber, enquanto confere o dinheiro na minha frente, pra me humilhar mais um pouco.

Um dia estive em uma loja de artesanatos e pedi ao vendedor para me mostrar um belo punhal que estava na vitrina. Muito gentil, o rapaz me convenceu a adquirir a peça. Eu pedi que ele gravasse o nome de minha amada Ivi na lâmina. Foi então que, olhando nos meus olhos, ele disse:

– É impossível existir apenas um amor... Na vida completa, tem que haver dois amores: o seu e o dela.

O vendedor fez o comentário do nada, mas eu entendi o significado: nosso amor é impossível, pois ele não há em você...

– Não sei... – respondo – não me lembro de ter feito nada.

– Parece diferente desde a última vez que eu vim aqui.

Ela já está completamente vestida, apenas termina de calçar as sandálias de salto, sentada na beirada oposta da cama.

O punhal deve estar muito fundo, bem debaixo, não consigo encontrar, mas já agora uma dúvida paira na minha cabeça.

– Quando posso te ligar de novo, Ivi? – pergunto.

Às vezes as pessoas mentem para nos proteger. Quando eu a chamo pelo nome, você diz que não sabe quem é Ivi, depois ri como quem acha que tudo não passa de uma brincadeira. E vai embora, sem culpa, tampouco responde se posso voltar a ligar.

Quando a porta se fecha reconheço todo o meu equívoco. Foi um acaso, um momento de confusão... Minha Ivi está em algum lugar lá fora, eu sei.

Mas o que faço se me deixo embriagar pela imaginação que instiga o prazer? Quando você morreu, julguei que Deus estava rindo de mim e então eu virei-lhe as costas... Agora o altíssimo me castiga, colocando seu rosto, sua voz, seu jeito de fazer amor e seu sabor no corpo de outras mulheres...


(Texto publicado no Recanto das Letras, no ano de 2009)

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

RESENHA DE LIVRO – VÍCIO DOS VÍCIOS – Um estudo sobre a vaidade humana.

O poeta Charles Baudelaire escreveu: “O maior truque já realizado pelo diabo, foi convencer o mundo de que ele não existe”. A afirmação sugere que a sofisticação da maledicência consiste em não aparecer, pois torna sua progressão mais efetiva. Quando não se sabe contra o que se luta, pode-se estar diante de um adversário imbatível. 

Este pensamento talvez seja imensamente pertinente para pensarmos sobre o mal que já era compreendido como pecado capital em tempos remotos. Ou seja, lá no livro do Eclesiastes, define-se a vaidade como totalitária e, portanto, o pecado que gera todos os demais: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade...”, livro do Eclesiastes, 1, 2-11. Se esta for uma hipótese plausível, eu creio que o tema da vaidade não recebeu atenção que deveria ao longo da história do pensamento. Portanto, segue como o diabo citado por Baudelaire, escondido e atuante, principal elemento causador de ódio, ganância, avareza e ausência de empatia com o semelhante.

Ocorre que a vaidade, ainda que entendida como elemento discreto ou mesmo pouco atuante no que se refere aos prejuízos causados, sempre terá sua participação em praticamente tudo o que fazemos na vida. Talvez por esse motivo se trate um mal que, apesar de pouco levado em consideração é supremo, pois elimina toda a noção de virtude do ser humano.

O psiquiatra Flávio Gikovates se propôs a realizar esta breve e, por que não dizer, introdutória reflexão sobre o problema da vaidade. E seus apontamentos, sempre tomando cuidado em manter a linguagem acessiva e pouco técnica, seguem precisamente nesse sentido: pontuar quase como indiscutível a vaidade como o princípio de todos os males que assolam a humanidade. Sim, pois se atualmente o ser humano é o animal predominante da natureza, ser portador de condição tão nefasta como a vaidade, torna-o um ser altamente destrutivo em suas relações com o mundo, em todos os aspectos.

VÍCIO DOS VÍCIOS traça uma linha de raciocínio para ajudar o leitor a verificar a vaidade desde seu surgimento como algo inerente, passando pela transformação em condição nociva por meio da influência de nossa cultura, até chegar ao epicentro do problema, onde sua manifestação é destacada pelo autor como um vício, justificando assim o título pertinente da obra.

