sábado, 27 de julho de 2013

RESENHA DE LIVRO – O PODER DO AGORA



Eu ainda preciso do meu passado.

Retornar ao meu passado, ás vezes serve para que eu tome consciência da pessoa melhor na qual eu me tornei. Serve para que eu me lembre de que hoje possuo uma vida mais confortável, independente e feliz. Retornar ao passado é como uma injeção que ativa as boas memórias, que são constantemente anestesiadas pela minha mente, que embora seja uma ótima máquina de aprender, ainda vive viciada em pessimismo.

Mas é justamente esse o maior pecado que eu poderia cometer, segundo o autor Eckhart Tolle: que é voltar ao passado.

Até certo ponto, seu livro de autoajuda intitulado O Poder do Agora, tem fundamento. Se tivermos a paciência e humildade (não se engane; é preciso muita humildade pra se conseguir enxergar a própria mente, com total discernimento), veremos que nossa mente passa a maior parte do tempo vagando, ora no passado, ora no futuro. E o malefício disso é que geralmente nosso pensamento viciado em desgraças, só resgata do passado aquilo que nos foi trágico ou doloroso. E quando ele vai ao futuro, nos preenche com ansiedade e descontentamento. E as técnicas ensinadas aqui pelo autor, possuem o intuito de nos manter aqui, nesse inexplorado lugar chamado agora. Dai o título do livro.

Estar no agora é, segundo o livro, a chave para se conseguir alcançar a tão sonhada iluminação espiritual que nós seres-humanos tanto almejamos. Viver no Agora é o melhor caminho para a felicidade plena.

O conteúdo do livro é bom; o autor optou por uma linguagem simples, que segue um formato feito de perguntas e respostas. Algumas técnicas também realmente funcionam; porque de fato, usar nossa mente indisciplinada para ir ao passado, só serve para envenenar o presente. Da mesma forma, vagar por um futuro que obviamente não existe, acaba por nos deixar deprimidos e ansiosos. O ideal para a maior parte das pessoas é que realmente fiquemos aqui, no agora. Porque o presente sempre será mais seguro.

Contudo, para um leitor constantemente faminto por conhecimento, e que adora estar aprendendo mais sobre comportamento e disciplina mental, a ideia do livro acaba se tornando algo um pouco repetitivo e ás vezes até meio forçado.

O que quero dizer, é que já li muita autoajuda e psicologia em meus anos de leitor. E as tantas ideias que são apresentadas por diversos autores e suas distintas propostas, acabaram fazendo com que O Poder do Agora soasse como uma espécie de ensino básico para mim. Outra coisa que me incomodou durante a leitura, foi a postura algumas vezes exagerada, á ponto de se torna um pouco arrogante, por parte do autor. É como se ele tentasse vender sua ideia, como se ela fosse o único meio de conquista espiritual, e ele próprio, o único que á conseguiu alcançar até o momento.

Não sei, mas esta pode ser a minha resenha mais sincera. Não que as outras não sejam. O quero dizer é que minha opinião aqui, talvez seja demasiadamente exclusiva ou incompreendida por quem já leu este livro.
O fato é: o livro não é ruim. Só que autoajuda é um pouco complicado de se resenhar justamente por conta da particularidade de quem lê. Mas a realidade é que aqui há um conteúdo interessante, no qual até certo ponto eu concordo, e é um trabalho recheado de técnicas para se aprender a conviver onde precisamos estar... No Agora.

sábado, 13 de julho de 2013

CRÔNICA: A MORTE DO ROCK?


Acho hilário ver alguns programas de televisão e suas inventividades desenfreadas, cujo único proposito é manter audiência. Desta vez a glamorosa MTV Brasil se superou, quando resolveu homenagear o dia mundial do rock com um tema completamente controverso:
“Quem Matou o Rock?”.

A programação, que durou o dia inteiro, tentava encontrar uma explicação para a morte do Rock... Espera ai; morte do rock? Como assim?
Não é brincadeira não... O canal passou o dia inteiro sugerindo alternativas e debates para o que seria o verdadeiro motivo que originou a morte do rock. E para isso disponibilizou uma turma de gente, que a emissora entendeu como conhecedores de rock e, portanto, capazes de encontrar as respostas para uma pergunta que não existe. Entre os “gênios” inteirados em rock, estava o cantor Thunderburd, que infelizmente expõe seu fim de carreira ao aceitar ser submetido á um programa televisivo desnecessário e equivocado.

De onde foi que a MTV Brasil tirou essa ideia incrível?
Afirmar que o Rock morreu em rede nacional é simplesmente admitir que nunca houve evolução no mundo do rock; que o estilo não passa de uma criação limitada na qual sua existência depende daquilo que foi feito por seus inventores do passado. Difundir uma ideia como esta é o mesmo que jogar merda no trabalho de bandas inovadoras e abrangentes, que somente os produtores da MTV não conseguem enxergar a existência...

Sei que a maior parte da real comunidade roqueira do Brasil irá dizer que é desnecessário eu perder meu tempo me indignando com algo desse tipo. Sim, porque há tempos as emissoras de TV entenderam que é mais lucrativo investir em porcarias fúteis, como reality shows (logo mais teremos outra produtiva e importante edição do Big Brother Brasil), do que buscar inovar-se em cultura, e inserir profissionais entendidos em cada tema abordado pelos programas que vão ao ar.
Fica a dica, MTV: O que foi criado pelos mestres do rock não há como ser esquecido. Mas viver sob a sombra de um tempo que não existe mais é o mesmo que negar uma das maiores virtudes do ser humano, que é a capacidade de renovar aquilo que já existe. Sem essa habilidade não haveria possibilidade de progredirmos como sociedade.
O fabuloso rock não só não morreu, como continua crescendo na inventividade de bandas do meu tempo, nas quais não citarei por dois motivos: Porque é um ato supérfluo; e pelo receio de cometer o pecado de me esquecer de algum dos infindáveis talentos, no qual somente a MTV não consegue enxergar, ou acha que está morto...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CRÔNICA: PROSA COM O MALUCO




Outro dia me encontrei com um velho chegado chamado Maluco, num bar perto de casa. Ele me falou que estava indo comprar sal para a esposa. Juntou-se á mim na mesa, e passamos o resto da tarde papeando descontraidamente. A maior parte do tempo o assunto foi sempre o mesmo:
Rock.

Conheço o cara á anos, mas se me perguntarem seu verdadeiro nome, sinceramente eu não saberei o que responder. Por uma simples razão: eu não sei o nome dele. Atende apenas pelo inusitado apelido, no qual ele parece estar mais familiarizado do que aqueles termos inseridos em sua certidão de nascimento... Se é que ele tem certidão.
Sua única e simples alcunha é “Maluco”.

Para quem o olha superficialmente, o codinome não poderia ser mais apropriado. O velho Maluco é um hippie de carteirinha; andarilho como manda o figurino; o tipo que não conhece o significado da palavra vaidade; e um irreparável apaixonado pelas bandas de rock da geração 60 e 70. Mas quem já teve a oportunidade de conversar um pouco com o cara, sabe que não é apenas a mochila cheia que ele carrega nas costas. Maluco é carismático e possui uma mente recheada de experiência; de quem já viu cidades lindas, conheceu gente de todo o tipo, e foi á mais shows do que eu jamais conseguirei ir, em toda minha vida enfadonha e cheia de regras. E ele fez tudo isso na base da canela.
Hippie de verdade não aceita carona”, disse-me certa vez. 

