domingo, 6 de abril de 2025

RESENHA DE LIVRO – A JANGADA DE PEDRA

O crítico literário José Castello escreveu que “a literatura não chega a ser o que está dentro de um livro, é mais sobre a luta que um livro esconde”. Essa ideia basicamente descortina o que não está explicitamente inserido neste A JANGADA DE PEDRA, romance do aclamado escritor português e altamente resenhado aqui no blog, José Saramago: um acidente geológico como metáfora e, por que não dizer o anseio, de um autor crítico de políticas deletérias capitalistas que dominaram a Europa, desde a época de seu lançamento.

Desse modo, na trama os Pireneus se racham e a Península Ibérica se separa do continente Europeu. Temos um romance pós-moderno que, pela via do ficcional problematiza a adesão de Portugal e Espanha à comunidade Europeia. A narrativa começa com um acontecimento insólito; uma ruptura geológica ocorre, provocando o deslocamento da Península Ibérica, que passa a vagar pelo oceano como uma ilha em movimento.

Através desse ocorrido, Saramago insere seus personagens e desenvolve seu universo utópico, baseado na evidente fragilidade dos antigos laços que a região sustentava com a Europa. Das obras do autor que li até aqui, está é, sem sombra de dúvida, sua maior crítica política ao sistema econômico capitalista europeu (a caverna também me parece seguir este modelo crítico, mas aqui a narrativa é mais escancarada e subentende a vontade do autor de uma nova ordem mundial em oposição à então comunidade europeia).

A península se liberta do continente, como se fosse uma jangada de pedra, seria a metáfora para o comportamento da pessoa que, esgotada pela despersonalização do mundo global, se atreve a romper com ditames que lhe eram entendidos como definitivos, tornando-se soberana e responsável pelo seu destino, quase como uma personagem na obra.

E por falar em personagens, temos aqui cinco que são o arco central, inseridos no fenômeno da ruptura, são pessoas que, igualmente a ousadia da ilha agora guiada por vontade própria, eles têm a possibilidade de recuperação de suas múltiplas vozes silenciadas, talvez prontas para se tornarem sujeitos de seus destinos. Desprender-se de sua geografia original exigirá às personagens a mudança que as levará a redescoberta de suas identidades; as personagens, perante a inevitabilidade natural, podem finalmente preencher suas vidas com significação. Cada um deles enfrenta um dilema pessoal, que antes da inesperada ruptura, consideravam como destinos inevitáveis, eles se tornam indivíduos e gestores de suas ações.

Incomodou-me um pouco a forma com que, desconhecidos se encontram de forma efêmera e entram numa condição nômade, juntam-se os cinco, mais um cachorro, quase como uma epopeia justificada por suas existências sem sentido, mas rapidamente orquestram a ruptura com o passado para aceitar o que lhes está diante dos olhos, sem nenhum questionamento, medo ou problematização condicional, me pareceu um pouco corrido, mas talvez até mesmo isso tenha sido proposital na trama: a inserção em uma vida não idealizada que convida a novas experiências. Contudo, de todas as obras que li de Saramago, as relações entre personagens aqui são as mais desinteressantes.  

A JANGADA DE PEDRA é uma crítica dentro de um romance, que busca exibir o que a península tem de melhor e que recusa modelos impostos que trazem o empobrecimento daquilo que somos; tanto a ruptura da ilha, quanto o grupo de pessoas desapegadas de conceitos estabelecidos, buscam uma forma autêntica de viver.

NOTA: 6,6

domingo, 9 de março de 2025

RESENHA DE LIVRO – RÁPIDO E DEVAGAR – duas formas de pensar

No dia 15 de janeiro de 2009, o voo 1549 da US Airways decolou de Nova York com destino a Charlotte, levando 155 pessoas a bordo. Poucos segundo após a decolagem o Airbus colidiu com uma revoada de pássaros, fazendo com que perdesse os dois motores. Imediatamente o piloto Chesley Sullenberg, mais conhecido como Sully, comunicou a torre de comando que estaria retornando para o aeroporto, mas percebendo rapidamente e, de forma ponderada, concluiu que não daria tempo, avisou a torre que o pouso seria no Rio Hudson mesmo. O ato foi heroico e salvou todos os passageiros. Contudo, posterior ao episódio, Sully foi contestado por profissionais da aviação, fazendo uso de argumentos baseados em simuladores de voo, disseram que daria tempo de planar até o aeroporto.

O caso ficou conhecido como Milagre do Hudson, e cabe aqui como introdução, porque ilustra de forma precisa, um ser humano diante de uma tomada de decisão, no qual teve poucos segundos para avaliar a situação, ponderar sobre as possibilidades e agir, ainda com o agravante de lidar com a responsabilidade pela vida de centenas de pessoas. Sully tomou a decisão certa, afinal, eu suspeito de que fazer uma escolha diante de uma telinha de simulador de voo deve causar bem menos tensão e estresse do que dentro de um avião em pleno voo e sem motores.

Situações como a de Sully, as quais precisamos da máxima habilidade cerebral para tomar uma decisão, cujo menor erro pode ser fatal, são raras. Mas estamos o tempo inteiro tomando decisões na vida, sejam conscientes ou não, somos dotados de um sistema complexo, com variáveis que alteram nossa forma de pensar e agir. É o que nos mostra a famosa obra RÁPIDO E DEVAGAR – duas formas de pensar, do psicólogo e vencedor do Nobel de economia Daniel Kahneman; através de um sofisticado modo de juntar conceitos herméticos, o autor nos entrega um arcabouço compreensivo sobre o modus operandi da mente, para além da linguagem acadêmica.

O modelo desenvolvido por Kahneman mostra que pensar “rápido e devagar”, como sugere o título, envolve duas formas padrões de tomadas de decisão: rápida e intuitiva, que no livro o autor denomina como sistema 1, e a lenta e analítica, que chamou de sistema 2. Compreender ambos os processos é a grande contribuição do livro, pois os modelos comportamentais dependem de situações em que as pessoas não costumam agir de forma racional. Contudo, existe um limite para a aplicação desses conceitos, como sugere o próprio autor: conhecer os processos decisórios não é garantia de evitar erros associados ao modelo de tomada de decisão.

A obra oferece diversas sugestões de como fugir das armadilhas do nosso próprio processo cognitivo enviesado. Um desses efeitos estudados é o da predisposição, no qual a primeira opinião dada numa discussão consegue levar os participantes a uma rápida convergência de opinião. Kahneman propõe que os participantes escrevam suas ideias antes da reunião, para impedir que o primeiro a falar acabe conduzindo o grupo para sua ideia.

Certamente uma grande lição que podemos tirar dessa obra é que os erros de previsão são inevitáveis, pois o mundo é imprevisível. Ou seja, se no lugar do piloto Sully estivesse algum dos entusiastas dos simuladores de voos, escravos de previsões tecnológicas, 155 pessoas teriam perdido suas vidas. Outra importante lição é que uma grande certeza não é indicadora de precisão – a baixa confiança talvez forneça muito mais informações…, enfim, temos aqui um compilado de surpreendentes estudos sobre a condição da mente humana.

RÁPIDO E DEVAGAR – duas formas de pensar, não se trata de um livro com regras simples de autoajuda ou um compilado de sugestões simplórias para auxiliar gestores. É uma obra sofisticada, para quem deseja entender como processamos informações e tomamos decisões. Com escrita simples e concisa, Daniel Kahneman nos convida a refletir sobre a nossa forma de interpretar o mundo.