Mas então se o tema é tão fundamental, por que quase não se encontram pensadores que se debruçaram sobre a vaidade? Sobre isso Gikovates nos traz um argumento, digamos, plausível: “Saber perguntar sem saber responder gera uma enorme dor; suportar a dúvida é uma das coisas mais sofridas para o nosso mundo interior. A sensação de abandono e de insignificância que resta é, em certo sentido, insuportável”, pág. 11. Portanto, quando se fala em pensadores, estamos lidando com a mais terrível e talvez a menos perceptível forma de vaidade: a vaidade intelectual..., talvez Baudelaire tivesse razão.

Claro que aqui estou apenas fazendo um resumo limitado da obra; não sendo possível aprofundar as razões que validam a vaidade como sendo o pecado fundamental, assim como não será possível detalhar os desvios e fugas das manifestações da soberba. De qualquer forma, vamos passar rapidamente por alguns momentos interessantes do livro, na ordem em que aparecem, começando pelo fundamento:

Na infância, uma manifestação sexual ocorre já no primeiro ano de vida, que explica a natureza auto erótica desse impulso, ou seja, ao se tocar, a criança encontra partes em seu corpo onde o toque lhe causa sensações peculiares. São chamadas zonas erógenas. Trata-se de um desconforto percebido pelo indivíduo como agradável, o que difere de outros desconfortos já percebidos pela criança, mas que causam irritação, como sede, fome, frio, etc...

Como o desconforto sexual é agradável, não deverá causar a tendência para a busca do equilíbrio; seu objetivo é o próprio desequilíbrio; e se o prazer for maior à medida em que o desequilíbrio se estende, a coisa tenderia para uma busca da perpetuação desse estado (...) O fenômeno inicial de excitação se dá sem a intermediação de qualquer outra pessoa. Não existe um objeto de desejo”. pág. 16.

“É só lá pelo 7-8 anos de idade que surgirá o interesse pelas trocas de carícias, ainda que claramente relacionado com fenômenos culturais, com a imitação daquilo que as crianças veem – ou ouvem falar – que interessa aos adultos. Não há nenhuma discriminação de quem seja o parceiro, nem qual o seu sexo. Apenas a vontade de experimentar a sensação de excitação derivada da troca de carícias, nada diferente do que se sente ao se fazer a carícia em si mesmo. O brinquedo agora envolve um parceiro, mas o caráter essencialmente auto erótico persiste”.

Segundo o autor, por volta dos cinco anos em diante, a criança manifesta os primeiros interesses pela exibição, o que parece ser mais frequente em meninos do que em meninas, um prazer de natureza erótica ao exibir o genital. Tal comportamento é curioso dado o fato de que não há fenômeno similar em mamíferos com os quais somo assemelhados.

O que leva uma criança a ter prazer em se exibir, em ser olhada por outra pessoa? Não creio que possamos explicar nada por hora, mas podemos constatar a coisa com facilidade. Não é improvável que o fenômeno já dependa de variações culturais, onde a exposição dos genitais é coisa já proibida; o prazer resultaria, pois, da própria transgressão. Ou será que o menino se orgulha, outra vez por isso ser valorizado pela cultura, de possuir um pênis, coisa que o coloca em “superioridade” em relação às meninas?” pág. 18.

Flávio Gikovates teve a humildade de alegar que seu estudo não é conclusivo, embora os sinais de sedução na criança sejam evidentes, pode ser que atualmente novos estudos tenham chegado a resultados mais precisos. Afinal, esta obra foi publicada em 1987. Mesmo relativamente antiga, vale a pena a leitura, pois seu conteúdo se mostra bastante atual.