Sentado á mesa do bar, Maluco me contou que esteve no Rock-in-Rio 2011, e viu de perto o show da banda Slipknot, que até então ele confessou jamais ter ouvido falar, por mais incrível que isso possa parecer. Veterano é assim; sempre olha com certa desconfiança para o rock atual... De qualquer forma, ele alegou ter ficado impressionado com o som e a performance da banda. Eu falei que já conhecia o trabalho do Slipknot e, tentando lhe render aos novos tempos, prometi que gravaria um show para ele. Agradecido, Maluco disse que levaria para mim um show das antigas do Led Zeppelin. Gabou-se de que se trataria uma relíquia inestimável, na qual pouquíssimas pessoas possuíam.
E assim, o papo rolou fácil pelo resto da tarde.

Lembrar-me das prosas com o Maluco é legal, porque para ele não há distinção dentro do Rock. “Ouvir o que se gosta é só o que importa”, dizia ele... E foi a recordação desta conversa que me fez escrever este post. Porque naquela tarde, regados á petiscos e muita cerveja gelada, nós falamos um pouco sobre heavy metal, Thrash Metal, Black Metal, Symphony Metal, Nu Metal, Death Metal, Metalcore, Melodic Death, Folk Metal, Gothic Metal, Hard Rock, Progressivo... Falamos de todos os metals e metals pelo mundo afora. Em nossa roda de boteco, tudo era rock e assunto para trocarmos ideias por horas.
E é para todas essas tantas tribos do Metal que vai o meu abraço neste Dia Mundial do Rock!

– Espera ai, Maluco – interrompi o papo, quando me veio á mente uma vaga lembrança. Aquela altura, o céu já havia escurecido – você não estava indo comprar sal para sua esposa?
– Ih, mermão...  – ele deu um leve sobressalto, mas não me pareceu muito preocupado – Não é que eu acabei me esquecendo dessa porra? Melhor dizer pra patroa que demorei porque estava procurando pelo bairro inteiro...
Eu nunca soube se a ideia dele deu certo. Mas de uma coisa a mulher dele certamente sempre soube: pra ser casada com um “Maluco” apaixonado por Rock, às vezes é preciso relevar essas coisas.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

RESENHA DE LIVRO – O AZARÃO


As atitudes inseguras e inconsequentes do protagonista principal deste “O Azarão” fizeram com que viessem á tona, memórias de minha adolescência igualmente cheia de medos e dúvidas. O fato mais curioso, é que fui me identificar justamente com o personagem principal do livro que considerei o mais fraquinho deste mestre da arte de contar histórias modernas, chamado Markus Zusak.
Só que há uma explicação convincente para justificar a enorme diferença de qualidade deste para os demais livros do autor, que julgo serem talvez os melhores livros de literatura que já li na vida (Quem já curtiu “A Menina que Roubava Livros” vai saber do que estou falando). E a diferença é que “O Azarão” trata-se de um projeto paralelo usado pelo autor, antes de sua carreira decolar, para os momentos em que ele travava em seus textos maiores. É algo que quase poderia ser considerado como um rascunho de luxo. E foi exatamente isso que tornou o livro interessante. Porque denota claramente um Markus Zusak jovem, ainda em desenvolvimento, criando coisas com sua mente conturbada de garoto (o autor chega a mencionar que o protagonista tem um quê de autobiográfico). Mas mesmo sendo este o livro menos expressivo do cara, ele é bem melhor do que muita literatura de quinta que se encontra pelas livrarias á fora.
A trama conta as aventuras, que nem são tantas assim, de Cameron Wolfe. Um jovem comum de 15 anos e três irmão, cujo um deles é seu parceiro de travessuras. Cameron vive numa família simples e sem muitos recursos. Mas a grande sacada fica para quando se conhece melhor o jovem protagonista; um garoto infeliz com sua vida e atitudes, que pouco sabe lidar com os medos arquitetados por uma mente adolescente, cheia de insegurança. E a coisa se torna ainda mais complicada quando ele conhece Rebecca Conlon, e então nasce uma daquelas tão conturbadas paixonites, comuns nessa fase da vida. É nesse momento que acabo me identificando com o personagem. O jovem Cameron sofre sozinho; pensa ininterruptamente na garota; chora pelos cantos; e faz promessas absurdas á si mesmo, nas quais um adolescente não tem o menor discernimento do que implicaria manter juras feitas por seres-humanos falhos que somos.
Uma perfeita descrição do Michel, no auge de seus difíceis 15 anos de idade.
O Azarão” é bela história, destinada ao público jovem, porém simples e pouco emocionante. Mas que já mostrava os primeiros traços de um gênio da literatura moderna. Meu conselho é: não leia este livro se ainda não conhece os outros trabalhos do autor. Isso talvez lhe fará ter uma impressão errônea sobre o cara. Prefira antes se deliciar pelas páginas de seu perfeito “A Menina que Roubava Livros”, ou nas aventuras de Ed Kennedy, protagonista do belíssimo “Eu Sou o Mensageiro”.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

RESENHA DE LIVRO – O MELHOR DA SUPER (1987-2012)


Quando a primeira edição da revista Superinteressante chegou ás bancas de revistas, meu mundo ainda girava em torno de soldadinhos de plásticos, caminhões sem fundo e com rodas de arame, minha bola de futebol e os deveres da escola. Era o auge de meus sete anos de idade quando nascia uma das melhores revistas já feita por esse país.
E durante os recentes anos nos quais me tornei leitor fiel deste verdadeiro guia de conhecimento, duas questões sempre pairaram em minha mente á cerca de sua existência: Como eram os textos da revista na época de minha infância? Sim, porque naquela época conhecimento parecia ser coisa apenas para acadêmicos ou abastados. E outra questão é se ainda hoje seria possível haver conteúdo suficiente para fazer com que a revista se mantivesse assim tão interessante, mesmo após todos esses anos de publicação. Sem falar que estamos vivendo num mundo em que a internet fez com que conhecimento se tornasse acessível á qualquer curioso online.  
E eis que a primeira dúvida me foi respondida quando comecei a ler este livro, que comemora os 25 anos da famosa revista de bordas vermelhas. De fato, os textos publicados, mesmo aqueles de 1987, continuam enxutos, interessantes e numa linguagem incrivelmente acessível, mesmo quando a matéria aborda assuntos complexos como a teoria da relatividade de Einstein. Desde o início, é impressionante a enorme capacidade dos escritores e jornalistas envolvidos nas edições, em produzir textos de fácil compreensão. O conteúdo literário da revista é semelhante á um bate-papo do nosso dia-dia. O livro é um eficiente “catado” dos melhores textos da revista, desde o seu nascimento até o ano de 2012. Uma seleção de material tão bom que é difícil citar os melhores textos do livro (apenas pra não deixar de mencionar aqui, eu apreciei demais a matéria Sucesso e Fracasso, escrita por Karin Hueck).
Quanto á minha segunda dúvida, esta tem sido respondida á cada nova edição que leio. Porque a Super parece, de fato, estar sempre antenada para tudo o que possa ser interessante, inovador ou redescoberto em nosso mundo atual. E embora em alguns casos a internet venha a tentar parear com a revista, ainda assim, a Superinteressante continua mantendo sua linguagem coloquial como um dos principais atrativos que fazem com que ela permaneça sendo lida e apreciada (O defasado ensino brasileiro deveria tentar se espelhar nessa ideia, numa tentativa de modernizar a metodologia de nosso ensino).
É leitura indispensável para aqueles que querem adquirir o hábito de ler livros, e um livro obrigatório para os fãs desta esplendorosa revista, cujo conteúdo continua fazendo muito jus á seu nome.