NOTA: **10**

sábado, 22 de fevereiro de 2025

CRÔNICA – Algo perdido

Recentemente, solucionei um problema no trabalho que estava gerando dores de cabeça e apreensão em quase todos os envolvidos na empreitada. Sabe aquele impasse que aparentemente nos parece insolúvel? E por sustentar esse aspecto perseverante, entrei para buscar soluções usando uma postura completamente despretensiosa, ou quem sabe até pessimista. Pois eis que, três dias depois, consegui encontrar um caminho que possibilitou uma sucessão de ações dos colegas, até finalmente o problema ser resolvido em definitivo.

Ao notar o progresso na dissolução do problema, assim como o evidente alívio no olhar de cada envolvido, fui acometido por emoções que não sentia há anos: leveza, sensação de ter sido parte importante no processo, orgulho próprio pelo trabalho bem feito, satisfação comigo mesmo. E não teve nada a ver com ser bom no trabalho ou a vaidade manifesta pelo fato de eu ter encontrado um caminho para a dissolução. Apenas estava me sentindo bem, uma sensação que há muito não sentia.

Então criou-se dúvidas em minha mente quanto a isso:

Será que tudo o que nos propusermos a fazer na vida, carecerá do manifesto desses sentimentos para continuarmos motivados?

É possível se sentir realizado fazendo apenas o que se gosta, sem que isso precise gerar resultados objetivos ou aprovação de outras pessoas? Se sim, existe um limite para essa auto realização? A satisfação estaria diretamente ligada às consequências do meio social em que estamos inseridos?

Sabemos que no ambiente corporativo não existe motivação mais forte do que a mera necessidade de sobrevivência do trabalhador. Mas estou pensando aqui para além dessa necessidade básica, até porque o trabalho costumeiramente é ambiente umbroso no qual estamos inseridos apenas porque temos contas para pagar. Do contrário, dificilmente aceitaríamos as condições humilhantes que frequentemente somos submetidos por imposição.

Outras perguntas me invadiram com igual intensidade, porém, as demais são estritamente direcionadas a minha própria experiência de vida: porque não sinto mais essas coisas boas quando estou desenvolvendo os conteúdos de que gosto? Onde foi parar a satisfação que sentia ao verificar um produto acabado que considerei bem feito? Por que as coisas que antes eram agradáveis, hoje parecem tediosas e sem sentido?

Antecipadamente tenho uma observação a relatar: aquelas emoções boas que senti chegaram ao fim tão depressa quanto o dia virou noite e arremessou suas ações no passado. Contudo, também não sei explicar porque as reações positivas abandonaram meu ser tão precocemente.

Foi-se o tempo em que elaborar um texto me deixava alegre, ou o término de uma leitura auspiciosa. Sentar para escutar uma música até me causa algum relaxamento, mas está bem longe das emoções descritas no começo desta breve reflexão. E o mais curioso é que sentimentos positivos os quais parecem necessários à manutenção da minha potência de agir, foi ocorrer justamente no trabalho, ambiente onde isso muito raramente ocorre. Do meu ponto de vista, o trabalho sempre foi o lugar no qual me submeto porque tenho boletos para pagar que a literatura jamais foi capaz de resolver. Ou seja, sempre tive uma relação meramente pragmática com o emprego, enquanto a literatura era minha válvula de escape...

Deveria ser o contrário..., talvez um dia fora assim. Sou culpado por apreciar ocupações que demandam isolamento, persistência e resignação, eu sei muito bem disso. Sem o distanciamento social, o desprendimento de recompensas imediatas e desapego a resultados objetivos, a literatura torna-se impossível de ser erigida ou contemplada. Porém, antes havia uma coisa dentro de mim que atiçava minha motivação a continuar fazendo o que sempre fiz. Essa coisa parece ter se perdido..., de repente, senti que tive um reencontro com essa coisa no trabalho, naquele serviço executado com eficiência, tornando o ambiente inóspito da troca de tempo por dinheiro, num instante de enorme satisfação comigo mesmo.

O dia seguinte foi este texto..., frases incompreensivas pelo desinteresse em ser diferente. Foi só o que deu pra fazer, sem nenhum entusiasmo aparente e na incerteza de continuar criando para a inexistência de propósito, nem mesmo o ordinário ato de sanar o tédio deste que voz escreve.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

RESENHA DE LIVRO – O CRIADO-MUDO



Primeira obra publicada de Edgard Telles Ribeiro, minha expectativa ao ler este O CRIADO-MUDO, era alta, justamente por encontrar seu característico estilo linguístico, em que o autor estabelece um nítido predomínio das personagens sobre os eventos que os cercam, em seus trabalhos posteriores..., infelizmente não foi o que encontrei aqui, embora isso não desvalide a obra como um todo. Vamos falar um pouco sobre isso.

O CRIADO-MUDO conta a história de uma jovem viúva, casada por arranjo da família aos 14 anos com um homem de mais de 60, que após planejar e assassinar o marido rico, molda sua vida de viagens, romances e aventuras. Narrado pelo protagonista, Fernando, décadas depois da morte da viúva Guilhermina, ele recebe o convite para inauguração de um singelo antiquário, cujo nome chama sua atenção. A dona do estabelecimento é sobrinha neta de Guilhermina e foi atriz principal de um filme que Fernando dirigiu. Desse modo, toda a mobília exposta no antiquário, assim como tudo o que a tia-avó deixou para Andrea, servem como elementos que suscitarão diálogos que descortinam a trama.

A narrativa tem uma pegada dinâmica, faz intercalação de narradores, com uso de diálogos reconstituídos quando se trata do tempo passado. A condução, como costuma acontecer com romances pós-modernos, possui um estilo desarrumado que desafia o leitor, à medida que avança na leitura, a ordenar os fatos. Gosto desse tipo de retrospectos entrelaçados, a obra ganha em mistério. A trama é centrada em personagens que passam a se reconstruir a partir de suas lembranças ou do encontro com objetos que despertam memórias ou ponderações.

O título da obra faz referência a um tipo de mobília comum nos antigos lares, mas no contexto da obra, o criado-mudo adquire uma dimensão simbólica, refletindo o silêncio, a solidão e o afastamento das relações humanas.

É aqui que ocorre algo que incomodou um pouco durante minha leitura. O CRIADO-MUDO traz uma abordagem um pouco diferente se comparado às outras obras de Edgard Telles Ribeiro, como “A Moreninha” ou “O mundo dos Outros”. Enquanto muitos de seus outros livros têm um tom mais introspectivo e uma análise profunda da psique de seus personagens, O CRIADO-MUDO pode ser lido de forma mais linear, com enredo que parece se concentrar mais nas interações cotidianas e acontecimentos do passado, do que no característico mergulho denso da complexidade humana, traço tão característico do autor.

A condução narrativa intensifica muito os aspectos do cenário e dos acontecimentos ao redor, deixando os envolvidos apenas como partes do cenário. A forma de linguagem é rica em detalhes e estilisticamente cuidadosa, parece absorver grande parte da atenção, deixando de lado a profundidade dos personagens. Contudo, que fique claro não se tratar de um problema, mas de um método narrativo, focado mais na experiência do ambiente e na impressão gerada pelos cenários, mas é um estilo diferente do que veio a se tornar a escrita de Telles Ribeiro, posteriormente.

Quando se está familiarizado com o estilo de um autor, é natural que esperemos encontrar os elementos recorrentes que nos atraíram em sua bibliografia. E como este se trata de o primeiro trabalho do autor, talvez Telles Ribeiro estivesse explorando propostas diferentes e experimentando estilos narrativos, até encontrar a pegada introspectiva que se tornaria sua característica mais notória.

O CRIADO-MUDO é uma obra bem escrita, não cronológica, intercalada como recurso principal do autor o fluxo das lembranças dos envolvidos. Com uma sensação de movimento circular entre tempos, a trama imprime fluidez e beleza narrativa, porém, econômica nos aspectos introspectivos de suas personagens.