Enfim, conforme a criança cresce sua razão se sofistica, também sua relação com o mundo real e imaginário. E imaginação é, segundo o autor, uma operação psíquica abstrata, capaz de provocar sensações de todo o tipo, mesmo que nada esteja ocorrendo na realidade. A erotização, antes relegada ao contato direto, passa por uma transformação curiosa: a atração se mostra tão eficiente em causar prazer quanto era o toque em zonas erógenas, mesmo que de forma efêmera. De agora em diante, a criança tudo fará para chamar a atenção, nessa busca inerente pelo prazer, porém, agora a coisa evoluiu por conta da influência cultural para a obtenção de um ganho de prazer por meio do exibicionismo..., eis a vaidade estabelecida.

Desse modo, sempre que um indivíduo busca atrair olhares e expressões de interesse de terceiros e isso não ocorrer, dispara a sensação de frustração muito forte, que pode ser interpretada como humilhação. Não é necessário que nos olhem de forma negativa; basta que não nos deem atenção e já nos sentimos humilhados, insignificantes e desinteressantes..., este é um elemento central da vaidade.

Depois de analisar sua origem, Gikovates entra em temas de extrema importância para a compreensão do progresso da vaidade, capítulos específicos, como por exemplo A Vaidade na Puberdade, A vaidade e o Trabalho, A Vaidade e o amor. Estes são alguns dos mais distintos temas que ajudam a mapear a proliferação da vaidade em quase todos os aspectos de nossa condição social e natural.

No capítulo A Vaidade e o sexo, deparamo-nos com a hipótese de elevação da vaidade por conta de nosso ciclo de tensão e atração proporcionado pela fêmea. Geralmente na natureza, as fêmeas exalam cheiros que atraem os machos para a cópula, o que denota a relação do instinto sexual com a reprodução. Já nos seres humanos, o desejo masculino é despertado por meio da visão, e não do olfato. A fêmea quando atraente provoca o desejo por tempo quase que ininterrupto, e não por alguns dias, como geralmente ocorre com as outras espécies.

Todos os homens desejam as mais atraentes. Além do mais, a cópula não interrompe o ciclo do desejo, que é ininterrupto. Com a vida em grupo, se torna absolutamente indispensável algum tipo de regulamentação da função sexual, isto com a finalidade de impedir que os homens briguem o tempo todo; também, ao menos mais recentemente, para garantir a mulher o direito de escolher os seus parceiros”, pág. 106.

Porém, similar ao que ocorre noutras espécies, nos jogos de sedução do ser humano também existe a disputa exibicionista, que fará com que a fêmea faça sua escolha pelo macho que lhe parecer mais atraente. O problema é que aqui se estabelece uma influência muito forte da cultura, o que causa uma distorção de valores, proporcionando a elevação da vaidade, cujo objetivo do macho será sempre o de angariar recursos que o faça parecer ainda mais poderoso. Do mesmo modo, a fêmea seguirá tentando parecer atraente em conformidade com a cultura estabelecida, no intuito de seguir saciando seu vício pela atração.

O último capítulo intitulado A Cura da Vaidade como vício, Gikovates faz um breve resumo e traz algumas ideias de como tornar a vaidade menos nociva. Faz confissão e assume a si mesmo como um homem vaidoso, mas oferece apontamentos pertinentes, porém, um tanto utópicos se levarmos em conta a maneira como nossa sociedade se encontra organizada, de como acabar com o vício da vaidade, e não com a vaidade propriamente, afinal, trata-se de um mal inerente.

Um aspecto que me incomodou é que alguns temas foram pouco explorados. O livro é relativamente curto, possui apenas 155 páginas. Um assunto tão amplo quanto a vaidade mereceria um pouco mais de explanação.

VÍCIO DOS VÍCIOS é um livro cujo tema sempre me atraiu de perto, talvez por eu ser mais um vaidoso incorrigível, este é um assunto que me fascina. A leitura desta obra me causou muitos desconfortos, vi-me em diversos pontos e identifiquei muitos vícios em minha natureza causado pela vaidade. E embora o último capítulo tenha servido de certa forma como um assopro nas muitas feridas, abertas ao longo da leitura, seguirei pouco esperançoso quanto a amenizar os prejuízos causados por este monstro escondido dentro de nós..., mas apesar da dor, essa é uma daquelas leituras mais que obrigatórias.

