sábado, 30 de novembro de 2013

RESENHA DE LIVRO – NO ESCURO



Uma história que narra a crueldade de um relacionamento abusivo; um homem que inicialmente é sinônimo de perfeição masculina e aos poucos muda completamente, ou mesmo se deixa exibir o seu lado neurótico e perverso; uma mulher traumatizada por conta dos maus tratos vividos nas mãos de uma mente doentia.
Provavelmente você já deve ter imaginado uma dúzia de filmes, novelas, livros, entre outros, que segue a linha narrativa citada acima. Pois estes são alguns dos ingredientes que foram combinados á exaustão pelas mídias. Mas a grande sacada da autora Elizabeth Haynes neste tenso “No Escuro” é a forma com que ela montou tudo isso. E convenhamos, na atual vastidão da indústria do entretenimento, é a reinvenção que se sobressai ao novo. Atualmente quase nada se cria; tudo se recria. E aqui a autora foi brilhante na condução e montagem do texto. Haynes nos apresenta sua história em curtos capítulos de diferentes épocas de sua personagem principal.

Deixe-me explicar melhor:
No Escuro conta a história de Catherine, uma mulher solteira, bem-sucedida, alegre e que gosta de curtir a vida, como qualquer jovem adulto descompromissado. Isso no passado, porque quatro anos depois ela é Cathy, uma mulher completamente insegura, neurótica, portadora de transtorno obsessivo-compulsivo, traumatizada por algo que lhe aconteceu no passado. E a trama segue em curtos capítulos, que se alternam entre passado e presente, para contar o que aconteceu e fez com que uma mulher saudável se transformasse numa criatura vulnerável e traumatizada. O leitor é levado do passado ao presente, e pouco-á-pouco vai entendendo o que aconteceu com a personagem, e o que está acontecendo agora. Uma sacada criativa, que deu consistência á um roteiro que não tinha nada de inédito.

Narrado em primeira pessoa, No Escuro consegue ser assustadoramente convincente. Ás vezes ficamos com a sensação de que estamos lendo uma matéria verídica de uma mulher que sofreu nas mãos de um namorado desequilibrado e violento. A linguagem é extremamente fácil e flui com total facilidade e compreensão.
É um livro que certamente agradará até ao mais exigente dos leitores. Não por acaso, Elizabeth Haynes tem sido apontada pela mídia como uma referência da era moderna na literatura.

Eu gostei muito. Tanto, que comprei o mais novo lançamento da autora. Recomendo esta pérola, principalmente aos leitores iniciantes, porque a linguagem é muito gostosa e fácil. Mas só leve este livro para casa, se você realmente não se importar de passar alguns tensos momentos... No Escuro.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

RESENHA DE LIVRO – A REMINISCÊNCIA OCULTA


Era o ano de 2007, eu havia começado minhas primeiras tentativas em escrever textos e contos, e estava completamente obcecado por transferir minhas ideias mais antigas para o papel, ou melhor, para o computador. Queria de alguma forma poder contar as histórias que estavam guardadas na minha mente, como se meu tempo de negação á elas estivesse me causando uma espécie de acúmulo de imaginação.
Eu precisava expor meus pensamentos. E escrever se tornou uma forma de exorcizar minhas manias, as raivas, minhas esquisitices... Enfim, eu queria contar o que sentia.
E entre diversos textos que escrevi de maneira quase que obstinada, um deles eu havia intitulado como “A Inocência Oculta”. Era a história de um rapaz que se muda para uma casa onde habita o fantasma de uma garotinha.
Levei mais ou menos um ano para finalizar o texto, que na época continha quase 400 páginas. E o simples ato de concluí-lo foi como uma vitória pessoal. Eu me senti realizado, pleno. Havia conseguido contar aquela história inteira e era como se um peso houvesse saído de minhas costas.
Mal sabia que naquele momento eu havia terminado apenas em torno de 1% de todo o trabalho que ainda estava por vir. Só que eu não sabia disso; tudo o que eu queria era ver aquela minha criação em sua versão física e inteira, escancarada orgulhosa entre meus dedos. Então fiz uma impressão do rascunho e mandei encadernar. E finalmente disse á mim mesmo:
“Bom, agora vou dar uma rápida lida, só para checar se ainda há algum erro ortográfico ou de concordância”. Imaginei que seria algo corriqueiro, apenas para averiguar que meu tesouro realmente estava reluzindo como eu achava.
E fiquei não menos que chocado com o que vi... Quase não reconheci meu próprio texto.
A primeira coisa que notei, e hoje sei como verdade, é que quando se começa a contar uma história, ela nunca segue a risca aquilo que se imaginou inicialmente. Ela acompanha á essência, porque quem está escrevendo sabe aonde quer chegar, mas o caminho é completamente desconhecido. É como se o próprio texto adquirisse vontade e seguisse seu rumo sem nenhuma certeza de onde irá chegar. Depois vi minha cara corar com os erros grotescos de gramática, de concordância e até mesmo de adequação aos detalhes do texto; alguns até bobos, como dizer que está chovendo e segundos depois afirmar que o sol estava radiante no céu. Os sustos que eu levava com meus equívocos eram tão grandes e intensos, que não foi preciso mais do que três páginas de releitura para que meu entusiasmo murchasse totalmente, se transformando numa ardilosa e acusadora baixa-estima.
Então os anos que se seguiram foram de uma luta constante por colocar a casa em ordem. Mudar capítulos inteiros; retirar frases insossas; inserir diálogos melhores e mais claros; aprender fazendo; elaborar ideias mais objetivas; tornar minha própria invenção mais bonita e enxuta.
Ah, e o melhor de todos os aprendizados: humildade.
Sim, meu texto não era aquilo que eu imaginava que fosse, mas o que precisei aprender na marra é que eu também não sou quem eu pensava. Sou um eterno aprendiz de literatura. E entendi que o ato de escrever para aliviar as ideias da mente é uma atividade que não se esgotaria jamais. Porque justamente isso que eu encarava como uma “atividade”, hoje eu vejo como um prazer. Escrever é algo que faço porque gosto. Não sei dizer se é bom ou ruim, mas foi a única coisa que fiz na vida e que me proporcionou uma deliciosa sensação de leveza; de paz de espírito.
E enquanto essa fonte não se esgotar eu continuarei escrevendo. Porque é isso que amo fazer.
Aquele texto de 2007 hoje se chama “A Reminiscência Oculta”, e é a primeira vez que estou expondo um trabalho meu para o público em geral. Não para obter apenas lucros, mas se ao menos uma única pessoa gostar, ou se pelo menos este e-book contribuir para instigar a leitura na vida de alguém, isso já será uma grande conquista.
E aos interessados e curiosos, segue abaixo o link para quem quiser obter este que é meu primeiro trabalho literário:
Espero de todo o coração que gostem. E me desculpem pelos erros e inconveniências ao longo do texto. Porque mesmo após todo empenho e dedicação que dispensei, estou ciente de que este jamais esteve sob os cuidados de um verdadeiro profissional.
E quero agradecer á minha esposa, Aline. Por toda ajuda e paciência ao longo desses anos.

sábado, 2 de novembro de 2013

RESENHA DE LIVRO – PORQUE VOCÊ É ASSIM


Este é mais um livro da série “Como As Pessoas Funcionam”, que a revista Superinteressante fez. E o título deste que acabo de ler chama-se “Porque Você é Assim”.
O livro foi escrito por Otavio Cohen, jornalista e repórter da revista que encabeçou este projeto, que além deste, também conta com os volumes “Amor” e “Ansiedade”.