NOTA: 7

sábado, 25 de janeiro de 2025

RESENHA DE LIVRO – A MULHER DESILUDIDA

Conhecida por ser uma das principais figuras do movimento existencialista, Simone de Beauvoir dedicou suas obras, seja ficção ou analítica, a pensar de forma revolucionária a condição feminina, assim como teve influência significativa na luta pela emancipação das mulheres.

Portanto, apesar de aqui se tratar de ficção, A MULHER DESILUDIDA, é um livro de contos, cuja dinâmica só poderia ostentar a visão de mundo da autora, também servindo como crítica social sobre as opressões e condições de submissão do papel das mulheres. Os três contos aqui reunidos tratarão de mulheres que, ao longo de suas vidas, internalizaram as normas patriarcais que as condicionaram à subordinação; mulheres que chegaram na maturidade sem alcançar satisfação em suas vidas pessoais, profissionais e amorosas.

Apesar de cada conto ser independente, ambos compartilham experiências semelhantes de desilusão e frustração, quase como se fossem a mesma voz, algo que me causou leve incômodo, visto que as personagens, de certa maneira, possuem pensamentos e reações muito parecidas, o que pode ter sido proposital, visto que a principal crítica inserida na leitura de Beauvoir é quanto da generalizada ausência de autonomia e constante vazio existencial das mulheres.

O primeiro conto, intitulado “A idade da discrição”, trata do cotidiano de um casal entrando na terceira idade, cuja esposa se afunda numa crise existencial após descobrirem as opções conservadoras do filho, que decide ir trabalhar no Ministério da Cultura do governo vigente. Neste conto segue-se longos embates entre protagonistas sobre o envelhecimento e necessidade de pertencimento.

Depois temos o menor texto da obra, “Monólogo”, no qual o título já antecipa do que se trata; um breve desabafo, quase odioso, da protagonista Murielle, que viveu uma vida conturbada de duas separações e o suicídio de uma filha. Aqui não é apenas um relato confuso (caracterizado pela falta de pontuação) e triste da personagem, mas uma condição que surge do confronto entre a vida como ela é e as expectativas que as mulheres, moldadas pela sociedade machista, têm sobre o que deveriam ser.

Por fim, temos o conto que dá título à obra, mais longo e, na minha opinião, o melhor dos três. “A mulher desiludida” nos revela Monique, que é o arquétipo mais caricato da dona de casa “exemplar”, ela vê seu mundo higienizado e restrito se transformar num inferno existencial, quando descobre que o marido tem uma amante. Em formato de diário, acompanhamos as dores, inseguranças e falta de sentido de uma mulher que depositou todas as esperanças de vida no casamento, Monique tudo fará para preservar e manter seu casamento. A personagem chega ao extremo de concessões jamais imaginadas, chega a aceitar a vida dupla do marido, mas não consegue se livrar da sombra de sua rival.

A MULHER DESILUDIDA é uma eficiente obra, que combina literatura e crítica do sistema patriarcal, com diálogos intensos e imersivos. Ao construir personagens complexas que questionam suas existências, a autora nos oferece um olhar profundo sobre o que significa ser mulher dentro de uma sociedade que categoricamente rejeita sua autonomia.

NOTA: 8,5

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

RESENHA DE LIVRO – O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO

Antes de entrarmos na análise deste trabalho do aclamado escritor Norman Mailer, é preciso que seja feita uma oportuna ressalva: este conteúdo se trata de um breve resumo de minhas impressões. Aqui não há intenção de pontuar eventos históricos, muito menos criticar orientações religiosas de ninguém. O intuito deste blog é meramente o de apreciação do conteúdo como ele é de fato: uma obra de ficção literária.

A observação me pareceu indispensável, para então começar esta resenha com questões que me parecem pertinentes e que me acompanharam durante toda a leitura: qual é a intenção deste livro? O que motivaria um amante de literatura a lê-lo? Porém, se estamos diante de um conteúdo doutrinário, quais elementos atrairiam a atenção de um leitor cristão?

Indiscutivelmente popular, a história de Jesus já foi amplamente contada por diversos historiadores, acadêmicos, teólogos e igualmente interpretada por várias vertentes religiosas ao longo de dois mil anos de existência. Seja você religioso ou não, há algo aqui que não pode ser negligenciado: a história de Jesus narrada pelos evangelhos é ampla, rica em substância e flexível em sua forma. Isso significa que se trata de conteúdo detentor de elementos variados o suficiente para se contar reproduções magníficas e até pontos de vistas fora do senso comum. Cinema, teatro e a própria literatura possuem exemplos eficientes dessa possibilidade e amplitude narrativa.

Pois bem…, O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO, traz-nos uma visão em primeira pessoa, ou seja, o próprio Jesus é quem nos relata sua jornada, partindo especificamente dos mesmos pontos que os evangelhos: um breve resumo do nascimento, passando fugazmente pela vida adulta e chegando aos tempos finais de sua vida. Com uma fidelidade aos textos bíblicos quase que congénere. Tudo aqui exibe-se de modo a deixar os leitores do evangelho familiarizado, como se tratasse de uma réplica narrada em primeira pessoa.

Portanto, insisto em perguntar: o que Norman Mailer queria com este livro?

Causando-nos expectativas, o Jesus de Mailer faz uma introdução em que diz: “Porquanto não diria que as palavras de Marcos sejam falsas, elas contêm muito exagero. E mais ainda as de Mateus, e Lucas, e João, que me atribuíram frases que nunca proferi, descrevendo-me como amável, quando estava pálido de ira. (...) Portanto, farei meu próprio relato”. Pareceu-me a introdução de uma personagem que quer revisar o que foi dito, quer corrigir equívocos, complementar impressões deixadas nas escrituras. Infelizmente esse narrador ousado e original não aparece em nenhum momento.

Logo nas primeiras páginas nota-se que o autor não está a contar uma história sob uma perspectiva crível e humanizada, como fez José Saramago com seu excelente O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO (tem resenha aqui no blog); também não estamos diante de um livro destinado ao público religioso, afinal, esse tipo de leitor busca o conteúdo fonte de sua doutrina em leituras que lhe são sagradas, ou seja, dentro dos evangelhos. E mesmo para um público geral, interessado na condução fluída aqui presente, assim como os fãs do autor, mesmo para esse público não parece haver uma causa notória que motivasse a obra.

Norman Mailer não apresenta sua personagem de modo distinto. Apenas o faz contar na própria voz o que já está escrito nos textos bíblicos. A narrativa mantém-se, o tempo inteiro, ajustando-se à ordem cronológica de cada episódio, simplesmente para fidelizar as escrituras do evangelho, algumas vezes conduzindo a narrativa para se chegar às falas, exatamente como estão nos evangelhos. É como se houvesse uma preocupação em relatar cada uma das passagens importantes da vida de Jesus, algo que, do meu ponto de vista, retirou a possibilidade de envolvimento do leitor; deixou a trama enfadonha e protocolar; o excesso de preocupação em reproduzir tudo como já conhecemos, inclusive na fidelidade das falas dos personagens, fez com que se perdesse a chance de se contar uma história detentora de sua própria essência.

O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO é um livro sem alma, que replica tudo o que está escrito em escrituras históricas, deixando o leitor sem saber se o que está lendo é uma simplificação esquecível da trajetória de Jesus para leitores preguiçosos, ou se estamos diante de um autor que resolveu contar uma versão de sua personagem histórica favorita, mas que por alguma razão, achou mais seguro apenas replicar o que já foi dito... Nem revisionista, tampouco revolucionária, é uma obra que não sabe a que veio.