terça-feira, 18 de junho de 2013

MATÉRIA: A GOTA QUE FALTAVA

Nunca postei nada sobre política aqui no blog. Mas hoje li uma matéria ótima e de fácil compreensão do Alexandre Versignassi (Superinteressante), que me ajudou a entender um pouco melhor as razões dos protestos que estão movimentando todo o nosso país. Tomei gentilmente emprestado o seu texto, pois este foi o conteúdo mais simplista possível que encontrei para entendermos um pouco da política monetária na qual nossos “amados” governantes estão nos submetendo. Se ao menos uma pessoa tiver lido esta matéria, já terá valido á pena o post... Boa leitura:

A GOTA QUE FALTAVA


(Por Alexandre Versignassi)


Para entender melhor o que está acontecendo na rua, imagine que você é o presidente de um um país fictício. Aí você acorda um dia e resolve construir um estádio. Uma “arena”.
O dinheiro que o seu país fictício tem na mão não dá conta da obra. Mas tudo bem. Você é o rei aqui. É só mandar imprimir uns 600 milhões de dinheiros que a arena sai.
Esses dinheiros vão para bancar os blocos de concreto e o salário dos pedreiros. Eles recebem o dinheiro novo e começam a construção. Mas também começam a gastar a grana que estão recebendo. E isso é bom: se os caras vão comprar vinho, a demanda pela bebida aumenta e os vinicultores do seu país ganham uma motivação para produzir mais bebida. Com eles plantando mais e fazendo mais vinho o PIB da sua nação fictícia cresce. Imprimir dinheiro para construir estádio às vezes pode ser uma boa mesmo.
Mas e se houver mais dinheiro no mercado do que a capacidade de os vinicultores produzirem mais vinho? Eles vão leiloar as garrafas. Não num leilão propriamente dito, mas aumentando o preço. O valor de uma garrafa de vinho não é o que ela custou para ser produzida, mas o máximo que as pessoas estão dispostas a pagar por ela. E se muita gente estiver com muito dinheiro na mão, essa disposição para gastar mais vai existir.
Agora que o preço do vinho aumentou e os vinicultores estão ganhando o dobro, o que acontece? Vamos dizer que um desses vinicultores resolve aproveitar o momento bom nos negócios e vai construir uma casa nova, lindona. E sai para comprar o material de construção.
Só tem uma coisa. Não foi só o vinicultor que ganhou mais dinheiro no seu país fictício. Foi todo mundo envolvido na construção do estádio e todo mundo que vendeu coisas para eles. Tem bastante gente na jogada com os bolsos mais cheios. E algumas dessas pessoas podem ter a idéia de ampliar as casas delas também. Natural.
Então as empresas de material de construção vão receber mais pedidos do que podem dar conta. Com vários clientes novos e sem ter como aumentar a produção do dia para a noite, o cara do material de construção vai fazer o que? Vai botar o preço lá em cima, porque não é besta.
Mas espera um pouco. Você não tinha mandado imprimir 600 milhões de dinheiros para fazer um estádio? Mas e agora, que ainda não fizeram nem metade das arquibancadas e o material de construção já ficou mais caro? Lembre-se que o concreto subiu justamente por causa do dinheiro novo que você mandou fazer.
Mas, caramba, você tem que terminar a arena. A Copa das Confederações Fictícias está logo ali… Então você dá a ordem: “Manda imprimir mais 1 bilhão e termina logo essa joça”. Nisso, os fabricantes de material e os funcionários deles saem para comprar vinho… E a remarcação de preços começa de novo. Para quem vende o material de construção, tudo continua basicamente na mesma. O vinho ficou mais caro, mas eles estão recebendo mais dinheiro direto da sua mão.
Mas para outros habitantes do seu país fictício a situação complicou. É o caso dos operários que estão levantado o estádio. O salário deles continua na mesma, mas agora eles têm de trabalhar mais horas para comprar a mesma quantidade de vinho.
O que você fez, na prática, foi roubar os peões. Ao imprimir mais moeda, você diminuiu o poder de compra dos caras. Inflação é um jeito de o governo bater as carteiras dos governados.
Foi mais ou menos o que aconteceu no mundo real. Primeiro, deixaram as impressoras de dinheiro ligadas no máximo. Só para dar uma ideia: em junho de 2010, havia R$ 124 bilhões em cédulas girando no país. Agora, são R$ 171 bilhões. Quase 40% a mais. Essa torrente de dinheiro teve vários destinatários. Um deles foram os deputados, que aumentaram o próprio salário de R$ 16.500 para de R$ 26.700 em 2010, criando um efeito cascata que estufou os contracheques de TODOS os políticos do país, já que o salário dos deputados federais baliza os dos estaduais e dos vereadores. Parece banal. E até é. Menos irrelevante, porém, foi outro recebedor dos reais novos que não paravam de sair das impressoras: o BNDES, que irrigou nossa economia com R$ 600 bilhões nos últimos 4 anos. Parte desse dinheiro se transformou em bônus de executivo. Os executivos saíram para comprar vinho… Inflação. Em palavras mais precisas, o poder de compra da maioria começou a diminuir. Foi como se algumas notas tivessem se desmaterializado das carteiras deles.
Algumas dessas carteiras, na verdade, sempre acabam mais ou menos protegidas. Quem pode mais tem mais acesso a aplicações que seguram melhor a bronca da inflação (fundos com taxas de administração baixas, CDBs que dão 100% do CDI…, depois falamos mais sobre isso). O ponto é que o pessoal dos andares de baixo é quem perde mais.
Isso deixa claro qual é o grande mal da inflação: ela aumenta a desigualdade. Não tem jeito. E esse tipo de cenário sempre foi o mais propício para revoltas. Revoltas que começam com aquela gota a mais que faz o barril transbordar. Os centavos a mais no ônibus foram essa gota.

terça-feira, 11 de junho de 2013

RESENHA DE LIVRO - SUSHI


Sinceramente não me sinto á altura de fazer uma resenha sobre os livros de Marian Keyes. Acho que por essa razão eu nunca havia me arriscado a tal proeza. Em minha opinião esta magnífica autora consegue inserir reais traços de personalidade em seus personagens como poucos o fazem. Suas histórias são recheadas de situações as quais enfrentamos no dia-dia e os personagens ás encaram exatamente como fazemos na vida real: problemas que muitas vezes são causados por falta de maturidade, e consequentemente não dispomos dessa mesma maturidade para resolvê-los.
Há alguns burburinhos que rodam pela internet á cerca de que os livros de Marian Keyes são monótonos e insossos. De fato, a linha narrativa dela é o chick-lit, o que faz com que o ritmo siga de maneira natural e sem grandes agitações. Mas eu garanto que seus livros são bem mais eficientes e interessantes do que a “novela das oito”. Uma espécie de aventura da vida real. É fácil se identificar com algumas fraquezas dos personagens, na mesma proporção em que nos apegamos rápido á alguns deles.
Considero Sushi um ótimo entretenimento porque possui três personagens principais em seu enredo, e mesmo assim a autora não comete o pecado de perder o controle sobre nenhum deles, fazendo com que o leitor se divirta ao se deparar com situações semelhantes aqueles tropeços e burradas que cometemos ao longo da vida.
A trama segue entrelaçando aos poucos a história das três personagens: Lisa é uma mulher cuja personalidade workalolic lhe custou um casamento e agora ela ambiciona o cargo de editora chefa numa revista; Clodagh é casada, mãe de dois pestinhas, e que está entediada com sua vida de dona de casa; Ashling tem baixa-estima e passa o tempo inteiro tentando a impossível missão de ser prestativa aos outros. Obviamente ainda há, em torno da vida destes, outros coadjuvantes que ajudam a manter um clima cotidiano ora engraçado, ora dramático ao enredo.
Mesmo sem grandes novidades ou um final arrebatador, Sushi não decepciona em momento algum. Leva uma linha narrativa que entretém e diverte, numa leitura fácil, simples e cheia de situações que são como espelhos de nossa confusa realidade.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