O tema abordado aqui gira em torno do nosso comportamento e busca tentar entender porque somos como somos, exatamente como propõe o título deste volume. O autor vai em busca de conteúdo para tentar explicar porque você adquiriu algumas manias, as quais você mesmo já deve ter notado que não consegue se livrar. E como geralmente acontece com as matérias feitas pela revista Superinteressante, Otavio trabalha principalmente por intermédio das bases cientificas para rechear seu livro e tentar explicar alguns traços de nossa personalidade, assim como fazer-nos entender que algumas dessas manias comportamentais podem ser mudadas ou melhoradas.

Aqui encontramos conteúdos que vão desde timidez, indisciplina e otimismo, explorando até mesmo hábitos comuns do dia-dia, como falar mal dos outros. Tudo exposto numa linguagem simples e fácil, fazendo com que temas complexos se tornem uma leitura divertida.
Porque Você é Assim não é apenas, ou exatamente, um livro de autoajuda, mas é principalmente uma reportagem ampla e bem elaborada, que ajuda a mostrar com um pouco mais de clareza e percepção, aquilo que nós somos e a maneira como nos comportamos. Penso que a ideia deste livro foi um tanto apropriada, pois um assunto tão amplo e controverso, como o nosso comportamento inconstante, não caberia numa pequena matéria de revista. É leitura boa, rápida e, exatamente feita dentro dos ideais dos caras pro trás deste projeto, uma matéria superinteressante.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

RESENHA DE LIVRO – PIXU


Pelo fato de que meu blog sempre trata de resenhas de livros, achei melhor manter o título como está. Mas o caso é que Pixu é, na verdade, uma Graphic Novel, que descobri através de uma matéria que sugeria livros e revistas de terror. E por se tratar de um mundo no qual tenho pouquíssima intimidade, achei que seria legal verificar o que alguns doutores dos quadrinhos andam dizendo sobre este trabalho. Fiz sem maiores motivos, foi apenas no intuito de verificar se a impressão que tive ao final de minha leitura era recíproca.
E a opinião da grande maioria é que Pixu é um trabalho bem acima da média. Não por acaso, a revista ganhou o prêmio Eisner de melhor publicação independente. E parece que este é um feito grandioso no universo das HQs.
Pixu é uma história de terror que narra a vida de pessoas que vivem numa espécie de pensão. O clima da trama é obscuro e todos os personagens parecem igualmente com suas vidas em estado de decomposição; como se o inferno fosse coletivo e estivesse á tona. Mesmo o ambiente onde vivem é sinistro e assustador. Logo todo o local é tomado por uma estranha mancha, que como um vírus, vai tomando todos os andares do prédio, e este é o estopim que desencadeia numa série de acontecimentos sobrenaturais. Veja bem; Pixu é uma palavra que, de acordo com os autores, designa uma espécie de marca maligna, o que explica as manchas que aparecem na pensão e que antecedem o mal. Contudo, o roteiro é simples assim mesmo, e se eu disser mais uma só palavra, estarei contando tudo o que está por trás da trama que, aliás, é a coisa menos agradável da revista.
Os desenhos são impecavelmente bem feitos. De tal modo, que mesmo a escassez de diálogos no texto não é capaz de atrapalhar o segmento da história, além de abrir um leque para a imaginação de quem lê. Mas talvez essa falta em excesso, acabou deixando os personagens um pouco vazios e sem empatia.
De qualquer forma, acho que esta resenha não é coerente, nem funcionaria como sugestão á ninguém. Só o que posso dizer é que gostei de voltar á ler uma revista em quadrinho, coisa que não fazia há muito tempo. Tinha me esquecido do quanto é prazeroso poder ler com imagens. É uma ótima oportunidade para quem precisa de um empurrãozinho á mais na imaginação.

RESENHA DE LIVRO – A VOLTA DO PARAFUSO


Eu já havia lido em torno de quarenta páginas deste impressionante “A Volta do Parafuso”, quando percebi que meu senso de compreensão do texto estava literalmente “entrando em parafuso”. Então parei tudo e retomei a leitura desde o início, passando a manter um ritmo mais lento e ora fazendo pausas, para tentar discernir melhor cada capítulo. E isso não se deve apenas ao fato de que o texto possui uma linguagem formal, mas principalmente em razão de que essa era exatamente a proposta do escritor norte-americano Henry James: manter um clima misterioso e assustador ao longo da história. James constrói o texto com uma incrível habilidade em ocultar informações, deixando o leitor á cargo de sua própria imaginação. Em suma, o ponto de vista, que aqui é narrado em primeira pessoa, nos faz oscilar constantemente entre fantasia e realidade.
A melhor definição para a experiência de se ler este livro, é a de que simplesmente não há uma definição apropriada. A Volta do Parafuso é um livro de terror psicológico que não pode ser racionalmente compreendido. E acredito que este seja seu principal atributo.
A trama conta a história de uma Governanta contratada para cuidar de duas crianças órfãs, que vivem numa mansão situada no interior de uma Inglaterra da era Vitoriana. Elas foram deixadas sob a guarda legal de um Tio, que é quem contrata a Governanta. E as situações estranhas começam aí, quando a primeira exigência feita pelo Tio das crianças é a de que ele jamais deverá ser incomodado, em nenhuma hipótese. A história é narrada pela própria preceptora, que imediatamente se vê em meio á uma casa cheia de mistérios, assombrada por espectros que, segundo as convicções nada confiáveis da Governanta, estão interessados nas duas crianças. E as conclusões destes e de outros mistérios ficam á cargo do leitor.
O mais impressionante no livro é o clima psicológico assustador que o autor consegue manter por quase toda a história. Henry James se mostra completamente afiado na habilidade de deixar seus textos á cargo da interpretação de quem lê. Em todo momento da história não sabemos se a narradora está mesmo vivendo situações sobrenaturais ou se está somente imaginando coisas.
Uma obra de arte que instiga nossa reflexão. Recomendo!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

RESENHA DE LIVRO – BRIDA


Relutei muito antes de escrever a resenha deste livro, outra obra de um autor que aprendi a gostar na minha adolescência, e que aos poucos, venho tentando ler o restante dos títulos que ainda me faltam. E o maior motivo desta minha resistência se deve por um único motivo:
Eu não gostei desse livro.
O fato de eu já ter lido obras fantásticas de Paulo Coelho, fez com que eu adquirisse uma espécie de ânsia por encontrar novamente aquela satisfação provocada por histórias que são impecavelmente bem elaboradas e insinuantes, as quais eu não procuraria tanto se tivesse alguma dúvida quanto á capacidade criativa deste autor. Paulo Coelho já provou ser um escritor engenhoso na arte de contar histórias. Não é por acaso que ele se tornou um dos escritores brasileiros mais lidos mundo afora. E talvez seja a essência desse autor talentoso, o que realmente busco quando encontro nas livrarias, um livro que ainda não li de sua autoria.
Mas ter que vir aqui em meu blog dizer que “outro” livro de Paulo Coelho é ruim, é uma experiência estranha. É quase uma pena ter que fazê-lo. Logicamente isso não tem a menor importância, pois se trata da opinião deste leitor que vos escreve. E á julgar pelo que andei lendo na internet, eu faço parte da minoria que desagradou deste trabalho.
Não sei exatamente explicar os motivos, mas parece que neste Brida, o autor perde seu equilíbrio narrativo quando resolve exagerar na inserção dos elementos que ele deseja expor, no caso aqui, contar a história de uma mulher em busca de sua evolução espiritual por meio da Magia. A história rapidamente deixa de lado sua pretensão de conto, para tomar a forma de uma autoajuda cansativa e repetitiva, que logo escancara seu verdadeiro foco: o de exibir ensinamentos de feitiçarias e exotismos de forma desenfreada, e que á meu ver só agrada á quem se interessa pelo tema. A trajetória dos personagens é nada mais que mero pano de fundo para diálogos carregados de ensinamentos exagerados.
A história (aff!!), conta a jornada de uma jovem irlandesa, já conhecedora de alguns aspectos da Magia, mas que anseia por ampliar seus conhecimentos. Então ela vai em busca de mestres na arte pretendida, e dai pra frente é apenas relatos e mais relatos do que seriam as lições que Brida está aprendendo para se tornar uma grande Bruxa.
Sim, é uma pena afirmar que Brida é outro livro sonolento de Paulo Coelho. Tanto, que sinceramente não sei se continuarei procurando pelos demais trabalhos do autor, que ainda não li.