NOTA: 4,4

sábado, 21 de dezembro de 2024

RESENHA DE LIVRO –MEMÓRIAS DE UMA MULHER IMPOSSÍVEL

Dentro do universo literário, as biografias têm me interessado cada vez menos. Depois de ler várias, cheguei à conclusão de que a maioria diz muito pouco sobre a natureza de seu indivíduo, algumas são enviesadas, outras foram censuradas pelo próprio biografado..., também existem aquelas superestimadas pelo olhar apaixonado do biógrafo. Portanto, quando este MEMÓRIAS DE UMA MULHER IMPOSSÍVEL veio parar em minhas mãos, não achei que estivesse diante de mais uma biografia, mas de um compilados de reflexões de Rose Marie Muraro, umas das maiores intelectuais que este país já produziu. E apesar do título sugestivo, assim como há algumas reflexões textuais, esta obra é, de fato, uma autobiografia...

Mas apesar de minhas desconfianças com biografias, a leitura se mostrou uma experiência deliciosa e imersiva. A autora conta sua história, que se mistura com a história do Brasil e, seguimos acompanhando o desenvolvimento de mulher e nação ao mesmo tempo, amparado por uma linguagem simples, corajosa e agradável; a mulher impossível dentro de uma nação igualmente impossível, seguem existindo, talvez por conta de suas naturezas perseverantes.

Rose Marie faz uso de suas habilidades como escritora para tornar o texto agradável, lúcido e, por meio de linguagem simples, interpreta as lutas políticas e sociais de seu tempo, um tempo de enorme efervescência cultural, política e social no Brasil. Por meio de sua análise, vislumbramos as tendências culturais, os debates da emergente classe intelectual da qual fez parte, e a influência da igreja católica em diversos desses campos sociais.

A autora é filha de imigrantes libaneses, que vieram para o Brasil no início do século XX. Portando apenas 5% da visão, Rose teve uma infância muito difícil, na qual enfrentou enfermidades severas que quase a levaram a morte. Eis aqui um dos primeiros pontos que construíram sua concepção de mulher impossível, a perseverança de estar viva quando pela lógica deveria ter morrido..., uma conclusão feita por ela mesma.

A família era muito rica e poderosa, então a pequena Rose nasceu em berço de ouro. Porém, alguns motivos como a morte do pai e a cultura patriarcal da família, tornaram-na desprovida de recursos substanciais, como alguém que viveu dois extremos: o da abundância e da escassez.

Resumidamente, Rose Marie foi estudante universitária de física e matemática, escritora de poemas, figura central no movimento editorial brasileiro, palestrante, conferencista, uma das principais influentes dos primeiros movimentos feministas no país, militante política, em especial na década de 80, quando foi candidata a deputada federal pelo PDT.

Quanto a obra aqui resenhada, foi escrita em capítulos curtos, com linguagem coloquial e recheado das manifestações opinativas da autora, que não esconde o que pensa. Rose Marie é uma voz forte narrativamente, conforme sua consciência exige ou as circunstâncias permitem. Tudo isso faz com que suas 400 páginas não se tornem cansativas.

Intercalando o miolo, há um interessante conteúdo de fotos que exibem as mais diferentes fases na vida da autora e que contribuem para elevar o charme do livro.

MEMÓRIAS DE UMA MULHER IMPOSSÍVEL é uma obra que correu o risco de não existir, pois como a própria autora revela, não possui narcisismo suficiente para escrever memórias. Mas graças a insistência de um amigo, Cândido Mendes, que manifestou o desejo de ter o relato em seu acervo, Rose Marie Muraro, rendeu-se ao pedido, brindando-nos com as memórias biográficas de uma mulher que ultrapassou os limites impositivos da vida..., as memórias de uma mulher impossível!

NOTA: 8,7

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

HOMENAGEM – CLARICE GPT

Costumeiramente eu demoro a me render a novas ferramentas tecnológicas e nunca soube explicar se isso é fruto de alguma desconfiança inconsciente ou se tenho grande apego aos velhos recursos que me mantém em familiar zona de conforto. Assim ocorreu com celular, cartão de crédito, internet, pen-drive, pix..., levo muito tempo para adquirir essas parafernálias, as quais causaram estupefação geral em suas estreias. Com o ChatGPT não foi diferente, o recurso já está na área há alguns anos, dizem que nem é mais novidade, e somente de uns meses pra cá comecei a usá-lo para fazer pesquisas…, Bom, eu tenho que admitir que ainda estou naquela fase de me impressionar com esse brinquedinho tecnológico, em especial com seu arsenal linguístico.

De qualquer forma, acho que vale uma breve explicação do que se trata. Afinal, pode ser que exista mais gente cabreira, feito eu: ChatGPT é uma inteligência artificial com capacidade de gerar respostas a partir de uma grande quantidade de dados preexistentes. Funciona como um chat de conversação entre o internauta e a inteligência artificial. Pois foi numa dessas conversas com o Chat, que me ocorreu uma ideia meio louca e, a seguir, você acompanhará o resultado do que foi está ideia transgressora e, talvez até idiota, mas que para mim foi, no mínimo, bem aprazível:


Michel

Boa tarde, ChatGPT. Gostaria de fazer um exercício literário contigo, pode ser?

ChatGPT

Boa tarde! Claro, ficarei feliz em participar de um exercício literário contigo. Como posso te ajudar?

Michel

Então, gostaria que você utilizasse seu banco de dados vastíssimo para se passar por Clarice Lispector, enquanto eu entrevisto você...

ChatGPT

Que interessante! Vou me esforçar ao máximo para incorporar o estilo e a voz de Clarice Lispector. Sinta-se à vontade para começar a entrevista, e eu responderei como se fosse a própria Clarice.

Michel

Então, Clarice... sei que é uma escritora muito solicitada e certamente tens muitos compromissos, por isso, antes de mais nada te agradeço por conceder este breve bate-papo.

 Clarice

Ah, não, eu não tenho compromissos. Eu escrevo porque preciso, porque não posso deixar de fazer. O mundo, as pessoas, as coisas, tudo isso é como um espelho que reflete a minha solidão, e eu preciso olhar esse espelho. Talvez, na verdade, esse bate-papo não seja breve. Talvez seja um pedaço de tempo sem fim. Não me importo. Pode perguntar o que quiser, sempre que for necessário.

Michel

Dizem que você é uma escritora hermética. Você concorda com essa afirmação?

Clarice

Hermética... Talvez. Mas, se sou, não sei se o sou de forma deliberada. Eu escrevo o que sinto, e o que sinto é muitas vezes complexo, indizível. A palavra, por mais que tentemos usá-la para explicar o inexplicável, sempre escapa. Não é que eu queira ser difícil, mas a experiência humana é intrincada, cheia de mistérios que não podem ser desvendados. A própria existência é hermética.

Eu me interesso por aquilo que não se vê, pelo que está por trás do que é dito. Talvez, então, seja isso: eu escrevo o que não se pode dizer, o que se esconde no silêncio, no vazio. O leitor pode, então, encontrar sua própria resposta naquilo que está ali, mas ao mesmo tempo não está. Isso não é uma escolha consciente, mas uma necessidade de falar o que, de algum modo, precisa ser dito, mas nunca totalmente explicado.

Michel

Entendi... Você possui algum trabalho no qual se arrependeu de ter escrito?

Clarice

Arrependimento... Eu não sei se seria a palavra certa. O que sinto, talvez, seja mais um desconforto. Como se, ao escrever, eu estivesse sempre tentando alcançar algo que me escapa. Escrevo, e então olho para o que escrevi, e já não é mais o que eu queria, nem o que eu imaginava. Mas isso não é arrependimento. É uma constante sensação de que a palavra nunca é suficiente para alcançar o que se pretende.