RESENHA DE LIVRO – O SÍMBOLO PERDIDO


Eis a receita: Insira uma Sociedade Secreta; acrescente um renomado simbologista de Harvard; coloque inúmeras conspirações, códigos e enigmas ocultos por todos os cantos; deixe tudo sob a perspectiva de uma corrida alucinada através de famosos pontos turísticos e históricos de uma moderna metrópole.
Soou familiar?
Não, desta vez não estamos falando de “O Código da Vinci” ou “Anjos e Demônios”, os dois megassucessos do aclamado e polêmico escritor Dan Brown. Mas a verdade inconsequente é que estamos sim, falando de outro livro do cara.
Mas vamos com calma se está pensando em crucificar Dan Brown. Eu diria que exista um importante divisor de águas, que deve ser levando em conta antes de você decidir ler ou não este “O Símbolo Perdido”, quinto trabalho do escritor: é o quanto você já conhece ou não seus livros anteriores.
Se você nunca leu nada de Dan Brown, então a sugestão lhe serve. Aqui você poderá se esbaldar por um delicioso livro, que nas mãos habilidosas de seu autor, consegue mesclar com maestria teorias conspiratórias á cerca de sociedades secretas (no caso aqui a maçonaria), e uma ininterrupta corrida contra o tempo. Um suspense cheio de intrigas, mistérios e simbologia. Tudo descambando num final que não decepciona.
Mas se como eu, você já é conhecedor dos trabalhos anteriores de Dan Brown, provavelmente vai ficar com a sensação de estar diante de mais do mesmo. Vai pensar que tudo o que o autor fez foi mudar a cidade alvo, e assim, utilizar seus monumentos históricos, relacioná-los á teorias conspiratórias (que como eu disse desta vez cutucam a Maçonaria) e inserir um novo vilão que está no encalço dos mocinhos, em busca de desvendar segredos que supostamente poderiam lhe conferir poderes sobre-humanos. Dessa vez o autor preferiu dar uma folga com os conluios á cerca de temas que envolvem religiões e a já tão apedrejada igreja católica.
Mas embora a história esteja distante de ser ruim, também passa longe de algo inovador. Pra você ter uma ideia, aqui temos novamente como principal protagonista (ás vezes nem parece ser tão principal assim), o personagem favorito do autor: o simbologista Robert Langdon, que se vê novamente diante de uma corrida contra o tempo, agora dentro da capital americana, Washington, para conseguir desvendar os mistérios que envolvem os fundadores da cidade, a maioria deles mestre maçons; homens que obtem a posse de um tesouro capaz de dar poderes incalculáveis á quem nele puser as mãos. E outra vez, somente Langdon possui o conhecimento para desvendar os inúmeros códigos e segredos maçônicos, e assim salvar a humanidade de mais uma eminente catástrofe... Particularmente eu sempre achei o personagem um “mauricinho” exageradamente aflito, molenga e chato. Mas sua personalidade não chega á estragar o andamento da trama.
Quanto aos prós, temos aqui descrições magistrais dos principais pontos da capital americana: o Capitólio, a Biblioteca do Congresso, a Catedral Nacional e o Centro de Apoio dos Museus Smithsonian. Além de que, é fato que ler os livros deste autor é certeza de mais diálogos charmosos onde as conspirações parecem cheias de fundamentações. É ficção com cara de história.
Pra quem ja é acostumado ao estilo de Dan Brown, talvez não encontre grandes emoções aqui; para os fãs do autor,  não preciso dizer nada; e finalmente á quem jamais teve o privilégio de conferir o trabalho do cara, eu recomendo. É leitura intrigante, cheia de detalhes ricos e uma história surpreendentemente arrasadora.

sábado, 13 de abril de 2013

RESENHA DE LIVRO – O Enigma Maria Madalena



Nunca fui contra a ideia de nomes sedutores nas capas dos livros. Mas não apresentar o conteúdo no qual o título se refere, é simplesmente inaceitável. Essa é a impressão que fiquei, conforme avançava em minha leitura deste “O Enigma Maria Madalena”, romance chato e sonolento de um historiador chamado Gerald Messadié. Digo isso, porque comprei o livro justamente por ser um admirador da personagem bíblica Maria Madalena. E o que menos se encontra nesta trama é algo sobre ela.  Já nas primeiras páginas o autor nos mostra a ação de seu livro girando em torno de Jesus Cristo, em momentos de sua pós-crucificação. Não, eu não escrevi errado. Gerald Messadié foi um tanto ousado em narrar uma história acertadamente humanizada, de um plano arquitetado por Maria Madalena, para salvar o Messias da cruz. Mas seus méritos param por aqui. Porque desde os primeiros parágrafos até a última página é Jesus quem rouba todas as cenas e fica com o crédito de personagem principal. Enquanto a pobre Maria de Magdala é completamente esquecida, restando para si apenas alguns momentos isolados da história, onde ela faz algum comentário vago ou surge como que para preencher algum espaço narrativo, deixando evidente que Maria Madalena é tão importante para Gerald Messadié, quanto foi para os autores da bíblia, ou seja, praticamente se esqueceram de sua existência na história. Isso não seria nenhum problema, mas acontece que o autor aqui usou o atualmente badalado nome de Maria Madalena, para carimbar o título de sua obra.  
E o livro não erra somente neste aspecto. Também achei a narrativa exageradamente lecional e sem harmonia. Um eficiente sonífero que quase me fez desistir de chegar ao final de sua trama, que embora seja ousada, não tem uma pegada literária competente. A única coisa aparentemente agradável é a minuciosa e rica reconstrução das cenas do cotidiano das cidades de Jerusalém, Judeia e Galileia, daquele tempo. Mas até mesmo esse ponto á favor parece se repetir exaustivamente ao longo da história.
Não o recomendo apenas por conta do fraquinho conteúdo literário, mas principalmente porque este livro possui um título dissimulado e pretensioso, que pega carona no embalo de um personagem que surgiu das cinzas, para tentar se destacar e consequentemente vender gato por lebre.