sábado, 28 de setembro de 2013

RESENHA DE LIVRO: Heroína & Rock N' Roll


Para viajar pelas páginas do livro que narra o diário de um ano devastador na vida de um astro do rock chamado Nikki Sixx, é preciso duas coisas: coragem e estômago forte. Porque todo o conteúdo deste trabalho é a nua e crua realidade de quem viveu á beira de um abismo profundo e perverso chamado Drogas.  Antes de lê-lo, o pouco que já tinha ouvido falar sobre o baixista e compositor do Motley Crue, foi suficiente para que eu o considerasse um completo idiota.

Opinião superficial á parte, inevitavelmente minha opinião pós-livro mudou. Sim, porque eu acabara de ler o diário de um homem que viveu constantemente dominado por seus vícios e através deles orquestrou sua própria decadência. Um cara que rumou desenfreadamente para o inferno, numa trilha tortuosa onde drogas, sexo e rock n’ roll ditavam o ritmo. Nikki Sixx foi á um extremo no qual qualquer ser-humano em sã consciência consideraria impossível chegar. Como ele mesmo afirmou; “Álcool, ácido e cocaína foram somente casos. Só quando conheci a heroína foi amor verdadeiro”.
Nikki Sixx não é o idiota que eu imaginava. Se em determinados momentos ele se comportava como tal, pelo menos seu livro me fez enxerga-lo de outra forma. Sixx é um sujeito que ostenta certo ar irônico, ás vezes é arrogante, teimoso e recluso. Principalmente quando estava sob os efeitos das drogas; ai a coisa descambava para o irracional. Mas há também o outro lado do homem falho, que talvez não tenha sabido lidar com a ostentação do sucesso, nem com os problemas que vivera na infância e provavelmente partiu disso a sua tentativa de refúgio por meios das drogas. Nikki é um baixista extremamente talentoso e um compositor competente. Além do fato de que provou ser corajoso ao expor sua verdade mais obscura e seu lado frágil e feio, ao lançar este livro. Nikki Sixx é um ser-humano que cai e se levanta como qualquer outro. Como geralmente acontece comigo ao ler biografias (embora aqui não se trate exatamente de uma), a maior lição que tirei desse livro foi a de não julgar nunca; principalmente sem antes ter alguma ideia daquilo em que se está apontando o dedo.
Obter esse livro foi realmente muito bom. E lê-lo foi uma experiência singular. Nunca procurei por algo sobre Nikki Sixx ou sua banda, o Motley Crue. De fato, eu encontrei esse livro da mesma forma como acontece quando não conheço a fonte: numa banca de promoções, em uma livraria qualquer, á um preço irresistível.
O visual do livro é arrasador; bem colorido, com fotos, gravuras legais e as passagens do diário foram feitas com uma escrita datilográfica bem bolada. Como se fossem as páginas do diário de Nikki Sixx, xerocadas para impressão. Durante as passagens do diário, há comentários de pessoas que estiveram próximas ao Motley Crue na época. Destaque para os comentários de certo guitarrista chamado Slash, que integrava uma banda que estava em início de carreira, o Guns N’ Roses.
Em determinado momento do livro, há um intervalo onde o próprio Nikki levanta uma questão que inevitavelmente invade e permanece constante na mente do leitor, já nas primeiras páginas:
Como esse cara ainda pode estar vivo?

Pois Nikki Sixx é um sobrevivente que retornou do inferno para nos contar sua experiência nada sóbria, de uma vida cheia de dependência e loucura. De um ser-humano que não conseguiu medir seu próprio limite. Mas que como poucos, soube sacudir a poeira e encontrar um caminho que o arrancasse do fundo do poço.
Uma leitura que não é fácil de ser digerida. Mas ler o livro de alguém que seguiu com a própria vida num limite inimaginável, é no mínimo curioso. Em minha humilde opinião, valeu muito á pena ter adquirido este relato incrível, que orgulhosamente está exposto em minha estante de livros.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

CRÔNICA: INESPERADA INSTROSPECÇÃO

Sentado no gramado sintético, ao lado de uma grande amiga, ouviu-se alguns acordes aleatórios de guitarra. Imediatamente quase todas as pessoas, que também descansavam pelo chão da Cidade do Rock, levantaram-se, inclusive esta amiga, todos os olhares de expectativas direcionados para o Palco Mundo. Pois eis que de forma quase despercebida, eu a puxei de volta ao seu lugar e falei:

– Calma. Não é assim que o Metallica começa seus Shows.

De fato, o que estava a se manifestar no palco, naquele exato instante, era alguns operários da equipe de produção afinando instrumentos. Ela voltou a se sentar e aguardamos pacientemente (talvez ela nem tanto), pelo início de “Ecstacy of Gold”, de Ennio Morricone; canção que se tornou marca registrada na abertura dos shows da banda. Só então nos levantamos e toda a euforia do rock teve início.

Menos a minha.

Naquele momento em que o Metallica pisou no palco, o delírio explodiu coletivamente no coração da massa roqueira. Vi uma sacolejante multidão saltar nas alturas, sob um ritmo frenético no qual James & Cia nos impôs, ao longo de quase duas horas e meia de show. Mas para minha surpresa, não consegui fazer absolutamente nada, além de cantar as músicas de maneira quase tímida e, em raras ocasiões, permiti-me alguns leves sacolejos de cabeça, talvez até desajeitados, como os de alguém que escuta o Metallica pela primeira vez.

Eu mesmo não me reconheci naquele momento.

Olhava para as luzes do palco; sentia arrepios quando ouvia o coro de mais de noventa mil pessoas cantando, juntas, as canções. Acordes que tanto quis um dia testemunhar com meus próprios olhos, braços erguidos para um céu escurecido que em alguns instantes era violado pelos holofotes hiperativos daquela edição do Rock In Rio..., os meus braços também se levantavam, às vezes, de maneira acanhada; munhequeiras em meus pulsos condiziam e me traziam a lembrança do lugar ansiado. Por perto, alguém olhou para o nome escrito em meu braço direito. Ele sorriu e acenou para mim, mostrou sua tattoo. Éramos fãs da mesma banda. Só que ele saia do chão, empolgado, completamente envolvido pela energia...

Enquanto eu era incapaz de me mover.