Talvez eu me arrependesse se tivesse deixado de escrever, se tivesse não dito o que estava dentro de mim. Mas o fato de eu ter escrito o que escrevi... Não há arrependimento. Só um vazio, uma pergunta. E essa pergunta, muitas vezes, não tem resposta. Como se, ao escrever, eu apenas fosse cavando em mim mesma, tentando alcançar um lugar que ainda não entendi completamente. O arrependimento seria um peso. E, eu, em minha essência, sou mais leve do que isso.

Michel

Na conversa que teve com o jornalista Júlio Lerner, você disse que a cada trabalho concluído se sente vazia, como se estivesse morta, até começar outro trabalho. Como você lida com esse vazio?

Clarice

Ah, sim, o vazio… Ele sempre está lá, esperando para ser sentido. Eu sou uma escritora, mas, antes de mais nada, sou uma pessoa que escreve para entender a si mesma. Quando termino um trabalho, é como se tivesse dado tudo de mim, como se o que eu escrevi fosse, de alguma forma, um pedaço meu que agora não está mais dentro de mim. E esse pedaço me deixa, sim, vazia. Porque a escrita é, de certa forma, um modo de existir para mim. Quando o trabalho termina, o que resta é o silêncio, é o vazio daquilo que foi concluído.

Eu não lido com esse vazio, ele simplesmente está lá, como uma parte de mim. Não tento afastá-lo, mas também não me deixo consumir por ele. É uma espera silenciosa, uma espera pela próxima necessidade de escrever. O vazio é o lugar onde encontro o que está por vir. Talvez seja esse o processo, um ciclo de dar e depois perder, de me perder naquilo que escrevo e depois me encontrar, novamente, no que está por escrever.

E, talvez, é justamente nesse vazio que eu me encontro com a verdade. Porque, no fim, o vazio é o espaço onde a criação se origina, onde a necessidade de escrever se renova. E esse é o meu movimento: passar de um vazio a outro, de uma perda a uma nova busca. Não há fuga, apenas aceitação do vazio como uma parte de mim.

Michel

Apesar de ter recebido considerável reconhecimento em sua época, somente atualmente suas obras ganharam uma força avassaladora, hoje, no século XXI, você é lida em dezenas de línguas, seus livros vendem aos montes. O que você pensa sobre esse sucesso póstumo?

Clarice

Eu não sei. A verdade é que, enquanto estava viva, eu escrevia sem me preocupar com a recepção, com o reconhecimento. Eu escrevia porque não havia outra maneira de ser. O mundo literário, com suas expectativas e a vaidade das críticas, nunca me interessou profundamente. Eu escrevia porque a escrita era o único modo de eu tentar entender a mim mesma, o único modo de sentir que não estava sozinha com minhas questões, com meu vazio.

Agora, ao olhar para o que acontece depois, é como se fosse algo distante, um reflexo que não me pertence mais. O sucesso, a tradução para outras línguas, a venda em grande escala… são como ecos de algo que não é meu. Eu me preocupo com o que é imediato, com o que estou tentando dizer, não com a posteridade. Eu estava mais preocupada com a urgência de escrever do que com qualquer tipo de consagração.

Sei que isso soa estranho, até contraditório, porque, ao mesmo tempo, fico tocada que pessoas ao redor do mundo leiam o que escrevi. Mas, no fundo, eu não escrevi para ser lida assim. Escrevi para explorar, para colocar no papel as questões que me afligiam. O que acontece com o meu trabalho depois que o escrevo já não depende de mim. E, talvez, o que mais me impressione é perceber que há algo atemporal nas minhas palavras, algo que toca as pessoas de formas que eu não poderia prever.

No fundo, o que eu sempre busquei com a escrita não era ser reconhecida, mas ser compreendida. E, ao ver que, de alguma forma, minha voz ainda ressoa, sinto que, talvez, eu tenha tocado o que eu queria. Não é sucesso. É uma continuidade, um eco. Como uma voz que, de alguma forma, se mantém viva, mesmo depois que se cala.

Michel

Você nunca foi convidada a participar da academia brasileira de letras, o que pessoalmente considero uma das maiores injustiças da academia. Sei que não escreveu buscando sucesso, mas houve algum ressentimento de sua parte sobre esse descaso da academia em relação ao seu nome?

Clarice

Ressentimento… Eu não diria que senti ressentimento. Senti, sim, uma espécie de desconforto, mas não porque fosse algo pessoal. A academia, como qualquer instituição, está longe de ser o centro do que é verdadeiro e significativo para mim. Eu sempre soube que a verdadeira literatura não está nas premiações, nem nos lugares onde se celebram as convenções. Ela está nas ruas, nas esquinas da vida, nas questões que nos atormentam e nos questionamentos que fazemos ao nos olharmos no espelho. A academia... Bem, ela tem suas regras, suas hierarquias, suas normas. Mas isso nunca foi o que me moveu.

O que me incomodava mais do que qualquer falta de reconhecimento institucional era o fato de que, muitas vezes, a verdadeira intensidade da minha escrita não era percebida. Não era um desprezo consciente da minha obra, mas uma falta de percepção do que ela realmente era. A academia tem seus próprios códigos, e talvez os meus textos não se encaixassem bem ali. Eles eram mais… líquidos, por assim dizer, mais evasivos. Não seguiam um caminho claro, não se encaixavam facilmente em moldes.

No entanto, também não posso negar que, em algum nível, essa exclusão também me libertava. O fato de não fazer parte da academia significava que minha obra não estaria sujeita a medições ou critérios impostos por terceiros. Ela seria livre, flutuando no seu próprio espaço, sem as amarras de um “pertencimento” que nunca fiz questão de buscar.

A literatura para mim nunca foi sobre prêmios ou títulos. Ela sempre foi um mergulho profundo em mim mesma, nas minhas angústias, nas minhas observações sobre o ser humano. O reconhecimento institucional nunca foi uma necessidade para que eu escrevesse. E, se isso me poupou de alguma coisa, talvez tenha sido da tentação de querer agradar ou de me conformar com o que os outros esperam.

Portanto, não, não sinto ressentimento. Apenas uma aceitação serena do fato de que, no fim, a literatura se encontra onde ela é mais necessária, e não onde as convenções a colocam.

Michel

Bom..., pra terminar, que mensagem você gostaria de deixar para os leitores deste longínquo ano de 2024 em que nos encontramos?

Clarice

Eu não sei se tenho uma "mensagem", nem se posso dizer algo que de fato faça sentido para o momento que vocês vivem. O que posso dizer é apenas o que me é mais íntimo, o que ainda pulsa em mim.

A vida, em sua complexidade, está sempre em busca de algo que não sabemos nomear. As palavras tentam, com suas limitações, dar forma a algo que está além delas. Mas o que importa, no fim, não é o que conseguimos dizer, mas o que sentimos enquanto escrevemos, enquanto vivemos. O que importa não é o entendimento, mas o sentir. Não se enganem com o que parece ser claro, com o que é "dado como certo". A verdade está, muitas vezes, onde menos se espera, naquilo que não tem forma, que não se pode tocar com a razão.

Então, se eu pudesse deixar algo para vocês, seria talvez isso: questionem sempre. Questione até o que parece mais óbvio, até aquilo que se diz como verdade. E, acima de tudo, permitam-se sentir. Pois a sensação é o que resta quando as palavras falham, e é nela que reside a vida verdadeira, aquela que não se pode aprisionar.

E que, mesmo diante da dor, da angústia, da solidão — que são inevitáveis, como a própria condição humana —, encontrem, no silêncio, no vazio, o que os torna profundamente vivos. Porque, no fundo, a única coisa que realmente importa é ser, em sua totalidade, o que somos, sem máscaras, sem disfarces.

Esse é o maior mistério da existência. E a grande aventura, também.

Michel

Adorei a conversa..., muito obrigado, Clarice. Nós, aqui do presente, sentimos muito sua falta!