NOTA: 9,2

terça-feira, 9 de agosto de 2022

RESENHA DE LIVRO – QUARTO DE DESPEJO

Existem lugares, situações e personagens neste Brasil sofrido que somente a literatura os traz, mesmo que na escassez expansiva de público, para a contemplação desse país como ele realmente é: um lugar de profundas tragédias sociais. Portanto, textos cujas leituras são fortes a ponto de fragilizar o leitor deveriam ser obrigatórios, embora eu tenha certo receio com as obrigações estabelecidas pelas nossas instituições de ensino. E me desculpem aqueles que acreditam que apenas as sofisticações de nossa cultura ou a erudita linguagem deveria ser material de pesquisa por sua evidente contribuição para o enriquecimento social; tratam-se de obras esmeras e que têm seu lugar de importância na projeção da arte brasileira, tão achincalhada ou meramente ignorada pelo nosso povo. Livros como QUARTO DE DESPEJO, possuem um viés de urgência, de chamamento para o que está acontecendo, porque tenho uma enorme desconfiança de que tem muito brasileiro que ainda não sabe o que se passa dentro de nossas fronteiras. E a náusea causada pelo avanço na leitura, deve ser como um elixir que instiga e suscita a indignação..., talvez com isso nós fôssemos um povo mais indignado.

Esta obra talvez seja indispensável neste aspecto.

O mais trágico é que mesmo em nosso tempo atual, o qual nos distanciamos muito do tempo em que a obra foi escrita, na década de 1950, o livro parece mais atual do que nunca, quando nos deparamos com a fome assombrando novamente milhões de brasileiros que vivem em favelas sem o mínimo de dignidade social, gente que enfrenta fila para conseguir um pouco de osso para cozinhar, eis um cenário que deveria ser parte do passado, mas que segue sendo reproduzido em nosso tempo.

QUARTO DO DESPEJO é o diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus, que relata seu sofrido dia a dia de acordar para ir buscar o sustento para os filhos, sem nenhuma garantia de que será conseguido. Solteira, mãe de três crianças, Carolina é uma representante dessas pessoas que são categoricamente ignoradas pelo Estado e pelo resto da sociedade; gente indigente, cujo retrato de desesperança está contido em cada dia narrado pela autora.

Carolina Maria de Jesus viveu seu tempo de miséria e desespero na favela do Canindé. Apesar das incertezas e do completo distanciamento dos meios culturais que a óbvia condição precária lhe proporcionava, ela era apaixonada por livros, amava ler e usava o hábito de escrever em seus diários, que foram reunidos nesta obra, como válvula de escape para suportar o sofrimento e a dor que permeia os dias de quem vive em condições subumanas.

Há instantes na leitura em que a tristeza de não ter o que comer se torna tão intensa, que o leitor passa a torcer por Carolina, e cada novo dia em que ela consegue algo para alimentar os filhos e a si mesma, nos soa como um alívio..., então vem o dia seguinte, e a luta para sobreviver recomeça. E ficamos desesperançados, quase sentindo as agruras vividas por Carolina para conseguir alguma coisa para levar para casa no final do dia, seja um alimento achado no lixo, algum item básico comprado com o que se conseguiu com a venda do papel, ou alguma migalha oferecida por alguém... A tristeza permeia a leitura quase que o tempo inteiro. A palavra fome aparece ao longo da obra com uma frequência irritante!

Um aspecto que vale a pena ser apontado é que os editores da obra optaram por manter a linguagem original, manteve-se os erros de escrita e de gramática, que segundo os editores, teve como intuito invadir o menos possível e manter a fidelidade linguística da obra.

QUARTO DE DESPEJO é um diário que narra os dias trágicos de quem vive na parte ignorada e obscura do Brasil. Mesmo hoje, o livro continua atual, não o relato de algo que ficou passado. Porque em nossa sociedade capitalista, desigual que acumula recursos para uma minoria quase irrisória, ainda existem muitas Carolinas por aí, morando em barracos podres e catando lixo e papel para sustentar os filhos.

NOTA: 8,2