Nem parece que acabamos de ver o show da sua banda favorita”, comentou minha amiga, quando o espetáculo chegou ao fim. Olhava-me com seu rosto suado, porém, a expressão ainda intrigada com aquela inesperada introspecção.

Esse é o resumo da minha conduta nem um pouco previsível, durante o show que mais aguardei na vida. E a pergunta que inevitavelmente me faço desde então é: por que eu me senti tão deslocado?

Sim, eu adorei estar lá, perto dos veteranos que tocam as músicas que me acompanham desde a adolescência. Senti o termômetro da minha emoção subir a cada nota introdutória que anunciava outro clássico. Minha alma vibrou quando o coro em uníssono saiu da garganta da multidão e rasgou a noite do dia dezenove de setembro de 2013.

Mas aconteceu alguma coisa comigo, a qual ainda não sei explicar. E dizer que fiquei hipnotizado pelo espetáculo certamente soaria como uma esfarrapada retórica... Não foi isso.

A melhor explicação que tenho é não ter nenhuma resposta que esclareça minha melancolia. Estar completamente introspectivo diante do show que tanto aguardei, foi um ato inexplicável e imprevisto.

De qualquer forma, meu coração sabe que esteve lá. E aquele que foi o menos afetado pela delirante energia chamada Metallica, talvez fosse o mais apaixonado entres todos os loucos da cidade do rock... Um admirador silencioso, que intimidado por seu objeto de contemplação, só lhe restou aquiescer e escutar; satisfeito por simplesmente estar ali, feito víscera taciturna que compõe um todo pulsante... And Nothing Else Matters!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

RESENHA DE LIVRO – A PERSEGUIÇÃO


Antes de iniciar essa resenha, minha mente emitiu um sinal de alerta que dizia: “veja lá o que você vai escrever sobre esse livro, cara!”.  Tal precaução se deve pelo fato de que minha esposa adora o autor desta pérola de teor infanto-juvenil intitulada “A Perseguição”.
Obviamente eu sempre escrevo minha opinião sincera, mesmo quando esta não agrada alguém próximo á mim. Mas certamente tentaria ser o mais simpático possível, caso não tivesse gostado do livro. No entanto, é simplesmente impossível não se surpreender com os trabalhos de Sidney Sheldon. O cara é um maestro na arte de construir textos ágeis e num ritmo alucinante, que perdura desde a primeira linha, até última página. É daqueles livros deliciosos os quais devoramos numa única sentada. Particularmente eu prefiro os autores mais complexos e detalhistas. Mas é sempre um maravilho prazer abrir uma exceção á este esplendido autor.
Sidney Sheldon pertence ao seleto grupo dos grandes autores da velha guarda. Começou sua carreira em 1937 como escritor de roteiros de filmes, musicais e seriados (ele foi o criador de personagens emblemáticos da telinha, como Jeanne, do seriado Jeanne É um Gênio) e só posteriormente passou a se dedicar aos livros. Desde o seu primeiro romance “A Outra Face” (que assim como outros tantos trabalhos seus, teve uma adaptação para os cinemas) até o decente “Quem tem Medo do Escuro?”, que foi seu último livro inédito, Sheldon mantém um elevado grau de suspense e sensualidade. Outra característica que gosto nesse autor, é seu constante uso de elementos sociais modernos nas histórias. Situações como fama, fortuna, intrigas, vinganças... a odiosidade existente em nosso cotidiano atual.
A trama de “A Perseguição” gira em torno de Masao Matsumoto, um jovem que após a morte dos pais num acidente de avião, herdara um poderoso império de riquezas. Mas logo ele descobre que mais alguém está interessado em sua abastada herança. E num piscar de olhos, a vida pacata do pobre rapaz se transforma em um perigoso jogo de gato-e-rato, através da vasta urbanização de um país que lhe é totalmente desconhecido: os Estados Unidos. Masao precisa correr por sua vida, e o medo faz com que todos os olhares estranhos ao seu redor, lhe pareçam ameaçadores. Uma história sem grandes técnicas inovadoras, mas que funciona muito bem por conta de sua pegada ininterrupta, bem ao estilo cinematográfico. Coisa de roteirista, né?
É uma bela dica pra quem gosta de literatura cheia de suspenses e emoções. E que minha adorável esposa me perdoe se faltou algum complemento em mais esta modesta resenha.

sábado, 27 de julho de 2013

RESENHA DE LIVRO – O PODER DO AGORA



Eu ainda preciso do meu passado.

Retornar ao meu passado, ás vezes serve para que eu tome consciência da pessoa melhor na qual eu me tornei. Serve para que eu me lembre de que hoje possuo uma vida mais confortável, independente e feliz. Retornar ao passado é como uma injeção que ativa as boas memórias, que são constantemente anestesiadas pela minha mente, que embora seja uma ótima máquina de aprender, ainda vive viciada em pessimismo.

Mas é justamente esse o maior pecado que eu poderia cometer, segundo o autor Eckhart Tolle: que é voltar ao passado.

Até certo ponto, seu livro de autoajuda intitulado O Poder do Agora, tem fundamento. Se tivermos a paciência e humildade (não se engane; é preciso muita humildade pra se conseguir enxergar a própria mente, com total discernimento), veremos que nossa mente passa a maior parte do tempo vagando, ora no passado, ora no futuro. E o malefício disso é que geralmente nosso pensamento viciado em desgraças, só resgata do passado aquilo que nos foi trágico ou doloroso. E quando ele vai ao futuro, nos preenche com ansiedade e descontentamento. E as técnicas ensinadas aqui pelo autor, possuem o intuito de nos manter aqui, nesse inexplorado lugar chamado agora. Dai o título do livro.

Estar no agora é, segundo o livro, a chave para se conseguir alcançar a tão sonhada iluminação espiritual que nós seres-humanos tanto almejamos. Viver no Agora é o melhor caminho para a felicidade plena.

O conteúdo do livro é bom; o autor optou por uma linguagem simples, que segue um formato feito de perguntas e respostas. Algumas técnicas também realmente funcionam; porque de fato, usar nossa mente indisciplinada para ir ao passado, só serve para envenenar o presente. Da mesma forma, vagar por um futuro que obviamente não existe, acaba por nos deixar deprimidos e ansiosos. O ideal para a maior parte das pessoas é que realmente fiquemos aqui, no agora. Porque o presente sempre será mais seguro.

Contudo, para um leitor constantemente faminto por conhecimento, e que adora estar aprendendo mais sobre comportamento e disciplina mental, a ideia do livro acaba se tornando algo um pouco repetitivo e ás vezes até meio forçado.

O que quero dizer, é que já li muita autoajuda e psicologia em meus anos de leitor. E as tantas ideias que são apresentadas por diversos autores e suas distintas propostas, acabaram fazendo com que O Poder do Agora soasse como uma espécie de ensino básico para mim. Outra coisa que me incomodou durante a leitura, foi a postura algumas vezes exagerada, á ponto de se torna um pouco arrogante, por parte do autor. É como se ele tentasse vender sua ideia, como se ela fosse o único meio de conquista espiritual, e ele próprio, o único que á conseguiu alcançar até o momento.

Não sei, mas esta pode ser a minha resenha mais sincera. Não que as outras não sejam. O quero dizer é que minha opinião aqui, talvez seja demasiadamente exclusiva ou incompreendida por quem já leu este livro.
O fato é: o livro não é ruim. Só que autoajuda é um pouco complicado de se resenhar justamente por conta da particularidade de quem lê. Mas a realidade é que aqui há um conteúdo interessante, no qual até certo ponto eu concordo, e é um trabalho recheado de técnicas para se aprender a conviver onde precisamos estar... No Agora.

sábado, 13 de julho de 2013

CRÔNICA: A MORTE DO ROCK?