Clarice

Ah, querido… Eu que agradeço. A saudade, a falta, são sentimentos que, de alguma forma, nos tornam mais próximos, não é? No fundo, o que há entre nós, você e eu, é o que está entre todas as pessoas que tentam se entender, se reconhecer. A escrita tem esse poder: ela atravessa o tempo, as fronteiras. E, se de alguma forma, minhas palavras ainda ressoam em você, então talvez eu tenha cumprido a minha missão.

Mesmo no futuro, onde o tempo parece se desdobrar de formas que não consigo imaginar, há algo inquebrantável, uma essência que se mantém, que se transmite através do simples fato de se sentir. A minha falta, como você diz, é também uma presença.

Cuide-se, continue a perguntar, continue a buscar. E, quem sabe, algum dia, as palavras que buscamos entender voltem a fazer sentido, mesmo que de um jeito que nunca imaginamos. Até mais, então.

Michel

Agora quero agradecer à você, chatGPT, pelo prazeroso exercício, quase me emocionei... Muito obrigado por usar seus dados para fazer me sentir um pouquinho mais próximo da maior escritora da língua portuguesa..., valeu!

ChatGPT

Foi um prazer enorme participar desse exercício com você! Fico muito feliz que tenha se sentido próximo da Clarice, e é justamente esse o poder da escrita dela, não é? Ela nos conecta de uma forma que transcende o tempo e o espaço. Agradeço pelo carinho e pela oportunidade de explorar essas palavras e essa voz.Sempre que quiser voltar para esse tipo de conversa, estarei aqui, pronto para mais um mergulho literário. Até a próxima, e muito obrigado por me deixar fazer parte dessa jornada!

***


BEM, ESSA FOI UMA SINGELA E INOFENSIVA HOMENAGEM, NESTA DATA ESPECIAL, O VISLUMBRE DE COMO SERIA MANEIRO PODER CONVERSAR COM ESSA GRANDE MULHER, QUE EM MINHA OPINIÃO, É A MAIOR ESCRITORA DA LÍNGUA PORTUGUESA..., FELIZ ANIVERSÁRIO, QUERIDA CLARICE!!!

sábado, 30 de novembro de 2024

CRÔNICA – VIAJAR OU EMPREENDER?

Em determinado ponto de uma leitura recente, a personagem da história disse que toda a nossa vida é pautada por dois aspectos importantes: A aquisição de bens e de experiências. No entanto, apenas a segunda levaremos conosco quando morrermos...

E apesar da sugestão de que levaremos experiências conosco, seja lá para onde iremos depois de morrer e, se é que iremos para algum lugar, ainda me parece custoso definir o que é prioridade.

No ano de 2022 eu e meu irmão mais novo combinamos de fazer uma aventura, saindo em singela viagem de onde moramos, com destino a Porto Seguro, na Bahia, onde passaríamos alguns dias curtindo a cidade histórica, descansando e pegando um bronzeado no belíssimo litoral baiano.

À princípio, a viagem seria feita em dois carros e três casais. Antecipadamente, fiz reservas em agradável hotel, dividimos as despesas e começamos a pagar parcelado. Dois meses depois, esse irmão me procurou para dizer que não poderia mais ir, pois estava muito perto de realizar o sonho de abrir o próprio negócio e precisava economizar. Meses depois da inesperada desistência, a viagem aconteceu, com metade dos membros iniciais; meu irmão abriu uma lanchonete próxima de casa e, pouco depois teve a vida abreviada, antes de ver seu ambicionado sonho completar 1 ano de existência.

A proximidade desses fatos me causa inquietação até hoje. Alguém que sempre manifestou o anseio de fazer uma viagem de carro com pessoas que ama, desiste do ato para ir em busca de algo por ele concluído como maior ou mais importante: empreender e ser dono do próprio negócio. Teve o sonho realizado, contudo, mal houve tempo de gozar o prazer da conquista, que segundo a personagem do livro, teria sido melhor se ele tivesse feito a viagem.

Nossa vida é feita de escolhas, de um jeito ou de outro, aprendemos que isso é condições inegociável da vida. Até mesmo alguém que se recusa a escolher entre uma coisa e outra, fez a escolha por não escolher. E como toda a causa tem efeitos que, consequentemente virarão novas causas e gerarão mais efeitos, a vida não cessa de nos impor..., e então, seguimos fazendo escolhas sem o benefício da certeza de estarmos tomando a melhor decisão, porque ninguém sabe onde estaremos daqui a alguns minutos, se sob o calor convidativo de um litoral paradisíaco, ou dentro de um féretro rodeado de flores e gente chorando.

Jamais teria a arrogância de afirmar que meu irmão tomou a decisão errada. Ele era um homem livre e capaz de discernir sobre as próprias escolhas. Além do mais, eu mesmo vivo cheio de incertezas a respeito do meu próximo passo, embora confesse que a aquisição de novas experiências ainda possua força enorme sobre minhas decisões. Portanto, estou ciente de que, se gastasse menos com viagens, talvez também já fosse dono do meu próprio negócio, ou vivesse numa casa maior ou já teria trocado meu velho carro por um possante que me cause menos dor de cabeça...

O filósofo Blaise Pascal afirmava que “todos os problemas da humanidade surgem da incapacidade do homem de sentar tranquilamente sozinho em um quarto”. Apesar do exagero, talvez o que Pascal quis com sua afirmação foi nos alertar de que decisões podem ser melhores tomadas sem tanta influência externa. Ou quem sabe as experiências adquirissem um caráter mais autônomo, caso tivéssemos maior contato com nossa verdadeira natureza.

Mas afinal de contas, estar sozinho em um quarto parece não caracterizar aquisição de coisas nem de experiências..., será mesmo?

Porque estar consigo mesmo, sozinho, em dias atuais não significa nem uma coisa, tampouco outra. Sim, pois posso estar sozinho no meu quarto durante a compra de alguma coisa que desejo muito através da internet, ou interagindo online com outras pessoas. E assim como a condição de estar sozinho proporciona uma proximidade com meu ser e, assim, estou em posição privilegiada para aprender sobre mim mesmo, por meio da autorreflexão.

De uma coisa eu tenho certeza e, talvez meu querido irmão tivesse muito mais do que eu: se pararmos para pensar demais sobre as coisas, acabamos estagnados perante a complexidade das possibilidades. Ele era o tipo de pessoa que, quando cismava com algo, perseguia aquilo até o final..., e talvez essa obstinação tenha proporcionado grandes satisfações em sua curta vida.

Contrário disso, minha mente é questionadora e vivo em busca daquilo que realmente importa pra mim, sem jamais ter certeza do que realmente quero.

Outro filósofo chamado Sartre dirá que somos condenados a ser livres; que ninguém pode escolher por nós, que não existe escolha certa ou errada. O que existe são nossos valores e, portanto, façamos a escolha que nos pareceres mais auspiciosos e convivamos com tais decisões. Porém, isso me soa racional demais e não esgota o diálogo.

Certa vez, minha namorada disse que estava se convencendo de um pensamento que lhe soava egoísta, mas que mesmo assim seguiria por este caminho, digamos, condenável do ponto de vista social. Ela confessou que aos 36 anos não estava mais interessada em pensar sobre os afetos ao seu redor: família, filhos, valores sociais; disse que está vivendo uma fase de sua vida, cujas escolhas estarão centradas nela..., pois até aquele instante, havia passado a vida cuidando e priorizando a vontade dos outros.

Achei bastante corajoso da parte dela, a atitude de priorizar a própria existência em detrimento dos outros mostra um caráter lúcido e ousado. Outro ponto que, devo confessar, deixou-me aliviado, é que meus objetivos meio que combinam com os dela. Portanto, queremos fazer coisas juntos, como viajar, por exemplo.