quinta-feira, 7 de março de 2013

RESENHA DE LIVRO – A Vida Secreta da Gente



Era manhã de domingo. Eu vasculhava o armário da despensa á procura de papéis velhos para acender a churrasqueira, quando encontrei, em meio á uma pequena pilha de jornais, algumas edições de uma revista dominical chamada AG.  Meus instintos de leitor compulsivo geralmente me impedem de ir atirando uma revista no fogo, sem antes me certificar de que não há absolutamente nada de interessante nela. Portanto, já da pra imaginar que a função de selecionar papéis velhos é uma missão demorada para alguém como eu.
E foi folheando as páginas daquela revista esquecida, que encontrei, pela primeira vez, a coluna de uma cronista chamada Maria Sanz Martins. Mal havia começado a ler sua crônica e eu já estava perplexo com tamanha intimidade daquela autora com as palavras. Com uma incrível naturalidade em descrever o cotidiano, ela conseguiu tocar o interior existencial do ser humano falível que sou. E já sem me lembrar do verdadeiro propósito pelo qual estava dentro da despensa, lá estava eu, afundado no meio de tralhas velhas e mantimentos, á procura de mais edições da revista que abrigava entre suas páginas um talento tão atraente.
Obviamente o churrasco aconteceu naquela manhã, mas desde então, eu passei a ser um frequentador assíduo da despensa e do jornaleiro, aos domingos, só para comprar o jornal que continha a revista na qual apenas os textos daquela cronista chamada Maria me interessavam.
Passado alguns dias, enviei um e-mail para a autora (sim, quando admiro bastante o talento de um escritor, me sinto meio que na obrigação em, de alguma forma, parabeniza-lo). Nada demais, foram apenas elogios á cerca do esplêndido trabalho que ela vinha desempenhando, e terminei o e-mail sugerindo que ela escrevesse um livro de crônicas.
Então os dias se passaram. E eis que numa bela manhã, ao abrir minha caixa de mensagens, lá está um remetente com o nome: Maria Sanz Martins. Á princípio fiquei estupefato, pois são raros os autores que se dão ao trabalho de agradecerem á um e-mail. Além do mais, esse não é o objetivo de meus e-mails; faço apenas para saciar minha consciência de “missão cumprida”, pois como eu disse, gosto de parabenizar autores. Mas Maria me agradeceu de maneira efusiva e sincera. Chegou até a mencionar, devo dizer que com uma exagerada modéstia, que não se sentia preparada para escrever um livro naquele momento (isso já faz alguns anos).
Mas o benigno tempo nunca para, e eis que no início de 2012, eu sorrio ao descobrir que finalmente esta esplêndida autora, orgulho para nós capixabas e de mesmo nome de minha mãe, resolve nos brindar com seu primeiro livro de crônicas, intitulado “A Vida Secreta da Gente”, nome que é o mesmo de um dos mais belos textos do livro (foi lançado recentemente a segunda edição. Soube disso enquanto escrevia essa resenha). Carismática na dose certa, as crônicas deste belo trabalho são incrivelmente feitas como se a autora dissecasse a alma de nosso cotidiano, para transcrever aquilo que a cegueira causada pela correria de nosso dia-dia não nos deixa ver.
Por que este livro é especial?
Porque são raros os autores que conseguem despertar minha inspiração, nos dias em que a mente está vazia feito um limbo. E “A Vida Secreta da Gente” arranca na marra este estímulo em mim, quase que imediatamente ao abrir suas páginas.
O livro termina com uma breve frase que diz:
“Que as palavras nos encontrem”.
De fato, as palavras fizeram com que autor e leitor se encontrassem, mesmo que através de um simples e-mail, num dia desse qualquer. Mas foi muito prazeroso ver uma breve e imparcial sugestão, ser transformada em um dos melhores livros de crônicas que já li na vida.
 E que as palavras continuem á nos encontrar.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

RESENHA DE LIVRO – Metallica – All That Matters


Sempre gostei das biografias, pois elas me fazem aprender, cada vez mais, que o sucesso depende primeiramente do quanto nos dedicamos á nós mesmos. E este relato da trajetória de uma das maiores banda de rock de todos os tempos não é diferente.
Metallica – All That Matters é uma história de resistência e perseverança, de seres-humanos que dedicaram todos os seus esforços e enfrentaram suas próprias adversidades em prol da realização de um sonho. Um sonho chamado Metallica.
Aqui vemos um resumo de tudo, desde traumas praticamente insuperáveis como a morte do baixista Cliff Burton, passando por conflitos internos, chegando á desintegrações públicas que certamente teriam derrubado qualquer banda cujo foco no objetivo fosse menos intenso, e chegando á maturidade e experiência de seus integrantes, condição que é claramente notada em seu último trabalho, Death Magnetic.
O legado do Metallica, mesmo que muitas vezes controverso, influenciou inúmeras outras bandas de rock, assim como mostrou ao mundo que a pressão da mídia nunca foi algo suficientemente forte para impedir o quarteto de derrubar paradigmas e mudar tendências. É preciso coragem para dar a cara aos fãs, e James e sua turma sempre o fez, mesmo quando todos pareciam discordar de alguns de seus trabalhos. Você pode até não gostar de algum disco do Metallica, mas é impossível não reconhecer a determinação e coragem dos caras em mudar de ritmo á cada disco entregue. Uma condição rara, que apesar de alguns torcerem o nariz, fez com que o Metallica se tornasse talvez a única banda de Thrash metal no mundo, capaz de atrair fãs de todos os gostos.
O autor Paul Stenning fez uso de suas habilidades como jornalista, buscando conteúdo baseado em entrevistas, revistas, livros e comentários de pessoas que estiveram próximas á banda. Revirou as entranhas do gigante do metal para expor os bastidores, os vícios e as virtudes do Metallica.
Se você é fã da banda como eu, então eis aqui uma joia imperdível para ler, reler e exibi-la em sua estante de livros. Mas se você faz parte da minoria que não aprecia o talento do Metallica, assim mesmo eu lhe recomendo esta bela biografia, reforçando aquilo que disse no início desta resenha: biografias nos mostram que o caminho para o sucesso não é tortuoso nem é algo apenas para os sortudos. Sucesso é algo alcançável, mas que requer muito empenho e atitude de si mesmo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

RESENHA DE LIVRO – Não Conte a Ninguém


Fazia tempo que eu não lia um livro tão rápido. Sim, o clima deste “Não Conte a Ninguém” é tão sedutor que é quase impossível não sentir aquela sensação de arrependimento por precisar fecha-lo antes do fim.
Este é, talvez, o trabalho mais aclamado do escritor Harlan Coben (com justiça), ganhador de vários prêmios em 2001, e que teve uma adaptação para o cinema em 2006. Confesso que, embora sempre me sentisse atraído pelo livro e seu título convidativo, quando o via nas prateleiras, sempre o deixava para depois. Mesmo diante dos burburinhos entre as comunidades leitoras de que este era um ótimo livro, preferi esperar todos esses anos (não costumo comprar livros me baseando nos alardes dos leitores, pois se assim o fizesse eu teria, a contragosto, toda a coleção de Crepúsculo em minha estante. Nada contra os fãs da série). A verdade é que é difícil encontrar os grandes livros no meio de tantas prateleiras abarrotadas nas bibliotecas. Sem contar que eu sempre chego à loja já com uma enorme de lista dos títulos que quero ler como prioridade. De qualquer forma, é um gostoso arrependimento, pois como leitor compulsivo que sou a vez daquele livro esquecido sempre chega.

O desabafo acima serve para enfatizar o quanto “Não Conte a Ninguém” é excelente; leitura obrigatória para quem curte um bom suspense. Daquelas que nos prende do início ao fim, bem ao estilo alucinante dos livros de Sidney Sheldon.

O fantástico enredo gira em torno de David Back e sua esposa Elizabeth. O casal é atacado quando comemoravam o aniversário de seu primeiro beijo. Ela é brutalmente assassinada, enquanto ele recebe um forte golpe na cabeça e cai num lago, inconsciente. O caso é rapidamente resolvido pela polícia e o assassino condenado. Só que oito anos depois do atentado, exatamente no dia em que marca a data da morte de Elizabeth, David Back recebe uma mensagem estranha em seu computador. Nela, há referencias que somente sua falecida esposa poderia conhecer, levantando a improvável hipótese de sua esposa estar viva. Pra rechear ainda mais a salada, a polícia descobre dois corpos enterrados no local onde ocorrera o atentado contra David e sua esposa, trazendo á tona uma série de questões sobre o que realmente aconteceu naquele dia.