Acho hilário ver alguns programas de televisão e suas inventividades desenfreadas, cujo único proposito é manter audiência. Desta vez a glamorosa MTV Brasil se superou, quando resolveu homenagear o dia mundial do rock com um tema completamente controverso:
“Quem Matou o Rock?”.

A programação, que durou o dia inteiro, tentava encontrar uma explicação para a morte do Rock... Espera ai; morte do rock? Como assim?
Não é brincadeira não... O canal passou o dia inteiro sugerindo alternativas e debates para o que seria o verdadeiro motivo que originou a morte do rock. E para isso disponibilizou uma turma de gente, que a emissora entendeu como conhecedores de rock e, portanto, capazes de encontrar as respostas para uma pergunta que não existe. Entre os “gênios” inteirados em rock, estava o cantor Thunderburd, que infelizmente expõe seu fim de carreira ao aceitar ser submetido á um programa televisivo desnecessário e equivocado.

De onde foi que a MTV Brasil tirou essa ideia incrível?
Afirmar que o Rock morreu em rede nacional é simplesmente admitir que nunca houve evolução no mundo do rock; que o estilo não passa de uma criação limitada na qual sua existência depende daquilo que foi feito por seus inventores do passado. Difundir uma ideia como esta é o mesmo que jogar merda no trabalho de bandas inovadoras e abrangentes, que somente os produtores da MTV não conseguem enxergar a existência...

Sei que a maior parte da real comunidade roqueira do Brasil irá dizer que é desnecessário eu perder meu tempo me indignando com algo desse tipo. Sim, porque há tempos as emissoras de TV entenderam que é mais lucrativo investir em porcarias fúteis, como reality shows (logo mais teremos outra produtiva e importante edição do Big Brother Brasil), do que buscar inovar-se em cultura, e inserir profissionais entendidos em cada tema abordado pelos programas que vão ao ar.
Fica a dica, MTV: O que foi criado pelos mestres do rock não há como ser esquecido. Mas viver sob a sombra de um tempo que não existe mais é o mesmo que negar uma das maiores virtudes do ser humano, que é a capacidade de renovar aquilo que já existe. Sem essa habilidade não haveria possibilidade de progredirmos como sociedade.
O fabuloso rock não só não morreu, como continua crescendo na inventividade de bandas do meu tempo, nas quais não citarei por dois motivos: Porque é um ato supérfluo; e pelo receio de cometer o pecado de me esquecer de algum dos infindáveis talentos, no qual somente a MTV não consegue enxergar, ou acha que está morto...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

CRÔNICA: PROSA COM O MALUCO




Outro dia me encontrei com um velho chegado chamado Maluco, num bar perto de casa. Ele me falou que estava indo comprar sal para a esposa. Juntou-se á mim na mesa, e passamos o resto da tarde papeando descontraidamente. A maior parte do tempo o assunto foi sempre o mesmo:
Rock.

Conheço o cara á anos, mas se me perguntarem seu verdadeiro nome, sinceramente eu não saberei o que responder. Por uma simples razão: eu não sei o nome dele. Atende apenas pelo inusitado apelido, no qual ele parece estar mais familiarizado do que aqueles termos inseridos em sua certidão de nascimento... Se é que ele tem certidão.
Sua única e simples alcunha é “Maluco”.

Para quem o olha superficialmente, o codinome não poderia ser mais apropriado. O velho Maluco é um hippie de carteirinha; andarilho como manda o figurino; o tipo que não conhece o significado da palavra vaidade; e um irreparável apaixonado pelas bandas de rock da geração 60 e 70. Mas quem já teve a oportunidade de conversar um pouco com o cara, sabe que não é apenas a mochila cheia que ele carrega nas costas. Maluco é carismático e possui uma mente recheada de experiência; de quem já viu cidades lindas, conheceu gente de todo o tipo, e foi á mais shows do que eu jamais conseguirei ir, em toda minha vida enfadonha e cheia de regras. E ele fez tudo isso na base da canela.
Hippie de verdade não aceita carona”, disse-me certa vez. 

Sentado á mesa do bar, Maluco me contou que esteve no Rock-in-Rio 2011, e viu de perto o show da banda Slipknot, que até então ele confessou jamais ter ouvido falar, por mais incrível que isso possa parecer. Veterano é assim; sempre olha com certa desconfiança para o rock atual... De qualquer forma, ele alegou ter ficado impressionado com o som e a performance da banda. Eu falei que já conhecia o trabalho do Slipknot e, tentando lhe render aos novos tempos, prometi que gravaria um show para ele. Agradecido, Maluco disse que levaria para mim um show das antigas do Led Zeppelin. Gabou-se de que se trataria uma relíquia inestimável, na qual pouquíssimas pessoas possuíam.
E assim, o papo rolou fácil pelo resto da tarde.

Lembrar-me das prosas com o Maluco é legal, porque para ele não há distinção dentro do Rock. “Ouvir o que se gosta é só o que importa”, dizia ele... E foi a recordação desta conversa que me fez escrever este post. Porque naquela tarde, regados á petiscos e muita cerveja gelada, nós falamos um pouco sobre heavy metal, Thrash Metal, Black Metal, Symphony Metal, Nu Metal, Death Metal, Metalcore, Melodic Death, Folk Metal, Gothic Metal, Hard Rock, Progressivo... Falamos de todos os metals e metals pelo mundo afora. Em nossa roda de boteco, tudo era rock e assunto para trocarmos ideias por horas.
E é para todas essas tantas tribos do Metal que vai o meu abraço neste Dia Mundial do Rock!

– Espera ai, Maluco – interrompi o papo, quando me veio á mente uma vaga lembrança. Aquela altura, o céu já havia escurecido – você não estava indo comprar sal para sua esposa?
– Ih, mermão...  – ele deu um leve sobressalto, mas não me pareceu muito preocupado – Não é que eu acabei me esquecendo dessa porra? Melhor dizer pra patroa que demorei porque estava procurando pelo bairro inteiro...
Eu nunca soube se a ideia dele deu certo. Mas de uma coisa a mulher dele certamente sempre soube: pra ser casada com um “Maluco” apaixonado por Rock, às vezes é preciso relevar essas coisas.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