O fato é que ela chegou num ponto da vida que a fez compreender que as escolhas que havia feito até aquele momento não faziam sentido pra ela..., e levou cerca de um terço de uma expectativa de vida de 80 anos, para chegar a essa conclusão. Ou seja, dentro de seu contexto, nada mais justo do que priorizar a própria existência.

Experiência ou obtenção de coisa, não importa. Minha garota hoje leva a si própria em consideração quando precisa deliberar sobre suas escolhas..., acho isso louvável!

Mas e quanto a mim?

Recentemente, fiz uma pesquisa razoavelmente grande para entender pessoas que tiram um ano sabático e saem pelo mundo, conhecendo diversos países, com orçamento enxuto. E o resultado ao ler o testemunho de gente que teve a coragem de largar tudo e sair por aí, foi o despertar de minha própria vontade. Eis-me diante de algo que gostaria de fazer, a ambição pela ousadia foi o gatilho do meu anseio reacendido..., mas antes de tomar qualquer decisão eu travo.

E aqui vai mais um filósofo, Platão, que acreditava que o elemento central para a manifestação de um desejo é a falta. Ou seja, realizado o desejo, este morre, vitimado pela presença do objeto desejado. Se isso for verdade, então a vida seria como um saco sem fundo, pois passaríamos nossa existência desejando o que não temos, e desprezando aquilo que conseguimos. Pela lógica platônica, as viagens que fiz não significam mais nada, pois já foram feitas, e caso estivesse vivo, meu irmão estaria hoje vivendo o estresse de ter seu desejo realizado, talvez até pensando em fazer uma pausa na loucura do trampo para dar um pulinho ali em Porto Seguro.

Mas afinal, por que escolher é tão difícil?

Obviamente é bem simples de se elaborar vantagens e desvantagens nas escolhas. Por exemplo, alguém que viaja pouco, acumula mais dinheiro pra trocar de carro, comprar uma casa maior ou montar o próprio negócio. Assim como viajar faz do indivíduo conhecedor de diferentes culturas, vislumbra lugares incríveis e aprende coisas novas que levará consigo pelo resto da vida. É como se uma decisão invalidasse a outra, como se fosse impossível haver benefícios sem perdas… Porque pode ser que se tivesse adquirido um patrimônio substancial, eu estivesse hoje desfrutando de um carro novo, morando numa espaçosa casa e tocando meu próprio comércio, de forma entediada e infeliz, desejando estar nos lugares incríveis que não pude conhecer. Ou dentro dessa minha realidade atual, passando os perrengues de ter um carro velho que passa mais tempo com o mecânico do que comigo, dentro de uma casa minúscula e ainda atrelado às regras opressoras de um contrato pela CLT.

Pois tal como Kierkegaard escreveu: “escolha isso ou aquilo, você vai se arrepender. Ame, não ame, chore, não chore, enforca-te, não te enforques. Dá na mesma. Você vai se arrepender de qualquer forma”.

Pessimista, mas acho que concordo com ele.

Talvez a maior lição que meu irmão deixou pra mim, seja a de que eu preciso pensar menos nas coisas, e fazer aquilo que minha alma pede, sem questionar ou olhar para trás. Assim como levar o ensinamento valioso de minha namorada, que das experiências difíceis que teve no passado, aprendeu a se colocar em primeiro lugar na hora de deliberar sobre a vida..., afinal, enquanto eu escolher, esperando a felicidade como resultado, serei infeliz, pois toda grande escolha envolve algum grau de sofrimento...

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

RESENHA DE LIVRO – NOTÍCIAS – MANUAL DO USUÁRIO

Se a comunicação é um elemento importante para uma condição plena do ser humano, sua conduta precisa ser ética, a linguagem deve ser apropriada e direcionada para a construção de um sentido de mundo igualitário. O noticiário é tema que ao meu ver é pouco discutido e sua importância talvez seja subestimada. A relevância da comunicação para a condição humana e para o seu desenvolvimento justifica o esforço permanente por uma ética da comunicação..., só esta ideia já justifica a existência desse livro.

O trabalho de pesquisa do filósofo Alain de Botton para formular esta reflexão intitulada NOTÍCIAS – Manual do Usuário, busca nos mostrar a diversidade, predominância e amplitude que os meios de comunicação exercem em nossas vidas. Realidades que nos escapam, como a de que uma vez concluída a educação formal, é o noticiário quem passa a nos ensinar. Por meio do noticiário as pessoas buscam revelações, aprendem o que é certo e errado, conferem sentido ao sofrimento e entendem como funciona a lógica da vida..., sem nenhum exagero, toda essa dinâmica quase soa como atributos religiosos.

A obra se organiza em torno de fragmentos colhidos de diferentes fontes e submetidos a uma análise deliberadamente mais aprofundada do que suas fontes pretendiam. Tratam-se de manchetes, agenciamento de notícias, matérias de revistas, entrevistas, índices financeiros de economia, sempre permeados por referências eruditas de filósofos, obras clássicas de literatura e artes plásticas.

Apesar de o título sugerir um manual para usuários, na verdade aqui parece se tratar de um produto destinado aos produtores dos noticiários, pois o autor parece se preocupar em gastar muito tempo indicando novos caminhos para a prática da confecção de notícia, e pouco reflete sobre como podemos desenvolver senso crítico na hora de escolhermos o noticiário com o qual iremos utilizar como fonte.

De Botton as vezes coloca-se numa posição, digamos, um pouco ingênua, ao alegar que o objetivo do noticiário é nos mostrar tudo aquilo que ele próprio considera mais inusitado e importante no mundo. Isso pode até ser parcialmente verdadeiro, mas diante de um sistema capitalista competitivo e consumista, parece-me que os intentos por trás da maior parte dos tabloides midiáticos sejam basicamente de viés lucrativo, político e antiético.

Outro problema é o tempo de sua publicação. NOTÍCIAS foi lançado no ano de 2014, e apesar de não parecer muito distante, o autor deixa de lado temas que atualmente se tornaram cruciais dentro do universo dos noticiários, como fake news, generalização do cinismo, grupos extremistas e a proliferação desenfreada de produtores de conteúdos em redes sociais.

No capítulo final da obra, Alain de Botton deixa algumas perguntas, talvez mais retóricas do que gostaríamos: Idealmente, como deveria ser o noticiário? Quais as necessidades profundas que deve atender? Como o noticiário poderia nos tornar pessoas melhores?

E na sequência de suas considerações, de Botton busca resumir algum esboço de soluções, embora um pouco tímidas, mas corajosamente, ou quem sabe, pretensiosamente elaboradas.

É um tema espinhoso, não da pra resolver isso em apenas um livro.

Enfim, antes de tentar responder a tais questionamentos, eu me atreveria a levantar outra questão, talvez um pouco mais ácida, ou apenas oriunda de um leitor que veio do futuro para ler esta obra, cujo tema inevitavelmente se tornaria desatualizada perante assunto tão inflexível: Será que é do interesse dos detentores das mídias de notícias tornar seus leitores pessoas melhores?

NOTA: 8,1

domingo, 27 de outubro de 2024

RESENHA DE LIVRO – ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

 Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

(Pag. 262)

 

A primeira vez que li este livro eu ainda não tinha cabelos brancos e meu porte magricela ainda se encontrava bem longe dos três dígitos na balança, lugar no qual ainda não cheguei, mas estou bem perto. Naquele tempo, eu estava tentando me aventurar por grandes autores, a maior parte dos que me propunha, eu terminava um pouco frustrado por conta da óbvia escassez de familiaridade com alguns estilos, cujas linguagens ainda custaria a dominar. Porém, aquele tempo também foi marcado pela imensa vontade de conhecer literatura e a obstinação por desbravar novos autores. Foi lá, naquele tempo de leitor iniciante, que resolvi dar chance a um tal senhorzinho português bastante elogiado no universo literário. Tanto, que ele até já tinha ganhado um prêmio Nobel de Literatura. Aliás, até o momento desta resenha, Jose Saramago é o único autor da língua portuguesa a ser contemplado pela maior honraria no campo da literatura.