O desenvolvimento dos fatos não possui um ritmo ininterrupto; segue uma linha firme, de capítulos curtos e em doses equilibradas de adrenalina e tensão, mas sem entrar na pieguice. E conforme a trama se desenrola, outras questões são inevitavelmente levantadas pelo leitor. Mesmo aquelas que não são diretamente expressadas pelos personagens da história. Há momentos em que nos sentimos tão absortos pela leitura que parece que iremos encontrar uma nova revelação em cada parágrafo. Coisa de mestre.

Ao final desta deliciosa leitura, tratei de procurar um pouco mais sobre este gênio chamado Harlan Coben, a fim de comprar outros títulos do cara. Pois se ele dispôs em seus outros trabalhos, metade da criatividade que usou neste “Não Conte a Ninguém”, certamente teremos garantia de outros bons livros do autor.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

RESENHA DE FILME – O Hobbit – Uma Aventura Inesperada



Provavelmente a melhor coisa neste filme, e que na certa tem sido o principal trunfo nas mangas do diretor Peter Jackson, é a gostosa sensação de retornar á Terra Média. Porque é simplesmente impossível não se apaixonar outra vez pelo mundo criado por J. R. R. Tolkien. E quando você menos espera, está novamente hipnotizado pelas paisagens épicas e abundantes do mundo encantado dos Hobbts.

Peter Jackson se tornou um especialista em dar vida ao mundo de Tolkien. Aqui ele mostra que continua afiado, e que é, sem sombra de dúvidas, o diretor oficial da Terra Média. Jackson nos brinda com mais um verdadeiro show de imagens belas e que de tão intensas e constantes, ás vezes até nos passam despercebidas. A trilha sonora agrada aos ouvidos com canções características de cada ambientação, exatamente como na trilogia de O Senhor dos Anéis.
A premissa de O Hobbit – Uma Jornada Inesperada é bem simples; o jovem Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) decide partir numa perigosa aventura ao lado de seu velho amigo Gandalf ( o sempre talentoso Ian Mckellen) e mais um bando de anões valentes (os pequenos parecem fazer parte de um time de competição de barbas. É um vasto show de pelos que fazem inveja em qualquer viking que se preze). Juntos, eles pretendem retomar a antiga cidade dos anões de Érebor, sitiada pelo Dragão Smaug. A viagem é longa e os perigos espreitam por todos os lados (particularmente eu acho um equívoco a coisa se tratar de uma jornada tão arriscada, e todo mundo sair praticamente ileso. Nem mesmo o desabamento de uma montanha sob as cabeças barbudas é capaz de dar cabo de alguém). As cenas de ação ficaram muito bacanas e os efeitos especiais são usados na medida certa. O propósito do roteiro é mostrar uma grandiosa aventura, e não uma mera desculpa para colocar os personagens em ação, coisa que infelizmente tem se tornado realidade em grandes produções.

Acho que o filme cometeu apenas um pequeno deslize. Ou porque não dizer, um demorado deslize; que é justamente a duração do filme. Á meu ver, a trama ficou um pouco extensa. Na certa, a ganância mais uma vez tomou conta dos produtores, que quiseram ganhar mais dinheiro e preferiram dividir o filme em duas partes (na internet eu li alguma coisa sobre serem três partes, o que se tratando de um único livro, é muito filme), deixando nas mãos do diretor a dura missão de preencher os muitos espaços vazios com coisas desnecessárias.

De qualquer forma, nem mesmo isso conseguiu estragar a produção, porque quando se está hipnotizado pela Terra Média, tempo é o que menos importa.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A COMOVENTE HISTÓRIA DE UMA SURDOCEGA QUE SE COMUNICA ATRAVÉS DO TATO


Muitas vezes a luta e a superação de algumas pessoas fazem as minhas ambições parecerem meras futilidades. Digo isso porque é simplesmente impossível não se surpreender com as conquistas de uma campeã da vida chamada Heldyeine Soares. Surdocega congênita, a garota alcançou o inimaginável ao aprender a se comunicar através do tato. E sua história nos é apresentada no seu recém-lançado livro, intitulado “Heldy Meu Nome – Rompendo as barreiras da surdocegueira”, que foi escrito pela pedagoga Ana Maria de Barros Silva; apenas mais uma que ficou impressionada com o desempenho de Heldyeine.
Quando tinha pouco mais de um ano de idade, a pequena Heldyeine se resumia em chorar e se arrastar de costas no chão, condição que lhe deixava com falhas no couro cabeludo. Sua situação era resultado da rubéola contraída pela mãe durante a gravidez. Heldyeine era tida como um caso vegetativo sem solução. Mas com o passar do tempo, a pequena mostrou que os diagnósticos estavam errados e pouco a pouco, foi aprendendo a pegar objetos, andar, alimentar-se, tomar banho, e até mesmo reconhecer pessoas e expressar emoções. E pasmem; ela faz tudo isso por meio do toque.
Atualmente Heldyeine se comunica por Libras (Língua Brasileira de Sinais) tátil, ou seja, todos os sinais são feitos com as mãos, tomando formas através de gestos que identificam coisas e pessoas. Ela aprendeu á fazer até bijuterias em sua casa. Uma verdadeira história de superação; de um ser humano que encontrou luz em sua existência escurecida.
Toda essa lição de coragem só foi possível primeiramente por conta da determinação e vontade dessa pessoa incrível chamada Heldyeine, e que também recebeu o amparo e o apoio da mãe e das irmãs mais velhas. E agora através de seu livro o mundo inteiro poderá compreender que a palavra impossível só existe no dicionário dos fracos.
Ah, e se você está se perguntando, a resposta é sim; Heldyeine está lendo os primeiros capítulos de seu próprio livro, que foram enviados á jovem em braile; existe um projeto da editora para também lança-lo nesse formato.
Eu sei, lições de vida como essa nos fazem sentir vergonha daquela última vez em que reclamamos por não ter conseguido terminar uma insignificante tarefa no prazo, ou de ter deixado escapar aquele curso de capacitação profissional, simplesmente por achar que ficava longe demais de nosso alcance.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

MATÉRIA: É POSSÍVEL ENTENDER O AMOR? A CIÊNCIA DIZ QUE SIM


Vamos falar de algo complexo em nossa vida: Amor.
Como anda esse departamento na sua? Você tem certeza de que já encontrou sua cara-metade? Por que um sentimento conhecido por ser extremamente forte como amor pode acabar?
Essas são perguntas mais do que conhecidas quando entramos nesse assunto. E por mais que se pense que “Amor” seja um tema inexplicável, a ciência começou a concluir que não. Que existem dados conclusivo e muita lógica no amor. Alguns cientistas até já determinam com a maior fundamentação que existe uma fórmula. É o caso de matemáticos da Universidade de Genebra, que estudaram o comportamento de mais de mil casais, analisando diversas características dos cônjuges. Eles concluíram que para uma maior taxa de felicidade e menor risco de separação num relacionamento, a mulher deve ser 5 anos mais jovem e 27% mais inteligente do que o homem. E que o ideal seria experimentar bastante antes de decidir. Logicamente essas conclusões são puramente estatísticas, ou seja, elas projetam um cenário ideal, mas sem levar em conta decisões e a complexidade humana.
Todas essas informações técnicas, e algumas nem tanto, sobre o comportamento á dois podem ser vistas no livro da Neurologista de UFRJ Suzana Herculano Houzel, intitulado Sexo, Drogas, Rock’ n’ Roll... & Chocolate – O Cérebro e os prazeres da vida cotidiana.