RESENHA DE LIVRO – O AZARÃO


As atitudes inseguras e inconsequentes do protagonista principal deste “O Azarão” fizeram com que viessem á tona, memórias de minha adolescência igualmente cheia de medos e dúvidas. O fato mais curioso, é que fui me identificar justamente com o personagem principal do livro que considerei o mais fraquinho deste mestre da arte de contar histórias modernas, chamado Markus Zusak.
Só que há uma explicação convincente para justificar a enorme diferença de qualidade deste para os demais livros do autor, que julgo serem talvez os melhores livros de literatura que já li na vida (Quem já curtiu “A Menina que Roubava Livros” vai saber do que estou falando). E a diferença é que “O Azarão” trata-se de um projeto paralelo usado pelo autor, antes de sua carreira decolar, para os momentos em que ele travava em seus textos maiores. É algo que quase poderia ser considerado como um rascunho de luxo. E foi exatamente isso que tornou o livro interessante. Porque denota claramente um Markus Zusak jovem, ainda em desenvolvimento, criando coisas com sua mente conturbada de garoto (o autor chega a mencionar que o protagonista tem um quê de autobiográfico). Mas mesmo sendo este o livro menos expressivo do cara, ele é bem melhor do que muita literatura de quinta que se encontra pelas livrarias á fora.
A trama conta as aventuras, que nem são tantas assim, de Cameron Wolfe. Um jovem comum de 15 anos e três irmão, cujo um deles é seu parceiro de travessuras. Cameron vive numa família simples e sem muitos recursos. Mas a grande sacada fica para quando se conhece melhor o jovem protagonista; um garoto infeliz com sua vida e atitudes, que pouco sabe lidar com os medos arquitetados por uma mente adolescente, cheia de insegurança. E a coisa se torna ainda mais complicada quando ele conhece Rebecca Conlon, e então nasce uma daquelas tão conturbadas paixonites, comuns nessa fase da vida. É nesse momento que acabo me identificando com o personagem. O jovem Cameron sofre sozinho; pensa ininterruptamente na garota; chora pelos cantos; e faz promessas absurdas á si mesmo, nas quais um adolescente não tem o menor discernimento do que implicaria manter juras feitas por seres-humanos falhos que somos.
Uma perfeita descrição do Michel, no auge de seus difíceis 15 anos de idade.
O Azarão” é bela história, destinada ao público jovem, porém simples e pouco emocionante. Mas que já mostrava os primeiros traços de um gênio da literatura moderna. Meu conselho é: não leia este livro se ainda não conhece os outros trabalhos do autor. Isso talvez lhe fará ter uma impressão errônea sobre o cara. Prefira antes se deliciar pelas páginas de seu perfeito “A Menina que Roubava Livros”, ou nas aventuras de Ed Kennedy, protagonista do belíssimo “Eu Sou o Mensageiro”.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

RESENHA DE LIVRO – O MELHOR DA SUPER (1987-2012)


Quando a primeira edição da revista Superinteressante chegou ás bancas de revistas, meu mundo ainda girava em torno de soldadinhos de plásticos, caminhões sem fundo e com rodas de arame, minha bola de futebol e os deveres da escola. Era o auge de meus sete anos de idade quando nascia uma das melhores revistas já feita por esse país.
E durante os recentes anos nos quais me tornei leitor fiel deste verdadeiro guia de conhecimento, duas questões sempre pairaram em minha mente á cerca de sua existência: Como eram os textos da revista na época de minha infância? Sim, porque naquela época conhecimento parecia ser coisa apenas para acadêmicos ou abastados. E outra questão é se ainda hoje seria possível haver conteúdo suficiente para fazer com que a revista se mantivesse assim tão interessante, mesmo após todos esses anos de publicação. Sem falar que estamos vivendo num mundo em que a internet fez com que conhecimento se tornasse acessível á qualquer curioso online.  
E eis que a primeira dúvida me foi respondida quando comecei a ler este livro, que comemora os 25 anos da famosa revista de bordas vermelhas. De fato, os textos publicados, mesmo aqueles de 1987, continuam enxutos, interessantes e numa linguagem incrivelmente acessível, mesmo quando a matéria aborda assuntos complexos como a teoria da relatividade de Einstein. Desde o início, é impressionante a enorme capacidade dos escritores e jornalistas envolvidos nas edições, em produzir textos de fácil compreensão. O conteúdo literário da revista é semelhante á um bate-papo do nosso dia-dia. O livro é um eficiente “catado” dos melhores textos da revista, desde o seu nascimento até o ano de 2012. Uma seleção de material tão bom que é difícil citar os melhores textos do livro (apenas pra não deixar de mencionar aqui, eu apreciei demais a matéria Sucesso e Fracasso, escrita por Karin Hueck).
Quanto á minha segunda dúvida, esta tem sido respondida á cada nova edição que leio. Porque a Super parece, de fato, estar sempre antenada para tudo o que possa ser interessante, inovador ou redescoberto em nosso mundo atual. E embora em alguns casos a internet venha a tentar parear com a revista, ainda assim, a Superinteressante continua mantendo sua linguagem coloquial como um dos principais atrativos que fazem com que ela permaneça sendo lida e apreciada (O defasado ensino brasileiro deveria tentar se espelhar nessa ideia, numa tentativa de modernizar a metodologia de nosso ensino).
É leitura indispensável para aqueles que querem adquirir o hábito de ler livros, e um livro obrigatório para os fãs desta esplendorosa revista, cujo conteúdo continua fazendo muito jus á seu nome.

terça-feira, 18 de junho de 2013

MATÉRIA: A GOTA QUE FALTAVA

Nunca postei nada sobre política aqui no blog. Mas hoje li uma matéria ótima e de fácil compreensão do Alexandre Versignassi (Superinteressante), que me ajudou a entender um pouco melhor as razões dos protestos que estão movimentando todo o nosso país. Tomei gentilmente emprestado o seu texto, pois este foi o conteúdo mais simplista possível que encontrei para entendermos um pouco da política monetária na qual nossos “amados” governantes estão nos submetendo. Se ao menos uma pessoa tiver lido esta matéria, já terá valido á pena o post... Boa leitura:

A GOTA QUE FALTAVA


(Por Alexandre Versignassi)