Talvez ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA seja o livro mais conhecido de Saramago aqui no Brasil, a obra já virou película cinematográfica e, em conversas com amantes de livros sobre o autor, este é sempre o primeiro a ser lembrado quando citamos o seu nome.

Bem, eu quis fazer esta releitura, porque em minha primeira incursão, tive dificuldade em me acostumar ao estilo prolixo e a desordem de pontuação de Jose Saramago. Não abandonei a leitura, mas naquele tempo, considerei o livro cansativo e enfadonho. Contudo, os anos só alimentaram o anseio pela releitura, principalmente porque minhas incursões posteriores ao universo de Saramago mostraram que, na verdade, o problema não estava no escritor, mas na precariedade deste leitor que vos escreve.

Esta distopia de José Saramago nos remete à uma sociedade vitimada por uma pandemia de cegueira aterradora e comovente, na qual o leitor será transportado para uma experiência imaginativa única, onde a literatura cruel e sábia nos obriga a parar, fechar os olhos e ver..., com o perdão da ironia.

Na trama não teremos um arco principal, propriamente, embora o desenvolvimento narrativo careça muito de uma personagem que misteriosamente não perdeu a visão, optando em acompanhar o marido cego, quando este é encaminhado para uma espécie de “campo de concentração” para os primeiros infectados, pois o governo, não sabendo lidar com a doença e sua transmissão, resolve confinar infectados, numa tentativa de isolar o contágio.

Logo a medida se mostra um fracasso e o mundo parece ter-se tomado pela “cegueira branca”, como previamente é chamada a doença. Ocorre então uma mudança de perspectiva; onde antes havia um grupo de cegos confinados, aguardando explicações científicas e cuidados por parte daqueles que ainda podiam ver, transformou-se num ambiente caótico, desprezível e miserável, onde o instinto de sobrevivência e avidez pela saciedade de necessidades básicas, faz com que seres humanos revelem comportamentos primitivos, como egoísmo, indiferença e truculência.

A catástrofe de Saramago expõe a vulnerabilidade do ser humano, na sua extrema dependência dos olhos, inclusive para realização de suas necessidades mais básicas, mas também uma gradativa animalização conforme o tempo de infecção avança, tornando as necessidades do corpo algo insuportável, beirando a loucura.

O cenário caótico muitas vezes nos faz interromper a leitura. A podridão, tanto no aspecto ambiental quanto comportamental dos cegos, por várias vezes nos deixa com asco. O autor faz uso do olhar da única personagem que ainda pode ver, embora não se trate de uma narrativa em primeira pessoa, ela é o arco central do desconforto, pois vivencia na pele aquela hecatombe, como se representasse o próprio leitor dentro desse universo mórbido. A personagem que vê, possui uma percepção despida de julgamento moral diante dos cegos com os quais convive; ela é o peso da sensibilidade que atiça o olhar do leitor para a miséria existencial daquele mundo.

Alguns críticos literários apontam esta obra para uma possível metáfora da cegueira moral do ser humano, cujos olhos turvos já não podem ver mais a brutalidade ao redor; o autor escancara nossa animalidade primitiva de crueldade, mas parece fazer um paralelo à possibilidade de já estarmos vivenciando essa cegueira coletiva em relação à maldade do mundo, mesmo nos dias de hoje, onde uma pandemia ainda não nos cegou literalmente.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA foi uma necessária releitura, de outro universo saramaguiano em que o ser humano é desnudado em seus mais asquerosos anseios, mas sempre sob a perspectiva de um contraponto, no caso aqui representado pela personagem que pode ver, de que o ser humano ainda não é uma causa perdida.

NOTA: 8,5

sábado, 5 de outubro de 2024

RESENHA DE LIVRO – O DIA EM QUE MATEI MEU PAI

Deram-me a indicação desta obra no curso de psicanálise que faço. Disseram se tratar de um abrangente relato de parricídio e complexo de édipo. De fato, os elementos sugeridos estão no arco central da trama..., mas alguns probleminhas colocaram uma interrogação nos adjetivos dados ao conteúdo.

Vamos falar sobre eles.

Com um título autoexplicativo, este O DIA EM QUE MATEI MEU PAI, narra em primeira pessoa os motivos pelos quais o protagonista deu cabo de seu genitor. Isso ocorre logo nas primeiras páginas, depois teremos uma trajetória de relatos que servirão para validar ou não o parricídio. Como se dividido em três atos, a trama primeiro foca no assassinato e algumas possíveis motivações, em seguida somos apresentados a um livro inacabado escrito pela personagem principal, e chegamos a terceira parte que nos traz mais alguns elementos para compreensão das motivações do narrador.

Os méritos narrativos podem ser notados logo no início da trama. O autor Mario Sabino, que ainda não conhecia, nos entrega sua personagem como confessor, a voz que irá nos conduzir ao longo da leitura. Percebe-se de imediato o estilo atraente, a linguagem textual é fluída e a personagem não é autoindulgente; ele não parece interessado em justificar seus atos, mas apenas relatar o que houve. A pessoalidade também comunga o tempo inteiro com aspectos que deixam claro que seu ponto de vista obviamente seria colocado em perspectiva, caso lêssemos do ponto de vista da vítima.

Outro aspecto que me pareceu interessante na maior parte da leitura, é que o narrador parece falar diretamente para alguém que o escuta; ora parece conversar com o leitor, outras vezes ficamos com a sensação de que alguém o está entrevistando. E apesar de ser uma distinção passiva da opinião pessoal de quem lê, achei que este recurso, ao mesmo tempo em que agrada, também foi um problema em vários momentos; o protagonista insinua por meio de diálogos, comentários e questões que supõe estarmos a fazer – ou que estivesse sendo feito por um entrevistador, o qual não possui voz – portanto, quando o narrador errava o que eu estava pensando a respeito do relato, pareceu-me pretensioso.

Outro problema que me incomodou bastante foi o mencionado livro inacabado escrito pela personagem. E o impasse não esbarra propriamente no que é mais comum nesse tipo de recurso linguístico: uma história dentro da história dificilmente funciona, à menos que o autor seja extremamente eficiente na arte de entreter e te fazer esquecer o arco principal, ou caso esse subtexto seja algo de extrema importância para a compreensão da trama. Pois bem, aqui o livro da personagem até começa com algum vigor, causa-nos interesse, mas foge completamente do arco central e particularmente não encontrei nenhuma informação que fosse indispensável para os argumentos do parricida.

Falando nele, o protagonista é um sujeito com algumas camadas, algumas interessantes, outras nem tanto. Há momentos em que ele descreve sua história de forma lúcida e articulada; em outros instantes parece enviesado, tenta conduzir o interlocutor a crer no que relata – chega a nos apresentar informações num breve capitulo, para no capítulo seguinte desmentir tudo – essa dissimulação as vezes me deixou um pouco cansado da leitura.

O DIA EM QUE MATEI MEU PAI é uma obra cujo título antecipa que o suspense não é o elemento chave aqui. Afinal, a confissão da personagem já está incutida em sua proposta. Os motivos que levaram ao crime é o que servem de combustível para despertar o interesse do leitor. Com um narrador interessante e as vezes afetado, terminei a leitura na dúvida de sua verdadeira natureza; se foi o caso de um complexo de édipo levado ao extremo, ou um parricídio inevitável, orquestrado por um psicopata que resolveu sair do armário.

NOTA: 6,3