Alguns dados que encontramos no livro são curiosos e nos ajudam, pelo menos no sentido de direção. Por exemplo, pesquisas mostram que em 68% dos relacionamentos sérios, as pessoas foram apresentadas por um conhecido. E que cerca de 60% dos romances surgem em ambientes semiprivados, como escolas, trabalho ou festas particulares – lugares onde a afinidade entre pessoas é naturalmente maior. Só 10% dos romances se originam em bares e baladas. Outra coisa curiosa é que a pílula anticoncepcional pode interferir na capacidade olfativa da mulher em reconhecer o que lhe atrai. Aquela famosa “coisa de pele” que ás vezes nós afirmamos sentir, e que a ciência diz ser um fato.
Outros estudos interessantes, e que apresentam uma cara mais conclusiva aos relacionamentos, têm sido realizados pela antropóloga e especialista em estudos da relação entre amor e cérebro, Helen Fisher.
Eis abaixo, um pequeno teste oferecido por Helen, que serve para analisar o nosso atual grau de paixão. Segundo recomendação dela, para saber seu nível de satisfação com o parceiro, basta responder á esse teste baseando-se numa escala de satisfação de zero á dez:
Teste de nível de satisfação
1)      Quanto tempo durou e quanto foi satisfatório o seu último relacionamento sério?

2)      Imagine que você está numa festa. Muita gente interessante, troca de olhares e azaração. Sabendo que inicialmente os homens dão mais valor á beleza e a juventude, enquanto as mulheres estão mais preocupadas com o nível socioeconômico do parceiro, você se sente pronto e capacitado para disputar com seus concorrentes?

3)      Quanto tempo você pensa na pessoa amada por dia?

4)      Quanto você vai ao paraíso ao receber uma ligação, e-mail ou mensagem da pessoa amada? E o quanto você fica deprimido quando ela some?
A antropóloga afirma que esse teste, quando feito no início de um novo romance, os números tendem a ser sempre algo próximo do nível mais extremo. E após um período superior á seis meses, o ato de refazer esse mesmo teste mostra bem claro o quanto os dados se tornam mais modesto. Uma prova de que o amor começa quente e vai ficando mais morno com o passar do tempo. Coisa que não acontece na Índia, por exemplo, onde 95% dos casamentos são arranjados, fazendo com que as relações amorosas por lá seja algo progressivo, o que também não significa que sempre darão certo.  
Em minha opinião, paixão e amor são duas coisas totalmente diferentes, mas ambas acontecem de maneira inexplicável e repentina, porém nem sempre evolutiva. A dica desse post fica mesmo por conta do livro aparentemente interessante de Suzana Herculano Houzel, assim como os testes e pesquisas feitos pela americana Helen Fisher, que podem ser encontrados na Internet. Afinal, amor é sempre um sentimento que vai nos intrigar e chamar nossa atenção. Esteja você apaixonado ou não.

domingo, 23 de dezembro de 2012

RESENHA DE LIVRO - O Sári Vermelho


Um livro sobre política misturado com romance ou um romance cheio de política? Talvez a melhor coisa neste “O Sári Vermelho” seja a habilidade do autor em conduzir uma história de personalidades políticas, contada de forma imparcial, natural e simples. Uma narração acessível que prende o leitor do início ao fim do livro; empreitada que considero difícil por conta de se tratar da saga dos Nehru-Ghandi (não, o sobrenome Ghandi aqui não tem nada a ver com o famoso Mahatma, embora o patriarca da família Nehru tenha lutado ao lado do líder pacifista), família que governou a Índia por praticamente todo o século XX.
Javier Moro conta a história da vida de Sonia Ghandi, estudante italiana que aos dezenove anos conhece, em Cambridge, um jovem indiano chamado Rajiv Ghandi. Ambos se apaixonam e se casam. Só que o cara pertence á estirpe mais poderosa da Índia, o que muda completamente a vida de Sonia, que agora precisa se adaptar às mudanças radicais em sua vida, assim como inevitavelmente ela passa a fazer parte do meio político indiano.
O que mais agrada nessa biografia não autorizada (nenhum membro da família Nehru-Ghandi forneceu informações ou consentiu com esse livro. Todo o material foi baseado em incansáveis e minuciosas pesquisas, feitas pelo autor), foi o realismo de cada relato da vida dos personagens, o que nos faz entender um pouco a difícil tarefa de governar um país que vive em constantes diferenças religiosas; que adora mais de vinte milhões de divindades; que fala mais de oitocentos idiomas. A vida desses políticos é regida sob o medo constante de ataques terroristas de facções extremistas.
Outra coisa legal é o engajamento da luta de Sonia, uma italiana que aprendeu a amar o país do marido e que mesmo contra a vontade, assumiu cargos políticos após a morte de Rajiv, tornando-se uma das mulheres mais influentes e carismáticas do mundo.
O Sári Vermelho é leitura obrigatória para quem quer conhecer um pouco da Índia. Um verdadeiro deleite para os amantes de biografias, assim como uma espécie de manual da história política daquele país. Muito melhor do que novela das oito.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

COCÔLOGIA


Meu ritual quando vou ao banheiro descarregar o intestino consiste em: levar uma revista, mesmo que eu leia muito pouco quando estou no trono (o ato de ler atrapalha minha concentração. Geralmente levo a revista pros dias em que a criança demora a nascer); sentar-me na louça do vaso (nunca gostei da almofadinha do assento sanitário); conferir o papel após a limpeza para checar se o “danado” está realmente limpo; e finalmente observar o aspecto do resultado que ficou no fundo do vaso. E é exatamente este último ato a proposta imposta pelos autores Anish Sheth e Josh Richman com seu livro intitulado “O que seu cocô está dizendo á você”.
Sim, o titulo parece piada e embora o tema seja tratado de maneira hilária pelos autores, o livro é de conotação didática. Os autores dissecaram o assunto e foram aos confins da "merda" para nos revelar tudo aquilo que não prestamos atenção antes de darmos descarga. O estudo sobre o cocô nos brinda com informações que vão desde qual é a posição mais confortável, até problemas de saúde que podem ser identificados apenas verificando o estado, cheiro e a tonalidade de nossas fezes.
A obra já não é novidade. Foi lançado em 2008, mas como se trata de um assunto que é raramente discutido em meios sociais, achei interessante divulgar o trabalho. Afinal, não é todo dia que vemos um livro exclusivamente dedicado ao infame cocô.
O que seu cocô está dizendo á você” é, segundo o que li, uma divertida e inusitada leitura, que serve como um catálogo para ensinar, explicar e dar dicas sobre esse fundamental e indispensável alívio natural. Você vai aprender rindo, e descobrir que “cagar” é algo muito maior e mais importante do que simplesmente “passar um fax para o departamento de esgoto”.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