Para entender melhor o que está acontecendo na rua, imagine que você é o presidente de um um país fictício. Aí você acorda um dia e resolve construir um estádio. Uma “arena”.
O dinheiro que o seu país fictício tem na mão não dá conta da obra. Mas tudo bem. Você é o rei aqui. É só mandar imprimir uns 600 milhões de dinheiros que a arena sai.
Esses dinheiros vão para bancar os blocos de concreto e o salário dos pedreiros. Eles recebem o dinheiro novo e começam a construção. Mas também começam a gastar a grana que estão recebendo. E isso é bom: se os caras vão comprar vinho, a demanda pela bebida aumenta e os vinicultores do seu país ganham uma motivação para produzir mais bebida. Com eles plantando mais e fazendo mais vinho o PIB da sua nação fictícia cresce. Imprimir dinheiro para construir estádio às vezes pode ser uma boa mesmo.
Mas e se houver mais dinheiro no mercado do que a capacidade de os vinicultores produzirem mais vinho? Eles vão leiloar as garrafas. Não num leilão propriamente dito, mas aumentando o preço. O valor de uma garrafa de vinho não é o que ela custou para ser produzida, mas o máximo que as pessoas estão dispostas a pagar por ela. E se muita gente estiver com muito dinheiro na mão, essa disposição para gastar mais vai existir.
Agora que o preço do vinho aumentou e os vinicultores estão ganhando o dobro, o que acontece? Vamos dizer que um desses vinicultores resolve aproveitar o momento bom nos negócios e vai construir uma casa nova, lindona. E sai para comprar o material de construção.
Só tem uma coisa. Não foi só o vinicultor que ganhou mais dinheiro no seu país fictício. Foi todo mundo envolvido na construção do estádio e todo mundo que vendeu coisas para eles. Tem bastante gente na jogada com os bolsos mais cheios. E algumas dessas pessoas podem ter a idéia de ampliar as casas delas também. Natural.
Então as empresas de material de construção vão receber mais pedidos do que podem dar conta. Com vários clientes novos e sem ter como aumentar a produção do dia para a noite, o cara do material de construção vai fazer o que? Vai botar o preço lá em cima, porque não é besta.
Mas espera um pouco. Você não tinha mandado imprimir 600 milhões de dinheiros para fazer um estádio? Mas e agora, que ainda não fizeram nem metade das arquibancadas e o material de construção já ficou mais caro? Lembre-se que o concreto subiu justamente por causa do dinheiro novo que você mandou fazer.
Mas, caramba, você tem que terminar a arena. A Copa das Confederações Fictícias está logo ali… Então você dá a ordem: “Manda imprimir mais 1 bilhão e termina logo essa joça”. Nisso, os fabricantes de material e os funcionários deles saem para comprar vinho… E a remarcação de preços começa de novo. Para quem vende o material de construção, tudo continua basicamente na mesma. O vinho ficou mais caro, mas eles estão recebendo mais dinheiro direto da sua mão.
Mas para outros habitantes do seu país fictício a situação complicou. É o caso dos operários que estão levantado o estádio. O salário deles continua na mesma, mas agora eles têm de trabalhar mais horas para comprar a mesma quantidade de vinho.
O que você fez, na prática, foi roubar os peões. Ao imprimir mais moeda, você diminuiu o poder de compra dos caras. Inflação é um jeito de o governo bater as carteiras dos governados.
Foi mais ou menos o que aconteceu no mundo real. Primeiro, deixaram as impressoras de dinheiro ligadas no máximo. Só para dar uma ideia: em junho de 2010, havia R$ 124 bilhões em cédulas girando no país. Agora, são R$ 171 bilhões. Quase 40% a mais. Essa torrente de dinheiro teve vários destinatários. Um deles foram os deputados, que aumentaram o próprio salário de R$ 16.500 para de R$ 26.700 em 2010, criando um efeito cascata que estufou os contracheques de TODOS os políticos do país, já que o salário dos deputados federais baliza os dos estaduais e dos vereadores. Parece banal. E até é. Menos irrelevante, porém, foi outro recebedor dos reais novos que não paravam de sair das impressoras: o BNDES, que irrigou nossa economia com R$ 600 bilhões nos últimos 4 anos. Parte desse dinheiro se transformou em bônus de executivo. Os executivos saíram para comprar vinho… Inflação. Em palavras mais precisas, o poder de compra da maioria começou a diminuir. Foi como se algumas notas tivessem se desmaterializado das carteiras deles.
Algumas dessas carteiras, na verdade, sempre acabam mais ou menos protegidas. Quem pode mais tem mais acesso a aplicações que seguram melhor a bronca da inflação (fundos com taxas de administração baixas, CDBs que dão 100% do CDI…, depois falamos mais sobre isso). O ponto é que o pessoal dos andares de baixo é quem perde mais.
Isso deixa claro qual é o grande mal da inflação: ela aumenta a desigualdade. Não tem jeito. E esse tipo de cenário sempre foi o mais propício para revoltas. Revoltas que começam com aquela gota a mais que faz o barril transbordar. Os centavos a mais no ônibus foram essa gota.

terça-feira, 11 de junho de 2013

RESENHA DE LIVRO - SUSHI


Sinceramente não me sinto á altura de fazer uma resenha sobre os livros de Marian Keyes. Acho que por essa razão eu nunca havia me arriscado a tal proeza. Em minha opinião esta magnífica autora consegue inserir reais traços de personalidade em seus personagens como poucos o fazem. Suas histórias são recheadas de situações as quais enfrentamos no dia-dia e os personagens ás encaram exatamente como fazemos na vida real: problemas que muitas vezes são causados por falta de maturidade, e consequentemente não dispomos dessa mesma maturidade para resolvê-los.
Há alguns burburinhos que rodam pela internet á cerca de que os livros de Marian Keyes são monótonos e insossos. De fato, a linha narrativa dela é o chick-lit, o que faz com que o ritmo siga de maneira natural e sem grandes agitações. Mas eu garanto que seus livros são bem mais eficientes e interessantes do que a “novela das oito”. Uma espécie de aventura da vida real. É fácil se identificar com algumas fraquezas dos personagens, na mesma proporção em que nos apegamos rápido á alguns deles.
Considero Sushi um ótimo entretenimento porque possui três personagens principais em seu enredo, e mesmo assim a autora não comete o pecado de perder o controle sobre nenhum deles, fazendo com que o leitor se divirta ao se deparar com situações semelhantes aqueles tropeços e burradas que cometemos ao longo da vida.
A trama segue entrelaçando aos poucos a história das três personagens: Lisa é uma mulher cuja personalidade workalolic lhe custou um casamento e agora ela ambiciona o cargo de editora chefa numa revista; Clodagh é casada, mãe de dois pestinhas, e que está entediada com sua vida de dona de casa; Ashling tem baixa-estima e passa o tempo inteiro tentando a impossível missão de ser prestativa aos outros. Obviamente ainda há, em torno da vida destes, outros coadjuvantes que ajudam a manter um clima cotidiano ora engraçado, ora dramático ao enredo.
Mesmo sem grandes novidades ou um final arrebatador, Sushi não decepciona em momento algum. Leva uma linha narrativa que entretém e diverte, numa leitura fácil, simples e cheia de situações que são como espelhos de nossa confusa realidade.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

RESENHA DE LIVRO – O SÍMBOLO PERDIDO


Eis a receita: Insira uma Sociedade Secreta; acrescente um renomado simbologista de Harvard; coloque inúmeras conspirações, códigos e enigmas ocultos por todos os cantos; deixe tudo sob a perspectiva de uma corrida alucinada através de famosos pontos turísticos e históricos de uma moderna metrópole.
Soou familiar?
Não, desta vez não estamos falando de “O Código da Vinci” ou “Anjos e Demônios”, os dois megassucessos do aclamado e polêmico escritor Dan Brown. Mas a verdade inconsequente é que estamos sim, falando de outro livro do cara.
Mas vamos com calma se está pensando em crucificar Dan Brown. Eu diria que exista um importante divisor de águas, que deve ser levando em conta antes de você decidir ler ou não este “O Símbolo Perdido”, quinto trabalho do escritor: é o quanto você já conhece ou não seus livros anteriores.
Se você nunca leu nada de Dan Brown, então a sugestão lhe serve. Aqui você poderá se esbaldar por um delicioso livro, que nas mãos habilidosas de seu autor, consegue mesclar com maestria teorias conspiratórias á cerca de sociedades secretas (no caso aqui a maçonaria), e uma ininterrupta corrida contra o tempo. Um suspense cheio de intrigas, mistérios e simbologia. Tudo descambando num final que não decepciona.
Mas se como eu, você já é conhecedor dos trabalhos anteriores de Dan Brown, provavelmente vai ficar com a sensação de estar diante de mais do mesmo. Vai pensar que tudo o que o autor fez foi mudar a cidade alvo, e assim, utilizar seus monumentos históricos, relacioná-los á teorias conspiratórias (que como eu disse desta vez cutucam a Maçonaria) e inserir um novo vilão que está no encalço dos mocinhos, em busca de desvendar segredos que supostamente poderiam lhe conferir poderes sobre-humanos. Dessa vez o autor preferiu dar uma folga com os conluios á cerca de temas que envolvem religiões e a já tão apedrejada igreja católica.
Mas embora a história esteja distante de ser ruim, também passa longe de algo inovador. Pra você ter uma ideia, aqui temos novamente como principal protagonista (ás vezes nem parece ser tão principal assim), o personagem favorito do autor: o simbologista Robert Langdon, que se vê novamente diante de uma corrida contra o tempo, agora dentro da capital americana, Washington, para conseguir desvendar os mistérios que envolvem os fundadores da cidade, a maioria deles mestre maçons; homens que obtem a posse de um tesouro capaz de dar poderes incalculáveis á quem nele puser as mãos. E outra vez, somente Langdon possui o conhecimento para desvendar os inúmeros códigos e segredos maçônicos, e assim salvar a humanidade de mais uma eminente catástrofe... Particularmente eu sempre achei o personagem um “mauricinho” exageradamente aflito, molenga e chato. Mas sua personalidade não chega á estragar o andamento da trama.
Quanto aos prós, temos aqui descrições magistrais dos principais pontos da capital americana: o Capitólio, a Biblioteca do Congresso, a Catedral Nacional e o Centro de Apoio dos Museus Smithsonian. Além de que, é fato que ler os livros deste autor é certeza de mais diálogos charmosos onde as conspirações parecem cheias de fundamentações. É ficção com cara de história.
Pra quem ja é acostumado ao estilo de Dan Brown, talvez não encontre grandes emoções aqui; para os fãs do autor,  não preciso dizer nada; e finalmente á quem jamais teve o privilégio de conferir o trabalho do cara, eu recomendo. É leitura intrigante, cheia de detalhes ricos e uma história surpreendentemente arrasadora.