RESENHA DE LIVRO - Lugar Nenhum


Criar um conto de fadas baseado nas questões sociais do mundo atual. Essa foi a impressão que tive ao percorrer as páginas deste “Lugar Nenhum”, onde a famosa cidade Londres mascara uma outra Londres, usada para abrigar a escória da sociedade. E é esta Londres de Baixo, infestada das mais incríveis e bizarras criaturas, que serve de cenário para a trama do livro, nos dando um elevado vislumbre do que seria viver em meio aos esgotos de uma grande metrópole. Obviamente, isso seria como estar em “Lugar Nenhum”.
Logo nas primeiras páginas, mais ou menos no instante em que Richard Mayhew (personagem principal da história) resolve socorrer uma garota ensanguentada na rua e acaba indo parar na fétida Londres de Baixo, eu confesso que estava ficando um pouco entediado com o rumo no qual a trama estava seguindo. E para piorar, o leitor precisa, de forma repentina, a se adaptar com a inserção imediata de falantes criaturas esquisitas, sem a menor explicação do autor. Isso acabou me causando um pouco de desconforto com relação ao texto.
Mas com o avançar na leitura, e ajudado por uma deliciosa e viciante narrativa, logo vi que esses mesmos aspectos que me incomodavam inicialmente, se tornaram um ponto de distinção; é um convite para que desabroche a imaginação do leitor. Eu acredito que esse é o principal objetivo de um escritor: dar-nos asas á imaginação.
Sim, o texto é tão suave que envolve e embevece, nos conduzindo á um único foco: a trama. Essa característica do autor, Neil Gaiman, também contribuiu para camuflar os possíveis erros descritivos, normais em livros fantasiosos, assim como a escassez nos detalhes ambientais. E mesmo com o roteiro seguindo em sua fantasia cinzenta e desvairada, logo nos sentimos completamente familiarizados com ratos falantes, seres disformes, esgotos obscuros e até mesmo anjos.
O personagem principal não é muito carismático e possui personalidades fracas. Mas acredito que até mesmo tais peculiaridades foram propositais; talvez Neil Gaiman, de fato, queria um cidadão londrino mediano e pouco expressivo para sua trama. E é o que acontece: Richard inesperadamente vai parar na Londres de Baixo, dando inicio á uma aventura incrível e cheia de perigos, situação que obviamente sacode toda a estrutura do cara.
Como eu disse anteriormente, “Lugar Nenhum” é exercício para a imaginação, numa leitura agradável e rápida. Fiz uma busca na Internet, e descobri que esse foi o livro de estreia do autor, mas que ele já havia feito adaptações com o roteiro do livro em HQs. Isso denota sua familiaridade com o texto. Quanto a parte criativa, não sei se tudo saiu da mente de Neil Gaiman, mas o submundo descrito no texto ficou bem legal. O único aspecto que considerei negativo foi a dupla de vilões, o Sr. Group e o Sr. Vandemar; eu achei ambos chatos, previsíveis e insossos. Mas nem isso conseguiu estragar a fantástica viagem que foi percorrer os misteriosos esgotos de uma Londres esquecida... Uma Londres que poderia ser chamada de Lugar Nenhum.

sábado, 27 de outubro de 2012

CRÔNICA: O Jardim das Delícias fica no Sul

Certa vez, eu assisti á uma palestra em que o conferencista, um psicólogo e terapeuta, confessou-nos jamais ter conseguido curar uma pessoa apaixonada, devido á tamanha complexidade. Pois se paixão é um mal irremediável, eu posso-me autodiagnosticar como um doente incurável. E esse inesperado apego obsessivo teve início em minha última viagem de férias, quando fui completamente seduzido pelos encantos de uma pequena cidade... Uma cidade chamada Gramado.

E após cinco dias vivendo sob os encantos da serra gaúcha, estou de volta ao lar. Ainda com pensamentos embevecidos como os de um adolescente cismado com o primeiro amor, resolvi escrever sobre essa paixão. Afinal, é a única coisa que paira em minha mente nesse momento.
Contudo, fica uma dúvida:
Como fazer com que o leitor tenha um leve vislumbre do que foi meu testemunho do paraíso, apenas lendo esta pequena crônica?
Quem já esteve em Gramado sabe que a tarefa é simplesmente impossível. Talvez nas mãos de um grande mestre da literatura (eu poderia citar vários) este ato pudesse se aproximar um pouco do enorme êxtase que foi a experiência que vivi. No entanto, minha condição de indigno só faz com que eu sinta ainda mais a ânsia por escrever. Afinal, todo mundo sabe que não existe diploma de apaixonado, e que nossa categoria adora cometer as mais incríveis loucuras, não é mesmo?
Eu poderia começar esta inviabilidade afirmando que minha paixão por Gramado foi amor á primeira vista, mas estaria mentindo. Porque minhas primeiras impressões ao chegar á cidade, foi que ela não passava de uma mera cidadezinha... Muito doce e pacata, porém tudo o que eu encontraria ali seria um lugar aconchegante onde eu pudesse descansar sossegado.
Mas a magia me aguardava. Talvez se espreitando por entre as margens da rodovia de acesso, completamente arborizadas, num tom de verde intenso que jamais havia visto. Ou decorando as primeiras fachadas floridas que notei; todas impecavelmente belas. Não sei se minha cegueira suburbana não me permitiu ver inicialmente, mas eis que foi inevitável não notar esta magia, quando ela tomou emprestada a face do recepcionista de nossa pousada e se transformou no sorriso mais sincero e intenso que um estranho já usou para me dar as boas vindas. Sorriso este que logo percebi, era sempre vivaz, alegre e acolhedor. Eu pude revê-lo inúmeras vezes, em inúmeros lugares e rostos diferentes...
Você poderia contestar dizendo: “mas é claro que você foi muito bem recebido, Michel. Mais de oitenta por cento da cidade vive do turismo, e você é apenas mais um ganha-pão que acaba de chegar.”. Mas eu gosto de acreditar que a realidade vai além do óbvio interesse. Porque foi como se existisse um campo magnético cercando a cidade. E quando você se atreve a ultrapassar este campo, todos aqueles costumeiros pesos sociais que carregamos conosco diariamente; cansaço, estresse, ansiedade, preocupação, todos eles ficam presos ali. Como se fosse uma teia que captura os males do espírito, e só então você pode adentrar no paraíso, de alma purificada.
Eu poderia facilmente mencionar as hipnotizantes ruas floridas da cidade, limpas e infestadas de detalhes arquitetônicos. Por todos os lados, turistas caminhando descontraidamente, e que assim como eu, também olhavam para tudo, embasbacados com tamanha beleza.
Ainda consigo sentir o doce sabor da cortesia oferecida pelo povo do sul. Algo que vai desde um “bom dia” casual, até a gentileza de alguém que freia e aguarda pacientemente, quando ameaçamos pisar na faixa de pedestre.
Poderia citar os inesquecíveis passeios que a cidade proporciona; santuários naturais com paisagens riquíssimas e aparentemente inexploradas; cachoeiras, vales, lagoas, todos impecavelmente preservados por descendentes da colonização alemã e italiana. E por falar nisso, também fiquei fascinado com a intensa presença da cultura desses povos europeus, sua culinária típica e seus costumes tradicionais. E tem também o passeio na velha Maria Fumaça, com seu deslizar lento pelos trilhos e o charmoso apito fumacento, fazendo com que todos nos arredores acenem e sorriam para a pequena centopeia de metal.
Certamente qualquer mortal que teve o privilegio de visitar Gramado, quis levar um pedacinho da cidade consigo. Porque é quase impossível resistir a tentação de tantos produtos com a cara da cidade. Um mundo feito de chocolates caseiros, malhas, artesanatos, couros e produtos coloniais.
O clima é um eterno outono romântico e o famoso vento sul sempre está lá presente para nos convidar ao encontro do aconchego de uma lareira, acompanhado de uma deliciosa taça de vinho, produzido nas mais surpreendentes vinícolas do país.
Sim, Gramado é tudo isso, e sei que em meus meros cinco dias de passeio, não consegui desfrutar nem dez por cento de sua beleza aparentemente infinita.
Quero voltar em breve. Se possível para contemplar o espetáculo do Natal Luz. Mas a ocasião não importa. Porque seja na suavidade do Outono; no colorido da primavera; no aconchego do inverno; ou na energia do verão, Gramado será sempre um pequeno paraíso na Terra. E posso afirmar que me sinto muito feliz, pois mesmo que por pouquíssimo tempo, fiz parte desta magia encantada.