sábado, 13 de abril de 2013

RESENHA DE LIVRO – O Enigma Maria Madalena



Nunca fui contra a ideia de nomes sedutores nas capas dos livros. Mas não apresentar o conteúdo no qual o título se refere, é simplesmente inaceitável. Essa é a impressão que fiquei, conforme avançava em minha leitura deste “O Enigma Maria Madalena”, romance chato e sonolento de um historiador chamado Gerald Messadié. Digo isso, porque comprei o livro justamente por ser um admirador da personagem bíblica Maria Madalena. E o que menos se encontra nesta trama é algo sobre ela.  Já nas primeiras páginas o autor nos mostra a ação de seu livro girando em torno de Jesus Cristo, em momentos de sua pós-crucificação. Não, eu não escrevi errado. Gerald Messadié foi um tanto ousado em narrar uma história acertadamente humanizada, de um plano arquitetado por Maria Madalena, para salvar o Messias da cruz. Mas seus méritos param por aqui. Porque desde os primeiros parágrafos até a última página é Jesus quem rouba todas as cenas e fica com o crédito de personagem principal. Enquanto a pobre Maria de Magdala é completamente esquecida, restando para si apenas alguns momentos isolados da história, onde ela faz algum comentário vago ou surge como que para preencher algum espaço narrativo, deixando evidente que Maria Madalena é tão importante para Gerald Messadié, quanto foi para os autores da bíblia, ou seja, praticamente se esqueceram de sua existência na história. Isso não seria nenhum problema, mas acontece que o autor aqui usou o atualmente badalado nome de Maria Madalena, para carimbar o título de sua obra.  
E o livro não erra somente neste aspecto. Também achei a narrativa exageradamente lecional e sem harmonia. Um eficiente sonífero que quase me fez desistir de chegar ao final de sua trama, que embora seja ousada, não tem uma pegada literária competente. A única coisa aparentemente agradável é a minuciosa e rica reconstrução das cenas do cotidiano das cidades de Jerusalém, Judeia e Galileia, daquele tempo. Mas até mesmo esse ponto á favor parece se repetir exaustivamente ao longo da história.
Não o recomendo apenas por conta do fraquinho conteúdo literário, mas principalmente porque este livro possui um título dissimulado e pretensioso, que pega carona no embalo de um personagem que surgiu das cinzas, para tentar se destacar e consequentemente vender gato por lebre.

quinta-feira, 7 de março de 2013

RESENHA DE LIVRO – A Vida Secreta da Gente



Era manhã de domingo. Eu vasculhava o armário da despensa á procura de papéis velhos para acender a churrasqueira, quando encontrei, em meio á uma pequena pilha de jornais, algumas edições de uma revista dominical chamada AG.  Meus instintos de leitor compulsivo geralmente me impedem de ir atirando uma revista no fogo, sem antes me certificar de que não há absolutamente nada de interessante nela. Portanto, já da pra imaginar que a função de selecionar papéis velhos é uma missão demorada para alguém como eu.
E foi folheando as páginas daquela revista esquecida, que encontrei, pela primeira vez, a coluna de uma cronista chamada Maria Sanz Martins. Mal havia começado a ler sua crônica e eu já estava perplexo com tamanha intimidade daquela autora com as palavras. Com uma incrível naturalidade em descrever o cotidiano, ela conseguiu tocar o interior existencial do ser humano falível que sou. E já sem me lembrar do verdadeiro propósito pelo qual estava dentro da despensa, lá estava eu, afundado no meio de tralhas velhas e mantimentos, á procura de mais edições da revista que abrigava entre suas páginas um talento tão atraente.
Obviamente o churrasco aconteceu naquela manhã, mas desde então, eu passei a ser um frequentador assíduo da despensa e do jornaleiro, aos domingos, só para comprar o jornal que continha a revista na qual apenas os textos daquela cronista chamada Maria me interessavam.
Passado alguns dias, enviei um e-mail para a autora (sim, quando admiro bastante o talento de um escritor, me sinto meio que na obrigação em, de alguma forma, parabeniza-lo). Nada demais, foram apenas elogios á cerca do esplêndido trabalho que ela vinha desempenhando, e terminei o e-mail sugerindo que ela escrevesse um livro de crônicas.
Então os dias se passaram. E eis que numa bela manhã, ao abrir minha caixa de mensagens, lá está um remetente com o nome: Maria Sanz Martins. Á princípio fiquei estupefato, pois são raros os autores que se dão ao trabalho de agradecerem á um e-mail. Além do mais, esse não é o objetivo de meus e-mails; faço apenas para saciar minha consciência de “missão cumprida”, pois como eu disse, gosto de parabenizar autores. Mas Maria me agradeceu de maneira efusiva e sincera. Chegou até a mencionar, devo dizer que com uma exagerada modéstia, que não se sentia preparada para escrever um livro naquele momento (isso já faz alguns anos).
Mas o benigno tempo nunca para, e eis que no início de 2012, eu sorrio ao descobrir que finalmente esta esplêndida autora, orgulho para nós capixabas e de mesmo nome de minha mãe, resolve nos brindar com seu primeiro livro de crônicas, intitulado “A Vida Secreta da Gente”, nome que é o mesmo de um dos mais belos textos do livro (foi lançado recentemente a segunda edição. Soube disso enquanto escrevia essa resenha). Carismática na dose certa, as crônicas deste belo trabalho são incrivelmente feitas como se a autora dissecasse a alma de nosso cotidiano, para transcrever aquilo que a cegueira causada pela correria de nosso dia-dia não nos deixa ver.
Por que este livro é especial?
Porque são raros os autores que conseguem despertar minha inspiração, nos dias em que a mente está vazia feito um limbo. E “A Vida Secreta da Gente” arranca na marra este estímulo em mim, quase que imediatamente ao abrir suas páginas.
O livro termina com uma breve frase que diz:
“Que as palavras nos encontrem”.
De fato, as palavras fizeram com que autor e leitor se encontrassem, mesmo que através de um simples e-mail, num dia desse qualquer. Mas foi muito prazeroso ver uma breve e imparcial sugestão, ser transformada em um dos melhores livros de crônicas que já li na vida.
 E que as palavras continuem á nos encontrar.